Estórias de perdidos & achados (e um elogio a uma dama)

 

 

Evito levar o meu computador portátil para qualquer sítio, a não ser quando viajo. Se o perco, o que se me vai, mon Dieu!!! É a minha secretária inteira e mais parte grande das gavetas do meu gabinete a evaporar-se.

Hoje, teve de ser. Saí para uma reunião dos Trustees do New Bedford Whaling Museum, pois havia muitos documentos a consultar durante a reunião, e tive de levá-lo comigo. Convidei a acompanhar-me o Rui Tavares, aqui na Brown este semestre a leccionar um curso ao abrigo de um programa da FLAD. Como o tempo livre escasseia, podíamos assim ir conversando na viagem. Eu deixá-lo-ia a visitar o belo museu enquanto participava na reunião e assim com uma cajadada matávamos uns quantos coelhos.

Tudo exactamente como agendado até à paragem no bar do Freestones, antes do regresso a Providence. Depois de conversa regada e animada, ia já entrar na auto-estrada 195 quando me apercebi de ter deixado a pasta com o computador junto ao balcão do bar. De imediato, voltei atrás convencido de que ninguém tocaria nela e, se o fizesse, seria apenas para entregá-la a alguém da gerência. E acertei na mouche. Aguardavam só que eu lá voltasse. Tudo certinho como previra e esperara.

Foi neste contexto que me recordei de um incidente deste Verão. O empregado da esplanada da Poça dos Frades, nas Velas, S. Jorge, veio ter comigo e com o Manny Chaves, saíamos nós de uma banhoca. Tinha encontrado um cartão do Social Security - o mais pessoal cartão de identidade nos EUA com um número que se deve manter secreto  – de alguém luso-americano, a julgar pelo nome. Se podíamos ajudá-lo a encontrar a pessoa.

Lancei-me em buscas na Internet e, em pouco tempo, consegui um nome idêntico numa vila de Massachusetts, com telefone e tudo. Liguei e, à senhora que atendeu, tentei explicar a razão do telefonema. Enfadada, desligou o telefone falando num tom de Não me lixe!

Claro que fui parvo. Por mais cândido que quisesse parecer, soaria sempre como um impostor, daqueles bandidos integrados em redes internacionais com esquemas para sacar dinheiro, ou pelo menos dados pessoais, de vítimas ingénuas.

Desisti de voltar a telefonar a explicar-me melhor. Tentei outra googlagem: Que fazer quando se encontra um cartão do SS? Resposta pronta da Net: Envia-se para o escritório mais próximo do Department of Social Security. E assim resolvemos o problema. Copiei o endereço e entreguei ao dono da café da esplanada com uns trocos para o selo e envelope.

A senhora Mary L. Rosa hoje já deve ter de volta o seu cartão perdido nas Velas. Naquele momento, pelo menos, o Manny e eu sentimo-nos como os escuteiros ao acabarem de praticar a boa acção do dia.

Estávamos, porém, longíssimo de adivinhar o que a seguir viria. Naquela mesma tarde, apanhámos o barco da Atlanticoline para S. Roque do Pico. Ali arribados, rumámos a S. Caetano, onde assentámos arraiais nas adegas que alugáramos e, pouco depois, abalámos para um relaxante jantar num restaurante da Madalena. Entretanto, e inesperadamente, a Octávia, mulher do Manny Chaves, recebeu um SMS: Encontrámos a sua carteira. Achou estranho porque não tinha qualquer noção de ter perdido nada, e pensou tratar-se de mensagem enviada a todos os passageiros. Ora mais nenhum de nós a recebera. Verificou então a sua mala e… Clic! Nada da carteira onde guardava os passaportes bem como uma avantajada quantia de dinheiro. Em euros e dólares, passava dos três mil.

Liguei de imediato para o número indicado. Nada. Nova insistência, idem. Desistimos do jantar e abalámos  para S. Roque. A caminho, nova tentativa telefónica. Uma voz finalmente responde. Era a empregada, que voltara do jantar. O escritório estaria aberto até ao barco das 22 horas. Sim, guardava lá a carteira.

Interrogávamo-nos todos: estará o conteúdo intacto? Para o casal Chaves, o mais importante eram os passaportes; mas a massa não era nada desprezível.

Lá chegados, ficámos no carro na expectativa, enquanto a Octávia se dirigiu ao guichet, onde uma amável senhora lhe entregou a carteira, que ela abriu apreensiva.

Tudo impecavelmente inteirinho. Intocado. Emocionada, a Octávia presenteou a funcionária com uma boa gratificação que ela tentou recusar. Não faço mais que o meu dever. Redobrada insistência da Octávia até a senhora aceitar.

E nós fomos então a uma jantarada nas calmas num acolhedor pátio de um restaurante ali mesmo em S. Roque, aliviados porque afinal as férias no Pico não ficavam estragadas. E as loas à dama saltavam de pouco a pouco para cima da conversa à mesa, desdobradas em vénias e agradecimentos.

Só falta dizer o nome da funcionária, que bem poderia ter ficado com algum pilim e descartar-se dizendo que devolvia a carteira tal qual lha tinham entregado. Mas não. Foi íntegra. Muito mais que meramente profissional, foi nobre. Essa lady magnânima dá pelo nome de Ana Gomes e é funcionária da Atlanticoline em S. Roque do Pico.

Porque é de se lhe tirar o chapéu em reconhecido agradecimento, fica aqui este registo público. O Manny escreveu à empresa, a Atlanticoline, todavia não faz ideia se deram qualquer sinal à D. Ana Gomes de terem registado o seu gesto. Nós apreciámo-lo absolutamente.

Se se tratasse de um roubo, iria acabar narrado nos jornais. Não foi e hoje isso é que deve merecer notícia. E aplauso.