Da ficção distópica na literatura americana

 

A época nuclear, matando a fé dos homens na sua capacidade de influenciar o que acontece, poderia destruir os Estados Unidos mesmo que nenhuma bomba seja atirada contra nós.

Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II
Seven Days In May

 

Seven Days In May foi publicado em 1962, e de imediato conheceu sucessivas edições, tornando-se um dos mais vendidos na América, e com brevidade deu origem ao filme com o mesmo título, apresentado com nomes pesados como Burt Lancaster, Kirk Douglas e Frederico March, Só agora o li, ainda faltava dois anos para eu chegar àquele país, e nos primeiros tempos de América havia mais do que fazer, e sobretudo o impedimento da língua inglesa. Só comecei a ouvir falar deste thriller já na Faculdade, mas nessa altura um livro deste género nunca entrava na lista de leitura em qualquer curso das humanidades, e eu tinha muito mais do que ler nas cadeiras obrigatórias. Entretanto, o romance nunca me saiu da cabeça, e agora resolvi lê-lo pelas razões que li It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, que recebeu o primeiro Prémio Nobel em 1930, por outras obras. Este seu romance, ironicamente nunca recebeu a atenção que merecia pela sua audácia imaginativa. Foi necessário Donald J. Trump chegar à Casa Branca para que os leitores começassem a procurá-lo pelas razões que todos conhecemos. Foi traduzido no nosso país por José Roberto e publicado pela D. Quixote do grupo LeYa, Isso Não Pode Acontecer Aqui. A “profecia” de Lewis esteve quase a realizar-se, não só pelo autoritarismo da administração Trump, mas ainda mais com uma tentativa, já nos nossos dias, de um golpe de estado por outros meios levado a cabo por civis e alguns ex-militares disfarçados quando cercaram, invadiram, demoliram, mataram e procuravam senadores, congressistas e até o Vice-Presidente Michael Richard Pence, que acabava de certificar a legitimidade do voto nacional que deu a vitória a Joe Biden e à sua Vice-Presidente Kamala Harris. Tudo indica que queriam assassinar Pence assim como Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Representantes do Congresso. Nada disto, o 6 de Janeiro de 2021, tinha acontecido na história da democracia americana: um bando de marginais e fanáticos encorajados repetidamente pelo próprio Presidente, nesse fatídico momento escondido na Casa Branca, e como sempre a comunicar com os supostos líderes da revolta, que também destruiu parte do Capitólio e roubaram documentação pertinente que se encontrava nas mesas dos congressistas em sessão.
O livro agora aqui em questão é uma outra tentativa de imaginar um golpe de estado liderado por quatro generais de alta patente responsáveis pelo Estado Maior (Pentágono), pois o comandante da Marinha, que na altura se encontrava com a sua frota no Mediterrâneo, perto de Gibraltar, recusou-se a dar o seu nome a tal loucura. Desta vez, é um Presidente que iria ser violentamente deposto, e uma ditadura militar se instalaria. Em Seven Days In May nunca aparece uma só data, só acontecimentos que leva o leitor a um futuro próximo, digamos que ao fim dos anos 60 ou princípio dos anos 70. John F. Kennedy é mencionado como dos antecessores do Presidente em funções, o fictício Jordan Lyman, cujos colaboradores mais chegados descobrem a traição após uma visita à Casa Branca de um Coronel de nome Casey, que desempenha uma espécie de secretário do Pentágono ao seu mais alto nível, e ouve subrepticiamente certas conversas entre eles que ele entendeu colocavam a segurança nacional em perigo, e relata tudo o que sabia ao Presidente da República. Não vou mencionar aqui todos os nomes envolvidos, só os que colaboram no desmantelamento da conspiração, que foi organizada pelo Chefe-Maior do Pentágono, General Scott. O momento parece-lhe ideal. O país estava economicamente em baixo, as sondagens de popularidade do Presidente eram das piores, e tanto alguns militares como a população em geral estava absolutamente discordante do tratado que o Presidente havia assinado com o Kremlin para se começar a destruir por etapas as armas nucleares, e quase todos nos EUA desconfiavam da honestidade dos soviéticos. Tinha sido descoberto que enquanto neutralizavam alguns desses desarmamentos, o inimigo comunista estava já a construir secretamente uma base na Sibéria para recomporem as ogivas que desapareciam no tratado. O General Scott não teve meias medidas e utilizou fundos guardados para emergências maiores, mandando construir uma base secreta perto de El Paso (Texas) no deserto do estado Novo México, sob o código “Y”, e com o acrónimo ECOMCON, que significava Emergency Communications Control/Controlo Das Comunicações Numa Emergência, que visava cortar e tomar conta de todos os média nacionais para que só a nova junta tivesse acesso e falaria em termos exclusivos à população civil depois de instalados à força no Poder máximo em Washington. Tudo acontece, pois, em sete dias, e o romance está dividido pelos dias e horas da semana. Tudo seria descoberto por diversas manobras, e os superiores do Estado Maior são imediatamente demitidos e acusados de traição ao Governo eleito e à própria Constituição. Iria acontecer o “inimaginável” naquele país. Já agora, para tentar trazer o leitor ao presente, refiro que os generais tinham um certo apresentador de rádio como aliado histérico, mas que era ouvido por milhões. Só certos escritores pensam a América a sério em romances políticos, e espera-se que Seven Days In May nunca passe de mera ficção popular, aquela que nos faz querer virar cada página. Mais do que uma vez, o título de It Can´t Happen Here é citado em palavras (em letra minúscula e sem aspas) de conversas sem que, provavelmente, a maioria dos leitores nunca se apercebesse do seu verdadeiro significado, que vinha de um escritor de uma geração anterior.
“Olha cá – diz o Presidente a um colaborador já quase nas últimas páginas, e depois de terem vencido contra os conspiradores – tenho esperança que o povo deste país sinta como eu sinto – o que está delineado em papel é impensável aqui. Ray, você sabe o que penso sobre os políticos que não dizem a verdade. Mas prometo-te aqui e agora que vou mentir sem qualquer hesitação sobre todos estes acontecimentos, se assim tiver de ser. Creio ser importante que o público nunca suspeite que este golpe foi tentado”.
Seven Days In May pertence a um género, como já disse, pouco lido formalmente nas universidades. Esse facto pouco interessa a muitos leitores de outros géneros, inclusive os clássicos de qualquer língua ou cultura. Ignoram muitos a imaginação necessária na criação de acções ou manobras que nos parecem improváveis, enquanto reinventam personagens que vivem em mundos longe de nós, mas cujos estados de alma são-nos de imediato reconhecíveis. Só anos depois sabemos o que nas nossas costas estava possivelmente a passar-se, ou mesmo a ameaçar a nossa existência. O século XX esteve, de facto, à beira do colapso nuclear total, como ficou na História mundial. Não esqueçamos que  quando este romance foi publicado estava no poder John F. Kennedy, que olhou olhos nos olhos a possibilidade do armagedão. A 22 de Novembro de 1963 seria assassinado, e ainda hoje ninguém sabe exactamente por quem ou a mando de que forças no país, e muito menos ao que levou a essa barbárie. Foram os anos mais quentes da Guerra Fria, e os militares dos dois lados desconfiavam das intenções do outro lado. Ler este romance é uma delícia quanto a entretimento puro, e em linguagens muito superiores ao que pensam, ou acham que pensam, não merecer o seu tempo de leitura. Estou em boa companhia, conheço pessoalmente um grande escritor português que a primeira coisa que procura num aeroporto ou numa livraria é um policial ou uma conspiração política. Jorge de Sena, li algures, para descanso intelectual não prescindia de um bom volume de Agatha Christie.
Esta tradição da distopia sócio-política já vem de longe na literatura americana. Inclui, entre inúmeros outros, Day of the Locusts/O Dia dos Gafanhotos, de Nathanael West, Lady in the Lake/A Dama do Lago, de Raymond Chandler, e entre os quais devemos ainda incluir o grande escritor brasileiro Rubem Fonseca, em quase toda a sua grandiosa obra, e aqui com especial destaque para o romance Agosto, que também aborda conspirações políticas que levam ao suicídio de Getúlio Vargas. Isto só para não falar nos britânicos Aldous Husley e George Orwell. Não é por acaso que alguns destes livros, particularmente o romance 1984, estão a conhecer uma segunda vida, por assim dizer. O momento histórico em que vivemos, quer se pense em saúde ou novas formas de autoritarismo disfarçado em democracias corruptas em quase todo o mundo requer uma contínua reflexão de todos, leitores ou não.


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Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II, Seven Days In May, New York, Bantam Books,1962. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.