Carta-crítica sobre este livro: Viagem pela escuridão (Memórias de uma doença)

 

 

• José Francisco Costa

 

 

Meu caro Amigo,

 

Acabo de derramar o olhar pela última escritura que me enviou de um capítulo tão longo – e que espero esteja encerrado – sobre a sua jornada da existência que, como a tantos de nós, lhe caiu em sorte. Quero, desde já, agradecer-lhe a entrega desta pungente relação da sua dor, que eu aceito sobretudo como um gesto de abertura de alma entre amigos. Obrigado.

Fui lendo, com algum sobressalto, as páginas desta viagem épica em que os heróis – o pai Francisco, a mãe Maria e o filho Evan - não se proclamam de imortais. Antes pelo contrário, vão morrendo para ressuscitar e ressuscitando para morrer. Simplesmente que aqui não se trata de ficção ou tentativa de redacção impressionista de acontecimentos que, de outra forma, passariam à margem da memória do tempo. A sua escrita dói. A sua narrativa inquieta-nos. Toda a mancha textual é, com ténues abertas de horizontes praticamente inatingíveis, uma nuvem negra que escurece o sol da esperança que, mesmo contra a certeza fatídica de que tudo se irá perder, é a última coisa que vai sobrevivendo no meio da tempestade que se abate, cruel, sobre o tão natural e simples desejo de uma existência normal. E aqui entraria uma reflexão mais prolongada – que não cabe na brevidade destas notas – sobre a abrangência significativa do título. Com efeito, o seu texto é, mais do que um relato insípido da constante incerteza dos passos perdidos na busca de uma solução (a cura do filho), o testemunho de um peregrino, com a alma e o coração feridos, em busca da terra prometida de curas anunciadas que pouco a pouco perdem a eficácia. É o caminho que se faz “escuridão”, daqui resultando um permanente embate com a pura impossibilidade. A viagem é escura porque realizada por dentro da própria escuridão (166). Viagem que poderá não chegar a qualquer termo. O livro é uma extensão do título em termos de sintagmática do não-futuro. Para além do presente, vai ficando um passado-presente, sempre vazio de qualquer germe de futuro. A dor/sofrimento é um gerúndio sem outra modalidade que não a de um “agora” vazio de qualquer perspectiva: “A pior parte só começa quando se sobrevive fisicamente.” (218)

Eu diria que toda a narrativa se desenvolve sob o pano negro de uma lembrança que para sempre afecta a existência das pessoas envolvidas, com realce para – espero não exagerar - o autor/narrador da obra. Assim se justifica o subtítulo “ (Memórias de uma doença)”. Daqui resulta, a meu ver, uma escrita de pendor catártico e cariz testemunhal que leva o leitor à apreensão de alguns traços característicos da personalidade do autor. A meu ver, nas margens de todas as páginas do livro, se vai desenhando o retrato psicológico do próprio autor. O livro tem espaços reservados à “autoterapia” através da escrita, como se poderá verificar pela leitura atenta de algumas passagens, como por exemplo a sua “confissão” (226 - 228), e a carta que escreve ao Dr Brian Delaney (217), no final do capítulo XII, (215 - 218) que eu considero ser um desabafo premente, em relato comovente, de tudo o que tentou (mas não conseguiu na totalidade porque ninguém consegue, a nível da fala e da escrita, dizer o sofrimento). Há sempre algo que fica e que se sente e, talvez por isso, se torna indizível). Mas o livro aproxima o leitor do entendimento, embora superficial, de tanta dor – um calvário aparentemente sem ressurreição. Ainda, e a título de exemplo, veja-se a constante referência à “heroicidade” do Evan a contrastar com a fraqueza emocional do pai (56). Em várias ocasiões confessa ter questionado a sua existência, a sua função de pai. Atente-se ainda na revelação do sentimento de culpa que torna ainda mais pesada a cruz que leva, mesmo no meio de alguma alegria circunstancial, como a que vive na festa de atribuição de bolsas de estudo da escola secundária em que o filho foi um dos contemplados: “Nessa altura, perguntei-me mais uma vez o que teríamos nós feito na vida para merecer, de entre todas as famílias ali concentradas, o destino aziago que nos calhara.’’(167) De realçar também o modo como, mesmo em termos literários, constrói a ambiência de abandono a que pai, mãe e filho estão relegados, neste “longo suplício (97), presos a esse “monstro que se chama A ESPERA” (19), que os coloca no “lado de fora da vida” (79). Esta modalidade (eu quase diria, tonalidade) de escrita aproxima-se da que reveste o conteúdo do seu Hard Knocks, pelo que podemos afirmar que, em tal obra – relato também de outra “viagem” - não esgotou a sua fluência autobiográfica.

Assim desviados, ou melhor, arrastados pela força centrífuga de tal destino, resta-lhes a inconfortável solução de se constituírem numa outra família, que tem insegurança como a outra “nossa casa” (173). Importa notar, a este propósito, o destaque que é dado à descrição de elementos estruturantes da referida “casa”. Abundam as referências aos médicos que, apesar das certezas da ciência e dos avanços tecnológicos, não conseguem ir para além dos seus próprios limites na procura da cura que todos esperam. No entanto, o autor expressa bem a sua preferência afectiva nas inúmeras situações em que descreve o papel preponderante dos profissionais de enfermagem no percurso trilhado por cada doente, e neste caso, o Evan, no encalce da cura. As enfermeiras dão o melhor das suas capacidades humanas e profissionais para que a “viagem” se torne menos sombria. São elas quem incute algum sentimento de segurança no doente e na família quando, segundo o narrador, curavam com humor, outras com paciência, e, ainda outras, com a beleza dos seus rostos. Eram todas (ou quase) as “irmãs do Evan” (170, por exemplo). A expressão “a nossa casa” adquire toda a sua força de significante metafórico quando se descreve a despedida do hospital pediátrico, “ […] sessenta semanas depois de o Evan ter começado os tratamentos, […]” (172)  Transcrevo um curto excerto desta área da narrativa que torna explícito o significado da metáfora e, ao mesmo tempo, é mais um  exemplo  do estilo memorialista de pendor catártico do autor:

[…], nunca nos passou pela cabeça – nem ao Evan nem à Maria nem a mim – que nos desse para chorar … por termos de sair do hospital! Mas chorámos. O Evan em especial teve um grande desgosto ao despedir-se das suas ‘irmãs’.

[…], toda essa gente – (sic) se tornara parte da nossa família e do nosso ambiente. Tinham passado a ser ‘a nossa casa’. Ao partir, deixávamo-los pra trás. Deixando-os, partíamos sem a sensação de segurança que eles nos davam. E partíamos, com será compreensível, com o medo de que agora estava tudo acabado – e ficávamos sozinhos.” (173)*

Como nota final desta reflexão, permita-me apontar alguns aspectos que poderão servir como sugestão para futuras análises do seu livro. O primeiro refere-se ao paralelismo que estabelece entre esta experiência e a sua própria imigração. O isolamento, a solidão, a incapacidade, natural ou imposta, para estabelecer vias de comunicação que possam levar à (re)integração no mundo da normalidade possível. Ou seja, o imigrante, tal como o doente, é um ser vulnerável. O processo de “cura” é longo, difícil, e poderá nunca terminar. Em segundo lugar, e pese embora a narrativa se desenvolva em ambiente de permanente consternação, pelas razões que resumidamente apontei, a sua escrita deixa, de algum modo, uma nesga por onde se poderá vislumbrar uma réstia de esperança - seja quando se refere às outras crianças e jovens doentes (122-123, por exemplo), seja no modo como nos escreve as últimas notícias sobre o Evan, no Prólogo:

 […] já passámos a montanha mas ainda não saímos da floresta. Acreditamos, porém, que já começa a brilhar uma pequena luz sobre a escuridão dos últimos anos […] Caso se mantenham as suas atuais condições de saúde e estado mental, eu e a Maria pensaremos em nós como os pais mais felizes do mundo! (291)   

Quero dizer-lhe que lhe admiro a coragem de ter revelado o corpo doente e a alma também enferma do seu filho Evan, que a si próprio se vai ressuscitando, como bem demonstram os excertos do capítulo XI, com destaque para o discurso do Evan como orador convidado numa prova de Relay for Life, na universidade de Bowdoin (195-198). Este livro é a narrativa possível de um pai que sofre, na companhia da mulher e mãe, Maria, cujo silêncio, na narrativa, é também um grito abafado pela dor extrema. O sofrimento - que, por razões subentendidas ou subtilmente expressas no texto, é, na sua quase totalidade e extensão, somente partilhado com a esposa e um reduzido número de “amigos” – é o factor provocante da escrita em primeira pessoa, em que o autor/narrador, isolado no ermo da sua própria existência, sobressai como a mais autorizada testemunha do drama com que a vida o surpreendeu.

 

Um grande abraço.

José Francisco Costa