Edificar um lar

                                                                                                                                                    

                                   
“Um lar começa do nada,
Às tantas, na nossa vida,
Notamos a caminhada
Mais larga do que comprida.”

Edificar solidamente um lar, de forma que não se desmorone à toa, deve ser um dos maiores desafios do ser humano neste mundo. Dentro dos meus 66 anos e pique, já cá cantam 40 deveras especiais. Prendem-se, precisamente, com a inacabada construção disso que mais prezo nesta vida, o meu lar. Claro que não é só meu. Sozinho, um homem sente-se algo incompleto, para não dizer insatisfeito, com o coração desinquieto em busca da sua alma gémea. Estou em crer que, enquanto por cá, qualquer pessoa de bem tudo tenta fazer ao seu alcance para bem de ser feliz. Nem sempre os astros se alinham ou as coisas se proporcionam à medida precisa dos nossos desejos, mas acho que vale a pena tentarmos sempre o nosso melhor. O filme do tempo que nos calha desfrutar, cá no planeta, pode ser de curta metragem, por isso aconselha-nos a sensatez a vivermos cada dia como se fosse o último e cada hora como sendo a única. Cada minuto conta porque os imponderáveis espreitam-nos e os entraves superabundam, pedindo-nos forças que, por vezes, julgamos não ter. Tenhamos fé, por conseguinte. E a esperança também é crucial para levarmos o nosso barco a bom porto. Há quem diga, no entanto, que mais importante, ou determinante para o bom fluxo do nosso percurso terreno é a preciosa ajudinha da sorte. “Sem ela a sorrir-nos na hora agá, acredita que a gente não vai lá.” Isto costumava dizer-me um bom amigo duramente testado pelos mais reles revezes “da porca desta vida”, que não o deixou ser feliz enquanto queria, ao apressar-lhe a sua ida para o Além.
Considero-me um homem de fé. E cultivo a esperança também conforme posso. Quanto à sorte, o melhor é não me queixar. Costumo dizer sempre que é uma fortuna nascer-se ilhéu e crescer-se banhado por mar e céu. Quando abraçados no mesmo azul d’encher o olho, os nossos olhos deixam-se facilmente fascinar e a alma prende-se-nos como uma lapa ao nosso lugar. Todos os que partimos, bem sabemos quão doloroso é dele termos de nos apartar. Desassossegado, por natureza, ao namorar a linha do horizonte, o olhar dum ilhéu sonha sempre com o que estará do lado de lá. E aventura-se. Ventura minha, sem dúvida alguma, ao imigrar, ainda curtindo a mágoa da partida, foi ter encontrado o coração aberto ao que o meu precisava para abraçarmos juntos o resto da caminhada. Já vai longa, bem sei. Quatro décadas é um espaço de tempo apreciável e só tenho a agradecer aos céus o mimo que é continuarmos vivos e ativos no saboroso cultivo dos afetos que nos alimentam os sorrisos.
Tudo começou com um sorriso maroto naquela tímida troca d’olhares radiantes por se cruzarem desejosos de se conhecerem como, de facto, nos viríamos a conhecer então talhados um para o outro. Não acredito em amores à primeira vista, mas vi logo que o nosso mais parecia coisa do destino. Havia um lar, por construir, à nossa espera. E a chave foi precisamente termos sabido esperar um pelo outro. Não direi que estava escrito nas estrelas. Um lar não se constrói nas nuvens. Requer alicerces de paciência caldeada em teimosia imprescindível aos objetivos por galgar, às metas por atingir. Longa vai a caminhada, bem sei, mas os passos, embora cada vez mais vagarosos, pedem-nos para não desistirmos de nos focarmos no que importa. À nossa porta, à nossa mesa, ao nosso redor, os nossos rebentos não cessam de nos lembrar que o mais importante são os carinhos saboreados instante a instante. Desaproveitá-los devia ser absolutamente proibido, já que é do seu doce desfrute que um lar feliz gosta de ser construído.


Um lar começa do nada,
No despontar dum sorriso,
Abre-se a caminhada
Em caminho impreciso.

Precisando dum abraço,
Encontrei-te no caminho
Aonde passo a passo
Eu caminhava sozinho.

Abraçados num desejo
De romântico sabor,
Saboreámos um beijo
Que nos pedia amor.

E foi assim que viemos,
P’los anos a conjugar,
Aqueles passos que demos
Juntos no verbo amar.

Lindo foi como amámos
Esses mimosos momentos
D’alegria que chorámos
Na chegada dos rebentos.

São eles com seu calor,
Sempre que chega o frio,
Que nos poupam essa dor
De termos um lar vazio.

Há, num lar vazio, dor
Encoberta, encolhida,
Seja lá aonde for,
Só um lar cheio d’amor
Faz sentido nesta vida.