Tony Chaves: o amigo que não conheci

 

     

 

Pretendia, neste primeiro artigo de 2021, escrever uma crônica sobre a satisfação que sinto em publicar no Diário dos Açores e o quanto  sou agradecida ao jornalista Osvaldo Cabral por seu convite. Parece que foi ontem e lá se vão uns bons anos. Cabia até tomar emprestada a frase bordão da antenada Maria Corisca, coluna do Correio dos Açores, e já engatilhar um agradecimento “ao jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio.” Uma colaboração que se estende pelos caminhos da diáspora açoriana na América e Canadá, sendo muito bem acolhida nos jornais Portuguese Times, LusoPresse e Tribuna Portuguesa. Fica o abraço agradecido, pelo imenso espaço concedido, ao seus respectivos diretores: Francisco Resende, Norberto Aguiar,  José e Miguel Ávila e Diniz Borges (Maré Cheia).

Ao cabo, iria comunicar que neste ano de 2021 vou reduzir minha colaboração na imprensa e tratar de avançar com a tese de doutoramento em Literaturas e Culturas Insulares, tendo por tema “Protagonistas Femininas na Literatura Insular: Açores, Madeira e a Ilha de Santa Catarina”. Uma análise comparativa de diferentes olhares dos autores na composição da personagem feminina, protagonista da sua narrativa, na literatura dos Açores, da Madeira e de Santa Catarina em diferentes circunstâncias, contextos culturais, época e tempo de cada mulher. 

Porém, quando o último dia do ano fenecia e o sol de verão se escondia pelas bandas do continente, li nas costumeiras “Notas Bárbaras” do Onésimo Almeida a notícia da morte do seu amigo e colega de seminário, António Dias Chaves, vítima da Covid19, no Umass Memorial Marlborough Hospital. Senti uma tristeza imensa. Inconformada não queria acreditar que o seu António partira. Por ironia do destino minutos antes de ler a nota do Onésimo eu enviara-lhe um email agradecendo a sua gentil mensagem e desejando-lhe um Feliz Ano Novo. 

Às 18h22min do dia 31 de dezembro de 2020 escrevi e cito, sumariando:

 

[...] Bem me disse o “nosso” amigo Onésimo que o senhor entenderia os meus tardios agradecimentos. Reitero meus cumprimentos: seu livro é um documento precioso sobre as tradições marienses do Espírito Santo. Quando sair a nova edição do meu Caminhos do Divino vou enviar um exemplar para que conheça as nossas festas em Santa Catarina.

Hoje, 31 de dezembro de 2020. Este foi um ano difícil que botou nossa vida de ponta cabeça, separou-nos dos familiares e amigos, enlutou-nos com tantas perdas queridas. Deixou-nos órfãos de afetos.

Estamos aqui a esperançar um Feliz Ano Novo. Que venha 2021!

Um abraço de Boas Festas pra si e seus familiares, com muito carinho.

António Dias Chaves era natural da Ilha de Santa Maria e vivia em Hudson (Ma). Em novembro de 2019 publicou “Os Meus Impérios”, livro dedicado “aos seus antepassados foliões e a todos os que defendem e amam o património cultural do Imperio Mariense”. Soube do meu interesse por tudo que se relaciona com as celebrações do Espírito Santo e enviou-me um exemplar do seu livro, acompanhado de uma amável carta, onde dizia ser leitor das crônicas publicadas no Portuguese Times e terminou a missiva dizendo: “Talvez um dia eu possa visitar Santa Catarina, e observar pelos próprios olhos a afinidade que existe com os Açores e com as tradições do Espírito Santo”. 

Respondi-lhe depois de alguns meses e um tanto constrangida com a minha descortesia em acusar a chegada do livro e agradecer por sua atenção. Porém, mais do que agradecer, enfatizei que gostara muitíssimo do Os Meus Impérios por ser obra de grande valor cultural, com registros minuciosos despregados da sua memória, vivências na sua Ilha de Santa Maria e a expansão da tradição levada no coração do emigrante mariense para a América. 

Não estava jogando nenhum confete, o livro é de fato muito interessante, narra a história dos Impérios na dourada Ilha de Gonçalo Velho até os Impérios nas comunidades da diáspora. O nascimento do primeiro Império à moda de Santa Maria, no ano de 1927, em Saugus (Ma) e o surgimento de novos Impérios na Nova Inglaterra, destacando-se o de Hudson.  Afinal, como nos Açores, “a cada canto seu Espírito Santo”. 

Contei-lhe também que, em 2002, conheci a Ilha de Santa Maria e participei de uma das mais bonitas celebrações do Espírito Santo açoriano. Era uma coroação no Império levantado pela  família de Maria Luiza Bairos e António Puim Moura, na Freguesia de Santa Bárbara, Concelho da Vila do Porto. Uma festa linda e um ritual ímpar! Impressionou-me a presença de uma nova geração de açor-descendentes que, mesmo não falando uma palavra em português, seguiam com grande devoção a secular tradição cultuada por sua família. Uma coroação tão singular quanto singela. Já o grupo de foliões, acompanhando passo a passo todo o desenrolar da função, merecia uma citação à parte: por manter no cantar, nos instrumentos e na simplicidade do trajar uma autenticidade, uma auréola de passado fascinante. Porém, mal consegui compreender a letra de sua cantoria. Dizem que são versos “aiados” de influência mourisca. Devem ser mesmo, pois custei a perceber o que cantavam para além do “ai, ai, ai”.

Em dezembro recebi  outro e-mail do novo amigo. Manifestava a sua alegria pela apreciação do livro, por ter visitado a sua ilha e experimentado “in loco” o império Mariense e suas folias. Dizia compreender a minha dificuldade em acompanhar a cantoria dos foliões, pois eu não nascera na Ilha. Algumas linhas depois, confessava:  

Lamento não tem ter aprofundado mais tanto nas folias como em outros tópicos da crença popular, tal como “o Espírito Santo é vingativo”. Mas depois de 4 anos, se eu continuasse a procrastinar, o livro nunca era publicado. 

Um abraço aqui da Costa Leste dos Estados Unidos. 

António Chaves.

 

Nasceu daí uma grande empatia e uma amizade “e-mailada” coroada de generosidade. 

Guardarei a memória infinita de Tony Chaves em sua narrativa amorosa dos Impérios Marienses.

Esta, como uma boa semente, há de florescer e dar bons frutos.