A condição existencial de um romancista homossexual americano

 

 

Tenho estado no Japão, nunca tinha ido à Índia, ou a Marrocos ou à Alemanha, ou a muitos lugares para onde Arthur Less iria de viajar nos próximos meses. Nunca subi uma pirâmide antiga. Nunca beijei um

homem num telhado em Paris.

Andrew Sean Greer, Less

 

Less é o titulo deste romance norte-americano, vencedor do Pulitzer Prize 2018, e é o último nome de Arthur, o seu protagonista. Escritor que se sente falhado e prestes a fazer 50 anos de idade, o narrador aqui sem nome tem como referencial geográfico e humano os países mencionados na epígrafe deste meu texto (é ele que fala nesse instante) em que seguimos as suas andanças numa série de conferências internacionais. No estrangeiro, como acontece tantas vezes com certos escritores, era mais apreciado do que no seu próprio país, especialmente com uma outra peça de ficção intitulada Dark Matter, mas o seu mais recente original tinha sido determinantemente rejeitado pelo seu editor, o que o levou em fuga aproveitando o nome e o prestígio que já tinha na sua carreira. É residente em São Francisco desde os anos 80 após abandonar a sua terra natal do outro lado continente, Delaware. Estamos nos primeiros anos da Sida, que ceifava vida após vida, sem cura à vista. Less vive em São Francisco entre os da sua idade, então um grupo de amigos, escritores e artistas vários que se haviam refugiado na cidade californiana mais tolerante para com aqueles que tinham nascido ou optado por orientações sexuais fora da heterossexualidade. Acompanhos todos nas suas vidas diárias, e nas praias locais que tanto juntavam homens e mulheres com estilos de vida ora convencionais, ora de outra natureza. Há algo de muito especial neste premiado romance: a sua linguagem nunca cai nas descrições do acto sexual, segue simplesmente, uma vez mais, o estado existencial do seu protagonista, que teme a viragem de idade para os 50 anos, muito menos dos que os seus falhanços literários. O narrador, como também insinua num passado citado aqui, parece também homossexual, mas não diz nunca o tema principal do seu romance. Para além do mais, o leitor vai seguindo Less nos países que visita, alguns depois de por lá passar alguns anos antes com amantes mais velhos e das mesmas orientações homossexuais, tomando nota das diferentes maneiras de ser e estar nessas outras realidades nacionais, contrastando o respeito e admiração que recebe dos seus anfitriões enquanto se passeia nas várias cidades para onde foi convidado, e tudo numa linguagem que oscila entre um realismo puro e duro e um eloquente liricismo quase  poético, nunca cedendo a condescendências perante uns e outros. Quando Less regressa meses depois à sua residência em Vulcan Street, numa daquelas colinas de São Francisco, já é um homem mudado, mais calmo na aceitação da sua idade e nos falhanços literários dos últimos anos. Mantém uma série de amantes locais, de idades diferentes, mas a partir de aí fica só a nossa imaginação sobre a sua sorte futura.

O romance está estruturado com os anos de São Francisco, e depois segundo cada um dos países que vai visitando como convidado literário de prestígio. Desse modo, o narrador vai abordando as idiossincrasias de cada um deles, como que a querer dizer que há mais mundo para além do medo e do grande continente americano. Se um dia, como diziam alguns críticos, a literatura americana era algo provinciana, esta nova geração de escritores e da era digital não hesita nunca em atravessar fronteiras, e recusa o mal-dizer dos estilos de vida dos outros. Saído o ano passado, poderíamos muito bem interpretá-lo como um perfeito e total contraponto à “nova” América”, num respeito absoluto pela diferença de todos géneros e hábitos culturais. Humor, ironia e prosa, uma vez mais, quase poética contrapõem-se às linguagens político-culturais da actualidade do seu país. Na Califórnia, Less tanto tem amantes e amores anglo-americanos como com mexicanos ou latinos, mulheres que toleram as mudanças dos seus maridos, respeitando-os tanto eles como os seus amores ou meros encontros masculinos. Less acompanha a partir do Japão os últimos dias da vida após um AVC do seu grande amor, de nome Robert Brownburn, cientista e muito mais velho. Tinham-se separado há uns anos, mas o narrador parece querer insinuar que a vida é redonda, e, aproximando-se um fim real, imaginado e temido, regressamos inevitavelmente aos momentos mais marcantes das nossas vidas. Este não é um romance propriamente sobre outras orientações sexuais, muito menos sobre pormenores de cama. É um romance sobre a natureza do amor e dos seus momentos mais felizes e infelizes. Por outras palavras, cada um de nós se revê nos abalos interiores dos seus personagens mais destacados. Uma das formas (já antigas) da ficção americana parece sempre um regresso ao realismo psicológico de um passado ainda não muito distante, mas que marca toda a estrutura da sua arte literária: linearidade aqui e ali interrompida por analepses que nunca nos deixam confundir os tempos ficcionais que nos são apresentados. Aliás, toda a narrativa deste livro parte do presente para os anos de fulgurância e produtividade ou boa vida das suas personagens. Não temos nestas páginas só as suas histórias, sobressaindo ainda toda a condição humana vivida nestas décadas mais recentes, a história do país sempre insinuada a cada passo, a cada insinuação de que como foi viver ou sobreviver os anos incertos e pessoalmente atribulados que continuam, agora mais do que nunca, a ser os nossos na generalidade. “Tal como Proust, -- escreve o narrador – ele sabia que o fim estava por perto. Quinze anos, e a alegria do amor já há muito tinha esmorecido, e a traição tinha começado: não eram simplesmente as aventuras periódicas com outros homens mas o segredo desses relacionamentos que decorreram de um mês a um ano e acabaram com tudo à vista. Estava ele a experimentar quanta elasticidade poderia ter o amor? Era simplesmente um homem que tinha de boa vontade entregue os seus anos mais novos a um homem mais velho e agora, chegando ele próprio a essa meia-idade, queria voltar à fortuna que tinha atirado ao vento? Queria sexo, amor e brincadeira? As mesmas coisas de que Robert lhe tinha salvado tantos anos atrás?  Quanto às coisas boas, tal como a segurança, conforto, amor – Less encontrava-se a esmagar em pedaços tudo isso. Provavelmente não sabia o que estava a fazer; provavelmente ele não sabia o que estava a destinar. Ou talvez sabia. Provavelmente estava a incendiar uma casa na qual já não queria viver”.

O autor de Less (cujo significado quer dizer literalmente Menos) não lhe deu esse nome aleatoriamente. Poderá querer dizer-nos que todas as nossas vidas deixam de fora as fantasias da juventude, quando tudo nos parece possível e julgamo-nos imortais. Suponho que qualquer leitor deste romance, em qualquer parte do mundo, se vai reconhecer nesta vivência diferente, retirando de imediato as conotações sexuais com as quais podem simpatizar ou não. É a nossa humanidade que domina este romance.

Andrew Sean Greer, que também vive em São Francisco, tem já no seu currículo literário obras como The Confessions of Max Tivoli, que foi considerado pelo San Francisco Chronicle e pelo Chicago Tribune o melhor livro do ano em 2014, e ainda The Impossible Lives of Greta Wells e The Story of a Marriage, De resto, tem recebido inúmeros prémios prestigiados pelos seus contos, e recebeu o National Endowment for the Arts e o reconhecimento igual pela New York Public Library e o The California Book Award. De página em página vai fazendo chamamentos a diferentes escritores americanos e de outros países e línguas. Quero com esta lista parcial apenas chamar a atenção para uma nova voz da literatura americana contemporânea, e que não passe despercebido entre nós. A editora Quetzal traduziu e publicou, em 2019, o romance, mantendo o mesmo título. Foi mais do que justo, foi de certo modo uma outra homenagem ou oferta a alguns leitores portugueses mais virados para a grande literatura mundial.

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Andrew Sean Greer, Less, Abracus/Little, Brown and Company, London, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Peço desculpa aos meus leitores por ter insinuado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de  4 de Setembro que Less ainda não tinha sido traduzido para a nossa língua.