Tempos difíceis

                                                                                

                                                         

“Terra de oportunidades fantásticas, a América não é nenhum paraíso encantado.” A frase ficou-me a bailar cá dentro, vinda da boca de um amigo em conversa recente. Seca, assim, é das tais que não aquece nem arrefece. Diz bem antes de querer dizer mal, ao ilustrar o pensar de tanta boa gente agastada com o que se tem vindo a passar de costa a costa deste magnífico país sangrando feiamente pelas suas costuras sociais e estruturas políticas. As perguntas multiplicam-se sem respostas nem soluções razoáveis à vista dos problemas sérios que teimam em arrastar-se por aí sem apelo nem agravo. Uma vez mais, um simples vídeo captado com um pequenino telemóvel, pôs esta gigantesca nação a tremer, para não dizer a ferver ou a arder. Esfriar as emoções não tem sido fácil. Apagar as chamas e sarar as chagas mantem-se um desafio tremendamente difícil. Os estragos estão à vista de toda a gente. Resta saber se algum dia estas feridas irão ter alguma cura. O meu amigo referia-se precisamente a isso, visivelmente preocupado com o futuro que aguarda por cá os nossos filhos e netos.
“O futuro a Deus pertence”, costuma dizer a nossa boa gente mais crente, sem deixar de crer igualmente estar nas nossas mãos o leme do rumo que gostaríamos de lhe dar. Por isso, dei comigo no meio da rua, já lá vão uns bons quarenta e tantos anos, a gritar com a malta do meu tempo naquelas ruidosas manifestações repetindo slogans de vária ordem, que hoje poderia talvez resumir no tal histórico – “o povo unido jamais será vencido.” Víamos o nosso futuro nublado. Unir o povo, todavia, à volta duma voz forte ou duma vontade férrea não é fácil. Uma coisa é fazer barulho, mandar bocas, cuspir insultos ou provocações espalhando ódio miudinho só para chatear quem está do outro lado e outra é procurar a forma mais eficaz de protestar civicamente com o propósito de se operarem mudanças concretas que façam a diferença para melhor na vida das pessoas em sociedade. O protesto consciente e educado torna-se uma arma insubstituível. Parece-me, no entanto, não estar sozinho se disser que vejo o futuro dos meus netos ainda muito mais nublado do que o meu de rapazinho sonhador e descontente com o “status quo” de então.
Os primeiros dezasseis anos da minha vida coincidiram precisamente com os últimos dezasseis da reles ditadura fascista que governou Portugal durante quase meio século. Viviam-se tempos difíceis. Cresci com medo da violência presa à injustiça da guerra e ao lodo da desigualdade social criando miséria besuntada pela mais elementar falta de liberdades. O país andava à deriva e a minha mocidade flutuava ao sabor de muitos protestos gritados na esperança de dias melhores para todos. Vir para a rua gritar em coro conjunto contra aquilo que julgamos estar mal, cai muito bem naquela fase jovem da vida em que sentimos não termos nada a perder. Penso ser esse o caso claro das muitas multidões a arrastarem juventude empacada um pouco por toda esta América e pelo mundo protestando, subitamente sem ligarem pevide ao tal “sagrado” distanciamento social que a pandemia pedia até aqui.  Na sua grande maioria, vem com boas intenções. O pior são os grosseiros abusos dos tais grupos extremistas, anarquistas tantos deles fiéis à sua agenda sempre destrutiva e capaz do pior. 
Nunca gostei dela nem da odienta falta de respeito hoje em dia pegada a tanta dessa rapaziada criada sem escrúpulos de fazer o mal por puro prazer. Dá que pensar e obriga a repensar. A brutalidade da polícia, particularmente contra os afroamericanos, é um facto indisputável já com uma história longa de sangue, lágrimas e dor a que não podemos ficar insensíveis. Por detrás desse doloroso drama, e longe de ser um exclusivo pecado americano, mora o pandémico pesadelo do racismo. Alastra-se sem darmos por isso. Desde que cheguei aos Estados Unidos, já votei em várias eleições presidenciais com o tema a vir à baila sempre abordado pela mesma repetida retórica florida, mas despida de resultados práticos quanto às alterações desejadas. No meio de todo este enorme fiasco agravado pela horrorosa morte de George Floyd, que todo o mundo civilizado condenou, culpar apenas os maus polícias não chega. 
Os maus políticos envergonham-nos de igual modo. Incapazes de acelerarem reformas expeditas que ajudem a prevenir este tipo de lamentáveis tragédias, não conseguem escapar à crescente frustração de tanta gente protestando desiludida com o presente “status quo” a gerar toda esta tensão social. No meio de tanta barafunda, no entanto, há que saber separar-se o trigo do joio. Protestar pacificamente sim – pilhar criminosamente é que não. Doeu-me, de forma particular, ver a pacata cidade de San Leandro onde moro há 38 anos, ser largamente vandalizada por essa endiabrada gatunagem soltando sua desmedida selvajaria em prejuízos bastante avultados. Tudo isto, digam-me lá, se fazem o favor, em nome de quê? 
Não é certamente para honrar a memória do malogrado George Floyd que (segundo palavras da família) não alinhava neste torpe tipo de patifarias, já responsáveis pelo posterior assassínio de dois agentes policiais negros. Será que as suas vidas (their black lives don’t matter as much?) não contam tanto? Talvez mesmo não, avaliando pelos protestos expressos no aumento de cartazes (“defund the police” ou “abolish the police”) pedindo o gradual enfraquecimento da polícia. Dá que pensar e repensar, porque nenhuma sociedade salutarmente democrática sobrevive subserviente ao sabor da desordem. Será esta feia América que pretendemos para os nossos netos? Os meus filhos dizem que não. Preferem, de longe, a linda terra das oportunidades.