Em época festiva

 

 

 

Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga in Natal

 

Estamos em época de Natal e Ano Novo.  Está a terminar a segunda década do novo milénio.  Todos os anos há uma série de rituais que me acompanham.  Alguns mudam, como colocar luzes à volta da casa, algo que comecei após a morte do meu pai.  Ele que vivia esta época, intensamente.  Ou, comprar presentes para os netos.  Estas pequenas criaturas que são dos maiores e melhores presentes que a vida nos traz.  Outros, são rituais que têm a sua história, como ler o Miguel Torga.  Há muitos anos que sou leitor dos Diários do Torga.  Todos os anos, em cada dezembro, agora com as luzes e os presentes para os dois rebentos do meu rebento mais velho, folhei-os, releio as páginas, sublinhadas e anotadas, dos meses de dezembro e janeiro.  E todos os anos, descubro algo diferente, ou revejo frases, palavras, expressões, reflexões que me ajudam, a tal como ele escreveu: enfrentar os meus próprios fantasmas.

Estes dias de festa estão, como se sabe, repletos de clichés, cada vez mais populares, e que, infelizmente, são utilizados por todos os lados.  Se é verdade que se exagera nos cumprimentos natalícios e nos rituais da viragem do ano, como «única» quadra do ano para a reflexão.  Não é menos verdade que num mundo cheio de pressas ainda bem que há um espaço em que se fala de ponderação.  Algo que deveríamos cumprir quotidianamente.  A verdade é que raramente as sociedades reflectem com a profundidade que deveriam fazê-lo.

Daí que, se o Natal e o Ano Novo servem para essa reflexão, essa paragem momentânea, que não acontece no correr de cada dia, cada semana e cada mês, dir-se-á, Santa Época. E acompanhado, ou melhor, pela mão de Torga, aqui vão algumas pensamentos em espírito de Natal e Fim de Ano.

Primeiro, e acima de tudo, permitam-me exorcizar, em público, sobre os artigos que escrevo neste jornal.  Tenho trocado algumas impressões com as almas que os lêem, algumas almas.  Estou puramente consciente que, o que aqui reflicto, não é popular, e por vezes pouco ortodoxo para a nossa comunidade açoriana, além atlântico.  Estou ciente que a minha consciência política não alinha com uma grande parte da comunidade de origem portuguesa, particularmente os que querem ser americanos à força e peculiarmente na zona onde vivo.  Estou convicto que as interpretações aqui reflectidas, sobre temas que não deveriam ser polémicos, mas infelizmente ainda são, como: a justiça social, o racismo, a xenofobia, o capitalismo exagerado e sem regras, o mítico mercado livre, a perversidade da extrema direita, os abafos religiosos, a inércia comunitária, a incompetência cultural dos nossos pseudolíderes, etc., não são aceites para quem já é detentor de toda a verdade e não quer ir além do seu quintal.  Mas estes desabafos, estas confissões públicas, como as cognominou um dia uma pessoa conhecida, fazem parte de quem eu sou e como sou.  Daí que apego, mais uma vez, às palavras do mestre Torga, escritas a 22 de novembro de 1949:  Não rezo.  mas se rezasse, a minha prece seria esta: Dai-me forças, Senhor, para continuar a ter a coragem da franqueza absoluta.  Que não fique dentro de mim nenhuma palavra oculta por cobardia.  Que a minha pena seja o meu coração a deixar no papel o gráfico de todas as suas pulsações.  E que os meus livros me testemunhem como retratos sem nenhum retoque, fiéis e terríveis como a própria verdade.

Segundo, tudo o que escrevo e digo, sobre os temas supracitados, são produto de leituras, pesquisas e observações.  Todas as colunas são pedaços de uma vida que é de um mero aprendiz e que, acima de tudo, vive com o desejo constante de termos um mundo melhor, agora não só para os meus filhos, mas também para duas crianças que são os “meninos-jesus” da minha vida de avô babado.  É que acredito, veementemente, que se a humanidade quisesse teríamos um mundo muito mais justo, muito mais pacífico, muito mais livre e daí, muito mais feliz.  Daí que o que reflicto vem de olhar ao mundo, de deixá-lo entrar como ele é, interiorizá-lo, e quere-lo muito mais humano.  E isso jamais mudará!  Essa forma que tenho de enfrentar o mundo (todos os mundos) faz parte da idiossincrasia que ando a construir desde a minha juventude.  É que tal como escreveu Miguel Torga: Peçam-me tudo, menos que tape os olhos.  Bem basta quando a terra mos cobrir.     

Terceiro, como tudo, tenho tido a felicidade, e a humildade, de separar as águas.  Ainda há dias falando com um amigo meu, do norte da Califórnia, num evento comunitário.  Amigo cujo nome infelizmente não posso citar, porque não lhe pedi autorização, dizia-me: discordo com quase tudo o que escreves sobre política e religião, mas respeito-te e concordo, totalmente, com o teu trabalho cultural.  Retorqui: a cultura está acima de tudo.  É que todo o meu trabalho cultural, tudo o que tenho feito (e tenho a noção que tem sido pouco, pouquíssimo mesmo) em prol da língua e cultura portuguesas, da açorianidade, embora parte integral do meu ser como cidadão, é um trabalho apolítico.  É um trabalho pelo nosso património coletivo de americanos de origem portuguesa, com raízes nos Açores.  O trabalho em prol da língua e cultura não tem política, nem possui religião, nem tem dono.  É um trabalho que só o vejo à luz da colectividade que somos como comunidade em que cada qual faz o que deve fazer, para que tenhamos a diáspora que todos sonhamos.  E eu tento fazer a minha parte, dou o que posso, embora seja uma mera minúscula, entenda-se.  É que tal reflectiu Torga: Ninguém pode ser autónomo da própria identidade.  Uma pátria é um contexto de afinidades.

Mais, acredito que as nossas comunidades têm o direito à cultura, em todas as suas nuances e todas as suas vertentes.  Acredito que a cultura deve ser democrática, aberta e arejada.  Não pode estar sujeita a mofos de sacristias ou a snobismos de académicos alfabetizados, académicos de ponto e vírgula como dizia um falecido amigo meu.  E aqui também Miguel Torga exprime-o muito melhor do que jamais poderia fazê-lo:  A arte é um direito de espírito, negado, sistematicamente, através dos tempos, às maiorias.  Por isso, só quando a cultura das massas se fizer, e todos dispuserem da mesma liberdade de anuência ou recusa às solicitações da beleza, ficaremos a saber de que acção é capaz na existência do comum dos mortais o fulgor dum sol que até agora apenas bateu à porta de alguns.

Aqui fica, neste jeito peculiar de estar na vida, a minha reflexão de Natal e fim de Ano para 2019.  Que vai com uma saudação afetiva para todos os leitores. Festas Felizes!