Mal-Amanhados - Novos Corsários das Ilhas

 

 

 

A 19 de Abril, Onésimo Teotónio Almeida informava um grupo de amigos da exibição, pela RTP-Açores, da série que dá o título a esta crónica, cujos guionistas e apresentadores, Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges, não conheço pessoalmente. O mail, com a indicação do site, terminava dizendo: “vi e gostei”. Como para mim os Açores são uma paixão, parei com o que estava a fazer (a aposentação permite estas liberdades) e, para ver num ecrã maior, liguei para a RTP-Açores e procurei o episódio que tinha ido para o ar a 16. 
Gostei, gostei muito! O primeiro episódio, dos nove anunciados, é sobre a ilha do Pico. Logo na entrada se percebe a razão de ser de parte do nome da série, “Novos corsários das Ilhas”, inspirado no título do livro de Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas, de que tenho uma primeira edição e que já li não sei quantas vezes. A letra da canção genérico da série, e o texto narrado em off que se lhe segue, apontam para a motivação dos guionistas e para os objectivos que pretendem alcançar: mostrar uns Açores especiais pela sua geografia, pelo seu clima, pela sua história e pela paixão arreigada que os prende às Ilhas. São anunciados nove episódios. Antes de começar a narrativa propriamente dita, uma citação de Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão, obra referida em todos os episódios já transmitidos. Aliás, a presença da literatura é uma constante.
Há um esquema que se repete em cada programa: várias entrevistas, que nos permitem conhecer a ilha tema de diversos pontos de vista:  geográfico, histórico, cultural, musical, paisagístico, populacional e gastronómico; são sublinhadas as suas especificidades, que a distinguem e, simultaneamente, a relacionam com as restantes ilhas do arquipélago. São revelados, assim, aspectos que podem surpreender muitos telespectadores, como o facto de existirem, entre a população residente em cada ilha da Região, vários estrangeiros. Por exemplo, quem diria que nas Flores (5º episódio), uma das ilhas mais pequenas, com uma população a rondar os 3500 habitantes, vivem pessoas de 12 nacionalidade diferentes? Quem imaginaria que, em São Jorge (7º episódio), vive com a esposa um filósofo, pintor e músico holandês, que toca viola da terra e faz transcrições da obra do famoso maestro e compositor jorgense Francisco de Lacerda? Quem podia imaginar que nas Flores e no Corvo (6º episódio) residem cientistas a fazer investigação? Alguns depoimentos são notáveis, como o de Manuel Costa, director do Museu dos Baleeiros, sobre o Pico, e o de Gabriela Silva, escritora, sobre as Flores. 
Em quase todos os episódios se faz uma referência à baleação, o que mostra como a caça à baleia fazia parte integrante da vida dos açorianos até à sua proibição na década de oitenta. Outro aspecto bem sublinhado é o fenómeno da emigração. Não há um açoriano que não viva esta realidade, quer permanecendo nas ilhas, quer partindo. No episódio sobre as Flores, há uma entrevista a um casal americano que explica que veio à procura das raízes da família. Aliás, este é um fenómeno frequente: descendentes de emigrantes açorianos de 2ª ou 3ª geração, que já nem falam o português, que regressam aos Açores para verem as ilhas dos pais e avós. Vários dos entrevistados saíram, viveram anos nas Américas e regressam; uns, anualmente para férias; outros para viverem o resto da vida.
Gostei de todos os episódios. O objectivo dos autores-apresentadores é o de mostrarem uns Açores que escapam a quem vai às ilhas e as vê numa correria desenfreada. Como eu disse a um amigo: “os autores tentam mostrar cada ilha aos açorianos das outras e aos não açorianos que pensam conhecer a Região, com a intenção de lhes mostrar coisas menos conhecidas, mas muitos importantes. Não se trata, pois, de mostrar as ilhas para turista ver a alta velocidade e que, muitas vezes, nem tempo têm para se aperceberem dos diversos matizes do verde açoriano”.
As referências à literatura são constantes. São vários os escritores entrevistados e são projectadas várias citações de Raul Brandão e de Victor Rui Dores, que conheci por um feliz acaso numa ida às Ilhas do Triângulo para fazer uma conferência no Pico, autor de “A Arte de Ser Terceirense”, texto que retrata esplendorosamente o modo de ser do “rabo torto”. Que me lembre, e contrariamente ao que esperava, poucas são as referências a Nemésio. É verdade que o livro de Raul Brandão é um clássico, mas Vitorino Nemésio, com Corsário das Ilhas e Mau Tempo no Canal onde, como alguém dizia: “estão lá os Açores todos” e, em verso, Festa Redonda e Sapateia Açoriana, talvez merecesse estar mais presente. Reconheço, contudo, que não se pode citar tudo e que cada um tem as suas preferências no que respeita a escritores. Como é fácil de concluir, pelo que fica dito, tenho uma enorme admiração pela obra nemesiana. 
Estou a gostar imenso da série. Conheço quem não tenha uma apreciação tão positiva como a minha. É verdade que sempre se pode perguntar por que se entrevistou fulano e não sicrano, por que se colocou tal música e não outra, por que se optou por este enquadramento e não por aquele; pode sempre dizer-se que uma saída ou comentário dos apresentadores não foi muito feliz. Mas em geral a série é muito boa e vale a pena ver e rever.