Espírito Santo unificador em terras de São Paulo - O berço paulista dos açorianos -

 

Lembro-me bem!  Foi na primeira década do século XXI que conheci a Vila Carrão, onde hoje concentra-se a maior população de açorianos e seus descendentes, sendo grande parte de micaelenses, e a Casa dos Açores de São Paulo, fundada em 22 de junho de 1981. O primeiro convite partiu do “Seu João açougueiro”, açoriano da Ilha Terceira, proprietário de um açougue na Vila Mariana. Era assim que a minha irmã Célia chamava ao simpático comerciante João Pires Pereira casado com a madeirense Maria Justina Vieira, e foi assim que nos conhecemos, tendo os Açores e a Festa do Espírito Santo como elo unificador. 
Lá se foram quase trinta anos e o tempo imparável não apagou a memória. Ela veio à tona ligeira durante a bela celebração do jubileu de ouro da tradicional Festa do Espírito Santo promovida pela Casa dos Açores de São Paulo. 
Uma história revivida ao receber o comunicado do Diretor Cultural da CASP, Antônio Tavares Arruda. Estava tudo ali nas entrelinhas: o celebrar do Espírito Santo Migrante pelo mundo açoriano, a história da Casa dos Açores, o Grupo Folclórico a levar na dança a alma açoriana, as malassadas, os bolos de massa sovada preparada pelas senhoras da comunidade, delícias de fazer crescer água na boca e ainda, a linguiça portuguesa e a feira de pernil de porco. Fico sabendo pela amiga Maria Leonilda dos Reis Jacob, Diretora Administrativa/Financeira da entidade, que as morcelas preparadas à moda de São Miguel já não mais produzem. Também fabricam as alheiras e folares que são do continente e muito apreciados por cá. Hoje, as senhoras que botavam literalmente a mão na massa estão no comando da confecção desses produtos e orientam a jovem geração de descendentes e os brasileiros que foram se aproximando e ficando... Um bom exemplo é Marcelo Stori Guerra, o jovem presidente do CASP, brasileiro, mas de coração açoriano. Tem razão Antônio Arruda ao ressaltar de forma enfática “que a esta altura faz gosto ver as novas gerações se apropriando destas tradições e festejos e, não só isso, como também a crescente participação de brasileiros simpatizantes”.
Acredito que a festa popular da Vila Carrão, em louvor ao Divino Espírito Santo, realizada pelos açorianos e seus descendentes seja a maior festa religiosa da comunidade portuguesa de São Paulo, tal como a Festa de Nossa Senhora Achiropita, da comunidade italiana no bairro do Bixiga. 
Não estive na celebração dos cinquenta anos da Festa do Espírito Santo lá na Vila Carrão, como tanto pretendia e até prometi que iria.  Pois, naquele domingo de Pentecoste,19 de maio, estava na serra catarinense, onde meu neto Sebastian foi batizado, sob as bençãos da Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira de Lages. 
A propósito, a póvoa NS. dos Prazeres das Lages foi fundada pelo sertanista Antônio Correa Pinto em 1771 estimulado pelas ideias expansionistas do Morgado de Mateus da Província de São Paulo, D. Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão. Não é de se estranhar, portanto, que os nomes Arruda, Amaral, Bicudo, Borges, Botelho, Furtado, Souza, Medeiros, Oliveira, Vieira, Velho, Rodrigues, Nunes, Silveira, Pereira, Pimentel, Proença, Alves de Sá, estejam presentes na linhagem das famílias pioneiras da serra catarinense e muitas com raízes vincadas no arquipélago açoriano.  Ou seja, os nossos açorianos que povoaram a Ilha de Santa Catarina e todo litoral catarinense há 276 anos e fundaram o “Porto dos Casaes” também fizeram os caminhos dos campos e serras abertos pelos bandeirantes paulistas.
As terras de Piratininga contam a história desta gente açoriana que na sociedade pauliceia tem escrito páginas e páginas de uma brava e singular aventura. Aqui foram povoadores, amainaram a terra, foram tropeiros, fundaram cidades. 
 Sobre os açorianos em São Paulo temos o artigo do poeta e historiador Paulo Bomfim, publicado na revista da Academia Paulista de História há quase meio século. Mesmo com outros estudos recentes, a investigação de Paulo Bomfim é uma fonte preciosa  para bem entender  a mobilidade dos açorianos por terras de São Paulo e sua expansão pelo Brasil Sul, pelos caminhos dos campos de Lages (planalto catarinense) e na extensa campanha gaúcha, longe do litoral. Na historiografia serrana desponta o nome de António José Alves de Sá, primeiro prefeito de São Joaquim da Costa da Serra no ano de 1887. Suas raízes Alves de Sá entrelaçadas às famílias Amaral, Souza, Mattos remontam aos Açores, conforme conta Ismênia Ribeiro Schneider em “O Voo das Curucacas: estudo das famílias Serranas de Santa Catarina”, publicado em 2013 pelo Instituto de Genealogia de Santa Catarina/INGESC. 
Açorianos de São Paulo e açorianos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul levaram debaixo da pele seus costumes que se mesclaram na terra virgem e aqui estão refletidos no entrudo, nas cavalhadas, nas promessas à Santo Antônio – o santo casamenteiro, nas quadrilhas e fogueiras de São João e São Pedro, no canto das violas e nas “nossas Chimarritas”, na religiosidade popular e nas Festas em louvor ao Divino Espírito Santo. Como bem escreveu Onésimo Teotónio Almeida: “tens aí um bom exemplo, a festa do Espírito Santo, para confirmares que a cultura é transportada, consciente ou inconsciente, nos hábitos e costumes das pessoas e que ao emigrarem, já os têm estruturados e interiorizados.”
Os pioneiros açorianos estabelecidos na Província de São Paulo chegaram ainda no século XVI na baixada santista e litoral vicentino: João de Abreu, da Ilha Terceira e os irmãos António Carneiro Bicudo e Vicente Bicudo, oriundos da Ilha de São Miguel, sendo que Vicente faleceu em 1616 numa bandeira em terras catarinenses. Não posso deixar de referenciar a grande descendência da família Cabral, da Ilha de São Miguel, em solo paulista e catarinense desde o século XVII e XVIII. Entre as mais antigas famílias paulistas e catarinenses os “Cabrais,” tanto dos Açores como do Sul do Brasil, chegam ao século XXI com uma projeção política e cultural reconhecida. 
Ao cabo, relembro duas histórias de admiráveis ilhéus por sua vida aguerrida e significativa contribuição no desenvolvimento do sudeste e sul do Brasil.
São narrativas quase lendárias, como a dramática fuga dos colonos ilhéus de Casa Branca (SP) para o Rio de Janeiro em fins de 1815, seis meses após a sua chegada aos sertões paulistas, relatada na obra “Viagem à Província de São Paulo” do naturalista Auguste de Saint Hilaire que esteve no Brasil entre 1816 e 1822. Uma aventura desesperada, atravessando rios e selvas por 300 km, para chegar à corte e, prostrados diante de Dom João, o Príncipe Regente, relatarem as agruras e o total desamparo dos vinte casais açorianos (com cinco filhos ou mais) largados à própria sorte. Seduzidos por promessas reais foram abandonados em péssimas paragens, num solo pobre de baixa fertilidade, imprestável ao cultivo agrícola, especialmente da cana-de-açúcar. Os solicitantes queriam as boas terras prometidas. Sua insatisfação e a fuga, liderados por Manoel Espindola Bettencourt, causaram sérios problemas na burocracia da corte carioca e no governo de São Paulo. Ou, ainda, a história incrível das famosas “três Ilhoas”, Antónia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus, naturais da Freguesia Nossa Senhora das Angústias, Horta, Ilha do Faial, imigradas em 1723 e assentadas em Minas Gerais. Até hoje, as irmãs são referências da memória coletiva e da genealogia regional por seu caráter visionário e matriarcas notabilizadas por sua progênie ramificada por Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
Neste passeio memorial inspirada no Espírito Santo unificador dos açorianos por caminhos da emigração, também ELE um migrante, por terras de Piratininga me surpreendi com os notáveis marcos da história da imigração em São Paulo, berço de tantos descendentes de ilhéus e ilhoas  – nomes perdidos no tempo, porém portadores dos mesmos cromossomos e unidos pela fé no Divino Espírito Santo.