Açorlogias

 

Tendo sido a Língua Portuguesa a minha ferramenta de vida, natural se torna que eu tenha sido ensinado por ela a ler-lhe os contornos, estudar alternativas, experimentar novas expressões e tentar sempre dar toda a elasticidade a tal tesouro linguístico.
Enquanto jornalista e cronista desde 1970, passando por editor de vários títulos, televisão e rádio, bem como na direção de vários jornais, fui sempre aprendendo todas as dinâmicas que a Língua oferece à nossa imaginação. Isto passava também pelo incentivar outros de fazerem o mesmo, aos jovens e menos jovens. A participação de todos os que se encontrassem capazes de preencher sempre mais alguma gota no vasto oceano das letras. 
Nos anos oitenta do século XX, inspirado na Açorianidade Nemesiana, “inventei” a expressão AÇORLOGIAS e servi-me deste tema para escrever uma série de crónicas em vários jornais e revistas sobretudo na Diáspora. 
A originalidade é uma assinatura literária. 
De seguida “inventei” outra: LUSOLOGIAS. As palavras não se registam nem detêm direitos de autor. São universais e pertença de todos e todas.
Quando soube que um livro da autoria de José Ventura iria ver a luz do dia com o título AÇORLOGIAS, só poderia ficar satisfeito, tanto mais que o autor me pediu antecipadamente para usar a palavra que ele sabia ter sido por mim iniciada. No próprio livro, José Ventura menciona tal paternidade titular, dizendo: “Do Título “AÇORLOGIAS”, um abraço ao amigo José Soares a quem devo o batismo das crónicas que aqui recordamos”.
Noutro registo, escrevi neste e noutros jornais um título: O Maior Hidrotório da Europa, referindo-me à enorme plataforma marítima dos Açores que, conjuntamente com a da Madeira e a de Portugal, oferecem indiscutível peso e argumento às questões oceânicas, subaquáticas, marinhas, etc, junto das entidades políticas de Bruxelas ou qualquer outra parte do mundo. 
Meses depois, um estudante da Universidade dos Açores, pediu-me para usar a palavra HIDROTÓRIO na sua tese. Assim se vão libertando os meus filhos feitos de letras… 
O livro de crónicas que José Ventura agora lança, editado pela Pedra Pomes, é um precioso registo da nossa Açorianidade, essa filha tão querida de toda a lusologia insular. 
É mais um testemunho da nossa inquietude interior, do “nunca virar as costas ou baixar os braços, agir graciosamente, mas sempre com rebeldia, mangas arregaçadas, para jamais te renderes à estupidificação humana, à falta de honestidade...” (Zorbas, o gato).
José Ventura é o irrequieto independentista Açoreano que o tempo apadrinhará. E ninguém melhor que Fernando Pessoa poderia exprimir a Voz do Espírito e que Ventura cita no seu Prefácio: 
“Matar o Sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa Alma.
O Sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”. (Pessoa)