A Voz

             

Encontrei-me hoje com o Les, meu amigo do clube de fotografia, logo após a reunião online como membro da Comissão de Honra da Candidatura de Ponta Delgada à Capital Europeia da Cultura.
Almocei a correr e lá fui ter com ele ao café. Ainda pensei em ir de bicicleta. Poupava gasolina (cada vez mais cara) e fazia exercício. Mas sobre as altas árvores do nosso complexo, estacionadas e ameaçadoras, negras nuvens. Meti-me no carro.
Recebia o café do costume quando Les apareceu à porta. Perguntei-lhe o que ia tomar. Logo de seguida fez sinal a indicar uma mesa na esplanada, junto ao amplo vidro.
Quando me juntei a ele, poucos minutos depois, começou a chover. 
Já não nos víamos há quase três anos devido à pandemia. Veio de barbas brancas e com o seu andar periclitante - enfrenta como pode um grave problema na coluna.
Les é um fotógrafo que admiro muito. Não está apenas interessado em captar a realidade com as suas imagens, mas a reinventá-la. Fala de fotografia com ternura e com entusiasmo juvenil. Cativa-me o seu imenso, inalterável entusiasmo.
Vive numa bela propriedade na cidade vizinha, Maple Ridge. Através das janelas das traseiras, e que dão para uma compacta floresta com árvores altas, observa aves e animais selvagens que o visitam frequentemente: ursos, linces, guaxinins,  veados, esquilos, corvos, pica-paus, pombos, etc. Dessas «visitas» foi tirando fotografias com uma teleobjectiva e que depois reuniu num livrinho que titulou de «Our Wild Neighbours / Treasured Times Together - 2020-2022.» As datas referem ao isolamento social que nos obrigou a pandemia. A presença dos animais, intimidante em alguns casos - ursos e linces -  trouxe-lhe, bem como a Linda, sua companheira, o benefício do espanto e da beleza. Generoso como sempre, ofereceu-me um exemplar. 

Chegou-me hoje, de Nova Iorque, a revista The Paris Review.  Vinte e um colaboradores, repartidos nos géneros de prosa e poesia. Duas entrevistas - Ngugi Tiongo’o (Quénia) e Sigrid Nunes (EUA).  Dos colaboradores deste volume só reconheço dois nomes: Leonard Cohen e Sandra Cisneros. 
A minha colecção desta revista já vai longa. Remonta quase ao tempo em que vim para o Canadá (1983). Como sou desorganizado, os volumes encontram-se dispersos pelas estantes que tomam espaço de privilégio nesta casa cheia de livros e algumas plantas.
Atraem-me sobretudo nomes desconhecidos. Quantas vezes tenho descoberto autores de grande fôlego e talento, encobertos pelo anonimato nesta invisibilidade que tão viciosamente vai celebrando vedetas da literatura em detrimento de outros, fora dos círculos, enterrados no esquecimento. Nada de novo, como é sabido. Mas sempre frustrante.

17 de Junho, 2022

Ao estacionar a mota na garagem, ouvi uma voz: «Olá, Eduardo!»
Voltei-me para trás e não vi ninguém. Depois ocorreu-me reparar no quintal de trás e foi quando descobri o sorridente rosto de Glória, a vizinha. Estava sentada no «banquinho das estações», como lhe chamo, e entre flores. Ouvi a seguir a voz de Gerry, o marido, algures no largo e verdejante quintal.
Glória é uma senhora tocada por ressonâncias secretas, como se nos seus olhos e na sua expressão sonhadora tivesse morrido uma rosa. «Não está bem», confessou-me Gerry há tempos atrás. Fiquei triste.
Durante o inverno Gerry deixou crescer uma barba de neve, espessa e sólida, e que lhe dá um ar de patriarca. Faz-me lembrar um eremita, senhor absoluto do seu espaço, cultivando paz entre os canteiros. Não vive num convento, claro, mas numa casa que ele, orgulhosamente, diz ter renovado desde o chão ao tecto.
Gerry não é um artista, nem se move como se conduzisse uma orquestra de ventos entre as mãos. Estão habituadas ao ferro, às pedras e à madeira. No verão, à terra. 
Comove-me o seu amor pela mulher - a delicadeza no trato, o tom de voz, o carinho que me faz recordar um riacho manso. A sua ternura, o seu amor pela mulher é uma árvore solitária no vasto campo dos dias.
Glória, sentada entre as flores, sorri com a voz de Gerry, algures, entre a cintilante verdura do quintal. 
No sorriso, no sorriso de Glória, sei que Gerry canta uma ária. Nesse amor, que vem muito de trás, um é a sombra do outro. Comove-me chegar a casa e ver isso do outro lado do quintal. Como num filme.