De uma lenda faialense

 

 

Ontem, como hoje, os Açores sempre foram cobiça de apetites vorazes…
Depois de povoado, este arquipélago conheceu, entre os séculos XVI e XIX, a feroz incursão de piratas argelinos e turcos (a que os populares erradamente chamavam de “mouros”), mas também de corsários franceses, ingleses e holandeses que atacavam indiscriminadamente estas ilhas, pilhavam, roubavam, saqueavam, incendiavam igrejas e searas, profanavam templos, levavam cativos, violavam mulheres, etc.
Antes e depois da construção de fortes nas ilhas, os insulares defendiam-se conforme podiam: à pedrada e à paulada, havendo notícia de que, por exemplo, nas ilhas mais pequenas e desprotegidas, as pessoas mal avistavam barcos piratas na linha do horizonte começavam logo a ferver água ou azeite para derramar sobre os intrusos.
Ficaram no léxico açoriano expressões como: “Há moirama na costa”, “És um corsário!”, “És um(a) corsairinho(a)”, “Aí vêm os Catalunhos!” (esta última ouvi-a na ilha do Corvo). Nas ilhas de Santa Maria e Graciosa ainda hoje se pode ouvir “Buei!” ou “Ubei!”, exclamação de espanto e de indignação. Buei era o nome de um temível chefe de piratas da Mafoma.
É neste contexto que surge a lenda da Coroa Real dos Cedros. Como toda e qualquer lenda, também esta reflete uma circunstância geográfica (ilha do Faial) e uma circunstância histórica (o domínio filipino).
Conta-se que um grupo de piratas, comandados pelo seu rei mouro, atacou a ilha do Faial. Os faialenses defenderam-se tenazmente e conseguiram fazer com que os piratas abandonassem a ilha sem levarem a cabo as pilhagens habituais.
Na precipitação da fuga, o rei mouro esqueceu a sua coroa, que era magnífica, em prata, enfeitada ao redor com ramos lavrados. Já em viagem, o rei deu por falta dela e lembrou-se que a tinha deixado na ilha. O barco rumou novamente em direção ao Faial em busca do precioso objeto.
Disfarçadamente os piratas procuraram por onde puderam, indagaram junto de algumas pessoas, mas nada encontraram e abandonaram a ilha para nunca mais voltar.
Ora, uma mulher da freguesia dos Cedros, que tinha encontrado e guardado a referida coroa, ao saber que os piratas estavam de volta à procura do símbolo real, tratou de escondê-la o melhor possível. Não vendo sítio mais seguro e, como era coroa aberta, sem hastes e do feitio de um anel, enfiou-a numa perna (como quem enfia uma aliança), alojando-a numa coxa, e aí a conservou até ter a certeza de que o rei se fizera ao mar.
Passado algum tempo a perna da mulher inchou e, quando quiseram tirar a coroa, ela não saía… Puxaram de um lado, puxaram do outro, lavaram a perna com água e sabão de cinza para a pele ficar mais escorregadia, mas a coroa não saiu. Sem outra solução à vista, optaram por cortar a coroa para a poderem tirar. Depois soldaram-na cuidadosamente e o riquíssimo objeto ficou como pertença da freguesia dos Cedros, onde atualmente ainda se encontra, sendo guardada todos os anos em casa do mordomo do Espírito Santo. Nela pode ainda ver-se, num dos lados, o lugar onde foi cortada e soldada para poder sair da perna da mulher que a havia guardado cautelosamente.
Trata-se, obviamente, de uma lenda. Mas, como dizem os italianos, “se non è vero, è ben trovato”…