O pó do Natal

             

I will honor Christmas in my heart, and try to keep it all the year.
– Charles Dickens

Sentado de costas para a janela da minha sala, reparo no Pai Natal da minha mãe. É um velho de longas barbas brancas e óculos de aros redondos. Está aqui comigo o ano inteiro. Tenho pouco espaço nesta casa, quase todo ocupado por estantes com livros. Mas a verdade é que não tenho coragem de o arrumar numa caixa, forçá-lo ao obscurantismo como quem esconde um segredo inconveniente.
Quando dezembro chegava, com frio e nostalgia, a minha mãe munia-se de um pano húmido. Entregava-se, com enorme paciência, ao meticuloso assalto ao pó caseiro. 
Desde muito novo que a observava nesse microscópico labor anual. Era uma tarefa metódica, exigente, e que não descurava o mais ínfimo pormenor. Provavelmente foi um hábito que adquiriu da minha avó Irene, muito escrupulosa com as tradições e a ordem da casa. Enternecia-me ver a minha mãe naquele afã, com o vigor, o respeito e o imenso carinho que nutria pela Quadra Natalícia.
Como quase todas as crianças, cresci abraçado ao imaginário do Pai Natal, uma das mais belas mitologias da infância. A sua figura bonacheirona, de velho bondoso, e cujo objetivo de vida consistia em dar alegria às crianças, marcou-me profundamente. Hoje, refletindo sobre a sua imagem, considero-a a mentira mais inócua do mundo. No entanto, e para minha consternação, vejo que a nebulosidade dos tempos elevou o Pai Natal a uma posição emblemática do paganismo social. Fugiu, em certos setores da população mundial, ao paradigma da efeméride: o nascimento de Jesus. Os descrentes assumem o Natal como um evento cujo objetivo centra-se no ajuntamento familiar, na troca de presentes e nas iguarias em redor da mesa. Os cristãos, por sua vez, vergam-se com reverência perante Jesus e ao imenso significado do Seu nascimento. É por Ele que toda esta Quadra faz sentido.
Então o que significa o Pai Natal?
Num outro artigo, escrito há alguns anos, contei que o meu Pai Natal angolano tinha sido o meu pai. Ainda oiço na memória o rumor dos seus movimentos no escuro, junto aos sapatos da nossa infância, agachado sobre os presentes muito humildes que ali deixava. Comove-me sempre esta recordação. 
Antes dessa descoberta, que me dececionou e comoveu, aprendera dos meus pais que o Pai Natal ocupava um lugar subalterno em relação a Deus. Era um anjo com poderes especiais cujo objetivo consistia em iluminar a manhã de Natal com a luz da sua bondade, distribuindo brinquedos aos meninos enquanto estes dormiam. 
Mais tarde vim a descobrir que a figura do Pai Natal teve origem em São Nicolau, que nasceu na Grécia 280 anos depois de Cristo, e ordenado bispo de Myra, na Turquia. Era conhecido pelo seu altruísmo, sobretudo em relação aos mais pequenos. A figura popular de hoje advém de um livro de Washington Irving, publicado em 1809 nos Estados Unidos, em que o retratava como um sujeito de cachimbo, solto nos ares num trenó voador. Irving nasceu em Nova Iorque a 3 de abril de 1783 e viria a falecer em 1859, aos 76 anos.
A tarde tornou-se noite e com ela a saudade de outros tempos. Reparo no Pai Natal da minha sala com o olhar centrado no vazio. Recordo-me dos meus pais e de todos os meus mortos que hoje vivem agrupados em fotografias a preto e branco nos meus álbuns de família. Como continuar a tradição da minha mãe, acendrando o espaço da casa, limpando o pó do tempo e do esquecimento? 
 Enquadro o Pai Natal num contexto pessoal, como uma figura tutelar da infância, assim como as peças de roupa que a minha mãe guardou de quando era ainda menino e que guardo, com imenso carinho, numa gaveta da cómoda. Asseguro-me de que recordar a inocência e o amor são duas inequívocas formas de chegarmos ao espírito desta Quadra, tão bela e emocionalmente inigualável no contexto do imaginário infantil. 
Mas o nascimento de Jesus, e que festejo com veneração, é que norteia o meu compromisso com a vida e a esperança.