Sonhos de um pai

 

Sonhar é salutar. Projeta-nos sempre mais além. Não há imigrante que não sonhe ao partir. Faz parte da nossa condição humana e está-nos particularmente neste fogoso sangue ilhéu que, cedo na vida, nos colava os olhos da alma à linha do horizonte namorando o desconhecido. Deixámo-nos seduzir e por aí fora viemos decididos a vingar cá ao longe. Chegamos e o sonho solta-se. Sem forma nem tamanho, alveja o que lhe apetece. “Na América, tudo é possível”, assim aprendemos à distância. Tudo depende do rumo que cada qual escolhe dar à sua vida. Depois, é só uma questão de arregaçar mangas, traçar metas e fazer das lágrimas sorrisos.

Lembro-me bem daquele meio pálido que esbocei ao despedir-me da Ilha há quarenta anos atrás. Estudante sem curso num Portugal à deriva, embarquei com vontade de continuar cá os meus estudos para obter um bom emprego e conseguir a tal vida melhor com que todos sonhamos ao imigrarmos. Trazia comigo esse sonho bem empacotado na bagagem até me abrirem a mala na alfândega. “O que traz nesta garrafa sem rótulo?” A pergunta enroscou-me a língua e quase me engasgou a fala, “...é um remédio caseiro...chama-se cachaça...e ajuda a curar saudades”. Foi a minha primeira mentira oficiosa em solo americano para me desenrascar. Sorriram e lá me deixaram seguir em cata do meu sonho.

As malas, naquele tempo, não tinham rodas nem limite de peso. Gemia a bom gemer para arrastar a minha, quando o feixe se desprendeu e a garrafa se escarolou. Vermelho que nem um tomate, quase desmaiava de vergonha ao sentir um leve baque no ombro. Era um simpático velhote de barbas brancas com o seu chapéu às riscas vermelhas e azuis. “Welcome to America, my friend!” Engraçado no falar, enquanto me ajudava a limpar o chão e a fechar a mala, gracejou, “...não te há de faltar cá coisinha boa para beberes, nem para comeres. Assim queiras trabalhar por isso.” Trocámos mais dois dedos de conversa e jamais esquecerei a sua curiosa pergunta, “o meu amigo vai mesmo perseguir o seu sonho dum bom emprego ou prefere começar a trabalhar já amanhã?”

A partir de então, tornámo-nos amigalhaços e damo-nos muitíssimo bem. Eu e o Tio Sam não devemos nada um ao outro e isso ajuda. Todos os anos ajustamos contas para mantermos a nossa relação em termos cordiais. Contudo, jamais deixarei de lhe agradecer e apreciar a oportunidade de cá poder dar largas ao meu sonho mor, o de construir o meu próprio lar. Depois de nove anos consecutivos a estudar, decidi dar folga aos livros e prioridade às ferramentas necessárias a um bom chefe de família. Primeiro, tratei de encontrar a companheira certa. Estudante universitária prestes a acabar o curso, ela optou também por deixar os livros temporariamente na prateleira. O canudo podia esperar. Valores mais altos se ergueram e ambos chutámos a um golo comum, os nossos mimosos rebentos – até hoje, formidáveis fontes da nossa alegria e orgulho máximo do nosso viver.

Transformaram-me a vida por completo. Não são apenas meus ídolos, mas também minha inspiração. O bom estudante que fui rende-se hoje aos brilhantes estudantes em que se tornaram. Claro que seguiram o exemplo da mãe. Seis meses após dar à luz o mais novo, viu premiado todo o seu esforço ao receber o diploma do primeiro bacharelato na família. Um marco importante, sem dúvida, e decisivo em motivá-los a brindarem-nos com momentos de inexcedível brio académico ao obterem posteriormente, um a um, os seus respetivos mestrados. O último, faz agora duas semanas, caiu-nos de mil amores. Michael Sérgio, o nosso segundo filho, decidira não ficar atrás dos irmãos. Não foi fácil o seu desafio. A trabalhar de dia, aulas à noite, namoro pelo meio – o foco tinha de ser intenso e a força de vontade superlativa. Soube conjugar ambos com mérito, todo seu ao formar-se em Estatísticas.

Trata-se duma matéria complicada demais para cérebros como o meu, alérgicos ao mundo dos números. Sempre preferi o das letras. Daí este meu apetite pelo periódico rabiscar das minhas despretensiosas crónicas, como esta que hoje nem precisa sair de casa. Inspira-se nos exemplos à minha volta. Claro que não os utilizo para me gabar. Por esta altura do ano, tal como nós, o que menos faltam são famílias a celebrarem os feitos escolares dos seus filhos, ou filhas. Leiam-na como homenagem a todos eles e elas, bem merecedores do nosso aplauso. O Michael, graças ao seu inquebrável querer, até nem nos surpreendeu. Surpresa, sim, foi há seis anos, sem mais nem menos, ele ter decidido saltar dum avião (sky diving) à altitude dos dez mil pés. Pregou-nos o susto, porém vi-o logo aí preparado para altos voos na vida. Como também o vejo muito mais afoito do que o pai, incapaz de tamanha maluquice.

Perdoem-me a crónica caseira, mas sou um maluco pelos meus marotos. Nisso, não estou a ver-nos fazer grande diferença do resto da bicharada cá do cosmos. Como os pássaros, por exemplo, um dia damos-lhe as asas e nada se nos compara depois a essa radiante emoção de os poder ver voar, quanto mais alto melhor. Alimentam-nos os sonhos.