Calor e optimismo

 

Na esplanada, com o meu filho Fábio, observamos o pardal. Vagueia por entre as mesas vazias, acalorado e de bico aberto. Debica aqui e ali. Estamos sob uma inusitada e extraordinária onda de calor acima dos 40 graus.
O bicho, incomodado com a elevada temperatura, aproxima-se da tigela de alumínio, com água para os cães, junto à porta de entrada do café. Dá um saltinho e deixa-se ficar na beira. Vai refrescar-se ou beber? Nem uma coisa nem outra. Ignora a água e salta para o chão. Nesse momento um sujeito sai do café. O pássaro assusta-se e foge.
As nossas motas estão estacionadas nas proximidades. Não foi uma escolha sensata termos saído com elas como constatarei depois.
No percurso até à loja, meia-hora mais tarde, sinto que a onda de calor não só vem do escaldante asfalto, mas por cima e de frente. Estou cercado. Vou depressa. Mas é como se tivesse entrado numa fogueira a uma velocidade de jacto. Nunca senti nada assim. Nem mesmo em África nos meus dias de Luanda, ainda jovem.
Ao chegar a casa, o indicador de temperatura da mota está no máximo. A ventoinha do radiador trabalha freneticamente.
Quando abro a porta de casa, o bafo ardente recorda-me uma sauna. (No dia seguinte subiria até aos 39.5 graus!). Mesmo assim, está um pouco mais fresco do que lá fora. Ligo o pequeno aparelho de ar-condicionado e espero por um milagre. Não acontece.
Diante do aparelho acode-me uma onda de ar fresco. Estendo os braços e desaperto dois botões da camisa. Mas estou a enganar-me a mim próprio. Teria de ficar ali especado a tarde inteira e parte da noite para experimentar qualquer alívio. 
Na varanda, resigno-me à ideia de que não poderei estar dentro de casa sem perder a sanidade.
Não oiço os pássaros. Em dias solarengos, em dias claros e brancos e de céu azul, cantam nas proximidades. Sobretudo na velha árvore do meu vizinho Gerry. 
Descubro-o no quintal, sem camisa, sentado a uma mesa de madeira  a beber cerveja fresca. Samy, o cão que veio da Coreia do Sul, não ladra como de costume. Ignora-me completamente. Está afogueado e sem energia para exercitar a sua proverbial antipatia. 
Volto à varanda. O chão está quentíssimo. É como se caminhasse sobre uma fogueira. Hoje ninguém necessita de um fogão para fazer biscoitos. Bastará colocar a bandeja ao sol e voltar meia-hora depois.
Ironia ou optimismo?
Por estranha analogia, penso no exemplo mais notável de optimismo que observei até hoje. Veio de um sujeito em Luanda. 
Estava um dia de imenso e abafado calor. Fluorescentes bagas de suor desciam-lhe o rosto. Abanava a camisa com desespero e  mão suada. Parecia ter saído a correr de um fogão de padaria. Frenético, não sacudia o calor mas a sua evidência. Capitular seria uma derrota e então proferiu, num tom sonâmbulo e arrastado, esta luminosa frase:
– Hoje está calorzinho, amigo! Quase dá para um mergulho na praia.
– Diminutivos não se aplicam bem à situação! – contrapuz. – Está mesmo muito calor. Insuportável até. 
– Não seja pessimista!
Encolhi os ombros. Não valia a pena argumentar. Um optimista de serviço nunca capitula. Nos piores momentos até consegue ver, através de uma parede, um palhaço a sorrir do outro lado.
Gostava de ser minimamente optimista para poder observar esse prodígio. Como na vida as coisas práticas são mais eficazes, vou até ao centro comercial. Tenho algumas horas pela frente de ar-condicionado gratuito. Se tomar um café, não sentirei o suor correr-me pelas costas abaixo. Esse é o meu optimismo mais plausível.

P.S. Para que se tenha uma pequena ideia deste calor, Lytton, uma pequena localidade no interior de British Columbia, alcançou hoje 49 graus centígrados. Em Vancouver e arredores já morreram mais de 100 pessoas.