Fazer nada

                                                                                                                


Ver um amigo sorrir faz-nos bem, não faz? Na minha idade, nem se pergunta. Os bons amigos prolongam-nos o impagável prazer de viver. Cada qual cultiva o seu como quer. E o meu, para ser franco, não se dá lá muito bem com a palavra reformado. Não é por mal, mas cheira-lhe àquele gosto meio estragado de quem se gaba de “não fazer nada”. Nunca foi coisa que me seduzisse lá muito, creiam-me, pelo simples facto de acreditar que o incómodo rótulo de idoso já nos traz ferrugem bastante. Se nos desleixamos ao ponto de deixarmos que ela se nos apegue ao diacho da malandrice, estamos tramados. Com esse receio a roer-me o miolo, mal me reformei de trinta anos vergados a um duro trabalho que me ia dando cabo dos ossos, tratei logo de arranjar um emprego. Este sim – velho sonho da malta estudante da minha era, desejosa do tal tipo de labor livre de suor e que os velhotes daquela altura, na sua saborosa sapiência, traduziam como o fácil “oficio de não se fazer nada”.
Assim, mal deixei de “trabalhar no duro” e para não me acostumar demasiado aos vícios da “boa vida”, procurei um bom “part-time” contentando imenso a minha prezada cara-metade que já me dera a entender não se ver com bons olhos a dormir ao lado dum reformado pasmado. Para bem da nossa saúde física e sobretudo conjugal, dizia ela, “um homem parado é meio caminho andado para um casamento falhado”. Falhar, confesso, também não é das palavras que me agradam. E lá decidi dar ouvidos à alma bondosa com quem me dou muitíssimo bem há quatro longas décadas, tempo mais do que suficiente para perceber como funciona uma salutar relação a dois. As coisas trabalharam bem porque ela tinha uma amiga italiana no seu emprego que me queria dar trabalho. No Distrito Escolar de San Leandro, cidadezinha que me alberga há quarenta anos, Teresa Totti era, e ainda é, encarregada de alugar os recintos desportivos precisando de alguém presente durante o período de aluguer para monitorizar a situação, responsabilizando-se igualmente pelo abrir e fechar das portas. “Bingo!” – tal como gostam de dizer os americanos – “easy money”. Era mesmo do que eu estava a necessitar para mudar de ritmo na vida.
A minha amável patroa irradia siciliana simpatia no seu comunicativo “parlar” – cara a cara ou pelo telefone – sempre acompanhado de boa disposição. Durante o recente Euro-2020, ganho precisamente pela sua amada “squadra azurra”, tive a oportunidade de desenferrujar o meu fraco italiano com os meus efusivos “Forza Italia!” antes de cada jogo em que a vitoriosa seleção transalpina se desenrascou muitíssimo bem. Para levar a cereja ao bolo das nossas conversas, Teresa é fervorosa adepta da Juventus e adora Cristiano Ronaldo – “il bambino d’oro”. Passamos uns bons bocados a trocar mimos linguísticos, ou não fossem os nossos mimosos idiomas primos filhos do mesmo velho latim. “Andrà Tutto Bene”, se bem se recordam, foi um slogan que ganhou fama ao correr mundo no ano passado por causa das dores da pandemia. As coisas viam-se feias e bastante dramáticas quando a comovente canção de Jack Savoretti inundou as ondas sonoras do nosso globo terrestre como um bálsamo suavizante de palavras melodiadas numa esperança então mais do que desejada. “Tudo Vai Ficar Bem” é um consolo anímico que a alma nos pede quando (quase) tudo parece correr mal. E pior do que esta mortífera catástrofe pandémica, sobretudo ao longo do ano passado, julgo ninguém ter hoje memória viva. Quatro milhões de mortes sepultadas em inúmeros desgostos de dor sem fim, falam bem por si.
“Por mim, nunca me deixei ir nessa cantiga do ‘tudo vai ficar bem’, desabafou-me recentemente em conversa refrescada com cerveja, um velho amigo da minha idade ainda a trabalhar, segundo ele, para não estar parado. “Não me consigo aguentar sem fazer nada”, dizia-me quando a reforma nos veio à baila. “Mete-me uma impressão dos diabos ver a malandrice descarada que esta pandemia trouxe ao mundo. Em Portugal, só se ouvia a tal morna música do famoso ‘Fique em Casa’ e agora parece que o pessoal não quer outra coisa. Aqui, na América, o governo começou a pagar bem para não se sair de casa e o que menos falta para aí são patrões à procura de quem trabalhe sem terem muita sorte porque a malandragem apegou-se à pouca vergonha e pronto – temos o caldo derramado. Quem disse que ia ficar tudo bem, enganou-se. Com o vírus sem se ir, o crime a disparar, a inflação a subir e a pouca vontade de trabalhar – tudo junto – diz-me lá aonde é que isto vai parar?”
A nossa conversa parou ali, com a pertinente pergunta no ar, só à espera de bebermos outro gole logo interrompido pelo som do meu telefone mostrando-me o número da minha patroa. Do outro lado e sempre muito bem-disposta, perguntava-me, “Luciano, por acaso, não conheces alguém que queira fazer o que fazes? É que tenho agora duas abertas e já fiz várias chamadas, mas não consigo encontrar ninguém reformado que lhe apeteça trabalhar.” Tinha o aparelho “em speaker” e o meu amigo, ao ouvir aquilo com a cerveja a deslizar-lhe pela garganta, engasgou-se de tal forma que tive de o socorrer com duas prontas pancadas nas costas a provocarem-lhe um grande arroto d’alivio captado “in loco” pela minha patroa tentando saber o que se passava – “tutto bene, Luciano?”... – ...“andrá tutto bene, signora Teresa.” A minha oportuna resposta, fê-la sorrir (e ao meu amigo também). Nesta crítica fase da minha vida, não me peçam para fazer mais nada.