Um mundo de mulheres e conspirações

 

 


Desejei para o nosso país grandeza, progresso 
e liberdade.  Tudo isto à república está vedado.
Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores

Comecemos por reafirmar que Henrique Levy é  um dos mais fascinantes escritores residentes em São Miguel depois de uma vida que o levou de Lisboa a viver outras culturas de uma ponta do mundo ao outro, incluindo a misteriosa e distante Mongólia em anos idos. Este seu recente romance, Segredo Da Visita Régia Aos Açores segue uma já vasta obra que inclui Maria Bettencourt – Diários de Uma Mulher Singular, assim como uma nova edição da majestosa poesia, ainda hoje desconhecida pela maioria de nós, de Mariana Belmira de Andrade, natural de São Jorge onde vivei toda a vida, A Sibylla – Versos Philosophicos, publicado em 1884, e que ele fez sair também há pouco tempo numa edição primorosa. O autor não só (re)descobriu o livro como escreveu nesta nova edição inúmeras notas de rodapé e páginas inteiras com outra informação. Para além disto tudo, publicou uma vasta obra, que inclui outros romances e naturalmente poesia ou prosa-outra. É claro que se refere no presente romance à ida à Madeira e a vinda aos Açores pela primeira vez, em 1901, dos soberanos da então monarquia, D. Carlos I e a Rainha D. Amélia, no cruzador D. Carlos. ,
O trama foca-se quase todo em Lisboa, assim como na própria viagem aos Açores, aqui limitado  à ilha de São Miguel, apesar de ter andado por outras ilhas. Descreve minuciosamente a chegada para a alegria e patriotismo das elites e do povo, com foguetório, jantares, e actuação de três bandas de música. Quando o vapor foi avistado a entrar no porto da cidade, zarparem em gesto de honra tudo o que eram pequenas embarcações locais.  As principais razões que o trouxe até cá (continuo por dentro do texto) foi, em parte, demonstrar aos ingleses, que o acompanharam em navios de guerra como defesa à viagem do rei, a soberania dos Açores, depois do famoso Ultimato em África. Os autonomistas ficaram desconfiados e a imprensa republicana fez uma cobertura limitada, e assim mesmo a queixar-se ou a acusar o Rei e a Rainha de desbaratarem o dinheiro que o Estado não tinha, enquanto todo o  país vivia na miséria absoluta da rua, as mesmas que os aristocratas nelas se passeavam, fazendo que nada viam ou então nunca se importando com a sorte de um povo mendigo, sem comida nem saúde, e muito menos um sistema de educação igualitário. Tudo isto é-nos contado pela protagonista, cujo nome permanece no limbo enquanto fala de uma irmã mais nova, Margarida,  e da criada de casa, de nome Vitorina, das amigas da mãe, e, já viúva, até dos cocheiros que entravam e saiam da sua vida. É a filha mais velha de uma família burguesa, cujo pai conservador e monárquico passa a maior parte da sua vida numa herdade do Alentejo, comicamente obcecado por estatísticas, e pelo facto da mulher ter uma colecção de livros que ele desaprova mas não mexe nas escolhas da esposa. Acha, entre esses livros, a obra de Eça de Queirós que ele considera indecente para quem tem duas filhas que os poderão ler. De resto, são as visitas para o chá diário, mexericos gerais, e a vida no centro da cidade. A protagonista permanece indiferente a quase tudo isso, menos às lojas de roupa fina por encomenda na baixa de Lisboa, e a uma chapelaria muito especial, que dá origem precisamente ao segredo de que fala o título deste romance e que coincidirá com eventos que mudaram o nosso país para um novo regime republicano a 5 de Outubro de 1910.
A viragem na narrativa, que se havia já tornada magistral desde a primeira página e abordava o dia-a-dia de aristocratas e burgueses, acontece quando a protagonista casa com um deputado da monarquia constitucional, Vaz-Castro, que acaba por ser convidado pelos monarcas a acompanhá-los na visita às ilhas. Numa das muitas compras de novos vestidos e chapéus, a protagonista-narradora é apanhada de surpresa na loja da sua costureira, local que era um nicho de assumidos republicanos e militantes da Carbonária, quando as autoridades fazem uma rusga às instalações. A protagonista agarra depressa o seu chapéu e sem querer traz dentro um pedaço de pano verde e vermelho, escondendo-o de todos, transportado-o para os Açores. O marido adoece com tifoide muito grave e morre. A esposa coloca o dito pano debaixo do seu cadáver embalsamado a caminho de Lisboa, e consegue retirá-lo antes do enterro. Acontece-lhe uma espécie de epifania e ela desenha e costura os respectivos símbolos republicanos, entregando a bandeira à dona na sua chapeleria. Segue-se o sentimento de culpa, e a memória do marido que havia carregado o símbolo republicano debaixo dele no seu caixão de chumbo para que nunca fosse descoberto por outros, precisamente no navio do Rei. Ela tinha feito a viragem do conservadorismo indiferente para o lado oposicionista da monarquia. Independente em pensamento, não deixa de descrever toda a discriminação contra os pobres e doentes da capital ainda de um império espalhado desde África até Timor e Macau. Adiciono aqui que Henrique Levy consegue o difícil acto da verdade histórica com a ficção pura na sua imaginação quanto às mais variadas questões e personagens. Anos depois a protagonista cede a novos amores, e a vida continua, agora sob um regime, que falharia, como previram os monárquicos, acabando numa ditadura de quase meio século. O país continuou pobre, com algum progresso vagaroso num ou noutro sector da colectividade de todo o seu povo, que viveu um pouco mais de liberdade, mas permaneceu na sua condição miserável e sem equidade na distribuição de riqueza nas décadas que se seguiram. Até hoje, como sabemos. Ela torna-se como que um símbolo da liberdade, morando em casa própria, toca piano e fuma os charutos cubanos do marido, comprando ainda mais na Casa Havaneza.
“Quando saí do edifício da Rua de São Julião, resolvi – descreve pormenorizadamente logo nas primeiras páginas do romance, numa espécie de pronúncio contrastante do que viria na sua vida – regressar a casa a pé. Nunca, como naquele dia, havia reparado na quantidade de crianças subnutridas que proliferavam pela cidade, nos velhos miseráveis sentados de mão estendida nas esquinas das ruas, nas jovens varinas descalças com um rancho de filhos ranhosos à cintura, nos rostos esfaimados dos explorados operários… Enquanto meditava nesta Lisboa onde desfilavam pregões, ruas cheias de vendedores ambulantes a tentar sobreviver, observava os aguadeiros que levavam água ao domicílio, as lavadeiras a carregarem pesadas trouxas de roupa, os saloios com jumentos cheios de produtos frescos, resgatados da terra ao esforço da enxada na labuta diária… Concluindo. Nesta cidade, que se diz capital de um império, nem todos têm água canalizada, obrigando-se muitos a mergulhar no Tejo para o banho semanal. Está imunda. As doenças proliferam, e são poucos os cuidados de saúde com os mais pobres, excluídos pela sociedade na qual me incluo em lugar cimeiro...”
Desculpem as reticências porque os pormenores antecedem e continuam ainda mais neste passo narrativo preciso, histórico e verdadeiro para quem lê um pouco da nossa história, para quem quiser ter uma ideia de Portugal radicalmente desigual. O que se passa hoje entre nós no mesmo país não é chamado para aqui neste momento. Só que quem ler este romance vai ser obrigado/a a pensar o seu lugar na sociedade onde nasceu e onde permanece, entenderá um pouco melhor o abandono de milhões de portugueses antes e depois da monarquia. A certa altura a narradora adiciona, entre outras linhas, que vibram na sua verdade: “Este pensamento envergonhou-me como mulher e como portuguesa. Durante  muito tempo tentei afastá-lo, arrumá-lo escondido num lugar que não afetasse o meu quotidiano burguês”.
Este é o segundo romance de Henrique Levy que recenseio. O seu estilo é tão limpo, as suas frases acutilantes, as suas linguagens não tentam nunca impressionar os seus leitores como aqueles que pouco têm a dizer e escondem-se por detrás de um certo academismo que desde há muito cheira a bolor e pouco diz. Lê-lo é voltar ao chamado prazer do texto, como acontece com toda arte noutros géneros ou por outros meios. Segredo Da Visita Régia Aos Açores vem de novo comprovar o interesse do autor pelas paragens geográficas e históricas que fazem parte de uma vida, repita-se, que esteve sempre repartida por uma boa parte do mundo. Poderá ele estar a dar continuidade ao melhor da literatura modernista portuguesa, só que colocando no centro a história e meio ambiente em que se movimenta e cria vida vivida, consciente sem falha do que é o seu próprio destino, dando aos seus leitores, na sua vida açoriana, livros que permanecerão no topo do nosso cânone. Não deve provocar qualquer surpresa. Raul Brandão fez o mesmo no século passado em As Ilhas Desconhecidas, mesmo sem viver cá para além dos seus dias de viagem por algumas das nossas ilhas. Só que a grande literatura já não tem fronteiras, e quase está a desfazer a sua nacionalidade. É toda do mundo e para o mundo.
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Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores, Lisboa, Plátano Editora, 2020.