Salvar a Democracia: uma eleição que definirá a América e o Mundo

 

 

As pessoas perguntam qual é a diferença 
entre um líder e um chefe. O líder trabalha 
a descoberto, o chefe trabalha encapotado. 
O líder lidera, o chefe guia.

Franklin Roosevelt, 32º presidente dos EUA

Nem sempre o vento leva as palavras.  O poder da oratória, quando encontra terreno comum, dá frutos para a humanidade.  Na convenção do Partido Democrático Americano, marcada para o estado de Wisconsin, mais transferida, por motivos da pandemia, para sistema virtual, o casal Barack e Michelle Obama mostraram-nos que que são exímios comunicadores, com uma visão cimentada nas realidades que afetam o quotidiano estadunidense, e a consciência de que a democracia americana está em risco.  A esperança, elemento fulcral nas múltiplas mensagens que o casal Obama há muito nos habituou, foi marcada, nos discursos que proferiram, e ainda bem, pela circunstância sombria que a sociedade americana atravessa.  Esta é uma conjuntura decisiva na história dos Estados Unidos.  A democracia americana não aguenta muito mais.  Diria, pelo tom de polarização que se vê, ouve e lê, que dificilmente a sociedade americana sustentará mais quatro anos de sistemática erosão.  Os discursos do casal Obama vieram no momento propício.  A América precisava ouvir estas verdades.
No primeiro dia da convenção, que como se disse foi virtual, e transmitida ao vivo durante duas horas por dia, nas redes televisivas noticiosas, e uma hora nas principais cadeias americanas (ABC, CBS, NBC), assim como em múltiplas plataformas digitais, a principal oradora foi Michelle Obama.  A noite de 17 de agosto de 2020 ficará na história política americana pelo discurso significativo da antiga primeira dama, as quais raramente continuam com voz ativa na sociedade americana.  Michele Obama, considerada uma das mulheres mais admiradas no mundo, possuindo uma favorabilidade na opinião pública americana que ultrapassa os 70%, que Joe Biden teria convidado para concorrer com ele, como vice-presidente, algo que ela sempre rejeitou, fez um discurso audaz com fortes críticas ao atual Presidente e apelando aos americanos para se unirem em torno de uma mudança em novembro deste ano, afirmando:  “como já o disse, ser presidente não muda a pessoa; revela a pessoa. Uma eleição presidencial também pode revelar quem somos como país.  Há quatro anos muitas pessoas optaram por acreditar que os seus votos não teriam importância. Talvez estavam fartos de política. Talvez pensavam que o resultado não seria próximo. Talvez as barreiras parecessem muito íngremes. As razões pouco importam, porém, o resultado foi enviarmos para a Casa Branca alguém que perdeu o voto popular, a nível nacional por quase 3.000.000 de votos.”  Acrescentaria, alguém que tem sistematicamente arruinado as instancias democráticas.
A antiga primeira dama americana não poupou críticas a Donald Trump, o qual, com total lealdade ao seu estilo de menino mimado, foi, poucos minutos depois da alocução, para a Twitter com os insultos habituais.  Citou a falta de empatia, a letargia nas decisões principais do país, a desastrosa política durante esta pandemia. Tal como referiu: “Donald Trump é o presidente errado para nosso país. Ele teve tempo mais do que suficiente para provar que estava apto para o cargo, porém está claramente perdido.  Ele simplesmente não está à altura de ser quem precisamos que ele seja.” Disse Michelle Obama, acrescentando: é o que é – a frase que o Presidente utilizou quando confrontado com a realidade dos quase 180 mil americanos que perderam a vida nesta pandemia.  Com o discurso principal na primeira noite da convenção, a antiga primeira dama deu-nos a visão do que seria o tema da convenção:  Donald Trump está a destruir a democracia americana e a fragmentar o país.  Esta é uma eleição para salvar a alma americana.  Ainda bem que os estrategas do Partido Democrático tiveram a coragem de pegar na dura realidade do quotidiano americano, e de através de oradores como a antiga primeira dama, levar junto dos eleitores a mensagem, mais do que urgente de que a América está em perigo.  Que o ódio semeado ao longo de quatro anos por Donald Trump, está a ter reverberações na sociedade americana, mesmo na nossa comunidade de origem portuguesa e, particularmente açoriana: veja-se com cuidado as frases colocadas, até mesmo por elementos das novas gerações, nas redes sociais e outras plataformas.  É que, como disse Michelle Obama:  “se acham que as coisas não podem piorar, acreditem-me, elas podem; e ficarão piores se não fizermos uma mudança nesta eleição. Se temos alguma esperança de acabar com esse caos, temos de votar como se nossas vidas dependessem disso.” A vida americana dificilmente resistirá a mais um mandato desta polarização e destas bobagens.
Na quarta-feira, 19 de agosto, o terceiro e penúltimo dia da convenção, quando tradicionalmente quem é escolhido para vice-presidente aceita a nomeação, neste caso a história nomeação de Kamala Harris, um dos principais oradores foi o antigo presidente Barack Obama.  Conhecido pelos seus dotes de oratória, assim como pela sua escrita com dois magníficos livros publicados, o primeiro presidente afro-americano, fez um dos seus mais sombreados discursos de sempre.  Nas palavras e no timbre, Obama teceu, perante a televisão americana uma amálgama de afirmações com o intuito de apelar à urgência do momento.  Apesar de seguir com atenção as narrativas de Barack Obama, temia que ficasse preso na sua mensagem de esperança, que na realidade mais importante do que nunca, mas sem reconhecer a severidade que esta administração tem na vida americana.  Tinha receio que ficasse atado a uma suposta tradição de antigo presidente que não “pode” comentar o passado recente.  Ainda bem que rebentou com esses tabus.  Os tempos não são para esses preconceitos e Obama foi, ainda mais uma vez, o líder certo no momento certo.   
Com uma oratória bem preparada, com frases memoráveis, mas sem os habituais aplausos dos milhares de delegados e convidados que estariam no centro de convecções da cidade de Milwaukee, o antigo chefe de estado, relembrou-nos que: “devemos exigir que o presidente seja o guardião da democracia.  Devemos esperar que, independentemente do ego, ambição ou crenças políticas, o presidente preservará, protegerá e defenderá as liberdades e ideais pelos quais tantos americanos marcharam e foram para a prisão; tantos americanos lutaram e morreram.”  Não foi por mero acaso que Obama fez o seu discurso diretamente do local onde foi assinada a constituição americana, no estado de Pensilvânia que é um dos estados que Biden precisa ganhar na corrida aos 270 delegados do arcaico colégio eleitoral.  Daí a importância de relembrar aos americanos que: “o único cargo constitucional eleito a nível nacional é a presidência.  Portanto, devemos, no mínimo, esperar que um presidente sinta a enorme responsabilidade que tem pela segurança e bem-estar de todos nós, os 330 milhões americanos - independentemente de nossa aparência, da nossa crença religiosa, de quem amamos, de quanto dinheiro temos - ou em quem votamos.”  Na essência pediu aquilo que todos os chefes de estado têm feito, ser o presidente de todos os americanos - unir o país.  É mais do que óbvio que Donald Trump governa para, e concentra-se apenas, na sua base eleitoral e nos seus amigos da bolsa de valores.
Se é verdade que, pelo menos na era moderna, os antigos presidentes raramente comentam os seus sucessores, enquanto estes exercem o cargo, e os atuais desviam-se de comentar os seus antecessores, não é menos verdade que Donald Trump tem passado os últimos três anos e 8 meses a criticar Barack Obama e George W. Bush, este último, membro do seu partido, como se sabe.   Bush (que na minha ótica não é flor que se cheira, basta lembrar as guerras e a economia), não marcará presença na convenção republicana que ocorre em poucos dias.  Jimmy Carter tem sido um crítico constante de Donald Trump e Obama, que inicialmente se manteve distante e calado, não poupou críticas ao atual inquilino da Casa Branca.  Barack Obama disse, direta e indiretamente, o que muitos estudiosos da democracia americana têm afirmado:  “A democracia nunca foi feita para ser transacional – dá cá o teu voto; eu tomo conta do resto.  A democracia exige uma cidadania ativa e informada. Por isso, peço-vos que acreditem na vossa própria capacidade - de assumirem a vossa própria responsabilidade como cidadãos - para garantirmos que os princípios básicos da nossa democracia subsistirão.  Neste momento o que está em que está em jogo é a sobrevivência da nossa democracia.”  Mesmo os mais otimistas e esperançosos, como o antigo presidente americano, estão preocupados com circo político que Donald Trmp tem feito da democracia americana.  
Quer Michelle Obama no primeiro dia da convenção, quer Barack Obama no terceiro, acompanhados por uma litania de eleitos pelo Partido Democrático, e alguns republicanos mais moderados, apelaram ao voto dos mais novos, aqueles que nesta eleição votarão pela primeira vez e que ao longo do verão foram para as ruas deste país apelando pela justiça racial e social: “vocês podem renovar a nossa democracia. Podem levá-la para um lugar muito melhor. Vocês são o ingrediente que nos falta - aquele que decidirá se a América se tornará ou não o país que vive plenamente de acordo com seu credo.”  Os casais Obama, com os pés bem firmes na realidade do quotidiano americano, foram inspiradores, mas de uma forma diferente.  Fundamentaram a sua esperança no poder do voto, na capacidade do cidadão que acredita no espírito americano, sem branquear os momentos difíceis da sua história.  
Dois discursos marcantes.  Uma convenção diferente.  Uma mensagem importante para um país que na sua mais alta instância governativa vive um declínio ético e moral.  Os últimos quatro anos trouxeram à flor da pele o pior que temos dentro de nós.  A polarização na sociedade, nos empregos, nas igrejas, nas escolas, e acima de tudo nas famílias, continuará a atingir ainda outros patamares, cada vez mais temerários com Donald Trump na Casa Branca.  Se o divisionismo, a falta de empatia, o discurso beligerante, a demonização de opositores políticos, a letargia e a preguiça intelectual, acompanhada com o desinteresse pelos verdadeiros problemas do cidadão comum, foram tónicas de um primeiro mandato com olhos postos no ato eleitoral, imaginem o que nos trará um segundo mandato.  
O casal Obama, por ter passado 8 anos da Casa Branca, entende essa realidade. É tempo que o resto da América, incluindo a nossa comunidade, o entenda. A democracia americana está em risco.