À Sombra da Saudade

 

A Comunidade da Califórnia: Vivências sem Interferências

 

A Califórnia não é um estado qualquer!  Faz parte dos Estados Unidos da América desde setembro de 1850.  Se fosse um país independente seria a quinta economia mundial. Tem o mais avançado centro da tecnologia mundial no Silicon Valley, o celeiro dos Estados Unidos no San Joaquin Valley,  a importante indústria da vitivinicultura do Vale de Napa (e outras regiões),  o mundo do entretenimento em Los Angeles, e uma das cidades mais bonitas e mais aprazíveis dos Estados Unidos, San Diego. Isto para não se falar nas belezas pomposas das gigantescas e milenárias árvores redwoods, da magia de Yosemite, da deslumbrante Lake Tahoe, da majestosa Sierra Nevada, da vertiginosa zona de Sonoma e do fascinante deserto Death Valley.  Mas acima de tudo é um estado multicultural, em que o progresso dos direitos cívicos tem tido pujança, em que uma população, vinda, literalmente, de todos os cantos do planeta, se tem reinventado. Se as belezas naturais e os avanços progressistas são sinónimos deste estado, as suas gentes, o seu multiculturalismo, dão-lhe a mais graça.  Um estado colossal, com alguns dilemas, também gigantescos, mas no seu cerne, ainda continua a ser uma utopia em construção.

No meio de todos os triunfos e desafios que a Califórnia tem vivido, e sempre viverá, cá estamos, os portugueses dos Açores, emigrantes e sucessivas gerações vivendo dispersos por todo este estado e construindo para o seu crescimento, económico, social e cultural.  Apesar de sermos uma gota num vasto oceano, numericamente falando, a realidade é que temos tido uma forte presença em muitas regiões e em muitos setores do mundo californiano.  Hoje, as novas gerações, descendentes de emigrantes das ilhas dos Açores, com alguma presença também da Madeira e de Portugal continental, contribuem, no seu quotidiano, muitas vezes no anonimato (pelo menos no que concerne às vivências comunitárias) para o progresso deste nosso estado.  Estão no mundo empresarial (particularmente no setor agrícola e na pecuária no Vale de San Joaquim), estão no mundo da política (mais de 130 luso-eleitos na Califórnia segundo o CPAC), no mundo académico, com milhares de professores e administradores de origem portuguesa em todos os nivéis do ensino, entre outros.  A nossa presença, apesar de todos os esforços e alguns projetos interessantes, como o documentário de Nelson Ponta-Garça, ou as peças jornalísticas feitas pelo Diário de Notícias, ainda continua despercebida por uma grande parte do Terreiro do Paço.  E Portugal só perde com esse desconhecimento. Porque em muitos casos, em vez de ajudar, atrapalha! 

Na realidade desde o século XIX que os emigrantes portugueses, quase todos dos Açores, têm feito a Califórnia a sua casa.  Constroem as suas vidas, plantam as suas raízes e manteem com a sua terra, mesmo nas segundas, terceiras e sucessivas gerações um cordão umbilical único, que apesar de metafórico, é genuíno.  E essa ligação é muito mais íntima com a Região Autónoma dos Açores.  E é perfeitamente compreensível, por razões que se conhecem, a passagem das histórias das ilhas de geração em geração e o cuidado que os sucessivos governos dos Açores, têm tido com as suas comunidades. A proximidade, diria mesmo a intimidade e o cuidado que os governantes açorianos têm tido com as suas comunidades são exemplos que a governação central deveria olhar, refletir e sobretudo aprender.  Nota-se, para quem quer ir além do verniz que todas as visitas ilustram, uma maior proximidade e uma maior abertura das entidades regionais.  Quando falam com as comunidades usam linguagens que as comunidades compreendem e afetos que as comunidades sentem, mesmo uma comunidade tão distante como a da Califórnia. 

Portugal tem muito a beneficiar das suas comunidades, e não me refiro apenas às ditas remessas ou aos esporádicos casos de retorno.  A comunidade da Califórnia, desde o seu movimento associativo (particularmente as associações mais inseridas no mainstream) aos políticos com origens portuguesas (incluindo as centenas de jovens e menos jovens no serviço público não eleito), desde os empresários da agropecuária aos milhares de professores nas escolas e universidades deste estado, passando por tantas outras profissões e áreas do conhecimento, incluindo a nossa presença nas artes, na comunicação social, no mundo das organizações não-governamentais, entre outros setores, são formas diretas com que Portugal poderia ter outros benefícios. 

Para que tal aconteça, uma comunidade mais próxima de Portugal e um Terreiro do Paço mais perto da comunidade da Califórnia há alguns passos a dar, que até nem são muito difíceis.  E que terão que ser dados por ambas as partes. Temos exemplos, como existem aqui e no outro lado do atlântico alguns casos pontuais de sucesso, que precisavam ser replicados.

Na comunidade temos que apostar mais em conhecermos os nossos próprios valores.  Temos de gastar mais tempo na reflexão e na promoção, dentro e fora da comunidade, e estarmos bem conscientes da presença que temos por todo o estado. Temos de gastar menos tempo em críticas caseiras e juvenis, e mais tempo em unirmos todos os nossos esforços, todas as nossas sinergias para enaltecer os rebentos da emigração açoriana que por terras da Califórnia contribuem para o progresso californiano.  Temos de estar profundamente em sintonia com as nossas comunidades e darmos espaço aos nossos valores.  Por vezes temos este defeito de aceitar tudo o que vem de fora como tábua de salvação, quando sabemos de antemão a nossa salvação está no nosso seio.  Há muitos santos de casa a fazerem milagres.  E temos de ser nós, sempre nós, a darmos as cartas a quem nos visita, não com arrogância, mas com o conhecimento de causa.  Temos de exigir do Terreiro do Paço, do governo central e dos seus representantes, o respeito e o reconhecimento que nos é dado, em cada espaço, desde o autárquico ao regional, pelo governo dos Açores.  E as nossas palavras têm de ser coerentes com as nossas ações.  Fica-nos feio, e retira-nos a autoridade que temos como agentes vivos das nossas comunidades, quando nos vendemos por palavras ocas, por um lugar de destaque numa mesa de festa, ou pior ainda, por uma medalha.

No Terreiro do Paço, há que aprender com os Açores.  Há que respeitar que somos luso-descendentes, mas com raízes, profundas raízes, no arquipélago.  Há que ir além da condescendência que é aceite e talvez até bem-vinda por um segmento comunitário sequioso de mimos, (sejamos honestos, muitas vezes intelectualmente medíocre) que ainda existe nas comunidades, mas que as novas gerações, particularmente os mais integrados não toleram. No Terreiro do Paço há que compreender que a comunidade da Califórnia está integrada e as suas vivências com a terra de onde vieram, ou de onde vieram os seus antepassados, é diferente de outras comunidades.  Seria bom que os governantes portugueses entendessem que aqui não é lugar para discursos de pré-campanha.  E que as mesmas visitas aos mesmíssimos espaços, sem serem salpicadas das novidades que vivemos um pouco por todo o estado, não beneficiam, nem a comunidade, nem Portugal.   A conjuntura (palavra do dia em Portugal) comunitária é bem mais complexa e mais profunda do que se pode imaginar por quem nos visita de vez em quando, ou aqui está e não acompanha o nosso quotidiano.  Há na comunidade homens e mulheres que sabem pensar e traçar o destino comunitário, sempre dentro do mundo americano.  Cada comunidade é uma comunidade.  A realidade da Costa Leste, não é a realidade da Califórnia.  Os Açores conhecem, profundamente, essa diferença.  Espanta-me que haja entidades em Portugal, ao fim de tantos anos e tanto trabalho, não se tenham inteirado desse simples facto.  E abisma-me quando vejo elementos comunitários que euforicamente aceitam rótulos dados por quem não nos conhece, ou alegram-se quando perdemos a nossa autonomia e a nossa identidade comunitária em detrimento de poderes efémeros.  Os galhardetes são assim tão importantes?  

Para uns e para outros, o diálogo baseado no respeito mútuo, no conhecimento das novas comunidades, na aceitação da nossa própria identidade, no reconhecimento dos valores de quem conhece o terreno, são de suma importância para ambos, mas diria muito mais para Portugal.  Ouço, todos nós ouvimos, pela boca de várias entidades, que Portugal está na moda.  Fico muito feliz por isso, muito feliz mesmo.  Acho que todos ficamos, quem vive em Portugal e quem está na diáspora.  O que relembro, com todo o respeito é que, pessoalmente tenho muito medo de modas, porque modas passam. Mais, o que acrescento, particularmente porque a política tem tendência para memória curta, é que a comunidade da Califórnia (e acredito que em outras latitudes) sempre esteve com Portugal, mesmo quando o país não estava na moda.  O Portugal que se constrói e se vive todos os dias na Califórnia é muito mais profícuo do que o Terreiro do Paço e alguns líderes comunitários querem entender.

O destino da comunidade da Califórnia está, como sempre esteve, nas suas próprias mãos.  Portugal pode e deve ser um parceiro, mas as decisões devem ser sempre nossas.  A autonomia da comunidade da Califórnia, como as dos outros estados, deve ser respeitada.  Em termos de relacionamento e respeito pelo que se faz nas comunidades, o Terreiro do Paço tem muito a aprender com os Açores.