A Terceira Autonomia

 

 

Espartilhada, com fortíssimas limitações e condicionalismos, algemada com a corrente constitucional controladora de medos infundados, a Autonomia açoriana irá começar o terceiro período político da sua existência. 
Cerca de vinte anos com o Partido Social Democrata de Mota Amaral, passando para os vinte e quatro anos do Partido Socialista de Carlos César, ela vira-se agora ao PSD de José Manuel Bolieiro, no triunvirato açoriano PSD-CDS-PPM, acompanhados por aconchego parlamentar dos Liberais e do Chega.
Com as esperanças renovadas, o povo espera muito da nova chefia democrática que escolheu.
Se na Primeira Autonomia assistimos ao seu nascer e à sua infância, por vezes conturbada por sismos e abalos a que Mota Amaral, sem dinheiros da Europa se teve de confrontar – alguém se lembra do 1º de janeiro de 1980? – com tudo que havia na nova Era que abril trouxera, esta mesma Autonomia, com a idade de vinte anos decidiu sair de casa dos pais e ir à sua vida. Assim foi pela mão de Carlos César, que a desenvolveu e criou nela uma maturidade consciente, adulta e pensante. 
Agora, essa Autonomia, ciente que já aprendeu o suficiente para saber o que faz, deixa o tutor de vinte e quatro anos e resolve entrar na grande aventura do desconhecido, com multiparceiros de diferentes ideias e opiniões, que certamente lhe irão continuar a desenvolver o seu grau autonómico num conceito de liberdade, democracia e progresso.
A escolha não foi fácil. Ela sentia-se bem com o regime de César, mas… outros lhe abanaram as ideias e fizeram-lhe crer que havia mundo para além do PS. E havia.
O triunvirato que vai governar os Açores, é o laboratório político que Lisboa espreita e espera, como quem, ansioso e plantado à porta da oficina, olha os cientistas a desenvolverem a vacina política que daqui sairá.
É agora uma Autonomia mais adulta, aquela que olha o seu futuro. Não teme ter escolhido vários componentes ideológicos para governar-lhe os destinos.
Dos Açores saem historicamente as soluções que o retângulo ibérico sempre buscou. E por isso a polémica está em brasa entre os sabichões do país, que agora comentam à esquerda e à direita, o quão amargo é bebermos o próprio veneno. É pior que fel.
Mas se essa Autonomia chegou até aqui, embora limitada, fraca, contorcida e controlada pelo dono colonialista, ela só foi capaz disso porque todos os que a acompanharam, lhe dedicaram trabalho e boa vontade. Com erros, certamente, ou não fôramos humanos! Mas o esforço de a fazer crescer, no meio de tantos adversários e até inimigos da sua existência, compensou inteiramente o olharmos para ela e pensar que valeu a pena. Podia ter sido melhor? Talvez. Mas na mesma proporção, poderia ter sido pior. Seja como for chegamos até aqui.
Já fizemos melhor do que a nossa querida América açoriana, comandada nos últimos quatro anos por um louco excêntrico, perigoso irresponsável, narcisista drogado, que perdendo eleições nega reconhecê-lo até à última. 
A transição de poder nos Açores já começou. Os líderes reuniram, de ambos os lados, para que tudo corra normalmente. Assim manda Nossa Senhora Democracia.
Bem sabemos que as máquinas trituradoras de papel sobreaquecem nos vários departamentos públicos. Bem sabemos que concursos à última hora acontecem. O afã é enorme e as preocupações ainda maiores. Em tempos difíceis como o que vivemos, não é fácil arranjar empregos “tão saborosos”. É assim por todo o mundo no render da guarda. 
O que interessa, verdadeiramente, é que os Açores possam sair sempre a ganhar. Que o seu Povo usufrua as escolhas que faz na transparência do sistema que ainda estamos a conquistar.
Iremos ter tantas Autonomias, quantas necessárias para sermos verdadeiramente AUTÓNOMOS.
O tempo está do nosso lado. 
O importante é continuarmos a cuidar da nossa Autonomia, preparar-lhe o noivado e o seu casamento e depois… ela irá definitivamente à sua vida.