Momento perturbatório na vida americana

 

 

“A juventude da América é a sua mais velha tradição

 - dura há trezentos anos.”

Oscar Wilde

 

Não é fácil falar-se de política nos Estados Unidos da América. A polarização está às vistas. Nem tão pouco se pode utilizar argumentos baseados na divergência de ideologias sem que o debate seja levado aos extremos. Diria, que com cada dia que se passa, o mundo político americano penetra o cosmos hiperbólico do insulto, da calúnia, das frases feitas infestadas pelos denominados “factos alternativos”, ou seja, a mentira gratuita sem qualquer repercussão. Quer nas redes sociais, onde por detrás de um ecrã todo o mundo se enche de coragem; quer na televisão, através dos incessantes debates com pseudo-analistas, os politólogos, extremamente bem pagos para irritarem as massas; quer na rádio onde o discurso viril e nocivo é constante. Tudo tornado mais fácil pela acessibilidade da internet. Nunca foi tão real a célebre frase do cómico americano Will Rogers: se injetarmos a política com a verdade, jamais teremos política. Desde sempre que o debate político namorou os limites da verdade. Já Platão dizia que a democracia “é uma forma encantadora de governo, é cheia de variedade e desordem, e dispensa igualmente uma espécie de igualdade para os iguais e para os desiguais.” As vicissitudes do poder, as vinganças políticas, as conspirações ou as teorias das prováveis conspirações, a manipulação de factos para servirem o discurso atual, moldado para que amanhã seja diferente, fazem parte do mundo político. Já Lenin dizia que não havia moral na política, apenas experiências.  O que é novo no mundo político americano é o grau de agressividade, do denominado “bullying” diário com que somos asseverados pelo atual inquilino da Casa Branca. É que Donald Trump não trouxe os extremismos para o mundo político americano. Eles existem desde sempre. O que Trump fez foi dar-lhes um espaço ao sol, legitimou-os perante a sociedade, abdicou de todas as regras que existiam e descaradamente diminuiu o discurso político ao nível mais elementar da era moderna. O ataque verbal, nos termos mais nojentos e mais ferozes, são hoje parte integrante do debate político americano. As diferenças ideológicas estão reduzidas a bombardeamentos cáusticos que empobrecem a sociedade estadunidense. Longe vão os anos em que intelectuais como William F. Buckley Jr., um dos pais do novo movimento conservador (com os quais sempre discordei, mas sempre ouvia com atenção), utilizavam um discurso literário e filosófico para debater os seus opositores.

As diferenças ideológicas, a alternância do poder político, o debate sério e coeso sobre pontos de vista económicos, sociais, religiosos e culturais são importantes e pedras basilares para uma democracia. Mais, os líderes políticos, eleitos democraticamente, com respeito pela liberdade e crentes na soberania do povo, jamais devem ser apologistas de ditadores e defensores do nepotismo. Ninguém nega que o mundo é complicado e que há que fazer acordos e manter as vias de comunicação abertas, mesmo com os ditadores, da esquerda ou da direita.  Não há bons ditadores.  Mas é bom que se tenha a consciência histórica de como esses ditadores chegaram ao poder e o seu percurso dentro dos sues países. Mais, elogiar um ditador por ter consigo convencer o seu politburo a tornar-se presidente vitalício, como o Presidente Trump fez recentemente com  Xi Jiping da China é um gravíssimo erro para o processo democrático, que com todos os seus defeitos ainda é o melhor processo politico para a humanidade.  Bem se sabe que a política, e os interesses geoestratégicos, fazem-se com parcerias estranhas. Porém, há uma longa caminhada entre um entendimento para bem dos países e dos povos, e abraços apertados e elogios comoventes entre a democracia e a ditadura.  Qualquer americano, minimamente preocupado com a sua democracia, deve sentir angústia e consternação, para não dizer revolta, quando um presidente americano enaltece as “virtudes” de um ditador. Os barões de todas as forças políticas americanas deveriam sentir-se injuriados com tamanha afronta.  

Desde sempre que a hipocrisia tem sido a manta preferida do poder. O nosso Alexandre Herculano escreveu algures: “a hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada”. Na verdade, a América está mordida e os mais moralistas que outrora asseveram a promiscuidade de alguns líderes mais liberais, agora, cobrem-se com a colcha da impostura para apoiarem quem, diariamente, assalta as liberdades mais sagradas da constituição americana. Abdicar dos princípios e valores que criaram o baluarte americano, trocando a constituição e a lei por um momentâneo bem-estar económico, que em si é vácuo, porque deixa muitos cidadãos na margem, é um erro monumental. É que os gritos de liberdade económica num país que é altamente subsidiado, não é só hipocrisia, mas sobretudo desonestidade. Mais, pensava-se que a arrogância de uma América Grande à custa do mundo tinha sido ultrapassada. Até há bem pouco ainda eram importantes valores que falavam mais alto do que o dólar e tinha-se o que a minha santa avó, na Canada dos Pastos, na Praia de Vitória, na ilha Terceira, me ensinou: vergonha na cara. Ouvir os obreiros do movimento evangélico e outros líderes e praticantes religiosos, que se dizem donos da moral, defenderem o atual presidente como um homem integro é, no mínimo, enjoativo.  

Em novembro de 2016, poucos dias depois de Donald Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos da América, numa escola secundária de uma cidade da realidade californiana, duas jovens de ascendência anglo-saxónica, chegaram à sala de aula e sentaram-se nas carteiras onde se sentavam, segundo escolha da professora, duas alunas hispânicas. Poucos minutos depois do começo da aula, a professora ao marcar as faltas, perguntou às duas alunas hispânicas (e vejam aí a discriminação) porque não estavam sentadas nos seus respetivos lugares.  As duas alunas de origem hispânica retorquiram:  aquelas duas disseram-nos que sem sentássemos atrás nos lugares delas. Quando a professora questionou as duas alunas anglo-saxónicas, recebeu esta resposta: agora que Donald Trump foi eleito é uma questão de tempo e vão ter de voltar ao seu país, portanto é bom que se sentem junto à porta. E o mais importante que não houve repercussão por esta atitude. Convém dizer que as duas alunas hispânicas tinham nascido nos EUA. Esta é a nova América que infelizmente andamos a criar.  Se poucos dias depois das eleições houve este incidente, apenas um entre tantos, imaginem daqui a quatro anos. É que todos os presidentes americanos têm tentado, com, ou sem sucesso, baixar as tensões raciais e atenuar as discriminações e as generalizações danosas feitas contra as minorias.  Recorde-se George W. Bush (com quem sempre discordei) após o 11 de setembro no que concerne à comunidade muçulmana aqui nos States. Donald Trump provoca o caos e utiliza a velha tática de dividir para conquistar. Infelizmente o atual presidente tenta tudo por tudo para enterrar estas palavras visionárias de Barack Obama: “mão há uma América liberal e uma América conservadora — há os Estados Unidos da América. Não há uma América Negra e uma América Branca e América de latinos e América de asiáticos — há os Estados Unidos da América.”

Como todos os países, os EUA têm uma história complicada.  Nem sempre se segue o caminho do progresso humano, da contínua construção da liberdade, de se erguer espaços equitativos para todos, independentemente da cor, raça, credo religioso, etnia ou orientação sexual. Infelizmente, de vez em quando, registam-se alguns recuos, alguns cascalhos nesse longo e agreste caminho.  Estes últimos quatro anos têm sido repletos de calhaus que distraem os cidadãos, que nos desviam do que é essencial para a sociedade e acima de tudo alimentam a xenofobia, a intolerância, a arrogância, o narcisismo, a mentira, a injuria e o insulto. Se não houver mudança em novembro, nem quero pensar o que seremos e como seremos em 2024. Para quem vive no estado plantado à beira do pacífico, valha-nos o progresso californiano (e de outros estados progressistas nas duas costas litorais) que enfrenta políticas retrogradas e, com as suas imperfeições e alguma timidez, ainda nos dá alguma esperança, queremos acreditar como disse algures Colin Powell que o espírito americano irá prevalecer.