Predadores da Memória

 

 

“Este derrube selvático de monumentos, é também um atentado à nossa própria Humanidade.”
 
É um facto que a História é quase sempre composta, arranjada e escrita pelos vencedores.
Mas é igualmente certo que através dos tempos, a sua interpretação tem sido reescrita com novas descobertas de velhos pergaminhos, achados arqueológicos, estudos antropológicos ou outros. Tudo fazendo parte do novo conhecimento sempre à luz dos acontecimentos passados que chegam até nós. Nunca o historiador, pesquisador, cronista ou outro, pode apagar o que se dá como comprovado.
A História, com toda a imensidão relatada sobre a existência humana no planeta, é o espelho dessa mesma existência, de todos os atos maus ou bons conforme as perspetivas que a aceitam e estudam. 
Quem se atreveria a escrever a história dos últimos 100 anos sem mencionar as atrocidades medonhas de Hitler? Este ditador macabro existiu e com ele toda a maldade acontecida entre 1939 e 1945. Como se pode escrever a História da Humanidade sem mencionar este flagelo? Foi muito mau, mas tem de ser registado. É parte integrante da nossa formatação humana.
Toda a vasta história do mundo, épica e glamorosa, infernal e prosaica, virtuosa e fecunda, fútil e crapulosa, toda ela é parte integrante da nossa condição humana. Negar essas incontestadas narrações do nosso multifacetado diamante humano, seria negar-nos a nós próprios e negar a nossa própria existência.
A destruição de estátuas que representam, bem ou mal, a nossa caminhada histórica até este século XXI, só pode ser interpretada como ignorância nata, misturada com a manipulação predadora dos grupos de refratários sempre oportunos na tentativa de desmembrar o estado de Direito, a Democracia e a Liberdade.
Nos inícios dos anos setenta do século passado e logo a seguir ao golpe de estado que estabeleceu – e bem – a ordem democrática que hoje vivemos, alguns comunistas e outros extremistas da esquerda radical, foram a Santa Comba Dão no intuito de retirar as ossadas de Salazar do túmulo, para as triturar (talvez à dentada!). Em 1975, Salazar estava sepultado há 5 anos (morreu em julho de 1970).
São estes instintos animalescos mal contidos, provenientes de anomalias psíquicas de mentes traumatizadas, que encontram campo fértil na ignorância de boa parte da população e manipulam em nome de ideais que eles próprios rejeitam.
Quase sempre, a ignorância é a mãe de todos os males.
Ai de todos nós se a História fosse julgada pelo nosso olhar de hoje. Qualquer dia, Camões é um nacionalista fascista…! Dirá essa ignorância apátrida.
Qualquer dia, a Língua Portuguesa é esclavagista e deve ser abolida…! Onde fica a fronteira do bom senso? No ódio ignorante e destruidor desses poucos que só existem perante a complacência, a condescendência, a indulgência das Democracias onde essas aberrações florescem?
Ou na ordem social, no estado de Direito, que respeita a História como memória de todos nós?
Este derrube selvático de monumentos é também um atentado à nossa própria Humanidade.
Que sejam julgados e punidos por isso. Trata-se de um crime lesa-humanidade.