“Alma”, Portugal no seu melhor e pior

 

 

A minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha de dentro dela, uma obstinação. Ela queria grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre.

Manuel Alegre, Alma

 

Finalmente li o grande romance Alma de Manuel Alegre (Prémio Camões 2017, entre todos os outros grandes prémios literários portugueses ao longo da sua carreira), já na sua 16ª edição. Cada frase é um verso, cada passo narrativo um poema. Tem como tempo ficcional principalmente os anos 40, e a visão de um adolescente de 14 anos de idade e de uma família que o narrador diz ser “remediada” mas com boa vida, que testemunha a sorte de todos numa então pequena vila que dá o título ao livro, e toda a alegria e desgraça de um povo oprimido pela ditadura salazarista, romance símbolo de todo um país tanto ruralizado como citadino. Autobiográfico ou não, é toda uma “realidade” e um tempo que fica aqui brilhantemente retratado, ou então reinventa um mundo perfeitamente paralelo. Alma foi publicado originalmente em 1995, os anos em que eu andava totalmente dedicado à literatura açoriana e luso-americana, os meus anos da redescoberta das minhas raízes e estado existencial no meu país de origem após 13 anos na Ilha Terceira, onde nasci e me criei desenvolvendo já uma ideia das geografias físicas e humanas que desconhecia por completo, e depois 27 anos de América do Norte, onde me tornei homem, me formei na faculdade, seguidos de 14 anos no ensino secundário oficial da Califórnia. Um crítico ou ensaísta tem a obrigação de dizer de onde vem e como foi a sua mundividência foi moldada pela experiência pessoal e em directo. A literatura para mim nunca foi um acto meramente literário ou intelectual: foi o contacto possível com outros mundos desconhecidos, imaginados e sonhados, “realidades paralelas”, uma vez mais, que só nas artes têm a sua devida representação e que nos leva a um melhor entendimento tanto do artista como da comunidade a que pertence ou da pátria sua no seu todo dentro e fora de fronteiras delimitadas. Literatura e sociedade numa dialética constante. Há muito decidi elevar a obra e, quando é inevitável, castigar a sociedade de onde brotam as palavras em qualquer dos géneros literários cultivados pelo seu autor ou artista. Redescobri o meu país não através de formação e maturação ou revivências, mas sim através das letras. Quando, já nos anos 70, descobri e li com emoção Praça da Canção e O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, ou as suas determinantes visões que nos levam a perceber tudo um pouco mais certo do passado e prevemos um certo futuro de um povo mais ou menos livre e uma sociedade aberta, foi-me mais do que decisivo: foi a descoberta que eu pertencia a um país com grandes poetas, escritores e pensadores, e que eu em breve redescobriria a liberdade e a dignidade. Nada menos do que isso, para além da poesia já aqui mencionada, que devo repetir, e neste caso só parcialmente, a Praça da Canção. Só muito mais tarde, e já de regresso definitivo ao meu país, descobriria alguma da sua poesia dos anos mais recentes, Senhora das Tempestades, e prosa, com destaque no meu caso pessoal, para  Uma outra memória: a escrita, Portugal e os seus camaradas dos sonhos .Falta-me agora ler Jornada de África e a restante obra, que vem a seguir, toda sua escrita parte central do cânone literário definitivo e nacional.
Alma, traz ainda como prefácio deste romance o texto de apresentação da primeira edição feita por Mário Soares, e que conclui com algo que me parece estranho: “Haverá a tentação de identificar Alma com Águeda”. Erro grave, julgo. Alma é um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado: Nunca soube muito bem porquê, mas os autores portugueses que conheço, pelo menos alguns deles, temem que interpretemos a sua ficção como sendo “autobiográfica”, ou como se isso diminuísse o seu alcance puramente artístico. Creio que foi Gabriel García Márquez que disse ou escreveu um dia que só se escrevia bem quando se escreve sobre que o melhor conhecemos, e esse conhecido sujeito-protagonista será cada um de nós. Até no ensaísmo não podemos fugir desse acto comunicativo. Neste caso de Alma, ainda por cima, vem assinado à mão no fim da narrativa por Manuel Alegre, depois de ele ter escrito “Águeda, 11 de Agosto de 1995”, e relembremos que o nome do narrador é Duarte Faria, sendo parte do nome completo do autor. O seu narrador é agora adulto e escritor que recorda a sua vida e a da família, assim como de toda vida do seu lugar naquele tempo, em analapses sustentadas que nos levam a vários períodos da nossa História nacional, mas concentrando-se insistentemente nos anos 40 durante e depois da II Guerra Mundial, também os dias implacáveis do salazarismo. Sua mãe, que ele relembra nas palavras que servem aqui de epígrafe, chama-se Mariana, e dedica-se exclusivamente a manter a casa da família em ordem, o seu único refúgio de quando em quando, é limpá-la quase psicoticamente ou em fúria para esquecer o que vai na rua. Seu pai, Lourenço de Faria, originário de uma velha aristocracia que havia entrado na História do país, mas agora recordada só esporadicamente, a sua vivência limita-se a andar de espingarda na casa ou na brincadeira no seu quintal quando há zangas especialmente com a sua mulher e os outros portas adentro, e ele manda tiros para o ar num acto mais de humor e nunca de raiva. De resto Alma vive do futebol e dos cafés, a discussão quase sempre em volta da perseguição da polícia secreta de Salazar, que a dada altura centra-se nalgumas personagens da vila, governada por um Antoninho Pena, figura sob o suspeito dos restantes cidadãos aqui representados. O narrador vai observando tudo, as euforias do futebol (com violência pelo meio durante os jogos, como que numa metáfora e espírito do tempo), e ainda mais o medo atávico do governo fascista que tanto intimida como prende, tortura e mata os seus opositores. Estamos geograficamente mais ou menos no interior do centro de Portugal, outro símbolo do restante país naquela época política, e era preciso “domesticar” um povo até então livre e que aparentemente preferia de longe o caos da Primeira República ao autoritarismo que havia tomado conta do Estado que de “Novo” tinha pouco, herdeiro do absolutismo multi-secular de todo o nosso passado na preferia da Europa. É difícil e impossível não fazer uma leitura do próprio autor em cada uma destas páginas fulgurantes, ora irónicas ora de humor, com a sensualidade de um adolescente perante as criadas lá de casa e outras mulheres.
“Parti – diz o narrador no fecho do seu romance – de camioneta para Lisboa, já no fim de Setembro. Não sei se a manhã estava cinzenta e triste ou se foi assim que ela se gravou na minha memória. Como saber o que é e o que não é, o que se inventa e acrescenta e o que se corta e encurta.
Senti um aperto na garganta ao passar a ponte. Olhei o rio, a nora, os salgueiros, os campos. Alma, dizia eu. Como quando era pequeno e dizia mãe”.
Alma é esse grande romance cuja adolescência já consciente ou entendimento precoce do seu lugar na sociedade era evidente, pormenorizada, em que cada detalhe nos leva a imaginar o seu dia-a-dia, as suas alegrias e medos, a sua indignação que mais tarde se converte numa vida de aventura e perigo. Não vale a pena falar aqui dos pormenores históricos ou do que foi após estas páginas, a sua entrada no liceu, a sua vida em Coimbra, a sua mobilização para a guerra em Angola e prisão, a fuga para a França, e eventualmente dez anos em Argel ao serviço da rádio da emissora Voz de Portugal. Basta lembrar as palavras da sua mãe fictícia que citei acima. Previa uma vida diferente e distinta. Foi concretizada em primeiro lugar na grande literatura da nossa geração, e depois na política. Este é um livro de ficção, sem dúvida. Só que para um leitor minimamente conhecedor do percurso do autor será impossível, uma vez mais,  não o associar a toda uma caminhada que fica, vai ficar, nos anais da nossa vida durante os piores anos de Portugal
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Manuel Alegre, Alma, Lisboa, Dom Quixote/LeYa (prefácio de 
Mário Soares), 2019.