Bispos na idade das trevas

 

Há padres e bispos que parecem viver ainda no período medieval da idade das trevas.
A Conferência Episcopal Portuguesa deu uma imagem deplorável da Igreja, porventura a instituição historicamente mais respeitada no país e nos Açores, que desempenhou um papel crucial na formação da sociedade insular.
O verbo vai mesmo no passado, porque quanto ao presente a Igreja tornou-se, para muita gente, um  espaço de desconfiança, de conformismo e cada vez mais ausente da centralidade social da nossa região. Não admira que os templos estejam vazios, envelhecidos e sem sinais de uma outrora inquietude em defesa dos mais frágeis e injustiçados.
É ela, agora, que está no centro da podridão social, quando tenta, a todo o custo, silenciar e fazer esquecer as vítimas de abusos sexuais, recusando afastar os padres suspeitos e a indemnizar as vítimas, ao contrário das orientações do Papa e do que já se verificou noutros países.
De referência moral na nossa sociedade, os responsáveis episcopais passaram rapidamente para o lado das trevas e da dimensão desumana, tudo ao contrário do que nos ensinou nos evangelhos.
É, pois, com imensa alegria e uma pontinha de orgulho que assistimos à decisão do Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, indo ao desencontro da Conferência Episcopal e demonstrando uma lucidez moral e inteligente a que não estávamos habituados na nossa Diocese há muito tempo.
É uma enorme rajada de ar fresco que nos entra pela casa católica dentro e dá-nos um sopro de esperança de que nem tudo está perdido nesta Igreja desorientada e com traços de pouca sensatez que nos envergonha a todos.
Suspender os suspeitos, apoiar as vítimas em toda a sua dimensão e enviar para os tribunais os casos relatados pela comissão independente é o mínimo que se pede aos bispos, pelo menos aqueles que ainda se honram de alguma luz divina e não mergulhem nas trevas como D. Manuel Clemente e os que pensam que um pedido de perdão faz esquecer tudo.
Basta olhar para os outros exemplos, de outros países, onde ocorreram actos semelhantes e como toda a Igreja, com a ajuda da sociedade, se organizou para lidar com alguma moralidade sobre este assunto.
Nos EUA, por exemplo, onde a comunidade portuguesa conhece muito bem a dimensão desta desgraça, tem havido inúmeros casos de compensação às vítimas, exigida pelos tribunais, o que tem levado várias dioceses quase à bancarrota, mas sentem-se moralmente compensados por tudo o que passaram.
É claro que as acusações têm sido investigadas, mas tem sido normal suspender os suspeitos quando a acusação merece crédito, pelo menos até à decisão da justiça, quando ela é chamada para os respectivos casos.
Ainda na passada quinta-feira o The Washington Post publicou um interessante artigo sobre como a sociedade americana tem reagido ao flagelo (“Catholic group spent millions on app data that tracked gay priests”/By Michelle Boorstein and Heather Kelly), curiosamente um dos jornais onde apareceram as primeiras denúncias, que viriam a despoletar as investigações noutros países.
E, mais curioso ainda, é que tenha sido um jornalista descendente de açorianos, Michael Rezendes, que, no Boston Globe, fez a maior investigação de sempre, que o levou a ganhar o Prémio Pulitzer em 2003 e originou o famoso filme “O caso Spotlight”.
Michael Rezendes, que vai estar entre nós, em S. Miguel, daqui a pouco mais de um mês, não quer voltar a investigar casos destes, porque afectaram-lhe emocionalmente, tal a violência dos relatos das vítimas.
O filho de açorianos diz que “não tenho acompanhado muito de perto a história da Comissão Independente em Portugal, mas estou ciente das suas conclusões e não estou surpreendido”, porque já vaticinava “que o escândalo de abuso do clero irromperá, mais cedo ou mais tarde, onde quer que a Igreja Católica tenha uma presença consistente”.
“Nos Estados Unidos, a igreja pagou milhares de milhões de dólares em compensação aos sobreviventes de abuso sexual do clero. Mas continua a ser uma instituição muito rica e, em vários aspetos, resistente a mudanças”, sublinha Michael Rezendes.
Em Portugal a maioria dos bispos, pelo que se vai assistindo tristemente, pensa de maneira diferente e preferia pagar às vítimas apenas com um pedido de perdão e até - pasme-se!- fala na apresentação de facturas para quem se está a tratar.
Há bispos que não vivem neste mundo, mas na escuridão do confessionário ambíguo.
Para que o abalo na Igreja portuguesa não seja maior, era bom, como alerta Marcelo sobre este assunto, ”não se demorar mais tempo em tudo o que não se pode perder tempo”.
Neste aspecto está de parabéns D. Armando Esteves Domingues.

Que seja um recomeço iluminado para a moribunda Igreja açoriana.