Pelo atalho do mistério

                                                                                

                                           
Dos inúmeros milhares de milhas que já percorri ao longo desta minha caminhada terrena, passos há que me deixaram calos na sola da memória para sempre. Muitos deles já têm mais de sessenta anos. Fedelho ainda de pé descalço à mercê dos golpes e das topadas em estradas bem maltratadas, lembro-me bem de fazer a travessia da Canada do Caldeiro para a Canada da Fonte pelo Atalho do Mistério. Escusado será dizer que as já distantes passadas da minha longínqua infância permanecem inseparáveis destas velhas vias que me viram crescer puto de olho vivo e pé ligeiro. Na Canada do Caldeiro, onde nasci, começa a ligação do norte ao sul da minha linda Ilha lilás. Dos Biscoitos a Angra vão mais ou menos dezoito quilómetros que, um dia, já rapaz estudante aventureiro e armado em atleta, cismei percorrer a pé. Mas isso é tema para outra crónica. A de hoje quer levar-me à Canada da Fonte, aonde nasceu meu pai e depois viria a morrer sua mãe, a minha saudosa avó, Jesuína Madeira. Tive a felicidade de conhecê-la ainda bem ativa, ao contrário do marido falecido pouco antes de eu vir ao mundo.
O Atalho do Mistério começava numa estreita canadinha, por entre vinhas, antes de cortar pelo meio duma mata que desembocava na Canada do Rego a caminho da Canada da Fonte. Em pequenino, nunca fiz esta travessia sozinho. Tinha medo que me pelava de passar por essa mata apinhada de eucaliptos, faias e erva trepadeira enriçada no arvoredo onde chilreava a passarada com a vista arregalada na ponta do bico à espreita dos morganhos ou lagartixas rastejando manhosamente à nossa volta. Alguém me havia assustado com a tolice de por ali andarem, para além dos queimados esfomeados, também os tais papões endoidecidos – esses fantasmagóricos pesadelos da minha infância que jamais esquecerei. Viu-os em sonhos e temia o dia de ter de os ver à minha frente. Nunca atravessara a mata de noite até àquele tal dia de matança em casa da avó Madeira, ainda hoje nostalgicamente atravessado na minha lembrança.
As matanças, como sabemos, naquele tempo de diversões bastantes diferentes das de agora, eram uma festa com sabor deveras especial no meio rural. Depois de morto, ariado e chamuscado, o porco ficava dependurado à vista dos amigos ou vizinhos que por ali passavam para matarem o (seu) bicho por entre dois dedos de conversas em convívios tantas vezes demorados demais por culpa do renhido jogo das cartas. Ora à sueca, ora ao truque, a amena disputa aquecia e o tempo desaparecia sem mal se dar por isso. Embora tendo que se levantar cedo na manhã seguinte para o seu dia de trabalho, fazia-se tarde quando meu pai se despediu dos seus. Pela sua mão, a tremer de frio e de medo, lá vim eu a caminho de casa ainda desviada a uma boa meia hora dali. 
O tempo nas ilhas, na gema do inverno, não é para brincadeiras. Escura como breu, sem lua nem estrelas e ainda à espera da eletricidade pública então inexistente, a noite aconselhava a acautelar o passo nos atalhos empedrados e escorregadios. O vento zunia e sacudia com o arvoredo da mata de forma feroz. Os meus tenros ouvidos habituados a escutarem as zoadas invernosas de dentro de casa, nunca tinham escutado semelhantes ruídos ameaçando tão pertinho. Topando-me o medo, meu pai pegou-me ao colo por instantes até o peso dos meus quase cinco anos obriga-lo a subir-me as pernas ao redor do seu pescoço sem me largar as mãos. Poupou-me as passadas sem se aperceber que o medo me subira logo dos pés para a cabeça forçando-me a fechar de pronto os olhos postos no meu quentinho colchão estufado com folha de milho à minha espera lá no meu quarto. Não devia demorar muito, pensei para com os meus botões.  
A ajuda veio de cima. Senti dois pingos caírem-me na ponta do nariz e ouvi meu pai dizer, “ela vem aí.” Nas nossas mimosas Ilhas de Bruma, ela não avisava. Embora de dia ainda se pudesse adivinhar pelo enegrecer das nuvens, àquela hora escura da noite, matreira e veloz, a chuva não poupava gente desprevenida. Homem sempre muito acautelado, mas ali apanhado de surpresa, o meu bom velhote então apenas na casa dos trinta, pensou logo em desafia-la e, “pernas para que vos quero”, disse-me de pronto, “atraca-te ao meu pescoço.” Fi-lo por instinto, pestanejando só quando cedi à pressa dos pingos em molharem-me o nariz, a cabeça, os ombros e por ali abaixo a roupa a encharcar-se ante o desespero de meu pai praguejando palavras que, na altura, não entendi nem era preciso. Não fora a primeira molha que apanhara na sua vida, mas certamente a que mais lhe doeu ao entrarmos a porta naquele lastimoso estado que a língua de minha mãe não perdoou, “olha que é preciso não ter mesmo juízo nenhum para se deixar uma criancinha ficar alagada pingando assim desta maneira. Meu rico filhinho, em risco de apanhar coisa ruim para o resto da sua vida.”
Para ser franco, não sei nem quero saber quanta vida me falta no resto dos meus dias que me esperam. 
O que sei, no entanto, é que sinto enormes saudades de rever os rostos mal-encarados dos meus progenitores naquela noite invernosa... pegados por minha causa.