Auschwitz, o pesadelo

                                                                                

Palavras há com um impacto desconcertante na História da Humanidade. Deixaram marca inapagável. O seu peso esmaga de tal forma que permanecerá pesadelo para sempre. Holocausto, na nossa era, é das que mais me horroriza por tudo o que consigo arrastar. E arrepia-me sempre que a oiço mencionada por quem sentiu de perto os seus nefastos efeitos na pele. Passados tantos anos, cá ao longe, creio que todos já ouvimos falar e muitos de nós lemos mesmo livros ou vimos filmes com imagens de arrasar. Todo aquele desumano genocídio continua a causar-me uma náusea angustiante. Não consigo perceber como pode o ódio chegar a um ponto tão extremo. Civilizados seres humanos que nos prezamos de ser com a enorme vantagem, em relação à demais bicharada, dum cérebro capaz de nos brindar com brilhantes ideias para bem, que raio nos leva então a abraçarmos esses repugnantes ideais para o mal?
O meu amigo Dariusz Kubiak – partilhamos presentemente o prazer dum part-time que nos oferece ocasionais momentos de sã cavaqueira – nasceu na cidade polaca de Poznan. Achei piada ao seu espanto quando lhe disse ter nascido no meio do Atlântico. “Aonde?”, perguntou. “Açores”, respondi. Nunca ouvira a palavra antes e lá fomos com o polegar direitinho ao mapa do iphone em busca daqueles minúsculos pontinhos a indicarem as nossas encantadas Ilhas de Bruma. Alguma bruma cobre também já certas conversas da sua infância com a avó, que lhe contou horrores da passagem dos alemães e dos russos pelo seu lugar nas sangrentas andanças da Segunda Guerra Mundial. Horrores que prefiro aqui não detalhar. Se palavras há que o horrorizam, Hitler e Stalin são certamente duas delas, a seu ver, irmanadas num sinónimo comum – monstros. “Martirizaram o meu país e a nossa História.”
Veio jovem para a América, passou o seu nome para Derek e expressa-se num inglês fluente, mas o sotaque típico de europeu oriental que emprega no uso da palavra Holocaust faz-me tremer e tremelicar ainda mais ao ouvi-lo pronunciar Auschwitz – porventura o campo de concentração mais arrepiante da História Universal, localizado precisamente no coração da sua querida Polónia. Calcula-se em cerca de um milhão e meio o chocante número de crianças falecidas durante aquele pavoroso período de extermínio dos judeus. Ao inferno de Auschwitz, poucas foram as que sobreviveram para testemunharem mais tarde toda aquela cruel carnificina que ainda hoje nos atormenta com um incómodo ponto de interrogação – “como terá sido possível tamanho flagelo?”
O meu polaco amigo prefere não revisitar nada que tenha a ver com essas massacrantes memórias, tão tristes e dolorosas. Devo ser um bom conversador, por vezes chatinho demais, porque lhe dei voltas irrequietas ao miolo até ele me despejar algumas de me benzer três vezes com a mão canhota. Não comungamos da mesma religião, mas partilhamos um entendimento comum – o de que o ódio, selvagem como é, não resolve coisa alguma nem nos leva a lado nenhum... a não ser a esses tais infernos aonde se queimam inúmeras vidas injustamente condenadas à morte. Conta-me ele que o maior pavor da sua querida avó eram os suores frios após os sonhos escaldantes que vinha frequentemente delirando com os odores pestilentos dos fumos expelidos das negras chaminés de Auschwitz, testemunhas eternas dos gritos agonizantes das dores inconcebíveis das vítimas inconsoláveis que a História regista em páginas ensanguentadas por vis atrocidades que envergonham a raça humana. 
“Se não nascesse humano, o homem seria bicho”, diz-me o amigo Kubiak, ao refrescarmos a garganta com o delicioso amargo duma gelada Żywiec. Honrosamente rotulada de número 1 na Polónia, a apetecida cerveja pôs-nos d’acordo – “só nessa bárbara condição de desumano lixo se percebe haverem monstros capazes de tamanhos crimes.” Ao longo da História que tem acompanhado o percurso humano neste nosso poluído planeta, sempre houveram esses cérebros envenenados por raivosa loucura cometendo atrozes diabruras aniquilando tantas criaturas inocentes. Mesmo com o lento evoluir da civilização dos povos progressivamente habituados às sãs ideias da paz, tolerância e solidariedade entre si, continuam a não faltar nos nossos dias essas explosivas ameaças de novos conflitos por parte de tiranos capazes do pior. 
“Pior do que o diabólico plano nazi de tão fria e calculadamente pretender exterminar toda uma raça da superfície terrestre, creio nunca ter havido”, confiou-me o meu magoado amigo com um olhar profundamente entristecido por trágicas lembranças que não o deixam nem jamais deixarão a sua terra-mãe. A avó não as deixou morrer por ter sentido na pele a aflitiva perda de vizinhos, familiares e amigos odiosamente reduzidos a cinzas soltas há três quartos de século pelas fúnebres chaminés de Auschwitz. Fez precisamente neste 27 de Janeiro 75 anos que o tormento acabou. As câmaras de gás cessaram o seu suplicio de horrorífica mortandade e quem estava na vez lá escapou. Porque calhou. Mas não devia ser assim. 
As vidas humanas não foram feitas para matanças, sejam quais forem as desculpas. “Raça, religião, cor da pele, ideologia política, orientação sexual ou outro qualquer tipo de ridícula descriminação jamais deveriam servir de absurdo pretexto para nos eliminarmos selvaticamente uns aos outros, amigo Luciano. Ninguém é melhor do ninguém. Todos temos direito à vida e a vivê-la com ampla dignidade.”  

Muito brigado, amigo Derek.