Residência Universitária do Lumiar uma memória afetiva

 

ao meu amigo Rafik Mamade

Enquanto estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, fiquei alojado, durante cinco anos, na Residência Universitária do Lumiar. E foi meu companheiro de quarto Rafik Mamade, então estudante de Medicina, com quem mantive profícua e saudável convivência e uma amizade que perdura até aos dias de hoje. Ele viera de Moçambique, vítima de uma descolonização que em nada fora exemplar... E eu, arrancado da ilha e sem parentela na capital, ali fui parar trazendo comigo uma mala abarrotada de roupa e de sonhos… Ambos sobrevivemos com uma (magra) bolsa, mas determinados em sair dali “doutores”...
A dita Residência, gerida por uma comissão de estudantes, pertencia aos Serviços Sociais da Universidade de Lisboa e, em relação às suas congéneres, tinha a vantagem de possuir uma cantina no rés-do-chão. Albergava cerca de 40 estudantes bolseiros, distribuídos por quartos de 3 e 2 residentes, de acordo com os seus anos de permanência e de percurso académico. Em cada piso havia uma casa de banho, uma cozinha e serviços de lavandaria. O 1º piso dispunha de uma sala de convívio com um único televisor. Como na altura só existiam dois canais televisivos (RTP1 e RTP 2), votávamos de braço no ar para ver os programas da nossa preferência, sendo que, para grande desânimo meu, o canal 1 era quase sempre o mais votado... Naquele espaço eram também promovidos, de quando em vez, “convívios” e “serões dançantes”, para os quais eram convidadas as nossas colegas alojadas em residências universitárias femininas… Aconteceu ali muito derriço, muita ternura enlevada e, nos nossos quartos, eram desvairadas as coitas de amor…
Afastado da família, aprendi, na Residência Universitária do Lumiar e no estreito convívio diário mantido com os companheiros, os valores da amizade e da solidariedade. Aquela era a nossa “casa”.  Vivia-se então a ressaca da Revolução de Abril, o país estava ao rubro e eram intermináveis e proveitosas as conversas que mantínhamos noite dentro. O dia a dia era, ali, um exercício constante de democracia, camaradagem, respeito mútuo, pluralismo de ideias, comunhão de alegrias e de tristezas, o que me enriqueceu intelectualmente e me forneceu algumas das ferramentas necessárias para enfrentar a chamada vida prática. A sós comigo, agarrava-me ao estudo com unhas e dentes. A Universidade ensinou-me muita coisa, mas aprendi muito mais à mesa de tertúlias, dentro e fora da Academia, sobretudo o meu envolvimento em torno da revista “Memória-da-Água-Viva”, coordenada por Santos Barros e Urbano Bettencourt, meus maîtres à penser.
Lisboa abria-se-me como fruto maduro e, aos sábados, ia espairecer para a Baixa onde ninguém me olhava e eu olhava para toda a gente… Tudo estava em mim, e eu em tudo. O meu “luxo” era comer “duchesses” na Pastelaria Suíça e ir às sessões de cinema do “Quarteto”. Depois deambulava junto ao Tejo, mas estar à beira-rio não era o mesmo que estar à beira-mar. E então aventurava-me por Sintra e Cascais para, julgando estar nas ilhas, sentir o (verdadeiro) cheiro do mar.
 Ao domingo é que era uma espiga… As cantinas universitárias (a “Velha” e a “Nova”) não funcionavam, e então era certo o nosso rumo ao “Barão”, ao “Tipiki”, ao “Antunes” ou ao “Magriço”, onde devorávamos o costumado bitoque…
De segunda a sexta-feira instalava-se a pardacenta rotina: autocarros, aulas, biblioteca, pesquisas, testes, entrega de trabalhos, cantina e cavaqueira… Sempre com o pensamento no dia da mesada e no alvoroço da chegada das férias… 
Penosa era a ausência da família. Por isso, derretido em saudade, escrevia diariamente longas missivas (de três e mais páginas de papel de trinta e cinco linhas) à minha mãe e a outros familiares e amigos para atenuar as agruras do “exílio”, num tempo em que ainda se escreviam cartas… (Não havia então Internet nem telemóveis, e os telefonemas para os Açores custavam os olhos da cara…)
A mencionada rotina só era quebrada quando o meu amigo Rui de Mendonça, estudante de Medicina e também residente (hospedado no quarto 35), fazia uma pausa nos calhamaços de Anatomia, agarrava na viola, vinha para o meu quarto (o 38) e então, sensibilizados e saudosos das ilhas, cantávamos alguns dos temas mais emblemáticos do cancioneiro açoriano, expressando os nossos mais profundos sentimentos, emoções e estados de alma. Sempre de peito aberto, com amigos em redor e copos à mistura…

Éramos jovens e tínhamos o futuro à nossa frente. Só que o futuro chegou com tal rapidez que começo a desconfiar que agora já está atrás de nós…