Quando o Circo vinha à cidade

 

 

Bem sei que, nestas crónicas, vou cedendo à nostalgia. Mas os anos que vivi em Angra do Heroísmo foram muito marcantes na minha vida. E hoje, mexendo em papéis velhos, topei com a foto (que ilustra esta crónica) por mim tirada nos inícios dos anos 70 do século passado e que me fez recordar o tempo em que, de calção e trincando chupa-chupa, ia ao circo com meus pais e irmãos para assistir a encantos e magias.

Na altura desconhecia que o Circo era o maior espectáculo do mundo. Hoje sei que foi no Circo que aprendi o fascínio dos sonhos e o sortilégio dos segredos.

Sim, guardo saborosas e inefáveis lembranças desse tempo em que o Circo tomava conta de Angra, por cujas ruas os artistas desfilavam para anunciar o espectáculo.

“O Circo chegou” e era a alegria da pequenada. Os artistas desfilavam pelas ruas da cidade. À frente vinha o apresentador, em cima de andas e com um megafone na mão, anunciando o espectáculo. Logo a seguir vinham os palhaços fazendo piruetas… Seguiam-se os elementos todos da companhia, acenando para os transeuntes e automobilistas. Crianças dos quatro cantos da cidade corriam pelas bermas, acompanhando o impressionante desfile. Porque nesse tempo o Circo rimava com novidade.

Chegava a noite e o Relvão (onde o circo fora montado) enchia-se de gente que engrossava a fila em frente à bilheteira. Olhávamos em redor e lá estavam os camiões, as roulotes, as barracas de lona… Aproveitávamos para espreitar os leões e os tigres, desassossegados nas suas jaulas…

Música e aplausos. Abria-se a cortina.

“Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável público”…

Quando se apagavam as luzes da bancada e se acendiam as da pista, o meu coração batia acelerado pela expectativa…

Começava o espectáculo e eu ficava verdadeiramente deslumbrado com as vénias do apresentador e com os acrobatas, os saltimbancos, as bailarinas, os trapezistas, as caras burlescas dos arlequins, as carantonhas dos palhaços, os cães amestrados (ah, a cadelinha vestida de bailarina…).

Impressionavam-me os leões e os tigres, os cavalos, os números de equilibrismo, os saltos mortais, o ilusionista, o homem que comia espadas e fogo e o artista que tocava música num serrote…

Não me fartava de ver tudo aquilo. Roía as unhas. Batia palmas para extravasar a minha alegria.

Recordo o pano de lona esburacado… Aprendi, com a canalha dos “Quatro Cantos”, a arriscar entradas clandestinas – verdadeiras intentonas que, quase todas as noites, a gente ensaiava por debaixo da lona…

-Não facilite, Mário. Não facilite. Olhe que seu pai morreu a fazer esse número! – advertia o apresentador antes de Mário fazer o salto mortal na corda bamba. O perigo era a sua profissão.

Havia um outro número que me arrepiava: era quando o ilusionista serrava a meio a sua “partenaire” metida dentro de um caixote colorido…

Em tempo de severos costumes, era um regalo para a gente ver os umbigos reluzentes das trapezistas, as pernas ao léu das equilibristas, os decotes das bailarinas, os bikinis (de reduzida dimensão) das funâmbulas…

(Parece estranho, não é? Mas esse era o tempo em que alguns padres proibiam às raparigas o uso de mini-saias dentro das igrejas…).

O Circo ensinou-me a compreender a beleza, a fraternidade, a partilha, a organização e o trabalho em equipa. Momentos antes de actuar, a linda equilibrista estava vestido de fato de macaco a exercer funções de arrumadora. Depois de ter brilhado lá no alto, a trapezista vestia jardineiras e vendia pipocas durante o intervalo; e, a seu lado, o domador das feras fazia algodão doce... As mãos hábeis do mágico carregavam cadeiras no fim do espectáculo e as do apresentador consertavam motores…

Os artistas circenses pairavam acima da realidade quando estavam na pista. Eram luzidios e etéreos. Elas, vaporosas e transparentes nas suas blusinhas de chifon com folhos. Eles, todos prezados e janotas nos seus coletes, brilhantina nos cabelos, ares a dar para o gingão…

Depois de as luzes se apagarem, eles e elas regressavam às suas roulotes e tendas. Despiam os casacos vistosos e os vestidos de lantejolas – acabavam-se os luxos. E, quando no dia seguinte os encontrávamos às compras no mercado, já não eram os reis da pista – eram pessoas absolutamente normais. Uma semana depois seguiam o seu destino nómada e ficávamos todos um pouco mais tristes. Aquela gente era livre – nós, não.

Para montar e desmontar a tenda e as bancadas do Circo, recorria-se a alguma mão-de-obra local não qualificada. E, nesta matéria, há duas personagens que cabem nesta crónica: o “Jaquim das Horas” e o “Mata Ratos”.

O Joaquim era baixinho, néscio, sorriso alvar, dentes ralos e amarelecidos, um velho boné enterrado até ás orelhas. Era dotado de um poder extraordinário para calcular as horas em qualquer momento. Para além desse dom, dizia-se que ele se regulava e orientava pelas badaladas do relógio da Sé.

-Ó Jaquim, que horas são?

Ele olhava o pulso, sem relógio, e respondia, com exactidão, as horas e os minutos.

Já o “Mata Ratos” era um brutamontes: alto e forte, qual vilão dos filmes de Chaplin. Não batia bem da bola e estava sempre a dizer esta frase algo enigmática:

-“Mesmo que assim não fosse, três na peida e acabou-se”…

O Circo deliciava miúdos e graúdos nesses tempos. Eu era um miúdo: sentia muito e pensava pouco. O Circo ensinou-me a ser mais humano e a não perder o dom do riso.

Hoje sei perfeitamente que o mundo é um Circo e nós ocupamos a arena…

Também sei que “pontalhões” como o “Jaquim das Horas” e o “Mata-Ratos” estão extintos. O que, neste país, está a crescer assustadoramente é o número de palhaços…