Vamos Ler, de Eugénio Lisboa

 

Nunca se publicou tanto em Portugal como agora; o Plano Nacional de Leitura é uma realidade e os seus responsáveis têm feito tudo o que podem para fomentar hábitos de leitura; o número de bibliotecas públicas cresceu muito e por todo o território nacional, mas os portugueses continuam a ler pouco; as estatísticas ainda não nos colocam num lugar honroso nos rankings. 
Há pouco tempo, numa troca de mensagens sobre este tema com o meu colega e amigo José Emílio Pedreira Moreira, num anexo a um email, ele enviou-me um artigo de 2015 em que apresentava dados sobre o tema: “[d]e uma amostra de 2552 entrevistados de ambiente urbano, em 2007, 83% liam jornais, 73% liam revistas, 57% liam livros, com destaque para o setor feminino que escolhe preferencialmente romances de amor e autores contemporâneos. Nos homens, a maior percentagem lia jornais». Na minha reacção, comentei que os números apresentados não eram maus, mas pareciam-me exagerados porque, se é certo que não tinha dados estatísticos para contrapor, na vida diária constatam-se elementos que levam a considerar excessivos aqueles números. E dei exemplos: quando vamos a um consultório médico, quando viajamos nos transportes colectivos (autocarros, comboios, metropolitano), quando entramos num café, passeamos num jardim ou aguardamos numa paragem de autocarro, são raríssimas as pessoas que vemos a ler. Hoje, muitas andam às voltas com o telemóvel, a acompanhar redes sociais ou a jogar. Quem frequenta redes sociais evidentemente lê, mas não é este tipo de literatura que contribuirá para elevar o nível cultural dos portugueses.
Vem isto a propósito do livrinho de Eugénio Lisboa Vamos Ler. Um Cânone para o Leitor Relutante [Lisboa: Guerra e Paz, Editores, 2021, 132 pp.], cujo objectivo é, como diz o título, conquistar para a leitura pessoas sem esse hábito. Eugénio Lisboa sublinha bem que não apresenta os autores e obras que considera serem os melhores, os mais importantes da história da literatura portuguesa, mas aqueles mais eficazes para a criação de hábitos de leitura. Sendo este o objectivo, compreende-se que a lista seja relativamente curta e evite autores ou textos difíceis. Como o escritor comenta: “não é com vinagre que se apanham moscas” (p. 21), o que o obrigou a deixar de fora muitos autores e obras dignas de nota, mas que não contribuiriam para o propósito do livro.
Quem analisar os autores e obras constantes do cânone, por certo recordará boas e más experiências pessoais. Muitos recordar-se-ão do modo como se confrontaram com os Lusíadas. Para mim e para os meus colegas de turma do secundário, a experiência não foi muito feliz. O nosso professor era pouco sensível à poesia, épica e lírica, de modo que passávamos grande parte das aulas a dividir orações, à “caça” dos “ques” e a ouvir o professor comentar: “como vocês estudam latim a sério (estávamos no seminário), este exercício é fácil”. Penso que agora a abordagem ao Poema não será tanto assim, embora os comentários, há dias, da minha neta mais velha, me tenham suscitado dúvidas. 
Se pretendemos criar gosto pela leitura, temos de calibrar as dificuldades. Não é colocando, fora de tempo, nas mãos de alguém, a poesia de Vitorino Nemésio como, por exemplo, Nem Toda a Noite a Vida ou O Verbo e a Morte, ou um romance de Aquilino Ribeiro, com o seu vastíssimo vocabulário, que vamos conquistar novos leitores. Por isso o autor de Vamos Ler previne: “[e] uma coisa prometo já: não fazer batota. Não vou fingir, para armar ao pingarelho, que é com o Auto da Alma, de Gil Vicente, ou com a poesia de Herberto Hélder ou com o Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, que eu vou aliciar para a leitura o candidato renitente ou meramente hesitante” (pp. 48-49).
Para despertar no leitor o gosto pelos livros, Eugénio Lisboa conta a história que fez dele um devorador de livros. Nessas páginas vamos encontrando imensa informação sobre livros e autores, até que, nas páginas 79-82, temos o cânone: 35 autores e 50 obras. Os dois primeiros autores causarão espanto a alguns: Miguel Sousa Tavares (Obra: Equador, romance) e Rosa Lobato de Faria (Obra: Prenúncio das Águas, romance). Nunca tive na mão o romance de Rosa Lobato Faria, mas o de Miguel Sousa Tavares li de um fôlego (são 518 páginas) e com gosto; é uma história bem urdida e bem contada, num português exímio e agradabilíssimo. Há livros considerados por Eugénio Lisboa como “lixo”, e dá exemplos (p. 85), mas os de Sousa Tavares e Rosa Lobato de Faria não são e, em seu entender, podem despertar o gosto pela leitura. Tem razão! 
A lista, em termos de correntes literárias, é variada e, na ordem cronológica, vai de contemporâneos, como os já referidos, até Camões, o último da lista (obra: Sonetos). Em relação a cada autor, Eugénio Lisboa apresenta uma sucinta biografia e uma breve análise de cada uma das obras elencadas. Não poderei falar aqui de todos os autores e obras; apontarei apenas nomes talvez menos conhecidos, pois que escritores como Almeida Garrett, com as Viagens na Minha Terra, e Eça de Queiroz, com Contos e Notas Contemporâneas seriam de esperar.
Maria Judite de Carvalho (Tanta Gente, Mariana), Soeiro Pereira Gomes (Esteiros); José Régio (Histórias de Mulheres, O Príncipe de Orelhas de Burro e Nunca Vou por Aí. (Eugénio Lisboa é um grande especialista da obra de Régio e tem um livro fabuloso sobre o escritor: José Régio. A Obra e o Homem. 3ª Edição. Guimarães: Opera Omnia, 2019); Bocage (Sonetos) e Padre António Vieira (Sermão de Santo António aos Peixes) são alguns dos escritores e obras propostas.
A escrita de Eugénio Lisboa é de grande qualidade, num português desenvolto, sem medo de opinar, embora sabendo que em literatura, melhor, em termos de cultura, não há certezas como as que povoam, ou pensamos povoar, o mundo da ciência, segundo ele mesmo dizia há tempos numa crónica. 

Vamos Ler. Um Cânone para o Leitor Relutante é um livrinho que vale a pena, entre outras razões, porque nos ajuda a fazer opções no meio de um mundo de livros e autores em que escolher não é fácil.