Retalhos

 

 

 

Como em qualquer chafariz da ilha Terceira, naquele que conheço desde sempre como uma espécie de monumento seco e abandonado, junto à casa de minha avó, onde crescem, musgos e fetos, há muitos anos, recolhia-se água e lavava-se roupa. Noutros tempos que não conheci, pela manhã, era o alvoroço das lavadeiras quais mulheres de Paula Rego, com cestos apinhados, braços rijos, água fria, cantando para espantar os males ou falando para espalhar males alheios. A vida era lavada juntamente com a roupa. Não existiam limites como o de 140 caracteres do Twitter, nem algoritmos para escolher quem estava na pia do lado. Esta era também a fonte de fake news de épocas que, pelo pulsar da informação de hoje, nos parecem remotas, mas estão perto, tão perto que se pode ouvi-las em primeira mão, no sofá da avó.

Na freguesia não existiam canos, acartava-se água para casa numa espécie de pote que era despejada em talhões de barro, trabalho hercúleo já que cada um podia conter dezenas de litros. A água era aquecida numa panela de ferro e primeiro tomavam banho os adultos. Por fim, eram as crianças.  A água em que eram lavadas estas últimas era usada também para lavar a cozinha. Chamem-lhe economia circular familiar, na altura conhecida como bom senso.

Nesse tempo, não havia casas de banho, existiam tinas de madeira ou de zinco para se lavarem e os que não as tinham, bem, pediam emprestado aos vizinhos. Era o caso de uma família que podia disponibilizar uma das tais tinas, embora o patriarca dessa família não gostasse de o fazer, porque tinha de desinfetar a antiga banheira com água a ferver e sabão azul depois do empréstimo. Problemas de um quase terceiro mundo, que com os nossos champôs mil sempre à mão nos parece distante, mas que se pode escutar em primeira mãe no sofá do avô.

O linho era trabalhado a rigor, não muito longe do chafariz. Teciam-se enxovais. Uma espécie de malha que tudo cobria. Um dia, uma pequenota rebelou-se, diz-se. Foi para junto da plantação de linho em flor e arrancou quantas mãos pôde do azul vivo do linho, porque não queria casar. Um ato de rebelião contra o patriarcado daqueles tempos. 

 Por aquele chafariz, freguesia acima, o Chico Solidão vendia peixe. Vinha de muito longe com a mercadoria aos ombros em cestos que pendiam pesados. “É grado, é grado!” era o seu pregão.  Pagava-se em géneros, milho, por exemplo. Alguns mais atrevidos safavam, entre as maçarocas sãs, algumas de “milho danado”, ou seja, podre. Um dia, o Chico Solidão apostou no chafariz que dava a volta à ilha num dia. E cumpriu.  Saiu do chafariz às 2 horas da madrugada e chegou às 3 da tarde. Deu a volta à ilha no sentido dos ponteiros do relógio. O mar esteve sempre pela sua esquerda e foi desenhando com os pés o traço redondo do horizonte no torrão da ilha. Foi obra, que a ilha não é assim tão pequena.