Dos Segredos de Armando Côrtes-Rodrigues e da “sua” Violante De Cysneiros

 

Parco conhecimento de alguns autores, ou de autores não tão “reconhecidos” nas habituais praças demarcadas pelas leis do mercado livreiro e da crítica, dificulta, sobremaneira, a tentativa, amiúde frustrada, de fomentar o gosto pela leitura e pela análise literária.
Pedro Paulo Câmara, Violante De Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues?

Acabei de ler Violante De Cysneiros: O Outro Lado do Espelho de Côrtes-Rodrigues? Dizer que é o maior contributo à minha geração literária é pouco sobre um escritor quase esquecido entre nós A sua carreira de escritor, poeta e cronista desde os anos da mítica Orpheu de Fernando Pessoa em 1915, (o seu melhor amigo de sempre) até ao seu regresso aos Açores é de uma grandeza quase indescritível. Pedro Paulo Câmara, que vive aqui ao lado no Ginetes (São Miguel, freguesia mais ou menos rural), traz-nos agora um livro supremo sobre um dos nossos maiores autores açorianos e nacionais que estava quase totalmente esquecido, uma vez mais, pela minha geração, e por razões também quase inexplicáveis, mas que tentarei neste ensaio esclarecer. “Violante de Cysneiros” um pseudónimo marcante de Armando Côrtes-Rodrigues”, continuou a publicar em jornais açorianos, se bem que mudando de tom e “ideologia”, por assim dizermos, e estética. Já com currículo substancial na academia superior e até na ficcão, que mencionarei mais adiante, este livro de Pedro Paula Câmara, toma uma importância ainda imprevista no seu tempo para os escritores açorianos e continentais que viveram em directo o antes imediato e o pós de Abril de 1974. Trata-se aqui de uma tese recentemente defendida com sucesso numa universidade de Lisboa sobre não só um dos maiores escritores dos Açores, como o amigo mais chegado a Fernando Pessoa, e que começa a publicar na mítica Orpheu a partir de 1915, e que logo no segundo número da revista inquietante para a época assina com a pseudónimo de “Violente”, por vontade do próprio Pessoa, que lhe sugeriu o nome feminino porque a revista precisava da poesia de uma “mulher doentia”, dado que todos os outros colaboradores eram homens. Estamos aqui no mundo de génios, que espantaram toda a nossa tradição literária com o seu modernismo sem amarras nem vergonha. Quando Côrtes-Rodrigues regressa aos Açores para ficar para sempre em 1915, após a sua formação superior em Lisboa, é com com ele que Fernando Pessoa despeja toda a sua alma, a dele próprio e dos seus heterónimos. Numa das suas cartas, quando lhe envia o segundo volume da Orpheu dá-lhe uma notícia deliciosa: Levamos, diz-lhe do outro lado do mar, uma tareia espantosa na primeira página do diário A Capital. A publicidade para um grupo de rebeldes literários e culturais em geral não podia ser melhor. Mudariam em pouco tempo todas as linguagens da nossa literatura, as que vinham desde longe do chamado realismo a partir do fim do século XIX até ao neo-realismo dos anos 30. Nunca mais na nossa melhor escrita seria o mesmo., qe
Atreve-mo a dizer que a carreira literária de Armando Côrtes-Rodrigues é das menos conhecidas entre nós em todo o nosso país, à excepção de alguns nomes de obras canónicas do nosso ensaísmo e na crítica, como Eduíno de Jesus, que aliás enche justamente a contracapa Violante De Medeiros: O Outro Lado do Espelho De Côrtes- Rodrigues?  E ainda outros amigos chegadas aqui após o seu regresso a São Miguel. Ezra Pound dizia que toda a  boa literatura era a “notícia fresca” sobre a condição humana. O que Pedro Paulo Câmara faz neste seu livro é isso mesmo. Está mais do que claro que não vou reproduzir aqui esse livro. Só muito poucos entre nós sabia que no seu regresso aos Açores, tanto como professor, ficcionista, poeta e ensaísta em jornais desta sua ilha e na Terceira o seu combate era outro, não totalmente diferente da Orpheu, mas ele retomaria a sua vivência açoriana, e por completo. Em jornais locais e na Terceira defenderia, após Vitorino de Nemésio, o conceito de açorianidade, em prosa e poesia que dava continuidade a todas as as tradições, religiosidade e modo de estar e ser português à nossa maneira. Assinava com nome próprio, com vários pseudónimos, mas sua violante, já aqui nas ilhas, nunca se distanciou da sua pessoa, do proeminente escritor que foi e permanece entre nós. Não vou ocupar o meu espaço limitado nem títulos desses jornais já idos, nem com os nomes fictícios que utilizou, sempre em defesa do seu povo. Pedro Paulo Câmara acaba o seu grandioso livro com essa listagem completa. Digamos só e por agora que a sua grandeza vem desse facto, entre nós precioso: defendeu o modo de vida, as alegrias, as tristezas, e as tragédias de sermos um povo valente, separados da Mâe-Pátria, e sem nada a devermos. Muito pelo contrário. Quando opta pelo seu regresso à sua ilha natal, opta por si próprio. Deixar um pequeno grupo de génios em Lisboa, se bem que mal tratados numa das épocas mais ignorante de Portugal, mais ou menos liderado ou influenciado por Fernando Pessoa (ele próprio com uma costela açoriana na Ilha Terceira), opta pela sua autenticidade tanto como indivíduo e como membro da sua comunidade insular. Nem Nemésio chega lá perto como pessoa, ou talvez sim como autor, que utilizou brilhantemente o seu passado para se para se aproximar das correntes literárias da época, e ao mesmo tempo não ser excluído. Foi assim, no entanto, e durante muitos e muitos anos. Ao ler o livro de Pedro Paulo Câmara ficamos a saber algo mais. Foi Armando Côrtes-Rodrigues que assumiu por completo esta que é a nossa terra, e não precisou de andar a cavalo em Porto Martins e a pretender que sabia tocar viola para ser considerado um dos nossos.
Armando Côrtes-Rodrigues regressa e inicia logo esse seu novo projecto literário em vários jornais açorianos, e dedica-se a tudo o resto das artes que representam a alma do seu povo. Quer sobretudo uns Açores unidos, com História autónoma, e sobretudo sem apologia a mais ninguém na sua multi-secular existência como um outro Portugal, ou um Portugal à distância, com o mar como fronteira e passadeira para o resto do mundo. Pedro Paulo Câmara fez o que mais ninguém faria depois: nomeia alguns dos seus diversos pseudónimos, muitos dos jornais em que publicou, a sua educação desde criança no Convento de Vila Franca e depois em Ponta Delgada fica mais do que patente na sua obra, nunca nega ou seu passado ou as crenças nesse percurso genial de reafirmar os Açores e a sua gente no labirinto da chamada Portugalidade. Ler este livro Violante De Dysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues? é ficar a saber muito mais da nossa modernidade literária, primeiro a partir de Lisboa e de seguida nos Açores, é compreender muito mais ainda não só da nossa profunda caminhada artística, como da história do pensamento e da coragem intelectual. Não se pode pedir mais, temos aqui as páginas completas e um dos acervos mais vivos de toda a nossa literatura.
Pedro Paulo Câmara tem uma já uma admirável carreira académica e literária. Orgulha-me especialmente que começou na Universidade dos Açores, tornando-se hoje um dos mais consequentes dinamizadores da cultura no nosso arquipélago, desde a sua intervenção constante nos Colóquios da Lusofonia, fundados por Chrys Chrystello, a Académico correspondente da Academia de Letras e Artes de Portugal, assim como da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas, e membro do PEN Clube Português (liderado por Teresa Martins Marques) desde 2020.
Falta-me agora ler os seus Contos da Imprudência, livro publicado pelas Letras Lavadas no ano passado.
Uma advertência: Violante DE Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho De Côrtes-Rodrigues? Também saiu nesse ano. Só num meio de tricas literárias e “desatenções” de outros escritores impediu, por desconhecimento também, no qual me incluo, de não ter sido declarado e premiado como o nosso maior livro desse ano – nos Açores e em todo o nosso país.


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Pedro Paulo Câmara, Violante De Cysneiros: O Outro Lado Do Espelho DE Côrtes-Rodrigues ?, Câmara Municipal De Vila Franca Do Campo, Ilha Nova, 2020.