Fruta do Chão – Fruta del Suelo

 

 

Aqui dir-se-á tudo, mas francamente, sem se ter a certeza de nada, pois assim se fazem todas

as histórias”

João Pedro Porto, Fruta do Chão

 

João de Melo, açoriano da Ilha de São Miguel e, na minha opinião, um dos maiores escritores da literatura ibérica contemporânea, quando do lançamento do livro de contos  “Navios da Noite” ( Dom Quixote,2016)  confessou : “ É frequente em mim a tentação literária do conto – tanto na vertente criativa  como nas leituras”.  Uma tentação que identifico presente também em João Pedro Porto, autor de “Fruta do Chão” (Letras Lavadas, 2018), uma antologia de contos, em versão bilíngue, traduzido para o espanhol por Blanca Martin-Calero. Cabe destacar que o conto de abertura e que dá nome a esta antologia foi premiado com a inclusão na primeira antologia do Centro de Estudos Mário Cláudio de Venade, Portugal, “O País Invisível” (2016).

Não seria esta tentação, este gosto estético profundo visível no seu discurso, no tema de eleição, uma herança de outro contista açoriano, enorme na sua arte literária – Fernando Lima, seu avô?  O mesmo Fernando Lima que fez parte da geração de quarenta e fundou o Círculo Literário Antero de Quental, nos Açores (CLAQ), com a pretensão de promover a revolução dos costumes literários, acabar com o conservadorismo de Ponta Delgada e a difusão do movimento modernista na Ilha. Tal como o neto, no vigor da juventude, ansiava por mudanças e pela liberdade criativa numa sociedade insular refratária aos ventos das mudanças culturais que sopravam de toda parte.

É o que retrata a narrativa aprimorada e corajosa do João Pedro Porto, uma das jovens vozes literárias dos Açores.  Um trabalho de resistência, de afinco, de cuidado com o detalhe até o ponto final. Uma exigência de um esteta no burilar da palavra como uma pedra de toque.  O autor, João Pedro, aventura-se na geografia das palavras, criando-as e dinamizando-as como o Disco de Newton na composição da luz branca. O resultado é uma escrita cênica, elegante, rica no uso de uma imensa quantidade de vocábulos, sem qualquer esnobismo. Apenas o de ser, aos 35 anos, um artífice da palavra. Não é por acaso que o escritor Vitor Hugo Mãe quando do lançamento do romance “A Brecha (Quetzal, 2016) escreveu: “Sabemos que lemos um moço de 30 anos, mas reverberam séculos nas suas construções, admiravelmente eruditas na junção do que é literário e do que poderia ser recolhido nas praças mais maduras. Um invasor absoluto, um denunciador. João Pedro Porto é cénico, performativo, esdrúxulo, temperamental, mas sem arrogância.  Apenas luxuoso, desse luxo de poder fazer.”

Já não preciso dizer mais nada!

Fruta Do Chão é o título desta coletânea de oito contos selecionados entre os muito publicados em revistas e suplementos literários como a Editora Seixo Publishers, o número inaugural da Revista Literária Grotta ou o Suplemento Artes & Letras do Jornal Terra Nostra e do Açoriano Oriental.

Mas é também o título do conto vestibulando desta preciosa coletânea que surpreende-nos pela rica linguagem e o uso de metáforas certeiras como o de um bisturi a chegar lentamente ao âmago: “somos todos frutas do chão”.

O conto Fruta do Chão uma narrativa belíssima a falar dos sonhos de dois jovens Clarissa de Foradolhos (Minho) e Anselmo da Fajã Foradolhos da Ilha de São Jorge (Açores). Uma história como de tantos jovens neste mundo de Deus que sonham em sair do seu mundinho que os sufocam e correr para o abraço da cidade grande “a capital absconsa em lonjuras e tão perto na imaginação.” (p.10). A noviça dissidente, Clarissa e Antelmo, o seminarista. Dois protagonistas diferentes no percurso de vida, iguais nos sonhos, nos desejos, na ânsia da fuga. Não existe taramela na imaginação. Ela voa liberta. A narrativa segue num ritmo andante enquanto correm paralelas as duas histórias de vida. Dois passaportes para o mundo, para a capital Lisboa. Para Clarissa é a Sra Monforte, a Carmo – “O tempo só corre e anda pelas cidades, sabes?” (p.19), já Antelmo “escolhera a ascese do Seminário como quem escolhe corda de maroma para  descer de um varandim.”(p.12). Era o instrumento certo para levá-lo à capital. A Ilha, os sons, o verde a bruma, o cerco do mar e o bilhete para o Araújo. “Antelmo acordara para essa realidade como se rebotasse novo homem.” (p23). No desfecho do conto o Arco da Rua Augusta é o palco aberto para as duas personagens: Clarissa e Antelmo passam um pelo outro... E se, o leitor desavisado imaginou que neste momento, sob o Arco da Rua Augusta, os dois se encontraram e uniram sonhos... Equivocou-se. Seria óbvio demais. E, João Pedro não facilita-nos a vida:

 

“Clarissa olha à sua vesga. Antelmo também. E se, por momentos um errasse na direção, tomaria os olhos, marinhos ou de mogno, do outro. Não se vêem.

E o Tempo corre”(p.29).

 

O conto “A morte do velho Facas” tem por cenário a Lisboa antiga, da Rua do Cura e o Chafariz das Janelas Verdes. A Morte apaixona-se pelo velho pianista Facas-Lazar e sente-se insegura de sua missão. No tabuleiro de xadrez o jogo da vida e da morte. “A Morte já não era a mesma. E o velho teria sido sempre ele próprio” (p.32). Na rica narrativa o caminhar do homem e o entendimento da sujeição da morte estabelecida tal qual os pulsos sonoros do metrônomo na marcação do andamento musical. Todavia, sem usar um método rígido e sim deixar a estória seguir livre, improvisando compassos. Afinal, na “coda da estória”: “Não haverá, de longada nem louvor, melhor estória contada sobre o amor, que a de um velho pela Morte”. (p.56).

Ao cabo e sem mais delongas, limito-me a citar brevemente os outros contos incluídos nesta deliciosa antologia “Fruta do Chão” de João Pedro Porto. São eles: “O Homem da Massarda” – o personagem Massarda da sua inicial negação de nunca comer chocolates a encontrar metafísica no chocolate ou sentir prazer hedônico no rasgar o papel prateado do chocolate; “Traz contigo os Barcos” – Eugénio Mansarda, o protagonista –  resolve dar a comer um barco à alma e parte como um arroubo da juventude. “ Escolheu o barco e saciou a alma” (p76); “ Indesatável” –  Vitorino e Natália, desencontram-se entre  narcolepsia e insônia, resultando numa tragicomédia de dois atos, esclarece o autor, e bem merece a encenação e o aplauso; “O Clube dos Solitários” – a singular estória do Clube de duração mais efêmera de que se tem notícia. Fundado pelo viúvo Erman Fita. Inaugurado e desfeito no mesmo momento pelo simples fato de que seus sócios ao se encontrarem não eram mais “solitários”; “O Homem que vendeu o Mundo ao cimo das escadas” e “A Cerimônia” – a encerrar esta breve antologia está um conto curtíssimo, não mais que treze linhas, onde João Pedro com maestria coloca o leitor frente a um imbróglio envolvendo o médico fisiatra M.Vautour ao ter que receber um prêmio no mesmo dia em que é condenado.

São estes os contos que compõem o universo   ficcional imaginado de João Pedro Porto em “Frutas do Chão”. Se o seu quarto romance “A Brecha” foi considerado uma obra difícil, os contos também não são nada fáceis. Um conjunto de oito contos densos a oferecer inúmeras pistas de reflexão na urdidura da trama, da história, do conteúdo. Construções admiráveis concebidas tanto pela imensa capacidade de fabulação quanto pela incrível habilidade de cinzelar a linguagem.

Uma produção literária intensa, rica e impetuosa  espelhada na publicação de livros, de artigos em jornas, revistas e suplementos literários. São também suas as letras do álbum “Terra do Corpo” (2016) e “Sol de Verão” (2018), da Banda Medeiros/Lucas, numa confluência entre a literatura e a música na criação do jovem João Pedro Porto, um nome referencial da nova geração de escritores natos no arquipélago dos Açores. São Ilhas de Fênix, sem nunca ficarem pelas cinzas, como bem vaticina João Pedro. Concordo, ipsis litteris, sem pestanejar!