Happy Thanksgiving

 

Os membros das árvores violentamente se movimentam em erótica dança, e a sua nudez total está praticamente à vista.
Há poucos dias, estas mesmas árvores maravilhavam os olhos de quem as enxergava, por causa das magníficas cores.
De qualquer modo, é tempo para isso; e a verdade é que, a fúria do inverno só aparece para meados de janeiro, depois do natal.
Afinal, estas festas que se aproximam dão calor à alma, e ela, por sua vez, controla a temperatura do corpo, preparando-nos, assim, para o tal longo inverno de mês e meio, ou pouco mais.
O Dia de Ação de Graças está à porta. A 24 de novembro. Para muitos, o dia mais lindo do ano; para outros, o mais santificado. Continua, e continuará, a marcar bons momentos nos seios das famílias; e a cada ano que passa traz recordações de outros já idos.
A filha mais velha do José e da Olívia, ao casar-se, iniciou o costume do jantar de Thanksgiving ser em sua casa, e assim se manteve por cerca de vinte anos. Mas tinha de acabar um dia, porque com a segunda e a terceira gerações, o número dos familiares triplicou, mas a casa não cresceu.
No decorrer dos primeiros dez anos casou-se o rapaz e seguiram as pegadas as outras quatro irmãs. Ao longo dos vinte nasceram seus filhos, que vieram iluminar as memórias futuras, trazendo mais primos e primas.
Nostalgicamente se recorda a doçura daquelas reuniões familiares, em que na véspera do grande dia a matriarca tinha de se deslocar a casa da filha para temperar o “touqui”!
Sim, uma ave daquele tamanho tinha de levar para o forno bastante vinha d’alhos, e pimenta, e tudo o mais que os tempêros da Ribeira Grande exigiam. 
Sublinha-se que não era necessário este seu trabalho, mas ela fazia questão. Era uma maneira de se sentir útil no seio da família. Ela também confecionava o recheio. Isto, então, era o que desaparecia mais depressa durante a ceia. Todos se deliciavam com ele, ao ponto de lamber os lábios e pedir por mais. Até havia gente que, com ele, comia papo-secos recheados. Só passou ao desinteresse quando a maioria dos mais novos veio a saber a lista dos seus ingredientes. Quando o segredo foi revelado sobrou só pão-de-milho com chouriço, e o recheio nunca mais teve o mesmo sabor.
Afinal, não deve ser crime usar os órgãos vitais da ave, porque os perus congelados que se compra nos supermercados trazem-nos consigo, dentro de si. Mas, pronto! Há que respeitar as opiniões e os gostos de cada um.
Antes do jantar, o momento da oração, cujas honras cabiam ao patriarca. O José nisto era bom, e fazia-se ouvir alto e a bom som. Não tivesse ele sido criado no seio de uma família religiosa, e em criança ter desempenhado funções de “acólito-sacristão”. Fazia questão de se rezar um Padre-Nosso e uma Avé-Maria aos parentes, amigos e benfeitores do outro lado da vida e às Almas do Purgatório.
No decorrer do jantar muita coisa acontecia. Falava-se em assuntos de ordem diversa; e como em todas as famílias grandes, sempre havia cochiços num lado, segredinhos no outro, louvores e apreenções em todos os sentidos. 
O cachorro da cunhada mais moça, que devia ficar em casa, mas que a dona sempre o levava consigo para onde ia, também adorava o jantar. Durante a refeição tinha o costume de se ir meter entre o Manuel e o Joaquim, que lhe davam fatias de pão encharcado em vinho, sem ninguém ver. Sopas de cavalo cansado, como nas Ilhas se dizia.
Realmente ele gostava de vinho; e se não fosse para dar nas vistas seria servido ao copo, ou à tigela, em vez de ser em fatias de pão. Depois de encharcado metia-se a dormir num cantinho, sem incomodar mais ninguém.
Nos últimos anos é que foi apanhado em flagrante pela dona, e a língua da Inês soltou as mais horrendas palavras ao Manuel e ao Joaquim.
Uns tempos depois, morreu o cachorro. O Manuel, confortando a dona, disse-lhe: “Era um bom cachorro! Mal empregado ter sido um alcoólico”.
Só faltou narizes partidos, para além das acusações de homicídio lento. Se achavam que o cãozinho tinha problemas com álcool, deviam-no ter levado a um centro de reabilitação, como o dos caninos alcoólicos anónimos. 
Tanta gente sentada ao redor da mesa, e aquele corisco cachorrinho não via outro lugar para se enfiar, a não ser no meio daqueles dois? Experimentou uma vez, gostou! Por isso frequentou o mesmo lugar durante mais de dez anos, e quando se sentia mais ou menos grosso punha-se a dormir. Toda a vida se ouviu falar em cachorros quentes, mas nunca em cachorros bêbados.
Às vezes, tanto barulho por nada, como o caso de um calorzinho de isqueiro numa calça de ganga nova! Até para se fazer isso, tinha que ser sem ninguém ver. Porque um grito de uma mulher estragava tudo.
Depois, alguém se queixava da fuga dos gases. Pois, é! O recheio de Dona Olívia! Só pode ser. Agora com chouriço e pimentão, é nisto que dá.
Além disso, depois de uma lenta e farta refeição, esta coisa de não se afastar da mesa para jogar às cartas não facilitava a digestão. Muito menos o assento do sofá para assistir ao jogo de football (futebol americano). 
Pelo Thanksgiving as empresas gratificam os seus empregados, oferecendo um peru com alguns acompanhamentos, ou optam pelo seu valor monetário. A primeira vez que José foi gratificado nesta altura do ano, o patrão, que não falava português, pediu a alguém para explicar ao José a intenção daquela oferta de dez dólares. O tradutor foi um luso-americano, que por sinal nunca tinha ouvido falar em perus, ou talvez pensasse que eles em Portugal não existiam. Por isso, disse ao José: “Este dinheiro é para comprar o touqui. Sabes o que é o touqui? É aquela galinha grande para comer quinta-feira…”
Esta tradição na América do Norte, como todos sabem, teve a sua origem na celebração da primeira grande colheita da colónia de Plymouth, Massachusetts, na segunda década do século dezassete. Em precisão as opiniões divergem, mas todas estão nisto baseadas.
No Canadá, como não é novidade para ninguém, o dia do Thanksgiving assinala-se todos os anos na segunda segunda-feira do mês de outubro, quando nos Estados Unidos se comemora o Dia de Colombo. Cada terra tem seu uso, cada porca um parafuso e cada roca tem seu fuso.
Com raízes mais sólidas, recuamos ao ano de 1620. Os passageiros do navio Mayflower que sobreviveram a viagem da Inglaterra até ao Novo Mundo chegaram em Novembro, e o inverno daquele ano tirou-lhes mais quarenta e oito. Na primavera de 1621 lançaram sementes à terra e ela foi generosa para com eles. O governador da colónia, William Bradford (1590-1657)resolveu organizar uma grande festa, onde participaram com eles algumas dezenas de índios. Patos, perus, peixes, veados, milho, abóboras e outros manjares fizeram parte deste banquete que durou alguns dias. A partir de então, depois da colheita de cada ano passou-se a fazer uma festa de gratidão a Deus na Nova Inglaterra. A divulgação foi rápida e espalhou-se depressa pelo resto da nação. O presidente Lincoln, em 1863 determinou que a última quinta-feira do mês de novembro fosse o dia de ação de graças. Mas, em  1941 Franklin Roosevelt retificou esta determinação, assinalando a quarta quinta-feira do mesmo mês, que nem sempre é a última de novembro.
Atendendo ainda à chegada dos Pilgrims, em 1620, e ao seu maravilhoso relacionamento com os indígenas, é de realçar que durante os dois anos que antecederam esta data, uma enorme epidemia provocou a morte de quase um terço da população Wampanoag. Além disso, era preocupante o clima de guerra existente entre os índios Wampanoag e Narragansett.  Por isso, ao dar as boas-vindas aos Pilgrins o grande chefe Massasoit e o governador da colónia estabeleceram um protocolo, comprometendo-se a ajudar mútuamente, em tudo o que fosse necessário. Relembramos que se não fosse a assistência dos indígenas prestada aos colonizadores, nenhum passageiro do navio Mayflower escaparia com vida ao inverno de 1620.
Massasoit foi fiel ao pacto até à sua morte, ocorrida em 1661. Sucedeu-lhe na chefia da confederação Wampanoag o seu filho mais velho, Wamsutter (1634-1662), a quem os ingleses chamavam de Alexander. Em menos de um ano morreu, por ter sido envenenado pelos ingleses, em Plymouth. Seu irmão Metacom (1638-1676), segundo filho de Massasoit não se conformou com isso, e ao assumir a liderança dos índios, as relações entre indígenas e colonos deixaram de ser o que eram.
Quando Metacom, chamado pelos ingleses de Philip, foi assassinado, no decorrer da Guerra do Rei Filipe, sua cabeça foi colocada num pau e exposta na praça central de Plymouth, onde permaneceu alguns anos, ao sol, ao vento, à neve e à chuva. 
Eis Plymouth, Massachusetts, em contraste de Amor e Terror. O mesmo haviam feito os ingleses com a cabeça da cunhada, sua aliada guerreira, chefe da tribo Pocasset e viúva do seu irmão Wamsutter, quando foi encontrada sem vida na margem do rio Taunton, em Somerset. Mas não consta que a cabeça chegou a Plymouth. Parece que ficou pelas ruas de Taunton.  
O primeiro Thanksgiving, segundo variadas fontes,  realizou-se em outubro de 1621, e durou três dias, com a presença de noventa índios indígenas e os cinquenta e três peregrinos sobreviventes do primeiro inverno na Nova Inglaterra.
De 102 passageiros embarcados morreu durante a viagem uma só pessoa. Depois, no novo mundo, quarenta e oito não resistiram à fúria do inverno. Mesmo assim, quando o navio regressou à Inglaterra, na primavera de 1621, nenhum dos sobreviventes quis voltar.
Thanksgiving é feriado nacional por excelência. Como já se disse, é o dia mais santo e santificado da América. O anterior é conhecido pelo mais movimentado nas estradas, portos e aeroportos. Porque as pessoas se deslocam, por vezes, longas distâncias para estar com familiares, ou amigos, no dia seguinte. O posterior, conhecido por “black Friday”, é aquele que mais dinheiro movimenta. Há retalhistas que só neste dia fazem um terço do seu lucro anual.
É neste fim-de-semana que se começa as decorações das luzes, das árvores e dos presépios, e se faz as primeiras compras para ofertas. É o início da quadra natalícia.
Tanksgiving é o dia da Parada do Macy’s, na cidade de Nova Iorque, que é transmitida em direto nos principais canais de televisão nacional. É família, é football (futebol americano).  É dia de solidariedade. Dá-se de comer aos famintos e abrigo aos desalojados. Por excelência Dia de Deus e dos seus Filhos.
O Dia de Ação de Graças deve ser cada um dos trezentos e sessenta e cinco do ano. Mas como isso ainda é impossível, que se comemore um condignamente. 

Assim seja por muitos e muitos anos. 

Feliz Thanksgiving para todos. Haja saúde!

 

Mil graças se deve dar
Ao Pai, nosso criador
P’ra que possa perdoar
Este mundo pecador.

Mil graças damos, Senhor
Pelo sol e pela lua,
Pelo frio e calor
E pela bondade Tua.