A comunicação social da L(USA)lândia: entre o poético e o real

 

Das múltiplas vertentes que constituem a nossa diáspora nos Estados Unidos, um dos aspetos mais cativantes é, indubitavelmente, a comunicação social em língua portuguesa ou sobre a comunidade de origem portuguesa. Os jornais, as rádios, a televisão, para além de serem tema de diversos artigos e estudos, têm sido autênticos defensores da identidade cultural do nosso povo. Se as comunidades açorianas dos Estados Unidos, concretamente os emigrantes, ainda se sentem ligados aos Açores, muito se deve ao esforço, à dedicação, e porque não, à carolice, de um número reduzido de homens e mulheres que se abraçaram à ainda nobre profissão de informar e formar. É que apesar das limitações com que são rodeados, os órgãos de informação das nossas comunidades açorianas, são as vozes de um povo que sem eles, estaria totalmente votado ao esquecimento.  

Com uma emigração que tem de um século e meio de história, as vivências açorianas nos Estados Unidos têm beneficiado, tremendamente, com a existência dos jornais, das rádios e das televisões. Não será mera apologia dizer-se que sem os nossos órgãos de informação as comunidades portuguesas em terras do Tio Sam seriam bastante diferentes. Ou será que ainda havia comunidades?   

Através dos anos foram os órgãos da comunicação social que interligaram as comunidades, que congregaram as forças vivas das suas respetivas zonas, que impulsionaram a criação de organismos sociais e culturais, onde o emigrante pudesse sobreviver e sentir-se gente, que nos deram a nossa própria voz e retiraram-nos do isolamento e da alienação a que estávamos sujeitos numa terra de ninguém, num mundo onde se era convidado ao esquecimento e à integração total. E se há alguma história dos emigrantes açorianos nos Estados unidos, devemo-la em grande parte à imprensa da nossa diáspora. Como escreveu Helder Pinho no seu livro sobre os portugueses no estado da Califórnia: “a imprensa lusa tornou-se, assim, um maravilhoso repositório para o estudo de todo o processo histórico dos portugueses no Pacífico”. Penso que o mesmo se poderá dizer acerca da costa atlântica dos Estados Unidos. 

No passado, os jornais e as rádios, eram o único contacto que o emigrante tinha com a sua terra. Tal como afirmou o poeta Urbino San-Payo no seu livro Os Portugueses da Califórnia, “como um dos agentes primários da reconstituição da vida e do mundo que ficou atrás, os jornais e as outras publicações representam o mais visual sustentáculo da preservação de todos os valores de origem”. Não nos esqueçamos que foram os órgãos de informação das comunidades, as cartas coletivas de um povo que apesar de todo o lirismo, na realidade, emigrou para ficar. A imagem que o emigrante manteve da sua terra foi-lhe fornecida pelos media de língua portuguesa.  Foram veículos relevantes que corroboraram no equilíbrio que o emigrante teve de manter: ora açoriano, ora americano. As rádios, como meio mais mediático, eram como um inseparável membro de família. Desde as campanhas de solidariedade social, aos recados musicais em épocas festivas, os programas davam ao açoriano rodeado de américa por todos os lados a afetividade que necessitava numa ambiência estranha.  Os órgãos da comunicação social davam-nos a possibilidade de viver a nossa terra, embora à distância.

Mas hoje as circunstâncias são bastante diferentes. Se por um lado as novas tecnologias permitem uma outra aproximação com os Açores, a comunidade também ultrapassa, pouco a pouco, o saudosismo do passado. Os desafios aumentam, e o futuro dos media portugueses na diáspora dependerá muito da imaginação de cada um, e de uma outra coesão com as forças representativas das próprias comunidades—as instituições sociais, desportivas, religiosas e culturais. É que apesar dos avanços tecnológicos, perdura a necessidade para que cada comunidade mantenha a sua voz. Mais do que nunca, os órgãos de informação das comunidades têm um papel fundamental na preservação da nossa identidade cultural. Não esperemos que sejam os jornais, as rádios e as televisões super-comerciais, propriedade dos grandes blocos económicos americanos, a defenderem a identidade cultural de uma pequena comunidade dividida nas duas costas do continente americano, e cada vez mais espalhada por outros estados.

Assim, um pouco por todas as esferas do multiculturalismo estadunidense, florescem pequenos projetos que pertencem aos grupos étnicos ou a grupos denominados “alternativos”. São, essencialmente, os marginalizados do globalismo e dos grandes interesses económicos. Tudo o que é contra a regimento impingido pelas pluricontinentais, e a desumanização do pós-modernismo, procura aquilo que os grandes meios da comunicação social americanos há muito não oferecem: um espaço onde possam expressar os seus princípios, o seu idealismo.  

Toda esta amalgama de imprensa alternativa, incluindo a étnica, vive graças à heroicidade dos seus corpos redatoriais e o quixotesco dos seus proprietários. A exceção reside na imprensa de língua castelhana, cuja hegemonia no mundo das segundas línguas nos Estados Unidos há muito cativou a alta finança da bolsa nova iorquina. Hoje, os latino-americanos têm o maior número de jornais, de rádios e de estações de televisão, mas em alguns círculos, perderam a sua voz. Se bem que as notícias, os programas e os jornais sejam em castelhano, como propriedade dos grandes consórcios, por vezes não passam de meras traduções literais das grandes redes de informação norte-americanas, subservientes ao sistema. A nossa salvação é que somos demasiado pequenos, numericamente falando, para interessar as grandes potências da imprensa americana, por enquanto. Não sejamos ingénuos, porque nada lhes escapa. É que, com todas as trivialidades que por vezes se passam pelos nossos meios de informação, temos a consolação de serem, as nossas trivialidades.

Penso que os novos desafios dos nossos agentes da informação nas nossas comunidades residem em como defender a complexidade da identidade portuguesa em terras americanas. A metamorfose que ocorre nas comunidades, é plausível nas várias esferas das nossas vivências quotidianas, quer individuais, quer coletivas. Na nossa diáspora norte-americana fala-se cada vez menos português. Para as segundas, terceiras, e sucessivas gerações, a língua em que comunicam é o inglês.  O português está reservado a dias de festa e por vezes apenas a uns escassos vocábulos exóticos ou eróticos, consoante a circunstância. Mais, entre os mais jovens, mesmo aqueles que falam algum português há muito que sonham em “americano”. Tal como disse há mais de 20 anos (em 1999) o antigo diretor do semanário Portuguese Times, o distinto amigo Adelino Ferreira, ao jornalista do Diário Insular para uma peça sobre a comunicação social na diáspora, “o interesse pela cultura portuguesa está a diminuir”. Acrescentaria, e pode parecer paradoxal, mas não é, existe menos interesse pela cultura portuguesa, em português.  

Ao entrarmo-nos na segunda década do século XXI, os açorianos, e seus descendentes, residentes nos Estados Unidos, há muito que têm acesso direto aos acontecimentos da sua terra ou terra dos seus pais ou avós. Com as redes sociais e todas as novas tecnologias, para quem queira, os Açores estão presentes nas suas vidas, todos os dias. Será que estas novas tecnologias tornam os órgãos da diáspora obsoletos? Diria, categoricamente, que não. Como já afirmei algures, o que terá de suceder é que os media das nossas comunidades terão de se parecer cada vez menos com os jornais e as rádios dos Açores e cada vez mais consigo próprios. Se o poético é ser-se como os da terra mãe, o real é que o nosso mundo da nossa diáspora já não é só os Açores.  

Há que investir, para usar um termo do mítico mercado livre americano, nas notícias, nas reportagens e na reflexão da comunidade. Há que criar o nosso próprio espaço político, cultural e literário. Há que olhar para os acontecimentos americanos com a perspetiva de portugueses, ou luso-descendentes, a residir no multiculturalismo americano. Há que olhar para as notícias dos Açores com a perspetiva de uma ligação que não é meramente afetiva e saudosista, mas sim como legado cultural. Para que os órgãos de informação da diáspora possam continuar a sublime missão de preservar a nossa herança cultural, terão de virar-se, cada vez mais, para as comunidades onde estão inseridos, sem esquecer aqueles que, por não comunicarem em português, continuam, manifestamente açorianos. Resta saber se tudo isto é economicamente viável. Essa é a grande questão.  

Mas as responsabilidades não estão assentes unicamente nos órgãos da diáspora. A comunicação social que é feita para os açorianos no exterior tem que ponderar estas realidades. Nessa ótica, que só em si daria para uma outra crónica, limitar-me-ei a afirmar que há que haver coragem, e ousadia, para que se passe do folclórico e do saudosismo para uma ligação cultural e linguística alicerçada no respeito, e no conhecimento das necessidades reais, e até mesmo poéticas de uma comunidade integrada na sociedade americana. Há que se cuidar da imagem dos Açores, especialmente a imagem cultural. Há que se levar os novos Açores à diáspora nas duas línguas. No caso da Califórnia, segundo os números dos American Surveys, baseados nos censos de 2000 e 2021, há que levar os Açores aos 33 mil membros da nossa diáspora em terras californianas que ainda falam português e há que levá-los aos 315 mil que se identificam como portugueses, quase todos dos Açores, mas que não falam a língua portuguesa. E a nossa comunicação da diáspora também tem que se ajustar a essa realidade.   

Há uma multitude de desafios, é certo, mas também existem muitas oportunidades.