Filamentos da Herança Atlântica: da tradição à inovação

 

 

 

Atlântico: o veleiro que somos

Vasco Pereira da Costa in Campo

 

A Diáspora Açoriana é um dado adquirido.   A presença de açorianos no mundo, e de uma forma particular no mundo norte-americano, Canadá e Estados Unidos, para além da geração emigrante tem marcado as regiões onde vivem, levando, simultaneamente, os Açores a esses mundos. Se é certo que marcámos outras terras e outras latitudes, o Brasil e o Uruguai entre outras, não é menos certo que a nossa presença nas Califórnias perdidas de abundância, do célebre poema de Pedro da Silveira há muito que marcam a idiossincrasia açoriana.  Ser-se açoriano no arquipélago, apesar de toda a modernidade e evolução que a Região viveu no passado recente, e ainda vive, continua marcada pelo contacto com o mundo americano.  Não apenas o mundo que entra por todos os lados, através da tecnologia, com o mal e o bem, mas pela ligação de um parente, próximo ou distante, que vive no outro lado do atlântico.  E estar-se na diáspora, mesmo com todas as raízes plantadas e regadas, com americanismos por todos os lados, é ter-se, mesmo com o processo de aculturação, o misticismo das ilhas de bruma dentro da nossa essência, independentemente das gerações e da geografia que nos separa.  A Diáspora Açoriana atravessa um momento único e seria um pecado mortal, pelo menos um grande regional, e contra tudo o que é açoriano não captar este momento e juntos transformarmos a Região e as Comunidades.   

Vivemos uma conjuntura em que as tecnologias nos aproximam e o mundo torna-se mais pequeno.  Numa época em que descobrir-se a ancestralidade é moda nos Estados Unidos.  Numa contemporaneidade em que a maturidade comunitária, que passou de gente que meramente fazia o trabalho que os outros não queriam, para profissionais competentes com os dois pés bem firmes dentro do mundo americano.  Numa atualidade em que ser-se ou ter-se raízes “nas ilhas” é motivo de orgulho.  Existem uma amalgama de circunstâncias que determinam, quer dos Açores, quer da Diáspora, uma maior concentração num relacionamento que ao levar os Açores ao mundo das novas comunidades, trará as novas comunidades aos Açores de hoje.   A Região não pode ficar para as novas gerações como um espaço de copos em dia de festa, nem a Diáspora para a Região como um espaço longínquo onde o emigrante imita a sua terra, comendo sopa do espírito santo com coca-cola, como escreveu algures o poeta Álamo Oliveira.  Os dois mundos mudaram, e nem um, nem o outro, devem ficar presos ao folclorismo que nos diverte.

Nas comunidades, como já o escrevi, se não queremos ficar para a história da Califórnia, e quiçá do resto do mundo americano, como um grupo bem-disposto, que dança a chamarita, come linguiça e bebe vinho tinto com abundância, teremos de sair dos nossos guetos e levar a dinâmica cultura açoriana, que não ficou parada no cancioneiro popular, junto do mundo que habitamos todos os dias, o mundo das nossas profissões, dos nossos amigos, das nossas vizinhanças, da nossa cidade.   Levar a cultura açoriana, o que se cria diariamente na literatura, nas artes plásticas, na música e no teatro, por exemplo, junto das novas comunidades, e porque não, na língua deles, no inglês, como ainda recentemente anunciou a Diretora Regional da Cultura, Susana Goulart Costa, sobre a revista CulturAçores.  Mais, é imperativo que levemos o mundo das novas tecnologias, da agricultura, dos produtos de alta qualidade que se produzem nos Açores, em variadíssimos ramos, junto das comunidades e do mundo americano.  É tempo que falemos dos Açores nas universidades da Califórnia, por exemplo, além da tradicional referência a Vitorino Nemésio e Natália Correia.  É tempo de estarmos em todos os departamentos do mundo académico, partilhando lado a lado, com muitos açor-descendentes as inovações da Região na tecnologia, na agricultura biológica, nas energias renováveis, na oceanografia, nos estudos sismológicos, nas novidades empresariais, na gastronomia moderna que se cria com sabores tradicionais, na vitivinicultura, enfim, nos mais variados estudos interdisciplinares, imperativos para o mundo de hoje.

Nos Açores há um esforço a fazer-se para se ir (e ainda bem que começamos a ver essa mudança em várias frentes) além da tradicional visita para promover uma saudade que já não é a mesma, para se promover um ciclo de festas ou um intercâmbio entre uma redundância tradicional que se repete sem criatividade.   Nos Açores há que entender-se, e diria com alguma urgência, que o mercado da saudade tem que, forçosamente, ser reforçado pelo mercado da herança cultural (cutural heritage) e orgulho étnico (ethnic pride) que está bem patente nos açor-descendentes, mesmo sem conhecerem as ilhas.  Não é fácil quebrar-se com tradições que podem trazer alguma efémera abundância de gente para a receção de uma entidade política ou grupo vindo da ilha em romaria pelas comunidades.   Nunca sugeria que cessássemos esses intercâmbios da cultura popular, pelo contrário, o que sugiro é que os mesmos, quando apoiados, por qualquer entidade pública ou privada, tenham, para além dos habituais espaços comunitários, um espaço dedicado ao mundo americano.  Uso como exemplo a Dança de Espada da freguesia das Lajes na ilha Terceira, que quando fez um périplo pela Califórnia, realizou uma atuação para mais de 900 alunos de uma escola americana, onde lá estavam os açor-descendentes, mas também estavam as outras etnias que compõem o mosaico humano americano.  Mas também trazer-se o que as comunidades não entendem como açoriano, as novidades nas artes.   

Quer num mundo, quer no outro, há uma amalgama de oportunidades para em conjunto criarmos a Região e a Diáspora que precisamos, para bem dos que ficaram e dos que partiram, neste último caso, das gerações descendentes dos que saíram.   Não tenhamos receio de sermos imaginativos!  Que em ambos os lados não tenhamos receio de sermos audazes.  Há anos atrás, ao debater as nossas comunidades com um amigo meu, ele gostava de me dizer: não se pode fazer omeletes sem ovos.  Retorquia-lhe, constantemente: há ovos, pode não ser os que queres, mas há ovos, porém nunca se fará a tal omelete se não partirmos os ovos.  Na realidade há uma série de idiotices sacrossantas, em ambos os lados do atlântico, que temos de desmistificar.  Ouço, repetidamente, lá e cá, que as comunidades estão diferentes, que os Açores estão diferentes, e concordo, plenamente.  A Diáspora é neste momento uma verdadeira diáspora, integrada, criativa, ousada em termos pessoais e profissionais, mas ainda muito tímida em termos culturais.  Só nos sentimos bem com as atividades que os nossos pais ou avós faziam.  E isso não basta.  Não é a diáspora que se quer, nem tão pouco a diáspora que o arquipélago precisa.  Nos Açores, sabemos que há um outro mundo na nossa diáspora que vá além da festa e da romaria e é esse que temos de atravessar, mas ainda andamos um bocado colados à tradição.  De parte a parte há que, sem menosprezar o que foi feito, e sem bater com qualquer porta, abrir novas portas, aquelas que sabemos estarem à nossa espera e onde estão a Diáspora e a Região do século XXI.

Tal como escreveu Vasco Pereira da Costa no belo poema que Atlântico que cito na epígrafe, é: impossível escandir a viagem.  Daí que a alma da Região está nos nove bocados de basalto no Atlântico Norte, mas também está partida e repartida pelas Américas.  São esses filamentos da nossa herança atlântica, salpicados por outras latitudes, comungando outras culturas e línguas, que em conjunto com o arquipélago, constroem a odisseia açoriana.