Ponte Hercílio Luz, o fetiche ilhéu

 

     

 

A Ponte Hercílio Luz elevou o sonho ilhéu de liberdade.É o cordão umbilical que ligou Florianópolis ao continente em frente, ao resto do estado, ao país, ao mundo, acabando com seu isolamento, vindo a mudar a vida social, econômica e política da provinciana capital de Santa Catarina, uma deliciosa vila presépio que se derramava em direção à península e se esgueirava pelas encostas do Morro da Cruz, enquanto chácaras, casas solarengas e as mansões ficavam junto da baía norte.   

Entre muitos significados, a ponte é o abraço materno que nasce nos imensos braços de ferro negro afagando com carícia suave o ir e vir de seus filhos. É a ponte-mulher apaixonada que namora o mar e se deixa seduzir brejeira pelo vento sul...

Há nela um fascínio, um poder mítico que se faz presente no dia a dia de quem vive na nossa Florianópolis ou está aqui só de passagem. Cantada em prosa e verso, escrita na arte pictórica, no desenho, na cromacia das aquarelas em imagens oníricas, na arte fotográfica - o poema em preto e branco a mexer com o imaginário. Ou, ainda, os registros instantâneos em milhares de selfies.  Não tenho a menor dúvida. Temos aqui um caso de amor incondicional, desnudado por tantas gerações, como veias abertas, o amor maior tal qual poetou Vinicius de Moraes – “Fiel à sua lei de cada instante/ Desassombrado, doido, delirante/Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

A ponte não trouxe apenas um novo grafismo urbano para a Ilha-Capital.  Flutuou nos ares, a 13 de maio de 1926, cinco mil toneladas de aço, a 28 metros do nível do mar, sobre o canal do Estreito.  Até então toda a comunicação com o mundo era feita pelo mar com paquetes, vapores - os navios da Cia. Nacional de Navegação Hoepke. Florianópolis se modernizava e assumia ares de urbanidade. Sinal dos novos tempos. A cidade deixava para trás o pacato passado e se agarrava à crina do futuro com promessas de grandiosidade.

Na primavera de 1922 do sonho visionário, obstinado do governador Hercílio Luz nascia uma obra que mudaria a cara de Florianópolis para sempre. Tomou forma, mudou a paisagem e a vida da cidade e de seus habitantes que acompanhavam assombrados o avanço das obras, o alçar ao céu das duas torres com 74,2 metros de altura que sustentariam os 339,47 metros do vão central daquela que seria a primeira ponte pênsil da América Latina. Hercílio Luz, o governador arrojado, não assistiu a inauguração de sua grande obra cujas torres em outubro de 1924 já se erguiam majestosas. Estava gravemente doente e muito debilitado. No entanto, o povo prestou-lhe uma última homenagem ao realizar a inauguração simbólica da ponte que deveria se chamar Ponte da Independência. Uma miniatura foi construída entre o Miramar e a Praça XV com 18 metros de extensão. Hercílio Luz apoiado em sua bengala atravessou-a, lentamente, sob o aplauso comovido e muitas lágrimas de reconhecimento ao grande homem e ao seu governador de tantas realizações. Faleceu no dia 20 de outubro de 1924 e uma semana antes de sua morte a Ponte recebeu o seu nome em merecido reconhecimento.

Em janeiro de 1926 a ponte foi concluída, porém não havia como chegar até ela. Os acessos na cabeceira insular foram bastante dificultados pela estrutura geológica da área coberta por rochas e havia, ainda, um cemitério pelo meio do caminho que precisou ser transferido.

Finalmente, a 13 de maio de 1926, abaixo de forte chuva e um vento sul que bailava sobre a cidade, às 13 horas a Ponte Hercílio Luz foi inaugurada. O mau tempo não empanou o brilho da histórica solenidade que entregou aos 41 mil habitantes de Florianópolis uma magnífica obra fruto da ousadia de um governador, marco da engenharia de alta complexidade e belo exemplar do estilo arquitetônico Art déco  do inicio do século XX.

Com certeza, muita água passou por baixo da ponte e muito vento sul ou nordeste balançou suas torres desde aquela noite de 22 de janeiro de 1982 quando, por segurança, a ponte foi fechada. O sentimento de profunda tristeza que se abateu sobre a população, a melancolia estampada no olhar ao contemplá-la, anos a fio, no limbo (nunca no esquecimento), deu lugar à bendita esperança. Primeiro com o reconhecimento como Patrimônio histórico, artístico e arquitetônico do município em 1992, depois no âmbito estadual em 1997 e, finalmente a 15 de maio de 1997 era tombada pelo Iphan como Patrimônio Cultural Brasileiro.

O medo da população que a ponte desabasse num dia de forte vento sul foi aos poucos amainado pelo compromisso irrevogável e oficial do poder publico, municipal, estadual e federal, de proteger e manter a ponte Hercílio Luz em pé.  Afinal, no ano de 2005 foi dado o inicio as obras de sua restauração, sendo que o contrato para a última etapa das obras de restauro  foi assinado em 10 de março de 2016 entre o governo de Santa Catarina e o grupo português Teixeira Duarte, conhecido não apenas por sua capacidade tecnológica adquirida e implantada ao longo de 98 anos no mercado, como também pelas grandes valias e pioneirismo na construção e gestão de grandes empreendimentos, incluindo a recuperação de patrimônios edificados. A Teixeira Duarte assumiu o compromisso com o povo de Florianópolis, com a sociedade catarinense – o de entregar totalmente recuperado, o símbolo maior de uma ilha, de um estado, de um povo orgulhoso de sua história.

No próximo dia 30 de dezembro, em grandes festas, será reinaugurada após quase trinta anos de indecisões administrativas, sucessivas licitações, atrasos homéricos, debates calorosos sobre a recuperação e sua incorporação ao sistema viário entre Ilha – Continente – Ilha.  Apesar de todos os perrengues a Ponte Hercílio Luz nunca foi abandonada por sua gente. Manteve—se altaneira, em doce hibernação, com suas 360 barras de olhal a sustentá-la e o forte pulsar de mais de meio milhão de apaixonados corações florianopolitanos torcendo por sua redenção.

Termino cantarolando os versos do poema-canção de Luíz Henrique Rosa (1938-1985): “Ponte Hercílio Luz”: E hoje és cenário / De nossa tradição/ De força, da missão de glória/ Tem nossa gratidão/ Tu és eterna joia/Estás no coração da nossa história.