De como não fazer turismo no Verão

 

Depois de mais de 50 anos a viver no Continente, conheço bastante bem a faixa da beira-mar, a região do Douro, que tenho visitado frequentemente, Castelo Branco, onde fiz tropa, e a Covilhã, onde passei umas férias; fui bastantes vezes a Viseu, a Santarém e a Évora. Mas isto não me permitia dizer que conhecia o interior; daí a minha vontade, concretizada este Verão, de fazer a “Nacional 2”.
Gostei do passeio, mas não é uma experiência para repetir ou recomendar. É uma proposta muito promovida pelo marketing, que não dá, nem de perto nem de longe, o que promete; basta relembrar-me de uma ou outra refeição que foi um desastre, ou perto disso, e um ou outro hotel pouco cómodo para recuperar do cansaço da jornada.
A viagem teve, contudo, vários aspetos positivos. A guia que nos acompanhou era competente e comedida, não dizia nem de mais nem de menos, e estava sempre disponível para dar mais informação, se solicitada. Neste especto, o passeio valeu a pena. Embora conhecêssemos, a minha mulher e eu, quase todas as localidades visitadas na viagem, com a ajuda da guia ficámos a conhecer melhor. Mais uma vez ficou evidente para mim o impacto de novas construções que descaracterizaram várias das nossas cidades e vilas e, em algumas, os atentados urbanísticos atingiram dimensões inimagináveis; não é apenas Viana do Castelo que tem o seu “prédio Coutinho”.
Ao viajar pelo interior, em estradas de montanha, ficámos com uma noção mais concreta da invasão do eucalipto; é impressionante. Como impressionante é o despovoamento, que o eufemismo “territórios de baixa densidade” pretende suavizar. Percebe-se que no interior vive cada vez menos gente e cada vez mais idosa, o que o último senso veio quantificar. Vêem-se fechadas casas muito bem conservadas, esperando a vinda dos donos em gozo de férias ou de fins de semana.
Vimos artesanato que desconhecíamos. Para lá dos barros negros de Bisalhães, Trás-os-Montes, descobrimos os da aldeia de Molelos, na região de Dão Lafões. Aproveitámos para comprar uns alguidares para fazer alcatra, que em minha casa é prato muito apreciado e frequente. Não são exactamente os que se usam na Terceira, mas, exceptuando a cor do barro, tem as mesmas características.
Na região do Dão, fomos almoçar ao restaurante da Quinta de Cabriz, em Carregal do Sal. Foi a melhor refeição de todo o passeio.  Vale a pena lá ir, pelo menos em termos culinários e para comprar bons vinhos a bom preço. A relações públicas da Quinta disse-me que é melhor fazer marcação.
Gostei da viagem, mas penso que não é de repetir. Todos os dias fazem-se entre 180 e 220 quilómetros de autocarro, por estradas de montanha imensamente cansativas e sem interesse de maior, a não ser que circulamos na “Nacional 2”. Mais vale pegar no nosso carrinho, programar três ou quatro passeios e ver o fundamental. Em vez das centenas de quilómetros que fizemos, bastaria ir a Pedrógão para percebermos que há áreas do país infestadas de eucaliptos e que os incêndios não vão desaparecer nos tempos mais próximos.
Gostei do desvio da “Nacional 2” para irmos a Évora, onde, para além da cidade de que gosto muito, visitámos uma fábrica de cortiça e participámos, pela primeira vez na vida, numa prova de azeite, uma experiência para guardar na memória.
A viagem é imensamente cansativa. O último dia, então, foi demais: Faro – Lisboa (pausa para almoço) e Lisboa – Porto, onde chegámos maçadíssimos. Felizmente um dos meus filhos estava à nossa espera para nos trazer para casa.
Uma nota final, que não esquecerei facilmente. A guia, que nos acompanhou durante todo o percurso, despediu-se de nós quando nos aproximávamos de Lisboa, onde ia ficar; daí até ao Porto, fomos acompanhados por outra. Naquela despedida, quase no fim dos agradecimentos, a guia disse que ela e o motorista estavam a fazer o primeiro serviço dos últimos 9 meses. Ao terminar a frase, fez uma larga pausa, que nos surpreendeu; passados uns momentos, percebemos que estava a chorar. Perante a situação embaraçosa, toda a gente começou a bater palmas, dando tempo à senhora para recuperar o controlo das emoções. 
As lágrimas da guia foram para mim a prova de que a Covid-19 não trouxe apenas um problema de saúde pública; teve também um impacto enorme na economia, nomeadamente na área do turismo, que dá trabalho tanta gente no nosso país.