A Covid-19 e a economia

 

 

 

Em 2019, da Terça-feira do Espírito Santo à Segunda-feira da Trindade, fizemos, a minha mulher e eu, umas férias inesquecíveis em São Jorge. Logo que regressei ao Continente, pus-me a congeminar um programa semelhante para este ano de 2020. A ideia, que foi ganhando forma na minha cabeça, era regressar aos Açores, mas desta vez iríamos para o Pico. À semelhança do que tínhamos feito o ano passado em São Jorge, percorreríamos a ilha toda e daríamos um salto ao Faial. Nas minhas visitas à Ilha Montanha, a volta tem sido sempre sair da Madalena na direção das Lajes, com paragem obrigatória em São Mateus, que visitei pela primeira vez em 1958, atravessar a ilha das Lajes para o Cais do Pico e, daí, seguir para a Madalena. Por exemplo, nunca fui à Calheta de Nesquim que há muito sonho visitar. Enquanto ia congeminando o plano, ainda fui à procura da data do Domingo da Trindade em 2020, para avaliar a possibilidade de dar um salto a São Jorge, porque tinha um convite para ir às sopas à Calheta. Fui acalentando o projecto até que, em Dezembro, chegou a notícia do aparecimento da Covid-19 na China e, no dia 2 de Fevereiro noticiaram o primeiro caso de SARS-CoV-2 em Portugal. Foi o fim do sonho; abandonei a ideia de fazer qualquer viagem em 2020. Iniciámos uma vida atípica que não sabemos quanto tempo vai durar. As preocupações com a saúde pública levaram ao confinamento em casa de largas fachas da população e a uma travagem abrupta da actividade económica; a vida, praticamente, parou. Tudo quanto implicasse aglomeração de pessoas foi suspenso ou proibido. Poucos foram os sectores ligados à economia que continuaram a laborar. Só o sector da saúde se desdobrou no combate à pandemia. 
Ninguém duvidou de que a prioridade devia ser dada ao problema de saúde pública; tornou-se, contudo, evidente que esse combate devia ser articulado com a necessidade de repor em andamento a economia, cuja travagem a fundo era impossível manter.
Entretanto chegou o Verão e a vida anómala, trazida pela pandemia, continuou e continuará; ninguém sabe até quando. Por outro lado, a degradação da economia tornava-se evidente. Hoje, praticamente todos os dias, a imprensa fala de situações que marcam a vida de muitos portugueses: a perda de rendimentos, os despedimentos, a começar pelos contratos a prazo, há sectores de actividade económica que tardam a recomeçar. Não há economista, independente ou ligado a partidos, que não diga que a situação é gravíssima e que se vai prolongar. A falta de robustez das nossas empresas veio à superfície: mais de 90 por cento do tecido empresarial do país é constituído de micro e pequenas empresas e, muitas delas, não têm tesouraria para manterem os seus compromissos à mais leve crise que surja.
Com o Verão, tornou-se evidente a quebra da actividade ligada ao turismo: hotéis, restaurantes, esplanadas e praias tinham uma actividade quase nula. Tenho família chegada que trabalha no Algarve; na primeira quinzena de Julho perguntei como é que estava o turismo por lá, a resposta foi clara: “nem parece Verão! Em Vilamoura ainda se vê alguns turistas mas, de resto, parece que estamos no Inverno”. Hoje há sinais de melhoria, embora nada que permita pensar-se numa recuperação que salve o ano.
Aqui no Norte, no Conselho de Esposende, onde há muito passo férias, a situação não é melhor. Não posso dizer que pareça estarmos no Inverno, mas restaurantes, cafés, esplanadas estão bastante vazios. No início de Agosto, fui com minha mulher ao restaurante de um excelente hotel de Ofir. A sala ampla tinha apenas seis mesas ocupadas. 
Pelo que sei, a situação nos Açores não é melhor. Nos últimos anos, a aposta da Região no turismo foi grande. Em Agosto de 2017 passei umas férias na Terceira com toda a minha família; havia turistas por todo o lado. Encontrei o meu amigo Mário Rego, um guia turista de eleição, que me contou ser já frequente encontrar filas à entrada do Algar do Carvão. Acrescentou que na Terceira havia 1200 carros de aluguer sem condutor e nenhum estava disponível.
Há uns dias, a SIC fez uma reportagem sobre ao Açores. Na promoção dizia-se que era sobre os Açores, embora só tenham falado de São Miguel. Todos os entrevistados reconheceram as enormes dificuldades que estão a viver: os donos das estufas de ananases abertas a visitas, os directores dos hotéis, os proprietários de restaurantes e cafés, os empresários ligados ao Rent-a-Car e quem investiu no alojamento local. Conclui que, apesar da promoção que o Governo Regional tem patrocinado, o Verão em São Miguel não vai deixar saudades.
Quando o programa acabou, pensei: se é assim em São Miguel, o que será nas restantes ilhas? Nem de propósito, logo no dia seguinte falei com o meu amigo Francisco Ferreira, Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória. Eu sabia pela imprensa que estão suspensas as tradicionais festas que, com as touradas, animam o Verão terceirense. Mas o Francisco apontou-me casos concretos que permitem perceber a gravidade da situação. Referiu o caso das pessoas, e não são poucas, proprietárias de tascas que correm as touradas e ganham durante o Verão para viverem no Inverno. E acrescentava: “essas pessoas estão a viver do dinheiro ganho o ano passado; quando esse pé de meia acabar, de que é que vão viver?” Recordei-me, então, de uma conversa tida com um amigo há bastantes anos sobre a importância económica das touradas à corda na Terceira; foi me dito que, em termos económicos, só havia um sector com maior importância na ilha: o dos supermercados. 
Qual será o impacto da actual situação nas restantes ilhas, São Jorge, Pico, Faial, Flores, Corvo, Graciosa e Santa Maria? Recordando o que vi na série “Mal-Amanhados - Novos Corsários das Ilhas”, qual é a situação dos guias turistas, dos proprietários de Alojamento Local, dos hotéis, dos restaurantes, do Rent-a-Car, e tudo o que está ligado ao turismo? A situação actual e a que o futuro nos reserva não são fáceis… 
Talvez seja o momento de os responsáveis pensarem a sério na indispensável diversificação da actividade económica da Região. A história mostra-nos que houve épocas em que se dependeu praticamente de um só produto, e que isso não foi bom. Não é conveniente que os Açores continuem a viver quase em excluso da monocultura da vaca e do turismo.