Conversa com Nuno Costa Santos em Arquipélago de Escritores, 2020

 

 

Manteve sempre uma ligação às comunidades açorianas nos EUA, no Canadá e no Brasil, escrevendo sobre livros de autores descendentes de açorianos… representando hoje umas das pessoas mais competentes para escrever sobre livros de autores americanos de diferentes proveniências.
Nuno Costa Santos, Grotta 4

Nuno Costa Santos - Disseste que durante muito tempo esqueceste Portugal. Podes falar um pouco disso, dos motivos pelos quais isso aconteceu?  
Vamberto Freitas -  Sim. Durante alguns anos Portugal tornou-se-me irrelevante. Sabia que o meu futuro todo (o que não viria a acontecer) estava na América. Portugal era então uma Ditadura vergonhosa, fascista, colonialista, intolerante e raivosa. Eu não queria ter nada a ver com esse país. A minha língua e cultura de origem nunca foram por mim desprezadas. Só que agora vivia num país que era decente, apesar de tudo o que sabemos e das suas acções mundo fora. Mas dava-nos a liberdade de contestar tudo isso sem uma polícia secreta à nossa porta e sem nunca nos proibir de ler ou pensar o que quiséssemos. Desde o primeiro ano de faculdade que me juntei à hoje pouco falada Nova Esquerda/New Left. Era acabar com a guerra no Vietname e lutar pela justiça portas adentro, pelos Direitos Civis que os afro-americanos tinham iniciado com coragem e sentido de cidadania total, beneficiando todas as outras minorias étnicas. Eu olhava para a minha antiga cédula de nascimento e já não me reconhecia em nada daquilo. A minha  professora Nancy Terry Baden, já aqui referida, tentava que eu “regressasse a casa” em termos não só reais como metafóricos. Acabaria por conseguir. Como eu então escrevi: Portugal, os Açores, eram para mim apenas uma lembrança mais teórica do que real. Quando em 1972 visitei os Açores pela primeira vez depois da minha emigração, tudo então me deu mais desgosto. Uma outra professora com quem estudei política internacional sabia desta minha atitude. Um dia chamou-me à parte e ofereceu-me um livro, e disse-me que eu tinha de o ler com toda atenção: The Liberation of Guiné: Aspects of an African Revolution, escrito pelo então grande especialista britânico Basil Davidson, que conhecia a luta em África melhor do que ninguém, e concentrava-se, neste seu outro livro, em Amílcar Cabral. Dentro vinha uma dedicatória dessa mesma professora, sem meias palavras: “To Vamberto for the liberation of Guiné, Portugal and the U.S”.  Guardo-o ainda hoje aqui numa das minhas estantes como um tesouro que muda vidas e destinos. Só que pouco depois ainda aconteceu o 25 de Abril de 1974, o ano em que me formei. Mudou tudo em mim. “Regressei” a casa mentalmente, e por inteiro, o meu país já não me era uma vergonha, mas as origens do meu ser, dos meus antepassados, da minha outra cidadania. Até hoje.

NCS - Como é que resolveste voltar ao interesse por Portugal, em geral, e pelos Açores, em particular?
VF – Quando me formei em 1974, a minha candidatura ao doutoramento na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tinha sido aceite. Durante esse Verão trabalhei para juntar algum dinheiro que eu não tinha, nem queria pedir mais a meus pais. Recebi um telefonema de um açoriano que eu não conhecia, mas já era director de uma nova escola do ensino oficial secundário californiano, Cerritos High School. Que queriam falar comigo. Fui lá e entrevistaram-me. Pouco tempo depois ofereceram-me um lugar de professor a tempo inteiro. Aceitei pois, e pensei: bom, vou ganhar e guardar algum dinheiro para os meus estudos finais. Quando acabei o primeiro ano, ofereceram-me mais um. Ao terceiro tive de optar – se ficasse, tinha de aceitar o estatuto de professor efectivo. Adeus doutoramento. Entretanto, eu já escrevia para jornais de língua portuguesa nas nossas comunidades, e fazia rádio com vários amigos e colegas açorianos. Em 1979 recebi um telefonema de Mário Mesquita, já director do Diário de Notícias, em Lisboa. Que me queriam como correspondente do jornal na Califórnia. Aceitei, espantado pelo facto de terem notado a minha escrita em pequenos jornais; mas fora o Onésimo que me recomendara. Comecei a ser convidado para eventos literários, sobretudo pelos míticos encontros da Maia no fim dos anos 80, aqui em São Miguel e em Lisboa. Estava divorciado, e conheci uma grande senhora de nome Adelaide Batista, que depressa passaria a ser Adelaide Freitas. Ofereceram-me cá vários empregos, mas tive a felicidade de ser convidado para Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores, e já vou no 29º ano de ensino nesta instituição, que faz parte indelével da minha identidade profissional. Sofri a minha maior tragédia, que foi perder muito cedo a minha grande companheira e esposa.  Mas eu queria voltar ao meu país, agora livre e em pleno desenvolvimento. Nunca me arrependi, nunca viveria noutra parte. A América está em mim da melhor maneira: na imaginação, nos meus livros, e na maior parte da minha família que lá vive.

NCS - Como é que sentiste o teu regresso aos Açores, para Ponta Delgada?  
VF – Como diria o outro sobre a Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Passei dias de grandes dúvidas, até me levar ao choro. Só que tinha a minha lado uma grande mulher. Renasci para a minha nova vida e comecei quase de imediato a dar aulas na Universidade dos Açores como Leitor de Língua Inglesa, o que me colocou na minha vocação de sempre, pois já tinha sido professor numa grande escola secundária californiana durante 14 anos, como já atrás referi. De imediato apareceram os amigos de sempre, e de seguida outros, que também se aproximaram com amizade e afecto. Recomecei a escrever sem demora para os jornais locais, e permaneci como colaborador literário do Diário de Notícias até 1994. Fui convidado para director da RDP/Açores (que não aceitei), e uns anos mais tarde para assessor de Carlos César para a política externa (que voltei a não aceitar). Já nessa altura me sentia completamente em casa no meu mundo intelectual e literário. O destino foi muito bom para comigo,  menos nessa minha tragédia prolongada da doença da Adelaide inevitavelmente levando-a à morte. Tudo quanto faço hoje é uma espécie de homenagem à sua memória, assim como à minha nova companheira, Ana Cabral, que continua a ajudar-me a navegar os labirintos complicados de uma pequena ilha.

NCS -  Já conhecias muitos autores açorianos. Mas como é que foram constituindo um grupo, plural e diverso, capaz de se unir, como aconteceu com os célebres encontros literários da Maia?
VF – Os encontros da Maia foram decisivos. Juntavam várias gerações vindas de toda a parte. A minha preocupação literária já era então o que ainda permanece em mim: prestar homenagem aos melhores que nos antecederam, analisar e escrever sobre os da minha geração, e agora juntar os mais novos a este quase incrível movimento literário. Trazer até nós os escritores continentais e luso-descendentes é outro tema que me ocupa diariamente. José Medeiros Ferreira dizia que éramos o último “grupo” literário em Portugal, coerente mas aberto a todos os talentos.. Estamos a conseguir concretizar estes desejos ou objectivos. A geografia existe, mas as fronteiras não. Até os brasileiros e os africanos de língua portuguesa já participam nas nossas iniciativas. A “nação” literária na nossa língua é já praticamente uma realidade. Vai juntar mais escritores que por enquanto se sentem afastados ou ignorados. Não estão. Estamos todos na liberdade da aproximação e respeito mútuo, e nunca do afastamento.


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Uma outra parte da entrevista que concedi a Nuno Costa Santos na revista Grotta 4, no evento Açores Arquipélago de escritores, no qual fui homenageado. Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2020.