Pequenas labaredas de memórias

 

 

“Maria!
Estimarei
Tua saúde e dos teus
Pois a nossa, ao fazer desta
É boa, graças a Deus”

Armando Cortes-Rodrigues


   
AO FOLHEAR VELHOS ARQUIVOS, revirando rascunhos arquivados, velhos papéis, há muito guardados, antigas fotografias, traz-nos à memória, sítios da nossa existência. Quantas saudades cabem num dia? Dá para medir a quantidade de saudades que se sente? Tenho saudades de lugares, de coisas que vivi, mas tenho mais saudades de pessoas. De amigos queridos que foram conhecer o outro lado da vida ou estão muito longe para que possamos vê-los e abraçá-los. Tenho saudades de mim, da criança que fui, em tempos idos. Preferia, às vezes, não ter saudades, mas a saudade é a prova maior de que vivemos bons momentos, de que fomos felizes. Então que venha a saudade, por que sempre cabe mais uma pequena felicidade nas nossas vidas. A nossa vida, quando relativamente longa, decorre num labirinto de saudades que nos aprisiona até à morte.
SALTA-NOS, EM MUITOS LUGARES, quando em pensamento, percorro velhos sítios da minha cidade natal (Ponta Delgada). Estivemos lá. Avivam as imagens daqueles minutos – há quantos anos foi? – em que fazíamos parte do lá sucedido? Há dias, numa dessas operações de melancolia arquivista, pelas fotografias e rascunhos, fui violentamente assaltado pela infância e adolescência vivida e consumida na velha urbe açoriana, sem procurar melodramas encharca-lenços. 
EXISTE A ÂNSIA DE SE VIVER APENAS O PRESENTE. Neste frenesim de uma nova escala dos tempos, a memória dentro das pessoas perdeu relevância ou, pelo menos, tornou-se mais frágil e solúvel. E, todavia, a memória, é a presença na ausência, e passado, é a memória da presença, que, por vezes, nos troca as voltas. Assim é que há factos recentes que nos parecem perdidos no infinito do tempo e acontecimentos e vivências de há muitos anos que estão bem perto de nós, no tempo de agora.
NA VIDA, TER MEMÓRIA, É BEM IMPORTANTE Já que ela nos ajuda a olhar o passado, a sentir o presente e a agarrar o futuro!!! A memória, é a nossa reserva de referências sobre o passado. Como o passado, é sólido e documentado, assim também são as lembranças que nos evoca. O “passado” é um lugar onde deve ficar-se apenas “cinco minutos”. O escritor argentino, Julio Cortázar Borges, escreveu “é o futuro que defende o passado”.
FOI TÃO FORTE E SÚBITO O ATAQUE que o coração quase me saltava do peito. De espanto e comoção. Recordações ……só recordações, eis no que dá quando remexemos nos velhos papeis. Esquinas, lojas, sítios, lugares, ruas, edifícios, jardins, praças, lugarejos, o …..velho “Relvão” – prolongamento do meu berço -, o “Alto da Mãe de Deus” com os seus antigos esconderijos militares,  mostrando-me filmes de que fomos “autores”! E o filme começa a desbobinar, momentos vividos. A saudade não é um luto, mas pode ser um “cortinado roxo”. Muitas vezes, nos momentos de meditação e “estados d’alma”, somos obrigados a cerrar os olhos e, é, nestas ocasiões, que a saudade vem pousar no nosso ombro, abrindo a fechadura do nosso “baú de memórias”, e a imaginação leva o “homem que hoje eu sou” e devolve-me à memória, a “criança que já fui”. 
E SURGE A VELHA “ESCOLA DA “PATACA” que, hoje, seria, pomposamente, denominada por “Jardim-de-infância”. “Escola da Pataca”, por se pagar UM ESCUDO (pataca) por semana!!
A ANTIGA “ESCOLA NORMAL”, situada na Rua do Mercado. Os velhos e saudosos Professores, nas suas batas brancas. Dona Fernanda Domingues, Dona Mariana Carreiro, Dona Clara San-Bento, Dona Augusta, Dona Odília Ramos, Dona Virgínia Costa, e Professor Afonso Borges. As “fugas” que se faziam até ao “pesqueiro” e seu “Castelinho” situados por detrás da Igreja de São Pedro, junto à antiga “piscina”, afim de apanharmos “caranguejos”.
A TRADICIONAL “CERIMÓNIA”, nas manhãs dos dias de exames, quando uma das professoras citadas, dava a beber, aos alunos indicados a exame, uma “colher de sopa” com “água de Nª Srª de Fátima”.
MOMENTOS INESQUECÍVEIS, AS “FÉRIAS GRANDES”, passadas em família, numa freguesia nos arredores da cidade. Revejo ao longe o ambiente da casa emprestada, rodeada de quinta com muitas árvores de frutas, eira, arribanas para o gado e frondosas árvores em frente da casa. Ainda tenho “férias grandes” na minha cabeça. Os dias eram enormes, elásticos, e aquela rotina anual, uma delícia. Há situações que ficaram “coladas” na memória, passadas nos verdes anos (6,7 ou 8 anos). Por exemplo:- lembrar-me que só podia tomar banho, após passadas três horas sobre a última refeição. Aguardar na “fila” que o pão saísse do forno, afim de comer uma fatia “borrada” com doce de amora, ou, aguardar que o arroz doce, destinado ao fim de semana, ficasse pronto, com a dose certa de limão, o qual, seria enfeitado com o seu traço único de canela, para que pudesse “rapar o tacho” em que tinha sido feito, que era a melhor maneira de comê-lo. Certos sabores são memória pura de um tempo mais limpo. Regressa-se à infância com a sensação de que está tudo no mesmo lugar – pelo menos, enquanto se rapa o arroz-doce do tacho – A infância assalta-me em muitos lugares.
….UM BELO DIA, NAS DITAS FÉRIAS, ACEITEI UM CONVITE para ir à cidade, em cima de uma carroça, carregada de beterraba, destinada à Fábrica do Açucar na Rua de Lisboa.
FOI UM PASSEIO QUE ME SAIU CARO. Meu saudoso pai, quando chegou a casa no fim da tarde e soube da proeza, DETERMINOU, como castigo, o fim de semana fechado no quarto de cama. Nem tudo eram rosas!!! 
O TEMPOO FOI PASSANDO, OS ACONTECIMENTOS RELEMBRADOS. A passagem pelos bancos do velho Liceu e Escola Comercial, as “notas negativas e positivas”. O “Serviço Militar Obrigatório”, a ida, durante seis meses à cidade de Tavira afim de frequentar o “Curso de Sargentos Milicianos”. O regresso ao velho “18”, onde tinha sido feita a recruta. Os vários empregos, as “cavaqueiras no café”, a passagem pelo Desporto, Associação de Futebol, Clube, Jornais, Rádio e……o filme interrompe para rebobinagem…….
ATÉ QUE CHEGOU O 25 DE ABRIL. Chegou à Ilha e tomou-lhe o espaço vigiado de ruas e praças, associações, empregos, cafés, da casa singular de cada um aos pontos de encontro, escolas, clubes. A cidade fora palco por excelência de todas as experimentações inovadoras e de aprendizagem cidadã que a revolução desencadeou e hoje, mais de quatro décadas volvidas, urge colocar a questão de saber se tudo não derivou para um tempo perdido de oportunidades mal aproveitadas.
HÁ DESENCANTO E DESILUSÃO DE MUITOS sobre tanta coisa, que, por vezes, se não nos apoiamos na racionalidade e no bom senso, seríamos capazes de avaliar injustamente tudo de bom que Abril nos trouxe. Ai Abril…..Recordações mil…..
NA “LADEIRA DESCENDENTE DA VIDA” e com a vinda para o continente, a situação é diferente, os objetivos lembrados, os sonhos reduzidos, passando a preocupar-me, mais, com o sucesso da filha e netos.
À MEDIDA QUE AVANÇAMOS, pelos dias, surge-nos desse período excelente, clarões, fragmentos, lampejos de momentos dados como perdidos no buraco negro do esquecimento e que, de repente, as mais das vezes de surpresa, nos aparecem apanhando-nos desprevenidos.
DIZEM QUE A MEMÓRIA é positivamente seletiva. Que escolhe os instantes significativos, os aconteceres privilegiados do nosso calendário rejeitando outros. Talvez eliminando dores e amarguras, a memória vai-nos tornando as lembranças mais tranquilas e as saudades mais suportáveis.
COMO DIZ O ESCRITOR: “O que seriamos nós sem as nossas recordações?”