Ponta Delgada Capital Europeia da Cultura 2027 – um pacote de razões justificativas de uma candidatura

 

Sou do tempo em que Ponta Delgada era um burgo provinciano insularizado e recheado de preconceitos e receios. Ainda há poucos meses escrevi sobre a minha cidade dos idos anos sessenta num volume da série Avenida Marginal (III), editado pela Artes e Letras (Livraria Solmar) e recebi alguns comentários de nativos ofendidos. No fundo admitiam a verdade do retrato, mas nestas coisas há sempre aquela atitude ancestral: misérias da família não se publicitam. Só que naquele tempo Ponta Delgada era mesmo a cidade psicologicamente cinzenta que o escritor Dias de Melo gravou em título de um livro de crónicas.
Passados sessenta anos, porém, o burgo transformou-se. Ganhou cor, energia, sons estrangeiros nas ruas, restaurantes e bares alegres, energia nas praças e ruas do centro histórico, e uma atividade cultural de fazer inveja a qualquer outra cidade portuguesa da sua estatura. Há dias, um amigo coimbrão dizia-me ser ela hoje só comparável a Lisboa e Porto. Claro que, se fizermos as devidas ressalvas proporcionais comparando a dimensão populacional, o Porto ainda vai beber um porto ali para a fila de trás.
Tenho experienciado esta nova Ponta Delgada que se reinventou. Por exemplo, assisti a quatro das seis noites de música do 10º Festival Música no Colégio, naquele deslumbrante e imponente átrio da igreja do Colégio dos Jesuítas. A primeira abriu com “Carmina Burana”, de Carl Orff, pelo Coro Sinfónico do Coral de S. José, acompanhado pela Sinfonietta de Ponta Delgada, numa interpretação de altíssima qualidade, mesmo de fazer cair o queixo. Uma envolvência soberba assegurada por acústica magnífica e por um maravilhoso cenário. Porque os Açores são os Açores e porque em anos anteriores a chuva se atreveu a atrapalhar alguns concertos, construiram uma cobertura de plástico para proteger o palco (volta e meia choveu também nessa noite, todavia ninguém arredou pé; os mais prevenidos abriram o guarda-chuva). O que se consegue fazer nestes Açores de hoje impressiona qualquer alma de pau. As reações que ouvi entre o público, incluindo estrangeiros, confirmam que não estou a ser generoso.
O programa da segunda noite foi inteiramente diferente, mas igualmente inolvidável. Abriu com duas peças (de Franz von Suppé e Lopes Graça) pela Banda Filarmonia Mosteirense. A energia magnética do maestro Carlos Sousa tocou intensamente a audiência. E como é que uma longínqua freguesia da ilha consegue reunir 56 elementos (15 são mulheres) e produzir música daquele quilate? A resposta transcende-me. 
Depois entrou em cena a beleza contagiante, visual e sonora, das cinco terceirenses do Fado Alado, acompanhadas de cinco tocadores. Que criatividade naquela harmonia de vozes! Que capacidade de comunicar com o público (aquela gente da Terceira nasce no palco; falam de lá com o à vontade de quem está à mesa em sua casa; e sempre com aquele humor deles - no caso, delas - a saltar-lhes da boca).
Não sou crítico musical, mas o que nos foi dado ouvir e contemplar deixou aquele imenso público eletrificado. A junção dos dois grupos - a Filarmonia ergueu toda a assistência em entusiástico aplauso – resultou em pleno. Nunca eu imaginara que o fado da Amália “Foi Deus” pudesse ser transformado em poderosa peça musical a cinco vozes e 61 instrumentos.
Não se fiquem por mim. Se puderem apanhar a gravação da RTP, não percam. O público aplaudiu sem arredar pé. Porque dessa vez não choveu, a praça estava à cunha e havia gente alcandorada sobre muros, em varandas e balcões - calculo que um total de 4 000 pessoas. Uma noite de espantosa beleza.
Falhei à 3ª e 4ª Noites do Colégio por outros compromissos, mas retornei à quinta. Provavelmente por influência de André Rieu, o programa dessa vez foi concebido como um divertido jantar de ópera com o título de “Operitivo sem calorias”, com a soprano, o tenor e o barítono armados em chefe, cozinheira e maitre D (excelentes vozes e, diga-se, muito bons atores também, com muita graça). Os coros estiveram de novo a cargo do Coro Sinfónico do Coral de S. José. Retiro do programa parte da explicação: A ópera é para ser sorvida, mastigada e digerida. Por isso servimos uma brincadeira: um “Operitivo sem calorias” cujos pratos são grandes êxitos de ópera. O público será convidado a escolher de entre um “menu” de árias, duetos e trios célebres de ópera e ditará a ordem do espetáculo de acordo com o seu “apetite”. A ementa era farta e variada, para todos os gostos. Excertos de L’elisir d’amore (Donizetti), Le Barbier de Séville (Rossini), Carmen (Bizet), Die Tote Stadt (Korngold), Rigoletto (Verdi), Tarantella (Rossini), La fille du régiment (Donizetti), Nabucco (Verdi), Die Lustige witwe (Lehar) e La Traviata (Verdi).
Mais uma noite alegre com música de encher os pulmões e a alma, graças à belíssima interação de solistas-atores e o coro, que na parte final também entrou em cena, trazendo à ribalta todos os atores, maestro inclusive, para celebrarem os 10 anos deste Festival Musical no Colégio. 
O sexto e último concerto da série ofereceu-nos um elenco de trechos musicais de sabor espanhol, interpretados pela Sinfonietta de Ponta Delgada (56 elementos). Metade do programa foi preenchido por peças estrangeiras sobre Espanha (excertos da Carmen de Bizet, e o Capricho Espanhol de Rimsky-Korsakov). A outra metade foi toda de compositores espanhóis, entre os quais o inevitável Manuel de Falla. A explicação dada para a inclusão de uma noite espanhola este ano foi: “ E por que não?
Pois é. E por que não? Foi uma bela maneira de terminar a série em grande festa, com a assistência a encher todo o recinto e a aplaudir com entusiasmo a excelente sinfonietta cá da terra. Num dos números, foi solista a 1º violino Natalia Zhylkina, uma ucraniana há vinte anos residente em Ponta Delgada.
Para não se pensar que  na ilha só há música clássica, na longínqua freguesia piscatória da Ribeira Quente teve lugar o Festival do Chicharro - quatro dias de música de outro tipo, com participações desde o David Carreira aos Starlight. Na véspera da abertura, tínhamos passado por lá, e toda área, ao longo da estrada, no porto e na zona de praia, estava polvilhada de tendas de campismo. Esperavam testemunhamos a azáfama dos preparativos para o fim-de-semana seguinte, em que a grande estrela foi o Pedro Abrunhosa. 
Entretanto, no Centro de Estudos Natália Correia na Fajã de Baixo, o Coro e Ensemble do Grupo Musical Johann Sebastian Bach, outro agrupamento local, este dedicado à música barroca, ofereceu um recital de música e poesia (Camões). Felizmente deram também outro concerto no claustro do Convento da Esperança. Não pude ir, mas amigos que lá estiveram ficaram embasbacados com a qualidade do espetáculo.
Como se isso não bastasse, aqui ao lado pude assistir a uma ópera – la Traviata, sentada ao ar livre numa praça moderna da Lagoa no meio de uma enchente, que deveria ultrapassar as sete centenas de pessoas. Para meu espanto, quem veio fazer uma breve apresentação avisou que o espetáculo duraria três horas, contando com os intervalos. Íamos ser contemplados com a ópera completa. Mas a surpresa não terminou aí. Após a “Ouverture”, surgiu no palco não um coro mas um vasto elenco de atores em movimentação teatral. Havia, porém, ainda mais para espantar: as vozes. Fomos rápida e progressivamente ficando todos encantados com a sua sonoridade - um barítono e um soprano de se lhes tirar o chapéu. Foi no entanto todo o conjunto de vozes e atuações em palco que se impôs ao público logo nas cenas iniciais, vibrantes e plenas de pujança, calorosas e emocionantes - enfim, a imagem de marca de Verdi.
A noite estava fresca e volta e meia a aragem chegava ventosa, mas ninguém quis perder três sólidas horas de espetáculo.
Não sou nada especialista em ópera. Vi La Traviata pela primeira vez em Roma, em Julho de 1975, uma data demasiado longínqua para recordar pormenores. Só posso dizer que todos os amigos que estavam comigo ali na Lagoa, alguns deles melómanos, não escondiam o seu entusiasmo.
De novo outra pergunta retórica: Como foi isso possível numa pequena cidade, e com um grupo de cantores e músicos inteiramente diferente do que atuou nas Noites do Colégio? Confesso que saí de lá abananado; contudo, para minha defesa, o sentimento foi geral. 
Eu poderia continuar com exemplos de toda a ordem como uma noite de poesia todas as quintas-feiras num pequeno bar da cidade onde toda a gente é convidada a ler poemas de sua escolha. Um dos presentes traz uma cesta de livros e qualquer um pode servir-se. E para não falar já do Festival das Sete Cidades, de dimensão internacional, onde a minha idade não me autorizou a estar presente, mas de que me chegaram ecos. A lista, porém, seria longa se me dispusesse a incluir tudo: as “noites de verão” de Ponta Delgada, os espetáculos de emigrantes – Dionísio Garcia e Portuguese Kids – até ao RFM Beach Power na praia de Santa Bárbara da Ribeira Grande. Precisaria de umas quantas colunas mais para fazer justiça a todas as iniciativas.
Toda esta atividade é garantia de que Ponta Delgada merece bem ser a Capital Europeia da Cultura em 2027. Bastará elencar um punhado de entre os múltiplos eventos que por todo o lado pululam (e nem falei no lançamento de livros!) para a nossa candidatura impor respeito e, diria mesmo, apresentar-se com pleno direito. Embora a Região Açores possa e deva ser toda envolvida, os regulamentos são específicos: a candidatura é de uma cidade. Daí termos de usar a referência Ponta Delgada, Açores – 2027 e não apenas Açores-2027. Assim, Ponta Delgada ganha com o facto de lhe ter apenso o nome da Região, reconhecível internacionalmente. Depois, o slogan a servir de subtítulo deve ser na versão em que agora está: “a nossa natureza é humana”, acentuando o facto de ela ser uma natureza humanizada. Dizer-se simplesmente “uma natureza humana”, como inicialmente fora proposto, seria problemático e por boas razões. O conceito de natureza humana tem sido muito debatido porque a cultura sempre procurou alterar marcas ancestrais da natureza. Basta lembrar a doença. Toda a história tem sido uma luta contra ela. Mas há mais: a natureza tem tendências agressivas e a cultura tem tentado debelá-las. Ponta Delgada é um produto da intervenção humana e cada vez mais nela há menos de natureza. O que cá existe tem sido resultado de um trabalho felizmente humanizado.
É velho hábito nacional falar-se mal de tudo. Por cá, temos razões de sobra para dizermos bem do que tem sido feito.

Ponta Delgada é hoje uma cidade cosmopolita, voltada para o futuro e merece bem ser a Capital Europeia da Cultura em 2027. E nos anos subsequentes.