Barro Vermelho. Ilha Branca, um colorido livro de João C. Bendito

 

 

João Bendito surpreendeu-me há poucos anos com um precioso livro sobre o pai e o seu famoso local de negócio, A Loja do Ti’ Bailhão, que eu havia conhecido nos meus tempos de Angra. O aparecimento agora deste livro sobre a Graciosa já não me apanha desprevenido porque, a partir da publicação do seu primeiro, passei a ler todas as crónicas que dele fui encontrando na imprensa da diáspora. Já sabia, portanto, da sua costela graciosense e das fortes ligações afectivas à ilha onde passou bocados da infância e adolescência. O que surpreende neste segundo livro é o facto de serem tão numerosas e vívidas as memórias que dos seus dias na ilha Branca o autor guarda. Verdade seja dita que também já não me espanta a segurança e destreza da sua escrita, elemento importante para assegurar a atenção do leitor ao longo das páginas. É que não só das estórias e memórias vive um livro desta natureza; importa saber contá-las. Esse ofício João Bendito conhece bem.

Uma avó graciosense explica a ligação do autor à ilha e às temporadas ali passadas. O livro procura o rigor histórico e vem profusamente ilustrado como se de um álbum de família se tratasse. As histórias experimentadas ao vivo e as ouvidas aos mais velhos rolam ao longo das páginas narradas em pormenor com garra e afecto. São muitas e variadas e vão desde uma sobre uma orquestra de escravos negros trazidos por um natural da terra emigrado no Brasil, até ao caso de um pequeno avião polaco em viagem entre a França e os Estados Unidos que tentou aterrar na ilha, episódio dramático presenciado por locais que intervêm de um modo trágico que não revelarei aqui.

Contudo, a maioria das histórias é pessoal. São experiências vividas pelo autor apanhado pelo choque cultural, a princípio provocando um pé atrás, mas depois causando total adesão (muito curiosos esses “choques culturais” entre duas ilhas tão próximas e tradicionalmente com tão intenso inter-relacionamento).

Confesso uma antiga afeição por essa graciosa ilha. Não terá a espectacular beleza natural de São Jorge, Flores ou Pico, mas é cheia de adoráveis recantos, de uma arquitectura notável e de uma textura social muito singular no conjunto açoriano (ainda recentemente o suplemento Fugas, do jornal Público, dedicava-lhe uma entusiástica reportagem assinada por Sandra Silva Costa com o sugestivo título “Muito prazer, dona Graciosa – e até ao meu regresso”, Público, 24-8-2019). Por isso interrogo-me se o meu prazer na leitura destas páginas terá algo a ver com esta antiga afinidade. Espero, todavia, que não. Quero apostar que os leitores que decidirem lançar-se na leitura delas embarcarão numa viagem virtual em papel e não me surpreende que mais dia menos dia queiram experimentar a ilha ao vivo. E hoje isso é tão fácil porque as comunicações nada têm a ver com o tempo em que João Bendito atravessava o mar num barquito de pequena cabotagem.

Ignoro se o autor terá mais relações de parentesco noutras ilhas. Fico a desejar que as tenha, porque isso seria sinal de que se vai seguir pelo menos mais um livro nesta série de esplêndidas memórias narradas por alguém que as viveu, as tem bem vivas, desfruta o prazer de contá-las e sabe como levar a apreciá-las quem não as viveu e a elas apenas tem acesso através da sua escrita.