Dez meses de covid: do medo à esperança

 

 

Estamos em Fevereiro de 2021 e a pandemia causada pelo SARS-CoV-2 permanece, agora numa fase de agravamento. No começo, perante as notícias e, nomeadamente com a subida acelerada do número de infectados, o medo chegou de mansinho e as pessoas começaram a confinar por sua conta e risco, adiantando-se, até, ao primeiro estado de emergência só decretado no dia 18 de Março pelo Presidente da República. Estou convencido de que, no fim dos telejornais das 20 horas desse dia, a maioria dos portugueses não viu logo a volta que a sua vida iria dar.
A partir daí, o país iniciou uma estranha forma de vida. As escolas e infantários fecharam; muitos pais/mães tiveram de ficar em casa para acompanhar os filhos. O mundo do trabalho alterou o seu modo de funcionamento: milhares de funcionários públicos e muitos trabalhadores do sector privado, especialmente dos serviços, ficaram em casa em teletrabalho. Só a actividade ligada à indústria manteve, na generalidade, o modelo de funcionamento habitual. Como consequência destas medidas, o trânsito automóvel diminuiu drasticamente e a vida quase parou. Os órgãos de informação - jornais, rádios e televisões – passaram a falar quase só da pandemia: tentavam informar a população sobre a doença, os cuidados de higiene a ter, o que fazer no caso de surgirem sintomas e o que se passava nos hospitais; procuravam acompanhar o andamento geral da pandemia e das suas consequências.
Começaram as conferências de imprensa diárias da Direcção-Geral de Saúde, normalmente protagonizadas pela senhora Directora-Geral e pela Senhora Ministra da Saúde ou por um dos seus Secretários de Estado, em que se misturavam informações e instruções relativas à doença Covid-19 baseadas em conhecimento científico, com um discurso político de gestão de crise, com os inconvenientes deste tipo de discurso híbrido. Acontecia, muitas vezes, que, na resposta à uma mesma pergunta, intervinham a senhora Directora-Geral e o membro do Governo, sendo, frequentemente, difícil distinguir entre o que era informação e o que era gestão política. Quando, nessas conferências de imprensa, se recomendava a distância física, a lavagem frequente das mãos com sabão ou a desinfeção com álcool gel e a etiqueta respiratória, as pessoas percebiam que estavam perante recomendações baseadas em conhecimento científico. Quando ouviam dizer que o uso da máscara como meio de protecção era desaconselhável, vinha-lhes à mente que, nos noticiários das televisões, os profissionais de saúde apareciam equipados com máscaras e, no mínimo, ficavam perplexas. Pouco a pouco todos perceberam que o país não estava preparado para enfrentar um tal tsunami.
Em poucos dias todos se viram perante um país e uma vida diferentes: escolas fechadas, ruas desertas, trânsito automóvel quase nulo, a economia paralisada. Famílias inteiras em casa, em muitos casos tomando pela primeira vez consciência da pequenez e falta de comodidade do espaço da habitação, e tiveram dificuldades em organizar a vida, porque nunca se tinham visto naquele contexto. Antes levantam-se a correr, preparavam-se, saíam de casa, deixavam os filhos na escola ou infantário, iam trabalhar e, no fim do dia, faziam o percurso inverso. Agora permaneciam na residência e tinham de reorganizar a vida de modo a que os filhos acompanhassem as actividades escolares e os pais trabalhassem recorrendo às novas tecnologias. Os mesmos espaços passaram a ter várias funções: lugar de trabalho, de estar, de tomar as refeições, de estudar e de lazer. Quantos portugueses se terão sentido prisioneiros na sua própria casa.  
No início de Maio, os números levavam a pensar que a pandemia estava controlada e que a tempestade tinha amainado; começou o desconfinamento. Mas o medo ainda era grande, pelo que os responsáveis políticos começaram a incentivar as pessoas a sair de casa, embora falando dos cuidados necessários a ter. Nos meses de Verão, Junho, Julho e Agosto, a descompressão foi-se acentuando e aumentou a circulação de pessoas. Em Setembro os números começaram a subir, em Outubro aceleraram e, no começo de Dezembro, já era inegável que as coisas tinha piorado substancialmente: estava-se perante a segunda vaga e o medo voltou a aumentar sobremaneira.
Com a aproximação do Natal, os números da Covid a subir e as notícias da chegada das vacinas, a situação tornou-se muito difícil de gerir do ponto de vista político. Pela Europa fora os governos viram-se na necessidade de agravar as medidas restritivas da circulação de pessoas, inclusive na quadra de Natal. Em Portugal fez-se de modo diferente: as restrições do estado de emergências foram suavizadas nos dias 23, 24 e 25, contra a opinião de muitos especialistas; não é fácil para qualquer governo tomar medidas desagradáveis. Consequência: estamos agora atravessar a pior situação desde o início da pandemia.
Vive-se um contexto difícil, complexo, agravado por um novo confinamento semelhante ao de Março-Abril do ano passado exigido pelos números a que se chegou; o SNS está saturado com doentes Covid e os restantes cuidados de saúde necessários vão-se atrasando. Por outro lado, começou a vacinação no dia 27 de Dezembro, ou seja, a solução para o problema está encontrada e a chegar, embora muito lentamente, porque a produção industrial da vacina precisa de tempo. Ora a referida complexidade do contexto prende-se precisamente com isso. O tempo da vida, o tempo psicológico digamos assim, é duração, muito diferente do tempo astronómico, o tempo dos relógios. Este último é contínuo, cada hora tem sempre 60 minutos. O tempo da vida, por seu lado, é de natureza totalmente diferente, é duração, como disse: nele um segundo pode parecer uma eternidade e uma hora, um ápice, experiência que todos nós vivemos. Ora, a indústria funciona no tempo dos relógios e a nossa espera pela vacina é do tempo da vida. Paradoxalmente, o ser humano vive em simultâneo nestes dois tempos tão diferentes, e aqui está a raiz da complexidade da situação e a dificuldade de a gerir. Não é fácil, mas é a vida! Tenhamos esperança, porque melhores dias hão-de vir.