Senhor Santo Cristo dos Milagres, uma fé que não se esgota

 

     

No texto para o livro Peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres (2009) o saudoso escritor Daniel de Sá na sua escrita espiritualista afirma que é uma fé que não se esgota no respeito pela imagem. Que nem sequer se esgota em si mesma, porque é feita sobretudo tendo a esperança como pilar”. É nesta dimensão da fé imperecível que milhares de fiéis manifestam grande devoção e afeto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, depositando todas as aflições, sofrimentos, angústias, perdas queridas e desesperanças.

De 15 a 17 de maio de 2020, Ponta Delgada vive dias de grandes festas. Domingo do Senhor, 17 de maio, é o dia maior que congrega milhares de devotos. Na verdade, milhões se considerarmos o número de devotos nas comunidades do Brasil, Estados Unidos, Canadá e no continente português que acompanharão atentos pelas transmissões televisivas ou nas redes sociais. O ponto alto ocorre quando as irmãs Religiosas de Maria Imaculada – as fiéis guardiãs – entregam ao Provedor da Irmandade a rica Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Um ritual simbólico que se repete anos após ano com profundo fervor e respeito a uma tradição de 320 anos. A veneranda Imagem, sob a proteção dos Irmãos, deixa o Santuário e ganha às ruas de Ponta Delgada numa grandiosa procissão que, por mais de cinco horas, percorre as artérias da baixa da cidade levando no Seu olhar compungido, humano, derramado de amor, as esperanças esperançadas de cada um. 

O parágrafo acima era o que eu gostaria de transmitir, no dia de hoje, em resposta ao convite para um depoimento sobre a devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres enviado pelo Padre Hélio Soares, natural da Ilha de São Jorge, pároco da Paróquia de Nª Senhora da Apresentação da Vila de Capelas. Padre Hélio é também historiador e no momento desenvolve seu projeto de doutoramento tendo por tema “O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.” Temos trocado ideias sobre a expansão do culto em terras do Brasil nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que os registros mais antigos estão na carioca Paróquia Santo Cristo dos Milagres, no bairro de Santo Cristo, onde em 1850 imigrantes da Ilha Terceira ergueram uma capelinha em seu louvor. 

Pelos veículos de comunicação social dos Açores fiquei sabendo que, neste ano de 2020, não vai ter a Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Não se realiza a tão esperada procissão pelas ruas centrais de Ponta Delgada. A cidade não se vestirá de Festa e seus moradores não trocarão votos de “Boas Festas”. Será um “sem nada”. Sem o acender das luzes na sexta feira, sem círios enormes, sem bandeirolas e fogos de artifício, sem filarmônicas, sem a alegria do arraial, sem tapetes nas varandas e flores marcando o trajeto processional do andor com a imagem de Cristo – o Ecce Homo. Sem o povo. Aquela multidão em torno de uma fé que não se esgota refletida no olhar de cada penitente e promesseiros. Uma decisão difícil e até impensável. Porém, inquestionável diante de um vírus letal, de um inimigo invisível, avassalador, cruel que se alastrou vertiginosamente parando o mundo e espalhando dor e luto por milhões de vidas ceifadas – amigos e entes amados, cidadãos de todas as geografias. No entanto, uma tradição singular promovida pelo povo desde 1700 não esmorece e muito menos silencia diante da adversidade. Portando, é na ambiência da profunda religiosidade, mergulhados na memória de cada um e na memória coletiva que os açorianos se preparam para celebrar o Senhor Santo Cristo de um jeito “diferente”.  

Sim, “este ano tudo está a ser diferente” anuncia o Correio dos Açores na edição de 13 de maio, quarta-feira. Uma profusão de margaridas vai ornamentar o chão do coro-baixo, local onde se realizará a Eucaristia de domingo. São milhares de flores oferecidas pelo produtor Pedro Soares e decoradas com arte por Juvenal Martins para quem “as flores são o maior sinal de esperança que se pode ter nestes dias, porque o Santuário é da Esperança e a flor indica que mesmo em tempo de pandemia, a Primavera aí está com todo seu esplendor.” É vida que se renova tendo a esperança infinita como pilar. 

Com absoluta certeza, neste domingo vai ter Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Desta vez, o campo de São Francisco, o Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, as ruas da Cidade Baixa não receberão a multidão de devotos unidos pela força da fé. Desta vez, tudo vai ser diferente!

Enfeite sua casa. Coloque vasos de flores, tapetes, toalhas bordadas nas janelas e varandas e deixe o Senhor Santo Cristo dos Milagres entrar. Deixe Seu olhar derramado de bondade, alento, misericórdia encontrar o seu olhar penitente e fazer do seu coração a SUA morada. Feche os olhos e sinta.

Este ano a procissão de domingo será dentro de cada um.

 

Boas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres!