Eleições na América: A escolha entre o cataclismo e a esperança

 

“Não temos medo de confiar ao 
povo americano factos desagradáveis, 
ideias estrangeiras, filosofias externas, 
e valores competitivos. 
Uma nação que tem medo de deixar 
o seu povo julgar a verdade e a falsidade 
num mercado aberto é uma nação que 
tem medo do seu povo”.
John F. Kennedy 35º Presidente dos EUA
 
Já lá vai mais um ato eleitoral nos Estados Unidos.  Depois de meses de especulação, prognósticos, sondagens, insultos, e uma tonelada de “factos alternativos”, os americanos foram às urnas, votaram, e pelos vistos os resultados não são o que se esperava. Se é verdade que não foi a vitória que os Republicanos esperavam, e não foi, também não foi uma clara vitória para o Partido Democrático. Se considerarmos o apocalipse que os analistas haviam previsto para os democratas, estes resultados são encorajadores, porque mantêm o Senado (relativamente falando) e se perderem a Câmara dos Representantes, não será o desastre que o advento eleitoral prognosticou. Após a turbulência das últimas eleições, mais do que uma vitória decisiva para um ou outro partido, este ato eleitoral foi realmente a prova mais importante desde a Guerra Civil Americana para sabermos se o motor do sistema constitucional estadunidense, baseado na capacidade de transferir pacífica e legitimamente o poder, permanecia intacto. À primeira vista parece que a América passou esse teste, um tanto ao quanto pigmentado, mas passou.   
As narrativas pós-eleitorais são sempre perigosas, como escreveu o cronista Ezra Klein no New York Times: “são como um casaco luminoso que parece o traje perfeito quando o experimentamos na loja, só para provar que está tudo errado quando o vestimos para a próxima festa.” Na realidade as ilações que se tira, à queima-roupa, e sobre o joelho, após um período eleitoral, particularmente nos Estados Unidos, nem sempre correspondem ao quotidiano. A memória é curta na política, e os agitadores não desaparecem magicamente. O país, tal como o resto do mundo, continua a atravessar uma crise inflacionária, a classe política é cada vez mais incongruente, os analistas mudam de verdade consoante o clima e o cidadão comum sente-se cada vez mais desorientado e, francamente, cansado, com uma contagem de votos que, particularmente na Califórnia, nunca mais acaba. Quando se esperava que tudo estaria resolvido, uma semana depois das eleições, ainda não temos resultados definitivos, se bem, que está “quase certa” a vitória marginal dos Republicanos na Câmara dos Representantes, e outra vitória marginal dos Democratas no Senado, marginal, na câmara alta do sistema americano, porque há dois Senadores que nunca se sabe em que partido estão, apesar de serem do Partido Democrático: Joe Manchin e Kyrsten Sinema.
Correndo o risco de o casaco ter melhor aspeto na loja do que na festa, arrojo-me a vesti-lo para fazer uma leitura, que como todas está sujeita a ser ultrapassada amanhã de manhã, e que a faço em termos de possível mudança para o país. O caos que se previa para os democratas, e que não aconteceu, traz-nos a esperança de que os americanos, em estados azuis e estados vermelhos, prezam o seu sistema, que apesar de não ser perfeito, funciona e dá voz ao eleitorado. Sem entrar nas conspirações que abundam em ambos os lados da esfera política, mais à direita, como temos visto, acredito que o bom senso do eleitorado americano foi importante para tentar trazer alguma estabilidade à democracia e, possivelmente, uma narrativa política mais adulta e mais genuína.  Apesar de estar a léguas de distância de um momento em que acreditaria que jamais teríamos um político conservador ou uma força política dentro do Partido Republicano com uma plataforma baseada em negar os resultados das eleições, acredito que estamos em novo terreno e que pelos péssimos resultados obtidos pelos “imitadores de Trump”, o próprio Partido Republicano poderá limpar-se, em grande parte, da nódoa que foi, e ainda é, Donald Trump, em termos de movimento antidemocrático, porque em termos de conservadorismo oportunista e nocivo, há que temer Ron DeSantis, o governador da Florida que supostamente será um dos candidatos à presidência em 2024.   
Se na realidade este resultado eleitoral, à primeira vista, talvez tenha sido um verdadeiro escapo a uma das maiores flechas alguma vez apontadas ao coração da democracia americana, a mesma só se renovará com uma série de políticas e enfrentando realidades que jamais se podem esconder ou colocar na borda do prato.  Elizabeth Warren, Senadora pelo estado de Massachussetts, num artigo para o New York Times escreveu: “os americanos compreendem que o bem-estar económico das famílias está indissociavelmente ligado à democracia e aos direitos individuais, mesmo que demasiados gurus de notícias por cabo não o entendam. A maioria dos americanos sabe que o aborto é uma questão de mesa de cozinha que é central tanto para a saúde como para a segurança económica, e não uma distração. Os americanos compreendem que os preços estão a subir em parte devido à ganância empresarial, e querem um governo do seu lado. Os resultados de terça-feira confirmaram esses pontos de vista: em toda a América, todas as iniciativas de votação para proteger os direitos ao aborto passaram, juntamente com muitas propostas para tributar os ricos e colocar dinheiro no bolso dos trabalhadores.” A Senadora escreve dentro do ponto de vista do seu partido, isso é mais do que óbvio, mas na realidade apesar dos discursos inflamatórios dos imitadores de Donald Trump, apesar de alguma temeridade por certos candidatos do centro-esquerda, ficou claro neste ato eleitoral que a maioria dos americanos não concorda com o conservadorismo do Tribunal Supremo, e que particularmente no eleitorado mais novo, apesar de como sempre uma grande parte ter ficado em casa, os que votaram estão muito mais abertos para questões ligadas aos direitos dos trabalhadores, à segurança com limites – nunca num estado militarista, às liberdades pessoais, à justiça social.   
Com a nova sessão legislativa a começar já no próximo mês de janeiro, com as candidaturas à presidência em 2024 a serem discutidas e apresentadas, muito possivelmente no primeiro trimestre de 2023 (algumas antes), a grande questão é: o que fará o Presidente Biden e os Democratas com esta vitória tangencial?  Será que os democratas utilizarão este momento para se reforçarem e serem cada vez mais fiéis aos seus princípios, ou virarão mais ao centro e à direita, distanciando-se do eleitorado que lhes trouxe alguma esperança? Os Democratas terão de relembrar-se, diariamente, que os se não foram severamente penalizados foi essencialmente porque os eleitores sentiram a mensagem vinda dos dois lados, e perceberam o que estava em jogo. Os eleitores perceberam que a inflação é um grande problema, mas também compreenderam que os republicanos nunca se apresentaram, de forma credível, como o partido com uma solução. Há que admitir sem qualquer dúvida que o atual Partido Republicano está ofuscado com a teoria racial crítica e se o Dr. Seuss será ou não cancelado. Não está minimamente interessado com o crescimento económico e a política de cuidados de saúde.  OS eleitores perceberam, agora o Partido Democrático deve agir. 
Desde o Presidente Biden, aos líderes partidários a nível nacional, estadual ou regional, há que passar-se de uma política de uma suposta união, que nunca acontecerá, nem tão pouco se recomenda, a uma série de políticas que apostem no progresso do país, não só em termos económicos, mas em termos de justiça social e racial. Em termos de crescimento cultural e intelectual. É tempo de se cessar com o discurso de unidade que pode ter a sua graça, mas não é eficaz. As exigências para uma suposta unidade, por vezes têm um efeito negativo e despedaçam-nos. Até no mais básico como o sistema democrático americano, o consenso é raro na história americana. Na verdade, este país é demasiado grande e demasiado diverso para que isso seja possível. Mais, o consenso também ameaça silenciar muitas vozes legítimas e dignas de serem ouvidas. A democracia respira mais fundo com discordância. Mais do que tentar unir o país em trono de ideias que nem todos comungam, o presidente e o Partido Democrático, devem movimentar-se no sentido de trazer conciliação no que seja possível, mas tentar concentrar mais esforços e recursos nos principais objetivos e da visão do Partido para os Estados Unidos e o relacionamento do mesmo com o resto do mundo. Só assim se muda o pendulo para um país mais livre e mais justo. Já Lyndon Johnson, um dos mais transformativos presidentes americanos o disse: não aceitaremos a unidade que abafa o protesto.  
Mais do que um jogo de números e de: este ganhou e este perdeu, os eleitores americanos mostraram-nos o que alguns analistas e políticos, que vêm a governação como um jogo e não como um serviço público, recusam aceitar ou seja: os americanos querem a estabilidade económica, exigem proteções básicas para os seus corpos e os seus filhos, alívio na inflação e provas de que o mundo não está à beira de uma guerra nuclear.  
Mais do que uma união fictícia, os líderes Democratas, começando com o Presidente devem, com alguma urgência, apelar a coligações de conveniência sobre estas questões extremamente importantes para o eleitor, para o país e para o mundo - uma canalização dos interesses partidários (sim dos dois) para fins específicos. Há políticas comuns e essas devem ser exploradas. Para que o país dê um passo em frente, e há tantos que precisa dar, os Democratas precisam ver este ato eleitoral com olhos de que quando se concentram nos assuntos que são importantes para o cidadão comum, o eleitorado ouve e vota. 
Tal como o presidente americano James Buchanan também gosto do: barulho da democracia.