Quando as gaiolas se abriam

 

 

                                                                                       

Continuo aqui a escrever o tempo perdido e irrecuperável da minha adolescência terceirense.

Era nos anos 70 do século passado e o Domingos, vendedor ambulante, tinha grande habilidade para o negócio. Corpulento e obeso, óculos largos, lentes grossas, sempre a queixar-se das varizes, era um homem astuto, prudente e desconfiado…

Estou a vê-lo a transportar malas com os mostruários… Apoitava nos degraus inferiores da escadaria da Sé: espalhava, à laia de exposição, pequenas estatuetas do padre Cruz, estampas de Nossa Senhora do Carmo, medalhinhas de S. Francisco de Assis, terços de Fátima, Almanaques do Camponês… Em segundo plano, colocava calendários, baralhos de cartas, porta-chaves, postais, corta-unhas, pentes, esferográficas, pilhas, isqueiros, canivetes, agendas e, por debaixo de todos estes artefactos, lá estavam exemplares das revistas “Playboy” e “Gaiola Aberta”.

A rapaziada do Liceu metia-se com ele:

-Oh, Domingos, que revistas são aquelas?

Ele verberava com ar carrancudo:

-Ah, pequenos, vocês vão mamar p´ra casa e não me chateiem…

Quando a clientela era adulta, o Domingos, retirava, à socapa, uma das referidas revistas e tinha assomos lúbricos:

-Ah, meu rico senhor, a gente vê, nestas revistas, mulheres todas em “coiro”, como Nosso Senhor as botou no mundo… A deste mês traz uma chinesa de olhos em bico, com a boca aberta que até um homem conta três vezes os barrotes do tecto…

Repentinamente, o Domingos mudava de assunto e falava da excelência das estatuetas do bondoso padre Cruz…

Pela sua irreverência, a “Gaiola Aberta”, de José Vilhena, gozava então de grande popularidade. O primeiro número havia saído no dia 15 de Maio de 1974. Nessa época agitada, a revista reflectia os acontecimentos políticos e sociais que abanavam o país em turbulência. Aquele autor introduzia, em Portugal, uma nova técnica: a fotomontagem (ficou famosa a pose pouco digna da princesa Carolina de Mónaco)… 

A “Gaiola Aberta”, “quinzenário de mau humor”, vendia-se muito bem e o Domingos não regateava esforços. Eu, adolescente, dado a preconceitos e puritanismos, comprava a revista à socapa e lia-a, sofregamente, às escondidas de meus pais… 

O fruto proibido é sempre o mais desejado, já se sabe. E o meu saudoso amigo Manuel Aguiar, então presidente de “Os Montanheiros”, lá me ia emprestando, por debaixo da mesa, os livros do Vilhena (há um que não esquecerei: “O Canal Zero”), alguns dos quais haviam sido, anos antes, alvo da censura e apreendidos pela PIDE. 

Antes de estudar Eça de Queiroz, foi com José Vilhena que aprendi a paródia, o eufemismo, a ironia mordaz, o humor satírico… Apreciava a mira certeira e mortífera daquele humorista. E era um regalo para os meus olhos aquelas caricaturas libidinosas, aquelas ilustrações libertinas, de carácter sexual… De maneira que “O Crime do Padre Amaro” não causou em mim grande escândalo quando tive que o ler…

O Domingos manifestava desprezo pela qualidade do ensino liceal de então:

-Vocês lá no Liceu não aprendem nada. Aprende-se é com a escola da vida.

E, no entanto, este simples vendedor ambulante nutria uma grande curiosidade pela ciência e uma profunda admiração pelo tenente-coronel José Agostinho. Aliás, aprendi com o Domingos coisas que não me ensinaram no Liceu. Por exemplo: que fora o referido cientista o inventor do nefoscópio, aparelho que serve para medir a velocidade das nuvens.

Leôncio, também figura inconfundível, desdenhava do Liceu. Quando eu buscava refúgio no Pátio da Alfândega, era certo e sabido lá encontrá-lo, sentado num dos bancos, a filosofar a pardacenta rotina:

-Estamos neste marasmo, vamos caindo neste embrutecimento… - dizia, fumando um cigarro “Santa Justa”, com as rugas a engelhar-lhe a testa.

Eu ficava a olhar o Leôncio, a sua austeridade do porte, a nobreza viril dos traços fisionómicos…

Eu perseguia então um objectivo: terminar os estudos liceais e ir para Lisboa, tirar um curso superior, ser alguém… Já me via na capital, arrastando a minha existência entre a Faculdade de Letras e o Parque Mayer, entregue a tertúlias no Odeon e no Palladium… Almejava o epíteto de Dr. – para ascender socialmente, impressionar a família e “as raparigas lá de casa” (olá, Emanuel Félix!).…

-Estamos neste marasmo, vamos caindo neste embrutecimento…

 Quatro décadas depois, estas palavras do insubmisso e desassombrado Leôncio ainda me ecoam nos gonzos da memória e, hèlas, fazem hoje todo o sentido.