O independentismo nos Açores e na Catalunha

 

 

Celebrámos, há pouco, o 25 de Abril com cerimónias oficiais, marchas de rua, espectáculos, e a comunicação social a chamar a atenção para o desconhecimento que muitos portugueses têm sobre a Revolução e tudo o que ela envolveu; isto parece ser evidente de um modo especial entre os mais novos. Esse desconhecimento terá várias explicações, tais como o facto de largas faixas da população terem nascido já em democracia e não imaginarem o que foi viver em ditadura… Também terá importância o facto de se ter verificado uma grande alteração na escala dos valores que hoje orientam a vida em sociedade e, portanto, uma profunda alteração nas suas preocupações; a gente jovem tem outra mundividência porque nasceu noutro tempo. Um exemplo: antes do 25 de Abril, perante o nascimento de um rapaz, alguém dizia, imediatamente, “mais um soldado para a Guerra em África”; hoje, quando nasce uma criança, ninguém pensa no serviço militar.

No meio do turbilhão político que se seguiu ao 25 de Abril, nos Açores veio à superfície um fenómeno particular: o movimento em defesa da independência ganhou protagonismo. Assisti de longe às movimentações políticas em torno deste fenómeno, uma vez incrédulo, outras espantado e outras, ainda, reagindo com um sorriso irónico, como quando li, num jornal do Continente, o nome de um amigo meu como sendo figura importante dos independentistas. Ora numa conversa telefónica tida dias antes ele tinha-me contado que, numa visita recente a Lisboa, tinha chorado ao ver as estátuas de grandes figuras nacionais, como a do Marquês de Pombal, pichadas com slogans e perguntava-me: “como é possível um tal desrespeito pelos monumentos nacionais?” Segundo o jornal, porém, o Avelino, é o nome do meu amigo, era figura grada dos independentistas!

Mas como quer que seja, o fenómeno existiu e, como acontece tantas vezes, depois de um momento em que a sua manifestação pública foi mais intensa, parece ter desaparecido, ou pelo menos não ter impacto na vida açoriana. Ainda bem, porque quando a paixão política se exacerba e radicaliza, as coisas podem tornar-se insuportáveis.

Vem isto a propósito de independentismo catalão. A partir de 2000 a minha vida académica levou-me várias vezes a Barcelona para reuniões e júris de doutoramento. Da primeira vez aconteceu-me uma coisa que hoje posso considerar premonitória. Estava eu a conversar em espanhol com um colega da Universidade de Barcelona, quando chegou outro barcelonês; imediatamente os dois começaram a falar em catalão. Fiquei admirado e a minha cara deve ter mostrado essa estranheza. Os dois catalães, apercebendo-se, justificaram-se: “sabes, isto é automático; se um catalão aparece, falamos imediatamente na nossa língua”.

Só mais uma estória. Uma das vezes em que fui participar num júri de doutoramento, significativamente a tese estava redigida em catalão. No fim das provas, seguindo a praxe, o presidente de júri deu a palavra ao orientador da tese. Curiosamente o professor começou o seu discurso dizendo lamentar não poder expressar-se em catalão “porque seria a língua em que, em termos afectivos, melhor podia expressar a sua admiração pelo candidato e pelo trabalho apresentado”; mas que iria falar em espanhol, “porque um dos membros do júri não falava catalão”.

Para além do conhecimento da Catalunha que as minhas idas lá me permitiram, fui acompanhando pela imprensa as movimentações políticas dos últimos tempos. Contudo fiquei surpreendido quando, uns dias antes do Natal, recebi um mail de um amigo a desejar as Boas Festas e a informar-me de que, a partir do fim do ano, passaria a ter outro endereço porque iria emigrar com a família. Escrevi-lhe a desejar as maiores felicidades e a dizer da minha surpresa com a notícia. A resposta, que não demorou, foi esclarecedora: “cansámo-nos de viver na Catalunha, onde o clima político, social e cultural é irrespirável em consequência do movimento independentista que é extremamente intolerante e desrespeitoso do Estado de Direito. Em Maio chegou-me uma proposta de uma universidade […] com a qual colaboro há muitos anos, e aceitei”.

Fiquei admiradíssimo com a explicação. Não pensem que este meu amigo é um espanholista; antes pelo contrário, é um orgulhoso catalão. Quando uma vez planeávamos uma reunião para Madrid e alguém sugeriu o agendamento para 11 de Setembro, ele reagiu dizendo: “esse é o dia da Catalunha, não posso sair de Barcelona”.

Até onde chegou o radicalismo dos independentistas catalães! Felizmente que nos Açores o independentismo não teve uma evolução semelhante. Hoje é evidente que há açorianos defensores da independência, embora em número reduzido, e manifestam esta sua opção no espaço público, mas são manifestações civilizadas e respeitadoras da democracia e do estado de direito. Felizmente!