Testemunho sobre meu tio João Guilherme Rego Arruda e o 25 de Abril de 1974

 

 

Venho por este meio prestar o meu testemunho sobre o meu tio João Guilherme Rego Arruda, em torno da sua vida e o 25 de Abril de 1974. Este será um testemunho indireto porque ainda não tinha nascido, só no ano seguinte. Mas será um testemunho muito verdadeiro e vivido através dos meus familiares e seus colegas e também através dos vários tipos de imprensa.

Com a revolução de 5 de Outubro de 1910, Portugal terminou um ciclo de centenas de anos como uma monarquia e iniciou uma nova forma de governo como nós conhecemos hoje em dia como República. Mas até 1976, nenhum português tinha o direito do voto, e isto só veio a ser possível através duma revolução transformadora, a Revolução de 25 de Abril de 1974. Mas nem todas as revoluções, basicamente nenhuma revolução, terminam sem sangue e perda de vida. E foi isto que no dia 25 de Abril de 1974 também acon­teceu. Mesmo sabendo que até ao presente ainda existem narrativas que nos falam de uma revolução sem sangue, talvez os cravos vermelhos os relembrem.  Mas isto nao é a realidade para os 5 falecidos na revo­lução de Abril, e muito dolorosamente não foi e não é a realidade da família e amigos de João Guilherme Rego Arruda, o único açoriano morto pela PIDE.

Nascido no dia 13 de janeiro de 1954, João Guilher­me Rego Arruda era um dos onze filhos de Eduardo Arruda e Jorgina da Conceição Rego Arruda, da fre­guesia de Santo António Além Capelas, em São Miguel. João e António Duarte, o mais velho dos filhos, eram os únicos rapazes que seriam dominados pelas suas nove irmãs. Era uma família pobre mas muito rica em inteligência e respeito. Isto viria a comprovar-se por todos os seus filhos e especialmente por João Guilherme.

Frequentou a escola primária em Santo António até completar a quarta classe. A sua professora, Fátima Ponte, bem o descreveu como um aluno diferente dos outros, com um brilho nos olhos, sempre com um olhar atento e pensativo ao mesmo tempo, que logo questionava o tópico que ela estava a lecionar para entrar em detalhes. Ele dominava todas as áreas de estudo e claramente se destacava de todas as outras crianças. Terminando a quarta classe, a professora Fátima dirigiu privadamente e explicou-lhe que para continuar a estudar como ele pretendia, e sabendo que a sua família nao tinha posses financeiras necessárias falou-lhe sobre o seminário. Ela explicou-lhe que “indo para o seminário não quer dizer que tens que ser padre mas se for para seres padre eu quero que sejas um bom padre”. Ela aconselhou-o a falar com a sua catequista, que queria ser padre. E logo depois João foi aceite no seminário com um percurso por São Vicente Ferreira, Ponta Delgada, Lisboa e com nove anos de idade transferido para Angra do Heroísmo. 

Mais uns anos se passaram, precisamente no dia 14 de outubro de 1965, a sua família recebe um notícia muito triste, que seu irmão António Duarte Rego Arruda tinha falecido. O António era um militar efecti­vo exercendo a sua especialidade de páraquedista, em Lisboa. A explicação que deram à família foi de que ele tinha falecido derivado a um acidente de comboio. A sua morte nunca foi bem explicada e isto era uma coisa que atormentava João Guilherme. Assim ficou determinado a descobrir a verdadeira razão da sua morte. 

Anos depois, João deu continuidade aos seus estu­dos, não como seminarista mas como estudante, fre­quentando a Universidade Católica Portuguesa, em Braga, onde foi um dos seus melhores alunos de Filo­sofía. Isto só foi possível através de bolsas de estudo por ser um aluno extraordinário. Enquanto estudava dava também os seus passeios e aventuras pela região, sempre em companhia dos seus dois grandes amigos universitários, Manuel Sá Couto e Luís Miúdo, que o descrevem como um estudioso, com uma atitude exploratória, curiosa e poder inteletual. Durante as férias escolares João tambem passou por França onde trabalhou numa fabrica de enchidos e não só…

Em 1973 sairia de Braga e dava continuade aos seus estudos, agora na Faculdade de Letras em Lisboa, frequentando o segundo ano do curso de Filosofía. En­quanto estudava tambem obteu emprego no Ministério de Educação Nacional em Lisboa. E agora com mais algum dinheiro, mandava-o para sua mãe em São Miguel para ajudar com o pagamento de sua casa. Também quanto podia mandava algum dinheiro para a sua irmã Esmeralda, que também estava a estudar. E até depois da sua morte, Esmeralda conta-nos que recebeu uma carta do João com 250 escudos. O seu pensamento era sempre em sua família, em querer melhorar sua situação… Ele adorava a sua família, especialmente as suas irmãs, que muitas vezes as referia como “as meninas” às mais jovens. Correspondeu-se muitas vezes com sua irmã Ana Maria, que se lembra muito bem dos seus domingos em que iam juntos para a missa, e também das suas conversas onde o João afirmava que “aos 40 anos já seria casado, advogado e professor”, um tempo que ela relembra com um sorriso.

Quando podia, regressava aos Açores para passar tempo com a família e também arbitrava os jogos de futebol em Santo Antonio, pois tinha também tirado o curso de árbitro no continente. João adorava futebol, o totobola, e frequentou vários jogos nacionais e europeus, segundo o seu diário onde anotava os prémios, resul­tados, e golos. Adorava o Benfica e o desporto em geral. 

João era uma pessoa em constante pensamento a ponderar sobre tudo que o rodeava. Estava a par dos problemas sociais e políticos, não só em Portugal mas também pelo mundo. Num verão chega a Santo Antó­nio com o seu cabelo longo, ao contrário da vontade da sua mãe, vestido com uma camisa clara com a foto the Che Guevara, uma das figuras principais na revolução Cubana, imprimida. Também era um fã de Martin Luther King, o grande líder dos direitos civis nos Estados Unidos, e possuia um dos seus livros. Era contagiado com um sonho de liberdade e democracia. Era defensor da igualdade e justiça. Lia muitos livros, alguns que trouxe de Franca, “livros vermelhos”, como dizia o seu amigo, o saudoso Manuel Sá Couto, livros esses que eram proibidos em Portugal. Livros e ma­gazines revolucionários e cartazes contra o governo. João não era filiado a nenhum partido político mas participava com um e com outro, quando era para “dar pancadaria no governo”, como ele dizia, relembra Sá Couto, que continua, revelando que João chegou a ser questionado pela PIDE, por ser apanhado a distribuir comunicados, mas olhando como “puto”, e porque era açoriano, não viram nele grande ameaça. Ele também nunca desistiu de chegar à verdade sobre a morte do seu irmão. Bateram em muitas portas mas sem res­posta, ao ponto de pensar transferir para o curso de Direito na Universidade de Lisboa, pois segundo ele “era mais fácil mudar a sociedade sendo advogado”.

João estava determinado em ver uma forma diferente de viver, de se poder expressar sem retaliação. De se poder chegar à verdade e poder fazer uma diferença no mundo que o rodeava.

Já em fins de fevereiro, os colegas viram-no obcecado com o livro “Portugal e o Futuro”, de Antonio Spínola. Levava-o para qualquer lado, escrevia cartas sobre o seu conteúdo e dava exemplares a amigos. “Deu-me e disse que a partir dali a revolução estava iminente”, afirma Sá Couto.

Ao rasgar a manhã do dia 25 de Abril, de 1974, João e vários colegas, com as aulas suspensas, deslocaram-se da sua residência, na Avenida Casal Ribeiro e junta­ram-se a uma corrente de manifestantes da liberdade pelas ruas. Chegou a ser captado através de filmagens da RTP com os braços cruzados, por detrás de militares esperando a rendição de Marcelo Caetano, o que aca­bara por acontecer ao final da tarde. Marcelo Caetano rendeu-se e o regime acabou. Ouviam-se gritos de feli­cidade e lágrimas nos rostos das pessoas, que excla­mavam “Portugal libertado”. João seguira com a massa de manifestantes composta por muitos estudantes, agora em direção à sede da PIDE, na Rua Antónia Maria Cardoso. Ao anoitecer, elementos da polícia política atiram novamente fogo para a multidão, causando de­zenas de feridos incluindo João. Um tiro atingiu-lhe na cabeça, foi levado de emergência para o hospital onde acabaria por falecer. Dias depois o seu corpo seguiu com honras militares para Santo António, onde descansa em eterna paz.

Finalmente acabaram anos de censura, fascismo e de ditadura. Portugal nasceu de novo derivado aos sacrifícios de muitos. Um povo sempre será maior do que um regime, mesmo que leve anos a derrotá-lo. O ser humano não foi feito para ser controlado, ditado, ou calado e João Guilherme viveu a sua vida a defender esta ideologia, como um dia escreveu num canto da toalha de mesa em sua casa, em Santo António: “Antes morrer livres do que em paz sujeitos”.

Viva para sempre tio! Viva a liberdade!

 

• Nuno Guilherme Arruda DaSilva