Diáspora em Movimento: a açorianidade na Califórnia

 

 

 

 

A força de tradição, de raiz portuguesa

num solo e num clima tão outros,

dá ao açoriano um ânimo forte,

a tranquila altivez capaz da

chamada “ira dos mansos.”

Vitorino Nemésio

 

Começou mais um ano letivo no estado da Califórnia onde, segundo o recenseamento americano do ano de 2000, existem mais açor-descendentes do que açorianos residentes no arquipélago. São cerca de 350 mil pessoas que se identificam sendo de origem portuguesa, com mais de 90% tendo emigrando ou com raízes no arquipélago.  O novo ano letivo, em escolas e universidades deste mega estado, traz, como sempre, a esperança numa comunidade integrada, com um pé bem firme dentro do sistema de ensino da Califórnia.  Como afirmou o antigo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Anan: “Conhecimento é poder.  O saber liberta-nos.  A educação é a premissa do progresso em cada sociedade, em cada família.”   E ainda bem que as famílias portuguesas dos Açores e açor-descendentes residentes no estado da Califórnia, estão finalmente a compreender que é essencial a presença dos nossos filhos e netos nos bancos das universidades deste estado.  Para os pais, e os alunos, há que entender que o processo e as vivências são tão importantes, ou mais, do que o diploma.  E para a comunidade, há que compreender que as escolas e as universidades são os nossos aliados naturais para preservarmos a língua portuguesa e colocarmos o nosso património cultural em plena equivalência com os outros grupos étnicos. 

Tal como as outras etnias que constituem o multiculturalismo californiano, a comunidade de origem portuguesa está espalhada pela imensidão deste estado.  Com a integração das novas gerações, os descendentes das ilhas de bruma fazem parte desta sociedade e são, para todos os efeitos: americanos.  Porém, com o despontar de cada ano letivo, em escolas e universidades deste estado, lá estão os filhos, netos, bisnetos e trinetos de emigrantes açorianos lutando pelo seu futuro através do ensino.  E lá devem estar, em cada escola e cada universidade os cursos de língua e cultura portuguesas, assim como outros programas e iniciativas que levem o mundo português e açoriano aos centros do conhecimento californiano e a comunidade a sentir-se parte integrante do mesmo mundo.   Os guetos, no nosso caso, muito mais sociais do que físicos, são altamente prejudiciais para a comunidade.  Podem alimentar, efemeramente, os egos de alguns elementos comunitários, mas a médio e longo prazo atrasam o processo que nos levará a ter um lugar à mesa da miríade de culturas que compõem a identidade deste progressivo estado.  A mesa cultural da Califórnia não pode estar posta sem um prato formado pelas vivências dos emigrantes portugueses dos Açores e seus descendentes. Só assim, preservaremos o nosso património e salvaguardaremos a presença da língua portuguesa, que poderá não ser a língua de comunicação diária dos nossos rebentos, mas é uma língua que conhecem, e que a compreendem, pelo menos minimamente, e com a qual se identificam.  Mais do que língua que usam diariamente, porque não a será, é essencial que seja a língua da sua identidade.  E para que o seja terão que ter alguns conhecimentos da mesma.   

Como já o escrevi, ad nauseam para quem segue estas crónicas, a presença portuguesa e açoriana na Califórnia, com uma história tão, ou mais antiga, do que o próprio estado, precisa ser contada e arquivada.  É urgente que faça parte dos currículos nas escolas e universidades.  A dinâmica de uma comunidade étnica pequena (mesmo que sejamos 500 mil em 40 milhões) num mundo gigantesco como o estado da Califórnia, só pode ter futuro se estiver dentro da mesma sociedade.  A nossa presença com cursos de língua e cultura portuguesas no mundo do ensino é o passo mais seguro que se possa dar para a longa jornada de registar e perpetuar a língua portuguesa e as culturas da mesma língua neste estado do pacífico americano.  Nunca teremos a presença que merecemos se continuarmos a fazer as mesmas atividades que fazíamos há 30 anos, porque a comunidade não é a mesma, nem tão pouco o mundo o é.  Queixamo-nos com os constantes decréscimos nas festas e nas romarias.  As rádios queixam-se com a falta de ouvintes e os jornais com falta de assinantes e leitores, mas fazemos o mesmo que fazíamos há três décadas.  Como já o disse: ou criamos razão de o ser (significado) ou diluiremos no mundo californiano-desapareceremos.  Não podemos construir a comunidade de amanhã alimentando egoísmo do passado.  Nem podemos ficar por simples recriações da festa da freguesia.

Como ouvi algures, criticar sem apresentar soluções é meramente inflacionar o ego do crítico.  Daí que, em começo de ano letivo, apresento ou relembro algumas sugestões que são necessárias para se construir o mundo que todos nós queremos para a presença portuguesa e açoriana em terras da Califórnia.

1º-Criar um espaço de ponderação comunitária que tenha por objetivo refletir a comunidade e ser um fórum congregador e abrangente de todas as gerações e todas as linhas de pensamento.  Um espaço onde quem se interessa pela comunidade não tenha receio de a pensar em voz alta e de a criticar para a melhorar. 

2º- Tornar cada festa da comunidade num acontecimento marcante para a cidade onde se realiza.  Cada uma das festas do Espírito Santo, ou santos populares. que ainda se faz na Califórnia deveria ser parte integrante do calendário da cidade onde se realiza.  Cada instituição deveria pensar em fazer parcerias com as câmaras municipais, as câmaras de comércio, os clubes sociais do mainstream americano, como os Lions, Kiwanas, etc., as escolas e universidades. 

3º- Presença da comunidade portuguesa nos certames e festivais das cidades e condados da Califórnia.  Desde as feiras dos condados aos festivais internacionais e multiculturais que muitos municípios promovem.  Nesses acontecimentos devem estar a presença do nosso movimento associativo e de elementos da nossa cultura popular e erudita. 

4º-Criar grupos de trabalho e de pressão junto dos distritos escolares americanos para uma maior presença de cursos de língua e cultura portuguesas, utilizando os vários casos de sucesso que temos em várias zonas deste estado.  Abraçar o plano estratégico para o ensino da língua portuguesa na Califórnia como a tábua de salvação que é.  Estarmos conscientes que o ensino da língua portuguesa nas nossas escolas públicas está nas nossas mãos.  De Portugal pode vir apoio moral e alguma formação para professores, porém a criação de cursos nas escolas da Califórnia só pode vir do seio comunitário. E até a formação deve vir dos institutos de metodologias que temos na califórnia que são dos melhores do mundo.

5º-Construir oportunidades para que possamos ter maior influência no mundo político californiano.  Há que instituir nos nossos jovens o desejo e a aptidão pelo serviço público, quer a nível estadual, quer a nível local, particularmente em direções escolares, câmaras municipais, e representantes dos condados.  Mais, há que ser realista.  A Califórnia neste momento tem uma vasta maioria de votantes do Partido Democrático ou independentes.  O Partido Republicano representa menos de 25% do eleitorado deste estado. Daí que ou encontramos jovens luso-americanos progressistas para se candidatarem ou ficaremos a falar mal de tudo e de todos nas redes sociais sem qualquer avanço comunitário. 

6º- Conceber junto do nosso movimento associativo a necessidade de investirmos mais no arquivo e na reflexão comunitária.  Aproveitarmos as oportunidades únicas que muitas vezes aparecem apenas uma vez na vida, como a criação do arquivo das histórias orais da comunidade portuguesa na universidade estadual da Califórnia em Fresno.  Sem o investimento comunitário estes projetos nunca terão o impacto que a comunidade merece e precisa.  Portugal deve entender isso e as comunidades também.  Ainda há tempos o editor do jornal Tribuna Portuguesa transmitiu-me a ideia de cada festa e festival português doar uma percentagem dos seus lucros para projetos deste género, projetos educacionais e culturais junto do mundo académico americano.  Temos como exemplo máximo no centro da Califórnia a comunidade arménia cuja presença na Universidade Estadual da Califórnia em Fresno é modelar.  Os compromissos com a comunidade devem ir além de uma pontual bolsa de estudo.

7º-Gerar oportunidades para a presença das letras e das artes portuguesas e açorianas no mundo americano.  A literatura portuguesa e açoriana está por aí traduzida.  Em vez de lamentarmos que os nossos jovens luso-descendentes não têm o conhecimento necessário para conhecerem as nossas letras na língua de origem, há que lhes fazer chegar às mãos com projetos inovadores, as obras literárias em tradução.  A essência de se ser português e açoriano está na nossa literatura. 

A lista já vai longa, e havia ainda outros pontos cruciais a considerar.  Porém paremos por aqui.  O importante é criarmos oportunidades para irmos além do que já não faz sentido e acontece simplesmente porque está preso pela sombra da saudade. A comunidade da Califórnia não pode cristalizar, nem pode ficar à mercê dos egoísmos pessoais dos nossos líderes, de um capricho político-partidário em Portugal.   A comunidade portuguesa que á açoriana nesta Califórnia, tem muitas potencialidades.  Acredito que se não dermos ouvidos nem aos cínicos, nem aos oportunistas, nem tão pouco aos efémeros representantes do terreiro do paço que não compreendem a nossa cultura insular, se aceitarmos a nossa capacidade criativa e utilizarmos o nosso poder económico, se formos mais inclusivos para com os nossos vizinhos e amigos de outras etnias e culturas, teremos os resultados que afinal todos aspiramos. 

É tempo de construirmos a Diáspora de amanhã.