Os passos da cultura e da indústria do chá na ilha de São Miguel: De ontem a hoje (subsídios)

 

 

 

Porquê continuar o tema?

Porquê continuar a falar de chá se já defendi uma tese sobre chá em Janeiro deste ano, e publiquei parte substancial (actualizada) da tese em Julho? Que me resta propor agora?

Não sei se a resposta vos convencerá como a mim me convenceu, seja como for, aqui vai a resposta que me dei: uma História do Chá, na Ilha de São Miguel, não deve ficar por 1898, ano em que faleceu o seu grande mentor José do Canto. Continuando a puxar de argumentos para me autoconvencer, entendi que dever-se-ia entrar pela década de vinte do século seguinte até ao desaparecimento físico dos representantes activos da primeira geração do chá: José Bensaúde, Francisco Bettencout, Francisco Faria e Maia e outros pioneiros.

Onde encontro fundamento para alongar o século XIX, se balizei o meu trabalho no século XIX? Para alguns historiadores aquele século não termina em 1899. Encosto-me à linha de Historiadores como Eric Hobsbawn que postularam sobre ‘the long nineteenth century’ em obras tais como. The Age of Revolution: Europe 1789–1848 (1962); The Age of Capital: 1848–1875 (1975); and, The Age of Empire: 1875–1914 (1987). Acham que o século termina com o lavar dos cestos da I Guerra Mundial.  A ser assim, tenho as costas parcialmente quentes.

Mas, na perspectiva das vendas crescentes do chá da Ilha, coincidindo com o tempo da euforia económica no rescaldo da I Guerra Mundial, esta narrativa não pode terminar repentinamente na década de vinte. É útil, primeiro, seguir, ainda que em simples sobrevoo, a segunda geração, a que recebeu o testemunho directamente das mãos da primeira: Jaime Hintze, Amâncio Faria e Maia, Nicolau Maria Raposo do Amaral, Vasco Bensaúde. Como é igualmente útil, seguir, ainda mais em sobrevoo, o destino do chá de então até agora: do declínio à recuperação.

Outro pergunta que me fiz, antes mesma da anterior, antecipando as que me irão decerto fazer: Porquê o chá e não outro tema? Porque gosto e porque é algo que diz respeito à minha Ribeira Grande. Só? Não. Porque é bebida de quem quer que seja, homem, mulher, esteja em guerra ou em paz. E eu gosto de paz. Daí isso. E ainda pra me convencer mais, espiolhando estatísticas, mais me convenci. Vejam lá. Actualmente, entre as bebidas estimulantes não alcoólicas, tirando a água, em algumas estatísticas, o chá ocupa o primeiro lugar mundial.

Quem foram, em 2017, os 10 maiores produtores mundiais de chá? 1 - China; 2 - Índia; 3- Quénia; 4 – Ceilão; 5- Turquia; 6- Indonésia; 7 – Vietname; 8 – Japão; 9 – Irão; 10 – Argentina. Destes 10, 3, são obra da influência directa Britânica: Índia; Qénia e Ceilão; dois, influência directa Russa, Túrquia e Irão; outro, influência Holandesa, Indonésia; e ainda outro, influência Francesa, Vietname. A Argentina é o grande país de língua castelhana que produz chá. Dos, dez, apenas dois vêm do tempo anterior à chegada dos Impérios coloniais Europeus à Ásia.

E os 10 maiores países consumidores de chá em 2016? Foram: 1 - Turquia; 2- Irlanda; 3 - Reino Unido; 4- Rússia; 5- Marrocos; 6 – Nova Zelândia; 7 – Egipto; 8 - Polónia; 9- Japão; 10- Arábia Saudita.

E os 9 maiores países exportadores de chá? Em 2014: 1- Ceilão; 2- China; 3- Quénia; 4 – Índia; 5 – Alemanha; 6 – Polónia; 7 – Emiratos Árabes Unidos; 8 – Reino Unido; Indonésia. Quais são as 5 bebidas mais populares a nível mundial? São: água; refrigerantes; chá, cerveja e café. Refira-se que, além do Reino Unido que tem uma pequena plantação, a Alemanha, a Polónia, os Emiratos Árabes Unidos não produzem chá: são reexportadores.

Por continentes. África: Burundi, Uganda, Madagáscar, Camarões, África do Sul, Tanzânia, República Democrática do Congo, Etiópia, Quénia, Malawi, Maurícias, Zimbabué; América Central, Norte e Sul: Brasil, Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, Bolívia, Guatemala, Estados Unidos da América do Norte; Ásia: China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Ceilão, Tailândia, Tibete, Formosa, Vietname, Irão, Bangladesh, Malásia, Nepal, Rússia e outros países que fizeram parte da URSS, Turquia, Indonésia, Geórgia; Europa: Portugal (Açores), Itália, Reino Unido (produzido em estufas); Oceania: Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova-Guiné. Outra lista, além dos acima referidos, inclui: Azerbeijão, na Ásia, e Moçambique e Ruanda, em África.

Aviso último antes dos próximos: estes textos, a mim, como já me habituei e habituei quem me lê, seja em que tema for, servem-me de treino para apurar a escrita de textos finais, no caso presente, dos II e se calhar III volumes da História do Chá em São Miguel. Tentarei ser breve e evitarei ser aborrecido. Se não o conseguir, caso o jornal insista em o publicar, restam-vos uma safa: não ler.

 

PS: Nome Chá da Cesta? Podendo vir ao caso confundir, com razão, com sexta, dia em que vos é servido este texto, é da cesta que me foi primeiro servido ver, como via os pais camponeses dos meus condiscípulos da Escola Primária Central da Ribeira Grande acompanharem o chicharro assado com pimenta e fatia de pão de milho com goles de chá com leite e açúcar. Daí: Chá da Cesta.