Nos 70 anos da emigração para o Canadá

 

Este texto é especialmente dedicado aos emigrantes açorianos da nação canadiana, a propósito da recente comemoração dos 70 anos da emigração oficial de Portugal para o Canadá (1953-2023), mas pode ser igualmente aplicado a todas as nossas demais comunidades dispersas pela América do Norte, desde a Bermuda até ao Havai.
Podia fazer-vos um discurso político, mas prefiro trazer-vos um abraço açoriano.
Quero colocar-me ao vosso lado, no vosso lugar, e partilhar convosco um sentimento comum.
Quero convosco viver o espírito do emigrante, quando a gente sai da ilha… mas a ilha não sai da gente.
Aqui, a nossa bandeira é vermelha e branca, mas também é verde e vermelha ou mesmo azul e branca.
Vivemos com os pés bem assentes no Canadá, a cabeça em Portugal, o coração nos Açores.
Sentimos falta das pequenas coisas que fazem grandes diferenças: o cheiro do mar, a passagem das vacas, o canto dos romeiros, a roqueira que anuncia o quinto touro, a massa sovada do Espírito Santo, o olhar da Imagem do Senhor Santo Cristo.
Aqui, somos felizes, mas não somos completos.
Temos sempre saudade de algo ou de alguém.
Compensamos a distância com as nossas tradições, com a nossa cultura, com a nossa língua, com a nossa fé.
Somos canadianos de pleno direito, mas também somos portugueses e, em muitos casos, portugueses dos Açores, açorianos de cabeça erguida.
Temos orgulho de ser o que somos.
Quando estamos aqui, chamam-nos portugueses. Quando vamos lá, somos canadianos.
Mas isso é bom. Assim, cada um de nós vale por dois.
No nosso coração açoriano cabem bem os dois países que tanto amamos.
Portugal e Canadá estão unidos há 70 anos por um pacto de sangue – o sangue português que nos corre nas veias canadianas até chegar aos nossos filhos.
Queremos que os nossos netos sejam ainda melhores do que nós – cidadãos canadianos reconhecidos e respeitados – mas queremos também que conheçam a nossa terra, que falem a nossa língua, que gostem de ser como somos.
É possível ser canadiano sem deixar de ser português.
Podemos, ao mesmo tempo, beber Coca-Cola e Laranjada ou comer donuts e bolos lêvedos.
A dupla cidadania faz de nós canadianos com razão e portugueses com emoção.
Temos um passado que nos orgulha e um presente que nos motiva.
Mas a melhor forma de honrar o passado é ganhar o futuro.
A melhor homenagem que podemos fazer aos pioneiros portugueses que desembarcaram do Saturnia no porto de Halifax a 13 de maio de 1953 é continuar a demonstrar, sempre e cada vez mais, que o seu esforço não foi em vão, que valeu a pena abrirem caminho, que seguimos em frente para chegarmos mais longe, afirmando a nossa cidadania, dignificando a nossa identidade.
Por isso, a minha palavra final é para homenagear o mais velho dos portugueses de 1953 – Manuel Vieira, o último sobrevivente dos 17 pioneiros açorianos, que faleceu em Toronto no passado mês de dezembro – , mas também o mais novo dos luso-canadianos de 2023.
Porque o nosso respeito pelo passado é tão grande como a nossa confiança no futuro.
Podem contar com o Governo dos Açores, a meio caminho entre os dois continentes. Como se fossemos a viola de dois corações, que junta e não separa.
Juntos, todos juntos, somos Portugal (e Açores) no Canadá (e na América do Norte).


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Diretor Regional das Comunidades no Governo da Região Autónoma dos Açores
Texto extraído do seu livro Transatlântico – 
Açorianidade & Interculturalidade (2024)