Quando 100 é maior que 1000

 

 

Já todos os portugueses têm hoje conhecimento da badalada festa algarvia, que teve lugar num qualquer lugar de Odiáxere, e que contou com mais de uma centena de festivaleiros. Parece, se recordo bem, que terão estado presentes portugueses e estrangeiros, mais jovens ou mais velhos, com ou sem trabalho, e de lugares diversos do Algarve.
No entretanto, surgiram novos testes positivos, o que tem lugar por todo o País, dado que foram feitos mais testes. E terão também surgido novos resultados positivos, em famílias e nos serviços onde trabalham alguns dos festivaleiros, que é o que se vem dando neste tempo de desconfinamento. A conclusão, como teria de dar-se, foi simples: um ato irresponsável de pronto remetido ao Ministério Público, que o estará agora a analisar. Portanto, veremos no que irá dar esta brincadeira algarvia. Em todo o caso, ficou-me esta ideia: os festivaleiros algarvios parece que seriam das classes média, média baixa e baixa, embora possa esta ideia não corresponder à realidade.
Ora, pouco passado da meia-noite desta sexta-feira teve lugar um novo ajuntamento, desta vez junto à praia de Carcavelos, que reuniu, nos termos do noticiado, cerca de um milhar de convivas. A uma primeira vista, pois, um décuplo do pecado praticado em Odiáxere. Simplesmente, a repercussão deste caso ao nível da nossa grande comunicação social, como por igual das mais diversas autoridades, fica-se a anos-luz do que pôde ver-se naquela terra do nosso Algarve, sendo mesmo apresentado com sorrisos.
De modo concomitante, as nossas autoridades, mormente as políticas e as policiais – também as autárquicas –, mostraram uma grande compreensão nesta situação dos mil convivas. E a tal ponto assim foi, que nem se tomou conhecimento de quem ali esteve presente, apenas mandando dispersar, e tudo a bem, e fechar um qualquer estabelecimento, que podia até nada ter que ver com a reunião.
Com forte estranheza, fica-me esta dúvida: por que é que 100 é pior que mil neste domínio do pecado viral? Que razões poderão determinar o envio de um pecado envolvendo uma centena de pessoas para o Ministério Público, e um outro de um milhar já não implicou tal? Também convém ter aqui presente que este grupo de Carcavelos seria constituído por jovens oriundos das classes média e média alta, talvez mesmo com um ou outro da alta. No grupo dos 100 existiria, sobretudo, gente trabalhadora, ao passo que neste a predominância seria de gente estudante, talvez, e sobretudo, universitários.
Deve o leitor ficar agora atento ao futuro, de modo a perceber se a atitude assumida para com aqueles 100 algarvios é, ou não, imensamente mais dura que a que irá atingir os atuais 1000 de Carcavelos. Ou será que Luís Filipe Menezes tinha razão naquela sua saída histórica dos privilegiados sulistas? Um dado é para já certo: por enquanto, 100 é pior que 1000. E depois, como usa dizer-se, somos um Estado de Direito, pelo que a lei é igual para todos, realidade que os portugueses há muito interiorizaram. Ou não tenho razão? Claro que tenho! Há, pois, que esperar pelo envio deste caso dos 1000 para o Ministério Público, dado que o dos 100 já recebeu esse encaminhamento e que a lei é igual para todos. E já agora: porquê, sem aparente mais, esta reunião dos 1000 de Carcavelos...?