Sinais de Fevereiro

 

Estendo o braço sobre o balcão e seguro o saco de plástico com o almoço. Reconheço o rosto da empregada escondido sob a máscara. As mesas e as cadeiras, empilhadas junto à parede por trás de mim, fazem uma fila triste e desmotivante. 
Ao sair, não encontro no passeio, mesmo junto à porta, os pedintes do costume. A pandemia dispersou-os pela cidade. Nem sei se ainda alguns deles estarão vivos. Esta é uma zona problemática. Muitos sem-abrigo e tóxico dependentes. Há que ter algum cuidado. No meio disto tudo, e já com visíveis sinais de decadência, a velha cidade chinesa de Vancouver.
Um dos mendigos é um velho vietnamita, andrajoso, que se senta no chão de pernas cruzadas. Sorri de mão estendida. A primeira vez que falei com ele notei o silvo que acompanhava as suas palavras. Faltam-lhe os dentes da frente. Apesar disso, não demonstra qualquer inibição — sorri, sorri muito. 
Certa ocasião, um sujeito que passava por nós, interpelou-me:
— Não lhe dê dinheiro. Esse homem tem mais dinheiro do que você. 
O comentário pareceu-me estranho e deselegante. Não gosto de pessoas opinantes. Geralmente são palavrosas, afectadas e pedantes. Usam de uma estratégia conjectural que amiúde se ostenta em retórica muito polida para impressionar leigos. Para descreverem um prego enferrujado, fazem uma dissertação sobre a idade-média. Se a nossa atenção não esmorecer, caem depois em voo raso numa construção semântica à volta do Muro da China. Intragáveis. 
O sujeito proferiu essa frase venenosa sem parar, rua abaixo. O velho vietnamita continuou a sorrir, indiferente.
Está um dia solarengo. Vou pela Main Street. Viro à direita no segundo quarteirão. Avisto pouco depois o B.C. Place, gigantesco estádio de Vancouver. Como previra, muita gente a pé e de bicicleta. Verifico, aliviado, que a mesa que costumo usar está disponível.
Além da máquina fotográfica trago comigo, em versão inglesa, os poemas escolhidos de Jorge Luís Borges. Almoçar sob um impressionante céu azul, em pleno Janeiro, acompanhado de boa poesia, é um privilégio gratificante.
Há meses que não vinha a Vancouver tirar fotografias. Desconforto e suspeita generalizadas. Inverosímeis tempos. Um rosto sorridente que passa por nós pode significar uma sentença de morte. Mas o isolamento que nos exclui do mundo, sendo essencial para contornar a pandemia, contribui também para um estranho sentimento de isolamento social e afectivo. Em Vancouver, e nas outras cidades da Província, o público está autorizado a andar nas ruas desde que obedeça aos regulamentos estipulados pelo Governo. No meu caso, mantenho distância física entre mim e os outros. Uso máscara. Um deslize em confronto com este vírus é um suicídio.
Devo confessar que não me assumo como fotógrafo. Sou um autodidacta. Os meus conhecimentos foram-se acumulando através da prática, dos meios visuais e dos livros no género. É uma dedicação diária, mais próxima da paixão do que um hobby. 
O que me aproxima da arte fotográfica é o seu poder vidente, em cuja formação estética encontro este inamovível paradoxo: tanto revela quanto encobre, seja ela a realidade ou o subentendimento dela. É explícita e implícita. Com a sua imensa energia tem o inegável poder de transformar o banal no transcendente, de iluminar ou encobrir o mistério, ser testemunha ou agente de mitificação. Como a poesia, a sua estética é multiforme e a sua energia axial: faz-nos girar em torno de um estado emocional que só conhece paralelo com as virtudes genesíacas do mundo. A arte é o espírito do conhecimento, o método da forma e do génio.
Vejo uma correlação muito íntima e enriquecedora entre fotografia e pintura. Gosto, preferencialmente, de fotografia de rua. Como principiante, aproveito qualquer oportunidade para ir à Baixa da cidade em busca de imagens. Aprendo sempre alguma coisa. Mesmo quando perco o telemóvel. Como foi o caso de hoje. (Não sei no entanto como corrigir a minha propensão natural para ser distraído. Parece-me uma coisa genética, incontornável, herdada do meu pai).
A cidade chinesa de Vancouver está em declínio. Com 135 anos de existência (começou a estabelecer-se em 1886, entre a Corral Street e a East Pender), foi perdendo vitalidade com o decorrer do tempo. Sustentada maioritariamente pelas gerações mais antigas, e que aos poucos vai desaparecendo, as mais novas, nascidas já no Canadá, têm hábitos sociais diferentes daquelas. Não obstante, têm um centro cultural de relevo, com instalações próprias e um calendário dinâmico que abrange várias actividades sociais e artísticas. As comemorações do Ano Novo são conhecidas pela sua energia, cor nos trajos e pelo seu espírito de inclusão. Outras comunidades, por exemplo, fazem-se representar na parada. Passa-se um dia agradável entre a multidão, entre odores e paladares orientais. 
Desta vez, ao contrário das outras, encontro um ambiente soturno, uma espécie de fadiga social generalizada. A pandemia não só levou vidas como tem deixado profundas marcas de ansiedade e incerteza por todo o lado. Faz-se sentir também aqui, nestas ruas, em rostos escondidos sob máscaras, nos ombros curvados dos anciãos carregando as compras em sacos de plástico. Estamos noutro mundo. Este junta-se às cinzas das grandes calamidades mundiais que a História registou. Encontro na cidade chinesa o pó e a melancolia de uma loja fechada. Era um espaço impressionante. O fresco odor da fruta impunha-se logo à entrada, misturado com o de especiarias exóticas. O sol de Fevereiro bate agora nos vidros empoeirados das montras num bafejo lânguido e entorpecido. O destino daquele lugar assemelha-se a tantos outros, vítimas de uma insalubridade económica que a pandemia implacavelmente impôs. 
Enquanto almoço, faço o balanço mental deste dia. Estou sem vontade de continuar. Pelo menos hoje. Arrumo a máquina no saco. Continuarei noutra altura, quando os fantasmas que nos ensombram desaparecerem completamente e as ruas deixarem de ser um palco de intraduzíveis assombrações.