Laelia Purpurata, a rainha das Orquídeas do Brasil

 

      

 

À Raulino Reitz, “ o padre dos gravatás - 1919-2019         

A enorme procissão percorria as ruas de Florianópolis passo a passo. Era 25 de novembro, dia da Festa de Santa Catarina de Alexandria, a Padroeira do Estado. Seguiam enfileirados as autoridades civis e eclesiásticas, as irmandades, os fiéis e a centenária Banda de Amor à Arte. Junto aos fiéis destacava-se o andor com a bela imagem de Santa Catarina envolta em mar de flores. Centenas de orquídeas da espécie Laelia purpurata uma das mais nobres orquídeas brasileiras e que tem nas terras catarinenses seu abençoado berço esplêndido. O fato digno de registro aconteceu em 1942 e o autor de tão bonita e sublime ornamentação foi o saudoso orquidófilo Campolino José Alves.

Já nasci sabendo que a Laelia purpurata é a “Rainha das Orquídeas do Brasil”. Também conhecida com outros títulos de igual nobreza como “Rainha das Selvas do Brasil Meridional” ou “Rainha das Laelias.” De rara beleza, esta flor epífita pertence à Família das Orquidaceae, tendo o nome científico de Laelia purpurata.

Seu nome popular é “Lélia”. Este foi o nome que recebi na pia batismal por sugestão do cônego Dr Raulino Reitz  feita ao meu pai, Joaquim Pereira da Silva. Meu pai era fotógrafo e entre os anos 45 e 52 acompanhou algumas vezes o grande botânico catarinense em suas incursões por nossas matas pesquisando a rica flora do Estado barriga-verde e durante a campanha de erradicação da malária endêmica na cidade de Brusque.

Assim, antes de tudo, quero saudar o centenário de nascimento do ilustre botânico, o catarinense de Antônio Carlos, Padre Dr Raulino Reitz, nascido a 19 de setembro de 1919. Reverenciar a sua grandiosa e relevante obra e a contribuição para os estudos científicos de Botânica, descobrindo aproximadamente 350 espécies novas e oferecendo a descrição de oito novos gêneros de plantas. Durante a campanha da malária catalogou as Bromélias na região de Brusque e identificou os possíveis focos do mosquito transmissor da doença. O que lhe valeu a alcunha de “padre dos gravatás”.

Coube ao Padre Dr.Raulino Reitz a iniciativa de promover a Laelia purpurata flor símbolo de Santa Catarina, através da Lei n° 6.255, de 21 de julho de 1983, sancionada pelo Governador Esperidião Amin Helou Filho e identificado o táxon Laelia Purpurata Lindley, variedade “purpurata” em 13 de dezembro do mesmo ano. Florianópolis, vinte cinco anos depois, instituiu a Laelia Purpurata como a flor símbolo do município, conforme Lei N°7037  sancionada pelo Prefeito Dário Elias Berger em 16 de maio de 2006.

A nossa flor símbolo provoca um sentimento arrebatador nos amantes cultivadores, colecionadores ou simplesmente encantados, como eu, pela Laelia Purpurata e sua beleza exótica e singular. Na verdade, as orquídeas, ao longo dos séculos, sempre personificaram o imaginário das pessoas como a Vanilla por seu perfume intenso e fugaz. Outras deslumbraram pela forma elegante da flor e pela variação cromática. É inegável que estas belas flores da família das Orchidaceae, cujos primeiros ancestrais apareceram há muitos milhões de anos, habitam o imaginário mítico da humanidade. Fazem parte de lendas e crenças como portadoras de poderes mágicos, sortilégios e de sedução. Na Literatura sua presença é marcada por sensualidade e mistério, como no livro Black Orchids (1942), contos policiais de autoria do escritor americano Rex Stout. Na música letras cantam as orquídeas com uma aura de paixão, de amor total e ao mesmo tempo de mistério. O cantor Stevie Wonder compôs Black Orchids (1979) e canta a flor como símbolo de feminilidade. No Brasil há inúmeras musicas com letras que exaltam as qualidades míticas das orquídeas. Por exemplo, Zé Ramalho em belíssima e poética letra fala da “flor agonia”  em Orquídea Negra (1983) e Djavan com Orquídea (2018), brinda-nos com uma ode de amor à “flor sedução”.

Existem mais de 30 mil espécies em todo mundo e uma produção literária colossal representada por incontáveis artigos científicos, publicações de apaixonados colecionadores e de inúmeros viajantes estrangeiros dos séculos XVIII e XIX que vislumbraram a beleza e a imponência das orquídeas  registrando em crônicas de viagem. Um precioso acervo em minuciosos desenhos, aquarelas, litografias e descrições fascinantes sobre a nossa exuberante flora e a fauna. Relatos salvos do anonimato graças a obras como Desterro, Ilha de Santa Catarina. Tomo I e II (C.Cinema N.S. Desterro, 2010) de Gilberto Gerlach

As orquídeas estão no Brasil há milênios.

E, em Santa Catarina quando a Laelia Purpurata foi descoberta?  Já conhecida pelos ilhéus e moradores do litoral catarinense, a sua descoberta para a ciência ocorreu em 1846 pelo floricultor belga François Devos, na então Província Imperial de Santa Catarina. Floresceu pela primeira vez fora do seu “habitat” natural em 1852, na Inglaterra. O famoso botânico John Lindley classificou e a descreveu cientificamente como Laelia Purpurata, em Londres na “Royal Horticulture Society,” no mês de junho do mesmo ano. Começa sua coleta intensiva e discriminada, sendo largamente exportada desde o porto de Desterro para a Europa. No inicio do século XX o Estado foi considerado o maior exportador de orquídeas do Brasil Meridional, colocando em holocausto a sobrevivência da espécie tamanha a devastação criminosa. Guardo na memória as imagens dos “vendedores de orquídeas” sentados ao longo da BR 101, do norte ao sul do litoral catarinense. O artista tubaronense Willy Zumblick pintou diversas telas retratando este comércio devastador, como o expressivo “Vendedores de Orquídeas,”(1986).

Conheço muito pouco da literatura pertinente a nobre Laelia Purpurata. A primeira leitura foi “Orquídeas Catarinenses”(1945) de autoria do Coronel Antônio Lara Ribas. Há muito esgotada e reeditada em 1968. Uma terceira edição saiu em 1986, pela IOESC. Ao lado da competente carreira militar, o Coronel da PMSC Lara Ribas era um apaixonado e renomado conhecedor das orquídeas nativas. Sua obra é um marco na história da Orquidofilia & Orquidologia catarinense. “A Ilha de Santa Catarina é verdadeiramente o paraíso das orquídeas, servindo de ‘habitat’ predileto da Laelia purpurata, que nela conta com variedade assombrosa e de difícil catalogação pela diversidade e estonteante extravagância nos seus coloridos e pormenores florais...”  (Ribas,1986)

Em abril deste ano fui ao lançamento do livro “Orquídeas Nativas de Florianópolis” (Ed.doAutor:2019), tendo por subtítulo as palavras: “Conhecimento,  Educação e Conservação”. Seu autor, o geógrafo Marcelo Vieira Nascimento que além do conhecimento técnico traz impregnado na pele a paixão pelas orquídeas e em especial pela aristocrática Laelia Purpurata. O que não me surpreende em nada. Marcelo é ilhéu, do Morro do Tico-tico, ali na Rua Clemente Rovere. Nasceu na Maternidade Carlos Corrêa. Nasceu em tempo de florada das orquídeas, num de final outubro. O Morro do Tico-tico da sua infância se vestia de amarelo do Garapuvu e dos tons púrpura, vermelho-carmim, fúcsia, rósea, lilás e branco das orquídeas que ornamentavam as matas e as pedras. Tinha doze anos quando se interessou pelas orquídeas. Moveram-se as pás do moinho do tempo e hoje Marcelo Vieira Nascimento é uma das maiores autoridades do Brasil e o maior de Santa Catarina no conhecimento técnico e científico da Orchidaceae. Aqui está a maior prova – a publicação do fascinante “Orquídeas Nativas de Florianópolis”. O Brasil tem a tradição de contar com ótimos pesquisadores, orquidófilos e botânicos, especialistas no trato dessas exóticas plantas. Contudo, não tenho conhecimento de publicação recente sobre orquídeas com a magnitude da obra assinada por Marcelo Nascimento. Traz um conteúdo de grande abrangência e de inegável riqueza de informações e de dados investigados à exaustão pelo desejo ímpar de dar a conhecer de maneira completa tudo sobre as orquídeas nativas da Ilha de Santa Catarina. Estamos diante de um livro de conteúdo técnico e científico valioso, de um excelente ensaio literário onde a escrita flui rica, escorreita e apaixonante e de uma obra de arte inestimável.

Marcelo conduz sua pena a flanar pela Ilha passeando pela historia da ocupação de Desterro, depois Florianópolis, destacando aspectos culturais e sociais. Segue descrevendo a sua geografia, o clima, a paisagem, identificando o ambiente ideal para o desenvolvimento das orquídeas. Dá o seu recado sobre a necessidade urgente de estabelecer politicas públicas para a salvaguarda e preservação das orquídeas com ações de conhecimento, educativas e de proteção. Em alguns capítulos conta com parceiros que colaboram nesta odisseia por caminhos de Florianópolis e do universo idílico das Laelias purpuratas. Já na Introdução deixa claro o caráter científico preparando o leitor para o que vai encontrar nas 473 páginas. De cara fica-se sabendo que “no Brasil existem 2480 espécies e 220 gêneros, em Santa Catarina têm 528 espécies e 114 gêneros e em Florianópolis estão anotados 287 táxons, sendo 285 espécies e mais 2 híbridos naturais pertencentes 97 gêneros de Orchidaceae” (p.12).

Há um cuidado meticuloso não apenas com a informação técnica, desde a morfologia, estrutura botânica das orquídeas, suas espécies e gêneros das nativas de Florianópolis como também com a diagramação e composição gráfica e artística, sobressaindo belíssima fotografia e fascinante iconografia colorida de encher os olhos e que se derrama por toda a publicação. Sobrelevo as sublimes ilustrações científicas executadas pelo talentoso grupo de artistas da “Nacasa”, sob a coordenação do biólogo e ilustrador Leandro Lopes, presentes no capítulo “As variedades horticulturais da Laelia purpurata.”

Fiquem certos que “Orquídeas Nativas de Florianópolis” chegou para engrandecer a ciência, a história, a literatura e a cultura de Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, e de toda Santa Catarina.

No cantar do poeta, no olhar apaixonado e “orquidolatrado” de Marcelo Vieira Nascimento, no coração da nossa gente, na celebrizada arte pictórica dos saudosos mestres catarinenses Eduardo Dias, Martinho de Haro, Willy Zumblick e no pincel consagrado dos ícones da pintura contemporânea, Juarez Machado, Rodrigo de Haro, Sílvio Pléticus e Vera Sabino, a Laelia Purpurata está assegurada para todo sempre como a nossa “Rainha das Orquídeas do Brasil” e flor símbolo da nossa terra.

Alguém duvida da sua majestade?  Então, espere o mês de novembro chegar e a floração da Laelia Purpurata acontecer em toda a sua plenitude e lindeza.

Saberá!