A Bermuda Açoriana

 

A Casa dos Açores da Bermuda acrescentou, em 2021, uma terceira data marcante ao seu historial recente, mas intenso. 
Fundada a 10 de março de 2015, inaugurou oficialmente a sua sede a 4 de novembro de 2019 e, graças à grande obra de remodelação entretanto realizada, ofereceu agora à comunidade açoriana um centro comunitário que a honra e orgulha.
O dia 19 de setembro de 2021 assinalou o fim de uma etapa e o princípio de outra.
Encerrou uma obra que foi desenvolvida, de forma exemplar, com o envolvimento comunitário e o empenhamento pessoal dos diretores, dos sócios, dos voluntários e dos patrocinadores da própria Casa dos Açores.
E abriu assim a possibilidade de passarem a realizar aqui as mais variadas atividades que podem contribuir para a crescente dinamização da nossa comunidade.
A Bermuda tinha que ter, como agora tem, uma Casa dos Açores.
Desde logo, por razões históricas.
Este arquipélago foi o terceiro grande destino da emigração açoriana com caraterísticas sistemáticas, a partir de 1850, depois do Brasil e dos Estados Unidos, antes do Havai e do Canadá.
Só nas últimas seis décadas, de 1960 a 2020, emigraram oficialmente para a Bermuda 8.722 açorianos, maioritariamente da ilha de São Miguel.
Emigraram através dos contratos de trabalho que são tratados entre os serviços de imigração do Governo da Bermuda e a Direção Regional das Comunidades do Governo dos Açores, no âmbito do acordo bilateral de contratação de portugueses.
É um bom acordo para ambas as partes.
Por um lado, os açorianos encontram, também aqui, oportunidades de melhoria das suas condições de vida, muitas vezes em regime de reunião familiar.
Por outro lado, a Bermuda ganha assim um contributo importante de mão de obra qualificada, com gente honrada e trabalhadora que dignifica o bom nome do povo açoriano.
Mas a Casa dos Açores da Bermuda justifica-se, sobretudo, por razões comunitárias.
Os açorianos constituem aqui a mais representativa comunidade de imigrantes, proporcionalmente à população residente, e o português é por isso a segunda língua mais falada neste território.
Estima-se mesmo que quase um quarto da população da Bermuda seja natural dos Açores ou descendente de açorianos. 
Isto é um orgulho para os Açores e é uma responsabilidade para a comunidade.
Os açorianos podem e devem integrar-se e afirmar-se, cada vez mais, não apenas na vida social e cultural, mas também na vida económica e política, desta sua sociedade de acolhimento. 
A Casa dos Açores da Bermuda contribui para esse reconhecimento.
E o centro comunitário de que agora dispõe ajudará a envolver, a dinamizar, a promover e a afirmar esta comunidade nesta sociedade.
Nos Açores, não esquecemos aqueles que partiram. São, como não podiam deixar de ser, parte integrante da comunidade açoriana, que é única e universal. 
O sentido ecuménico da Açorianidade que habita em todos nós é a demonstração de que os Açores não se limitam a ser as 9 ilhas sediadas no meio do Atlântico. 
São mais do que isso.
Existem para lá do espaço físico e são um estado de espírito que subiste no mundo inteiro. 
Temos, por isso, uma nova visão para as comunidades açorianas que se encontram dispersas pelos quatro cantos do mundo.
A nossa atuação junto dos emigrantes deve redefinir-se e adaptar-se às circunstâncias dos novos tempos em que vivemos. 
Não nos podemos limitar ao mercado da saudade, que queremos, como é natural, continuar a valorizar. 
Mas o aproveitamento e a dinamização das diversas potencialidades económicas, culturais e políticas que as diferentes geografias da emigração açoriana podem ter para o arquipélago dos Açores é, acima de tudo, uma forma de aprofundar a relação de proximidade e promover dinâmicas que visem um desenvolvimento económico e social mútuo. 
Vem tudo isto a propósito dos 175 anos da emigração portuguesa para a Bermuda, essencialmente proveniente dos Açores, que se comemoram em 2024.
É de 1849 o primeiro movimento migratório documentado para estas ilhas britânicas da América do Norte, que assim repartem o coração açoriano com os Estados Unidos e o Canadá.
As Bermudas são um conjunto de 150 pequenas ilhas e ilhéus atlânticos nas Caraíbas, com pouco mais de 66 mil habitantes distribuídos por 53 quilómetros quadrados. 
São territórios britânicos ultramarinos regidos por uma Constituição, de 1968, que garante autonomia ao governo local nas matérias de política interna, mas que depende da metrópole nas questões de defesa e política externa. 
A sua capital é Hamilton e é também aí que se encontra sedeada a Casa dos Açores da Bermuda e que vive e trabalha a importante comunidade açoriana, tradicionalmente associada à jardinagem e à construção.
Os serviços financeiros e o turismo são as principais atividades destas ilhas, cujo rendimento per capita é um dos mais elevados do mundo, também com o contributo dos imigrantes açorianos. 

 

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Diretor Regional das Comunidades no Governo da Região Autónoma dos Açores. Baseado num texto do seu livro Transatlântico II – Açorianidade & Interculturalidade (2024)