Eleições nos EUA: O imbróglio da contagem dos votos

 

 

Sempre houve votação pelo correio para americanos a residir  no estrangeiro e militares em serviço fora do país, bem como incapacitados físicos.
Há vários meses, toda a gente recebeu cartas pelo correio do Board of Elections do Estado (no meu caso, Rhode Island) oferecendo a oportunidade de solicitar votação por correspondência. Minha mulher e eu optámos por aproveitar, pois isso evitaria termos de esperar em filas no dia das eleições, correndo riscos de exposição ao Covid-19. Preenchemos o formulário e remetemos pelo correio. 
Semanas depois, chegou uma carta para cada um de nós com o Boletim de Voto. As instruções indicavam que ele devia ser remetido selado no envelope, para o efeito também incluído, que, por sua vez, deveria ser colocado dentro de outro (igualmente fornecido no pacote) com uma folha que deveria levar o nosso endereço e assinatura, a fim de poder ser tudo conferido com o nosso Registo de Eleitor arquivado no Estado. Só depois disso o envelope com o voto fechado seria colocado nas urnas. O importante é a carta receber o carimbo do correio até às 20 horas do dia das eleições (é normal estações de correio estarem abertas em dias úteis até às 23h). 
Todo o processo é controlado por equipas bi-partidárias que fazem parte do Board of Elections. Cada envelope é aberto diante de equipas dos dois partidos.
Como o partido Democrata tem bastante mais eleitores com instrução superior à média, foi elevado o número dos que preferiram esse mais complicado processo. É por isso também que, como estes votos são os últimos a ser contabilizados, pois só podem ser abertos no dia das eleições, a soma total a favor de Biden tem vindo a crescer. 
Trump, consciente da preferência dos democratas por esse nodo de votação, há muitos meses nomeou uma pessoa da sua confiança para a Direcção dos Correios. Seguiram-se despedimentos de funcionários e mandatos de eliminação de muitos marcos de correio há décadas espalhados pelo país. Daí que, nos últimos tempos, o correio esteja a demorar imenso. Semanas e às vezes meses (e eu disso tive inúmeras provas). 
A contagem desses votos sempre demorou, continuando nos dias a seguir às eleições. Só que, porque no passado nunca eram muitos, normalmente não afectavam o cômputo geral. Desta vez, o volume é enorme. Compreende-se assim que Trump tenha insistido tanto em terminar a contagem dos votos no dia das eleições, o que nunca acontecera.
As queixa dos Republicanos sobre ilegalidades têm sido divugadas sem apresentação de provas. Mas há-as também de Democratas. Nem tudo é perfeito, todavia não parece existirem razões de suspeita de ilegalidades organizadas, ou sistémicas.
Trump na campanha eleitoral de 2016 fartou-se de proclamar, que elas estavam a ser aldrabadas. Porque ganhou, calou-se. Agora de novo há muito vem repetindo a cantilena. Faz parte da sua estratégia. Age assim em tudo o mais. Repete insistentemente apenas o que lhe convém, sem nenhum respeito pela verdade.
No discurso que proferiu esta quinta-feira à noite na Casa Branca, ao fim de alguns minutos os canais principais de TV (NBC, CBS e ABC) decidiram interromper a transmissão, explicando preto no branco que era sua obrigação não colaborar naquele louco desfilar de mentiras e insultos ao sistema, que ao fim e ao cabo foi montado e é controlado tanto por Democratas como por Republicanos.
Mas é este o comportamento do actual ocupante da Casa Branca, que se arroga ao direito de fazer o que nenhum presidente até aqui ousou ou sequer sonhou. Tanto de um partido como do outro, todos os candidatos tiveram sempre a preocupação de exibir um ar digno, um saber perder, por respeito à dignidade do cargo. Tudo, aliás, o que tem sido posto borda fora nestes últimos quatro anos.