Heranças descontroladas

 

 

Têm sido um autêntico delírio os dias a que vamos assistindo no rectângulo português, a propósito da formação do novo governo dos Açores.
O berreiro de políticos, proto-comentadores e analistas à volta da nossa região tem um propósito comum, que é a agenda política de cada protagonista. Em vez de se preocuparem com a substância e de se focarem no essencial e nas causas, atiram-se ao sujeito, elevando-o a figura central do mediatismo português, um importante contributo que o próprio agradece.
O que temos ouvido de gente com responsabilidades no mundo da política é de louvar a Deus, havendo, inclusivé, os que se atrevem a fazer comentário político sobre a nossa realidade regional, sem nunca terem metido cá os pés.
É como se, nós açorianos, começássemos a debater a governação local das zonas Norte, Centro ou Sul, sem conhecermos a realidade de cada uma das regiões. Cada um assume a dimensão do ridículo em que se enquadra, mas tudo isso é sinal preocupante sobre a qualidade da política que se faz em Portugal.
Vamos ao que interessa.
O novo governo dos Açores deverá ser conhecido na próxima semana.
Vai herdar duas realidades descontroladas: a pandemia, com uma desorganização em toda a sua estrutura de saúde, e o estado calamitoso da economia, que já vinha de há muito tempo, mas que se agravou com a crise sanitária.
Em ambas as situações o novo governo vai ter que se aplicar a fundo e dar a todos os açorianos uma resposta política, com decisões duras mas consistentes, depois de ouvir quem tem de ouvir.
Decidir é o verbo mais importante da nova governação, em vez de empurrar os problemas como assistimos até aqui.
Daí que a estrutura do próximo governo será, obrigatoriamente, política.
Precisamos, nesta fase, de bons decisores políticos na linha da frente da governação, munidos na retaguarda com bons técnicos, especialistas e gente talentosa em cada uma das áreas.
Na Saúde, por exemplo, faz todo o sentido quebrar com a tradição de que o titular do sector tem que ser um profissional da área.
Nesta fase o mais importante é alguém que saiba decidir o que é preciso decidir, ouvindo todas as sensibilidades envolventes, é certo, mas que avance contra as influências sectoriais, os lobbies que se habituaram a pressionar os políticos com decisões que os beneficiem, não ter medo de tomar decisões, ouvir todas as partes e rodear-se dos melhores.
Se esta pasta for ocupada, como parece confirmar-se, por um decisor político,  fora da área da Saúde, com boa formação jurídica e que deixou bom rasto por onde passou, será uma boa estratégia, desde que reúna bons colaboradores e nomeie boas administrações em toda a cadeia do sector, a começar pela Autoridade da Saúde, que precisa de uma remodelação profunda.
Nesta estratégia, José Manuel Bolieiro terá uma função crucial como coordenador de toda a estrutura política do governo, puxando por cada um dos titulares, enquanto que o Vice-Presidente, com a sua vasta experiência parlamentar, poderá fazer a ponte com o parlamento, onde se vão centrar muitas das negociações com os partidos apoiantes da coligação.
Há uma tarefa gigantesca pela frente do novo governo e percebe-se, agora, porque firmou a coligação com duração para dois mandatos.
É impossível cumprir num só mandato todas as condições impostas pelos partidos apoiantes, até porque, nesta primeira fase, o novo governo vai ter que arrumar a casa - bastante descontrolada em vários sectores da economia pública - e só depois começar a traçar estratégias inovadoras para utilizar os fundos do novo quadro comunitário de apoio.
Para isso vai ter de praticar uma política de muita transparência, muita explicação aos cidadãos, dando conta de tudo o que decidir e que argumentos e critérios apresenta para as respectivas decisões.
A proximidade com os cidadãos é o segredo da nova governação, caso contrário estará condenado a curto prazo.
Do PS, principal partido da oposição, espera-se uma prática de vigilância permanente, bom escrutínio parlamentar e boa comunicação sem ressentimentos e recalques, como foi evidente logo a seguir às eleições.
Vasco Cordeiro tem à sua frente caminho livre para voltar a candidatar-se a Presidente do Governo, graças à decisão encontrada pelo Representante da República, caso contrário, se fosse indigitado, seria derrubado no parlamento e era o fim da sua carreira enquanto candidato.
O líder do PS ainda é novo para abandonar o combate político e dele espera-se, como bom activo da política açoriana, um papel importante na bancada do seu partido, por vezes desprovida de bom senso e visão estratégica.
Deste choque de políticas diferentes em pleno parlamento vai depender muito o nosso futuro.
Se a vacina contra a pandemia vier mais rápida do que se esperava e isso permitir uma retoma, também rápida, da economia, estarão criadas as condições para voltarmos a sorrir sem distanciamento social. Apesar da esperança, mesmo assim, há muito trabalho pela frente. Que cada cidadão não desista e não se conforme.
Vai ser preciso muita consciência crítica, séria e consistente. Cá estaremos para o respectivo escrutínio. Sem contemplações.