A filosofia e as ciências nos Açores

 

 

 

 

Sou amigo do Professor José Luís Brandão da Luz desde o nosso tempo de estudantes, inícios dos anos 70, na Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica. No ano lectivo de 1977/78, fomos colegas no estágio pedagógico, na Escola Secundária António Nobre, no Porto. Terminado o estágio, regressei a Braga e comecei a leccionar na Faculdade onde nos tínhamos formado. Ele, por sua vez, pouco depois regressou à sua ilha natal, São Miguel, e começou a sua carreira docente na Universidade dos Açores. Dessa época recordo uma conversa com o Prof. Gustavo de Fraga a seu respeito.

Num encontro sobre Fenomenologia, na Casa da Torre, em Soutelo, perto de Braga, que reuniu os grandes fenomenólogos portugueses responsáveis pela entrada dessa corrente da Filosofia em Portugal: Maria Manuela Saraiva, Gustavo da Fraga, Júlio Fragata e Alexandre Morujão, aproveitei um intervalo para falar com o Professor Fraga sobre a Universidade dos Açores. Quando o nome do Brandão da Luz veio à baila, o Professor, seu orientador das provas de aptidão pedagógica e capacidade científica, disse-me que estava preocupado, porque nada sabia do andamento dos trabalhos. Respondi-lhe: “Não se preocupe, Professor. No prazo estipulado, o Brandão da Luz vai apresentar-lhe um excelente trabalho. Pode ficar descansado!” Foi o que aconteceu.

Embora de longe, fui seguindo a sua carreira: o doutoramento, com a tese Jean Piaget e o Sujeito do Conhecimento [Lisboa: Instituto Piaget, 1994], as provas de agregação, que estiveram na origem do seu livro Introdução à Epistemologia. Conhecimento, Verdade e História [Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002], os cargos desempenhados, entre eles o de vice-reitor de 2003 a 2011. Quando se aposentou, coordenado pelas Professoras Maria Gabriela Castro e Magda Costa Carvalho, foi publicado o livro Horizontes do Conhecimento, Estudos em Homenagem a José Luís Brandão da Luz [Ponta Delgada: Letras LAVAdas, 2015], a que me associei com um estudo sobre a problemática da tolerância.

A leccionação e os cargos desempenhados ao longo da carreira não impediram o Professor José Luís Brandão da Luz de publicar os resultados da sua investigação. Felizmente saiu há pouco um primeiro livro, com o título Os Açores na Filosofia e nas Ciências. Estudos I [Letras Lavadas Edições, 2019], em que reúne vários dos seus textos dispersos por revistas e obras colectivas. Os estudos, de excelente qualidade, convergem “no estudo de autores que, na segunda metade do século XIX e começos do século XX, trouxeram para o debate público uma reflexão em torno das concepções e temas ligados à filosofia positivista e ao seu combate, assim como ao desenvolvimento da investigação científica” (p. 7). Com esta afirmação o autor formula com clareza o objectivo que pretende alcançar com os ensaios sobre diversos autores açorianos: mostrar como eles construíram uma visão positiva e utilitarista do homem e da sociedade, incrementaram os estudos etnológicos e antropológicos, criticaram a religião e divulgaram os ideais republicanos que levaram à instauração da república (p. 7).

Os estudos debruçam-se sobre a obra de oito autores: Manuel de Arriaga, faialense, Teófilo Braga, Arruda Furtado, Eugénio Pacheco, Caetano Andrade, Sena Freitas, Antero de Quental e Francisco Machado de Faria e Maia, todos micaelenses. Os mais amplamente estudados são Teófilo, com sete ensaios (pp. 9-96 e 161-181), e Sena Freitas, com três (pp. 253-317). Há um ensaio, com o título “Sena Freitas e Teófilo Braga na imprensa regional” (pp. 319-329), que trata dos dois. O último texto do livro, com o título “Elementos para uma Mundividência Naturalista nos Açores” (pp. 349-359) é uma espécie de vista panorâmica das ideias fundamentais dos autores tratados.

Os ensaios aqui reunidos são de inegável interesse para o conhecimento do pensamento português, porque os autores estudados são importantes quer pelo que escreveram, quer pela sua actividade cultural, política e científica. Embora alguns deles estejam hoje injustamente esquecidos, como Teófilo Braga e Manuel Arriaga, a leitura das suas obras é imprescindível para uma melhor compreensão do ambiente cultural, social e científico do fim do século XIX e início do XX português e os movimentos para a autonomia dos Açores. Para além disso, permitem conhecer o interesse pela investigação científica de vários açorianos, cujas publicações por vezes não se ficaram por Portugal.

Como referi acima, dois autores ocupam lugar de destaque, quer pelo número de textos a eles consagrados quer pela sua extensão: Teófilo Braga e Sena Freitas. O primeiro, “a mais importante referência portuguesa da filosofia positivista” (p. 255), que defendia que o conhecimento científico e experimental devia ser o paradigma de todo o conhecimento, pensamento esse que resgataria o país do atraso a que tinha sido votado, e o segundo que, embora enaltecendo as ciências, foi, talvez, o mais encarniçado anti positivista português, defendendo a metafísica e combatendo o materialismo e os ataques à religião que, em sua opinião, caracterizavam o positivismo. Brandão da Luz estuda-os com a maior atenção, rigor e distância crítica, sublinhando o que cada um trouxe de positivo para o debate filosófico. Por exemplo, reconhece o contributo do positivismo para o avanço do pensamento mas, tal como Antero – o texto consagrado a este pensador é notável (pp. 331-338) – o autor sublinha que o positivismo naturalista não chega para as preocupações filosóficas, que não dispensam uma metafísica; a simples descrição da sucessão dos factos não permite a compreensão terminal e perfeita da realidade. Como Brandão da Luz mostra, concordando com Antero, o conhecimento científico não atinge a problemática da liberdade e da consciência moral, só acessível à especulação da razão. Essa capacidade de juízo crítico do autor encontramo-la em todos os estudos, cuja qualidade literária é também de sublinhar.

Estamos perante um livro fundamental para o estudo do positivismo em Portugal. Além disso, permite constatar que, no século XIX e inícios do XX, os Açores, concretamente São Miguel, tiveram uma plêiade de homens de indesmentível qualidade intelectual.