À descoberta de Ponta Delgada - Está por fazer a “verdadeira história” dos cafés da velha cidade

 

 

“O efeito da memória é levar-nos aos ausentes, para que estejamos com eles, e trazê-los a eles a nós, para que estejam connosco”
- Padre António Vieira

A VELHA A ACOLHEDORA CIDADE DE PONTA DELGADA, à beira-mar plantada, tem a sua “história”, fez a “sua história”, onde estão instalados os diversos percursos percorridos pelos seus habitantes.
VIVENDO, A SUA POPULAÇÃO, DIVERSAS DÉCADAS, NUM “COLETE DE FORÇAS”, os seus habitantes, limitavam-se ao trabalho e às “boas normas” estabelecidas pela… ditadura!! Pobre daquele que “pisasse o risco”.
A FAMIGERADA “PIDE” E SEUS “BUFOS”, que controlavam “tudo e todos”, obrigando a população a seguir determinados comportamentos, na sua forma de atuar, de viver e conviver.
PERANTE A “CANGA IMPOSTA” – pobre de quem não a usasse nem a utilizasse – a “ordeira” população limitava-se a passar o tempo dentro das normas estabelecidas, organizando, formas de viver e queimar tempo, próprias da “época de repressão”, conservando e alimentando, um “convívio fiscalizado”. O amanhã, havia de chegar. A amizade e o convívio eram vigiados, observados. Fui testemunha e vítima de tal situação. Numa determinada altura, na década de 60, estando à mesa do café, dialogando com amigos, informei-os de ter ouvido, na véspera, em casa, quando procurava sintonizar a Emissora Nacional, (47,48,49 metros) uma estação de rádio localizada em Argel, falada em português. Mais tarde tive conhecimento que o locutor era Manuel Alegre. Dois dias depois fui convocado a comparecer nas instalações da... PIDE!!!

NO LIMITADO VIVER, por vezes com carências de vária ordem, o dia-a-dia baseava-se em trabalho/casa. Existiam “dois escapes”. A frequência do Café e o Futebol ao domingo. Televisão não havia. O Cinema era pouco.
AS CLASSES BAIXAS, limitadas ao trabalho de sol-a-sol, e salários escassos, tinham como “tubo de escape”, quando possível, a velha taberna, onde se consumia mágoas.

A “CLASSE MÉDIA”, com outras condições sociais, embora reduzidas, servia-se, para “desopilar,” da frequência do Café – sempre preocupada com a “mesa ao lado”!!!  -  E, entre o “café e o cognac, depois de uma engraxadela nos sapatos, lá iam as conversas do costume, entre os habituais frequentadores. O jogo de futebol do passado domingo, o muito serviço no emprego, o tempo chuvoso que se anunciava!!

PARA ALÉM DESTES PEQUENOS DIÁLOGOS, “fechava-se negócios”, “aclarava-se situações”, “resolvia-se problemas”, “cortava-se na casaca dos ausentes”, “discutia-se futebol”. De política geral e administração regional... NADA!!!

O CAFÉ, POR VEZES, SERVIA DE ABRIGO aos que não tinham “vida” e que se serviam do café para matar o tempo. Também eram utilizados por aqueles que descendo à cidade para tratarem de assuntos pessoais, utilizavam o café para descansar, comer uma bucha, e aguardar a camioneta que os levariam de regresso às suas residências.

APESAR DAS LIMITAÇÕES DE VIDA E DA PEQUENEZ DA CIDADE existiam em Ponta Delgada vários cafés, a maioria, no Largo da Matriz  -  onde estava fixada a praça de táxis e paravam as camionetas de transportes públicos  - que, com a frequência utilizada, foram constituindo as suas clientelas, e onde se criavam amizades.
COM O PASSAR DO TEMPO – que tudo consome – alguns deles foram fechando portas.
ERA NO CENTRO DA MATRIZ, que mais cafés existiam. A “Brasileira”, o “Eugénio Pereira”, o “Mascote”, o “Giesta”, o “Royal”. Na Brasileira e no Giesta, por hábito, jogava-se muitas partidas de “dominó”, principalmente por alguns dos taxistas que tinham os seus carros à volta da igreja. Ligeiramente afastados, tiveram de portas abertas, mais dois cafés. Nos baixos do edifício, onde hoje está a câmara municipal, teve existência o “Café Jade”, muito frequentado por “jovens tertúlias literárias” que procuravam a mesa do café para apresentar os seus trabalhos e ouvirem opiniões. No lado Norte, no canto da Rua do Valverde, existiu o “Café REX”.

UM POUCO MAIS AFASTADOS, na Rua Machado dos Santos, estava localizado o pequeno e sempre acolhedor “Café Clipper”, aberto das 8 às 2 horas da manhã, acolhendo elementos de todas as classes sociais. Na mesma Rua, e quase em frente à Pensão Central, o “fino” Café PEPE que era frequentado pela “sociedade elegante”. Um pouco mais tarde, e com preocupações idênticas, abriu na Rua Açoriano Oriental o “Café Nacional”.
COM A “REVOLUÇÃO DOS CRAVOS”, e a chegada da Autonomia, e, readquiridas as liberdades suspensas, o povo, que conhecia as duas “fases da moeda”, deu largas à sua satisfação.
OS “INADAPTADOS”, duvidosos do futuro, “ultrapassaram” as liberdades conquistadas, com excessos de toda a ordem e de má memória  -  casas incendiadas, carros vandalizados, energúmenos contratados, pneus furados, automóveis atirados á água   -  roçando, por vezes, a libertinagem que, com o tempo, se foi suavizando, acalmando, modificando, adaptando-se às realidades.
COM ALGUNS DOS JÁ CITADOS CAFÉS de portas encerradas, “coube” ao ROYAL, á TABACARIA AÇOREANA e ao CAFÉ FIGUEIREDO, receber as “novas tertúlias”, vestidas, com  “outras roupagens” da liberdade!!
FORAM ESTABELECIMENTOS QUE MARCARAM A HISTÓRIA CULTURAL DA CIDADE durante grande parte do século XX. Por isso, pensamos que, está por fazer a verdadeira história dos Cafés da cidade de Ponta Delgada.