A curiosidade matou o gato

 

 

O provérbio do título traduz, como todos os outros, a sabedoria popular, neste caso, a interpretação que o homem faz do comportamento de um felino, a sua curiosidade, e das respetivas consequências. Diz, então, o ditado que o nosso amigo gato lá de casa é curioso e que esta característica lhe é fatal. Todos concordamos, pois conhecemos quão atrevido é o gato quando deambula inadvertidamente pelas nossas cozinhas à procura de alimento mal acautelado. Mas não conheço nenhum caso onde o bichano tenha morrido por causa disso. Sei que, muitas vezes, fica de pança farta. Sei também que pode ser escorraçado por berros e correrias, e que, em casos mais extremos, leva um safanão. Por isso, acho que, neste particular, o animal foi mal escolhido, tanto mais que outra sentença popular testemunha que o gato tem sete vidas. 
Saiba-se que o provérbio desta crónica foi originalmente outro: " A preocupação matou o gato". Aqui, não há nada de que discordar. Todos sabemos que a preocupação, que antecipa problemas e catástrofes, que a maior parte das vezes não se concretizam, pode ser-nos fatal. O único senão é que jamais vimos um gato preocupado. Os gatos vivem a sua circunstância e pronto. Mas, como sabemos, nenhum dos provérbios, o atual e o original, pretende fazer um retrato do gato. Pretende-se obviamente fazer um retrato do homem, das suas atitudes e respetivas consequências. 
Adiante. Interessa aqui sobremaneira a curiosidade. Como pode ela ser letal? Se entendermos que há vários tipos de morte - a física, a mental e a social - certamente que acataremos melhor o dito. Assim sendo, é razoável acreditar que possa haver morte, seja ela de que tipo for, que advenha do desejo de saber? Vejamos.  Sabemos que a curiosidade nos leva essencialmente à obtenção de informação. Isto parece positivo. Porém, a qualidade dos dados que colhemos assim como o que fazemos com eles pode ser nefasta. 
A forma mais comum e inócua de falha neste particular diz respeito aos casos em que, em circunstâncias esporádicas e pontuais, a curiosidade alheia ou o resultado dela, a informação, nos irrita  e lhe atiramos com o ditado para que não se revele aquilo que queremos manter desconhecido. Uma espécie de advertência para o facto de uma linha vermelha estar a ser transposta. E normalmente resulta. O intruso tende a compreender que está a forçar uma intimidade de uma forma não desejada e afasta-se.
Por outro lado, a maledicência conta outra história. A bisbilhotice leva-nos a recolher informação que julgamos preciosa sobre os outros e a divulgá-la de modo maçador ou deleitoso em tom de conversa. Na maior parte das vezes, esta informação e a sua divulgação não trazem qualquer benefício, apenas atrapalham e podem ser dramáticas para os visados da perscrutação. Um número considerável de pessoas mantém este registo de exame da vida alheia. Sobrecarregam a sua memória com dados inúteis sobre os outros ou, pior, com informação sobre os supostos erros dos outros, sem propósito à vista que não seja maçar tudo e todos ou maldizer. Não se pode afirmar propriamente que os detentores de tão preciosa informação sejam menos capazes, embora as suas cabeças estejam atoladas de inutilidades.
Outro caso que dá que falar é quando se colhe informação completa ou incompleta sobre uma pessoa ou um assunto, mas se divulga apenas parte dessa informação. Isto pode acontecer por mero acaso, numa comunicação apressada, sem tempo para aprofundar ou averiguar a veracidade do recolhido e divulgado, ou porque o informador propositadamente omite parcelas do conteúdo para esconder a verdade, distorcer a realidade ou mentir. Acontece bastante com os media.  A divulgação de documentos truncados, de frases despidas de um contexto, de notícias mal fundamentadas pode bem exemplificar o mau serviço que, alguns jornais, por vezes prestam à comunidade. Neste caso, a informação disponibilizada não só desinforma como pode destruir uma pessoa, um grupo, uma instituição, um partido político, um regime...
Ainda, temos a curiosidade que leva à fuga do segredo de justiça, que, parece claro, deverá trazer dividendos para alguém, mas certamente prejudica tanto a justiça como os que andam a braços com ela. Há quem se preste a trazer para a praça pública informação que deveria estar no segredo dos deuses, porque faz parte de uma investigação sobre um alegado crime, assente em suspeitas, não em factos. Da investigação, poderá resultar a condenação ou inocência de alguém. Contudo, brutalmente, dispõem-se, para gáudio de inimigos e de egos mesquinhos, à consideração de todos, escutas, inquéritos, relatórios em segredo de justiça, um conjunto de Informação confidencial, dispersa, descontextualizada. Estas fugas, acreditamos, não acontecem por acaso. Alguém o permite e muitos se servem disso. Os maiores suspeitos são os que lucram literalmente com audiências ou leitores e os que, não tão literalmente, destroem o "inimigo".
Demonizámos a curiosidade neste artigo. Na perspetiva aqui adotada, a curiosidade é nefasta. Alegremo-nos, contudo, pois certo é que a curiosidade não tem apenas este lado sombrio. Sabemos que é ela que nos mantém em constante movimento, numa caminhada rumo ao futuro, na construção de um admirável mundo novo. São exemplo disso o trabalho árduo na ciência, na tecnologia e em outras áreas do conhecimento. Sem ela, nem sequer teríamos chegado à idade da pedra lascada, quanto mais. Mas aqui a curiosidade é outra. E é bastante mais rara do que a maléfica. 

Conclusão, a curiosidade que reina no mundo animal deve ser tratada com cautela e dirigida com algum cuidado. Podemos dizer que, a título de exemplo, o gato deve focar a sua curiosidade na presença de ratos, já que lhe permite providenciar o seu próprio sustento. Quanto ao homem, que se distancie do comportamento manhoso do gato que rouba o alimento, e que, contrariamente ao que diz no ditado, vive descansadamente e se safa sem um beliscão.