Metrosidero da escola da Maia

 

Enquanto aguardo por mais uma reunião, daquelas que prometem, com afinco, acabar com o insucesso dos alunos, deixo cair os olhos sobre o recreio da escola e demoro-me a pensar na sorte que aqueles miúdos têm por usufruírem de um espaço daqueles. Ao contrário do que se percebe em outras paragens, encontra-se enraizada neles uma cultura de preservação dos espaços e do edificado; percebe-se um sentido de responsabilidade e respeito pelo que lhes pertence a todos, e talvez seja esse o segredo da Escola da Maia que, já entrada na segunda dezena de anos de vida, ostenta ainda um aspeto apreciável, exibindo-se toda aperaltada a quem nela perlongue o olhar. Mérito da educação e cidadania de quem por lá cresceu e daqueles que ainda ali calcorreiam o seu percurso de vida. 
Para além de uma elegante fachada, um aspeto cuidadosamente asseado e muito mais que se poderia acrescentar, recebe-nos, à direita de quem entra, um majestoso Metrosidero excelsa, um magnífico exemplar desde sempre muito estimado por toda a comunidade. Como retribuição, esta árvore de porte assinalável, cuida-nos diariamente do olhar, acariciando-o com a sua beleza extraordinária. Já ali trabalhei com os alunos algumas vezes, abrigados à sombra da sua frondosa roupagem. Foram aulas de poesia, penso. Cuidei que dessa forma pudesse contar com a sua ajuda na inspiração dos jovens poetas e não me enganei. De todas as vezes, os resultados superaram as expetativas, e nem as abelhas que por ali abundam, impediram o alumiar daquelas pequenas centelhas poéticas, instigadas, por certo, pelas mágicas faúlhas daquela árvore de fogo, como também é conhecida. 
Gosto muito daquele Metrosidero. Desperta-me a curiosidade e, ao contrário de outras árvores que se mostram robustas ou bonitas, o Metrosidero da Escola da Maia exibe força e beleza a partir de um corpo singular. A ciência de quem os estudou antes de nós ensina-nos que se conseguem adaptar a diversas contrariedades; dizem-nos, também, que são árvores rijas, vigorosas e que superam quase todas as adversidades que se lhes impõem: resistem a tempestades, vencem a salinidade excessiva, crescem e florescem em solos pobres e de nutrientes parcos. Há aqueles que conseguem crescer em rochas, veja-se!
É com um olhar de esperança lançado pela janela da sala onde aguardo por mais uma reunião, daquelas que prometem, com afinco, acabar com o insucesso dos alunos, que me dou conta das similitudes entre o Metrosidero da Escola da Maia e grande parte dos nossos alunos. Um e outros lutam com apego contra os reveses que a vida lhes apresenta, mas sem nunca esmorecer, resistindo estoicamente.  Alturas haverá de galhos mais secos ou flor mais mirrada, mas mesmo sem aquelas condições que se julgam ser as ideais, um e outros hão de medrar e de florescer. Do pouco, fazem muito e vão resistindo, superando-se e reinventando-se. Do pouco, fazem muito e vão mimando o olhar de quem por ali vai ficando e os vai vendo crescer.