Três livros bem temperados

 

Venho hoje partilhar, com os prezados leitores, três brevíssimas leituras de outros tantos livros que tiveram o condão de iluminar as minhas férias (intensamente) vividas na minha Graciosa ilha:

 1. Navegações e outras errâncias, de Luís Mesquita de Melo

No seu primeiro livro, A Humidade dos Dias (Capítulo Oriental, 2019), Luís Mesquita de Melo revelava já espessura evocativa e atenta observação do humano numa escrita sólida e consistente. Agora, com Navegações e outras errâncias, (Companhia das Ilhas, 2021) este faialense, acionando os retroativos da memória, conta-nos histórias de ficção com personagens verdadeiras aqui homenageadas: Otília, Gilberto, Rufino, Eddie, Olina e o avô Silveira. Aqui também se fala de Orione, um velho cargueiro italiano que ao narrador traz recordações da viagem enquanto forma de procura e de descoberta, sendo a errância a busca do sonho e da felicidade possível.

Sem cair na retórica ou na eloquência (a normalidade na ficção portuguesa dos dias de hoje), estamos perante narrativas fragmentárias em forma de poemas, que também podem ser entendidas como poemas em forma de narrativas. O autor lança olhares oceânicos que veem e questionam o que enxergam. E consagra-se como escritor de poderosos recursos narrativos, ancorados num sólido conhecimento sobre as ilhas do Faial e do Pico, o Canal e a arte de marear. Um livro marítimo que se lê com infinito prazer. De um grande prosador que escreve com os olhos da memória.

2. Cântico sobre uma gota de água, de Eduardo Bettencourt Pinto

Eduardo Bettencourt Pinto vive em estado geral de poesia e a literatura da diáspora tem nele uma das suas principais vozes. Poeta de agudíssima sensibilidade e de apreciáveis recursos sensoriais, ele vive dentro das palavras. Isto é, ele persegue o segredo da transfiguração poética e a alquimia secreta da grande transmutação da palavra em ouro.  
Cântico sobre uma gota de água (Imprensa Nacional, Lisboa, 2021) é uma antologia da sua poesia por ele próprio selecionada, e tem avisado Prefácio de Onésimo Teotónio Almeida. 

Escrita insulada e melancolizada. Pela distância e pela ausência. Eis uma poética de depurada limpidez, banhada de intensa claridade marítima e com grande poder evocativo que ficciona a realidade a partir de memórias e vivências do autor por espaços de África, Açores e Américas.
Bem urdidos e carpinteirados e carregados de significativa contenção, os versos de Eduardo Bettencourt Pinto possuem uma grande beleza formal e estética. E dizem-nos que estamos perante um imenso poeta.

3. Os Nós do Tempo, de Vasco Pereira da Costa

De livro para livro, Vasco Pereira da Costa, poeta de primeiríssima água, reabilita o sentido mágico do poema. Os Nós do Tempo (Pallimage, Coimbra, 2022) assinala 50 anos de escrita publicada deste autor. Buscando a palavra exata, única e essencial (com invejável desembaraço vocabular), estamos perante uma poesia lúcida e lúdica e que se assume na consciência (crítica) do próprio ato de escrita. Uma escrita eruptiva, de boa ressonância musical e prenhe de poeticidade e de sedutora prosódia. 

Revisitando memórias, pessoas, cidades e outros lugares, o poeta procura na ilha (Terceira) a unidade perdida, qual outro Ulisses regressando a Ítaca, após ter errado longos anos em viagens e (a)venturas. Mas mais do que um livro de chegadas, este é um livro de partidas. De partidas a grande viagem do mundo. É de antologia o poema “Que horas são em Pompeia?”

Como parte integrante desta obra, há um apetecível texto, “O Maestro, o Poeta e o Menino de sua Mãe” a que foi atribuído, em 1985, o Prémio Aquilino Ribeiro e que até agora permanecia inédito.

Recomendo vivamente a leitura destes três livros. De apreciável encanto e indiscutível qualidade.