De um mundo em caos e de um escritor que o vive e pensa

 

 

O espírito humano não é depósito de lamas e narcóticos/nem um peso cansado de uma castidade inefável/à deriva por abismos que se escondem atrás dos céus

Luís Filipe Sarmento, KNK

 

   KNK, as iniciais de Kant, Nietzsche, Kafka, o primeiro vindo do século XVIII e falecido no início do século XIX, e os outros dois já no princípio ou meados do século passado, é de uma audácia literária bem pouco comum entre nós, ou em qualquer outra língua. Luís Filipe Sarmento vê e vive um mundo que nos é comum, mas entende-o de formas muito diferentes e arrojadas: razão (pura ou não), emoção e contundência crítica, e logo depois na realidade absurda que vem de longe e se agrava nos nossos tempos. Tenho de confessar que é em Nietzsche e Kafka em quem mais me revejo e me percebo. Para o alemão Kant, sobre o qual a mítica diz que era tão racional e universalista, em que até os vizinhos acertavam os relógios pela passagem em frente às suas casas, tenho pouco conhecimento, e até medo: o germânico tão certo e racional, mesmo que universalista ou anti-nacionalista. Para com o ensaísta do absurdo mas sobretudo da emoção (Kafka) tenho outra reacção. Foi talvez o filósofo mais mal interpretado na história do pensamento ocidental modernista. Quando os nazis o reclamavam como seu suposto ideólogo, vinha ao de cima toda a sua ignorância de muitos desses seus falsos admiradores, incluindo o próprio Hitler. Quanto a Kafka, a sua linguagem poderosa, mas nunca ofuscada, não deixava dúvidas aos leitores mais perspicazes ou inteligentes. Nietzsche escreveu, por exemplo, que um dos sintomas dos intelectuais mais ignorantes eram ser anti-semitas. Com a mesma força escreveria que nunca tinha estado em África mas suspeitava que estava cheia de génios. A sua ideia do “super-homem” queria apena dizer que deveríamos assumir as nossas responsabilidades morais e de gente com força na luta pelo bem. Ainda quanto a Kafka, pouco terei mais a dizer. Era o pensador que através da palavra retratava o absurdo do seu tempo, cidade e condição de vida numa Europa já totalmente burocrática e sem rumo, a não ser a caça ao dinheiro e ao poder dos privilegiados. Vivia numa sociedade já sem razão pura ou crítica, para voltar a mencionar Kant. Kafka parece o Fernando Pessoa em todos os sentidos. Empregado numa empresa de seguros, mero gestor de contas e cartas comerciais, e talvez que o desesperava. Como Pessoa, ninguém por certo se amava verdadeiramente, ou eram todos e todas mero escape ao tédio e à raiva dos dias. Os dois, em vez da cama, escreviam cartas de amor, esse amor sempre e simplesmente falado ou escrito, mas nunca continuado. Uma vez mais, o artista da palavra consciente do absurdo do seu lugar e tempo, e só pela literatura escapavam ao desespero das suas circunstâncias e sorte de vida. Foram, todos eles, torturados pela sua própria inteligência e consciência. É esta a minha interpretação deste singular livro de Luís Filipe Sarmento, em que tudo vale a pena para além das suas linguagens, do seu estado interior que por si só nos retrata toda uma sociedade oca ou vazia, toda uma sociedade despida do seu próprio ser e crença.

     Foi Edmund Wilson, que Harold Bloom viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX, que escreveu o seguinte: primeiro, que a invenção do telégrafo transformaria toda a prosa, tornando-a mais compacta e directa; depois a prosa do modernismo literário iria conter em si toda a poesia até então limitada à forma de versos. Claro que exagerou, mas não na totalidade, como todos sabem, especialmente após a sua leitura atenta de James Joyce. A escrita luminosa de Luís Filipe Sarmento, para mim, está entre os dois géneros literários. Ao manifestar o seu interiorismo fica retratada toda uma sociedade, a nossa, em textos que ora são poemas puros ora prosa poética. Ele não se poupa nem a si e muito menos o mundo que o rodeia. Isto é literatura no seu mais profundo estado. Quando fala de si, fala de nós. Quando fala de nós, fala de nós todos. Os escritores ditos “malditos” existem noutras línguas e contextos sociais. Luís Filipe Sarmento faz-me lembrar um Charles Bukowski no seu melhor. Que a sociedade tome conta de si, que tomarei conta de mim. Ao dizer isto, diz tudo sobre a nação a que pertence. Insinua ainda mais: eu sei onde estou e à comunidade a que pertenço, mas não entrarei no seu jogo, na sua sujeira, e muito menos nos jogos literários que a justificam ou elevam os medíocres da moda. Por outras palavras, eu sou eu, e que fiquem com o que vos convém. KNK não tem complacências ante a cobardia ou os chamados costumes da sociedade. O escritor tem como lema a sua autenticidade, quer gostem ou não. É o que acontece neste livro. Poema a poema, prosa a prosa. Sociedade, homens e mulheres, o destino num determinado espaço nacional ou universal.

     “Cria metamorfoses de ficções/onde aparentemente tudo lhe é indiferente/; ri do seu humor e, na distância, liberta-se/da ingenuidade que o traiu/no pavimento lamacento das larvas./De subalterno obscuro, a sua personagem/concebe logros, falácias, enganos/entre brumas sinistras que o divertem./Exclui-se, expulsando fantasmas viperinos,/e inclui-se, inimitável, no programa estético/que desmorona os pilares cobertos de peçonha./Ninguém o identifica, mas não esconde o nome,/porque tudo nele é novo, o seu processo/que tudo altera sem que a vida quotidiana/seja disfarçada. Sabe que as suas metamorfoses/o tornarão num ser humano, um plano/de que a literatura negra se faz rindo/para além de todos os projectos editoriais/infectados pela burocracia do poder obscuro.”

     Sim, reconhecemos Kafka aqui de imediato, e muito provavelmente o autor de nome Luís Filipe Sarmento. Seja num poema, numa prosa, ou nos géneros juntos, existe em cada alusão no autor-outro um pouco ou muito de nós. São estes os chamados escritores “malditos”, repita-se, nas mais variadas literaturas, os que dizem em voz alta ou serena as misérias que todos vivemos e sentimos nos espaços sem convivência. O chamamento a estes três génios da escrita ocidental em KNK tem tudo a ver com os nossos dias presentes. Serão estes, digamos também assim, os escritores que no futuro passam de uma certa marginalidade para o centro do cânone. Em Portugal já aconteceu a outros, e repito o nome de Fernando Pessoa, como o de Mário Sá-Carneiro, entre alguns outros que fizeram da revista Orpheu, uma das mais consequentes e douradoras publicações que relembra e se integra na poesia universal. A desatenção da fúria ignorante de muitos dos nossos periódicos literários e generalistas só lhes condena a arquivos que poucos consultam, as páginas que pouco ou nada significam. A “prosa” em forma de poesia de Luís Filipe Sarmento vai permanecer como um testemunho de um tempo que um dia será lido, pensado e relembrado, com espanto e admiração. Isto acontece em vários países, mas os de língua portuguesa quase entram no êxtase da sua indiferença, privilegiando os escritores estrangeiros, que também devem ser lidos, mas nunca tomando o lugar daqueles que connosco vivem o drama de um país permanentemente no esquecimento ou na sua auto-desvalorização.

     Algo mais sobre KNK: é precisamente sobre o estado vivido e o sentir íntimo, o do interiorismo do escritor, que passamos a ver como num quadro de mestres (tão diferentes como um Picasso espanhol ou um Edward Hopper norte-americano), toda uma sociedade tanto na sua violência escondida ou aberta, como na sua solidão. De amores e sobretudo de desamores vive a maioria da humanidade. Luís Filipe Sarmento escreve brilhantemente sobre a condição humana em que nos encontramos, não só de agora como de sempre. A sua escrita, por ser tão pessoal, torna-se, uma vez mais, universal por nos colocar no lugar desta e das mais longínquas geografias e culturas. Este não é um livro para todos, é para quem saber ler o que está escrito, e ainda mais o que fica por dizer nas entrelinhas. A grande literatura, em qualquer uma das suas formas ou géneros, é a que fica. Como num quadro de Jackson Pollock, que à primeira vista parece sem sentido. Olhem para os detalhes, e de lá sai toda a angústia e mensagem do artista. Este livro de Luís Filipe Sarmento faz algo de semelhante. Cores e coração em ebulição. Eis a sua beleza ou, se preferirem, a sua mensagem.

 

 

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      Luís Filipe Sarmento, KNK, Poética Edições Braga, 2019.