A Ilha e Alquimia na Arte de Rodrigo de Haro – pintor, poeta, filósofo, dândi

 

     

 

Seremos nós criaturas encantadas?
O sortilégio da Ilha é urgente e definitivo.
Invade a geografia das almas e nunca as
abandona. Por isso estamos aqui, a celebrar
os seus encantos, seus dramas, sua ironia.”
Rodrigo de Haro, Exposição “Fervor da Ilha”, 2002.
Observo o mover dos ponteiros do velho relógio Cuco a reverberar por toda casa o som encantado da Floresta Negra de Schoenwald. Um tocar que não arrefeceu com o passar dos anos – “cuco - cuco - cuu-coo...” Ponteiros e velhos pêndulos que ontem marcavam com lentidão a virada das horas ante a minha pressa de viver e, hoje, disparam velozes  enquanto o tempo irredimível teima em cercear o meu tempo, mas não doma a minha memória. Para lembrar a palavra do escritor açoriano, Emanuel Jorge Botelho (1950), um dos maiores poetas contemporâneos da língua portuguesa: “O tempo só não consegue domar a memória. A memória é felina, trepa até guardar-se, a salvo, no galho mais alto de um sem tempo.” (in: Palavras de Acolhimento. Arquipélago de Escritores,2018). 
Busquei a “memória felina” e retirei de suas gavetas empoeiradas caras lembranças dos anos setenta quando, recém-casada, vim residir em Florianópolis. Anos de efervescência cultural. A cidade esbanjava brilho feérico do acontecer acontecendo e a Ilha desvirginava-se... Foi nesta época que conheci a família Palma de Haro, acompanhando dona Zélia, minha sogra, em visita a sua amiga Maria Palma de Haro. Ambas nascidas em São Joaquim, no planalto catarinense. Numa dessas  visitas conheci o consagrado artista Martinho Haro (1907-1985) e admirei suas pinturas de paisagens e natureza morta. Estava diante do grande expoente da arte pictórica de Santa Catarina que, no final dos anos 30, fora contemplado com o Grande Prêmio de Viagem do Salão de Pintura Brasileira e conquistara uma bolsa para estudar na Académie de la Grande Chaumière em Paris. 
Fico imaginar o que foi viver em Paris num tempo em que a ameaça do iminente conflito bélico aterrorizava a França e o mundo. O que significou para os jovens nubentes Maria e Martinho, em 1938, deixarem a mítica São Joaquim da Costa da Serra? Os contrafortes da Serra do Rio do Rastro blindaram quase que por completo o contato do serrano com o litorâneo, gerando um culture gap que perdurou até 1955, com a inauguração da estrada do Rio do Rastro. Foi nesta sociedade fechada, moldada na vida campeira e no isolamento cultural que desabrochou o talento do jovem pintor Martinho de Haro e seu amor por Maria Palma. 
O nascimento do filho Rodrigo em maio de 1939, no cenário tenso e angustiante da capital francesa, o difícil retorno à São Joaquim no mesmo ano e a mudança definitiva da família Palma de Haro para Florianópolis em 1944 marcaram fortemente a trajetória artística do pai Martinho e do filho Rodrigo. Cada um com sua história, com seu estilo, com seu talento, com seu brilho e juntos na expressão maior da cultura catarinense em dois séculos. 
Aproveito a data evocativa de 30 de outubro de 2020, Centenário da Academia Catarinense de Letras, uma das mais antigas instituições culturais do estado de Santa Catarina, para deambular por caminhos das artes plásticas – pintura e mosaicos – e  das artes literárias – poesia e conto – de Rodrigo de Haro, titular da Cadeira 35 da egrégia Casa de Mnemosine, para reverenciar a monumental obra, a genialidade criativa, o intelectual brilhante, a invejável memória, capacidade de fabulação, a erudição e, sobretudo, o admirável ser humano. 
Conheci-o numa festa de passagem de ano na bonita casa dos amigos, o poeta Osmar e Vaiani Pisani, em Itaguaçu, com deslumbrante vista para a Ilha. Era noite de 31 de dezembro de 1971. A elite cultural de Florianópolis festejava a chegada de 1972 e entre estes se destacava a inconfundível figura de Rodrigo de Haro, acabado de chegar do eixo Rio-São Paulo depois de uma exitosa digressão artística. Rodrigo flanava entre os convidados como um dândi tal o gosto apurado, o glamour e o requinte com que portava o terno de linho branco, a gravata borboleta e um lenço de seda na lapela. Parecia o protagonista “Jay Gatsby” saído das páginas do famoso romance O Grande Gatsby, obra prima do autor americano F.Scott Fitzgerald e um dos grandes clássicos da literatura. Assim é Rodrigo de Haro naturalmente, dono de uma elegância tão sua no jeito de ser e estar que o identifica e marca a sua personalidade solar e também sua Arte – pictórica e literária – “rodrigueana” em paráfrase ao curador paulista Fábio Magalhães (1942). 
Foi no alto do Morro do Assopro, junto à Igreja N.S.da Conceição, numa casa erguida no século XVIII por calejadas mãos açorianas das Ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira, os primeiros moradores da “Freguesia Nossa Senhora da Conceição da Alagoa”, fundada em 1750, que Rodrigo de Haro ergueu o seu universo mágico. Ali, no recôndito do seu ateliê, que se faz ouvir como cidadão da Ilha e do mundo.  
Aos oitenta e um anos Rodrigo de Haro é dono de uma obra de grande qualidade genética e de um estilo único (o dele) fascinante e que fascina. Não consigo imaginar o Rodrigo longe da sua arte, impedido de escrever e pintar. Seria como tocar numa mimosa pudica... o fenecer anunciado. Também não consigo separar o poeta do pintor. Nem sei aquilatar onde começa o Rodrigo escriba, provocativo, sedutor, misterioso, extraordinário e onde termina o Rodrigo o pintor, a pujança cromática em movimento e luz fulgente. Estamos diante de uma pintura literária e uma poesia visual, de vanguarda, ou seja, a imagística pictórica na poesia.  Aliás, o próprio Rodrigo de Haro assim se manifestou, em entrevista dada ao jornalista e biógrafo, Moacir Pereira, e publicada no Rodrigo de Haro: um poeta humanista (2018:67): “Não existe esta linha divisória, porque a poesia é constituida toda ela de cores e ritmos.” E continua no seu pensar...
Porque não é a arte senão o reflexo dessa dança emoldurada pelas coisas, pelas belezas das formas,pelo horror das formas, pelo temor da morte, pela consciência da finitude,pela percepção da permanência do amor,pela percepção,enfim, da nossa realidade.                       
(2018:67)
Eis a alquimia que está na essência da arte verdadeira de Rodrigo de Haro! A transformação em linguagem simbólica. Tudo transfisgura em beleza, alegria, paixão. Mesmo em se tratando do horror das formas, a morte, o sofrimento. Recordo o quanto admirei a belíssima pintura “Decapitação de João Batista” do pintor italiano Caravaggio, de 1608, na igreja de São João Batista em La Valetta, Malta. Não canso de sublinhar “a beleza do espanto,” expressão do poeta Ferreira Gullar, das pinturas noturnas da Ilha e seus mistérios anímicos, como “Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa”, 100 x 150 cm e a “Igreja da Lapa do Ribeirão”, 150 x 100 cm, em Ilha ao Luar (1996). Paisagens enluaradas, embruxadas, alumbradas, impregnadas em cada pedacinho da tela com a magia da ilha, assinadas por Rodrigo de Haro, o gênio que adentra nos mistérios mais profundos e deixa seu olhar onírico percorrer os caminhos da Ilha Kiria Catarina dos navegadores e das rendeiras, Lua! (1996:14). Sim, ele percorreu igrejas, cruzeiros, edificações barrocas com argamassas feitas com óleo de baleia. Cenários sagrados, solos bentos. Cenários açorianos, seculares! Pinturas noturnas desvendadas ao luar, sinestésica do real, “são o fruto de errâncias infindáveis” do pintor e do poeta. Em cada página, textos manuscritos a cercar-nos com sua prosa poética onde bailam palavras encantadas, estéticas, esculpidas com elegância. 
Rodrigo de Haro é um poeta vincadamente universalista, marcado pelos espaços telúricos – Gaia e por suas raízes catarinenses do Brasil e ibéricas dos Açores – o mar, o espírito da ilha, volátil e paradoxal (in: Andanças de Antônio,2005). Uma escrita a espelhar os sortilégios da Ilha,  encantos, mistérios insondáveis, seus dramas e suas ironias, visível em Borboleta Verde ou Guardiã dos Sortilégios (1998), emoldurada por uma açorianidade “de ser e estar na ilha” é tão dramática e irônica quanto bela, cadente, sensível e ao mesmo tempo desassossegada, apaixonante, transbordante de fantasias.
Rodrigo, da obra poética e pictural, é um navegante do tempo a vagar na busca incessante por divindades, lendas, mitologias, crenças, histórias, fadários como a mística das “bruxas da Ilha e seus mistérios”, um tema patenteado de forma recorrente na sua obra. Um tema que sempre me intrigou por seu elo com a história e o fabulário do povo açoriano e a tradição cultural da Ilha de Santa Catarina sobrevivente desde o século XVIII. São exemplares as narrativas dos ilhéus do Pântano do Sul, Lagoa do Peri, Ribeirão da Ilha, Rio Vermelho e da Lagoa da Conceição com sua energia diferente, mágica, uma força que emerge com símbolos e ritos – componentes ornamentais da escrita, da pintura, de iconografias, murais e mosaicos em cerâmicas, expressos numa linguagem eclética, erudita, cênica, refinada, maravilhosa. A figura feminina e seus mistérios integram a arquitetura sacramental do ciclo da vida. E como tal, as bruxas. É preciso conhecer o simbolismo  –  a mulher benzedeira com suas rezas, tisanas,mezinhas, sabedoria do secreto – conhecimento que vem da natureza, das fases da lua, do movimento das marés. É o encantamento do eterno feminino, dos mistérios da fecundação, que subjaz em toda cultura, ensina o mestre Rodrigo.
Na cidade criativa da Pedra Branca, no município de Palhoça, ergue-se uma obra de grande força divinatória  e contemporaneidade: Tarot da Pedra Branca. Em 22 totens, 22 cartas de Tarot eternizam a arte mural,estilo veneziano, de Rodrigo de Haro. Na transposição criativa dos 22 desenhos e na execução da obra o talento do artista Idésio Leal, o discípulo, o parceiro, o amigo.
É notável a profunda reverência à Santa Catarina de Alexandria, padroeira do Estado e da Ilha de Santa Catarina. Em Mistérios de Santa Catarina,1992, o autor apresenta magnífico estudo literário e hagiográfico desta santa e sábia da Cilícia e do Egito, seguida de vinte e dois  poemas e ilustrações. Ao dar à Ilha e às terras do continente em frente  o nome de Santa Catarina, o navegador Sebastião Caboto, em 1526, uniu para todo o sempre o nosso destino à figura mítica da mulher, Santa Catarina de Alexandria, que representa gnosis, o conhecimento. Ao retratá-la na prosa, no verso, na pintura, Rodrigo de Haro convida-nos a evocar Santa Catarina de Alexandria e conhecer plúrimas significações.
Evocar Santa Catarina é evocar
as mandalas gnósticas, 
os sefirots da árvore da vida,
os mistérios da Cabala
e o círculo da lua; (1992:55)
Rodrigo de Haro, na alquimia da sua arte, confessa seu  amor incondicional à Ilha de Santa Catarina. Desterro e Florianópolis a sua grande paixão configuram o universo “rodrigueano” perenizado na profícua produção poética e pictórica que se impõe, na extravagância abstrata, colorida, ousada, plena de louvor às criaturas e a humanidade. Sua arte unívoca sente o pulsar da Ilha, do vento sul, do cheiro da maresia, do cerco do mar, dos saberes, dos cantares, das açucenas e Marias-sem-vergonha, da sensualidade dos corpos, de tudo e de todos. Respira o lugar, o tempo ilhéu, desde seu grande mundo-ilha. 
A Ilha é galopada pelos cavalos
da memória, azuis e negros.
A Ilha desconhece o esquecimento, cipreste
branco. Espumas e pedra.
  Rodrigo de Haro 
(fragmento do poema Desterro, 2002)