Mais duas empresas pandémicas

 

 

A pandemia financeira continua em fase altamente contagiosa nas empresas públicas regionais.
A SATA já está nos cuidados intensivos e ligada aos ventiladores. A factura já anunciada para o tratamento parcial e imediato, a sair da algibeira dos contribuintes açorianos, são mais 50 milhões de euros. É menos uma série de investimentos que não se fazem para tapar os buracos que gestores e governantes nos deixam de herança. Um tal fartar!
Agora, surgem mais duas: A Atlanticoline e a Lotaçor, que acabam de publicar, silenciosamente, as suas contas de 2019.
A Atlanticoline já recebe ventilação há muito com os regulares 10 milhões de euros em subsídios.
A Lotaçor está de quarentena forçada porque tem um dependente – a Fábrica de Santa Catarina – que não há maneira de se curar, ano após ano.

Lotaçor, uma tormenta -  Em 2019, a tormenta da Lotaçor segue inalterada, com resultados negativos (-480.000 euros), mesmo que inferiores aos de 2018 (-860.000 euros). Não tivessem os contratos programa sido reduzidos de 4,9 para 3,9 milhões de euros e o panorama poderia ser um pouco melhor.
Os proveitos caíram de 9,5 para 7,5 milhões de euros. Os capitais próprios positivos de 1,7 milhões de euros são geridos ao milímetro com novas injecções de capital, mesmo que não seja realizado, para não entrarem no negativo.
Em face de vendas menores, a compra de serviços externos manteve-se, mas os custos com pessoal aumentaram. O dinheiro é escasso para quem vai ao mar, mas não para quem fica em terra.
Impressiona - e não se compreende bem, mas consegue-se explicar - como é que uma empresa que factura 7,5 milhões de euros mantém um passivo bancário de 31,4 milhões e encargos com juros de 1,2 milhões.
Pelo menos metade do descalabro financeiro pode ser explicado com a dívida da Santa Catarina (curiosamente inscrita como um ‘activo financeiro’ – deve ser para a gente se rir!) que, entre empréstimos e fornecimentos, ascende a 15,6 milhões de euros (14,9 milhões como empréstimo e 0,7 milhões como cliente), mais 1,3 milhões de euros do que em 2018.
É um imbróglio que já vem de 2013 e não tem solução à vista. É como um barco albarroado: vai-se tirando água com o balde para não afundar, mas a água sempre a entrar.

Atlanticoline em águas turbulentas - Ainda a pandemia não tinha chegado e já a Atlanticoline evidenciava sinais de mais um resfriado que só podia ser tratado, como os outros, com mais uma dose de subsídios convenientemente disfarçados na forma de contrato de prestação de serviços.
Há sempre a figura dos resultados negativos como alternativa.
Com menos proveitos, os mesmos custos com pessoal, mas mais serviços externos, os resultados agravaram-se em quase um 1,5 milhões de euros, passando dos 240 mil positivos de 2018 para 1,2 milhões negativos de 2019.
Foi mais ou menos a indemnização do seguro do Mestre Simão, infelizmente. Curioso! E são capazes de chamar a isto boa gestão.
O Mestre Feijó também veio mexer nas contas com o valor do activo (cerca de 10 milhões) e com o seu financiamento parcial. Os serviços prestados pela empresa lá foram subindo de 15,1 par 15,2 milhões (mais cerca de 70 mil euros), com subsídios da ordem do 9.999.153 (bem que podiam ter arredondado para 10 milhões de euros).
Pois é, o negócio vale 5 milhões em facturação e recebe 10 milhões em subsídios!
Mas, mesmo assim, há a notar que várias entidades públicas, governo incluído, deviam à empresa a módica quantia de 8,3 milhões de euros de serviços passados. O calote do costume, que mina a economia pública e de privados.
Não se pode olhar para esta empresa sem se olhar para a operação sazonal.
Só o aluguer dos navios sazonais ascendeu a 7,1 milhões de euros, mais 1,3 milhões do que no ano anterior – deve ser o custo da trapalhada do aluguer de um navio que não saía do estaleiro antes do inverno. A conta de combustíveis é da ordem dos 2,7 milhões. Quase a frota da Air Açores.
Para o ano vêm os alugueres por causa do Lorenzo! Valeu a pandemia para nos fazer parar e pensar no futuro.
O novo navio já foi à vida com os 50 milhões de euros que custaria a serem engolidos de uma só vez pela SATA – é caso para dizer que o ‘cachalote’ engoliu o ferry boat!
Para já, sempre ficará a poupança dos 7,1 milhões do aluguer dos barcos e parte substancial dos 2,7 milhões da factura de combustíveis e, provavelmente, mais algum milhão ou dois de outros custos.
São para gastar na campanha eleitoral, com as novas linhas criadas à última da hora.
Esta pandemia vai durar até repararmos que os nossos bolsos já não têm fundo.
O problema é que a doença já vem de trás e Bruxelas vai ser a única a reparar que, desde há muito tempo, que os bolsos dos contribuintes açorianos não têm forro…  Continuaremos uns pedintes.