Ameaças nucleares

 

Com o desenrolar da grande batalha da Ucrânia, foram surgindo referências dos poderes russos a um possível recurso às armas nucleares. E foram mesmo explicadas as condições para tal utilização: o estar em risco a existência da própria Rússia. Bom, foi isto mesmo que levou à construção, em Los Alamos, da primeira bomba nuclear, depois utilizada em dose dupla contra o Japão. E a razão, que até mereceu o acordo de Mário Soares, nem foi o estar em causa a existência dos Estados Unidos, mas o (alegado) risco da perda de um milhão de vidas de militares norte-americanos, a fim de obrigar o Jatão à rendição. Tenho para mim que tal se destinou e testar, ao vivo, os efeitos e o poder de tais armas.
Recentemente, surgiu, como seria de esperar, a ladainha de que tal conversa russa nunca deveria ter lugar, dado que as armas nucleares são dissuasoras e não se destinam a ser utilizadas. A verdade, todavia, é que os Estados Unidos, depois de 1945, fartaram-se de esgrimir com a utilização potencial de tal armamento.

GUERRA DA COREIA

O primeiro caso deste esgrimir terá sido o da Guerra da Coreia. Perante a impossibilidade de levar o Norte de vencida, já com 500 000 chineses no teatro das operações, McArthur não exitou em apontar, publicamente, o imperativo de recorrer às armas nucleares, contra o Norte da Coreia e contra a República Popular da China. Felizmente, Truman e os membros do Conselho de Chefes de Estado-Maior eram gente com bom senso, pelo que de imediato demitiram McArthur. Há mesmo um filme, com Gregory Peck, onde todo este episódio é exposto: McArthur olhava-se como alguém providencial, destinado a mudar o rumo da História do Mundo. Bom, foi posto na rua, limitando-se a um discurso messiânico em West Point.

MAIS UM GENERAL LOUCO

Já com Kennedy na Casa Branca, qual corredor da morte política e física, surgiu nova ideia de mais um general norte-americano louco: Curtis LeMay. Este velho falcão, que via comunistas por toda a esquina, esboçou um plano de ataque nuclear à União Soviética, recorrendo ao lançamento e 200 bombas nucleares do tipo Hiroxima sobre as 30 principais cidades. De um modo verdadeiramente fantástico, o louco LeMay previa, afinal, que, mesmo assim, a União Soviética não deixaria de existir, ficando apenas muito enfraquecida. E previa, por igual que ripostasse sobre os Estados Unidos, gerando 30 milhões de mortos. Este louco, que liderava o Comando Estratégico Aéreo, graças a Kennedy, nunca conseguiu levar a sua ideia à prática.

GUERRA DO VIETNAME

O Partido Republicano teve, em dado tempo da sua história, a liderança doutrinária do falcão Barry Goldwater, que chegou a ser candidato em certas primárias presidenciais, acabando por não ser o escolhido. Mais tarde, veio a publicar um livrinho, intitulado, POR QUE NÃO VENCEMOS, onde explicava que se devia ter atuado sobre Hanói e utilizado, se necessário, armas nucleares. Pois, este político norte-americano era, nos Estados Unidos, uma referência política de primeira grandeza...

A GRANDE BATALHA DA UCRÂNIA

Recentemente, no desenrolar da grande batalha da Ucrânia, foi referido, em momentos diversos, que o recurso a armas nucleares poderá vir a ter lugar, assim a existência da Rússia, há muito a tentar ser posta em causa pelos Estados Unidos, possa estar presente. Bom, caro leitor, foi uma espécie de horror supremo, com os mil e um silenciosos da Guerra do Iraque, do Kosovo e de quanto se viu de ilegal no desmantelamento da antiga Jugoslávia, a surgir a terreiro, bramindo contra esse pecado supremo, que foi o de terem os políticos russos chamado a atenção para que, em caso de risco existencial, as mesmas poderão vir a ser utilizadas.
Tenho boa memória, e não recordo ter Pio XII, João XXIII, Paulo VI, ou João Paulo II dito uma palavra mínima sobre o brandir das armas nucleares por parte dos Estados Unidos nos cenários atrás referidos. Só agora, em face da crise que se vive no seio da sociedade norte-americana, perante o grande triunfo chinês ao nível global, e olhado, mais uma vez, o risco de surgir, definitivamente, o binómio China-Rússia, é que voltou a ladainha do perigo das armas nucleares. Compete ao leitor pensar um pouco e perceber a verdade por detrás do que está a passar-se...