Um durex, faz favor!

 

     

 

Há quase vinte anos, viajei para a Ilha de Santa Maria a fim de conhecer as festividades do Espírito Santo. Os dias foram intensos, de vivência plena, passados na freguesia Santa Bárbara, quando da mordomia da família Bairos, em maio de 2002. Era a primeira vez que ia à Ilha de Santa Maria, estava cheia de ansiedade e curiosa para tudo conhecer em dois ou três dias. Era como “querer tirar o pai da forca”. Estar naquela festa, conversar com as pessoas, acompanhar as celebrações de acordo com as tradições da Ilha, primeira a ser descoberta, fazia parte do meu projeto “Açores, Ilhas do Espírito Santo.”

Domingo, ao fim do dia, retornei ao hotel na Vila do Porto carregada de anotações, livros e massas sovadas, prendas oferecidas pela simpática família Bairos. Senti-me em estado de graça, mas exausta – cansada de tanto saracotear de um lado a outro, na azáfama de tudo querer saber. No dia seguinte, bem cedo, seguiria para o Faial, Pico e Terceira.

Banho tomado, camisola de seda – ou “camisa de dormir”, como se diz em Portugal – sob um robe vermelho aveludado, cabelo molhado e um mundo de coisas para acomodar. Mãos à obra! Tratei de arrumar a mala e acondicionar a papelada espalhada pelo quarto. O apartamento que ocupei era o de número 01 ou 101. Lembro bem que ficava no 1º piso. Era um prédio pequeno, sem uma arquitetura definida. Um hotel singelo e agradável, onde o maior conforto oferecido era o quarto asseado e a simpatia da hospitalidade. Nem elevador tinha. Também não precisava já que meu quarto estava a um lance de escada da recepção.

Malas prontas e material organizado, porém faltava algo para o arremate final. Passava das nove horas da noite. Não hesitei. Desci à recepção do jeito que estava, vestindo camisola de seda e robe – e os cabelos ainda húmidos. A mesma jovem que me recebera na chegada horas antes estava ali e muito prestativa perguntou-me se eu necessitava de alguma coisa. Eu, parada alguns degraus da escada acima, e ela atrás do balcão da recepção. Então, começou o diálogo insólito, surreal e, pode-se dizer, hilário. Aldrabices ou armadilhas que a Língua Portuguesa mátria prega aos brasileiros com seu falar de filho dengoso.

— A senhora pode, por favor, me arranjar um durex?

— Um o quê?

— Um durex.

— A senhora quer que lhe consiga um durex?

— Sim! Um durex, faz favor!

 

Nesse meio tempo, outro jovem que, na sala ao lado arrumava as mesas para o café da manhã, entrou na conversa, encostando-se no batente da porta da sala. A recepcionista contou-lhe que a hóspede (eu) ali na escada queria um durex. Ao rememorar a cena revejo o “rapaz das mesas” voltar os olhos para o alto da escada onde eu me achava de camisola e robe vermelho, lascando a sua pergunta:

— Para que deseja o durex? Quer muito?

— O quê?

— O durex. Precisa de muito? De que tamanho?

— Ah! Percebi... Uns dois palmos.

 

No ato, abri as mãos, em paralelo, definindo o tamanho desejado. Considerando que um palmo corresponde a cerca de vinte centímetros eu queria um durex bem comprido. Os dois olhavam-me atônitos. Eu, sem dar conta do que se passava, continuei já impaciente com o rumo da conversa...

— Moço, faz favor. Sobe aqui no meu quarto que te mostro. Vem?

— Eu? Ir ao seu quarto?

— Sim. Não queres saber para que preciso de durex? Então, anda cá.

 

A recepcionista olhou na minha direção e disse:

— Anda, vai ao quarto da senhora.

 

O rapaz, um tanto relutante, venceu ligeiro os oito ou dez degraus que nos separavam e seguiu-me até o quarto. Eu na frente e ele atrás. Entrei. Ele estancou ao pé da porta.

— Entra, moço. Vem ver para que quero o durex.

— Eu?

— Claro. Tem mais alguém aqui? Não queres saber o que vou fazer com o durex? Pois mostro-te.

 

Insisti. Ele entrou. Apontei para a cama onde se achava uma caixa de papelão cheia de livros e prendas.

— Tás vendo? O durex é para fechar esta caixa.

— Ah! A senhora quer é uma fita-cola?!

— Fita-cola? Filho, durex, fita-cola, fita adesiva, autocolante, goma arábica, esparadrapo, seja que nome isso tenha... Eu quero apenas fechar esta caixa e ir dormir.

 

O rapaz desceu. Momentos depois, voltava com a tal fita-cola. Segui viagem no dia seguinte e, claro, continuei pedindo durex  no Faial, no Pico até chegar na Terceira. Em Angra do Heroísmo, repeti o mesmo pedido: “Podes me conseguir um durex?” – à recepção do Angra Garden Hotel. A recepcionista, já velha conhecida de outras viagens, muito solícita e elegante, falou um tanto encabulada:

— Professora Lélia, peço imensas desculpas. Mas o que a senhora está a pedir é um preservativo.

Pois é. É o que estava a pedir, com inacreditável sofreguidão. Em nome dos caprichos semânticos da “inculta e bela”, saí como doida de ilha em ilha a pedir Durex, marca comercial daquilo que no Brasil chamamos de “camisinha”. Imaginem a cena... Eu, de camisola, rogando por camisinha.

Pano rápido, com o devido rubor.