“Noções de Linguística” aprendidas na diáspora

 

 

Refiro, aludo, cito e uso frequentemente o poema “Noções de Linguística”, esse mini-tratado sobre a língua concentrado em apenas 21 versos. A última vez que o fiz não tem ainda duas semanas e foi perante um auditório de chineses, alunos de português na Universidade de Macau. Estranha utilização, porque o poema não é nada optimista em relação às línguas; mas a pergunta que me fora feita era sobre a manutenção da língua portuguesa nas comunidades emigrantes luso-americanas. O poema diz, em concisos e magistrais versos, tudo o que sobre isso se pode dizer. Não o uso para expressar algo que me diga directamente respeito, visto todos os meus três filhos falarem e escreverem português. Trata-se simplesmente do reconhecimento em abstracto de um concretíssimo fenómeno. Sena começa por ser irónico no título. Na década de 70 divagava-se imenso nas universidades sobre a excelência da Linguística, nessa altura rainha das ciências humanas, apresentada como a chave para decifração de todos os mistérios. Os gurus do pensamento de então, por vezes na mais abstrusa das linguagens, preleccionavam sobre a língua, exibindo uma auto-convicção assente no que parecia ser o seu acesso privilegiado ao âmago das fontes do conhecimento.

Jorge de Sena, decididamente homem de livros vivendo quase cercado por eles, tinha os pés fincados no chão e sabia ler esse outro livro, o da vida.  Conhecedor do que se passava com os seus filhos, que seguiam as regras comuns repetidas em tantas gerações de emigrantes de todas as línguas e culturas, resolveu fazer como um meu colega disse uma vez num curso sobre Hegel: Deixem-me estragar estas altas considerações do filósofo com uma meia-dúzia de simples factos. É essa atitude irónica e crítica que leva Sena a dar ao seu poema o título de “Noções de Linguística”, como quem diz: Aqui vão umas pitadas de factos para aprenderem alguma coisa, suas bestas! (Este “bestas” está no poema.)

Na verdade, há um padrão de comportamento, um tanto generalizado no relacionamento dos pais com os filhos, que a sabedoria popular expressa mais ou menos nestes termos: os pais falam todo o tempo possível com o primeiro filho. Com o segundo, falam metade do tempo, porque a outra metade os irmãos passam-na juntos. No caso do terceiro filho, os pais já com ele interagem apenas um terço do tempo, pois as crianças entretêm-se brincando e conversando entre si. Para uma família de nove filhos, como no caso do casal Sena, façam-se as contas. O último tem 1/9 da atenção que os pais tiveram com o/a mais velho/a. O mais comum é os mais novos habituarem-se a falar inglês, e os mais velhos mudarem de registo linguístico para mais facilmente comunicarem com eles. Daí os versos lapidares do poeta: Ouço os meus filhos a falar inglês / entre eles. Não os mais pequenos só / mas os maiores também e conversando / com os mais pequenos.

Quanto maior é o isolamento linguístico, isto é, quanto menos oportunidades as crianças têm de falar português, mais se habituam ao inglês, desenvolvendo o seu vocabulário e formatando as suas estruturas mentais na assimilação dos padrões culturais e linguísticos do meio que as rodeia. Não basta crescerem tendo nos ouvidos / o português, porque é assim, com a maior das naturalidades, que [a]s línguas, que duram séculos […] morrem todos os dias / na gaguez daqueles que as herdaram.

Face a um fenómeno universal, a mestria do poeta revela-se na imensa capacidade de, em duas dezenas de versos, captar uma realidade dura para quem, como ele, vive da sua língua, na medida em que a estuda e sobre ela, ou sobre a literatura nela escrita, reflecte. A sua pátria era a língua portuguesa, daí a dureza da constatação tão “lana caprina” sobre as línguas em geral: Tão metafísicas, tão intraduzíveis / que se derretem assim, não nos altos céus. / mas na caca quotidiana das outras.

Se os trabalhos menores da muda de fraldas das crianças não constituíam parte dos seus hábitos diários, porque a sua Dona Mécia preferia mantê-lo no gabinete de trabalho a ler e escrever fazendo-o assim render ao máximo o seu incomensurável talento, nem por isso a metáfora da caca escapou a Sena.

Se o poema resulta algo prosaico, neste caso o tom assenta primorosamente na descrição dessa também prosaica situação que dissolve impiedosamente a poética da linguagem num processo mundano normal e cru, duro e banal. A ponto de fazer um poeta vergar-se ao peso da realidade empírica que a emigração torna evidente, e impõe de modo implacável.