Quando um pirata se torna cuidador de flores

 

 

Celestino não estava senil e talvez tivesse um coração escondido atrás das tatuagens. Fosse o mar como as florinhas sem boca: um caixão sem ouvidos, cego, surdo e mudo.
Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas

 

Li e escrevi sobre o primeiro o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo (2015), depois as circunstâncias não me permitiram abrir os seus livros seguintes, alguns deles na estante à espera da minha leitura, Ajudar a cair, Luanda, Lisboa, Paraíso, que recebeu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro e o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz em 2019-2020, e Pintado com o pé. Os meus dias agora são outros, e mesmo com certo atraso não podia deixar de ler página a página o seu mais recente romance A Visão das Plantas, publicado já há alguns meses.   Nada disso importa, pois vai permanecer entre nós como uma peça de ficção que veio para perdurar, tornar-se parte do principal cânone da nossa literatura modernista, ou pós-modernista, esta classificação já um tanto fora de moda, mas que nos trouxe para a ribalta escritores e livros que antes eram ignorados pela crítica e ensaístas em geral. Tem como um dos seus postulados o revisionismo histórico de acontecimentos e figuras, exactamente o que acontece com esta autora e a parte da sua obra que conheço e aprecio de modo muito acentuado como se ainda vivesse e estudasse numa América cujo fulgor nas suas faculdades de línguas mais pareciam laboratórios da teoria da literatura do que espaços para estudos das próprias obras criativas, e ensaísmo como que procurando um lugar de igualdade aos melhores escritores de todos os tempos, e particularmente dos que na nossa geração produziam as mais variadas obras em todos os géneros e formas. Que Djaimilia Pereira de Almeida, doutorada precisamente em estudos teóricos da literatura, se tornou uma das nossas mais importantes autoras vem prová-lo este seu A Visão das Plantas, todo ele escrito por uma mulher de certo modo culturalmente híbrida (nasceu em Angola, mas veio para cá ainda menina de tenra idade), perfeitamente consciente da complexidade humana não só da História como muito especialmente de cada uma das suas personagens inventadas ou reinventadas nas suas páginas. Lemos a sua prosa como quem lê um longo poema, tal o poder de cada palavra e frase, tal a contundência das suas histórias e das geografias humanas onde se desenrola o quotidiano de cada um ou da comunidade no seu todo. O seu protagonista neste livro tem o nome de Celestino e o seu tempo foi o século  XIX, quando se tornou um pirata e criminoso envolvido em primeiro plano na captação e venda de escravos africanos no Brasil. A sua crueldade é nesses tempos quase indescritível, tanto mata uma menina apanhado por ele na selva, como, depois de uma revolta de escravos a bordo do navio de que fazia parte, cobre centenas de escravos sobreviventes no porão com cal, fechando todos as possibilidades de escape até à morte colectiva do grupo de seres humanos cujo destino não seria muito melhor se tivesse chegado ao novo mundo. Corta gargantas, as palavras são suas e a memória viva dos seus crimes, como uma dona de casa até aos nossos dias  mata uma galinha. Vive, depois de tudo isso, numa casa ancestral numa aldeia algures nos arredores do Porto em aparente paz perfeita, cultivando um jardim das mais variadas flores e plantas, amedrontando crianças e outros pela sua aparência primitiva e silêncio desdenhoso ante tudo e todos. No entanto, nem todos o abandonam até ao dia da sua morte calculada e prevista pelos leitores do romance.
A ausência de uma consciência magoada por Celestino faz deste romance um acto de escrita desusado, mas creio que justamente em consonância com a mente ou crença de um criminoso na reforma e de regresso a casa, e a outros tempos. Poderemos estar ante um romance ironicamente nietzsheano, um defensor do chamado “super-homem” que nunca foi sujeito à noção das acções em que se envolveu durante uma vida, ou do “príncipe” que justificava o corte de gargantas em nome do Poder. A verdade é que A Visão das Plantas parece um falso acto de redenção quando o protagonista, pela visão também irónica do narrador/a se dedica ao cultivo e respeito pela Natureza, que é sempre indiferente aos feitos dos homens e das mulheres. Celestino entra na igreja local como quem entra num teatro onde tudo que acontece é um faz-de-conta, sem a mínima intenção de perdão pelo seu passado assassino. Quase todos se afastam dele, mas não o hostilizam, como se a colonização lusa tivesse sido um empreendimento que tudo justificava, e nalguns casos uma guerra sagrada contra todos os outros povos que subjugavam por qualquer método essencial, tudo o que nos traria riqueza de imediato esbanjada por boa parte da Europa. Celestino é visitado pelo padre Alfredo e um médico local, mas as palavras de um ou do outro nunca abordavam o seu passado por ele próprio revelado, só que pressentiam a contradição de um ser humano com necessidade de arrependimento ou cura. Celestino espera pela morte com a mesma calma com que esperamos pelo correio ou outro visitante sem significado decisivo. A autora escreve apenas sobre a natureza humana? Não estou em crer, e ainda mais quando se trata de quem deixou atrás todo um país que foi o seu, e conhece como poucos a tragédia da nossa geração. Nem sequer a sua biografia mista entre negros e brancos justificaria isso. Há nestas páginas, parece-me, algo muito diferente. Um dia perguntaram ao grande autor negro James Baldwin, que a meados do século passado abandonou os Estados Unidos rumo à França, onde viria a falecer há alguns anos, pelo racismo e homofobia que sofria em Nova Iorque, se mantinha ódio aos brancos, que nunca nunca deixava de descrever as suas piores atitudes e até violência. Era chamado com alguma frequência à casa Branca por John F. Kennedy para o aconselhar sobre política e Direitos Civis. Baldwin escreveria eventualmente num ensaio que “o ódio era um fardo pesado demais para carregar na sua pessoa uma vida inteira”. Djaimilia Pereira de Almeida escreve, na minha leitura, algo semelhante. O passado não pode nem deve ser esquecido nunca, mas a nossa convivência, em qualquer época, não pode nem deve distanciar a Humanidade no seu todo.
“Na sua cabeça – escreve a narradora – tiniam as obrigações da manhã, a melodia branda das tarefas das flores, que não o queriam deixar morrer depressa. As idades passando, até os meninos que via pela rua iam ficando outros. Os casados passeando de mãos dadas, a terra comendo as sementes que lhes jogava, e aquele relógio, o mais acertado de todos, batendo as horas certas, engolindo os minutos, as horas, os segundos, a água: relógio das plantas, mão estendida, sem tempo para sentenças”.
Cada personagem, pelo menos nos grandes romances, têm e vivem o seu tempo histórico. A vida aventureira e assassina, não esqueçamos, tinha outros tantos que falavam, lutavam e escreviam sobre a selvajaria europeia não só em África como no Brasil e em outras terras “descobertas”. A Visão das Plantas é inspirado profundamente na ficção de Os Pescadores, o romance clássico de Raul Brandão, mas em que a autora parte dessas páginas e liberta a sua imaginação para o desenvolvimento do seu próprio romance. Toda a grande literatura, como sabemos, é esse diálogo com a sociedade e com a história ou as grandes obras literárias do passado. Boa parte da Europa esteve envolvida nestes crimes, alguns deles casa adentro, e perante os países vizinhos, também como se sabe. O esquecimento é o nosso pior inimigo, tanto por parte das vítimas como parte dos seus carrascos. Portugal tem hoje a fortuna de ter aprendido a conviver com muitos povos, em terra e no mar, com os que eram mortos em pedaços, deixados aos abutres, atirados às águas oceânicas, à sua decomposição total, sem os rituais da dignidade devida a cada ser humano. A arte, a grande arte, para lembrar aqui outro gigante da língua portuguesa recentemente falecido no Brasil, tem essa outra função: reavivar a nossa memória e ver-nos através do Outro. Sem desculpa para o protagonista deste romance, é isso mesmo que consegue em a Visão das Plantas. Djaimilia Pereira de Almeida pertence a um novo grupo de escritores portugueses que revêm o nosso passado. Afinal, a recordação literária da nossa pirataria assassina é uma outra espécie de redenção, e, de certo modo, um pedido de desculpa, por assim dizer, a todos os que oprimimos em vários continentes e ilhas.
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Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2019.