Medi(A)ção

 

 

Os media tradicionais, embora atualmente debilitados, continuam a cumprir um papel fulcral na sociedade: mediar uma significação que é (ou pelo menos costumava ser) constantemente negociada entre os indivíduos de uma sociedade. 
Na imprensa escrita, na rádio e na televisão, antes de uma simples notícia ser produzida, a informação que vai conter foi já sujeita a uma série de pontos e contrapontos, ou seja, foi validada sucessivamente por vários atores, durante as suas diferentes fases de produção. Esta é uma tese defendida por diversos académicos, como Joshua Benton, fundador do Nieman Journalism Lab da Universidade de Harvard, que traduz uma espécie de multilateralismo no qual participam todos os consumidores, que somos nós, as mais variadas instituições e os media. Quando a notícia é finalmente difundida, este processo repete-se.
Contudo, atualmente, esta mediação está posta em causa pelo aparecimento de novas formas de circulação de informação através da internet. Vivemos num mundo onde imperam as disputas tribais nas redes sociais, sem mediação e sem consideração pela origem da informação. Hoje, o empreendimento comum de atribuição de significação, para o qual os media tradicionais são fundamentais, vai ruindo bloco a bloco, tweet a tweet, post a post. Esta é, talvez, a característica mais nefasta dos canais de comunicação que criámos recentemente, para além do já bem documentado enclausuramento em bolhas digitais, onde se repetem invariavelmente os mesmos conteúdos, moldados por uma perspetiva, quase sempre única, que nos tolda o raciocínio crítico, não deixando espaço para o contraditório.
Ao erodir paulatinamente o carácter institucional e pré-definido da comunicação em larga escala, estas nossas invenções, as redes sociais, modificaram o espaço social e, portanto, mudaram invariavelmente a forma como comunicamos uns com os outros. No séc. XXI, comunica-se direta e ubiquamente sem qualquer consideração pelos tradicionais bastidores das nossas vidas. Isto significa, é claro, que as redes têm o poder de entrar diretamente na esfera privada da vida quotidiana das pessoas, tal como a rádio e a televisão o fizeram anteriormente, contudo, a ordem de grandeza é outra.
O jogo de poder entre os media tradicionais e as redes sociais parece perdido à partida, pois somos ávidos consumidores sem tempo para fazer uma curadoria informada, dispensando a mediação e o resguardo da vida privada. A nossa ânsia individual e coletiva de consumir rapidamente grandes quantidades de informação transforma-nos em limpa-pratos sem maneiras, consumindo muito cisco e, quantas vezes, produzindo também sujidade. Mergulhamos inconscientemente num mundo informativo onde está radicalmente ausente a atribuição de contextos, a construção de uma perceção lógica dos eventos e a edificação de significados comuns. O fruto não é bonito de ver.
O resultado desta falta de mediação está à vista nas muitas debilitações que agora mostram as democracias ocidentais, abanadas por este caldo caótico de uma informação despida de mediação. Basta considerar casos recentes, como o exemplo da Cambridge Analytica.

Ao longo da história da Humanidade, a tecnologia alterou e vai continuar a alterar radicalmente a maneira como comunicamos uns com os outros. No entanto, beneficiávamos todos se medíssemos a nossa ação, procurando a melhor mediação possível.