A mão no nosso bolso

 

Andam todos a queixar-se da inflação e do consequente brutal aumento dos preços, mas há uma indústria extrativa dos nossos bolsos que está caladinha até desconfiar.
É a banca, este sector que vive na impunidade dos governos e dos senhores governadores, sempre pronta a pedir ajuda quando avista a insolvência e a ameaçar com a lega-lenga do “risco sistémico”.
Mas quando as coisas correm bem, como está agora a acontecer, à custa de uma crise em cima das costas dos contribuintes, fazem um ruidoso silêncio sobre os lucros excessivos e escandalosos.
Os bancos em Portugal estão a ganhar 7 milhões de euros por dia, graças ao aumento das taxas de juro, mas não retribuem aos depositantes como remuneração dos depósitos, mantendo o mesmo juro que ofereciam antes, do tamanho de uma formiga.
Estão a pagar 0,05%, quando a média no mercado financeiro europeu é de 0,6%.
Só em comissões a banca já arrecadou, até Setembro deste ano, quase 2 mil milhões de euros.
Já ajudamos a banca nos seus tempos difíceis, não há muito tempo, e só para o Novo Banco foram mais de 3 mil milhões de euros pagos pelo Fundo de Resolução. Curiosamente, foi o banco que mais cresceu nos lucros este ano, ultrapassando alguns dos seus congéneres, pelo que era de esperar uma melhor compreensão com os depositantes. Pelos vistos, é para esperar sentado, como todos os outros.
Com efeito, os principais bancos registaram lucros de mais de 1.000 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, nada comparado com os 25 milhões registados no mesmo período do ano passado, pelo que seria de esperar uma outra atitude perante os depositantes.
Mas como suas excelências não se descosem, foi preciso o Banco Central Europeu intervir e chamar a atenção de que é inaceitável que os bancos estejam a lucrar tanto numa altura em que a economia passa por dificuldades.
Daí que seja preciso agir perante a voluntária passividade da banca glutona.
O BCE anunciou que está a preparar um documento que pretende mudar as regras relativas aos empréstimos concedidos aos bancos da Zona Euro, o que poderá diminuir drasticamente as receitas das instituições financeiras.
É um fraco castigo, na medida em que o excesso dos lucros não deverá reverter a favor dos clientes, sobretudo no aumento dos juros dos depósitos ou na diminuição das taxas de juro dos créditos, como a habitação.
Vamos aguardar, mas o histórico não é lá muito famoso. A banca tem sido altamente protegida com receio do tal “risco sistémico”, termo que não se aplica, na linguagem dos políticos, às famílias e empresas.
Estas podem empobrecer e falir, que não haverá Fundo de Resolução que nos salve. 
Às vezes apetece aplicar outro tipo de resolução nos fundilhos dos políticos.

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UMA FÁBRICA DE CASOS - O PS tornou-se numa fábrica de casos. É raro o dia em que não nasce um debaixo das pedras que os portugueses vão tropeçando por este país fora.
Tem tudo a ver com a duração dos partidos no poder. Quando se acomodam durante muitos anos, sempre com os mesmos, aparecem os abusos, os aproveitamentos, as arrogâncias e os donos disto tudo.
Já tivemos disto por cá, com 20 anos de um e mais 24 de outro.
António Costa não parece aflito. Tem o seu futuro garantido na Europa, tem os socialistas açorianos arrumados no bolso e curvados a Lisboa, pelo que ninguém tem a coragem de lhe afrontar internamente. E é assim que a política e os políticos se vão degradando dia-a-dia, onde até já nem escapam os jotinhas imberbes, acabados de sair da escola, e já com pelouro assegurado cheio de mordomias. Um tal fartar. Todos sabemos como é que isto acaba.

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ADEUS A JERÓNIMO - Jerónimo de Sousa não foi grande líder. Longe de um Cunhal. Deixa um partido em decadência.
Mas esteve sempre no seu registo coerente, de convicções profundas e nunca saiu delas. Inclusivé a falta de condenação contra o carniceiro de Moscovo. Salve-se, pois, a coerência e o seu entusiasmo por uma política de seriedade e sem populismos, tão na moda como em quase todos os partidos.
Vamos ter saudades dos seus provérbios e das suas metáforas. O que não é pouco, num país que vive numa grande metáfora.

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BOAS NOTÍCIAS - No meio do turbilhão de más notícias, de tensões sociais e de tanta asneira política, cá dentro e lá fora, valha-nos os que ainda vão acreditando em nós, na potencialidade dos Açores e dos açorianos, como é o caso da multinacional canadiana Jolera.
Os seus executivos vieram esta semana abrir portas da sua delegação na região, com a promessa de expandir a sua tecnológica entre nós e recrutando mão de obra qualificada. É disto que precisamos. É um sinal de grande confiança nos nossos jovens e no enorme potencial que é a nossa posição geográfica. Pode estar aqui a chave para outros seguirem o exemplo. Venham eles e que a tradicional burocracia à portuguesa não nos trame os horizontes.