Como se enterra o preço de um hospital só em juros

 

 

Ouvimos os nossos governantes falarem sobre o sector da saúde e julgamos que vivemos... na Suíça.

A novel secretária apanhou a escola toda dos colegas mais calejados e também já sabe pintar a região de cor-de-rosa, varrendo para debaixo do tapete hospitalar o caos que se vive na gestão da saúde pública.

A discussão sobre o Serviço Regional de Saúde morre a partir de um dado assombroso que poucos terão descortinado, até agora, nas contas da Saudaçor.

Sabem quanto pagou no ano passado a Saudaçor só em juros?

Fiquem sentados: 27 milhões de euros!

Não é gralha: exactamente 27,677 milhões só em juros da monstruosa dívida que todos vamos ter que pagar.

Se o Hospital Internacional, privado, que está a ser construído na Lagoa, em S. Miguel, custa 30 milhões de euros, percebe quantos hospitais estamos a perder por ano?

Sabe que o passivo da Saudaçor, de 750 milhões de euros, dava para construir mais do que dois hospitais por cada ilha?

É esta a dimensão do desastre que estes governantes nos deixam como herança para os próximos anos.

Os mesmos que prometeram um Serviço Regional de Saúde em que “todos contam”, mas que mais de 12 mil açorianos nem conseguem “dar conta” a uma cirurgia.

Prometeram reduzir as listas de espera em 2011, 2014 e 2017, com pomposos programas de recuperação, que custaram uma pipa de massa, trazendo especialistas do continente, em passeio de fim de semana, com pagamentos obscenos, e qual foi o resultado?

A prometida redução de listas de espera “num mandato” transformou-se, por milagre de São Camilo de Léllis, na maior lista de espera de sempre em 2019!

Responsáveis?!

Agora, alguém é responsável por alguma coisa nesta região?

Era interessante saber quantos doentes já morreram, entretanto, à espera de uma cirurgia.

Em Lisboa, a Ordem dos Enfermeiros enviou para a Procuradoria da República um pedido de investigação sobre as mais de 2.600 pessoas que terão morrido à espera de uma cirurgia, só em 2016.

Cá, não se passa nada. Um paraíso.

Agora que vamos ter eleições, já se assiste a novo frenesim na entrega de vales-cirurgia a doentes em lista de espera para serem operados na Clínica Bom Jesus.

Também era interessante saber quanto o Sistema Regional de Saúde já pagou só à Clínica Bom Jesus, nestes últimos anos, e como é que funcionam estas espécies de convencionadas.

Se é verdade que os doentes são chamados ao Hospital de Ponta Delgada para realizarem consultas pré-operatórias, exames pré-operatórios, durante os horários de trabalho dos profissionais envolvidos, e até mesmo as consultas pós-operatórias, ficando a Clínica apenas com as cirurgias, realizadas com os mesmos médicos dos quadros do Hospital, se isto é assim, então temos aqui um rico negócio...

Sobretudo sabendo-se que há blocos operatórios disponíveis no Hospital e que o número de cirurgias tem diminuído.

Convinha que o Serviço Regional de Saúde esclarecesse este funcionamento. Ou é tudo um mistério?

A União Europeia acaba de publicar um relatório onde se diz que as despesas das famílias, no nosso país, com a saúde, são “catastróficas”, porque o número de despesas não reembolsáveis no Serviço Nacional de Saúde é “elevado”.

Ora, por cá não há diferença, sendo provavelmente acrescida de mais dificuldades, sobretudo para quem vive nas ilhas sem hospital e recebe umas migalhas para as deslocações.

O relatório europeu vai mais longe e deixa um aviso sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, apontando a dívida acumulada pelos hospitais, em conjunto com o envelhecimento da população, como “riscos prementes para a sustentabilidade financeira do sistema de saúde”.

Imaginem se eles viessem aos Açores ver o estado financeiro do nosso sistema regional.

Morriam de susto!

 

Haja saúde e Feliz Natal.

O “Diário Inconveniente” regressa no próximo ano.

Tréguas de Natal...