O fim da operação PDL-JFK pela Delta Airlines

 

 

A suspensão da operação da Delta Airlines, entre New York e Ponta Delgada, foi notícia dominante na imprensa regional açoriana e nas redes sociais envolvendo o arquipélago e a diáspora açoriana.
A companhia norte-americana (a segunda maior do mundo, a seguir à American Airlines, transportando cerca de 184 milhões de passageiros anualmente) com sede em Atlanta e vários outros “hubs” em New York, Salt Lake City, Detroit, Seattle, Los Angeles e Minneapolis, iniciou os voos para Ponta Delgada em 2018, com uma frequência semanal e sazonal (maio a setembro) de cinco voos reforçando a operação semanal para sete voos em 2019, deixa assim um vazio entre um mercado muito importante, que é efetivamente o da Big Apple e que abria excelentes perspetivas para o turismo dos Açores. O cliente norte-americano geralmente não é aquele de mochila às costas e explorar a beleza das ilhas. É muito mais do que isso, é aquele que utiliza os transportes, vai aos restaurantes, compra produtos locais e com um poder de compra superior a muitos que vêm da Europa. É também exigente.
Quando foi anunciada essa operação a partir de JFK, muita gente aqui da Nova Inglaterra questionou: porque razão a Delta não voa a partir de Boston ou de Providence, área de grande concentração de açorianos? Ora bem, o mercado de New York representa cerca de 15 milhões de pessoas, para além de ser um dos “hubs” principais da companhia e o mercado étnico pouco pesa nas contas, dois argumentos de peso pela escolha de JFK.
Segundo dados da Secretaria Regional do Turismo dos Açores, “apesar das taxas de ocupação acima dos 80%, a Delta alegou que a rentabilidade da operação esteve abaixo do esperado, não colocando de parte uma eventual reanálise no futuro”, referiu Marta Guerreiro, em declarações aos jornalistas, tendo adiantado que “este não foi um problema de falta de investimento na promoção turística dos Açores, até porque tem havido aumento do interesse do destino”.
Marta Guerreiro reconheceu que foi uma notícia triste, mas há que percebê-la no seu contexto global e no contexto da Delta, empresa privada com uma lógica empresarial muito própria.
Contudo, surgem vozes discordantes e uma delas é o nosso colega Osvaldo Cabral, diretor do Diário dos Açores, que num dos seus editoriais com o título de “O resultado da irresponsabilidade”, afirma que “já há muito se previa esta decisão da transportadora aérea norte-americana, sendo este o resultado da irresponsabilidade do Governo Regional dos Açores quando decidiu abandonar a ATA (Associação de Turismo dos Açores) sem montar uma alternativa que tomasse conta da política de promoção turística dos Açores no exterior”. Osvaldo Cabral adianta ainda que “o vazio que o governo criou fez com que a promoção prevista para o mercado dos EUA falhasse em toda a linha, resultando agora no abandono da Delta, sendo apenas um exemplo de como os mercados do turismo são muito sensíveis e não podem ser tratados com esquemas em cima do joelho”.
Por seu turno, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada/Associação Empresarial das Ilhas de São Miguel e Santa Maria emitiu também uma nota a lamentar profundamente o abandono da rota. “Esta é uma perda gigantesca para as aspirações do turismo dos Açores que retrocede significativamente, ao perder esta oportunidade, na sua caminhada no sentido da requalificação para um patamar mais elevado de valor acrescentado para o turismo”, lê-se no comunicado dos empresários açorianos, que adiantam que esta operação representava cerca de 1.400 passageiros por semana, para um total de cerca de 22.400 passageiros/turistas ou cerca de 90 mil dormidas, se for levado em consideração uma estadia média de 4 dias... Sendo uma operação de época alta, estimando uma despesa média total de cerca de 250 euros por dia, perdem-se receitas diretas na ordem dos 22 milhões de euros por ano... Em cinco anos perdem-se 120 milhões de euros, segundo a Câmara de Comércio.
Não há dúvida, e perante estes números, de que as consequências económias são muito expressivas para a economia dos Açores em geral e para a economia de São Miguel em particular.
Para Rui Anjos, um dos empresários de restauração em S. Miguel e delegado da AHRESP – Associação de Hotelaria e Restauração de Portugal, em artigo ao Correio dos Açores, salienta “a ausência da Associação de Turismo dos Açores no processo de transição de uma direção com experiência para outra que está a tomar conhecimento dos dossiês, notando-se uma certa estagnação durante um certo período de tempo, pode ter estado na origem da desistência da Delta”.
Para além dos dados apresentados pela Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, o delegado da Associação da Hotelaria de Portugal, Fernando Neves, refere que a ausência da Delta Airlines vai representar um prejuízo de 5 milhões de euros por ano, afetando todos os ramos desta indústria do turismo: a partir do momento em que o avião aterrava no aeroporto de Ponta Delgada havia toda uma economia que se gerava na pista, com empresas de segurança, de handling, de fornecimento de alimentos, entre outros, e que, no próximo Verão deixará de existir.
Para o PSD/Açores, o fim da operação da Delta é um duro golpe para a economia regional e mostra o falhanço do Governo açoriano na promoção do destino. “A senhora secretária regional do Turismo, Marta Guerreiro, perdeu demasiado tempo a promover uma cartilha para a sustentabilidade e esqueceu-se da promoção turística que se exigia... O cancelamento desta rota põe em causa os investimentos já efetuados e programados para os próximos anos, muitos deles aprovados ou em aprovação por parte das entidades competentes”.
Entretanto, o grupo parlamentar do Partido Socialista/Açores já requereu uma audiência com o Governo Regional e Associação do Turismo dos Açores, emitindo uma nota: “A decisão da Delta tem impacto no turismo nos Açores, mas não nos podemos esquecer que esta é a decisão de uma empresa de aviação privada, que tem total autonomia para definir a estratégia que pretende seguir, a qual já referiu que a sua decisão não está relacionada com a promoção dos Açores”.
Numa perspetiva do mercado português desta região, aqui na Nova Inglaterra, e segundo contactos com alguns clientes que utilizaram os serviços da Delta Airlines, e agentes de viagens com quem trocámos breves impressões, a suspensão desta operação entre New York e Ponta Delgada, pouco ou nada afeta em termos de opção dos clientes.
Para João Sousa, proprietário da Cardoso Travel, em Providence, “os nossos clientes, quer viajem para Lisboa ou Açores preferem sempre a operação de Boston, quer seja pela TAP ou pela SATA, muito mais conveniente do que terem de deslocar-se a JFK em New York, onde é tudo mais complicado nas acessibilidades e nas conveniências, sabendo-se que a nossa gente quer que este processo de viajar seja o mais simples e rápido possível”.
Por sua vez, Carlos Pacheco, proprietário da Piques Travel Agency, em New Bedford, foi peremptório: “A suspensão dos voos da Delta para Ponta Delgada a mim não afetou absolutamente nada...”
Contudo, para Scott Ferreira, gerente do Café Mimo, em New Bedford, “é uma pena a Delta ter cancelado esta operação, porque, para além de ter um peso considerável na economia açoriana em geral e de S. Miguel em particular, era sempre uma alternativa credível, mesmo com a deslocação a New York, que não era assim tão complicado: em 2018 viajei com a minha família pela Delta entre New York e Ponta Delgada. Tomei o voo de ligação da Delta em Boston, com destino a JFK e depois de uma paragem de duas horas, lá fomos no Boeing 757 até Ponta Delgada e tudo a tempo e horas, excelente serviço a bordo e ainda poupei algumas centenas de dólares, pois éramos quatro pessoas”.
João M. Paulino Simões, micaelense natural dos Mosteiros, antigo funcionário da EDA e que reside atualmente em Ponta Delgada, referiu nas redes sociais: “Era notória a vida rejuvenescida em Ponta Delgada com a presença dos norte-americanos e particularmente de muitos jovens casais que adoravam e admiravam as nossas belezas naturais... Conversei com muitos deles... É uma pena, vamos sentir a falta desse mercado e é sem dúvida um “castigo” para o nosso turismo”.
Embora desconhecendo as reais razões do abandono da Delta Airlines a Ponta Delgada e recusando apontar o dedo a este ou àquele (notando-se até algum aproveitamento político por parte dos partidos da oposição nos Açores que culpam o governo regional), uma coisa é certa, torna-se fundamental esclarecer como funciona isto da promoção turística dos Açores nos EUA. Falta explicar qualquer coisa, tendo a conta que a taxa de ocupação dos voos era consideravelmente elevada, na ordem dos 80 por cento para além do facto de que o aumento do interesse pelo destino Açores por parte dos norte-americanos era já uma realidade.