Justiça para todos!

 

A injustiça num lugar é uma 
ameaça à justiça em qualquer lugar.

Martin Luther King Jr.  

 

Os Estados Unidos celebraram ontem (18 de janeiro) o feriado dedicado a Martin Luther King Jr., o famoso dirigente dos movimentos dos direitos civis americanos, nascido em Atlanta na Geórgia e assassinado a 4 de abril de 1968 em Memphis no estado de Tennessee. Esta é, simultaneamente, a ocasião em que se fala de algumas das lutas que o Dr. King travou durante a sua vida. É que tão significante como a sua luta pelos direitos dos afro-americanos, foi a sua contestação a favor dos mais marginais da sociedade americana. Um dos mais conceituados oradores do século vinte, Martin Luther king foi um homem corajoso que deu voz a milhões de vítimas da discriminação, fosse ela racial ou social.  
Com o feriado que lhe é dedicado, a terceira segunda-feira do mês de janeiro, populariza-se as espantosas e inestimáveis vitórias dos direitos civis americanos, desde Montgomery em 1955 a Selma em 1965, mas esquecem-se, propositadamente, as marcantes lutas sociais que ele travou desde 1965 a 1968. Recorde-se que foi assassinado enquanto preparava uma grande manifestação para Washington que havia titulado de Poor People’s March—A Manifestação dos Pobres. É que o Dr. King legou aos Estados Unidos, e ao presente sistema económico, um conjunto de críticas, que infelizmente ainda são extremamente pertinentes. King deixou ainda uma agenda que apelava para transformações fundamentais nas instituições morais e sociais. O conjunto de discursos e artigos escritos durante a sua vida não se limitam ao famoso I have a Dream—Tenho um Sonho, proferido perante cerca de um quarto milhão de pessoas em Washington e que foi um dos momentos mais marcantes na campanha para eliminar a discriminação racial que o país vivia há vários séculos.  
Uma leitura dos seus discursos e alocuções diz-nos que a sua ofensiva contra a iniquidade americana começou desde que se envolveu nas lutas contra o racismo, a quais ficaram ainda mais visíveis a partir de 1965. Nos primeiros anos de luta, acredita que o sonho americano de liberdade e justiça poderia ser obtido através das reformas. Mais tarde, com a rebelião de Watts em Los Angeles (em agosto de 1965), a escalada da guerra no Vietname, o aumento das intervenções militares americanas no estrangeiro, e o declínio das oportunidades económicas para os mais marginais da sociedade, King tornou-se menos optimista quanto a reforma do sonho americano. Como Malcolm X, outro dirigente do mesmo movimento, King começa a falar de um pesadelo americano. Amentou a sua preocupação pelas raízes económicas do racismo e o seu trabalho transformar-se-ia de reformista em revolucionário.  Em 1967 escreveu: “a revolução negra é muito mais do que a luta pelos direitos dos negros. É uma luta que força a América a afrontar-se com as suas imperfeições tais como o racismo, a pobreza, o militarismo, e o materialismo. Este movimento patenteia os males que estão profundamente enraizados em toda a estrutura do nosso sistema. E indica que essas imperfeições no nosso sistema são sistemáticas e não meramente superficiais, sugerindo-nos que a reconstrução radical da sociedade é o autêntico assunto com que nos devemos encarar.” 
O líder dos direitos civis americanos acreditava que a história demonstrava as grandes contradições no seio do sonho americano.  A Constituição e a Declaração da Independência haviam estabelecido os ideias da igualdade, mas o sistema económico havia falhado na transformação desses ideais. Os pais do sistema americano, todos eles homens brancos e ricos, muitos proprietários de escravos, definiram “liberdade” em termos políticos e cívicos. Como se sabe, tais declarações não deram a liberdade às mulheres, às pessoas de cor, e os pobres careciam de acesso ao poder social e económico.  
Martin Luther King Jr., interpretava as condições dos afro-americanos, como epítome das contradições apresentadas no seio da aspiração americana. É que no fim da guerra civil americana, a nação havia prometido direitos cívicos e políticos para mais de quatro milhões de escravos, porém nunca lhes foi dado qualquer pedaço de terra ou base económica para que pudessem exercer essas liberdades. É interessante notar que, os afro-americanos, que haviam sido escravos durante cerca de trezentos anos, ajudando a construir o império sem qualquer remuneração, foram emancipados com pouco mais do que as roupas que vestiam.  
O sistema de apartheid que predominou durante mais de cem anos assegurava que a maioria dos descendentes dos escravos não teria qualquer oportunidade de avanço económico. Simultaneamente, o sistema fez com que os salários continuassem baixos para todos os trabalhadores, de todos os grupos étnicos, e fez com que negros e brancos, ambos membros da classe operária trabalhassem antagonicamente.  
Ultrapassados mais de cem anos após a emancipação, o movimento dos direitos cívicos, finalmente, havia sobrepujado a segregação. Porém, e pouco depois de algumas das mais significativas vitórias, King canalizou os seus esforços para as igualdades sociais de todos os marginais. Para este dirigente, qualquer mudança profunda teria de passar por uma análise das causas económicas que permitiam a opressão racial. Para ele, a liberdade não era um mero abstracto. Os seus discursos indicam que para este dirigente, a liberdade estava equacionada com o direito que cada ser humano tem a uma vivência decente, um direito que a escravatura, e a subsequente segregação, havia privado a milhões de americanos.  
King profetizava que a automatização, e o envio de trabalhos industriais para o exterior, se não fossem bloqueados por um conjunto das forças representativas dos trabalhadores e dos direitos civis, recusariam a liberdade económica de toda a classe operária, indiferente à raça ou à cor. Já em 1961, havia escrito: “Durante os próximos dez a vinte anos, a automatização moerá os empregos tornando-os em pó.  Será uma época em que os que são contra as liberdades económicas conduzirão os sindicatos para a impotência através de assaltos corrompidos em todo e qualquer momento de fraqueza.” É que já então compreendia a aliança que se forjava entre a direita americana e o grande capital, o militarismo e a indústria, os republicanos e os conservadores do Partido Democrático. Estas forças, previa o Dr. King, poderiam baixar o nível de vida das classes baixas e aumentar a desconfiança nos sindicatos e outras organizações que lutavam para que a verdadeira liberdade pudesse chegar aos trabalhadores.  
Como sabemos, as previsões de Martin Luther King Jr., das quais pouco se fala na contemporaneidade americana, aconteceram com a chamada “Revolução Reagan”, que destruiu a base económica dos sindicatos e muitos dos empregos da comunidade afro-americana foram transferidos para o exterior. Os esforços dos trabalhadores pretos e brancos nos anos 50 e 60 foram, essencialmente, destruídos com a revolução do actor californiano tornado presidente da nação, e a sua coadunação total ao grande capital. Estas mudanças económicas, tal como o Dr. King havia antevisto, foram particularmente nocivas para as comunidades afro-americanas, deixando muitos dos seus membros mais novos sem trabalho, sem futuro, sem esperança.     
Daí que o dirigente dos direitos civis se tenha diligenciado pela melhoria nas condições de todos os operários americanos. A sua dedicação perante a problemática dos trabalhadores sanitários de Memphis, seria o primeiro passo para o que disse ser o próximo episódio do “movimento da libertação”: a desopressão de milhares de trabalhadores norte-americanos. Ao discursar perante os milhares de grevistas em Memphis, a 18 de Março de 1968, King acentuou que depois dos direitos cívicos havia que se lutar pela igualdade económica, que uma luta tinha aberto espaço para outra, daí que acrescentasse: “a nossa acção tem que ser para uma igualdade genuína o que quer dizer igualdade económica. Nós sabemos que não basta estarmos integrados em restaurantes. Que benefício terá um homem se puder por lei comer num restaurante integrado, mas não possuir dinheiro para comprar uma hamburguer ou uma chávena de café?” Tendo acrescentado que os direitos cívicos tinham sido a primeira prestação na revitalização do sonho americano, havendo agora que: “tornarem-se reais as promessas da democracia.”
Martin Luther King Jr. utilizou as hostilidades com que foram tratados os grevistas em Memphis para exemplificar as atrocidades que se cometiam (e ainda se cometem) contra os trabalhadores, contra os mais necessitados. A certa altura afirmaria:  “Vós estais rememorando a nação que é um crime que haja neste país tão rico gente a receber tão pouco pelo seu trabalho...este é o nosso triste estado como povo em toda a parte do país. Como povo estamos a viver numa depressão literal. Vocês sabem que a maioria dos pobres neste país trabalham todos os dias por salários tão míseros que nem podem funcionar no mainstream da vida económica do país.”  
Para King, a resistência do movimento Negro tinha-se metamorfoseado para Memphis a fim de combater a opressão dos trabalhadores. Tal como afirmou num congresso da Southern Christian Leadership Conference, movimento que dirigiu durante vários anos, “o que estamos a ver é um abuso das classes. É o velho problema das disparidades entre os que têm muito e os que não têm nada.” Por pronunciar tais opiniões, organizar os pobres a fim de lutarem pelos seus direitos e manifestar-se contra o exacerbado militarismo, os políticos e a comunicação social de então assaltavam-no acusando-o de comunista e traidor. É a insistência que ainda possuímos em rotular tudo que é justiça com frases e palavras tabus. Não haja dúvida que o crescendo de tais assaltos verbais, criaram as condições para o assassinato de que seria vítima.
E qual seria a sua agenda para o futuro? Sem querer entrar no mundo da especulação, poder-se-á afirmar, sem qualquer exagero, que nos últimos anos da década de sessenta a sua contestação ia além dos direitos cívicos dos afro-americanos e penetrava o domínio dos direitos humanos. Os seus escritos, e os seus sermões, deixam bem claro a sua convicção de que sem uma reforma económica, a maioria dos pobres americanos continuaria pobre e perdurariam as lutas entre o cidadão comum.  Os seus pensamentos apontam para a construção de uma coligação de gente de todos os quadrantes que confrontasse as injustiças sociais e raciais. Durante a década de sessenta King foi peremptório ao apelar para uma maior aliança entre os sindicatos e os dirigentes dos direitos cívicos. Numa alocução feita perante um grupo de dirigentes sindicais em 1961, afirmou: “protestos, desobediência civil, manifestações são ferramentas que utilizamos todos os dias, tal como greves e demonstrações têm sido parte da vossa organização. Quase todos os afro-americanos são trabalhadores e as nossas necessidades são idênticas às vossas.”
Desde sempre que o carismático líder afro-americano havia indicado preocupação com as disparidades sociais. Num discurso feito num liceu em 1957, disse: “não tenciono ajustar-me às iniquidades trágicas de um sistema económico que tira as necessidades básicas das massas a fim de dar luxos às classes mais altas.” Interessante será notar-se que apesar dos esforços para unir as duas forças, os sindicalistas de então, receosos de dísticos, e mais interessados em manterem o bom entendimento com as forças patronais, sempre fugiram ao Dr. King.  
Entretanto, com e sem apoio dos sindicatos, este dinâmico dirigente, promoveu uma agenda económica que apelava para uma maior equação nos recursos do país.  Em 1968 difundiu o Poor Peoples Campaing—Campanha dos Pobres.  Este movimento seria o principio da consciencialização do país para a construção de melhores condições para todos os trabalhadores. Tal como realçou: “é um assassinato, pelo menos psicológico, privar um homem de um trabalho, de um vencimento. Está-se de uma forma real privando-o da vida, da liberdade, e do direito da prossecução da felicidade. E milhões de norte-americanos estão privados de tal. Mais, o problema é internacional. E está a piorar.” O movimento foi vinha de pouca uva, já que foi brutalmente assassinado poucos dias depois.  
Assim, a América, em cada terceira segunda-feira de janeiro, relembra o herói dos direitos dos afro-americanos que foi, simultaneamente, um herói para todos quantos acreditam num sistema mais igualitário, mais humano. Ao festejar Martin Luther King Jr., celebra-se não só o direito à diversidade racial e étnica, mas também o direito que cada ser humano tem à dignidade do trabalho e à prossecução da prosperidade. É que para este americano, o amor, a igualdade e a justiça não eram meros abstractos. Por isso a data do seu nascimento deveria ser comemorada com a leitura e a celebração de tudo o que disse e tudo o que acreditava. Teríamos uma América muito melhor se assim o fizéssemos.