Protestos

 

 

As imagens da televisão mostrando a grande aglomeração de pessoas nas ruas das várias cidades protestando a morte do afro americano George Floyd, as barreiras policiais, clashes entre polícia e multidões e a presença da Guarda Nacional na rua, levou a nossa memória até 1970.
Há 50 anos que a Guarda Nacional atacou os estudantes indefesos no campus da Kent State University em Kent, no estado de Ohio. As cargas policiais, uso de gás lacrimogéneo, fugas desnorteadas, as guardas em perseguicao desnorteadas, disparos com balas reais contra  a multidão produziram quarto mortes e nove feridos. Os estudantes protestavam o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietname. E quando o governador do Ohio mandou a Guarda Nacional entrar nos campus criou-se essa tragédia que veio a mudar os EUA.
Uma fotografia espectacular de uma jovem ajoelhada na rua ao pé de um estudante morto (mais tarde veio a saber que a jovem era uma menina de 14 anos que tinha fugido de casa e veio juntar-se aos protestantes). Foi essa imagem que correu mundo e veio a tornar-se no símbolo contra a guerra do Vietnam. Mas foram todos os protestos da Academia que vieram a criar a “Silent Majority” (Maioria Silenciosa) que veio mais tarde a virar as eleições, desenvolver o conservativismo e mudar as eleições presidenciais.
As universidades invadidas pela polícia, apoiadas pela Guarda Nacional para controlar estudantes que protestavam a Guerra. Guarda Nacional e uma força militar que não está treinada nem preparada para ser polícia e lidar com multidões.
Nessa altura estava no último ano do liceu no Central High School em Bridgeport, estado de Connecticut (tinha chegado aos EUA há menos de 18 meses) e ainda estava a entender a cultura norte americana e a guerra do Vietname. Tinha chegado a esta região vindo de Chaves, uma cidade do norte de Portugal, sem todo esse movimento e crescido numa aldeia pequena do concelho de Montalegre. 
A Academia Portuguesa estava numa fase de luto e de protesto em 1968/1969 com as brigas com o então ministro da Educação e o chefe da Academia – Alberto Martins. Um período turbulento veio a ser bem descrito num livro de Alberto Martins publicado 50 anos depois – “Peço a Palavra –Coimbra 1969” publicado pela Verbo em 2019 que na última viagem a Portugal comprei e li.
Foi uma luta ingrata entre a Academia e o Estado Novo que este perdeu a longo prazo com o aparecimento do 25 de Abril, cinco anos depois. Academia perdeu a curto prazo com a invasão policial do meio académico e o cancelamento do adiamento militar de muitos dos chefes estudantes colocando-os na linha da frente da guerra colonial.
As cenas que hoje passam na televisão, os cartazes alegóricos ao tratamento dos pretos/castanhos pela polícia branca que vieram a desencadear uma onda de protestos em todos os estados da nação e nas cidades estrangeiras como já não se via há muitos anos, desde os anos 70’s.
Na década dos 90 passei uma semana em Minneapolis com um grupo de jovens de Wethersfield, onde estava incluído o meu filho, jogadores de futebol que foram participar na American Cup, um torneio de futebol e confraternização que atrai anualmente mais de 600 equipas vindas de todos os estados e de outros países, e uma grande fonte de dinheiro na economia. Ficámos hospedados nos dormitórios da Universidade de Minnesota, uma instituição académica com mais de 50.000 estudantes.  Estávamos no mês de julho, quente e húmido e além do futebol fomos fazer um passeio de barco navegar o Rio Mississippi, o segundo rio mais longo nos Estados Unidos com 2.348 milhas de extensão e que desagua no Golfo do México. Aproveitamos outro dia para visitar o Mall da America, o maior espaço comercial mall nos EUA e noutros tempos livres explorar esta cidade de 13 lagos. 
Minneapolis, no estado de Minnesota, uma cidade localizada no midwest americano, que cresce nas duas margens do Rio Mississippi que a divide. Tem uma população de cerca 340 mil habitantes e juntamente com Saint Paul criam a área metropolitana de “Twin Cities” (“Cidades Gemeas”) de 3.5 milhões pessoas e uma superfície de 59.45 milhas quadradas.
Foi nessa cidade, com um passado um tanto tumultuoso,  que as más ações de polícia branco mal treinado e com dezasete acusações, e observado por outros três, colocou o joelho no pescoço de George Floyd, um indivíduo que tinha cadastro e passou parte da sua vida na cadeia,  e aí o deixou durante mais de oito minutos até que o homem de 46 anos deixou de respirar e morreu. E acordou o mundo para a injustiça e o problema racial dos Estados Unidos, que vai ser debatido durante muitos anos, criou uma enorme destruição de propriedade e terá um enorme impacto económico. Mais um evento que trouxe uma vez a Guarda Nacional à rua e em “clash” com o público.

 

• Fernando Goncalves Rosa