Desabafo com perfume

                                                                                

                                                                                               

Ao recuar hoje cerca de meio século à pacata vida que levávamos lá nas nossas mimosas Ilhas de Bruma, constato que a gente tinha medo da polícia que se pelava. As laboriosas gentes do campo foram criadas num mundo de múltiplos medos. Era a polícia, o padre, o professor, o regedor, até o diacho do coveiro assustava à distância. O polícia prometia cadeia, o padre lembrava o inferno, o professor ameaçava tareia, o regedor chamava a PIDE e do coveiro nem se fala, já que o seu indesejado trabalho falava por si. Todos eles nos traziam irremediavelmente papões à mente naquela já distante era onde, tantas vezes, mal se ganhava para os sustos. 
Mas também havia o lado bom da moeda. Cresci no meio rural, onde mal se via um polícia, a não ser em dia de cinema ou de tourada quando a maioria deles se escondia na tasca a tomarem o seu copo e pronto, serviço cumprido. Com os padres da minha meninice, tive sorte por terem sido quase todos boas pessoas e até falavam muito mais das delícias do céu do que das labaredas do inferno. Tal como dos meus professores primários, não tenho grande razão de queixa – talvez por ser bom aluno, raramente vi o seu vime vir-me visitar as ilhargas. Os regedores e os coveiros de então, coitados, limitavam-se a desempenhar suas tarefas ingratas que os punham tantas vezes mal vistos sem o merecerem. Uma coisa, no entanto, muito preciosa e apreciada, nutria o bom povo daquele tempo por toda esta gente representativa dalguma autoridade – respeito.
Troquei o meio rural pelo urbano com dez anos de idade quando tive igualmente de trocar a minha Ilha Lilás pela Verde e lá fui para o estudo. Aprendi muita coisa boa nos meus tempos de estudante e uma das principais foi aquela que ainda hoje religiosamente tento seguir de não viver sob medos. Estava eu na flor da minha mocidade estudantil, quando rebentou a revolução dos cravos e lembro-me bem da malta perder aquele receio que tinha antes ao vir para a rua manifestar-se, dando largas à sua desmedida alegria. “O povo unido jamais será vencido” tornou-se no slogan mais popular ao ar livre das multidões felizes da vida a sorrir-lhes nas cintilantes cores da esperança sempre cheia de promessas perfumadas em dias muito melhores, que nem sempre chegam. Fresca e cheirosa, acabada de desabrochar, a liberdade apontava ao voto como a arma legítima e mais viável para a mudança desejada. O pessoal entusiasmou-se e toca a votar em catadupa.
Isto foi há quase meio século e eu estava lá. Agora por cá e, após todos estes anos farto de ouvir falar nos males da abstenção e do desinteresse pelo valor do voto, fiquei encantado com a afluência às urnas nas eleições presidenciais deste singular 2020. Vai ficar na história, sem dúvida. Nos números, na emoção, na controvérsia e até no disputado resultado final ainda a arrastar-se pelos tribunais – nunca se viu coisa igual. Esta grandiosa América, minha terra adotiva, está politicamente ao rubro na expetativa das mudanças que se adivinham.
Em ponto mais pequenino, porque estamos a falar dalguns milhares de votantes e não de múltiplos milhões, poderia pintar um cenário semelhante na minha terra-mãe. As nossas Ilhas de Bruma também foram a votos, com mais gente, felizmente, a votar desta vez pedindo mudança de liderança governativa. É assim que funcionam as coisas em democracia, desde que o povo se empenhe a participar no processo. Não é um sistema perfeito, porém continua certamente o mais pendular ao dispor das massas populares deste nosso populoso globo. Quem não vota porque não quer, e sem desculpa para o fazer, devia ser multado. Abstenção, por preguiça ou desinteresse, só nos prejudica. Eu percebo que haja cada vez mais gente sem fé alguma nos políticos em geral, dizendo que pouco ou (quase) nada cumprem daquilo que prometem, mas esse pretexto a ninguém serve. Falar não custa. Protestar não basta. Só o voto conta e pode fazer alguma diferença. Embora mínima, muitas vezes, vale sempre a pena lutar por ela. Porque o resto é outra conversa.
Consta que, na nossa formosa Região Autónoma essa conversa aqueceu bem antes de se formar agora a nova geringonça governamental claramente ansiosa por liderar os destinos ilhéus. Por cá, apercebendo-se também da urgência que este novembro tinha no traçar dum novo rumo, o eleitorado americano acorreu às urnas em números surpreendentes e com entusiasmo redobrado para se fazer ouvir. Muitíssima gente irritada com o loiro líder agora de saída, limitou-se a usar este ato eleitoral apenas como um referendo anti Trump, mas havia e continua a haver muito mais em jogo do que o simples substituir do presidente. Claro que se trata da figura capital, contudo só no próximo janeiro se saberá se o novo Chefe de Estado terá o decisivo apoio do Senado a facilitar-lhe a vida no cumprimento das promessas apregoadas. É desse crítico balanço entre os poderes executivo e legislativo que estes politicamente desunidos estados americanos vão alimentando o sistema capitalista que os governa há já quase dois séculos e meio. Um pouco mais à esquerda ou à direita, evitando sempre os extremismos, é só uma questão de sabermos escolher para a Casa Branca quem não nos faça a vida negra. Ainda bem que vivemos em salutar democracia. Sem qualquer medo, o povo vota, elege e depois espreita o comportamento de quem lá coloca. Se não gosta, normalmente não perdoa. 
Só espero que perdoem, uma vez mais, recorrer aos versos para desabafar algum do meu desencanto acumulado ultimamente.

Açores, terra de sonho,
Ilhas do meu paraíso,
Na tua rota me ponho,
Do teu sossego preciso.

Busco teu sol e teu mar
Bravo, mas não violento.
Quero poder respirar
Teus ares dão-me alento.

Ares puros, salutares,
Ares que transpiram calma;
É nos teus serenos ares
Que repousa minha alma.

Marinheiro ambulante,
Sei partir e regressar.
Nunca me sinto distante
Do meu tranquilo lugar.

Nasci num berço de paz
E não a troco por nada. 
Tanta falta que me faz
No meio da “trampalhada”.

Ouço os gritos ferozes
Ferirem-me os ouvidos
Saturados dessas vozes,
Ecos de discos partidos.

E fujo de gente feia
Por dentro do seu pensar,
Gente que, de si tão cheia,
Até me faz vomitar.

Busco a tranquilidade
No barulho do momento,
Melindroso de verdade,
Morde-me o pensamento
Farto de tanta maldade.

A minha alma procura,
No meio da trabuzana,
Fugir a essa loucura
Da estupidez humana,
O vírus que não tem cura.

Avesso à turbulência,
Peço à bruma da ilha
O perfume da hortênsia
Que muito me maravilha
Dando paz à consciência.

Açores do meu encanto,
Tens política também,
Talvez suja, no entanto
Minha linda terra mãe,
Não me desiludes tanto.
Por isso, te quero bem.