Os 150 anos da igreja de Santana

 

Fomos recentemente de abalada até à ilha de São Miguel para curtir umas merecidas duas semanas de repouso (férias) e ainda para celebrar com familiares e amigos a festa comemorativa dos 150 anos da edificação da igreja de Santana, Nordeste.

Férias na nossa terra são sempre jornadas de saudade, de reviver e reencontrar lugares e amigos de infância e juventude, pelo que desta vez não foi exceção e o objetivo foi cumprido. Sempre que nos deslocamos à terra natal fica lá um pouco de nós e a vontade de um dia regressar definitivamente ou pelo menos repartir residência entre aquele cantinho no meio do Atlântico e este país que um dia escolhemos para viver. Para além de passeios pela ilha e as obrigatórias mas apetecidas caminhadas matinais, a atenção virou-se ainda para certos aspetos da vivência dos açorianos.

Os Açores, e a ilha de São Miguel em particular, atravessam um período próspero de desenvolvimento económico, tendo em conta o aproveitamento das suas potencialidades, nomeadamente na agro-pecuária e em maior escala no turismo, com tudo o que daí advém. Nota-se efetivamente que os Açores evoluiram em muitos aspetos nos últimos quarenta anos, mercê de um regime autónomo que permitiu a criação de infraes­truturas indispensáveis para o tal progresso, com a captação de investimento e a formação profissional a serem molas fundamentais para um futuro risonho e mais promissor. É verdade que nem tudo é mar de rosas. Mesmo tendo em conta esse incremento económico, o arquipélago continua a ser uma região muito dependente do poder central e de iniciativas privadas do exterior, com claras desvantagens no mercado competitivo, das tendências do grande mercado internacional, o índice de desemprego continua elevado, a população vai envelhecendo porque os jovens, sobretudo aqueles com formação superior, escolhem outros horizontes mais vastos e promissores para vingarem, com a Europa e a América do Norte (EUA e Canadá) nos destinos de preferência. É uma visão superficial em termos gerais porque há certamente gente mais qualificada do que nós para uma análise profunda e cuidada e alicerçada em conhecimento real da situação. Mas esta foi a nossa impressão geral da atual situação dos Açores.

 

A festa

Como acima referimos, o objetivo primordial da nossa deslocação à terra de origem foi de facto celebrar os 150 anos da edificação da igreja de Santana, no Nordeste e é dessa passagem histórica que nos iremos debruçar.

Para já, comecemos por dizer que uma forma geral a comissão organizadora dos 150 anos, constituída por gente séria, competente, dinâmica e com “amor à ca­misola”, está de parabéns pelo sucesso desta festa, que para muitos constituiu um momento marcante e inesque­cível, sobretudo para os naturais de Santana que residem no estrangeiro. Muitos, tal como o autor destas linhas, tinham celebrado a passagem dos 100 anos, numa altura em que a freguesia era privada de muito do que hoje dispõe. Uma das intenções da comissão formada pelo diácono António Rocha, padre Valter Correia, Alexandra Aguiar, José Manuel e Fátima Furtado, Roberto e Zita Moniz, Ilda Silva, Nuno e Solange Amaral, Acácio Silva e esposa, Humberto e Florinda Furtado, António Morais, Luísa Pimentel, Madalena Medeiros, Lídia Vieira, Helena Correia, Nélia Costa, Sónia Morais, Nuno Lopes, Lurdes Teixeira, Marcos e Mariana Moniz e Francisco Costa foi reviver tradições: uma forma de prestar um tributo de home­nagem a gerações anteriores que deram um enorme contributo para a preservação e valorização desse património material (a igreja) e imaterial (as tradições) e ainda de transmiti-las às novas gerações para que tudo isso fique perpetuado na memória das gerações e do tempo.

A festa começou com uma cerimónia oficial de abertura com palestras proferidas pelo dr. José Carlos Carreiro, antigo presidente da Câmara Municipal do Nordeste e atual diretor da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, que falou sobre a construção da igreja, a criação da paróquia e outros aspetos históricos de Santana e referências geográficas. Ao autor destas linhas foi incumbida a missão de evocar a memória e obra dos sacer­dotes (12) que passaram por Santana e o impacto social e religioso na paróquia e paroquianos. É justo e oportuno mencionar esses doze servos de Deus: padres João Jacinto Amaral Pacheco (mentor e fundador da paróquia), Manuel António de Melo, Francisco Moniz Furtado, Benjamim Moniz Resendes, Domingos Machado, João de Medeiros Cabral, José Luís Alves da Mota, Florêncio Lino da Silva, Virgínio Inácio Machado, João Martins Furtado, José Agostinho Sousa Barreiro e Valter José Correia.

Após a cerimónia seguiu-se um festival de sopas, muito concorrido, e atuação do grupo folclórico de São José, da Salga. Saliente-se ainda uma exposição, com fotos dos sacerdotes que prestaram serviço na paróquia, bem como algumas passagens históricas de teor religioso, nomea­damente a celebração dos 100 anos da igreja.

O segundo dia, a quinta-feira, foi revivida a tradição da matança de porco, um momento que cativou muitos forasteiros e cuja refeição foi servida no dia seguinte, a sexta-feira, com almoço oferecido aos imigrantes, após celebração da missa a comemorar o dia de Sant’Ana (dia 26 de julho), ao que se seguiu, pela noite dentro, arraial com o famoso conjunto micaelense The Code.

No sábado, procissão de ofertas, com a imagem de Sant’Ana a percorrer as principais artérias de Feteira Pequena e Feteira Grande, acompanhada pela filarmónica Estrela do Oriente, da Algarvia e à noite arraial que atraiu centenas de pessoas.

O ponto alto da festa, foi o domingo e a eucaristia solene com vários sacerdotes e presidida por D. João Lavrador, Bispo da Diocese de Angra, que na sua homilia salientou que “os cristãos é que constituem as verdadeiras pedras da Igreja na construção da comunidade cristã”. A procissão solene saiu ao fim da tarde, nela integrando-se o bispo dos Açores e alguns sacerdotes, cinco imagens incluindo a padroeira Sant’Ana, forças vivas da paróquia e as três bandas filarmónicas do concelho: Algarvia, Fazenda e V. Nordeste. Seguiu-se arraial pela noite dentro. A tradicional arrematação de gado e cantigas ao desafio aconteceram na segunda-feira, para na terça-feira, a comissão ter destinado uma ida ao Pico da Vara, seguindo-se um torneio de futebol de salão no gimno­desportivo, com a participação de diversas equipas e os comes e bebes a não faltarem.

O último dia da festa foi reservado ao festival da cerveja e espetáculo de variedades com artistas locais. Constituiu um momento particularmente emocionante para os paroquianos e imigrantes a ceri­mónia de despe­dida da imagem de Sant’Ana, presidida pelo diácono António Rocha.

A festa comemorativa dos 150 anos de Santana ficará eternamente marcada na memória de todos os que participaram: dos lá residentes e dos que se deslocaram da diáspora. Viva Santana.