Adeus a uma cidade

 

 

One day, I will be a bird, and will snatch my being out of nothingness.
– Mohmoud Darwish

Acabei há pouco de almoçar. Sentado a uma mesa do restaurante vou reparando, através da ampla janela que se abre ao passeio, no movimento da rua. O furor da chuva não abranda. Consulto o relógio e fico angustiado: em menos de duas horas entrego o apartamento aos novos donos. 
Subestimei a ferocidade das nuvens escuras que povoam, extemporâneas, o céu de Agosto. Não percebo este clima: em poucos dias saímos de uma temperatura estacionada nos 30 graus centígrados para valores quase outonais. 
Sem o guarda-chuva chegarei a casa encharcado. Chamar um táxi parece-me, no entanto, excessivo. A bandeirada, demasiado curta, não justificaria o esforço do motorista. Saio, enfim, contrariado. 
Na esquina, aguardando que o semáforo mude, a chuva penetra-me a roupa e escorre-me pelas costas. A eternidade é feita de segundos intransponíveis. Observo, com rancor e impaciência, o trânsito de uma cidade que nunca cativou o meu afecto. Dos quase cinco anos em que aqui vivi, conto pelos dedos os momentos de euforia. Partirei dentro de poucas horas. Não sinto remorsos nem pena. As cores dos dias que se foram enferrujaram como um barco abandonado num cais. 
Os meus haveres estão todos num contentor. Desfiz-me de muitas coisas para caber tudo. Ofereci livros mas ainda fiquei com uma biblioteca substancial. Foi durante o processo de escolha, enquanto os ia colocando em caixotes de papelão, que me fui dando conta da inexorável passagem do tempo. Quanta devastação trouxe, quantas vidas! Escritores, poetas e pintores amigos. Alguns deles, porém, encontram-se entre aqueles com os quais convivi no decurso dos vários encontros literários em que participei. Noutros, através das suas obras, e que fui acompanhando à distância. Os exemplos mais recentes são Gabriel García Marquez e Luís Sepúlveda, este vítima do Covid que nos cerca. De memória (que nunca foi boa),  aqui ficam muitos, se não todos, os nomes, e por ordem aleatória. E que me perdoem algum lapso : Rebelo de Bettencourt, Santos Barros, Ivone Chinita, Fernando de Lima, Ruy Galvão de Carvalho, Borges Martins, Marcolino Candeias, Manuel Machado (Noruega/Terceira), Manuel Ferreira, Manuel Ferreira Duarte (EUA/Pico) Natália Correia, Pedro da Silveira, Carlos Faria, José Sebag, Tibério Cabral, Mário Machado Fraião, Laurindo Cabral, Dias de Melo, Daniel de Sá (Açores); Rui Knopfli, Eduardo White, Ascêncio de Freitas, Malangatana e José Craveirinha (Moçambique); David Mestre, Ruy Duarte de Carvalho (Angola); Lêdo Ivo, Ferreira Gullar (Brasil); Luís de Miranda Rocha, Fernando Assis-Pacheco, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago (Continente); Luísa Villalta (Galiza); José Gonçalves e Aurora Homem (Madeira); Paiva de Carvalho (Canadá-Angola) Jim Wong-Chu (Hong Kong/Canadá) Anne Mackay (Canadá), Yorgen Hesse (Alemanha/Canadá) e J. Michale Yates (EUA/Canadá). 
***
Procuro uma toalha ao entrar em casa.  Do quarto de banho passo ao resto da casa. Busca infrutífera.  
Estou absolutamente encharcado. A camisa e os calções pregados ao corpo. As sandálias estão de tal modo molhadas que opto por descalçar-me. Descubro, enfim, um solitário rolo de toalhas de papel na cozinha.  Há que improvisar. 
Não estarei apresentável quando aparecerem os novos donos à porta. Penso nisso enquanto enxugo a cara, o pescoço e o peito. Estou no centro da sala. Veios de água descem pelas janelas. Olho em redor.  
 Pequenos sacos de plástico dispersos aqui e ali. Uma nudez impressionante. Daqui a pouco deixarei tudo isto. Ficam as paredes e o passado. As memórias vão comigo. Algumas gostaria que ficassem aqui, apagadas sob a espessa tinta do esquecimento. Mas a melancolia. Como desconstrui-la, torná-la em  simples abstracções íntimas? 
Diante de nós está o espelho daquilo que somos – omnipresente, delineando, ilustrando, a nossa singularidade. Esquecer é, muitas vezes, a melhor forma de partir. E neste momento sou o último passageiro numa estação vazia.
Uma miríade de imagens domina-me o espírito. Perco-me nesta sensação estranha e inquietante de ecos que, imperceptíveis, estalam ao meu redor até assumirem uma inaudita posse de comando. Barram inexoravelmente o gesto de folhear a última página da etapa que finda.
Afasto-me da sala mas não posso ir para longe. A casa é pequena. 
Fico em silêncio no meio do corredor. O rumor da chuva lá fora, o bater grave e soturno da tarde neste momento de estar aqui, só. Tento compreender a sempre desigual equação dos sentidos. Se estamos bem com as nossas decisões, por quê a nostalgia? 
Questiono-me: Quanto pó dos nossos passos se afundam nos dias? Quantos gestos de frustração e glória povoam uma casa? Riso e lágrimas?  Que vínculo marcante desenha o itinerário do futuro?
Daqui a pouco ouvirei a campainha da entrada. À porta estarão estranhos, sem rosto e de máscara. Só através dos olhos verei o sorriso. As vozes soarao abafadas como se atravessassem uma parede.
Levarei então a mão direita ao bolso para tirar as chaves. Não só lhes entregarei as da casa, como a do meu passado e desta cidade. 
Ao sair, não me voltarei para olhar pela última vez as cinzas da minha vida aqui. Temo tornar-me numa estátua de sal.