Quis voltar.

 

 

Um dia quis voltar. Voltar para a minha mãe, para o seu colo, para o meu pai. Quis voltar para junto dos meus irmãos. Para a minha casa, para o meu quarto. Quis voltar a acordar na minha cama com o meu cão a lamber-me a cara e ansioso por me ver abrir os olhos. Quis voltar para junto daqueles que me tratam pelo meu primeiro nome ou me chamam pelo nome do meu pai. Quis voltar para aquela rotina inocente de todos os dias. Que nos cansa. E que me fez partir.

Quis ser outro homem. Fui outro homem.

O tempo passou. Quero voltar. Quero voltar à campa do meu pai. À casa da minha mãe. Acompanhá-la nos seus últimos dias. Quero estar com os meus irmãos. Ver fotografias antigas. Falarmos das brincadeiras de quando éramos pequenos e os nossos pais ainda eram jovens. Sempre as mesmas de cada vez que nos encontramos. Quero estar com os meus sobrinhos e ver neles quem fomos. Quero voltar para a minha cama. Encontrá-la como sempre foi. Pequena. Abrir o guarda-fato e ver as minhas antigas roupas. Mexer em papéis velhos perdidos na mesinha-da-cabeceira e encontrar memórias e aventuras proibidas. Nada está fora do seu lugar. Quero ver os fatos do meu pai. Sentir aquele odor adocicado das coisas antigas e da humidade que nos consome os ossos. A minha mãe não teve coragem de se desfazer deles. Quero abrir as gavetas e sentir o cheiro do passado e as histórias que revelam.

Quero ver a casota do meu cão. A coleira ainda está presa à corrente. Vazia. Vazia como aquela imensa casa onde a minha mãe passa os dias à espera de voltar a encontrar o meu pai. Dias longos à espera que eu lhe telefone.

Queria falar-lhe mais vezes. E dizer-lhe o quê? Que a vida não me corre bem. Que os sonhos se sumiram por entre os meus dedos? Que falhei? Ou então mentir-lhe. Contar-lhe histórias de sucesso e felicidade. Falar-lhe dos meus filhos. Dos seus netos. Dizer-lhe como estão uns homens e como têm a vida encarreirada. Ela ficaria feliz. Mentia-lhe.

Tenho saudades da sua voz. Da sua gargalhada espontânea e da forma simples como vê a vida. Tenho saudades da minha mãe.

Quero voltar para ouvir as pessoas chamarem-me pelo meu primeiro nome. Com aquela pronúncia que só as gentes da minha terra sabem fazer. Estou farto de ser um estrangeiro a fazer de conta que que sou americano. Como gostava de voltar a ser português. Com um nome português. Dito em português.

Das raras vezes que regresso, e têm sido cada vez mais raras, já poucos me reconhecem. Envelheci. Eles também. Perguntam-me de quem sou filho. “Tu não és…?” “Sim, sou!” “Estás para a América, não estás?” “já lá estou há trinta anos” “Por quanto tempo vais cá estar?” “Duas semanas” “Gostei de te ver. Manda visitas À tua mãe!”

Já não conheço muita gente. Passeio pelo cemitério. Recordo caras. Vidas. Histórias passadas. Estão todos ali. Amigos, familiares, conhecidos.

Quis voltar. E volto sempre. E sempre, naqueles quartos vazios, ouço a voz e as gargalhadas do meu pai. E sempre encontro a minha mãe. Mas sei que um dia, quando eu voltar, só restarão as suas vozes, as suas sombras, as suas roupas, os retratos na parede, a história das suas vidas…