Ainda sou do tempo em que…

 

 

… os relógios ainda tinham ponteiros…

… não havia televisão, nem computadores, nem telemóveis, nem inteligência artificial, mas tínhamos a capacidade de pedir um pé de salsa à vizinha…

… pedíamos a bênção aos pais, tios e padrinhos…

… a heroína era apenas o feminino de herói…

… ninguém chegava a mestre sem primeiro ter sido aluno…

… o ar era incondicionado...

… os animais mereciam tratamento humano...

… só havia dois sexos...

… as mulheres seduzidas eram sempre sedutoras...

… o mundo era apenas um paiol de pólvora...

… a vida imitava a arte…

… o rico gozava e o pobre procriava...

… havia jornais matutinos e vespertinos…

… um ás valia mais do que um rei…

… falávamos da idiotice humana sem que houvesse Donald Trump …

… enfiávamos o dedo mindinho na cloaca das galinhas para saber com quantos ovos a família podia contar no dia seguinte. Por isso aprendia-se, na prática, o que era “contar com o ovo no cu da galinha”…

… pensávamos que, sendo a Terra redonda, então do outro lado do mundo vivia-se de cabeça para baixo…

… os trabalhadores ganhavam cada vez menos para produzir coisas que custavam cada vez mais…

… uma arroba não era@-, mas sim uma medida de peso…

… o futebol não era o ópio do povo…

… não fazíamos o melhor; mas fazíamos tudo para que o melhor fosse feito…

… não tínhamos tudo quanto queríamos, mas tínhamos tudo o que precisávamos…

… o dinheiro não trazia felicidade mas acalmava os nervos…

… os sineiros é que puxavam os badalos dos sinos das igrejas…

… dormíamos em colchões de folha de milho…

Sim, ainda sou do tempo da “Farinha 33”, da cerveja “Cuca”, dos cigarros “Santa Justa”, do cabelo comprido e das calças à boca de sino…