Aventura noutras terras: revisitação auto-biográfica

 

 

Que América, tão civilizada, tão histórica, tão memorial é esta que após 27 anos de açoriano isolado na Califórnia venho agora encontrar?

 

Tudo isto foi muito antes da América dos nossos dias. É, no entanto, assim que a quero lembrar para sempre. O que diz respeito às minhas viagens na Europa, tem-me pouca importância, foi só confirmar o que de bom e de mau eu tinha lido nos livros, ou imaginado. Vivi quase três décadas na América do Norte, e posso dizer que muito por lá viajei, desde a grande área de Los Angeles por toda a parte. A minha corrida preferida ia dessa área até à minha família no Vale São Joaquim, a três horas e meia de carro a alta velocidade numa mítica auto-estrada chamado de 99. Entretanto, num ano em que já não me lembro, atravessei o Deserto Mojave até ao Grand Canyon na companhia de Onésimo T. Almeida e de outro amigo comum, que tinha vivido no Canadá e foi membro dos seus nadadores olímpicos, o que me trouxe prazeres e descontentamos durante quase toda viagem, pois parávamos a meio do caminho e eles os dois iam para uma piscina de um certo hotel, e eu nem sabia nadar, limitava-me a ler jornais e a beber cerveja, disfarçando as minha inabilidades da melhor maneira que me ocorria no momento. Chagámos a Las Vegas, que ainda hoje detesto pelas suas luzes exageradas e os seus casinos mafiosos. De qualquer modo, sobrevivi, quase já sem dinheiro algum, gasto nos bares e naquelas máquinas de roubo puro. Cheguei a casa são e salvo, jurando que nunca mais, com ou sem amigos queridos como estes. Estamos nessa altura nos anos 80, e escrevi um artigo publicado em São Miguel com o título “Com Onésimo T. Almeida na lUSAlândia e em toda a parte”, o qual viria a escandalizar um tio seu aqui em São Miguel, então professor nesta cidade, pois tanto fiz um relato fiel como misturei ficção que pensava inocente, mas que foi levada a sério, e ainda hoje estará nos arquivos do Açoriano Oriental. Tempos depois, quando o Onésimo vinha cá, chamava alguns amigos para lhes demonstrar que nada tinha disso se tinha passado de um pequeno risco que nunca dimpediu o meu carro de ser aprovado na nossa inspecção aqui nos Açores. Essa peça jornalística foi escrita já depois de eu ter regressado definitivamente a São Miguel. Até disse que Onésimo, numa condução de um carro novo que eu acabara de comprar me tinha quebrado o pára-brisas numa estada de pedregulho naquela cova mítica do famoso canyon, que não me interessou minimamente. Enquanto os meus comparsas desceram até ao fundo desse suposto fundo de um antigo mar, optei por ficar no hotel, a ler jornais e a beber whisky. Bom, no fim dos anos 80, em encontros literários da Maia (hoje já míticos entre as novas gerações) apaixonei-me pela Adelaide, o que deu lugar a visitas suas à Califórnia, e acabariam pela nossa viagem de carro de uma ponta da América no Oeste até à outra na Costa Leste, onde embarquei o meu carro e seguimos até  ao nosso arquipélago.
De seguida, foi o meu regresso definitivo aos Açores em 1991. A Adelaide foi ter comigo à Califórnia para fazermos juntos uma viagem de carro atravessando a América desde Los Angeles até Boston. O nosso itinerário foi feito de maneira diferente. Em vez de viajarmos em linha recta (tipo route 66) sentamo-nos e pensámos nas cidades dos nossos escritores preferidos. Isso resultou sair e passar por alguns estados do Sul para visitar casas-museus e cemitérios desses grandes nomes, o principal dos quais foi William Faulkner, da cidade de Oxford, Mississippi. Foi maravilhoso. O curador da sua Casa-Museu tinha estado há poucos dias em Lisboa precisamente para falar do grande autor e da sua obra.
“Mississippi, localizado no coração geográfico e cultural do sul, – escrevi noutra parte e há muitos anos – é o paradigma fundamental de toda a tragédia humana e histórica naquela parte do país americano. É, ao mesmo tempo, um dos mais pobres e ricos estados da União. O seu estatuto – real e psicológico – de periferia autêntica fá-lo combinar a dor do seu passado com o triunfo que daí provém – uma poderosa e talvez inigualável literatura dos nossos dias. Para além de Faulkner, é a terra de todo um grupo de escritores que também viriam a tornar-se conhecidos, alguns deles, em todo o mundo letrado – Eudora Welty, Tennessee Williams, Walker Percy, E. Spencer, Richard Wright e William Morris, só para falar dos mais famosos”.
Entre muitas outras cidades do interior e da costa atlântica fomos à Carolina do Norte prestar homenagem a Thomas Wolfe, que faleceu em 1938. Uma vez mais, visitámos a sua Casa-Museu e  o cemitério onde está enterrado, e a sua universidade de Chapel Hill. Tenho nas minhas estantes pedrinhas e terra destas terras, e de Wolfe uma reprodução do exterior da sua casa de nascença e um quadro com seu perfil oferecido por uma antiga colega da Cerritos High School, onde dei aulas durante 14 anos. Thomas Wolfe, como me diria um dia o meu falecido e jubilado amigo George Monteiro da Brown University, ele era um romântico modernista, passe a contradição associada em mim para sempre a um génio da literatura, mesmo que hoje esquecido pela academia. Tem dois romances, entre toda uma numerosa, gigantesca obra, que ainda hoje me comovem: Look Homeward Angel e You Can’t Go Home Again. De resto, foram outros estados de mais escritores ao longo do grande país. Visitámos Washgington, D.C. mais por obrigação de dois cidadãos americanos do que pela curiosidade. Cheguei a ir lá com a Adelaide a um congresso sobre literatura americana. A mesma impressão. A parte da Casa Branca em que podem entrar turistas não me deixou a mínima lembrança ou saudade. Protestantes deitados em tendas em frente à Presidência, miseráveis pedintes nas ruas, e os outros engravatados ligados ao mundo da política e aos seus servidores. Baixei a cabeça em frente da grandiosa estátua de Lincoln
A paisagem de quase todos os estados americanos é deslumbrante. Nova Iorque foi noutra ocasião, mas também não me deixou vontade de regressar após algumas três visitas, mais pelas suas livrarias e teatro do que qualquer outras coisas. Sim, fomos às Torres Gémeas, que mais tarde seriam derrubadas por selvagens. Nada mais, sair de lá foi um alívio, rumo finalmente às casas dos nossos amigos e imigrantes e luso-americanos em Rhode Island e Massachusetts. Parece que todas as capitais têm algo de intimidante e frieza. Dispenso-as. Só que nunca me esquecerei o calor humano e acolhimento em todos os outros lugares. A ideia que cá fora se tem da América, sei que me repito aqui, está longe da realidade humana daquele país. Até nos estados considerados mais racistas, e eles estão lá, para connosco eram só perguntas sobre as nossas origens e nacionalidade natal, e isto em restaurantes, bares e na rua. Esta, sim, é a minha América.
Pouco depois de regressar aos Açores, viajei por vários países europeus: Holanda, Reino Unido, Irlanda, Isle of Man, Áustria, Bélgica, República Checa, Hungria e Alemanha. Para ser absolutamente honesto, já não tenho a suficiente paciência para mais museus, catedrais e arqitectura, mesmo que nunca tenha ido à Itália ou à França. Já não sinto qualquer necessidade de sofrer aeroportos gigantescos e confusos. Gostava de ver a Rússia, mas sem grandes pressas caso os deuses sejam benevolentes para comigo. Que trouxe destes países? Bom, alguma coisa, mas como um dia disse a um grande amigo quando deixei os EUA, agora não me lembro de nada que me tenha tocado profundamente. Muito mais do que cerebral, acho eu, sou emotivo, e a “frieza” humana e climática do norte pouco me diz. Também estive várias vezes no Canadá, uma vez delas em pleno inverno, mas gostei. Fez-me lembrar o outro lado da fronteira a sul, e aí, sim, senti-me em casa. Toronto não me disse muito, mas disseram-me com carinho e amizade os contactos privados e várias casas e outras situações. No México conheci um povo maravilhoso, educado, e com uma grande curiosidade sobre o meu país. Diziam-me, naturalmente em espanhol e com admiração, és do “país dos cravos”. Foi no ano de 1975. Nunca mais os esqueço ou deixarei de deles ter saudades.

A foto é da livraria Square Books, de Oxford, Mississippi, cidade natal de William Faulkner, A epígrafe foi tirada do meu livro América Entre A Realidade E A Ficção.