Balas a mais

                                                                                                                                                    

Falar de balas é triste e doloroso demais, sempre que a sua pólvora seca se ensopa em sangue inocente. Estou-me a referir, claro, às que matam friamente gente boa sem qualquer culpa da sua má sorte. Balas assassinas não fazem qualquer sentido na mente de gente decente. Nem muito menos deviam ocupar lugar nas vivências e convivências humanas de boa fé. Disparar horror ao desbarato, aniquilando à bruta quem não merece, devia ser expressamente proibido numa sociedade dita civilizada. Assim cremos ser esta em que vivemos hoje em dia, felizes por não termos vivido no tempo dos bárbaros que, note-se, nem balas tiveram ao seu dispor. Mas a culpa não é delas, como bem sabemos. Nem sequer é das armas que as cospem, mortíferas, à toa. A culpa – estamos fartos de saber – é toda nossa. Todos os seres humanos deviam ser inteligentes e conscientes do respeito que devemos aos demais. Tal não acontece e é pena verificarmos como a mente humana padece quando avaria. A gente entristece e chega facilmente à conclusão de que nada paga uma mente sadia.
O cenário teima em repetir-se com frequência indesejada cá nos “States”. Há demasiada gente mentalmente doente, à solta, com armas que não deviam ter ao seu alcance, estilhaçando sonhos, derramando lágrimas, torturando famílias e perpetuando o luto duma nação rica no seu esplendor económico, mas a empobrecer claramente na sua estrutura social, falhando tantos dos seus filhos e filhas cada vez mais enfuriados com o que se está passando. Esta grandiosa América continua a sangrar pelas costuras e o problema é que não se vislumbra significativo alívio à vista para este pavoroso pesadelo em curso. Os números não mentem. Basta estarmos atentos aos noticiários diários e constatamos facilmente como o crime continua a aumentar e a matar, sem apelo nem agravo. As recentes tragédias de Uvalde (Texas) e Buffalo (New York), semelhantes a outras ainda não muito distantes, também metralhadas por jovens na flor da idade que, propositadamente, decidiram dizimar dezenas de vidas indefesas, são sinais alarmantes dos turbulentos dias que vivemos ameaçados por estes horrores e temendo que eles não nos batam à porta, ou às portas dos que nos são mais queridos. 
Se o aumento do crime e respetivas fatalidades deixou de ser surpresa em solo americano, devido ao recente enfraquecimento das forças policiais, um pouco por toda a parte, mas com maior gravidade nos grandes centros urbanos, já a frequência destes arrepiantes massacres não para de nos surpreender e chocar pela natureza vil e cruel em como são vilmente executados. Por um lado, temos as potentes armas de assalto, tão fáceis de adquirir; por outro, vemos as doenças mentais, tão difíceis de curar. E depois do mal feito, aproveitando-se das lágrimas e da dor alheia, lá vem os senhores políticos à praça pública com a repetida conversa do costume, acusando-se uns aos outros, mas incapazes de se comprometerem a resolverem um problema que nos é comum. Por isso, ficamos fartos deles e da sua demagogia barata que não ata nem desata. Só inflama. Será que pensam mesmo que nos comem por tolos? Não acredito. Creio sim que são uns hipócritas vendidos a quem os comprou para poder manipulá-los a seu belo prazer.
Mundo cão este em que já nem no sossego duma igreja ou na amenidade duma escola primária podemos respirar à nossa rica vontade, sem recearmos que lá venha um doido varrido roubar-nos o direito à alegria de viver. Tristeza maior não há para um pai, ou uma mãe, do que lhes devolverem nos braços um filhinho ou filhinha besuntados em sangue e já sem vida. E, do mesmo modo, porque os ajudamos a criar, posso juntar os avós, como nós cá em casa. Não me peçam para passar por essa dor. Nem quero imaginar o que faria. Talvez porque fui criado num tempo e num lugar em que nada disto acontecia, nem ainda acontece, sinto-me abalado demais para escrever sem o fazer com o coração nas mãos. E dou por mim, com uma lágrima no canto do olho, a olhar para o céu, incrédulo, estupefacto, desiludido.
O netinho que levámos e trouxemos da escola durante o findo ano letivo, porque os pais tiveram e tem que trabalhar, é o mimo mais doce das nossas vidas diariamente consumidas com o seu bem-estar. Bem estamos enquanto o(s) tivermos à nossa volta. Confesso-vos que fico doido (mas doido no bom sentido), isto é, louco de alegria que bem gostaria nunca roubarem a um avô, a uma avó, a um pai, a uma mãe. Se eu pudesse, acreditem que acabava já com essas perigosas armas de assalto, ou ao menos roubava-lhes as balas que esses esses avariados psicopatas utilizam para nos roubarem criminosamente a alegria de viver. Quem lhes deu esse torto direito, senhoras e senhores detentores dos poderes políticos que elegemos para nos resolverem estes graves dilemas? Tendes sangue nas mãos e não vos admireis se, um dia destes vos enfiarmos os pés. Basta de demagogia descarada e hipocrisia vergonhosa. Precisamos duma resposta urgente, antes que se derrame mais sangue inocente.