Vírus

 

 

Faltam-me algumas provisões em casa. Saio.
Rua acima, a temperatura é fresca (10 graus). Passo sob um corredor de cerejeiras japonesas - Prunus serrulata – que iluminam o passeio. O sol cintila numa miríade de cristais por entre os ramos. Despontam, tímidos embora, os primeiros botões das flores. Aproxima-se a Primavera.
Quase ao chegar ao semáforo, um sujeito de meia-idade salta de um facho de luz. Vem todo de preto, trajado como se fosse a um funeral. Até mesmo o chapéu de abas à Leonard Cohen. Traz o cachecol, cinzento, muito enrolado ao pescoço.
– Que lindo dia! – exclama, sorridente, quando passa por mim.
Sim, de facto. Já tardava o bom tempo. Só em Janeiro a precipitação durou 28 fastidiosos e longuíssimos dias. Torrencialmente em certas alturas. Um fastio opressivo.
Estou ansioso por chegar ao supermercado. As histórias avolumam-se sobre as repercussões nefastas que o pânico generalizado criou com o Covid-19. Conto um pequeno episódio que se passou comigo numa recente ida a uma loja latina.
Todos os sábados, pelas 14:00 horas, a dona, cujos produtos alimentares são quase exclusivamente da América latina, coloca tamales * ao dispor do público. Lá fui como de costume.
A senhora abriu os braços num gesto de consternação.
– Peço desculpa, mas um senhor comprou os tamales todos. Agora só para a semana…
O «cavalheiro» levou consigo  60 tamales. Uma alarvice egoísta.
Entro no supermercado na expectativa de encontrar aquilo de que preciso. Aliviado, verifico a abundância do costume na secção de frutas e legumes. Na da carne, porém, uma devastação. Ainda encontro peixe congelado. Meto-me pelos corredores animado pela curiosidade.
Como previa, não há papel higiénico, guardanapos de papel nem produtos de limpeza. Uma razia completa nos enlatados. Só me lembro de situação paralela  em 1975, quando explodiram os conflictos armados em Luanda.
Esta pandemia, de extrema gravidade, espalha-se a uma velocidade vertiginosa pelo mundo fora. Estamos numa guerra mundial contra o invisível. Mas este «vírus» do pânico que se instalou um pouco por toda a parte evidencia não só um preocupante desequilíbrio patológico em algumas pessoas, como vem exacerbar ainda mais o estado das coisas. É uma afronta à lógica e ao senso-comum. Revela também uma grave e desconcertante falta de civismo e consideração pelo outro.
Açambarcando produtos  de primeira necessidade em quantidades inverosímeis, bem como alimentos, não demonstram apenas actos de mero desequilíbrio psíquico. São roubos éticos e morais. Gente desvairada (como se vê na Internet) a correr em supermercados com os carrinhos das compras na caça ao papel higiénico, em atropelos de calcanhares e de olhos esbugalhados, é dos espectáculos mais desconcertantes, caricatos e indignos que se pode observar. As aberrações, infelizmente, não ficam por aí.
Recentemente, uma família local pôs-se a vender máscaras de protecção num parque de estacionamento a preços inflacionados. Alertadas as autoridades, foram multados em 500 dólares. Apesar disso, voltaram ao mesmo local no dia seguinte. 
Enfim, a lista de aberrações é grande. Não se consegue mudar o mundo mesmo que se bata com insistência numa pedra. Quero dizer, na opacidade da natureza humana.

* Tamales são tortas de carne feitas com massa de farinha de milho, carne de porco ou galinha, batata, arroz, ervilhas, cebolas e ovos, enroladas em folhas de bananeira ou milho e cozinhadas sob vapor.