Miguel Torga e o dr. Freitas Pimentel

 

O escritor Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (1907-1995), médico otorrinolaringologista com consultório em Coimbra, encetou, em março de 1970, uma viagem pelas ilhas dos Açores, disso dando conta no volume XI do seu Diário. 
Torga, que encontrou nestas ilhas “um Portugal radioso e arcaico, lírico e feudal”, teve como cicerone um velho colega da Faculdade de Medicina: o dr. Freitas Pimentel (1901-1981), então Governador Civil da Horta que, nessa qualidade e numa visita aos Capelinhos, gracejou ao autor de Orfeu Rebelde:
 “Sou o único Governador que, depois dos Descobrimentos, acrescentou o território português”. Referia-se obviamente aos 2,4 Km de extensão de areia e lava resultante do Vulcão dos Capelinhos ocorrido em 1957.
Miguel Torga vinha acompanhado da esposa, Andrée Crabée Rocha (1917-2003), belga de nacionalidade, ex-aluna de Vitorino Nemésio e prestigiada professora universitária. Ao contemplar a Caldeira, Freitas Pimentel evocou, com ironia, o conhecido episódio de A criação do mundo (o sexto dia), merecedor do mais veemente protesto por parte de não poucas leitoras aquando da publicação daquela obra (1940). Ou seja, na véspera do casamento, Torga preveniu a futura esposa nos seguintes termos:
- Vou tentar ser um marido cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto é tempo, que em todas as circunstâncias te troco por um verso.
Andrée sorriu e o poeta transmontano fez saber ao governante florentino que levava muitíssimo a sério o trabalho oficinal da sua poesia. Passava noites em branco em busca de um verso. Vivia atormentado com a escrita. Uma escrita de palavras substantivas, únicas e essenciais. Escrever implicava nele “suor, angústia e aflição”. Nunca estava satisfeito: corrigia sem cessar, revia até à exaustão, numa busca incessante de uma perfeição que, sabe-se, não existe. E acrescentou:
- Sou um lavrador das letras.
Aquele dia terminou com um lauto jantar oferecido pelo Governador Civil, em sua casa, ao ilustre casal. E à mesma mesa onde já se haviam sentado dois presidentes da República (Craveiro Lopes e Américo Tomás), um presidente do Conselho (Marcello Caetano), dois ministros (Arantes de Oliveira e Baltazar Rebello de Sousa) e figuras gradas da Igreja, como o cardeal D. José da Costa Nunes e o bispo Manuel Afonso de Carvalho.
Por conseguinte, Miguel Torga conhecia o preço de um verso e não transigia naquilo que é a laboriosa construção do poema. Porém, ontem como hoje, há quem continue a desvalorizar o ato de escrita. Há quem se esqueça que escrever é trabalho e dá muito trabalho. Nesta matéria, costumo falar aos meus alunos sobre Maria Inácia, a criada analfabeta de Alexandre Herculano que, instada por um jornalista a pronunciar-se sobre o ilustre escritor, respondeu:
- Ah, senhor, o meu patrão é muito preguiçoso! Passa a vida a ler e a escrever…