Uma inesquecível viagem à Califórnia

 

 

Fomos recentemente em missão artística até terras do oeste norte-americano. A Califórnia não é outro país mas o país ali é outro (tal como referiu Daniel de Sá em alusão ao meu Nordeste em S. Miguel). E a Califórnia, pela riqueza e potencialidade dos seus imensos recursos, clima ameno e até mesmo a beleza paisagística e sua grandeza, é de facto outro mundo.
Ora bem. A música é e será sempre uma das grandes paixões nossas e lá fomos integrados nessa emblemática banda açoriana da ilha Terceira dos anos 60, Os Sombras, constituída por Tony Figueiredo (“Kiko”), Roberto Bettencourt, Ilídio Gomes, Carlos Madureira e o autor destas linhas, que há quatro anos substitui o saudoso, mas sempre presente na memória, Jorge Figueiredo. Portanto, somos 5+1. 
A música é para nós um escape a esta azáfama e stress de fazer jornais portugueses na América, com equipas reduzidas e cujos operários têm de ser polivalentes e ter um grande sentido de comunidade, de voluntariado, de serviço ao próximo, uma vez que grande parte da tarefa de um jornalista não tem recompensa e é muitas vezes ingrata (mas isso fica para outra crónica).
Mas, voltando à música: a base do grupo foi em São José e a atuação na festa de passagem de ano teve por palco o Portuguese Athletic Club, situado no segundo piso do edifício da Irmandade do Espírito Santo, mesmo ali ao lado da igreja das Cinco Chagas, ex-libris dos portugueses daquela cidade do norte da Califórnia. O PAC foi fundado em 1962, concebido por um grupo de jovens amantes do desporto-rei e tem sido palco para diversas iniciativas sócio-culturais da comunidade portuguesa de San José. Décio Machado Oliveira, irmão do saudoso padre Edmundo Machado Oliveira, da Ribeira Grande, S. Miguel, é o atual presidente do PAC. 
Da última vez que ali nos deslocámos, em missão idêntica, foi-nos oferecido um livro (excelente) comemorativo do cinquentenário desta presença lusa na Califórnia e onde estão registadas as principais etapas do seu rico percurso na história da comunidade portuguesa na região.
A atuação dos Sombras, em boa verdade se diga, correspondeu plenamente às expetativas de um público fiel e que conhece o percurso do grupo. Vieram de diversas localidades da Califórnia e até de Massachusetts e do Ontário, Canadá, em ambiente de sã camaradagem, animação e muita alegria.
No dia da chegada à Califórnia, lá estava o incansável Celestino Aguiar à nossa espera, que durante seis dias, juntamente com a sua simpática esposa Manuela foram os nossos anfitriões e tudo fizeram para que nada nos faltasse e para que a nossa estadia ali fosse inesquecível. E foi realmente. É que, para além da sua hospitalidade tiveram a amabilidade de nos levar aos mais aprazíveis locais daquela região. Ganhámos mais dois amigos.
O Celestino é um dos mais bem sucedidos empresários portugueses na Califórnia e um dos representantes do convívio dos naturais da Praia da Vitória, ilha Terceira nos EUA.
No dia da chegada a São José, provenientes de Boston em voo non-stop, o Celestino Aguiar levou-nos a casa de um outro bem sucedido empresário: John Goulart, natural da ilha de São Jorge, já reformado, primo do nosso antigo professor do Seminário Episcopal de Angra, Artur Goulart e cunhado do maior produtor individual de leite do mundo, Luís Bettencourt, também ele natural de São Jorge, com mais de 100 mil cabeças de gado, proprietário da Bettencourt Dairies, em Idaho. Na casa de João Goulart “atacaram-nos” com boa comida, vinho de alta qualidade e a sorte de encontrarmos um grupo de músicos que gostam de preservar a tradição dos cantares de Natal e do Carnaval. Assistimos, participámos e atacámos o prato e o copo. Nada mau para o primeiro dia e para quem vinha cansado de uma longa viagem de mais de seis horas entre Boston e São José.
Já em casa do Celestino e da Manuela, ainda antes do apetecível repouso, fomos presenteados com um Johnny Walker Blue Label e uma impressionante panorâmica noturna da cidade de São José. Memorável. A casa da família Aguiar fica situada no topo de uma das várias montanhas, o que nos permite apreciar uma bela paisagem do Vale de Santa Clara (São José, Santa Clara e mais ao longe parte da baía de São Francisco).
No dia a seguir fomos de abalada até uma das mais impressionantes cidades nos Estados Unidos. A cidade de São Francisco, virada para o mar, com as suas pontes, onde se destacam a Golden Gate Bridge, que dá acesso à linda Sausalito, onde fomos presenteados com um excelente almoço (uma bela mariscada) e a San Francisco-Oakland Bay Bridge, constitui uma visita obrigatória, onde predominam as suas colinas, os carros elétricos (alguns dos quais vindos de Lisboa e que constituem hoje em dia mais uma atração turística do que propriamente meio de transporte público na cidade de hoje), a ilhota de Alcatraz, visitada diariamente por milhares de turistas, a zona litoral onde está situado o famoso “Fisherman’s Wharf”. Tudo isto e as suas típicas casas são motivos suficientes para uma visita à cidade mais dispendiosa dos EUA.
Santa Cruz, com uma população de pouco mais de 60 mil habitantes, situada a 32 milhas a sul de São José e a norte de Monterey, foi outro destino de visita. Destaca-se pelo seu clima moderado, lindas praias (local de excelência para o surfismo), belos restaurantes e local de preferência dos turistas, principalmente entre maio e setembro, como aliás toda a costa litoral entre San Francisco e San Diego. Cinco estrelas.
O nosso bom amigo Celestino levou-nos ainda a parte do Vale de S. Joaquim, a zona agrícola mais rica do mundo e que constitui uma das grandes fontes de riqueza de todo o estado da Califórnia. É a parte do Vale Central, na Califórnia, que fica situado a sul do delta do Rio Sacramento em Stockton. Apesar da maior parte do vale ser rural, contém algumas cidades de média dimensão, como Stockton, Fresno, Visalia, Modesto, Bakersfield e Merced. Visitámos ainda Atwater, terra do nosso amigo Chico Ávila (desculpa Chico, devo-te uma visita), Livermore, Hilmar, onde existe uma pequena igreja portuguesa e uma Casa dos Açores, Turlock, entre outras. Em Atwater havia tourada e a malta (éramos nove) teve oportunidade de assistir a uma tourada à corda. 
Em Merced fomos apresentados a António Nunes, atualmente o segundo maior colecionador de chocalhos do mundo, de quem falaremos na próxima edição. Nunes, natural de São Pedro de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, levou-nos à sua ganadaria e falou-nos das suas paixões, as vacas, a produção de leite, os touros e touradas e essa enorme coleção de chocalhos e alfaias agrícolas que manda vir da terra de origem. No seu rancho pudemos apreciar um autêntico museu agrícola com todos esses utensílios e uma coleção de mais de 2000 chocalhos colocados no teto. Depois de servidos uns aperitivos regados com bom vinho da Califórnia ainda tivemos tempo de apreciar o seu presépio no interior da casa, onde fomos recebidos pela simpática esposa Filomena Nunes. António Nunes ofereceu-nos o seu livro, “Vacas, Toiros e Chocalhos”, lançado em setembro de 2019 e editado pelo nosso colaborador Liduíno Borba, da ilha Terceira.
Jorge Fagundes Duarte, que já conheciamos aquando da nossa deslocação a São José, em 2016, é um conceituado médico dentista que reside em Turlock e, para além de exercer essa profissão, é um verdadeiro apaixonado pela agricultura e vinicultura. “Produzo cerca de 70 toneladas de amêndoas (“almonds”) por ano e gosto de fazer vinho, de várias qualidades, Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonay e outros”, disse-nos o Jorge, que é também um apaixonado pela música, ele que executa bem o saxofone. Jorge é irmão do conhecido Luís Fagundes Duarte, antigo diretor regional da Cultura do Governo dos Açores, nosso conhecido já do tempo do antigo Seminário-Colégio Santo Cristo em Ponta Delgada.
Ainda antes do regresso a São José, pela noite dentro, lá fomos ao Buhach Portuguese Hall em Atwater, no local onde se realizou uma tourada à corda e fomos presenteados com as tradicionais Sopas do Divino Espírito Santo, excelentemente confecionadas. Maravilha.
Falta ainda referir que, na segunda-feira, 30 de dezembro, lá fomos à Casa do Benfica para um jantar-convívio, cuja ementa foi um belo frango de churrasco confecionado no pátio desta presença benfiquista em São José. Aqui tivemos o prazer de falar com gente conhecida de Massachusetts, do Canadá e da Califórnia. Foi-nos dada a oportunidade de pela primeira vez conhecer em pessoa José Ávila, o dinâmico e diretor do Portuguese Tribune, o quinzenário bilingue que se publica em Modesto. Um prazer e a troca de impressões sobre os mais variados assuntos relacionados com a vivência e experiência dos portugueses em terras californianas.
Muito mais haveria a dizer sobre esta estadia de seis dias na Califórnia, mas há pormenores que apenas poderão ser apreciados in locco.
Um agradecimento especial ao casal Celestino e Manuela Aguiar. Muito obrigado pelo carinho, amabilidade, hospitalidade e pela amizade que vai certamente perdurar, não obstante as distâncias. 
Eternamente grato.

 

Ler na próxima edição:
António Nunes, o segundo maior colecionador
de chocalhos do mundo