Precisa-se tato, muito mais do que tática

 

 

Aí está já António Costa indigitado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa no sentido de tentar constituir Governo, na sequência das recentes eleições para deputados à Assembleia da República. Uma ação que de todos requer muito mais tato do que tática político-partidária. E isto porque os portugueses desejam, como há muito se conhece, a continuação da política operada pela Geringonça, também porque falta ainda cumprir alguma parte do anteriormente garantido, e porque a Direita agora derrotada, tal como a que entrou desta vez na Assembleia da República, só tem como objetivo a destruição da Constituição da República, marca principal da Revolução de 25 de Abril.
Tenho para mim que nunca se poderá considerar estar presente uma Geringonça II sem que existam acordos escritos. Este tipo de solução, para lá do muito mais que comporta, também se constitui numa marca simbólica junto dos portugueses. Se a Geringonça I se suportou nesse tipo de acordos – o peso simbólico do preto no branco –, a sua falta deixará sempre um rasto de dúvida junto dos portugueses. Num ápice, a grande comunicação social, hoje claramente alinhada com a Direita – até com a ala neoliberal e passista do PSD –, deitar-se-á a vender aos portugueses a fragilidade da nova governação de António Costa: afinal, nem se conseguiu um acordo escrito capaz, como no anterior Governo.
Tive já a oportunidade de explicar que os acordos escritos como os anteriormente praticados pelo PCP e pelos Verdes com o PS nunca foi a causa determinante para a lenta queda de resultados do PCP ou da CDU. Basta olhar, por exemplo, os casos espanhol e italiano, onde tal tipo de acordos nunca existiu, mas não impedindo tal o desaparecimento dos partidos comunistas.
Um outro dado que importa aqui salientar – calhei a encontrar ontem Rui Santos a referi-lo – foi o facto de, malgrado não terem neste domingo tido lugar jogos de futebol em Portugal, ter a abstenção voltado a crescer. Como também pude já escrever por vezes diversas, a objetiva realidade diz-nos que os portugueses nunca tiveram grande interesse no mecanismo da democracia. Simplesmente, se votar se constitui num direito de cada cidadão, não o fazer também o é por igual. A abstenção é um direito. É assim em quase todo o mundo, desde vulgares associações, a respeitáveis instituições, incluindo os próprios parlamentos. E não é por se não votar que se perde o direito de manifestar livremente o pensamento.
Este problema da nossa abstenção – um falso problema – produz um certo tipo de pânico na nossa classe política, que teme a sua aparente desvalorização política e social. A sua luta verbal contra a abstenção só se dá por via do pânico com que se veem atingidos por via desta prática extremamente natural. Mas basta ter voltado aos cafés do costume nesta passada segunda-feira para de novo voltar a encontrar um cabal silêncio ao redor do ato eleitoral deste anterior domingo. Quase ninguém liga à política, com o grosso dos portugueses apenas preocupados com a situação presente e futura do Estado Social.
Andarão bem os partidos que consigam ter a coragem de voltar a estabelecer acordos escritos com vista à nova governação de António Costa. E deverá este e o seu PS mostrar o máximo empenho na defesa do Estado Social, mormente nos domínios do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social Pública. E tudo deverá ser feito no sentido de apoiar a nossa juventude à procura de iniciar a sua vida profissional e de constituir família, mas também de poder continuar a estudar e não ser disso impedido, por exemplo, por falta de meios para poder residir. A não ser assim, seria um regresso, porventura bem mais doloroso, à situação do Estado Novo.
Por fim, a Direita. Para já, a mais que esperada balbúrdia no interior do PSD, onde os barões do passismo nunca aceitaram a liderança de Rui Rio. Uma luta que mostrará já, nesta noite, mais uma reação da SIC às palavras de Rui Rio na noite eleitoral: aí está já um objetivo apoio a Luís Montenegro... Podiam ter escolhido Ângelo Coreia, ou Manuela Ferreira Leite, mas logo se determinaram a convidar...Luís Montenegro. Sempre estou para ver se o entrevistador o confrontará com a oposição sistemática dos passistas à legítima liderança de Rui Rio e o impacto dessa refrega nos resultados recentes.
A este propósito, convém salientar o inenarrável texto de Aníbal Cavaco Silva, onde se mostrou incapaz de perceber que Maria Luís Albuquerque foi um dos rostos do terrível enterro da coligação PSD-CDS, que perdeu a maioria absoluta que possuía, abrindo as portas à triunfante Geringonça. Claro que essa coligação foi a força mais votada, mas isso foi uma vitória pífia, porque nem conseguiu que a deixassem governar. Muito diferente – em tudo – desta situação atual de ser o PS a força mais votada, sem maioria absoluta, porque a sua governação irá agora ser aceite.
O PS e os partidos de Esquerda – Bloco de Esquerda, PCP, Verdes e Livre – deverão ter presente que a Direita fragmentada de hoje deverá vir a unir-se em próximas eleições, naturalmente com a inclusão do Chega. E porque não haveria de ser assim, se o PSD de Pedro Passos Coelho apoiou, presencialmente, a candidatura de André Ventura à Câmara Municipal de Loures? E já se demarcaram deste partido o PSD e o CDS? Claro que não!

Por fim, o PS e os partidos da Esquerda não deverão nunca deixar de ter presente a vitória de Salazar no concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE. Contornar o que representa esta realidade histórico-política pressupõe uma governação eficaz e que traga à generalidade dos portugueses acréscimos de segurança nos domínios que mais os preocupam. E também convém que todos estes partidos falem com clareza sobre o que se tem feito e vai continuar a fazer, explicando que os traumas do passismo estão aí à espreita, para o que basta ver a louca corrida pelo poder contra Rui Rio e o infeliz texto de Aníbal Cavaco Silva.