Ouro Preto – o mistério do seu casario

 

Já caíram mais de vinte anos sobre a minha descoberta atrasada do Brasil colonial mineiro que culminou em Ouro Preto. Todavia ainda recordo como se hoje fosse. Saímos, a Leonor e eu, de Arraial do Cabo, para onde escapáramos do bulício do Rio de Janeiro, já que achávamos Búzios, mesmo ali nas imediações, demasiado chic para o nosso terra-a-terra.  E acertámos. Após uma bucólica semana aldeã, mais exatamente piscatória, lançámo-nos estrada fora (Juiz de Fora ficou quase só no mapa e na estação de abastecimento de gasolina), deliciando-nos em paragens prolongadas a fim de usufruirmos em pleno enlevo todo o percurso, sobretudo São João D’El-Rei, Tiradentes e Congonhas. Foi, porém, em Ouro Preto que diante de nós se escancarou o deslumbramento.  Disparei fotos por tudo quanto era sítio, acumulei notas (hoje sorvidas por um buraco negro algures) planeando descrever tão inesperada e fascinante experiência. 
Apossou-se de mim uma sensação de déjà vu. Década e meia antes, tinha eu chegado desprevenido, como quem salta de paraquedas, em Cartagena de Índias, na Colômbia caribeña, e, ao deparar com o imponente castelo da cidade, fui tomado de assalto por esse tipo de sensação. Em Angra do Heroísmo, nos meus Açores, onde tinha vivido nove anos, existe um outro castelo com idêntico traçado, no Monte Brasil (este nome é resquício da suposição que em Quatrocentos os portugueses fizeram  de ser aquela ilha, Terceira de seu nome, a ilha Brasil, durante séculos intensamente procurada, primeiro a oeste da Irlanda e depois Atlântico abaixo). Só décadas mais tarde vim a descobrir que afinal aquele Castelo de S. João Baptista sobre a baía de Angra, havia sido mandado erigir por Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) – daí o seu nome inicial de Castelo de S. Filipe - e encomendado ao mesmo arquiteto que desenhou o de Cartagena. Ao chegar a Ouro Preto, aconteceu-me algo comparável. Mas agora era toda a cidade que se me assemelhava a Angra. O casario em fotocópia nítida, só as colinas eram mais acidentadas – muito, muito mais, digamos que medonhamente íngremes, a ponto de numa subida de carro (não me recordo o nome, mas era supostamente um lugar ideal para uma vista do alto sobre a cidade) eu ter sido assaltado pelo receio de podermos capotar. Foram os locais que nos desaconselharam a subida no nosso carro e nos recomendaram um táxi pois os condutores estão acostumados. O nosso explicou ser devido a encostas daquelas que a embraiagem de um veículo ali na cidade é sol de pouca dura. E, nas mãos de um estrangeiro, ela ainda se esboroa mais célere.
Como era possível? Eu deambulava o meu pasmo por aquelas ruas e só deparava com déjá vus da Rua da Sé, da Rua de Lisboa, de S. João, dos Minhas Terras, da Rua do Galo e outras mais fileiras de prédios da minha Angra do Heroísmo em peso ali transplantada com todo o seu ar de senhora medianamente aristocrata, maquilhada de cores alegres e jovens, airosa e transbordante de galhardia e savoir faire, ou melhor savoir vivre.
Nunca percebi esse mistério. Os açorianos que rumaram em magotes para o Brasil na primeira metade do século dezoito, embora acabando espalhados por todo o país até Manaus, concentraram-se em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul (fundaram mesmo Porto Alegre). Levaram consigo os nomes Vargas, Rosa, Brasil, Dutra e Lacerda, bem como outros que, sendo de mulheres, foram apagados pelos dos maridos, como aconteceu às mães de Machado de Assis e de Cecília Meireles. Não tenho, porém, nenhuma particular notícia de terem esses ilhéus encalhado em Ouro Preto. O barroco das igrejas e de alguns edifícios públicos são assinaturas de uma origem no Portugal nortenho. Mas as fiadas de casas de varandas, janelas e portas pintadas de cores vivas em tons misturados, com desenhos até na própria vidraça, em puro decalque do que eu conhecia de Angra, isso para mim nunca teve explicação. O casario angrense não tem qualquer semelhança com nenhum outro na metrópole lusitana. A história não fala de algum regresso em massa de torna-viagens endinheirados como os que azulejaram as fachadas das casas do Porto e arredores. Quer dizer: não há notícia nem de terem ido nem de terem regressado, muito embora via Cabo Verde a literatura da identidade brasileira tenha chegado aos Açores e deixado marcas. De qualquer modo haveria que explicar a Angra desenhada pelo holandês Linschoten na última década do século dezasseis, que já retrata a cidade com a cara chapadinha que tem hoje. Assim sendo, a exportação só poderia ter ocorrido a partir de Angra.
Enigma. Mistério mesmo.
Quantas vezes nas aulas, com alunos brasileiros ou americanos perdidos de amor pelo Brasil, fiz um teste mostrando-lhes fotos de ruas de Angra dizendo-lhes serem de Ouro Preto. E todos sempre acreditaram piamente.
Muitos anos depois, apercebi-me de que o terceirense Vitorino Nemésio, natural da dita ilha Terceira, seu exímio conhecedor e cantador das suas maravilhas, mas também um apaixonado do Brasil, escrevera um livro, O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos (1954). Fui em cata dele e devorei-lhe as páginas convencido de que, na sua arguta prosa, o visitante terceirense me desvendaria o segredo, pois teria certamente identificado as afinidades que me assaltaram a vista. Como já calculava, deparei com deliciosas tiradas nemesianas sobre Ouro Preto: “a mais viva entre todas as cidades mortas do mundo”, “cidade encantada”; “o tempo aqui parou”, “é puro século XVIII no material da pedra e das pessoas”. […] “[U]ma cidade íntegra morta”, “o patetismo icónico  do barroco luso-brasileiro no seu frenesim colonial”, “céus de pérola ornados de água-marinha”, […] “aquela maneira de construir com janelas esquadriadas e oblongas, de florões rococó, vidros multicolores nas marquises e ferro fundido nas varandas”.
Mas nada sobre as semelhanças com as fachadas da sua Angra do Heroísmo. Só em Sabará, ao descrever uma igreja da Senhora do Ó, Nemésio estabelece uma ligação com a arquitetura da sua amada ilha: ”Se não fosse a presença dos colegas e amigos mineiros que me trouxeram aqui, supunha-me diante de qualquer capela-mor portuguesa: na capela do Santíssimo da minha Matriz, por exemplo. Na Praia da Vitória; nem mais… Espantoso prodígio da unidade de crença e de arte à distância”.
Ficarei para sempre a cozer tal mistério que cobre estas cidades gémeas, acrescidas desse outro adicional de Nemésio não ter registado tal afinidade genética, ele a quem nenhum pormenor escapava.
Quedo-me por aqui nesta digressão sem rumo e sem fecho assente, mas não sem tergiversar ainda para uma curiosidade inteiramente colateral. A dada altura do seu relato, Nemésio conta: “Enquanto António Joaquim de Almeida gentilmente me conduz através dos seus domínios, surpreendendo o riso saudável, desvanecido, de alguém que, apoiado a um bufete, religiosamente o escuta. Dentes angolares, riso límpido … Claro! É o porteiro do Museu, Onésimo dos Santos – músico, alfaiate e pintor – que todo vibra aos prodígios de um ouro que foi suor dos seus maiores”. 
O parágrafo não explica nada, pois claro, todavia isso de um meu homónimo também estranhamente habitar Ouro Preto não deixa de ser curioso. Se calhar um dia, tal como aconteceu com o castelo de Cartagena de Índias, um acaso me brindará com uma resposta para esta misteriosa incógnita da arquitetura de Vila Rica, de onde tão ricas memórias trouxe comigo.
 Até lá, continuarei a conformar-me com as imagens fotográficas que partilho aqui, esperando que o leitor não suspeite ter eu entrado em fase de delírio mental.