“Impeachment”, eleições e Pennsylvania

Depois de aparentemente resolvido o caso do alegado envolvimento da Rússia nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, com conluio (ou não) do atual inquilino da Casa Branca, eis que temos agora outra novela que tem alimentado os noticiários das estações televisivas e das rádios e preenchido papel nos mais importantes e influentes jornais do país. Referimo-nos ao processo para destituir (“impeachment”) Donald Trump levado a cabo pelo Partido Democrata sob a liderança de Nancy Pelosi, líder da maioria na Câmara de Representantes e que na passada terça-feira fez o anúncio formal da abertura do pedido de “impeachment” do presidente dos Estados Unidos, isto depois dos jornais Washington Post e New York Times terem dado como certo o processo, medida considerada extraordinária, que poderá obrigar Donald Trump a abandonar a Casa Branca.

Nancy Pelosi disse que as ações de Trump representam “uma traição da segurança nacional” e da integridade das eleições. “Por isso, hoje anuncio que a Câmara dos Representantes vai avançar com um processo oficial de destituição... O presidente tem de ser responsabilizado. Ninguém está acima da lei”, pode ler-se em nota oficial da líder democrata.
A acusação surge na sequência de revelações proferidas por um membro dos serviços secretos de que Trump teria, alegadamente, pedido ao seu homólogo ucraniano para investigar atividades do filho de Joe Biden, um dos principais rivais na corrida presidencial de 2020. A líder democrata disse que Trump “admitiu ter pedido ao presidente da Ucrânia para tomar ações que o iriam beneficiar politicamente. As ações de Trump revelaram o facto desonroso de que o presidente traiu o juramento prestado, a segurança nacional e a integridade do processo eleitoral”.
Por sua vez, Trump prometeu publicar uma transcrição da conversa telefónica com Volodymyr Zelensky e reconheceu ter falado sobre Joe Biden e o filho Hunter, mas negou qualquer pressão sobre a Ucrânia, nomeadamente a ameaça de reter 400 milhões de dólares em ajuda ao país. O presidente dos EUA afirmou ter sido um telefonema perfeito, que não poderia ter sido mais cortês e cordial, com o próprio governo ucraniano a declarar que foi de facto um telefonema perfeito não tendo sido imposta qualquer pressão.
Joe Biden, por seu turno, afirmou que apoiará o processo de destituição, se o presidente não colaborar plenamente com a investigação do Congresso, adiantando que Trump deve parar de bloquear tanto esta investigação, como todas as outras àcerca dos seus atos alegadamente irregulares.
Contudo, sabendo-se que a maioria do Senado é controlada pelo Partido Republicano, que continua a apoiar incondicionalmente o atual presidente dos Estados Unidos, estamos em crer que as intenções do partido da oposição não serão bem sucedidas, como não foram também bem sucedidas outras tentativas de destituir presidentes no passado. Deu forte mas passou. E temos que inserir isto tudo neste contexto de campanha eleitoral já a decorrer. E mais: toda a gente sabe que o Partido Democrata tem sérios problemas a resolver “dentro da sua própria casa”, começando pelas diferenças de ideologia entre várias figuras de topo no partido, com acentuadas “clivagens” e que poderão originar, tal como aconteceu há quatro anos, quando Hillary Clinton foi nomeada em detrimento de Bernie Sanders, a pequenos focos de revolta. Para além disso, o atual candidato não reúne consensualidade dentro do próprio partido e, citando alguns críticos e observadores, não é uma figura carismática. 
Sabe-se também que Nancy Pelosi há muito que tem vindo a resistir a lançar um processo de destituição de Trump. Contudo, agora, por pressão do seu partido, resolveu avançar com o processo. Vamos aguardar, mas é pouco credível que as intenções do Partido Democrata venham a ser bem sucedidas, isto não obstante ter surgido agora, nos últimos dias, um segundo denunciante, com a perspetiva de anunciar revelações mais impressionantes para aprofundar esta crise. O que o povo realmente quer é que ambos os partidos debatam ideias e projetos concretos para o futuro do país e deixem de fazer política. O que se espera é que sejam resolvidas questões referentes às relações comerciais com a China, com o Médio Oriente, com a União Europeia e a outras políticas que digam respeito à preservação do meio ambiente. São estes assuntos que deveriam estar na ordem do dia, mas infelizmente perde-se muito tempo com futilidades.

 

Eleições legislativas em Portugal


O Partido Socialista venceu as eleições legislativas de domingo, com 36,65% dos votos e 106 deputados eleitos, isto ainda segundo resultados provisórios, uma vez que falta apurar quatro deputados, dois pelo círculo eleitoral da Europa e dois pelo círculo fora da Europa, que só se saberá dia 16.
O PS venceu, mas não conseguiu a desejada maioria absoluta, elegendo 106 deputados. Precisaria de 116 deputados para a maioria. O PSD de Rui Rio quedou-se pelo segundo lugar, com 77 deputados e o CDS-PP, conseguiu apenas cinco, o que levou à demissão de Assunção Cristas. Para muitos, estes resultados revelam que a Direita foi a grande derrotada. Mas, na nossa perspetiva, o grande derrotado foi a democracia: uma abstenção superior a 45%, e para acentuar esta crise, a soma de votos brancos e nulos ultrapassou pela primeira vez os 5 por cento em quatro círculos: Coimbra, Guarda, Leiria e Açores.
Estas eleições permitiram eleger mais 14 mulheres do que nas de 2015, num total de 89 eleitas do sexo feminino: 42 pelo PS, 26 pelo PSD, nove pelo BE, cinco pelo PCP-PEV, três pelo CDS-PP, três pelo Partido Animais e Natureza (PAN) e uma pelo Livre.
Registe-se a entrada de três novos partidos no parlamento: Livre, Iniciativa Liberal e Chega. Nas legislativas de 2015 tinham sido eleitas 75 mulheres.

 


Pennsylvania e um “amish” a falar português


Há dias fomos até Lancaster, Pennsylvania, em viagem de lazer, sob a responsabilidade do casal amigo Abel e Maria Raposo, entre mais de meia centena de passageiros. A viagem de autocarro foi muito agradável, sublinhando-se o profissionalismo, competência e amabilidade de Abel e esposa Maria, e ainda com a preciosa colaboração de Sãozinha Pavão, contribuindo para uma jornada bem sucedida. 
O ponto alto da viagem foi a apresentação da peça “JESUS”, em cena no teatro Sight&Sound, que se tem revelado um grande sucesso, de tal forma que tem esgotado sucessivamente a lotação da sala.
Depois foi uma visita à fábrica de chocolates Hershey’s, ao Hershey Park, com paragem ainda em outros pontos de interesse turístico, como as várias herdades (“farms”) na sua maioria propriedade dos “amish”, um grupo de cidadãos que cumpre e obedece aos ensinamentos de Jacob Ammann, um cidadão suíço do século dezassete de denominação protestante e que recusa tudo o que tenha a ver com tecnologia moderna e outras conveniências, numa vida o mais simples possível e dedicada ao campo. No plano espiritual levam uma vida muito semelhante à dos judeus mais tradicionais que seguem a rigor as leis do Antigo Testamento. 
Ora, o nosso amigo Abel resolveu surpreender-nos com um cidadão americano “amish” a falar português fluentemente. Trata-se de Chris Lubkemann, de origem alemã, que permaneceu durante alguns anos em Portugal e visitou a Nova Inglaterra nos anos 80, tendo sido entrevistado, na ocasião, pelo nosso colega Eurico Mendes, no seu programa, já extinto, “Fim de Semana”, do Portuguese Channel. Lubkemann editou um livro tendo confidenciado: “Vivi em Lisboa entre 1972 e 1986 e recordo com saudade esse lindo país. Estou aqui em Pennsylvania e dedico o meu tempo a trabalhos em madeira, como galos em madeira de todos os tamanhos, para além de cultivar plantas e vegetais”, referiu ao Portuguese Times. Saliente-se que Chris Lubkemann figura no livro de recordes mundiais Alec Guiness por ter construído o mais pequeno galo em madeira, de 1 centímetro.