O regresso do religioso à política

 

A dado momento recente da nossa vida política, lá voltou o falso problema dos riscos da pertença dos detentores de soberania a organizações secretas, ou organizadas com consequências práticas deste tipo. Foi assim que nos surgiu a referência às lojas maçónicas, bem como à Opus Dei.
Acontece que existem organizações as mais diversas com estas caraterísticas e não apenas as daquele lote. Eu próprio fiz já referência em textos meus a organizações de caráter secretista que não aquelas duas. De resto, o caráter de unidade muito forte entre os membros de determinadas estruturas sociais, mesmo que reconhecidos como membros dessas estruturas, levantará os mesmos problemas que a pertença àquelas instituições inicialmente referidas.
Ora, eu nunca duvidei de que tal medida legislativa se constituiria sempre numa evidentíssima violação de direitos elementares da cidadania, para lá de, logo à partida, estar o problema mal colocado. É uma violação de direitos elementares de cidadania, porque o ser-se membro de uma tal estrutura não pode ser tomado pelas autoridades como um dado a ter em conta em face de uma entrada potencial no mundo da ilicitude. Mas é, por igual, um problema falsamente formulado, porque, existindo na ordem jurídica portuguesa uma Concordata com a Santa Sé, logo da Opus Dei, tal como dos seus membros, se alegaria existir violação do preceituado naquela estrutura jurídica.
Não foi por acaso que Salazar elegeu como elementos estruturantes da fundamentação ideológica da II República a tríade DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA. Deus encimava o nível clerical, a Pátria tinha como defensores primeiros e últimos as estruturas militares e a Família ligava-se, naturalmente, à globalidade humana do tecido social, ou seja, ao povo. Por isso é que a IGREJA, o EXÉRCITO e o POVO foram os três pilares fundamentais da vivência do regime constitucional da II República.
Tomei, pois, como coisa plenamente natural que tenha agora surgido um vice-presidente do Chega! oriundo da Opus Dei, tal como a presença do líder da Igreja Maná no recente congresso deste partido. Objetivamente, é o regresso do religioso à política, agora na atual III República, a que o Chega! pretende, precisamente, pôr um fim, lançando o que designa por IV República, e que seria um isomorfismo do histórico Estado Novo, embora adaptado às novas circunstâncias.
Por fim, uma nota com interesse: se estou certo, André Ventura viveu desde muito novo ligado a estruturas da Igreja Católica – creio, até, que frequentou o seminário –, acabando por vir a doutorar-se – e em Direito... – numa universidade da católica República da Irlanda. Portanto, e usando uma linguagem corrente, mas significativa, tudo farinhas do mesmo saco...
Simplesmente, a Constituição da República proíbe a existência de partidos de matriz religiosa, pelo que me parece simples mostrar a elevadíssima probabilidade de se poder considerar agora que o Chega! de André Ventura é, afinal, um partido já com um pé dentro da área abrangida por este conceito. E haverá quem se não tenha ainda dado conta...?
E mesmo por fim, a recente entrevista de André Ventura à 24, da TVI, estruturas televisivas nascidas pela mão da Igreja Católica, de que depois se afastaram o conveniente, mas que estão aí de novo a transportar, diariamente, mensagens que, de um modo ou de outro, lá vão dar ao grande pátio católico. O que me permite terminar com este desabafo: mais palavras para quê?!