Octávio H. Ribeiro de Medeiros - homenagem de um colega de carteira

 

A comunicação social noticiou com relevo o falecimento do Padre Octávio Henrique Ribeiro de Medeiros. Depois de dois textos publicados na imprensa e amplamente divulgados na redes sociais, o “In Memoriam” do Professor José Luís Brandão da Luz (seu patrício povoacense, amigo de muitas décadas e parceiro de almoço semanal) e o “Testamento” do próprio Padre Octávio, está feito para a memória pública o justo retrato de um grande homem. Todavia não faz mal repetir as laudas e insistir nos valores praticados no quotidiano desse ser humano de caráter feito de dura fibra e desarmante simplicidade. Como amigo de seis décadas não me sentiria em paz comigo se não viesse a público lembrá-lo, juntando-me ao coro dos que já o recordaram com admiração e estima. 
Perdi um grande companheiro de jornada feito nos tempos do seminário, durante muitos anos meu colega de carteira (as cadernetas seguiam o primeiro nome e éramos os últimos dois do curso: Octávio, Onésimo). Seguiu um rumo diferente do meu. Foi padre, trabalhou em Angola, depois regressou e doutorou-se em Sociologia em Roma, indo de seguida lecionar para a Universidade dos Açores, onde ao longo de décadas criou muitas amizades e ganhou profunda estima entre colegas, alunos e funcionários. Trabalhador incansável, cheio de garra, era amigo dos amigos e desprendia-se em extraordinária generosidade.
Contar o pequeno facto que vou descrever poderá parecer indiscrição ou até presunção da minha parte, mas creio que o P.e Octávio aprovaria esta minha pequena revelação. Depois da escola primária, ele foi trabalhar no campo durante três anos e essa experiência, que sempre lhe ouvi referir como tendo sido uma fundamental etapa formativa, fê-lo perder contato com os livros numa altura importante do seu crescimento, acabando por tornar-lhe algo duros os primeiros anos de regresso aos bancos das aulas. Lutador e trabalhador incansável, porém, estudava sempre afincadamente. Em testes e exames, várias vezes tentei proporcionar-lhe um piscar o olho às minhas respostas, mas ele nunca aceitou. Recusou sempre com elegante finura. Preferia ter uma nota menos boa a sujar-se copiando de um colega. 
Apanhei uma lição que jamais esqueci e fiquei desde esse tempo a admirar o seu caráter.
Em poucos anos recuperou do seu interregno escolar e fez-se um académico senhor de uma escrita em linguagem escorreita e impecável, como poderá testemunhar quem se dispuser a ler os muitos livros que publicou. Mais de uma vez cheguei a enviar-lhe textos meus sobre temas que lhe interessavam pedindo-lhe que, por estarem ainda em fase de elaboração, fizesse as sugestões e correções que entendesse. Mais de uma vez também achei as suas reações também de pertinência bastante para lhe registar um agradecimento especial no início do livro (veja-se, por exemplo, o meu De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias, 2009).
A sua atividade académica foi já devidamente sintetizada pelo Professor Brandão da Luz. Padres colegas seus têm posto em relevo a sua denodada atividade pastoral. As gentes da Povoação e da Água Retorta, comunidades que ele serviu na etapa final da sua vida, creio reverão na frase de Ângelo Bento Melo, seu fiel amigo e colaborador povoacense, que retiro de um e-mail dele recebido: “A verdade é que era uma pessoa simples; vaidade e orgulho eram coisas de que não comungava, e quis um funeral com toda a simplicidade. Era dono de uma tolerância do tamanho do Mundo, um Homem que serviu sem se servir, um coração nobre”. Por isso, aqui eu queria apenas registar o seu lado humano, a sua comunicativa alegria de viver, o seu “sorriso nos olhos”, como disse o André que, passados tantos anos a viver no Texas, ainda tem vivas e saudosas lembranças dele porque, sendo filho do Prof. José Francisco Costa, como eu colega de curso e amigo do Octávio, com ele conviveu quando acompanhava os pais. 
Num encontro de amigos aqui na diáspora combinado em subtituição da nossa impossibilitada presença no funeral, apeteceu-me arremedar o “Tal como te prometi” que ele adorava cantar em solo quando lhe pedíamos nas seroadas e cantatas entre amigos. Fazia-o com uma emoção capaz de ombrear com qualquer mariachi da praça Garibaldi, no México, país de onde essa canção proveio.
Outra experiência pessoal definidora do seu modo de ser foi o facto de várias vezes lhe ter oferecido a minha casa para vir passar umas semanas a descansar um pouco do seu frenético quotidiano de trabalho, fora das intensas lidas em que sempre estava envolvido. Sugeria-lhe que, como não sabia estar sem fazer nada, poderia ler e escrever na biblioteca da minha universidade. Impossível. Tinha uma irmã com problemas de saúde crónicos e, falecidos os pais, assumiu de imediato a responsabilidade de cuidar dela, compromisso que durou muitos e longos anos. Nunca saía da ilha.
Generoso sempre, trabalhador incansável e irrequieto, não sabia descansar.  Amigo a sério, transbordava dele uma contagiante alegria de viver. 
Não preciso de apostar que lhe vão fazer ainda mais homenagens. Todas as que promoverem não serão de mais. Serão, sem dúvida, mais do que merecidas.
Na minha memória guardarei o seu exemplo. Mas, para mim, visitar a Povoação nunca voltará a ser o mesmo.