Eça em Floripa

Sérgio da Costa Ramos jornalista e escritor, natural de Florianópolis (1947), Santa Catarina, Brasil. É membro da Academia Catarinense de Letras.

Para além da sua atividade jornalística (cronista durante 30 anos no Diário Catarinense), do conjunto de sua obra, destaca-se: Sorriso Meio Sacanas (1996), Costela de Adão – De um fiel às mulheres e a boa mesa (2007), Duas Violas Arteiras (2009 com Flávio Cardozo), Piloto de Bernúncia (2009) e “Molecagens Vernáculas” (2014) crónicas que apaixonam o leitor pela sua irreverência e estilo. As suas crónicas colocam constantemente o leitor perante personagens e situações do quotidianao com as quais qualquer ser humano, de qualquer parte do globo, se pode identificar. O seu domínio da língua portuguesa permite-lhe atrair o leitor para um universo íntimo numa atitude de total empatia.

 

 

 

Antigamente, a rua Conselheiro Mafra chamava-se “do Príncipe” -  bem ao gosto dos monarquistas. Mas a Felipe Schmidt, talvez para fazer o contraponto dos republicanos, chamou-se “do Senado”, sem que aqueles ilhéus imaginassem estar homenageando essa gente que hoje esconde dinheiro em meias e cuecas.

Em todo caso, era muito raro, naquele tempo, ocaso do século 19, uma rua levar o nome de batismo de algum político. E, para gáudio dos puxa-sacos, um político “vivo”. Assim como fizeram os deputados da Assembléia da Província, dando à Capital dos catarinenses o nome de seu maior algoz: [Cidade de Floriano]...

O simples é que é belo e as pessoas daquele tempo pareciam estar melhor informadas dessa circunstância. A Praça XV de Novembro nascera com o nome de  “Largo da Matriz”. A Saldanha Marinho era a “Rua das Rosas”. A Esteves Júnior atendia pelo nome singelo de “Formosa”, a Ferreira Lima, “Rua Mimosa”, a Pedro Ivo “Rua das Flores”, a Francisco Tolentino “Rua da Figueira” e a Bento Gonçalves era o “Beco do Segredo”.

Não era bonito? Pensando nesse bucolismo perdido, descia outro dia a Rua do Livramento (como um dia se chamou a Trajano) até a Felipe Schmidt (ou do Senado ou Moinhos de Vento).  Dobrei à esquerda, até chegar à esquina da Deodoro (ou do Ouvidor). Desci por esta até o Mercado, de onde pude divisar o renque de janelas e telhados limosos da Rua do Príncipe (a Conselheiro Mafra). A paisagem teve o condão de me remeter à velha Lisboa, com suas ruas e ruelas de nomes pitorescos, sonantes, como Rua dos Bacalhoeiros, dos Fanqueiros, Rua do Salitre, Rua da Alegria, Travessa do Quebra-Pentes, Beco do Arco Escuro, Rua dos Arameiros.

Fosse em Brasília, para designar ruas e associá-las ao exercício de “profissões”, seríamos obrigados a batizar a maioria das vias públicas com o nome de “Rua dos Trampolineiros” – não é verdade?

Ali, na nossa Rua do Príncipe, de costas para o Mercado e de frente para a Alfândega, tendo ao flanco esquerdo o “Hotel do Comércio”, pensei ter visto, num relance, escondendo-se atrás do [pincez-nez], o escritor de “Os Maias”, “O Primo Basílio” e “A Relíquia”. Ele mesmo. Mestre Eça. Teria o gênio da língua portuguesa se materializado na Ilha, depois de uma viagem pelo prisma do tempo?

Teria sido “punido” pelo governo português com o posto de Cônsul em Desterro, ele que fora diplomata na Corte de St. James, em Londres, na Corte de Napoleão, em Paris e, depois, Cônsul na própria velha Lutéce, à época de Flaubert e Zola?

Estaria o irreverente autor de “A Ilustre Casa de Ramires” admirando na antiga [Rua do Príncipe] a decadência da artéria que um dia vira passar, a pé, o próprio Imperador Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina?

Quis intervir, tietar, pedir um autógrafo, saber de sua opinião sobre este país das pizzas]e dos escândalos.

O autor do admirável conto “Singularidades de uma Rapariga Loira” olhava exatamente um exemplar desse belo tipo de mulher, quando lhe perguntei:

- O que fazer aqui na terrinha com esse pessoal que recolhe dinheiro em meias?

- Em peúgas? – espantou-se.

- Veja só o nobre escritor: os políticos daqui já estão escondendo dinheiro em peúgas...

Mestre Eça pareceu triste ao sentenciar:

- Parece-me que a cidadania desapareceu. Ficaram os bandidos. O Brasil parece destinado para a ditadura ou para a conquista.

Passava uma mulata cor de jambo e o mestre de “O Crime do Padre Amaro” pareceu ter-se deixado hipnotizar por aquela repentina aparição.

Tanto que saiu imediatamente atrás de uma das raras instituições que este país ainda tem de saudável e de bela...