A Ilha das Flores em Prosa

 

Planeei não sei quantas vezes ir às Flores, mas até hoje não consegui. A minha ligação à ilha deve-se à história de familiares muito próximos e às muitas estórias que ouvi a um grande amigo florentino já falecido. É verdade, portanto, que nunca fui às Flores, o que não significa que não a tenha “visitado”. A última vez foi na leitura do livro de Carlos Fagundes Entre o Mar e a Rocha. Estórias [Lajes do Pico: Companhia das Ilhas], com prefácio de Onésimo Teotónio Almeida.
Se com os familiares e o amigo florentino já tinha “visitado” as Flores dos anos 50 e 60 do século passado, com Carlos Fagundes voltei lá e fiquei a conhecer mais aprofundadamente a ilha toda: as suas paisagens, as suas gentes e o seu mar. Então a Fajã Grande fiquei a conhecer quase como as minhas mãos. A paisagem com o seu relevo acidentado; os seus lugares, ruas e canadas; as suas festas; as alegrias e as tristezas da sua gente: famílias numerosas que viviam quase todas de uma agricultura de subsistência com todas as suas dificuldades, pobreza generalizada e a estreiteza própria dos meios pequenos, favorável à solidariedade e ao controlo social, este menos agradável; as suas figuras típicas, os comportamentos estereotipados, os sobressaltos e os sonhos; a presença constante da Igreja e a prática religiosa; E, acima de tudo, a solidão de uma pequena comunidade a viver num meio com muitas carências, mas que conseguia sonhar, lutar e saltar dali, se possível, para a América, paraíso sempre sonhado, mundo e sonho sintetizados magistralmente por Pedro da Silveira, também ele nado e criado na Fajã Grande, no poema:

ILHA
 Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,
Califórnias perdidas de abundância.

As estórias são em geral curtas e sempre magistralmente escritas. A primeira, uma das mais longas, titulada “Contrastes” (pp. 11-31), cruza dois acontecimentos que coincidem no tempo: uma visita pastoral do Bispo que vem administrar o crisma e a doença da mãe do narrador que, devido ao agravamento do seu estado de saúde, por indicação do único médico da ilha, “mais dedicado à cinegética do que propriamente à medicina” (p. 12), deve ser levada para o Hospital de Santa Cruz. O bispo, ainda “novo” e “de boa saúde” chega na “melhor e mais rápida embarcação que existia nas Flores” (p. 26); a doente, em estado grave, é levada a pé, numa maca improvisada, da Fajã até aos Terreiros, porque “só a partir daqui uma camioneta a levaria até à vila” (p. 16). Mais: para conseguir que seja feita uma análise e para falar com o médico, o marido da doente corre grande parte da ilha a pé. Para além do contraste das estórias, o autor mostra o esquecimento e abandono a que as Flores, como as restantes ilhas digo eu, foram votadas pelo poder político da época, que só se lembrava da sua existência perante grandes tragédias, por exemplo a irrupção do vulcão dos Capelinhos em 1957 e, mesmo nestes casos, prestando fraca ajuda sempre tarde e a más horas. 
As estórias são retratos muito reais de vivências e acontecimentos ocorridos nas Flores, como assinala Onésimo Teotónio Almeida no Prefácio: “são boas histórias (intencionalmente escrevo «histórias» e não «estórias» porque há uma marca de veracidade nestas páginas que a designação «estórias» escamotearia)” (p. 9). Carlos Fagundes leva-nos a assistir à fuga de jovens florentinos, apesar de todo o esforço de vigilância das autoridades, para barcos da frota baleeira americana que frequentava a ilha para abastecimento de frescos e para completar a tripulação. Entre muitas outras situações, retrata-nos, por exemplo em “«A Bidarta»” (pp. 55-70), um naufrágio que deve trazer à memória de muitos açorianos tragédias a que assistiram: perante um barco naufragado, há que, com os poucos meios disponíveis, tentar ajudar a tripulação, pô-la a salvo, tratá-la e abrir a própria casa para receber os náufragos. A estória da fundação da filarmónica “A Senhora da Saúde” (pp. 201-206) mostra bem como num meio pequeno é possível ter uma ideia, trabalhá-la e mobilizar uma comunidade inteira para a concretizar, apesar dos “velhos do Restelo” que sempre aparecem. A filarmónica saiu pela primeira vez na festa da padroeira e, como previsto pelos promotores da ideia, já em condições de tocar quando o General Craveiro Lopes visitasse a Fajã (p. 202). Esta viagem presidencial aos Açores decorreu de 21 a 29 de Junho de 1957.
Nas 42 estórias que o autor reúne no livro, encontramos as Flores dos anos 50 e 60 do século passado. Vale a pena lê-lo para se perceber com maior profundidade a sociedade florentina de hoje. Como costumo dizer: quem não sabe de onde vem, não sabe onde está e dificilmente saberá para onde vai. Mas para além desta razão, há outra, pelo menos tão poderosa como esta se não mesmo mais: a qualidade da escrita de Carlos Fagundes que é excelente. Para dar um exemplo, cito este parágrafo com que começa uma estória: “O Bigorna chegou a casa espavorido, misantropo, desfeito, esgazeado, a tremer como varas verdes e branco que nem cal. Enfiou-se na cama vestido, recusou-se a comer ou a beber o que quer que fosse, rejeitou a travesseira e cobriu a cabeça com cobertores. Não tugiu nem mugiu durante o resto do dia. Um caco”. O que é que aconteceu ao Bigorna para o pôr assim? Como é evidente: viu uma alma do outro mundo; o título da estória é: “A Mulher com Pés de Cabra da Ladeira das Covas” (pp. 171-173), em que o autor dá expressão à tendência do povo açoriano da época para acreditar em bruxas, mau olhado, benzeduras, mistérios e almas do outro mundo que Carlos Fagundes não podia esquecer ao retratar a ilha das Flores daquele tempo. Encontramos esta capacidade descritiva ao longo de todo o livro, em cada página. Devo confessar que, a partir de certa altura, comecei a ler mais lentamente o livro para prolongar no tempo o prazer que me dava esta minha primeira leitura.