Vírus venenoso

                                                                                

 

                                                                  

E de repente o mundo
Acaçapou-se em casa
Isolado num profundo
Receio que nos arrasa.

Mestre em contagiar,
O vírus veio com ganas
De nos expor e mostrar
Fragilidades humanas.

Não sei se foi por acaso
Que nos veio visitar
Ou se já marcara prazo
Para nos vir chatear.

Sei é que ele vem só
Infetar-nos o lamento
De apenas sermos pó
Ido num sopro do vento.

E quem se tiver por mais,
Deixe-se de parvoíces. 
Este vírus é dos tais
Que não tolera tolices.

Não pede identidades
Nem respeita estatutos.
Limpa todas as vaidades
Leva sonsos, cala brutos.

Com mais saber ou dinheiro,
Quem se pense lá da proa
Não julgue que o matreiro
Deste vírus lhes perdoa.

Ao ser humano bondoso,
Ou ao que da ralé vem, 
Diz o vírus venenoso:
“Não descrimino ninguém.” 

Já deixou de ser chinês.
Tornou o mundo pequeno.
Não escolhe o freguês
P’ra vender o seu veneno.

Todos corremos perigo
Porque tudo é possível,
Já que este inimigo
Se espalha invisível.

Sofre a humanidade
Com pânico que avança
E sem dó nem piedade
Fere-nos a esperança.

Sabe-se lá onde está
A cura duma vacina...
Ou se nunca chegará
Milagre da medicina...

A nossa fé na ciência
E nas mentes mais brilhantes
Testa-nos a paciência
Hoje como nunca dantes.

Vemos lágrimas nos olhos,
Muitas vidas que se vão.
Vemos mágoas aos molhos,
Montes de consternação.

Mas pior é se não vemos
Nem temos nenhuma fé
E de tédio morremos
Sem sabermos porque é.

A morte que nos liberta 
Do sofrimento da vida,
Já sabe bem pela certa
Do horror à despedida.

Alguém deseja suspiros,
Debaixo duma aflição,
Atacados por um vírus 
Na sua respiração...?

Quem pergunta não ofende.
Faz-nos bem desabafar.
A gente só se entende 
Querendo comunicar.

E por muito que se fale,
Eu acho por bem dizer:
Que o vírus não nos cale.
Não o deixemos vencer. 

Muito mais que ofender,
Ele vem-nos massacrar
O nosso manso viver
Para sempre vai mudar.


Porque o medo avança
E a dor nos ameaça,
Acendamos esperança.
Apaguemos a desgraça.


Com tempo para pensar
A crise que se aguda...
(Compete-nos respeitar
Quem pesquisa e estuda
Para poder encontrar
A cura que tudo muda)
...Saibamos cooperar.
É essa a nossa ajuda.