Pablo

 

 

Estava à entrada de um hotel em La Paz, México, quando o vi pela primeira vez. Era um sujeito baixo, calvo, com o ar grave e sombrio de um intelectual. Os olhos, escuros e grandes, pareciam fulminar o mundo. Vinha de bermudas que dançavam, preguiçosas, rente aos joelhos, t-shirt e sandálias. A tiracolo, um velho saco de lona. Parecia mulato de tão bronzeado.
– Caramba! – disse sem me conter. – Se não soubesse que Pablo Picasso já tinha morrido, pensaria que era o senhor. Nunca vi ninguém mais parecido – disse-lhe em inglês.
Pablo Picasso, o sósia, subia com familiaridade o pequeno lance de escadas. Abriu-se-lhe um sorriso satisfeito. Para minha sorte, tinha recebido o comentário como um elogio.
– Olhe que não é o primeiro a dizer-me isso …
Por coincidência era português. Viveu muitos anos nos Estados Unidos e gostava do mar. Um dia, porém, meteu-se no seu pequeno iate em S. Francisco e aventurou-se pelo mar de Cortez. Quando chegou à marina de La Paz, cheia de pelicanos modorrentos, já tinha percorrido mais de 1500 milhas náuticas. 
Encontrou uma cidade cujo ambiente social lhe pareceu aberto, colorido e festivo, muito a seu gosto. Sentiu-se logo em casa e decidiu ficar. Os anos decorreram. A intenção inicial de regressar aos Estados Unidos acabou por desvanecer.
Agradável e aberto, convidou-nos para um passeio de barco no dia seguinte. Queria dar-nos a conhecer uma praia pouco frequentada e aprazível um pouco distante da costa.
Seguimos para lá de manhã numa pequena embarcação tripulada por um sujeito mexicano amigo de Picasso. 
A praia fez-me lembrar um deserto de areias claras, céu muito azul, e um silêncio de água que parecia espelhar-se numa miríade de cristais ao nosso redor.
Foi uma manhã magnífica e tranquila. O Fábio, o meu filho caçula, porventura não terá lembrança.  Tinha na altura apenas quatro anos, cumpridos uma semana antes em Cabo San Lucas.
Meses depois recebíamos nos correios as fotografias que Picasso nos tirou nesse dia. Quis manter o contacto mas a verdade é que nunca mais soube dele.
O tempo foi passando. Quanto dele sem o romantismo apaixonado de Pablo Neruda, como neste extracto da sua bela Ode al Tiempo:

Cada dia
fue piedra transparente,
cada noche
para nosotros fue una rosa negra,
y este surco en tu rostro o en el mío
son piedra o flor,
recuerdo de un relámpago.

Não sei quantos anos entretanto decorreram. Pablo, o gentil Picasso português, ficou retido nessa antiga imagem do México e na obscuridade que o Tempo, tão injustamente, vai encobrindo nas suas intrincadas redes.
Até há pouco tempo.
Pela tarde, no Verão, gosto de ir ao café. Geralmente vou de mota e levo um caderno onde rabisco algumas palavras. Sento-me na esplanada, não como as muito agradáveis de Ponta Delgada, junto ao mar. Esta dá para um parque de estacionamento. Mas o espaço é enorme e certamente tranquilo. À falta de melhor, observo o céu, as nuvens altas, os intensos crepúsculos de Agosto.
Um casal de meia-idade atravessou a luz devagar e aproximou-se do café. O sujeito, vago nos gestos, apertava nas mãos um breve lenço de sol. Baixei os olhos ao caderno e voltei a concentrar-me na escrita.
Momentos depois vozes na mesa do lado. Pareceu-me inverossímil: tinha à minha frente Pablo Picasso! O irmão gémeo daquele que encontrei em La Paz. Este partilhava os mesmos traços de Verão na pele e o tom solar e mediterrânico dos excêntricos europeus. 
A mulher deixou-o sentado à mesa e meteu-se no café.
Um corvo atrevido debicava invisíveis traços de comida junto aos seus pés. Picasso, como um menino vulnerável e solitário, repousava as mãos no tampo da mesa. Parecia uma silhueta dominada pelo esmagador tamanho da tarde. Instantes depois a mulher regressou com os cafés e resgatou-o da imensa tristeza em que afundara a alma.
Picasso escutava a companheira com atenção e o submisso cuidado de um colegial. A senhora, pela sua idade, parecia dominar com a autoridade de uma matriarca o peso da brisa que insistia em desarrumar a sua franja. Caí-lhe de vez em quando sobre a testa, e que ela logo compunha com um gesto rápido, revelando de novo a sua glória feminina e as feições árabes.
Quando me levantei para me ir embora, notei que falavam português.
– Já há muito tempo que não tinha o gosto de ouvir alguém conversar na minha língua – disse sem poder conter-me ao passar por eles.
– Oh! Também é português? – exclamou a senhora com uma forte pronúncia do Norte de Portugal.
Picasso sorriu endireitando as costas. Foi um sorriso tímido. Não o de um artista com a sua estatura mas a de um homem escondido nos quatro cantos do seu profundo anonimato.
– O senhor é o segundo Pablo Picasso português que encontro. Descobri o primeiro no México.
– Só de aspecto – cortou a mulher. – De artista este não tem nada…
– Bom, mas aceite que é uma forma muito genuína de manter viva a memória física do pintor, não?
Houve uma pausa. Em segundos, as chamas das palavras podem devorar uma cidade. Apercebi-me de que o isolamento étnico leva-nos por vezes a atravessar fronteiras imprevisíveis. O que parecia inocente tomou inesperadamente um acento perigoso. 
Temendo estar a riscar um fósforo litigioso, atirei um pouco de água semântica ao diálogo. Originou sorrisos em ambas as partes. Só depois me fui embora, aliviado por não ter iniciado naquela mesa uma guerra mundial.