Ano Negro

                                                                                

                                                         

Tudo apontava para um ano em cheio. 2020 parecia um número de sonho. Os seus repetidos algarismos redondinhos, quase gémeos, faziam-nos crer no melhor. Traziam-nos expetativas altas e seduziram-nos com prognósticos bombásticos explodindo nos ares iluminados pelo colorido fogo de artificio logo nos primeiros segundos do primeiro de janeiro. O champanhe escorreu-nos pelas gargantas e tudo sugeria estarmos a saborear o início de um ano feliz, como é costume acontecer no arranque de cada novo calendário. À priori, dois mil e vinte seduzia-nos com aquele mesmo vibrante fulgor imbuído na esperança com que virámos o milénio. O que ninguém contava era vir o vírus virar-nos os planos do avesso.
No princípio, ninguém fez caso. Especulava-se lá dos remotos confins da longínqua China agarrada ao esquisito hábito gastronómico de consumir até a reles carne de morcego – imagine-se – que um venenoso vírus se soltara com intenções catastróficas para a Humanidade. Um médico local ainda tentou alertar o mundo para a tragédia iminente, mas depressa a sua voz foi abafada e a suspeição aumentou. Também não se sabe bem ao certo o que se passou no tal misterioso laboratório de Wuhan. O que sabemos agora é que, de janeiro para fevereiro, a especulação deu lugar aos nervos e, em março, estava o pânico derramado sem apelo nem agravo. Já só se falava de infeções e mortes em termos pandémicos apenas comparáveis aos da “febre espanhola” de há um século. Viu-se bem que o mundo não esperava tamanha pancada nem estava preparado para a dramática dimensão da cruel calamidade cujos pavorosos números já deixaram de nos assustar. Passaram a acompanhar-nos no dia a dia, lembrando-nos a cada momento quão frágil esta vida é.
O inverno foi frio, arrepiante, mas a primavera gelou-nos ainda mais o sangue, mergulhando-nos em depressão prolongada sem se lhe vislumbrar fim à vista. Custou ver o tempo a melhorar e as coisas piorando sem quaisquer sinais do alívio desejado. Refiro-me a coisas muitíssimo sérias, como sejam milhares de mortes diárias e milhões de vidas feridas com famílias ameaçadas pelo horror pandémico no lento decorrer dos meses. Abril – que costuma abrir-nos os ares e erguer-nos os ânimos com sorrisos primaveris, convidando-nos a sair à rua – pasmou, tal como maio, florido e aprazível, que também não gosta de nos ver fechados em casa; já junho e julho – quentinhos na calorosa folia das festas, sem estarem habituados a verem-nos sair mascarados e distanciados na força do calor – iam perdendo o juízo. Dizia-se mesmo, ou prognosticava-se, que esse maldito vírus iria sucumbir à subida das temperaturas, mas disse-se tanta coisa, por andarmos todos à procura da rolha, que até mesmo alguns cientistas se contradisseram equivocando-se, porque errar é humano. O pior de tudo, no entanto, foi a porca da política ter decidido intrometer-se no domínio da ciência e pronto – em ano de eleições – aproveitando astutamente a desculpa das máscaras para disfarçarem ainda melhor a sua cínica hipocrisia na cega caça ao voto, os safados dos políticos juraram lixar-nos outra vez bem lixados ao prometerem-nos os tais mundos e fundos do costume com a sua partidária banha de cobra untada em prejuízo do bem comum. É pena. 
E mete dó ver agosto passar por tamanho desgosto. Acarinhado na gema do verão como predileto mês de férias e festas forçosamente canceladas, nunca se sentiu tão deprimido e amachucado. Apesar do bom tempo cooperar, como sempre, convidativo ao convívio das multidões saboreando a gostosa mística dos arraiais, custa ver tantas caras tristes e angustiadas pelas invulgares circunstâncias que teimam em embaciar o ar tenso deste fatídico ano para esquecer. O nervosismo que por aí impera, um pouco por toda a parte, ao afastar as pessoas umas das outras semeando isolamento e solidão, está a levar muita boa gente a “pegar de cabeça”. “Há tanta maneira de se morrer aos poucos na puta desta vida”, dizia-me há dias um amigo incapaz de esconder a sua imensa frustração. “Avariar do juízo é uma delas, como se nota no caso claro dos políticos ainda mais desmiolados neste escaldante tempo de eleições. Se reparares bem, não fazem outra coisa senão falarem mal uns dos outros sempre com aquele seu mesmo venenoso paleio de chacha a espalhar ódio miudinho que até me dá vontade de vomitar. Depois, admiram-se de tanta boa gente, farta de os ouvir mentir, perder o apetite de votar?”
Trata-se duma crítica questão que faz eco na mente dos eleitores indecisos porque saturados do reciclado “blá, blá, blá” do costume nesta imensa América em tempo de votos presidenciais sob o fantasma da  abstenção. Sempre votei desde que cá cheguei, mas desta vez não sei. Quem se candidata à Casa Branca tem que nos inspirar confiança no presente e esperança no futuro. Nenhum dos atuais candidatos a esse cobiçado poleiro (qualquer deles já muito para além da idade da reforma), até agora, conseguiu seduzir o meu voto. Em ambos vejo o presente muito tremido e o futuro bastante nublado. Para além disso, o sujo circo de insultos, mentiras e mesquinhez politiqueira montado à sua volta mete-me nojo. E comigo enojadas sentem-se inúmeras almas profundamente desiludidas com todo este feio negativismo dum ano demasiado negro para o meu gosto. Agosto não costuma vir assim tão sombrio. “Mas setembro e outubro ainda vão ser piores”, disse-me o meu contrariado amigo, “e de novembro nem se fala.” “Porquê?”, perguntei-lhe antecipando a sua obtusa bicada – “vais ver que, mal alguém perder a eleição, aquilo vai ser um tal choramingar e protestar até se comprovar uma vez mais que o pior vírus à superfície da Terra continua a ser a perigosa estupidez humana.”

Mesmo que dezembro nos dê um ar da sua graça, 2020 está entregue à bicharada.