Sabores de Setembro

                                                                                                                

Uma ilha é um mundo à parte. Quem lá nasce não tem dúvidas sobre isso. Somos uns privilegiados, os ilhéus. Nascer e crescer com o olhar cheio de mar da cor do céu, ambos a acariciarem-nos maciamente os sentidos, faz-nos um bem danado. Sentimo-nos especiais. Sobretudo quando simultaneamente tingidos de azul em dias de bom tempo, mar e céu encantam-nos os olhos da alma. A minha nunca deixa de me agradecer esse melado mimo que tanto me ajuda a viver abraçado à doçura das memórias sempre bem vivinhas cá dentro de mim. Beijam-me em multicolores tonalidades panorâmicas que nos deixam de boca aberta e olho humedecido cá à distância.
O meu berço encantado de ternura paisagística, deslumbra quem por lá passa disfrutando toda aquela sedutora sinfonia de cores vibrantes e cheiros aprazíveis na busca do desejado consolo dum salutar descanso. Lugar acolhedor, paisagem sedutora, os Biscoitos marcam agradavelmente qualquer visitante que se digna percorrê-los, a pé, do mato ao mar, sem ter pressa no andar. Quem desce do interior da ilha, quer pela empinada Canada do Caldeiro, pelo altivo Caminho dos Caneleiros ou prefere subir ao alto da vistosa Caparica, deixa-se facilmente fascinar pelo que o seu olhar dali alcança. O azul do mar embalando a espuma branca das marés aos abraços no basalto negro que divide depois elegantes curraletas a abrigarem verdes vinhedos perfumados pela deliciosa uva madura... é qualquer coisa de se lhe tirar o chapéu. O meu, como o de tantos outros rapazolas de então, era de palha e tinha as abas largas no tempo das vindimas.
Dizem-me que já não são o que eram e eu fico triste. Triste, porque aquilo era mesmo uma alegria. Acreditem que sinto pena da rapaziada d’agora não poder viver o prazer que então nos proporcionava a bela arte de vindimar. Um dia de vindima era um dia de festa e, na minha pitoresca freguesia, o festival prolongava-se durante semanas a eito na doce azáfama da apanha da uva que passava das mãos para os cestos de vime carregados depois às costas de quem as punha nos carros de bois guinchando lentamente a caminho dos lagares nas adegas onde mais tarde o vinho novo escorria p’las gargantas roucas da nossa boa gente sempre contente, graças àquela boa pinga. Não era, no entanto, uma arte fácil de se desenhar com sucesso garantido. Havia anos de boas colheitas, em que a abundância do vinho novo facilitava mais as bebedeiras caldeadas com as gargalhadas da boa disposição. O problema eram os tais anos em que os tintilhões, as lagartixas, os melros pretos ou os safados dos ratos, para não falar apenas nos azares do tempo, decidiam estragar a festa a quem se matava a trabalhar o ano inteiro de costas dobradas àquele amargo dissabor.
Saboreava, anteontem, um belo cacho d’uva madura e com um gostinho quase igual à de cheiro lá do lugar donde venho, sozinho no meu quintal, à sombra do damasqueiro e do pessegueiro ainda enfeitados da folha esverdeada que lhes cobriu a fruta já comida, quando senti uma lágrima mais atrevida ao insistir molhar-me o canto do olho preso no azul do céu azul limpinho que consolava a ver. Também tenho verdura no meu quintal e alguma pedra preta. Espuma branca não, mas saudade acinzentada é quanta queira. Basta-me olhar para um passeio de cimento ali ainda rijo das calejadas mãos de meu pai e rendo-me logo ao poder das lágrimas. São duas mais teimosas, agora nos cantos de ambos os olhos. Sem vergonha, decidiram vir toldar-me a vista nostalgicamente presa à memória fresca de minha mãe... (de avental à cintura, lenço na cabeça e com um sorriso do tamanho do arco da chaminé onde a panela fumegava com a comida pronta para nos atestar o estômago a dar horas...) cantando para enganar o cansaço.
Era assim, naquele tempo. Canseiras afugentavam-se com cantigas e lá vinham os serões, as tocatas, os ajuntamentos onde os matabichos tomavam contam do resto. As adegas tornavam-se tantas vezes salutares santuários dum convívio saborosamente improvisado com o melhor que a nossa boa gente tem – talento nato para abraçarem a sua castiça cultura popular. Um par de ferrinhos acompanhando uma gaita de foles a gemer ao lado duma rabeca bem afinada faziam verter aplausos licorosos das torneiras dos barris, ou das pipas, incapazes de negarem um bem apetecido brinde fosse lá a quem fosse. Orgulho-me bastante de ter sido criado nessa imensa riqueza das nossas raízes inconfundíveis pelos mimos das suas cores, sabores e sons impossíveis de reproduzir numa só foto. A que aqui ilustra este meu já embriagado texto, todavia ao retratar os rostos trigueiros do Ti Constantino Feteira (perito no tilintar dos ferrinhos) e do sr. José Pires (exímio tocador da rabeca) animando mais uma agradável visita à então acolhedora adega de Fernando Linhares Brum – hoje tornada museu recheado de vinícolas memórias únicas – acho que fala bem por si. E por mim também, orgulhosíssimo sempre que me sinto do nosso ditoso berço ilhéu – um mundo verdadeiramente à parte, sem qualquer margem para dúvidas.