Os Açores e aprodução do chá

 

 

 

Enquanto vivi nos Açores, 1945-1964, podia dizer-se que não havia casa em que não se bebesse chá. Era produzido em São Miguel e, na época, a marca mais famosa era o “Chá Gorreana”, que tinha como slogan publicitário: “Chá Gorreana, o chá que não engana!” Em 1962 ou 63, num discurso na Assembleia Nacional, um deputado de São Miguel atreveu-se a fazer um discurso muito crítico sobre a situação económica dos Açores; entre os vários problemas existentes, lembrou que as viagens para as Ilhas eram as mais caras do mundo e que havia chá açoriano vendido em embalagens de chá inglês, sem que houvesse qualquer reacção que protegesse a denominação de origem do chá micaelense. Eu sabia que o chá tinha vindo da China para a Europa e li (ou ouvi?) que havia uma disputa entre os veleiros ingleses que traziam da China o primeiro chá da época, para ver quem chegava primeiro a Londres. Até há poucos dias, era tudo o que eu sabia sobre o chá.

Tudo mudou no último mês. A meados de Julho, li o texto com que o Professor Onésimo Teotónio de Almeida apresentou em Ponta Delgada o livro de Mário Moura História do Chá em S. Miguel (Século XIX) [Ribeira Grande: Câmara Municipal da Ribeira Grande, 2019]. Manifestei-lhe interesse na obra e, poucos dias depois, estava a recebê-la com dedicatória do autor e tudo. Olhei para o volume, que não é nada pequeno, 586 páginas, dei uma vista de olhos ao índice e não resisti. Terminei a leitura há poucos dias e aprendi imenso.

No seu excelente trabalho, Mário Moura começa por dar imensa informação sobre o chá no Oriente e sobre a sua expansão para outras regiões do globo, para depois se debruçar sobre o chá dos Açores, principalmente sobre o desenvolvimento da sua produção em São Miguel. Aqui trata detalhadamente do papel da SPAM (Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense) e de José do Canto. O livro apresenta-se como obra de grande envergadura, fruto de uma imensa investigação: 32 pp. de Fontes e Bibliografia (pp. 451-483) e 2028 notas de roda pé (o autor chama-lhes “Notas de fim de texto”) que ocupam 99 pp. (pp. 487-586). Uma investigação que obrigou a trabalhar uma massa imensa de textos e exigiu uma capacidade organizativa enorme para poder manobrar com proveito as notas tiradas. E, para além de uma memória privilegiada, põe a descoberto uma grande inteligência e a imaginação indispensável para que um trabalho desta natureza não fique reduzido a uma tábua cronológica de factos. Mário Moura está de parabéns!

O Professor Nuno Rosmaninho, na “Apresentação”, faz um retrato perfeito da tese. Sou levado a pensar que deverá ter sido o texto escrito para a arguição da tese, porque era este o modelo que eu seguia quando me cabia arguir uma tese que considerasse excelente. O Professor diz tudo o que se deve dizer quando se está perante um trabalho excepcional: aponta as suas enormes qualidades e os aspectos que teria sido bom tratar, mas que ficaram menos trabalhados porque numa tese não se pode dizer tudo sobre um assunto. Passar do geral – o chá no mundo – para uma organização da sociedade civil que se esforça para procurar ultrapassar uma crise económica como a do fim do ciclo da laranja nos Açores, e em especial em São Miguel, a SPAM, e terminar com um estudo minucioso da actividade de um homem como José do Canto e o seu papel na produção do chá na Ilha, e isto tudo sem perder a harmonia necessária na evolução de uma tese, é obra.

 Este trabalho de Mário Moura vai ficar na história da investigação sobre o chá no país, concretamente nos Açores, mas é um livro bastante extenso. Se me fosse permitido dar uma sugestão ao autor, aconselhava-o a publicar uma síntese da tese, um livro mais pequeno destinado ao leitor comum. Penso que seria importante. Para lá dos conhecimentos que as pessoas podiam obter, poderiam ver como, perante uma crise como a que se seguiu ao fim do ciclo da laranja, os empresários não ficaram quietos e tentaram encontrar saídas, atitude que hoje não vemos no tecido empresarial açoriano, pelo menos para quem, como eu, vive fora. Hoje, quem olha de fora para a Região é levado a pensar que a economia açoriana está dependente da monocultura da vaca e que não há quem procure encontrar novos caminhos para diversificar. Ora não sei se a Região será economicamente sustentável se continuar quase totalmente dependente de um sector. O conjunto de empresas públicas regionais parece-me grande e insustentável; se a restante economia não produzir riqueza para financiar a máquina regional com impostos, qual será o futuro dos Açores como Região Autónoma? A obra que apresento neste texto mostra como, no século XIX, um punhado de empresários, homens cultos, se lançou na procura de caminhos novos, exemplo que devia ser seguido nos dias que correm.