João Ângelo, ou a arte poética do improviso

 

Calou-se a voz daquele que sempre considerei o maior poeta popular dos Açores. E não é agora que o digo só porque ele nos deixou, nem tão pouco venho aqui prestar o “culto do osso” (António Sérgio) ou fazer-lhe o elogio fúnebre.
Já nos anos 90 do século passado escrevi um texto que intitulei de João Ângelo, o lavrador de palavras, e foi em vida dele que apreciei o seu improviso e o seu sentido de humor sui generis. Foi também na era de 90 que tive o gratíssimo prazer de cantar “Velhas” com ele na Estalagem de Santa Cruz, na cidade da Horta. Mais tarde, em 2008, recenseei o livro João Ângelo – mestre das cantigas, da autoria de Liduíno Borba, e, ao longo do tempo, fui sempre indefectível admirador do Ti João.
Homem do povo, fiel às suas origens rurais, produzindo e reproduzindo conhecimento empírico, João Ângelo (1935-2021) soube dar voz e expressão à alma desse mesmo povo. Com ele aprendi que não é impunemente que se é poeta, cantor e músico no meio do Atlântico. Vivendo em ilhas, sentimos desde sempre o isolamento físico e o peso da solidão. A solidão levou-nos à necessidade de convívio e esta, por sua vez, gerou a criatividade. E é inquestionável a existência de uma vitalidade e de uma criatividade popular açoriana, bem patentes no romanceiro, no cancioneiro e no adagiário dos Açores.
Por isso, se há particularidade que caracteriza o povo açoriano é precisamente uma necessidade de comunicação e de expressão, até como forma de quebrar silêncios e distâncias.
João Ângelo era dotado de uma espantosa lucidez, um homem sábio e sério, que sabia tudo sem nunca ter aprendido nada… Íntegro, modesto e genuíno, ele tinha o dom inato do versejar e um sentido de humor sui generis e foi um testemunho vivo da agudeza de espírito, da capacidade de ironia e de sarcasmo. 
Deixo-vos, a propósito, um exemplo. Os cantadores “metiam-se” muito com o Ti João por este nunca ter casado. Pois bem. Numa cantoria, na Califórnia com o repentista João Soares, este disse-lhe: “Eu tenho uma namorada p´ra casar, agora tu é que nunca mais casas”. João Ângelo respondeu:

“Vou-te deixar casar primeiro 
E vou resolver depois  
Até ficarei solteiro 
Se a tua der para os dois…”

Este terceirense tinha a capacidade de improvisar humor numa décima, ou seja, nos dois tercetos e na quadra de uma “Velha”, tarefa nada fácil e que não está ao alcance de todos. E depois era capaz de coisas absolutamente geniais. Há uma “Velha” dele que, nos dois tercetos, assim diz: 

“A velha quando chega ao verão
Sente muita aflição
Com a força do calor…
Algumas andam de shorts
E se têm as pernas fortes
Parece as rodas dum trator” (…)

Ora, a imagética da comparação das pernas (celulíticas) de uma mulher com as rodas de um trator, é mesmo de génio! Estes e muitos outros versos seus caíram já no domínio público e, por conseguinte, são hoje “cosa nostra”. 
Foi na (dura) escola da vida e em ambiente bucólico que João Ângelo aperfeiçoou as técnicas do improviso, essa “arte de pensar rápido”. O currículo académico nada tem a ver com a capacidade de versejar. Estamos a falar de um dom inato. Por isso a grandeza desta arte está na sua espontânea e efémera força criativa.   
Nos Açores e na diáspora açoriana, em arraiais e folias, no terreiro e no palco, em lugares públicos ou privados, João Ângelo espalhou, em quadras, quintilhas, sextilhas e décimas, os seus méritos repentistas, dando brilho aos festejos. As suas “Velhas”, implicando e nunca explicando, num constante desafio à nossa sensibilidade e à nossa inteligência, fizeram e vão continuar a fazer furor, ele que improvisava versos como quem cultiva a terra. 
Por tudo o que acima fica exposto, saúde-se a oportunidade de publicação do livro João Ângelo – o último adeus (Turiscon, 2021), de Liduíno Borba e José Fonseca de Sousa, autores que, reincidindo, prestam um sentido tributo e uma bonita homenagem a João Ângelo e ao (valiosíssimo) legado que nos deixa. Ali fica registado, para memória futura, o que ficou por dizer e por contar sobre o “mestre das cantigas”: curiosidades sobre o seu percurso de vida, dados biográficos menos conhecidos, viagens recheadas de situações imprevistas, homenagens que lhe foram prestadas por instituições e por “colegas de palco”, correspondências, últimos versos e cantorias, últimas fotos… 
Acima de tudo, estamos perante um livro de muitas emoções e afetos que revisita os últimos tempos de vida vivida (e sofrida) de João Ângelo. E, nesta matéria, é a todos os níveis notável o contributo escrito de Liduíno Borba que acompanhou de perto o grande improvisador: nas viagens, na doença, nos internamentos hospitalares, no agravamento do estado de saúde até à sua partida definitiva.  
A leitura desta obra só vem confirmar a certeza que já todos tínhamos: as cantorias e as “Velhas” de João Ângelo não nos fazem apenas rir e pensar – são um tratado de sabedoria popular.