Dentro e Fora de Casa: Os Açores na Diáspora e a Diáspora nos Açores

 

Quando a imprensa não fala
o povo é que não fala. 
Não se cala a imprensa. Cala-se o povo.

William Blake (poeta inglês) 

Os intercâmbios dos Açores com a sua Diáspora são frequentes. Já antes da autonomia ocorriam algumas ocorrências, se bem que extremamente pacatas, e quase sempre ao abrigo das geminações das cidades ou por iniciativa de cidadãos, com algum poder económico, em ambos os lados do atlântico. Desde o primeiro Governo da Região Autónoma dos Açores, que os intercâmbios intensificaram, primeiro sob a égide do Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas e, mais tarde, em 1996 passando a Direção Regional das Comunidades, designação que ainda hoje se mantém. Não têm sido poucos os projetos que desde 1976 saíram deste segmento dos sucessivos governos açorianos para com as comunidades. Em quase todos os casos são incentivos que resultam numa maior aproximação entre a Diáspora e os Açores. A criação de uma via em dois sentidos, como disse recentemente o atual Diretor Regional das Comunidades, José Andrade, numa entrevista ao Diário Insular de Angra do Heroísmo. Daí que o recente encontro com 12 órgãos da comunicação-social (OCS) da Diáspora no continente norte-americano, foi mais um esforço meritório para que se continuem a erguer pontes entre os dois lados do atlântico. Tarefa que nem sempre tem sido fácil. Nem hoje, nem nas últimas quatro décadas, quer pelas restrições orçamentais, quer pelas vicissitudes que nos caracterizam neste lado do atlântico.  
Durante cinco dias e meio, uma dúzia de homens e mulheres estiveram em duas ilhas dos Açores, nomeadamente Terceira e São Miguel, num programa intenso, que colocou estes diretores e representantes desses doze OCS, frente a frente, com quatro municípios, os órgãos governativos mais próximos das nossas comunidades, com os quais se tem desenvolvido alguns dos projetos mais interessantes, incluindo as geminações das cidades (Angra e Tulare com 56 anos de vida), os intercâmbios culturais, educacionais e comerciais. As Câmaras Municipais são impulsoras do desenvolvimento regional e das parcerias com as gentes emigradas dos seus respetivos concelhos, incluindo os açor-descendentes. Na Diáspora, qualquer pessoa minimamente atenta ao quotidiano comunitário, facilmente se apercebe que existe, no emigrante e no açor-descendente um carinho especial pelas Câmaras da sua ilha (ou ilha dos seus pais ou avós), pelos seus concelhos, desde as festas dos mesmos, passando pelos intercâmbios culturais e pelos projetos empreendedores de homens e mulheres da Diáspora que têm encontrado nos municípios parcerias importantes para as suas iniciativas.  
O encontro foi marcado por uma série de contactos diretos com entidades ligadas ao desenvolvimento das ilhas, desde o CESA (Conselho Económico e Social dos Açores), a ATA (Associação do Turismo dos Açores), Grupo SATA e Associação dos Emigrantes dos Açores (AE Azores). Destes encontros destaca-se o diálogo franco e aberto de Gualter Furtado, presidente do CESA sobre as oportunidades, mas também os desafios que existem no arquipélago. Os sinais de desenvolvimento em vários setores, mas a grande preocupação com a ainda elevada taxa de abandono escolar e a taxa da pobreza, a mais alta de Portugal. É um problema que quem gosta da sua terra, mesmo aqueles que vivem na diáspora e os açor-descendentes devem preocupar-se e não escarniar, ou utilizar como bandeira político-partidária, ou pior ainda, ferramenta para denegrir a terra de onde viemos ou de onde vieram os nossos pais ou avós.  Os problemas são graves, em algumas ilhas mais do que outras, mas na totalidade arquipelágica deve ser razão para uma séria reflexão, que terá de ser acompanhada de medidas concretas que não podem ficar à mercê do partidarismo ou de: corriqueirices facebookianas. O turismo com todo o seu lado positivo, e as arestas menos positivas, foi tratado por Carlos Morais que há muito se dedica a este sector.  Foram debatidas algumas possibilidades para se chegar às novas gerações de açor-descendentes e com estas ao mainstream americano. A SATA, e os transportes aéreos, tema sempre pertinente para o arquipélago, teve uma nova abordagem.  O presidente da SATA disse, abertamente, que o mercado da América do Norte é de suma importância para a SATA e que há planos a curto e médio prazo para reforçar rotas e criar paradigmas alternativos.  Luís Rodrigues, não poupou palavras, e salientou que muito tem corrido mal na SATA, mas há uma nova postura, e com os fundos que virão de Bruxelas uma última oportunidade para a SATA, uma espécie de agora ou nunca.  Aliás, seria bom que na diáspora conhecêssemos esse novo esforço, reconhecêssemos a missão dificultosa da SATA – que é geral de todas as pequenas companhias aéreas – e, no caso da Califórnia parássemos de uma vez por todas de: ou chicotear a SATA ou criar um mito em trono de uma passado pré-SATA que era paradisíaco, que na realidade não foi. Para enfrentar o mercado da América do Norte a SATA tem de compreender que, só se chega lá pela via dos açor-descendentes os quais não vivem nas mesmas cidades, ou nos mesmos estados, dos pais ou avós. O gateway da SATA tem de ser aberto a que se chegue no mesmo dia a outros destinos do continente americano, onde estão os açor-descendentes e os seus amigos americanos. 
Duas apresentações relacionadas com a religiosidade e os cultos açorianos do Santo Cristo e do Espírito Santo, com os cónegos Adriano Borges e Helder Mendes. O texto do administrador diocesano, sobre o Espírito Santo, merece ser relido e refletido. Todas as nuances da riqueza das festas, do tal punhado de Espírito Santo, conto de Álamo Oliveira, que Helder Mendes citou, estiveram presentes nesta apresentação, que precisa chegar às comunidades e particularmente aos açor-descendentes que andam um bocado baralhados com estes festejos. Porque estávamos em véspera das festas do Santo Cristo dos Milagres, foi dada aos OCS da Diáspora uma visita única ao Santuário a fim de que quem está na comunicação social compreenda alguns dos elementos fulcrais destas festividades. Rui Faria da AE-Azores falou-nos da aproximação que esta associação tem feito com o nosso movimento associativo e com o mundo académico.  Digo, sem qualquer assombro, que as parcerias entre a AE-Azores e o PBBI da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno têm sido um exemplo de como se trabalha em prol das comunidades e dos Açores, sem egoísmos e com transparência.      
Um outro aspeto desta viagem de trabalho, que os OCS presentes seguiram com muita atenção e dedicação, foi o contacto diretor com os OCS da Região, quer os públicos, quer os privados. Para além do encontro de quase quatro horas, num ambiente de debate animado e enriquecedor, as visitas aos próprios espaços, onde se viu os bastidores dos OCS e onde se teve oportunidade de falar dos dilemas e das oportunidades, foram de extrema importância.  Há mais em comum do que por vezes se possa pensar. Temos oportunidades únicas para os OCS, em ambos os lados da Diáspora, que queiram levar as suas missões a sério. Aliás, falei muito do futuro, e dos jovens, das novas gerações e também dos menos jovens, mas que estão longe de Portugal pela distância geográfica, pela distância geracional e pela barreira da língua portuguesa. Foi dito que há que auscultar os jovens, e isso é verdade, é o que tenho feito ao longo dos últimos 30 anos, auscultar e refletir sobre a trajetória da nossa Diáspora, particularmente na minha profissão de trabalhar com jovens. Há algo que não pode ser camuflado. Quer de um lado, quer do outro não podemos perder mais uma geração.  Aí sim, o caldo ficará totalmente entornado.  Aliás, diria, sem qualquer exagero, que a comunicação-social da Diáspora tem de ser muito mais imaginativa se quiser captar a juventude. Porque tenho trabalhado com jovens, pelo menos durante as últimas tr6es décadas, tenho algumas ideias nesses sentido. 
Um encontro marcado com reuniões e um diálogo direto com o Presidente e o Vice-Presidente do Governo, onde estiveram presentes temas como a base das Lajes, as relações entre os EUA e o arquipélago, os desafios do nosso movimento associativo, a força da nossa participação cívica nas comunidades, os dilemas e os ensejos dos novos Açores, as relações com a diáspora, os apoios de várias instituições, as possibilidades da FLAD, as novas oportunidades de investimento, as novas tecnologias na ligação Açores-Diáspora, entre vários outros temas. Tudo com o cuidado que os técnicos profissionais da Direção Regional das Comunidades há muito nos habituaram e o acompanhamento constante do atual Diretor Regional José Andrade, ele próprio um homem da comunicação social e das letras dos Açores.       
Neste encontro, em que representei o jornal Tribuna Portuguesa (Portuguese Tribune, tal foi o seu nome original), tive oportunidade de conviver com o dinamismo de empreendedores de sucesso no campo da comunicação social cujas empresas são gestoras de verdadeiros patrimónios da nossa diáspora, como Eduardo Vieira, Bon Falcone, Paulina Arruda e Carlos Brito. De homens e mulheres, profissionais que vivem e criam com a comunicação social, como Francisco Resendes, Lurdes da Silva, Frank Batista, Conceição Ferreira, Francisca Reis, João Manuel Dias e o dinâmico jovem Jorge Neves. Com interesses diversos, de regiões diferentes, com comunidades dissimilares e experiências distintas, há algo que nos uniu: a apego às nossas comunidades, o desejo de se perpetuar uma diáspora criativa e um verdadeiro amor à nossa terra.  O desejo incontornável de que a açorianidade continue bem viva no continente norte-americano. É que parafraseando Pedro da Silveira, cujo centenário celebramos neste ano de 2022, a saudade não pode ficar na nossa diáspora como “um veneno saboroso”.