Um olhar sobre Guardadores de Memórias - II

 

 

Começarei por ler um pequeno texto que escrevi por solicitação do Roberto Rodrigues para a segunda edição do primeiro volume de Guardadores de Memórias, pois ao fazê-lo estava informado de que ele já tinha entre mãos este segundo volume. Por isso avancei sobre ele um palpite:
Cada uma destas estórias é parte de um mosaico, com a particularidade de cada qual constituir uma peça individual completa, mas que adiciona algo ao conjunto, contribuindo para formar um painel complexo e rico. Podem ser lidas uma a uma, e a ordem de leitura é arbitrária. Todavia, no seu todo, compõem um retrato global de um microcosmo, especificamente de uma comunidade rural de S. Miguel, num tempo que hoje parece ultra remoto. E é de facto, sendo do milénio passado, só que existia há apenas cinquenta anos e dessa época restam-nos ainda abundantes testemunhas.
Com um olhar perspicaz, mas também senhor de um ouvido atento (até porque parte considerável destas narrativas foi ouvida e não directamente observada), o autor captou relatos enxutos de supérfluos, embora de modo nenhum secos; por sinal até suculentos qb. 
Aos jovens de hoje, muitos hão-de parecer invenção, contos da carochinha de outras eras, pois custar-lhes-á a crer que o mundo dos seus pais (não apenas dos seus avós) fosse assim. Se, todavia, lerem atentamente, não lhes poderá escapar a força dos valores - nem todos eles retrógrados - que dominavam aquele pequeno mundo. E não faltava nunca sagacidade, esperteza, finura ou humor, marcas profusamente reveladas.
Aqui entre nós, dá para perguntar: mas na Maia havia assim tantos e tão bons episódios dignos de nota? É que eu começo a duvidar se o contador em que o Roberto Rodrigues inesperadamente se tornou não terá entrado mesmo em imaginosa efabulação, pondo-se a inventar como autêntico ficcionista encartado.
Estas estórias não devem ser lidas de enfiada. Nanja porque não apeteça fazê-lo, mas por ser um desperdício dar-se cabo delas num ápice, como se de um romance se tratasse. Elas são para consumir em pequenas doses, tal como uma boa sobremesa deve saborear-se aos poucos. Uma ou duas de cada vez. Assim, duram muito mais tempo e dá para apreciá-las melhor. Seguindo um termo muito usado no tempo em que decorrem, e que, aliás, o Roberto refere muitas vezes, seria talvez melhor reformular a imagem de sobremesa. Diga-se antes que devemos condutá-las. Quer dizer, lê-las como naqueles anos se comia o chamado conduto.
Como suspeitei ao escrever a nota, aqui reproduzida, para a reedição do 1º volume, esta sequência já não é propriamente um livro de estórias. Seria de facto impossível haver tantas na Maia. O autor tem no ouvido a música do linguajar das gentes do seu tempo e recria conversas sobre situações, problemas e assuntos. É óbvio que não pode estar a  reconstituir fielmente o que ouviu, no entanto as conversas soam tão realistas que chega a parecer terem sido gravadas. O que ele prodigiosamente guardou na memória foi o léxico, as expressões linguísticas e, o que não é menos importante, a autenticidade do tom e do conteúdo das conversas, pois elas captam com fidelidade o pensar e o sentir das pessoas anónimas de uma freguesia micaelense daqueles duros anos.
Sobre a autenticidade da linguagem e dos sentimentos expressos, voltamos a ter neste volume a novidade iniciada no primeiro: a sequência de testemunhos dos leitores das estórias ou os diálogos escritos após a sua leitura aquando da sua primeira publicação na Internet. O consenso é notável. E os intervenientes são, na sua grande maioria, da Maia ou de outras freguesias micaelenses. Num caso específico em que o autor se aventura por mares nunca dantes navegados na escrita açoriana – o quarto de cama de um casal – os comentários dos leitores atingem um total de dez páginas. Esse caso, aliás, é bem prova de que o Roberto criou uma cena todavia servindo-se rigorosamente da liguagem e mentalidade do tempo e daquilo que aqui e ali fora ouvindo. Trata-se, na verdade, de um momento alto do livro em que o autor confirma a sua qualidade de escritor. Ela vem, aliás, claramente revelada nas introduções aos diálogos. Só que estes são tão vivos que nos fazem esquecer a escorreiteza dessas introduções pela voz do autor ele-próprio. Todavia há estórias em que ele se torna de algum modo mais presente, abordando temáticas que o incluem e o tocam de perto. Estou a lembrar-me, por exemplo, de “Não sou de lugar nenhum” (sobre os que emigram – incluindo os que foram para o Continente), ou “Fechar a porta”, uma magnífica reflexão sobre o sentido da vida.
Abro um parênteses para registar uma dúvida minha. Julgava que naquele tempo os preços das mercadorias básicas eram fixados pelo governo. No meu Pico da Pedra, por anos a fio um quilo de açúcar custava 8$80. Ou na Maia era mais barato (o Roberto regista 8$20), ou esse é o único momento em que a memória lhe pode ter falhado. Houve outros casos pontuais em que a minha memória reagiu, contudo trata-se certamente de diferenças regionais no linguajar. Por exemplo, ele escreve sempre “nu’as arages” – expressão que significa “num ápice” – enquanto no Pico da Pedra sempre ouvi  “nu’a arage”.
Impossível não fazer referência ao uso da linguagem micaelense, elemento fulcral e definitivo na recriação de momentos de autenticidade ao longo destas páginas. Creio que não há como sair daqui: o autor optou por continuar a postura assumida no primeiro volume transcrevendo o micaelense. A edição esgotou-se, o que prova a existência de leitores para ela. Há, entre os comentadores na Internet, casos de fãs desta escrita que, não sendo micaelenses, entraram dentro do código da transcrição fonética e agora sentem-se à vontade na leitura. Desconheço a extensão desse fenómeno. Tenho outra experiência recente, a do portentoso livro Olifáque, do físico João Magueijo, que insistiu em reproduzir foneticamente o linguajar de emigrantes continentais em Toronto. Mesmo tendo sido instado a abrandar significativamente o rigor, ainda manteve o bastante para tornar a leitura algo cansativa segundo a opinião de vários leitores. 
São opções. No presente caso, será impossível não reconhecer que o número de fãs da transcrição rigorosa da linguagem e pronúncia da Maia é considerável.
Pessoalmente, tenho alguma satisfação indirecta nessa moderna atitude. No meu livro (Sapa)teia Americana, de 1983, incluí um conto intitulado “Manifesto pela libertação do micaelense”,  onde abordo a questão da pronúncia desta ilha, que tem constituído problema (em alguns casos, trauma mesmo) para alguns dos que têm de conviver regularmente com outros lusofalantes. São muitos os casos que conheci entre emigrantes nos EUA e Canadá, mas também ouvi não poucos relatos a estudantes no Continente e a soldados que lá fizeram tropa. 
Meia-dúzia de anos antes da publicação desse conto, fui altamente criticado quando na Nova Inglaterra levámos à cena a minha peça Ah! Mónim dum Corisco! (até então essa palavra nunca se escrevia) porque os actores usavam o micaelense. As críticas foram mais violentas quando em 1978 publiquei essa peça em livro. Lembro-me de uma verrinosa censura n’O Jornal de Fall River. A acusação fundamental era a de estarmos a escarnecer da nossa gente. Hoje, em Fall River, os Portuguese Kids fazem-no de maneira bem mais escabrosa e divulgam as suas rábulas na Internet, visualizadas no mundo inteiro porque em grande parte são em inglês (o micaelense é apenas intrometido na linguagem e no seu sotaque inglês). E no entanto a aclamação é geral. 
Há de facto algo de novo, libertador mesmo, que é digno de ser registado. A nova geração micaelense exibe, em geral, uma desinibida atitude relativamente ao sotaque da sua ilha usando-o descomplexadamente. O que não significa que a questão esteja resolvida. Por um lado, há que reconhecer a existência de um imperialismo português do sotaque. (Saramago  afirmou-o a um brasileiro: “a língua é  minha o sotaque é seu!”) Por outro lado, importa reconhecer também que libertar o sotaque não significa permitirem-se erros gramaticais. As consequências existem e não serve de nada ignorá-las.
Perdoem-me esta divagação pessoal. Nada dela tem directamente a ver com o presente livro. Ele simplesmente regista essa fala como nunca até aqui alguém havia ousado. E isso torna-o, além de tudo o mais, um importante documento linguístico.
Em suma: estamos em presença de uma obra ricamente multifacetada, poligonal e de impossível classificação. No entanto, o pormenor da dificuldade de catalogação num género único não deve preocupar-nos. Pelo menos não me preocupa a mim, pois na verdade escrevo ensaios que às vezes parecem crónicas e também crónicas curtas que me dizem parecer ensaios; rabisco notas a que chamo “diacrónicas” porque têm marcas de diário, e até escrevo “prosemas”. Portanto, serei a última pessoa a preocupar-me com a dificuldade em colocar este livro numa categoria única, por possuir marcas de etnologia, antropologia, sociologia, linguística, bem como de escrita de memórias. Gosto da tradicional classificação de “casos”, que o João de Melo sugere no prefácio, contudo parece-me que isso se aplica mais ao primeiro volume. Aqui neste, há casos, há estórias, há contos, mas há também muita criação literária e por isso há que considerá-lo também uma peça de literatura.
Como quer que queiramos classificar as estórias contadas, o autor decidiu dar ao seu conjunto o título de “guardadores de memórias”. Pensando bem, as personagens são-no às vezes, quando contam estórias; todavia ele, autor, é que é o grande guardador de memórias, e por isso o título deveria escrever-se no singular, assim em jeito de cognome do autor.
O universo das letras açorianas está mais rico e diversificado. Da advocacia, surgiu-nos um escritor com um registo inovador e singular. O Daniel de Sá, de saudosa memória, deve ter inspirado este seu patrício e familiar, que entretanto se pôs a caminhar pelo seu próprio pé e agora, com este volume, se lançou definitivamente no domínio da criação literária.
E, pelo andar da carruagem, a procissão ainda vai no adro.