A política açoriana em "futebolês"

 

 

No final deste Verão, quem observar com atenção as contendas eleitorais dos próximos meses fica com duas certezas absolutas: Vasco Cordeiro e Luís Filipe Vieira vão ganhar as respectivas eleições, folgadamente.
Ambos utilizam os mesmos métodos, depois de terem passado mandatos de aflição.
Luís Filipe Vieira utiliza o património do clube para contratar Cavani. 
Vasco Cordeiro contrata para as suas listas a estrela do momento pandémico, o mesmo que ainda há pouco tempo, enquanto Presidente da Ordem dos Enfermeiros dos Açores, arrasava e menosprezava a política de Vasco Cordeiro para o sector da Saúde.
O líder benfiquista ignora a oposição e nem a deixa fazer campanha no canal televisivo do clube.
O líder do PS açoriano confina a oposição regional e até se dá ao luxo de anunciar que fará campanha sem comícios e arruadas, mas utiliza a poderosa estrutura governamental para distribuir pelas ilhas uma espécie de bodo aos pobres.
A estratégia é colocar os secretários e directores regionais a ocuparem o campo todo e rematar o mais que puderem, mesmo que algumas bolas vão à trave e façam ricochete, como as asneiras durante o desconfinamento, de que é exemplo recente a desorientação em relação ao rali e às touradas.
Tal como há quatro anos, o ponta de lança volta a ser a Solidariedade Social, tratando-se de um eleitorado pobre e habituado à cultura do subsídio.
Nestas últimas semanas já perdi a conta à quantidade de promessas e apoios a tanta gente, começando com um programa de apoio a rendas "Famílias com Futuro - Incentivo ao Arrendamento", que contempla 1.600 famílias (são 4.200 potenciais votos), num "investimento" de mais de 20 milhões de euros, passando pela promessa de um programa "Mais Habitação", que é a transformação do Alojamento Local para renda, que só afecta no máximo 30% dos rendimentos das famílias, até a outra promessa de 150 lotes infraestruturados a preços simbólicos, adicionando como bónus o projecto pronto a licenciar, com o governo a reconhecer, na maior das transparências, que se trata de "uma campanha em que o Governo dos Açores acredita vir a ter bons resultados"... certamente a pensar no tal dia de Outubro.
Ora, o PSD, como maior partido da oposição, em vez de responder com uma forte alternativa de corrente cívica e outras mais valias que as listas do PS não têm, recorre à velha e estafada estratégia de propor candidatos comprometidos com o aparelho do partido, recupera o ex-líder mais perdedor da história do PSD e ainda comete a infantilidade de ir buscar um dos seus deputados à Assembleia da República, com um argumento público desastroso, explicado e assumido por este, que ficará nos anais do anedotário eleitoral da região.
Nunca se viu tanto desastre numa primeira liderança. Na liga dos campeões de Outubro, Bolieiro será o Barcelona humilhado por uma espécie de rolo compressor alemão, mas com a marca da mediocridade regional "made in Santana".
Olha-se para as listas de candidatos dos dois principais partidos da região e fica-se com a convicção de que perdemos o sentido cívico, na sua essência mais ampla, para dar lugar à primazia dos aparelhos partidários, apesar das promessas em contrário.
Já não há elites nem vozes da cidadania com pensamento crítico que possam ser chamadas ao sistema. 
E as que existiam, em abono da verdade, são geralmente engolidas pelo 'establishement' político regional.
Formou-se, na nossa sociedade, uma espécie de funcionalismo acéfalo, muito bem representado no nosso parlamento, onde o desânimo acrítico desempenha papel de primeira bancada, remetendo o principal órgão de escrutínio regional para os confins da inutilidade.
São os conciliábulos da originalíssima política açoriana - a da via p'ra frente que ninguém nos aguenta -, um sistema cristalizado que permite lideranças com mais de duas décadas de poder, tanto quanto Aleksandr Likashenko na Bielorrússia martirizada.
As urnas deste sistema são isso mesmo: a morte política da cidadania em formato crematório.
Sobrevive neste imenso sistema a vassalagem, sobretudo a mais habilidosa, como se constata em inúmeros candidatos fossilizados.
Os partidos não permitem que cidadãos independentes se atrevam a disputar esta poderosa máquina fechada, que receia ser eleita pelo nome próprio.
Segurança é manter a manada cívica ao longe.
Como diz João Pereira Coutinho, os políticos no poder, em nome da segurança, "terão com os cidadãos a mesma relação que os pastores com o seu gado: querem-nos produtivos e anafados - e são eles que decidem quando é hora do pasto e do curral".
Pois pastemos todos neste imenso verde encurralado.