Do bravo mundo em que vivemos

 

 

Oleg Gordievsky continua a viver uma vida dupla. Para os seus vizinhos suburbanos, o homem curvado de barba que vive tranquilamente atrás de sebes altas é apenas mais um reformado idoso, uma pessoa pouco importante. Na realidade, é uma pessoa totalmente diferente, uma figura de profunda importância histórica e um homem notável: orgulhoso, inteligente, irascível, com a pensativa expressão iluminada por clarões súbitos de irónico humor.
Ben Macintyre, O Espião E O Traidor

Tenho tantos livros na minha secretária, de escritores açorianos, continentais, americanos, brasileiros e de outros autores que me não são desconhecidos, que levei a tarde inteira a decidir qual seria o próximo para a minha leitura e escrita. Vou ser perservo, sem esquecer os outros. Acho que vou ler um livro completamente fora da minha habitual esfera: O Espião E O Traidor, de Ben Macintyre. Dizem eles na capa que é “A Maior História de Espionagem da Guerra Fria”. John Le Carré: “A Melhor História Real De Espionagem Que Alguma Vez Li”. Basta, vou a ele, e aprender coisas, e ainda odiar mais o mundo que nos foi legado. Lembro-me de ler no início dos anos 70 um dos livros de John Le Carré, creio que Tinker, Tailor, Soldier, Spy, e um recenseador maldisposto afirmou que a Grã-Bretanha ainda se pensava um grande império, mas que os seus serviços secretos já tinham perdido toda a sua importância, tal como o resto do país. Errou redondamente. Na verdade, a União Soviética parecia prestar mais atenção à ilha a norte e no coração atlântico da Europa do que suspeitava o referido crítico, pelo menos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Poderia o então o KGB prestar a mesma atenção e perfídia à CIA, mas a sua obsessão quase doentia era o MI6 em Londres, pelo seu também substancial arsenal nuclear britânico e a proximidade das suas fronteiras. A infiltração mútua era contínua, e o medo de um disparo nuclear vindo da própria Europa armada era uma obsessão da liderança no Kremlin. Os serviços secretos dos dois lados partilhavam os traidores, particularmente depois da fuga para Moscovo do mais famoso espião inglês, Kim Philby, deixando atrás “associados” ligados a várias universidades e comunistas convictos. A CIA, uma vez mais, parecia mais um grupo de amadores do que a temida e bem mais fornecida agência de espionagem da União Soviética. Não é sobre este facto que se debruça o livro O Espião E O Traidor, mas sim sobre o mais especular espião duplo, já aqui referido. Vindo de uma família de mãe religiosa mas também de um pai que havia prestado os maiores serviços secretos à União Soviética, passou a odiar o regime totalitário quando foi colocado na Escandinávia, Dinamarca e Noruega. A partir dessa experiência de abertura e liberdade europeia tornou-se um agente duplo, que viria a causar os maiores danos a Moscovo, que estava convencido de um breve ataque nuclear preventivo por parte da Inglaterra, ou dos seus aliados. Pelo que nos diz o presente autor, estivemos entre 1982-83 à beira do temido Armagedão.
Podem perguntar porquê leio um livro destes. A resposta é simples: aprendemos com estes textos biográficos (ou auto-biográficos), muito mais do que em monografias históricas académicas. Têm todos a ver, estes livros, com o esclarecimento da literatura do nosso tempo. Quando me dizem que um Coronel do KGB lia William Shakespeare e George Orwell, entre outros autores proibidos na União Soviética, e que ele mantinha mais ou menos escondidos, dizem-me tudo. Quase toda a literatura do nosso mundo trata ou alude ao estado perigoso do nosso planeta. As sociedades em decadência estão em perigo, e isso inclui a nossa suposta geografia de liberdade e supostos “privilégios”. Pode Oleg Gordievsky ter sido um eminente espião traidor, mas nunca neste livro nos livramos da paranoia dos soviéticos, repita-se, ante a possibilidade de um ataque mortal para nós todos. Foram eles que mantiveram a calma, e nos livraram da catástrofe. A história aqui contada do seu agente traidor é mais do que aliciante. O modo como acontece o seu resgate naturalmente secreto da União Soviética é por demais aliciante, mas encobre as verdadeiras preocupações do Kremlin. A Inglaterra também tinha ao mesmo tempo os seus traidores. A certa altura, eles, infiltrados na União Soviética, tiveram uma sucessão de velhos líderes, a velha guarda, cujos nomes são demais para mencionar todos aqui. Depois chegou Mikhail Gorbachov, e tudo mudou. Sabia que o seu país não poderia competir com o Ocidente no desenvolvimento de armas devastadoras e mortíferas, seguindo-se o Glasnot e a Perestroika (abertura e reestruturação). Hoje, se a nova Rússia é corrupta, a nossa parte do mundo não lhe fica muito atrás em nada. Desde o futebol à classe política e financeira, estamos quase tão sujos como eles. Estávamos nesses anos fatídicos após a crise dos misseis cubanos sob um pleno Big Brother, que Orwell havia previsto e de certo modo avisado. A verdade é que o Ocidente conseguiu a colaboração em cheio de um dos mais importantes agentes secretos do outro lado, o que talvez tenha ajudado a desviar-nos da catástrofe total para a humanidade. Seguiram-se expulsões “diplomáticas” de lado a lado, deixando um vazio que sem dúvida contribuiu para melhor controlar uma situação explosiva a todos os níveis.
“Burton Gerber, -- escreve o autor deste livro a dada altura, num capítulo apropriadamente intitulado ‘Roleta Russa’, e agora mudando a acção para Washington – o chefe da secção soviética da CIA, era um especialista no KGB com vasta experiência operacional na guerra da espionagem com a União Soviética. Nascido no Ohio, era um homem alto e magro, assertivo e perseverante, e pertencia a uma nova geração de funcionários dos serviços secretos americanos que estava livre da paranoia do passado. Ele estabeleceu as chamadas ‘Regras Gerber’, que determinavam que todas as ofertas de espionagem para o Ocidente deviam ser tomadas a sério e todas as pistas investigadas. Um dos passatempos mais estranhos de Gerber era a observação de lobos, e havia alguma coisa claramente vulpina na forma como ele caçava as suas presas do KGB”.
A parte mais dramática de O Espião E O Traidor vem nos últimos capítulos quando os soviéticos descobrem a traição dupla de Oleg Gordievsky, e o MI6 tem de o retirar de Moscovo, numa operação a que deram o nome de PIMLICO; saído escondido num porta-bagagem num dos carros desses serviços secretos, via Finlândia e outros países amigos e da NATO. Deixou para trás, teve de deixar, a mulher e a filha, que lá permaneceram em prisão domiciliária durante anos até mais tarde as deixaram partir para conviverem com o antigo espião num subúrbio obscuro de Londres. Passou a viver uma vida mais ou menos normal, sem que os seus vizinhos suspeitassem nunca das suas origens como espião e o quanto tinha feito em defesa da democracia, não só na Grã-Bretanha como em todos os seus aliados espalhados literalmente por todo o mundo. A literatura também é feita de “factos” e “história”, e por osmose acaba por afectar todas as nossas leituras. Essas obras superiores são como que um retrato do seu tempo e da sua geografia física e humana. São estes livros biográficos e auto-biográficos que lançam outra luz sobre todas as páginas que lemos.
O Espião E o Traidor, de Ben Macintyre, é definitivamente um desses livros de leitura aliciante e de ensinamentos que de outro modo não teríamos. Entramos num mundo de espelhos, como diz o autor, e de sombras para um leitor que é colocado nos bastidores da política e da segurança de qualquer grande país. Só mais uma nota algo curiosa nesta saga de vida e morte. Vladimir Putin, o então Coronel do KGB, que andara na República Democrática Alemã, encontrava-se precisamente durantes estes acontecimentos em Leningrado. O livro não entra em detalhes no que lhe aconteceu pela sua “desatenção”, mas insinua que ele caiu um bocado na hierarquia dos serviços secretos da sua terra. 
  
Ben Macintyre, O Espião E O Traidor (tradução de Isabel Veríssimo), D. Quixote/LeYa, 2019.