Pilares da Sociedade

                                                                                

 

“Estamos quase nas férias do Natal.” Como pai de dois professores, ouço este suspiro saltar-nos naturalmente para a conversa ao aproximar-se a festiva quadra que aí vem. Noto nos meus filhos o cansaço mental de quem está a precisar duns bons dias de repouso. O meu respeito por quem leciona hoje em dia teima em aumentar e convida-me frequentemente a refletir. Muito mudou de há meio século para cá. Fui aluno nas décadas de sessenta e setenta, lá nas nossas pacatas Ilhas de Bruma e tudo era tão diferente. Um docente impunha-se naturalmente como uma das figuras mais respeitadas da sociedade de então e gozava de vantagens que, aos poucos, se tem vindo a esfumar. Dói-me ver os professores de agora terem de lutar muito mais arduamente pelo respeito que merecem.

A disciplina à moda antiga, essa velha besta tão temida pela rapaziada apavorada pelo medo dos vimes, das réguas ou ocasionais puxões d’orelhas facilmente escapulidos das mãos dalguns mestres duma escola que já não se usa, deixou-me marcas profundas em recordações que me ficaram para sempre. Não gosto de faltar ao respeito à memória de quem lá vai, porque nenhuma satisfação me traz e já nada me adianta, mas episódios há que falam por si ao serem contados a nu, sem remendos nem acrescentos. Valeu-me, logo de início, gostar muito de ir à escola com vontade de aprender para um dia poder ser alguém. Ninguém, nesse tempo de exagerado rigor disciplinar se livrava do perigoso génio dalguns desalmados senhores professores que, sem mais nem menos, se aproveitavam para descarregar nos alunos as suas reles frustrações.

Posso contar dois tipos de episódios diferentes. O primeiro vem da minha primeira classe, quando eu e o meu parceiro de carteira, bons alunos que éramos, acabámos mais cedo a “cópia” caligrafada com a ponta da pena e ajuda do mata-borrão. O sr. professor fora à sala de aula do lado falar com a senhora professora das meninas e o meu desassossegado colega, de que se lembra? Molha a pena no tinteiro e borra-me a ponta do nariz. Eu respondo-lhe na mesma moeda e a risota espalha-se pelo rosto da petizada divertida com aqueles dois tontinhos armados em palhacinhos. Claro que o professor, ao regressar, não achou graça e foi direitinho à régua de roseira finamente envernizada para o efeito. Chamou-nos ao estrado, colocado diante do quadro, para que todos vissem melhor, mandou-nos estender as mãozinhas e zás – cinco boladas em cada uma – toca a deixá-las doloridas com o sangue à flor da pele molhada depois por duas lágrimas gemidas, “que é para servir de lição a vocês e de exemplo aos outros.”

Cinco anos mais tarde, no meu primeiro ano de Seminário, o que se passou já ganhou contornos mais dramáticos. Na sala de estudo, tínhamos que fazê-lo na quietude dum silêncio sepulcral. Vigiados por um “monitor”, encarregado de contar tudo ao “prefeito”, a mais pequena infração podia custar-nos caro. E custou-me. Bastou virar-me para trás com meia dúzia de inocentes palavras a pedirem ao meu colega mais próximo um livro que lhe tinha emprestado e fui logo acusado de perturbar a sagrada paz daquela última hora de estudo antes de irmos para a cama. O monitor não me gramava e, “como castigo, ficas aqui de pé à espera do sr. padre chegar para lhe explicares a tua desobediência.” O meu azar, para além do tal sacerdote não engraçar lá muito comigo, foi ele só ter regressado a casa já depois da meia noite. Sei lá se meio tocado ou sem pachorra alguma para ouvir as minhas “malcomportadas” desculpas, irritou-se e puxou da mão pesada que trazia para me deixar os dedos marcados no rosto com seis tabefes seguidos por um arregalado “que te sirva de emenda, porque já me estragaste o sono.”

Claro que já lhe perdoei e sei que morreu (canceroso) de desgosto. O que fez a mim, fê-lo a outros e aquilo a ninguém se faz. Já lá vai meio século. Em matéria de educação, felizmente, muita coisa mudou e ainda bem que vivi para ver algumas dessas diferenças para melhor.  O problema, porque nada é perfeito, são as coisas que mudaram para pior. Todos sabemos bem que o sacro respeitinho de outros tempos se arrasta agora pelas ruas da amargura. Contou-me o meu filho mais velho que um dos seus adolescentes alunos, um espigado rapazola de pele escura num corpo quase de homem, melindrou-se quando lhe foi exigido que arrumasse o seu telemóvel, por que se não (if not), – “if not what? You’re not my father to force me doing stuff I don’t want” – “se não o quê? Tu não és meu pai para me mandares fazer o que não quero.” E oiriçou-se, como quem queria levantar a mão. Valeu-lhe ao meu primogénito ser um homem alto e não se intimidar com este tipo de comportamentos, cada vez mais frequentes nas salas de aulas de hoje.

Creio que já todos ouvimos falar, cá e lá, porque o problema é global, de professores(as) vergonhosamente agredidos(as). Em pouco mais de uma geração, virou-se o feitiço contra o feiticeiro e, em velocidade diabólica, veio-se do oito para o oitenta. É o aguente-se quem puder. Não sou eu. Se fosse presentemente professor, já me tinham despedido. É que, ao chegarem-me aos ouvidos coisinhas destas, apetece-me logo dar sopapos. Não nas crianças, coitadinhas – que culpa tem elas de quem não soube, não quis ou, simplesmente, não se esforçou por educá-las como merecem? Esses paizinhos irresponsáveis, para não dizer pior, é que mereciam bem um vime sacudido pelo lombo fora a lembrar-lhes que não basta trazer filhos ao mundo e esperar depois que os professores façam o favor de lhes dar a boa educação que não trouxeram de casa.

Considero-os autênticos pilares da sociedade em que vivemos e nutro especial admiração por todos quantos dignificam a sua profissão, indo sempre um pouco mais além por amor aquilo que fazem. Não admira, por conseguinte, chegarem a esta altura do ano com o suor do stress a suspirar-lhes por umas boas férias de Natal. Já estiveram mais longe.