Não sendo inflamáveis, talvez causem alergias

 

 

O já ridículo e histórico caso das golas inflamáveis, mas que afinal o não eram, foi agora alvo de uma nova corrida para a frente: parece que em Monchique, no passado ano, terão causado alergias. Claro está que não nos informaram ainda se foi uma alergia, num concidadão nosso, ou em algumas deles, ou em imensos. Recordando o nosso Vasco Santana, alergias há muitas. Simplesmente, isso pouco importa, porque o essencial é seguir em frente, evitando mostrar, às claras, que tudo não passou de mais um erro de informação da nossa grande comunicação social. Uma autêntica pândega!

É interesse o modo olímpico como a nossa grande comunicação social passa, irresponsavelmente, por sobre o que levou, erradamente, aos portugueses. Era uma situação terrível, porque as golas eram inflamáveis. Mas agora que já o não são, a vida continua a correr, assim como se nada tivesse que ver com os mil e um que logo surgiram nos nossos canais televisivos a perorar sobre o tema: tudo era claro e evidente, quando, afinal, era exatamente ao contrário.

Este mais recente episódio a nós trazido pela muito má comunicação social hoje presente no País permite perceber a principal causa do descrédito a que chegou a democracia em Portugal. É uma comunicação social que convive, com toda a naturalidade, com o silêncio sobre abusos sexuais em Portugal no seio de estruturas da Igreja Católica Romana, perante o tsunami que varre quase todo o mundo neste domínio. Uma comunicação social que nunca teve a coragem de estudar o que realmente teve lugar, ou não o teve, com as históricas ditas escutas a gente do Palácio de Belém.

Tudo isto me traz ao pensamento o histórico programa da SIC Notícias, CASOS DE POLÍCIA, há já uns anos, onde se negava a informação contida em relatórios anuais e sucessivos da Secretaria de Estados dos Estados Unidos e das Nações Unidas, de que Portugal era a principal porta de entrada de drogas provenientes do subcontinente americano com destino à Europa.

Só por via de um interesse grande se pode hoje negar o nefando papel da grande comunicação social no descrédito da democracia, e das suas instituições, junto de uma enorme parte dos portugueses. E também não custa perceber a fantástica queda nas vendas e nas audiências, ao mesmo tempo que se vai deitando mão de tudo quanto possa concitar a atenção mais básica da comunidade.

Agora, num tempo em que as golas já não são inflamáveis, o toque passou a ser umas quaisquer alergias, supostamente surgidas em Monchique, ao mesmo tempo que se toma uma legislação antinatural como coisa a ser observada a todo o custo. O direito de trabalhar, mesmo com honestidade e à luz da Constituição da República, é coisa sem importância. E isto quando já se encontra promulgado o diploma que põe um fim na legislação posta em vigor, provavelmente nunca observada, por Fernando Nogueira.

Imagine o leitor que vigorava em Portugal a pena de morte e que certo nosso concidadão iria ser executado amanhã, quinta-feira. Pois, os nossos defensores mais primários da aplicação da lei a todo o custo nada diriam se a pena de morte deixasse de estar em vigor nesta sexta-feira: ao nosso concidadão deveria ser aplicada a lei em vigor!!! Ou seja: temos a democracia.

A grande verdade é que ela é cada vez menos apreciada em Portugal – nunca o foi muito –, o que se deve, muito acima de tudo o mais, ao nefando papel da nossa grande comunicação social, com especial ênfase para as televisões. É a vida...