José, o meu Pai Natal

 

 

José, o meu Pai Natal, era professor primário. As suas mãos eram grandes como lenços de sombra. Era alto, usava óculos, e movia-se como se estivesse parado de encontro ao muro do Tempo. Usava balalaicas, soltas como velas de barco sobre as calças largas. Enfrentava assim, com a roupa a dançar-lhe no corpo, o insuportável sufoco do calor húmido de Luanda.

Antes de ter descoberto a sua verdadeira identidade, a inocência levava-me a imaginá-lo segundo os veneráveis postais de Natal: gordinho, bonacheirão, as longas barbas num tumulto sobre o peito largo, a voz cálida e doce de quem é sereno e bondoso. No entanto, interrogava-me quanto à elasticidade física da sua dominante figura. Parecia-me inverosímil que ele, com aquele volume todo, pudesse descer por apertadas chaminés, atravessar incólume as labaredas e, sobretudo, reter na memória o nome de todos os meninos do mundo. E, no entanto, guardava essas dúvidas só para mim. No fundo, temia a verdade dos factos. Acreditar nesse mito tão belo era uma forma de reter nas mãos a mágica forma de um irrecusável sonho.  As dúvidas, por muito fortes, não dissipavam porém o mistério do mesmo modo com que a ambiguidade estremece a fé nos adultos perante o desconhecido. A magia daquela figura lendária sustentava-se na força da imaginação, no poder da música do Natal e na figura delicada do Menino Jesus aconchegado com imenso carinho no berço de palha. Havia uma dignidade muito delicada em tudo isso, uma energia tão forte que só o encantamento poderia explicar os seus contornos emocionais.

Numa noite de Natal, que foi uma espécie de deserto, olhos abertos no escuro, a leveza do lençol a cobrir-me a insónia, ouvi um rumor de passos. Levantei-me.

Descobri, alarmado, que o Pai Natal era o meu pai. Media os gestos com a cautela de quem tinha a responsabilidade de manter um segredo. Recuei e voltei a deitar-me.

No dia seguinte, logo pela manhã, eu e o meu irmão Carlos corremos para os nossos sapatos. Nesse ano, o Pai Natal tinha sido imensamente pobre: coube a cada um de nós um carrinho de plástico.

Cresci muitos anos nessa manhã. Foi ao desenrolar a prenda que comecei a compreender que todos nós, de uma maneira ou outra, temos a responsabilidade de ser o Pai Natal. Essa é, enfim, a mensagem que vamos perdendo com a futilidade dos tempos. Este mundo tecnológico não nos tornou mais humanos com os dedos fincados nos telemóveis, os olhos no ecrã, completamente alheios ao que se passa ao nosso redor.  A vulgaridade impôs-se com o o seu mandato de hipocrisias e banalidades que só valorizam o imediatismo e o passageiro. A ausência perante o Outro, o escarnecimento dos valores tradicionais, o culto à vulgaridade e à aberração, o protagonismo descarado e a plasticidade nas relações.

Ao regressar ao Natal da minha infância sei que volto ao princípio do mundo. Àquele em que uma criança adormece com uma estrela de expectativas junto ao peito porque acredita em algo de sublime e transcendente.