Mãe, Doce Mar

 

«Tinha doze anos quando conheci a minha mãe – esta frase dá para tudo, até para abrir um romance.
E, no meu caso, é verdade.»

João Pinto Coelho, Mãe, Doce Mar

Foi ao quarto livro que João Pinto Coelho derivou a sua torrente narrativa de um continente europeu assolado pela perniciosa ambição do nacional-socialismo – ali perpetrada até cerca de meados do século XX, sobretudo sobre o povo judeu –, localizando a ação deste Mãe, Doce Mar, na outra margem deste vasto rio atlântico, de onde nos dá conta da história de uma família, que, não conseguindo furtar-se a um destino previamente traçado, trava as suas batalhas até ao surpreendente desfecho da narrativa.
Servido por um plot muito bem idealizado e de uma arquitetura narrativa que o sustenta na perfeição, este romance cruza factos históricos, lendas e espaços mais ou menos icónicos com uma dimensão ficcional assinalável, o que redunda num constante interesse por parte do leitor, que procura – com ânsia, arriscaríamos – as respostas às dúvidas que o narrador vai arremessando ao longo do seu discurso e que, de forma congruente, tarda em responder. Não obstante o sucesso alcançado com os três romances que a este antecederam, a maturidade narrativa do autor é cada vez mais notória, percebendo-se uma tendência de fuga à descrição simples, procurando-se antes criar ambientes e dar a conhecer os factos através da ação das próprias personagens. Assinalável é também o cuidado de fuga ao exagero estrutural, isto é, servindo-se de um tempo múltiplo, que converge depois num só, onde tudo encaixa e faz sentido, poderia o autor ter-se deixado levar, explanando em demasia trechos de um pretérito que, sendo necessários conhecer, não determinam nem diminuem a diegese: chegam na medida exata. 
Como antes referido, a Mãe, Doce Mar antecederam três obras de fôlego, granjeando, qualquer uma delas, enorme sucesso junto do público-leitor. Ocupando-se com o padecimento do povo judeu ante inimigos de geografias distintas, mas unidos na nefanda ilusão do extermínio, João Pinto Coelho urdiu narrativas robustas, que assentaram num conhecimento acumulado durante mais de duas décadas de estudo e investigação, sobre a perseguição aos judeus, tendo integrado mesmo duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar nos antigos campos de Auschwitz, iniciativas que contaram com a valorosa contribuição de sobreviventes da Shoa ou Holocausto. Assentar a narrativa no rigor histórico inibe sobremodo a abertura de “brechas por onde se adentrem equívocos ou medrem ambiguidades e imprecisões”, como escrevemos a propósito de A Madrugada em Birkenau, obra de referência no estudo da temática, tendo por base, essencialmente, os testemunhos das vivências de Simone Veil. A este propósito, são públicas e evidentes as controvérsias com aqueles que se ocuparam com a mesma temática, mas tratando-a, segundo o próprio, com graves imprecisões, levando-o a salientar a “ignorância e desfaçatez” desses que assim escreveram. Dir-se-ia, por isso, que João Pinto Coelho corrobora o pensamento de Veil (francesa judia, presa e deportada), procurando nas suas obras perpetuar a ideia de que «[…] não temos o direito de reescrever a história.» Serve-nos esta pequena deriva para evidenciarmos o cuidado com que o autor se mune de informação para posteriormente a trabalhar e redigir texto que seja ao mesmo tempo credível, fidedigno e revestido de qualidade literária. Neste romance, são trazidos ambientes bem conhecidos do autor, pelas temporadas que passou nos Estados Unidos da América, país onde, inclusivamente, trabalhou num teatro profissional, atividade replicada no romance e tratada com notável propriedade, assumindo importante função no desenrolar de toda a trama. Tal como nas obras de Isabel Rio Novo, por exemplo, também nas de João Pinto Coelho é bem evidente o cuidado com que se mune de informação pertinente que depois é colocada ao serviço da credibilidade da própria história.
Embora haja nesta obra, ainda que pontualmente, referências a dificuldades económicas, atravessadas mormente por determinadas instituições (companhias de teatro), perpassa todo o romance uma certa ideia de desafogo financeiro. É aqui retratada também a América das oportunidades, o tempo do Self-Made Man, que dá azo, inclusivamente, a que Frank O’Leary, um padre jesuíta, goze do esforço e do trabalho árduo do pai e não se iniba de circular pelas artérias da cidade ou do campo num peculiar Rolls-Royce, ornado com cores que, não chegando a ser ridículas, não deixam ninguém indiferente. Em Mãe, Doce Mar não são raras as ocasiões onde é possível trazer à memória e até intentar formidáveis paralelismos com o The Great Gatsby, esse texto de referência da literatura americana: não o diremos em termos de crítica à decadência moral e ao consumismo e materialismo desenfreados, como acontece no romance de Fitzgerald, mas sobretudo em termos de recriação de ambientes faustosos, onde a divícia é colocada ao serviço da caracterização.
Se alguns prognosticavam que João Pinto Coelho ficara refém do arrojo evidenciado na sua trilogia dedicada ao padecimento do povo judeu, sobretudo da obra Os Loucos da Rua Mazur, o autor, vencedor do “Prémio Leya”, em 2017, mostra cabalmente que não, provando que os seus interesses não se esgotam naquela matéria, enquanto confirma a sua enorme capacidade de trabalho e competência literária noutras temáticas tão distintas daquela que o trouxeram até às luzes da ribalta literária. Ao longo dos últimos anos, e num amplexo que abrange o mundo, João Pinto Coelho – evidenciando grande capacidade de trabalho e com todo o mérito –, tem logrado uma posição cimeira que há muito extravasa a divisa nacional. Traduzido em diversas línguas, e reconhecido entre pares, o autor assume-se hoje como uma voz incontornável do que melhor se produz em literatura portuguesa.

João Pinto Coelho, Mar, Doce Mar, D. Quixote, 2022