Sim, mas...

 

 

Num destes dias, em Évora, a ministra Ana Abrunhosa lançou aos quadros qualificados do País um desafio, o de se mudarem para o nosso interior, sobre que existe uma conotação erradamente negativa, ao mesmo tempo que apontou vantagens diversas para as famílias e para as empresas. Referiu mesmo que não devem existir dúvidas de que é muito mais fácil constituir família nestes territórios e até conciliar a vida familiar com a profissional.

Acontece que, num outro passo da sua intervenção, a ministra também salientou que tal exige que se consiga assegurar a essas pessoas um nível de serviços públicos equivalente ao das regiões mais desenvolvidas, situação que, como se conhece à saciedade, não tem lugar por quase todo o Portugal. Mas logo acrescentou que se está a quebrar esta situação com a criação de incentivos. Ora bem, é um bom caminho, mas claramente insuficiente.

O fluxo de pessoas do interior do País para a faixa litoral, marcada pelas grandes metrópoles, tem causas naturais e lógicas, mas também acaba por se revelar, mais tarde, como um forte fator de cansaço e, até, de mui limitada mobilidade, individual e familiar. Travar esta realidade, porventura inverte-la, requer uma estratégia faseada, multifuncional e suportada em fatores de atração diversos, embora os mesmos, como se dá nas tais grandes metrópoles, estejam longe de ser procurados por todos. Simplesmente, esses fatores estarão, então, lá...

Quem vive nas grandes metrópoles conhece bem que o aproveitamento das vastas potencialidades presentes nas mesmas é extremamente limitado. A generalidade das famílias vive o seu dia-a-dia ao redor do seu lugar de residência, só se espraiando para lá dos seus limites de um modo raro e pouco distante. Eu, por exemplo, nasci em Lisboa há 72 anos, mas não vou a Algés, Marvila, Beato, Madre de Deus, Chelas, Xabregas, Graça, Sapadores, Alto do Pina ou Lumiar há décadas. E já não entro na Fundação Calouste Gulbenkian há uma imensidão de tempo. E o mesmo se dá com a generalidade dos museus de Lisboa. Mesmo Sintra, com as atuais condições do passe social e com estação de comboio a 200 metros de casa, já não visito há uns 27 anos, altura em que estive também no Palácio da Pena. Em contrapartida, tenho coisas que, mesmo para quem não tem no casal carta de condução, estão à disposição se assim entender ou precisar.

Em contrapartida, se precisar, tenho transportes públicos amplos e rápidos. Tenho também hospitais, se precisar de ir a uma urgência. E tenho uma diversidade de especialistas médicos se necessitar de uma consulta privada. Tenho, por igual, escolas diversas e universidades. Tenho estações dos CTT, bancos, bibliotecas públicas diversas, iniciativas variadas, por toda a Lisboa, ao nível municipal, mas também centros desportivos de quase todo o tipo. E tenho uma essencial variedade de mão-de-obra especializada que permite concertar persianas, canalizações, esquentadores, frigoríficos, máquinas de lavar, etc., etc.. Tenho quase tudo o que não existe no interior do País. Não existe neste momento, porque com boa vontade pode começar a existir com alguma rapidez.

De um modo indiscutível, só o Estado e as autarquias podem, conjuntamente, pôr em andamento um tal comboio de retoma da vida no interior do País. Vejamos alguns aspetos desta mais que possível retoma.

Em primeiro lugar, os serviços públicos essenciais. O Estado, de parceria com as autarquias, tem de criar, nos grandes centros do interior do País, estruturas públicas essenciais, como as dos setores da Saúde, da Educação, da Justiça, da Agricultura, da Segurança Social e da Cultura. Mas também no domínio dos Transportes e das Comunicações, usando de inteligência e de um bom planeamento.

Em segundo lugar, as autarquias, certamente com o apoio do Estado, têm de operar uma inteligente e agressiva política de promoção do turismo local e da respetiva gastronomia, procurando projetar, pelo País e pelo estrangeiro, produtos regionais de grande qualidade e garantidamente certificados.

Em terceiro lugar, o Estado, de parceria com as autarquias, tem fazer surgir setores industriais integrados em iniciativas nacionais ou multinacionais. E têm de fomentar o surgimento de iniciativas desportivas ou culturais de grande envergadura, sendo certo que é preciso investir com inteligência, ao início com algum risco, mas em condições de estas conquistarem pergaminhos nos respetivos setores e por todo o lado.

E, em quarto lugar, é essencialíssimo oferecer visíveis incentivos aos quadros superiores que se determinem a viver no interior do País, aí dando o seu contributo para que o movimento de retoma se consolide e expanda. E será bom que, ao nível distrital, surjam iniciativas nestes domínios, envolvendo participações sociais de autarquias diversas do distrito.

Enfim, poderão obter-se mui bons resultados ao longo da presente legislatura, mas tem de deitar-se mão de uma adequada e determinada estratégia.