Lembrei-me do meu avô

 

 

Por estes dias andará a rever o rol de clientes e a certificar-se de que ninguém ficou esquecido. De que ninguém se esqueceu. Cinco quilos de carne para alcatra para a senhora Inês... duas latas de banha para o senhor Alberto da tia Rita... as febras para a Sociedade Nova... as bifanas para a Sociedade Velha... a senhora Mariazinha do caminho de cima não tem aqui nada, esqueceu-se, mas deve ser o costume...
Nunca se esquecia de ninguém, nunca ninguém ficou por servir.
Boa tarde minha senhora! Tudo bem lá por casa? Cumprimentos à mãezinha... Não se esqueça dos bifinhos para os meninos!...
Tinha aquele jeito típico de quem nasceu, cresceu e aprendeu a trabalhar na Lisboa dos anos trinta do século passado. Nunca o perdeu. Uma Lisboa que, para ele, já não existia e que o deixava triste sempre que lá ia para visitar os irmãos e ver os sobrinhos.
Querem saber onde nasci? Olhem para a minha cara. Não se vê logo que tenho cara de anjinho?! 
Nasceu nos Anjos, na travessa do Forno do Tijolo. Lisboa corria-lhe nas veias. As Lajes enchiam-lhe o coração.
Falava-me da sua cidade. Dos tempos de menino. Os Anjos não tinham marcha, então, torciam e desfilavam pelo bairro da Graça, vizinho e amigo. 
“Cá vai a Graça toda engraçada, cá vai a Graça toda contente. Sempre fixe, sempre nova, sempre Graça, olaré, cai na graça de toda a gente...”
Quantas vezes ouvi esta melodia...
Era o Santo António, o Bairro Alto, Alfama, Mouraria, as varinas, as prostitutas do Intendente e a água-pé. Era percorrer as ruas de uma Lisboa antiga carregado de carne às costas, muitas vezes gelada, debaixo de chuva, desde o matadouro de Picoas até ao talho onde cortou os primeiros bifes.
Foi a morte de parto da mãe e a entrada dos irmãos para a Casa Pia de Lisboa onde aprenderiam o ofício de pintura em cerâmica e os levariam a ser pintores na fábrica de Santana.
Era a trisavó filha de um visconde e a força do seu carácter ao negar a este uma filiação tardia, mostrando-lhe de que fibra era feita.
Era o Fado. Era o São Martinho. Era o bacalhau com todos em véspera de Natal. Era a aletria. Era a sardinha assada. Era o caldo verde. Eram as corridas de toiros. Era Lisboa. Era o Tejo.
Qual a pata direita do cavalo de D. José?
Trouxe Lisboa consigo. Deu-nos Lisboa e deu-nos o seu fado.
Desde muito cedo comecei a ouvir cantar fado. Havia discos lá em casa. Ada de Castro. Fazia parte do cartaz deste ano do Festival Santa Casa Alfama. Infelizmente, o concerto da senhora foi cancelado à última hora. Tive pena. É a minha mais antiga memória da canção nacional.
Visitar esta Lisboa é sempre uma viagem às recordações mais sentidas do meu avô, aquelas que vivi através das suas histórias.
A capela de Nossa Senhora da Saúde. A rua do Capelão. A rua da Palma. A travessa do Benformoso.
Tenho saudades dele. Da sua energia positiva. Da sua vontade de viver. Da sua generosidade. Da sua capacidade em ajudar, em dar, em fazer o que fosse possível pelo próximo. Quem o conheceu não lhe ficou indiferente. Ainda hoje, à volta desta ilha, muitos são ainda os que o recordam. Muitos são os que se lembram das suas anedotas. Do seu bigodinho. Da sua gargalhada nervosa. Do seu cabelo branco.
Era Sportinguista e daria a vida pelo José Albino.
Com a aproximação de mais umas festas do Rosário é impossível não me lembrar dele e da azáfama que eram os seus preparativos e a dedicação que lhes dava.
Para o Senhor Vitor das Lajes, estas festas significavam tanto ou mais que o Santo António da sua Lisboa.
Quando amava, amava. Quando se ama, ama-se.