A festa do morto

 

 

Nos últimos anos já vimos de tudo nesta região.
Faltava mais esta: uma festa no Teatro Micaelense em homenagem ao último suspiro da Saudaçor, a tal com um passivo de 750 milhões de euros, 40 colaboradores e 1,5 milhões de ordenados todos os anos.
Sim, porque festejar um empréstimo obrigacionista de 120 milhões de euros, mesmo que para refinanciar a dívida, a uma empresa que tem morte anunciada, é mesmo coisa do outro mundo.
O Dr. Vasco Cordeiro declarou calamidade pública e pediu ajuda externa para os 330 milhões de euros de prejuízos do furacão Lorenzo.
Então, a Saudaçor, com um passivo de 750 milhões, é calamidade pública a dobrar?
Não vai pedir, também, ajuda ao exterior?
Quando pedirem um empréstimo obrigacionista para a SATA, vão fazer, também, uma festa?
Não sei se repararam, mas na mesma hora em que o Vice esmolava um empréstimo obrigacionista, o Presidente estendia a esmola à República e à União Europeia para apoiar um valor que é metade dos prejuízos, de que são responsáveis, na Saudaçor.
O que se vai poupar em juros não está em causa.
O foco está no enorme desastre em que este governo deixou que se prolongasse com a Saudaçor. Tal e qual como está a fazer com a SATA. 
Esta moda frenética de pedir empréstimos obrigacionistas não nos livra da dívida, nem da gestão ruinosa que nos ofereceram nestes últimos anos.
A Saudaçor já vai no sétimo empréstimo, uma espécie de missa do sétimo dia.
No Teatro Micaelense, segundo rezam as notícias de bastidores, depois do Vice tocar a campainha, ainda houve champanhe e croquetes.
Só nos Açores é que temos um epitáfio desta grandeza litúrgica financeira.
Contraímos dívida, acumulamos passivo e, à custa do erário público, faz-se a festa. Não é de génio?
Já estou a ver, quando a Saudaçor, finalmente, for extinta, vão rezar uma missa na Sé de Angra, ao som de outros sinos, evocando o Evangelho de S. Lucas, com o ‘gloria in excelsis Deo’.
Que tenha o eterno descanso, pois deixa-nos a nós todos, contribuintes, sem fundilhos.
CALAMIDADE PÚBLICA 1 -  Cenário: Aeroporto de Ponta Delgada.
Vasco Cordeiro,  Ana Cunha e António Teixeira entram num avião  da SATA e sentem-se nos bancos da frente.
Vão rumo a um paradisíaco “objectivo declarado” que definiram os três no início do ano, com um prometido custo “reduzido a metade”.
A meio da viagem o zeloso piloto, que nem recebeu o ordenado por inteiro do mês anterior, informa que vai haver um “desvio” da rota porque não sabe como se chega ao “objectivo declarado”.
Vasco Cordeiro pergunta a Ana Cunha: “E agora?!”
Ela responde: “Estaremos aqui para analisar e tirar as conclusões”.
”Mas é um resultado insustentável!”, retorquiu o Presidente.
”É um desvio”, responde a Secretária Regional, olhando para António Teixeira.
O Presidente da SATA sorri e dispara: “Já vou percebendo um pouco disso. Falei com o seu Vice. Vem aí mais um empréstimo obrigacionista. Ah! E vamos ter festa no Teatro Micaelense!”.
Termina aqui a ficção, mesmo que as citações lhe pareçam já as ter ouvido nalgum lado.
O que não falta neste governo é matéria para inspirar novelas mexicanas.
O problema é que acaba sempre em terror e os contribuintes é que pagam o argumento, a produção e a realização... de péssima qualidade.

CALAMIDADE PÚBLICA 2 - A DBRS Ratings GmbH (DBRS Morningstar) manteve o rating da dívida soberana da Região Autónoma dos Açores em BBB (baixo), com perspectiva estável e aumentou a da Madeira.
A DBRS Morningstar, entre outras justificações, alertou que a SATA, entre várias empresas regionais, continua a apresentar fracos resultados financeiros, negativos inclusivé, e a “afectar a capacidade creditícia da região”.
A agência canadiana não sabe do que fala.
“Afectar a capacidade creditícia da região”?!
Esta região que até faz festas e toca sinos quando contrai empréstimos obrigacionistas?
O próximo empréstimo vai ser contraído pela SATA, a tal que já vai a caminho dos 300 milhões de passivo, certamente a meta para o Dr. Vasco Cordeiro declarar “calamidade pública” e pedir ajuda externa. 
CALAMIDADE PÚBLICA 3 - Aqui fica uma notícia interessante que a Comissão Europeia acaba de divulgar e que devia pôr os nossos governantes  a pensar seriamente: 
“A Comissão Europeia aprovou, ao abrigo das regras da UE em matéria de auxílios estatais, os planos da Alemanha de conceder um empréstimo temporário de 380 milhões de euros à companhia aérea Condor.
Em 25 de Setembro de 2019, a Alemanha notificou a Comissão da sua intenção de conceder à Condor, através do banco público de desenvolvimento alemão KfW, um empréstimo de emergência de 380 milhões de euros.
 A companhia aérea enfrenta um grave défice de liquidez após a entrada em liquidação da sua empresa-mãe, Thomas Cook Group. Além disso, a Condor teve de anular créditos significativos contra outras empresas do Thomas Cook Group, que já não poderá recuperar.
A Comissão concluiu que a medida é compatível com as regras da UE sobre auxílios estatais e que ajudará a assegurar a continuação dos serviços aéreos, no interesse dos passageiros”.
Sr. Presidente, ponha a notícia emoldurada e leve-a a António Costa, na reunião do próximo dia 21.
Podemos ter aqui a chave para resolver mais uma “calamidade pública”.
CALAMIDADE PÚBLICA 4 - O Conselho Regional do PSD-Açores vai reunir sexta-feira na ilha Terceira.
É o local mais adequado para o evento, a ilha das touradas.
A um ano das eleições regionais já todos percebemos que o PSD-Açores tem posto o lombo a jeito para receber mais uma bandarilha eleitoral.
Está desacreditado, não trouxe, até agora, nenhuma mais valia depois de Duarte Freitas (de que muitos já devem ter saudades) e anda cada vez mais desorientado.
Não se conhece um pensamento sólido que seja do PSD-Açores sobre o que faria de diferente do fraco Governo Regional que temos.
Como agiria no sector da Saúde? Quais as medidas que tomaria para combater o desemprego e a pobreza que alastram nesta região? O que propõe de diferente para a Educação?  Como resolveria os “desvios dos objectivos declarados” - ou “desvarios”? - da nossa SATA?
Não se conhece uma proposta concreta ou estruturada que os açorianos possam identificar.
Faltam causas a este PSD.
E sobre gente num futuro governo do PSD, estamos conversados.
Se a equipa de Alexandre Gaudêncio é aquela que apareceu, ao lado dele, na noite das eleições, então o Governo Regional nem precisa de se esforçar muito.
Basta fazer-se de morto.
Como, aliás, tem feito nestes últimos anos.
Com festa e tudo no Teatro Micaelense...