Joel Neto: A vida no Campo II

 

 

Joel Neto impôs-se definitivamente no mundo da ficção portuguesa com o seu Arquipélago, de 2015. Regressado aos Açores, mais propriamente à Terra Chã, Terceira, para se dedicar totalmente à escrita, lança com estrondo a primeira obra criada neste novo contexto de vida. São entrevistas na rádio e televisão, sessões de apresentação do livro nos Açores e Continente, uma orgânica bem profissional que correspondia à qualidade do romance: excelente. Na altura andava tão sobrecarregado de trabalho que não tive oportunidade de ler o livro, embora lhe tenha fixado o título para o fazer mais tarde.

Em 2017, numa visita a uma livraria de Braga, perguntei pelo Arquipélago. Que não tinham, teriam que o encomendar, mas, do mesmo autor, tinham A Vida no Campo, de 2016. Como conhecia o autor e tinha ouvido falar no livro, comprei-o. Esta obra venceu este ano o Grande Prémio de Literatura Biográfica atribuído por unanimidade pelo júri constituído pela Associação Portuguesa de Escritores que distinguiu obras publicadas em 2016 e 2017. Como disse numa crónica que publiquei na altura, o livro permitiu-me viver um ano na Terceira. O autor, numa escrita diarística, ia contando a terra e as gentes, os costumes e anseios, os gostos e os desgostos que a vida dos terceirenses têm.

Pouco tempo depois, a Wook, uma distribuidora, fez-me chegar o anúncio de Arquipélago e de Meridiano 28, acabado de lançar. Comprei-os e li-os logo de seguida. Há dias acabei de ler A Vida no Campo. Os anos da maturidade. Vol. II. O autor volta ao esquema do primeiro volume com o mesmo titulo, divide a obra em quatro capítulos, tal como o primeiro mas, desta vez, começa pelo Outono e seguem as restantes três estações do ano, escrevendo sobre tudo e mais alguma coisa, centrando-se muito nas pessoas; como diz a determinado momento, “todos os dias me apetece escrever sobre pessoas” (p. 47) e o leitor vê confirmada esta afirmação: é o Roberto, condutor da “urbana”, atento às crianças e restantes passageiros (p. 37), é a descrição da disponibilidade do Chico, homem de mil habilidades, que faz jardins, passeios, retoca pinturas e só não dispensa o merecido elogio pela obra feita (p. 44 ss). Mas neste livro, se é verdade que a Terceira ocupa a parte de leão, as viagens do escritor também estão presentes. As outras ilhas da Região, como São Jorge, a que chama ”ilha da redenção” (p. 97), com a sua beleza inesperada para muitos, que não para ele; descreve a vida nas fajãs e a sua vergonha por ter roubado, na Fajã do Belo, um gladíolo selvagem que plantou no seu jardim da casa do “Lugar dos Dois Caminhos” (pp. 103-105). Nas entradas do diário sobre esta viagem, o escritor conta uma estória que só podia existir nos Açores: no seu regresso de um concerto no Faial, em que tocou Bach, Scarlatti e Kirkpatrick, na chegada à Terceira, de barco, o Gustaaf a tirar do porão do ferry a sua Renault 4L em que transportava um cravo com as dimensões exactas para o carro. Uma coisa destas só nos Açores. Gustaaf Robert van Manen é um músico holandês que vive na Região desde os anos 80, com uma actividade meritória na divulgação da música erudita. Vasco Pernes, a 8 de Junho último, entrevistou-o na RTPAçores,  no seu excelente programa “Histórias da Terra e da Gente” (https://www.facebook.com/rtpacores/videos/208426473389562/UzpfSTE1NTA1NjgyMjg6MTAyMTkxMzUzMDIwNDQwMDM/?q=vasco%20pernes&epa=SEARCH_BOX).

 

As viagens de que fala o escritor neste seu diário não se ficam pelas ilhas; aparece o também Continente, onde vai frequentemente fazer conferências, apresentações de livros, ou respondendo a convites para encontros de escritores; mas também a vários países, como a Alemanha, a Inglaterra, Brasil, Estados Unidos sobre os quais faz reflexões interessantíssimas, como as que se podem ler quando descreve a sua primeira ida a Nova York, que lhe pareceu uma cidade já conhecida pelas vezes que a viu no cinema, ou as que faz sobre os campos da Califórnia, onde vivem muitos os açorianos.

Estão muito presentes no livro os cães, o escritor tem dois; os jardins, ele sabe imenso de plantas; os pássaros, conhece-lhes o nome, o canto e outras características. Mas, sobretudo, fala de pessoas; descreve-as tão bem que parece que o leitor está a convier com elas, dando início a uma amizade. Por se tratar de um diário, o autor dá a este livro o mesmo título do primeiro, A Vida no Campo. Acrescenta-lhe, contudo e com razão, o subtítulo: Os anos da maturidade. Fez bem, porque a maturidade é uma marca distintiva do livro. Mais uma obra do Joel Neto que vale a pena ler.