O egoísmo em tempos de pandemia

 

Se o mundo rico quisesse, todas as máscaras cairiam em 24 horas.
Se os países privilegiados, cujo desperdício é incalculável, quisessem, a miséria seria reduzida à sua insignificância e o número de crianças que morrem pela fome diariamente, desaparecia da noite para o dia. (Em cada 4 segundos, morre um infantil algures no mundo, por falha alimentar).
Mas isso seria se os países mais ricos quisessem.
Desde os primórdios da sua caminhada bipedal que o homo erectus tem evoluído e transformado ao longo de milhões de anos. Na verdade, ossadas encontradas em 2001 por uma equipa de cientistas liderada pela paleontóloga francesa Brigitte Senut e seu colega geólogo Martin Pickford na parte central do Quénia, em Tugen Hills, foram datadas em mais de seis milhões de anos (entre 6.2 e 5.8 milhões de anos) e denominado “Orrorin tugenensis” ou com a alcunha de “Millenium Man”. Trata-se do nosso parente pro-humano mais antigo até agora encontrado. As suas ossadas demonstram que já caminhava de pé, característica única do animal humano.
Depois deste muito distante dia em que pulamos das árvores para o chão, temos sofrido uma genial lapidação dada pelo Universo e que ainda não terminou. E talvez por isso mesmo, ainda soframos deste egoísmo que reside dentro de cada um de nós, que nos ajuda, simultaneamente, a sobreviver às mais adversas situações e ao mesmo tempo nos remete à indiferença para com o nosso semelhante.
Conhecemos o vocabulário: Solidariedade; Ajuda; Irmandade; Igualdade e tantas outras palavras que os nossos modernos neurónios são capazes de acumular numa base de dados imensa. Mesmo assim, falamos e falamos… algumas pequenas ações aqui e ali… e pronto. Satisfaz-nos o ego e continuamos na habitual rotina dos tempos, sem agir de forma profunda, com a eficácia que seria já exigida diante dos fatos que continuam a envergonhar-nos.
Se os multimilionários contribuíssem com alguns milhões de vacinas para os que nada têm, as vidas humanas de todo o planeta ficariam a ganhar.
Mas parece que ainda falta um longo trabalho ao Universo até irradiar o egoísmo do ser humano.
E mesmo com este egoísmo, falta a verdadeira vontade. Falta aquela palavra que faz a diferença: OUSAR. Ter a ousadia de enfrentar colossais interesses financeiros que, contribuindo parcialmente para o bem de alguns, sacrifica de forma selvática, primitiva e inumana toda uma maioria de irmãos e irmãs que padecem de mão estendida e despidos de dignidade, característica esta atribuída ao atual Homo Sapiens Sapiens.
E pela ironia da tese do “filho pródigo “ a necessidade premente de vacinas neste momento, é exatamente no continente onde saíram os primeiros humanos que depois se espalharam, povoaram e multiplicaram pelo mundo: A África. Nesta pátria humanitária, neste continente onde muitos dos atuais países ricos fizeram fortuna escravizando e explorando as suas populações e onde os seus atuais líderes parecem (salvo raras exceções) não ter ganho ainda a coragem de defender os seus povos da continuada exploração agora mais viciada por longos vícios de corrupção e, novamente, egoísmo puro e duro. O alastramento global desta e doutras epidemias, nos dias de hoje, onde as maravilhas tecnológicas e científicas estão cada vez mais ao serviço da Humanidade, deve conduzir os povos a uma entreajuda indispensável ao bem-estar de todo o ser humano.