Construir a diáspora portuguesa no mundo do ensino americano

 

Não são poucas as vezes que nós imigrantes, ou luso‑descendentes, somos conhecidos, na sociedade em que vivemos, nas nossas pequenas ou grandes cidades, pelo grupo étnico que faz uma, ou várias, grandes festas em cada ano, tudo muito nosso, nos nossos salões e nas nossas paróquias. Porém, salvando‑se raras exceções, as nossas celebrações, e os nossos acontecimentos socioculturais não fazem parte da grande sociedade americana. Não temos, em alguns casos, veículos para o fazer, e em outros, gostamos que as nossas “atividades”, sejam, somente nossas. Faz bem a muitos egos, mas não nos ajuda em termos de comunidade étnica no multiculturalismo californiano. 
Como há anos que digo, ad nauseam,  que a americanização das nossas comunidade é autêntica, está a acontecer neste momento e todos os dias há mais famílias nossas a falarem somente inglês nas suas casas e cada vez mais afastadas das nossas associações e da nossa cultura.   Daí achar imperativo, como já o escrevi, tantas vezes, tornar as nossas celebrações culturais parte integrante do mundo norte‑americano e utilizar-se os mecanismos do mesmo mundo para promover o nosso legado cultural. E é nesse sentido que gostaria de refletir sobre um dos veículos mais acessíveis, e mais infalíveis, para se promover o nosso legado cultural neste estado e por todo o país, ou seja: as escolas do ensino secundário americano.
Como se sabe, temos apenas 11 unidades do ensino secundário no estado da Califórnia com cursos de língua e cultura portuguesas. Existem mais de 4 mil escolas do ensino secundário na Califórnia. São poucas a ensinar português, bem o sabemos. Porém, é o que temos, em parte porque Portugal ainda não entendeu o potencial de se ter gente conhecedora da comunidade a trabalhar com a comunidade e com as escolas.  Ainda não se compreendeu no Terreiro do Paço e em certos segmentos da nossa diáspora que as estas escolas são, se trabalharmos nesse sentido, locais privilegiados para se expor e viver o nosso legado cultural. É que não se pode ficar apenas pelos alunos que aprendem a nossa língua e a nossa cultura, o que já seria bastante saudável, mas há uma amalgama de sinergias que quando bem trabalhadas dão-nos possibilidade de se chegar com a língua e a cultura muito além da sala de aula.  Há alguns anos que proponho que aproveitemos este manancial de gente nova: os alunos, e de gente de todas as idades: os corpos docentes e o pessoal de apoio, para expandirmos a nossa presença portuguesa no mundo americano.   
Acho que as forças vivas (ou moribundas, consoante a perspetiva) de algumas das nossas comunidades ainda não compreenderam o tesouro que é termos, na cidade onde vivemos e trabalhamos, escolas secundárias do ensino oficial americano com cursos de língua e cultura portuguesas. É que à volta dessas escolas, em torno dessas aulas, em colaboração com esses professores de português, e as respetivas associações de alunos, poder‑se‑á criar um conjunto de atividades que ao interligarem a comunidade à escola, fazem com que a comunidade esteja no cerne da sociedade que a rodeia. Chegou o momento de se criar eventos culturais nessas escolas que tenham uma forte componente da nossa comunidade. Temos que promover mais acontecimentos culturais, mais sessões de esclarecimento para os pais, serões de poesia, teatro, cinema e literatura, com alunos e com o mundo americano. E também temos de trazer os alunos à comunidade. Tudo isso utilizando as forças vivas da nossa comunidade, sobretudo os nossos talentos luso-americanos.  
Chegou o momento de fazerem-se protocolos com as nossas associações, algumas das quais estão em situação financeira privilegiada, permitindo‑lhes apoiar estas atividades únicas e de extrema importância para o nosso quotidiano e o nosso amanhã. Há que trazer as bandas de música, o Carnaval (quando este não está cheio de palavras inadequadas e estereótipos desnecessários), os nossos empresários, as nossas publicações, a nossa comunicação social, as nossas organizações culturais, recreativas e sociais junto dos jovens e junto do corpo docente das escolas, todas elas com centenas de professores, administradores e pessoal de apoio.
Tudo isto e fazível, e com a colaboração de todos não é assim tão difícil como se possa pensar.  Fi-lo, como se sabe, em Tulare.  Temos de o repetir em todas as comunidades e temos que ter o discernimento para dizermos, sem receios e rodeios, aos poderes centrais em Portugal, que só se aumentam os cursos de língua e cultura portuguesas no ensino oficial californiano criando comissões de pais e um lóbi com forças vivas, com o nosso movimento associativo, como o California Portuguese-American Coalition (CPAC), entre outras. Há que dizer-se, abertamente, que o futuro do ensino da língua portuguesa na Califórnia, particularmente a nível de escolas secundárias está nas mãos da comunidade, que é uma comunidade cada vez mais diferente, quer pela integração, quer pelas mudanças demográficas.     
Acho que com o plano estratégico que está criado e que Portugal, infelizmente ostracizou, poderemos promover a nossa língua e a nossa cultura, toda a nossa cultura, incluindo a criação que ocorre diariamente na diáspora, junto das populações mais jovens e junto do mundo americano.  Em ambos os lados do Atlântico há que irmos além dos egoísmos pessoais e trabalharmos em prol da diáspora, que é composta pelos emigrantes, mas também pelas primeiras, segundas e sucessivas gerações.  
Há ainda que trabalhar com quem compreende que as comunidades de hoje não são as mesmas de ontem. Há que, acima de tudo, não estragar este momento da nossa história. É um momento único, com desafios, mas grandes oportunidades e se o negligenciarmos, ficará tudo perdido. 
Vamos unir esforços, cá e lá, e vamos criar em todas as nossas comunidades cursos de língua e cultura portuguesas nas escolas secundárias deste estado. Vamos apoiar, e dinamizar, os clubes, as associações juvenis lusas que existem em várias escolas secundárias deste estado, incentivando-as a embarcarem numa missão cultural. Não esperemos mais tempo. Já perdemos tempo demais. E não nos desculpemos com a pandemia.  Vejam que quem quis criar e disseminar fê-lo durante a pandemia.      
Há que irmos, dentro do nosso movimento associativo, além de uma bolsa de estudo que compra dois livros a um aluno universitário, e descarga a consciência da coletividade que a oferece. Temos de investir, a sério, na promoção do nosso legado cultural junto dos estabelecimentos de ensino onde se leciona a língua e a cultura portuguesas.  E em Portugal, há que reconhecer-se que só quem está na comunidade, quem a vive na sua plenitude, poderá ter os mecanismos para congregar e unir estes esforços.  Na diáspora temos de entender que o futuro é nosso, e que só nós o podemos construir.  Não tenhamos ilusões.     

É tempo de termos uma maior e melhor ligação ao mundo do ensino americano, onde a nossa língua e a nossa cultura terão, se quisermos que as mesmas sobrevivam, uma presença diária, estando em pé de igualdade com as outras línguas e culturas deste multiculturalismo estado.

A decisão está na comunidade.