A Eduardo Mayone Dias, um adeus saudoso

 

 

Eduardo Mayone Dias deixou-nos. Na verdade, há muito que praticamente se tinha fechado para o mundo que o rodeava, pois atravessou um prolongado período em que a ele acedíamos apenas através de breves mensagens escritas em letras garrafais para lhe serem legíveis. Nos últimos tempos, nem mesmo isso era possível. Por isso a hora já era há muito esperada. Todavia não deixa de ser um momento triste este da partida de um excelente amigo e uma grande figura do mundo luso-americano, que muitas vezes apareceu nas páginas do Portuguese Times com valiosa colaboração, escrita sempre num português vernáculo elegante e direto, fluente e salpicado de humor.
Natural de Lisboa (1927), o seu percurso de vida levou-o ao México e depois à Califórnia, onde viveu a maior parte da sua vida, lecionando na Universidade da Califórnia Los Angeles. 
Desde cedo, envolveu-se nas comunidades portuguesas do Estado, que frequentemente o convidavam para falar em eventos culturais e educacionais. Em muitas dessas ocasiões, fez palestras e conferências sobre temas luso-americanos que mais tarde deram origem a livros, hoje indispensáveis fontes para quem se interessa pela história luso-americana. 
É longa a sua lista bibliográfica e aqui apenas referirei alguns títulos mais significativos, a começar com a sua tese de doutoramento – Menéndez y Pelayo e a Literatura Portuguesa (Coimbra, 1975). Entre os seus livros sobre a experiência luso-americana, contam-se Escritas de Além-Atlântico (Lisboa, 1993); as antologias Cantares de Além-Mar - uma colectânea de poesia vivencial popular de emigrantes portugueses nos Estados Unidos (Coimbra, 1982) e 100 Anos de Poesia Portuguesa na Califórnia (Porto, 1986); o volume de entrevistas Açorianos na Califórnia (Angra do Heroísmo, 1982); as crónicas O Meu Portugal Antigo e Distante (Rumford, RI, 1997); e Crónicas da Diáspora (Lisboa, 1992). Os seus mais frequentemente citados livros são Falares Emigreses – uma abordagem ao seu estudo (Lisboa, 1989) e Crónicas das Américas (Lisboa, 1981) e Novas Crónicas das Américas (Baden, Suíça,  1986), que tive o especial prazer de reunir mais tarde num só volume – Crónicas Americanas (Guimarães, 2013), integrado na coleção Rio Atlântico, que eu então dirigia na editora Opera Omnia. Impossível também esquecer uma outra obra de caráter didático, durante muitos anos usada no ensino de língua portuguesa em escolas secundárias e universidades, Portugal – Língua e Cultura (Los Angeles, 1977), em co-autoria com Thomas A. Lanthrop e Joseph G. Rosa. O seu livro A Presença Portuguesa na Califórnia (Rumford, RI, 2002) foi publicado em tradução inglesa em San José com o título The Portuguese Presence in California (2009). Guardei para fechar esta seleção a sua autobiografia – Memórias de um Burocrata Invisível (Autobiografia e Algo Mais), publicada em San José pela Portuguese Heritage Publications of California em 2017.
A comunidade portuguesa da Califórnia sempre o teve em alta estima e várias vezes o homenageou. Sentiu a sua frequente presença em inúmeras iniciativas comunitárias como uma genuína vontade da parte do professor de se envolver, de conhecer, de estimular e de se identificar como parte dela. Neste lado leste do continente norte-americano, o Professor Eduardo Mayone Dias teve também um grupo de amigos e admiradores que mais do que uma vez o trouxeram para eventos de diversa ordem. Em 1999, a revista Gávea-Brown, da Universidade de Brown, dedicou-lhe um número especial de homenagem - Ecos de uma Viagem – Em honra de Eduardo Mayone Dias - coordenado pelo Professor Francisco Fagundes, da Universidade de Massachusetts, um dos seus mais prestigiosos antigos alunos.
Por trás do autor de uma obra vasta e multifacetada, esteve sempre o professor empenhado no máximo desenvolvimento dos discípulos a seu cargo, tendo-se tornando mentor de muitos deles. Esteve também – e insisto nessa faceta já atrás referida – o cidadão identificado com as comunidades emigrante e luso-americana, sobretudo na Califórnia.  Tanto assim que ainda não falta quem pense que Eduardo Mayone Dias era açoriano, tal o seu envolvimento nas iniciativas das comunidades açor-americanas, como a temática abordada nos seus livros e inúmeros artigos demonstra. Ele sorria quando notava a confusão, contudo nunca corrigia. Não por querer fazer-se passar por açoriano, mas por sentir esse equívoco como um elogio: as comunidades sentiam-no como seu. 
Na verdade, era superior a finura do seu trato. Quem privou com ele de perto e teve a sorte de ser seu amigo, sabe bem como era Mayone Dias alguém especial. O seu porte, sempre muito digno, poderia à primeira vista deixar supor que por trás dele estava alguém distante. Nada menos errado, porém. A sua humanidade assomava naturalmente no relacionamento com as pessoas ao seu redor, e um leve toque de humor suavizava-lhe a presença. Poderia narrar aqui muitas histórias reais reveladoras do seu fino espírito, com frequência recontadas pelos amigos quando o nome vem dele à baila.
As suas “crónicas americanas” são um inegualável exemplo de como Mayone Dias entendeu o âmago da cultura americana. Mesmo sem nunca se identificar em pleno com ela, pois já chegou bastante adulto aos Estados Unidos, entendia-a profundamente, e por isso relevava-lhe aspetos que olhares menos empáticos criticavam, mas que ele, com uma notável dose de bonomia, aceitava compreensiva e tolerantemente.  Se alguém desconhecedor da obra de Eduardo Mayone Dias me perguntasse por onde deveria começar a lê-lo, eu não hesitaria em recomendar essas mesmas crónicas. Já o fiz muitas vezes e, em todas, a reação que recebi foi sempre do teor: Muito obrigado por me ter chamado a atenção para esses escritos.
Por absoluta coincidência, poucas horas depois de receber a notícia do seu falecimento, chegava-me da Universidade de Macau a notícia da defesa de uma tese de doutoramento sobre as suas crónicas, defendida pela chinesa Shuxiang Cao (o seu nome ocidental é Viviana). A tese, orientada pela Professora Dora Gago, Diretora do Departamento de Estudos Portugueses daquela universidade, é um bom indício do legado que Mayone Dias deixa atrás de si, pois certamente outros estudos virão.
A perda de uma figura como o Professor Eduardo Mayone Dias é significativa, mas a sua memória permanecerá naqueles que com ele lidaram de perto e, depois de esses desaparecerem também, sobreviverá indubitavelmente nos seus livros. O momento não é para graças, todavia quem conheceu o Professor sabe que ele sorriria se me ouvisse lembrar uma história definidora do seu estilo de ser. Um dia, num evento algures, sentou-se numa cadeira que lhe pareceu disponível. Alguém chegou junto dele para avisá-lo: Desculpe, mas esse lugar está ocupado. Sem o menor sinal de perturbação e sem perder a sua inconfundível compostura, Mayone Dias perguntou: Importa-se de me informar em cima de quem é que eu estou sentado?
O desaparecimento de um homem deste calibre é, sem dúvida, um empobrecimento para quem deixa de usufruir do seu convívio.