Do fruto da queda e da nossa sobrevivência

 

 

A maçã, a eterna maçã, a chave de tudo o que nos acontece, o fortíssimo símbolo da queda e que ocupa o seu espaço com uma simplicidade avassaladora.

Tomaz Borba Vieira, O Lugar Da Maçã

 

De algumas das obras plásticas, das suas mais famosas pinturas e murais, eu já conhecia como leigo e apreciador da grande criatividade em todas as suas formas. A sua já considerável prosa, não sei bem porquê, passou-me ao lado, mas o desconhecimento é de quem ignora ou desconhece, e nunca do seu criador. Talvez por o considerar em primeiro lugar um pintor, mesmo que reconhecido em toda a parte, me tenha afastado da sua escrita, que agora sei primorosa, e ainda mais parte fulcral da literatura açoriana. Só que chegou o momento de eu não poder mais deixar de fazê-lo parte das minhas próprias páginas. Em boa hora me chegou às mãos este seu novo livro com um título aliciante, O Lugar Da Maçã. É todo ele feito de crónicas muito especiais, que combinam a pura auto-biografia e o seu percurso da vida artística com a imaginação do seu autor. A sua linguagem vem ao encontro do que mais valorizo em qualquer literatura em todos os seus géneros: clareza, simplicidade (que não quer de modo algum significar simplismo), e sobretudo as palavras que contam histórias desde as mais humildes personagens até à referência constante dos mais universalmente mestres de obras marcantes ou que influenciaram os seus aprendizes ainda em tenra idade. Tomaz Borba Vieira, ele próprio um desses grandes mestres, tanto teve as suas universidades e instintos nos mais diversos países como nunca esquece um oleiro micaelense já num tempo em que sua arte de barro estava fora de moda até à sua insistência chamando a si variados visitantes internacionais em busca de saber e das novidades artísticas em extinção mas sempre relevantes fora de fronteiras, pois os de cá nunca deixaram de querer ter nas suas casas um prato ou um vaso branco e azul que não os só os lembrava das suas origens como embelezava as suas residências. O autor vê e ouve todos sem qualquer preconceito ou falta de admiração. Lê-lo é ler o nosso passado e presente, e muito mais: a grande arte sai de todos os lugares, até mesmo, ou especialmente, dos chamados pequenos lugares. O autor faz desta faceta da açorianidade não algo de provinciano, mas sim parte da criação universal. Quem desconhece, uma vez mais, é quem perde. O artista e escritor que hoje vive numa casa e galeria num bairro mais ou menos periférico da sua ilha, mas muito privilegiado, de nome Caloura (São Miguel), continua, através de exposições de arte e fotografia, assim como de uma escrita em todas as formas e temas, alguns dos nossos maiores momentos de aprendizagem e prazer puro do que o mundo tem para nos oferecer – a representação da humanidade em todos os seus aspectos e variantes de cultura e línguas, condições de vida comum às variadas geografias que representam o mundo inteiro. Nele, como nesta obra do que falo agora, nada e ninguém ficam no escuro. A sua claridade e noção desse mundo evapora todas as fronteiras e maneiras de como nos retratamos a nós próprios e a todos os outros. Há livros de “crónicas” que se tornam em romances completos, e este é um deles. Ficamos a conhecer o seu autor, e depois o resto por onde passou e estudou, que vai desde a ilha natal até a outros países europeus e da América do Norte, nem sequer esquecendo a vivência menos clara da nossa imigração nessas distâncias cada vez mais aproximadas sem que os seus estilos de vida nos fiquem alheios. Tomaz Borba Vieira elogia e castiga, tanto o tempo que lhe tem sido dado viver, desde o fascismo salazarista, que ele viveu também em Lisboa como em São Miguel. O testemunho de grande artista e escritor será também inevitavelmente a memória do futuro. O academismo superior tem as suas regras, a maior das vezes restritivas devido a uma suposta cientificidade, ficam limitados a relatar datas, nomes e incidentes, sem o poder especulativo ou de juízos de valor. É deles que vamos pesquisar os factos. Nada mais. Só que a História ou histórias têm tudo isso, mesmo os estados de alma de quem os viveu, gozou ou sofreu.

“No ambiente cultural de São Miguel [o mesmo que dizer das outras ilhas]  vivia-se num esquecimento – escreve o autor a dada altura numa crónica intitulada ‘A Teia’ – forçado quanto às iniciativas da criatividade e das inovações próprias do nosso tempo.

Os escritores ou artistas cuja personalidade ou ideologia progressista não agrafava ao governo de então, jamais chegavam aos Açores. Esses autores eram igualmente banidos no continente, embora lá sempre fossem mais frequentes algumas ilegais iniciativas da oposição.

Em São Miguel a Oposição era muito fraca, pelo que o bloquear da Cultura era oficialmente favorável ao marasmo de uma sociedade acomodada”.

A maçã poderá ser o símbolo da nossa queda cristã, mas nunca impediu os homens e mulheres fortes de resistir aos tiranos e a toda a corrupção a eles associada, nunca tiveram medo de lhes baterem à porta à meia-noite e lhes confiscarem obras de arte ou livros. Foi sempre a arte que se contrapôs ao Poder, ou então registava e regista para sempre as suas injustiças e crimes. Os Açores poderão ter sido mais fracos nestas acções, mas nunca nos faltou uma minoria de coragem e acção decisiva. Alguns deles foram presos, torturados, perderam o seu emprego em escolas e fora delas, ou mesmo mortos. No futuro, os tiranos passam, com certas excepções, a pouco mais de uma breve nota na nossa História, mas a arte permanece eternamente. A este grupo pertence o autor aqui em consideração. Tinha como referência múltiplas realidades e experiências como pontos de partida. A educação humana e artística de Tomaz Borba Vieira passa por aí, a sua biografia é mais grandiosa de qualquer governante na nossa memória. Leio as notas da sua capa sobre os seus percursos internacionais com passagens por algumas das melhores universidade dos Estados Unidos e Canadá.  Foi professor com treino em pedagogia de ponta, aluno de Belas Artes também na Europa, relembrou memoráveis palavras de outros, e agora dedica-se a produzir e a partilhar todo o seu saber com todos os outros que queiram visitar ou participar nos eventos que promove no seu lugar aqui na sua ilha, e não só. A sua grandeza, quer pessoal quer como artista ou escritor, transmite de imediato outra qualidade a tudo isso inerente – a humildade e disponibilidade para cooperar com quem dele se aproximar. A sua escrita vem ilustrada neste livro com várias reproduções e fotos dele e de outros. A palavra retratada a preto e branco, menos uma foto dele a cores da autoria de T.B.V., que não sei quem é. Mostra o seu sorriso, os pés num lago, e por  perto uma mulher debaixo de água. É o Tomaz Borba Vieira com quem falo pouco mas muito valorizo e respeito. Ler a sua prosa é não apenas um acto de aprendizagem, é a delícia de cada frase, das suas memórias e de personagens totalmente inesperadas, como um Mestre Batata, um dos últimos oleiros ali para os lados de Vila Franca, que tem a paciência de permanecer na sua oficina, sem grandes encomendas mas sempre pronto a demonstrar como se faz ou funciona a sua arte. Tomaz Borba Vieira conhece o mundo mais do que alguns de nós porque conhece em primeira mão a sua terra natal. É disto que é feito um verdadeiro cosmopolita ou homem do mundo.

Há uma nova geração de escritores entre nós que muito teriam de aprender com estas páginas simultaneamente calmas e fulgurantes. Há outra casta, também entre nós, que apenas leu à força alguns compêndios, mas que se pensam conhecedores de tudo e todos, dentro e fora das nossas fronteiras. Para esses, não tenho a dizer. Escrever sobre o joelho não traz nem ideias e muito menos a arte da palavra claramente expressiva e significante. O pouco que escrevem nunca se aproximará deste saber sólido de um livro como O Lugar Da Maçã.

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Tomaz Borba Vieira, O Lugar Da Maçã  (prefácio de José Maria Teixeira Dias, e texto de José Maria de França Machado), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019.