Depois de muito TRUMP…icar, finalmente a queda

 

 

A ubiquidade dos grandes eventos mundiais permitida pelos meios de comunicação de hoje faz com que nada do que eu possa dizer sobre o 6 de Janeiro em Washington, DC constitua qualquer novidade para os leitores. Além disso, essa ubiquidade torna também desactualizado tudo o que eu escrever pois, mesmo com a promessa de publicação deste comentário nas próximas 24 horas, nada garante a sua actualidade quando este escrito vier a público. A velocidade dos eventos é de tal ordem que somos constantemente ultrapassados por novos acontecimentos.
O assalto ao Capitólio não resultou de actos irreflectidos explicáveis pela psicologia de massas. Há meses – na verdade, há anos! – que o Presidente Trump vem mantendo uma atitude irresponsável de incendiário das forças vis latentes na natureza humana. Elas sempre existiram no passado e permitiram tanto a Inquisição, como Auschwitz e Gulag, mas precisam de um líder para as acordar, mobilizar e dirigir. Foi isso que aconteceu. Não significa que o instigador, o promotor da sedícia, tenha previsto toda e cada uma das consequências, todavia um líder tem a obrigação de saber que as multidões, quando embaladas num processo que as envolve emocionalmente, são impelidas à prática de actos de selvajaria. Qualquer conhecedeor de um pouco de história sabe disso. 
Por isso, o ocorrido no Capitólio de Washington tem muitos culpados, é certo, contudo tem o seu cabeça, ainda que neste caso isso não signifique que a pessoa em causa a tenha, ou pelo menos que a tenha no seu lugar: Donald Trump.
Trump agiu sempre como um monarca, senhor de um poder absoluto em total desrespeito pela Constituição que deixou bem explícita a existência deuma trindade de poderes equivalentes – o Executivo, o Legislativo e o Judicial.
Trump achou que do Executivo se encarregava ele, preenchendo os lugares do seu Gabinete com carneiros dóceis meros executantes dos seus desejos. Quanto ao Judicial, o plano foi encher os tribunais de mais ovelhas obedientes às suas ordens. Pelo menos era essa a expectativa. O caso mais bicudo era o Legislativo, daí o recurso ao assalto, baldadas todas as outras tentativas de golpe. O quarto poder, que não vem referido na Constituição, o dos meios de comunicação social, esse estava há muito resolvido: tudo o que os média do contra diziam era fake news. Nada de novo aqui, diga-se. Qualquer ditador usou idêntica estratégia, simplesmente nenhum se havia ainda lembrado de criar esse labéu.
Surpresa o que aconteceu? Na verdade ela só pode sê-lo para quem não observou atentamente o comportamento de Trump ao longo destes anos. Os dados estavam todos disponíveis: na TV, nas redes sociais, na imprensa tradicionalmente séria, bem como nos muitos livros escritos por antigos colaboradores directos de Trump, vários deles inicialmente seus apoiantes incondicionais. 
Trump estava convencido de que podia esticar a corda até onde lhe desse a real gana, pois nada lhe aconteceria. Ele próprio o declarou: Posso matar alguém na 5ª Avenida que nada me acontecerá. Felizmente a corda rebentou, deixando patente a quem tem olhos de ver que afinal não se tratava de fake news. 
Trump enganou-se, feliz e finalmente. O poder Judicial, um dos três poderes, manteve-se independente, tal como o Legislativo. O Judicial não cedeu, nem mesmo com os juízes nomeados por ele. O Legislativo, pelo menos grande parte dele, ao sentir-se invadido, violado, sentiu a sério o perigo e reagiu com veemência. 
Não haverá tempo suficiente para desencadear um processo legal de destituição e nem sequer para a invocação da 25ª Emenda. Mas há que demarcar posições. E sobretudo controlar os possíveis danos que daqui até 20 de Janeiro Trump pode desencadear. Importa incapacitá-lo de provocar  catástrofes maiores.
Só 30 horas depois Trump veio a público condenar a violência, quando ele passou horas diante do televisor a seguir os acontecimentos em directo resistindo às pressões dos que lhe exigiam uma intervenção determinante. Dois mil anos depois a cena repetiu-se: Roma a arder e Nero à distância deliciado a contemplar o cenário. E mesmo assim Trump ainda persiste renitente afirmando uma vitória retumbante nas eleições que lhe foram roubadas. 60 tribunais estão errados, os governantes do seu próprio partido responsáveis pelo sistema eleitoral estão errados, só ele, sempre sem nunca apresentar provas, conhece a verdade dos factos. Basta-lhe não querer aceitar uma determinada realidade para declará-la falsa. Fernando Pessoa dizia: A vida é assim, mas não concordo. Na boca de um poeta, a frase tem a sua graça. Na pessoa de um Presidente dos EUA essa atitude conduz a tragédia.
Trump foi sempre Trump. E sê-lo-á, porque ele não vai desaparecer da cena. As democracias é que têm de se pôr a pau e depressa para que as cenas do 6 de Janeiro não voltem a repetir-se na América nem noutros lugares do mundo.
Ainda há dias andávamos a desejar uns aos outros um bom Ano Novo. Afinal, ele continua igual ao anterior. Que nos surja a luz no fundo do túnel e que.... não seja o comboio.