Cenários

 

O nosso ambiente televisivo, hoje quase completamente alinhado com a Direita, passa boa parte do seu tempo de antena a fazer cenários. A maior parte destes, todavia, sem grande lógica e sem razoável utilidade. A verdade é que, sendo esta a realidade, também eu entendo que posso encenar o tema das próximas eleições para deputados à Assembleia da República, que terão lugar no próximo dia 30 de janeiro.
Tenho para mim que a generalidade dos portugueses tem toda a razão para continuar a votar no PS e nos partidos da Esquerda, deixando as coisas um pouco como estão hoje. Ao contrário do normalmente referido, o caso do Chega! é, objetivamente, um não-caso. Fique em terceiro, ou em quarto, a verdade é que o futuro político será, com elevadíssima probabilidade, independente desta posição do Chega!. É, para mim, um objetivo não-caso.
É quase certo que o PS será o partido mais votado, e que com os partidos da Esquerda conseguirá uma maioria parlamentar. A ser assim, impõe-se que o PS se determine a não correr atrás da canção de embalar da Direita, até da Extrema-Direita – uma canção quase tão antiga como a vida da III República –, no sentido de embarcar numa revisão constitucional que desfigure o texto atual, deitando mão das infelizes ideias copiadas de outros Estados europeus com passados distintos. E que por igual recuse mudanças no atual Sistema Eleitoral, sejam do tipo que for: nem voto eletrónico, nem círculos uninominais, nem voto obrigatório, porque os portugueses estão hoje visceralmente ligados aos mecanismos legais já distantes e consolidados. A abstenção, cujo valor nem se conhece bem, só pode resultar do desinteresse progressivo pela incerteza criada pela vida democrática. Naturalmente, os cidadãos esperam, numa democracia, que a sua vida possa estar dotada de estabilidade e com a possibilidade de potenciarem o futuro dos seus descendentes.
Tudo isto não impede que o PS possa fazer pactos de regime com o PSD e com outros partidos, mas salvaguardando sempre o atual Estado Social, e tendo em conta que nada de legal, ou de constitucional, pode garantir o cumprimento da palavra dada ao redor desses pactos de regime por parte dos políticos da Direita. É sempre essencial ter presente que a nossa Direita – PSD e CDS – nunca aceitaram, plenamente, a Constituição da República, nem o Estado Social.
Por fim, a evidência: até James Bond percebeu que nunca se deve dizer nunca. Os portugueses, em ampla percentagem, sempre aceitaram a Geringonça, pelo que há que lhe voltar a dar vida. Todavia, impõe-se voltar aos acordos de preto no branco, até pelo seu simbolismo. E devem esses acordos olhar mudanças comuns para um período de legislatura, só pensando à luz do realmente exequível, mormente no domínio económico-social. E já agora: que razões podem impedir que militantes dos diversos partidos da futura Geringonça possam fazer parte do Governo?