Ovo estalado na testa

 

 

Outubro, que eu me lembre, foi sempre um mês extremamente simpático para comigo. Ao longo dos meus sessenta e tal anos soube presentear-me com momentos marcantes, episódios inapagáveis. Poucos me acodem já dos primeiros cinco. Mal chegaram os seis, porém, a coisa depressa mudou ao antecipar-se-me a idade de ir para a escola. Costumava ser a dos sete, mas um filho de fevereiro tinha a vantagem de poder começar quatro meses mais cedo. Sabendo da imensa vontade que sentia em aprender a ler, escrever e contar, meus pais apressaram-se a matricular-me na minha Primeira Classe.
O primeiro dia era deveras especial. A malinha escolar fora aprontada na véspera. Minha mãe acordou-me com o cantar dos galos e tratou de me pentear bem penteadinho depois de me ajudar a vestir a roupinha de levar à missa, impecavelmente passada a ferro. Queria-me levar bem aprumado para criar boa impressão logo à entrada. Era o seu primogénito e, já que meu pai saía cedinho para o trabalho, estava toda prezada em ser ela a levar-me pela mão à presença do senhor professor. Erguera-me antes do que estava habituado e não digo que estivesse nervoso, mas sentia-me desassossegado de contente para pegar e andar. Não parava em ramo verde e a reprimenda não se fez esperar. “Tu se me sujares essa roupa, acredita que me apanhas logo duas palmadas no rabo sem te sentires. Não queres ir para a escola com a pinga no olho, pois não?” Pouco me doíam as suas brandas palmadinhas e, talvez por isso, o aviso me saiu por um ouvido logo após me ter entrado pelo outro. Atarefada com os seus matinais afazeres domésticos, ela devia ter dito aquilo só por dizer. Claro que não me ia bater sem mais nem menos numa altura daquelas, calculei.
Caía um orvalho teimoso, coisa normal nas manhãs dos outubros das nossas ilhas de brumas e chuviscos abundantes. Qualquer chuvinha, por mais miudinha que fosse, atrapalhava sempre o incessante vaivém duma dona de casa, caso necessitasse de ir ao quintal fosse lá pelo que fosse. “Preciso de ir ver se as galinhas puseram algum ovo,” disse-me apressada, “mas tu ficas aqui à minha espera quietinho que é para não te sujares. Ouviste?” Um dos meus chatos problemas de miúdo foi sempre o de ouvir mal. “Eu posso ir, mãe.” Aquilo de ir ao curral das galinhas ver se elas tinham ovo e desafiar as investidas do galo era um enorme prazer do meu mundo infantil. “Podias, mas não vais. Já disse que não te quero ver sujo. Percebeste?” Bem me custou confirmar com a cabeça que sim.
Tínhamos sempre galos de mau génio, com cara de poucos amigos, mas aquele abusava mesmo do seu papel machista de protetor descarado da sua capoeira. Não era fácil convencê-lo de que o seu galinheiro fazia parte duma propriedade cujo dono lhe podia dar cabo da saúde a qualquer instante. Não eram uns simples grãos de milho ou qualquer braçado de erva trepadeira que o distraía facilmente da sua firme função de chefe mandão do seu recinto. Enganá-lo requeria tempo que minha mãe não tinha a mais no momento. “Luciano, chega aqui depressa!” Foi o que eu quis ouvir. “Sim, senhora – aqui estou.” Estava ali a vê-la baixar-se, a custo, para recolher os ovos do poleiro e embrulhá-los no avental ante o maroto olhar do galo inquieto para fazer das suas. “Chega-te mais cá, filho, para ajudares a mãe. Pega-me aqui num ovinho ou dois, antes que eles se quebrem.”
Os ovos, naquele tempo, eram uma preciosidade indispensável aos lares do meio rural ilhéu. Não só davam um jeitão no alimento diário da família como até serviam de valiosa moeda de troca local na aquisição de outros produtos alimentares. Tinham que ser todos bem aproveitados e pediam-nos o máximo cuidado ao deitarmos-lhes as mãozinhas. Quebravam-se, como ainda se quebram, com a maior das facilidades. Ao chegar-me mais junto de minha mãe, o diacho do galo parece que me reconheceu e fez-me recuar desprevenidamente com um ovo em cada mão. Tropecei e ainda tentei manter o equilíbrio antes de bater com o rabo no chão e ver as mãos soltarem-me ambos ovos. Um bateu-me em cheio na testa e o outro na camisinha alva da neve que o senhor professor não chegaria a ver naquela azarenta manhã em que a minha santa mãezinha se viu doida para me apresentar a tempo e horas na escola, como ela gostava de me ver, fresquinho que nem uma alface.
Quinze anos depois, outubro recebeu-me na Califórnia, mais precisamente na “lusa” cidade de Newark, onde permaneci por outros quatro. Meus pais lá compraram a sua casinha que nos abrigava no conforto de três quartos de cama, um de banho, outro de repouso quase pegado à sala de estar perto da cozinha com janela para um jeitoso quintal onde se viam hortaliças, árvores de fruto e também o respetivo reduto acomodando galinhas e pintos ao cuidado dum manso galo que mal se fazia ouvir. Daí chamarem aos galos americanos uns toleirões, à vista dos que criávamos nas nossas ilhas. Não por não galarem como galavam os de lá, mas mais por lhes faltar aquela fabulosa fibra ilhoa doutras eras que fazia imensa diferença. 
Foi-se. Tal como aquela doce voz que tanta falta me faz e eu bem gostaria poder voltar a ouvir pedir-me o azar doutro ovo estralado na testa onde estas memórias me batem com saudade daqueles dias que outubro já não me traz.