Cadeiras vazias e ideias murchas

 

 


A presidência é agora um cruzamento entre um 
concurso de popularidade e um debate no ensino 
secundário, com uma enciclopédia de clichês como primeiro prémio. 

Saul Bellow-escritor (1915-2005) 

“Nunca tivemos um único lugar vazio e numa teremos”, foi uma das várias mensagens do Presidente Donald Trump, escassos dias antes do primeiro comício realizado durante os últimos três meses nos Estados Unidos. Num momento em que os casos positivos do COVD-19 aumentam, em alguns estados exponencialmente, e a agitação social apelando pelo fim do racismo sistemático, continua a levar milhares de pessoas para as ruas das grandes e pequenas cidades americanas, Tulsa decidiu ficar por casa. Foi, na realidade um evento desnecessário, considerando o atual clima no país, que apenas serviu, ainda mais uma vez, para o Presidente semear o ódio e o divisionismo. Vimos a demagogia no seu melhor. Lá estava o desrespeito pela história e a habitual falta de empatia, que me assusta. A continuidade de uma mensagem que mesmo que desapareça em novembro deste ano, afetará a idiossincrasia americana durante muitos anos. Com menos de metade da lotação esgotada, havia no pavilhão uma avalanche de lugares vazios. Fracassou a assistência, mas não falhou a retórica incendiária.    
Há semanas que o Presidente falava neste comício, num dos estados mais conservadores da união americana e numa cidade, Tulsa, que possui uma das histórias mais nocivas na trajetória do racismo norte-americano. Primeiro, Donald Trump havia insistido em fazer o comício no dia 19 de junho, uma data que a comunidade afro-americana celebra como o fim da escravatura nos Estados Unidos. Junetenth, vocábulo que combina o mês de junho e o décimo-nono dia, é a referência utilizada como o fim da escravatura. O estado do Texas foi um dos estados da confederação que lutou contra a união durante a guerra civil americana. Foi o último estado a render-se e, por conseguinte, o derradeiro a libertar os afro-americanos da escravatura a 19 de junho de 1865. A mudança para o dia 20 foi feita, mas com alguma relutância. Tulsa foi palco para um dos piores massacres do século XX na comunidade afro-americana e tem uma história intimamente ligada ao racismo.  Em 1921 mais de 300 pessoas afro-americanas foram mortas e 10 mil ficaram desalojadas quando a comunidade branca incendiou dezenas de negócios e moradias desta comunidade. A cidade declarou lei marcial e milhares de afro-americanos foram encarcerados. Esta foi a mesma cidade que recusou durante quase dez anos a dessegregação das escolas públicas mantendo os alunos afro-americanos separados dos brancos. Finalmente, em 2010 foi criado um parque para descrever este passado. Em 2011 a assembleia estadual de Oklahoma aprovou que se ensinasse sobre o massacre nas escolas públicas, mas, simultaneamente, recusou financiar o projeto-lei para que se criassem os recursos curriculares necessários.   
O próprio comício, que durou quase duas horas, esteve repleto da habitual apologia à ignorância, ao medo e à arrogância. Proliferaram, como é habitual os insultos ao “sonolento” Joe Biden e a ostracização da comunicação-social. A visão de Donald Trump para os próximos quatro anos, apresentada em Tulsa, é uma visão desprovida de ideias. A tática delineada no discurso é clara: assaltar Joe Biden como o líder de um Partido Democrático que está controlado por elementos da extrema esquerda, que ele rotula “esquerda radical.” Nem que a esquerda radical tivesse alguma presença no mundo americano! Passou uma grande parte do discurso a repetir as acusações de sempre, todas falsas, e com o intuito de promover o pânico na sociedade e dar novo ânimo seus fiéis seguidores. Se Biden ganhar, a bolsa de Nova Iorque será destruída; a China tomará conta do mundo porque Biden é uma “marionete da China”; eliminará as seguradoras privadas (nem que isso fosse um mal), algo que Joe Biden nunca favoreceu; anulará a polícia (que precisa um novo paradigma), algo que Biden repete diariamente ser contra. E num tom classicamente Trumpiano, afirmou: “a justiça racial começa no dia em que o Joe Biden se reformar da vida pública.” Isto de um presidente que nem disse uma única palavra sobre a morte de George Floyd pelos agentes de segurança.  O presidente que quando aconteceram os protestos em Charleston entre forças democráticas e neofascistas, afirmou: há boas pessoas em ambos os lados.
O comício, originalmente marcado num pavilhão com capacidade para cerca de 20 mil pessoas, com a campanha afirmando, repetidamente, que havia recebi encomendas para centenas de milhares de bilhetes (o próprio presidente enviou um tweet dizendo que havia um milho de encomendas), teve, segundo as autoridades municipais presentes, cerca de 6300 pessoas. A reserva de espaços em torno do recinto para albergar as centenas de milhares que não conseguiriam entrar, foram canceladas uma hora antes do começo. Num estado em que Trump ganhou nas eleições de 2016 com 65% do voto, não obtiveram a desejada lotação esgotada. Nem tão pouco metade dos 20 mil lugares. O comício foi marcado por cadeiras vazias e uma retórica nociva e murcha.  
Para a próxima vez que o Presidente faça outro comício, não seria má ideia, substituir a xenofobia do “Kung-Flu” com medidas concretas descrevendo o que fará se para combater a pandemia, reorganizar a economia e eliminar a brutalidade policial. Seria tão bom que ouvisse os gritos da comunidade afro-americana e escutasse uma nação ferida que precisa, urgentemente, de liderança que englobe empatia e novas ideias. Para que isso aconteça o Presidente necessita colocar em compasso de espera os seus tweets, ultrapassar o seu descomunal narcisismo e concentrar no futuro de um país em fragmentação. 
 Os últimos dias têm sido marcados por especulação. As perguntas vêm de todos os lados, até mesmo da Fox News:  porque é que um megacomício de Trump, onde a campanha esperava entre 100 a 300 mil pessoas, não conseguiu mais de 6300 espectadores, num dos estados mais republicanos do país? À boa maneira de qualquer narcisista, o Presidente já começou a culpar tudo e todos, desde os contramanifestantes violentos no exterior (não houve violência) à possibilidade de chuva, a desculpa que se usava no meu tempo de criança na ilha Terceira nas touradas com pouca gente porque o touro não era afamado. 
Será possível que até no coração do conservadoríssimo sul dos Estados Unidos as pessoas já toparam o jogo nocivo de Donald Trump? Talvez seja demasiado otimismo da minha parte, mas quero acreditar que o bluff do atual inquilino da Casa Branca está a ser percebido por algum eleitorado da direita que não se idêntica com o estilo bombástico e elitista de Donald Trump. As sondagens nacionais dizem-nos que os republicanos residentes em zonas urbanas, em todos os pontos do país, ao contrário do Presidente, acreditam que temos um problema com o racismo, com a brutalidade policial e querem soluções. As sondagens dizem-nos que as mulheres republicanas, na urbanidade estadunidense, não apoiam uma retórica racista e discriminatória.  
Tulsa mostrou-nos que, enquanto o Presidente insiste em levar-nos num itinerário de populismo e exagerado nacionalismo, onde os mesmos problemas são varridos para debaixo do tapete ilusório do sonho americano, há cada vez mais cidadãos que preferem a esperança e uma via que nos leve a novos paradigmas. 
A grande questão assenta-se: irão ou não às urnas em novembro?