Parabéns pela derrota

 

 

Na pre-ressaca do evento eleitoral da passada terça-feira, e apesar da mais que previsível derrota do presidente em exercício, os resultados eleitorais permitem retirar algumas conclusões mais ou menos óbvias. É que não obstante os números record, tanto de participação no acto eleitoral em geral, como da votação obtida pelo candidato democrata Joe Biden – a verdade é que o mais surpreendente é a consagração dos valores que o seu adversário republicano representa. Num sistema eleitoral elaborado com o claro intento de favorecer os interesses das comunidades rurais em detrimento das populações urbanas que em muito as superam em número, a retórica do partido conservador tem vindo progressivamente a dirigir-se quase exclusivamente a um eleitorado tipicamente com menos instrução, com menos rendimentos, menos laico, e muito menos propenso a aceitar ideias progressistas e humanistas. Decorre daí ter-se apoderado de uma narrativa baseada na religião, na liberdade, na reverência doentia pelos militares, e do sucesso económico como exclusivamente sua, convencendo o seu eleitorado que os valores que professa contrastam com os dos progressistas – que caracteriza como ateus, inimigos da liberdade, e com intenções de desmantelar o complexo industial-militar. Ora quando Donad Trump toma de assalto o Partido Republicano e, com ele, uma base eleitoral permeável a estas absurdas – mas geniais – maquinações retóricas, acrescenta-lhe uma novidade: um discurso marcada e abertamente misógino e racista, simplista, e pouco preocupado com os factos – que lhe confere, surpreendentemente, ou talvez não, uma aura de messias e o converte em objecto de culto. De uma sociedade já culturalmente polarizada a uma nação de posições extremadas foi um passo. Mas não o mais preocupante. Mais inquietante que um país dividido e entrincheirado em posições irreconciliáveis é o facto de um dos lados dessa barricada ideológica ser composto por um grupo de seguidores ferverosamete adeptos de ideais no mínimo retrógados. Passados quatro anos de confimação diária do embuste que já tinha sido claramente anunciado durante a campanha eleitoral de 2016, é verdadeiramente notável que tantas dezenas de milhões de americanos tenham reiterado a sua confiança em Donald Trump – ainda que este se fique por um só mandato presidencial. Previsivelmente, e apesar da derrota, os republicanos verão fortalecidos os alicerces que sustentam uma narrativa política incoerente e presunçosa, o que deixará as portas do partido escancaradas para o aparecimento de outros trumps que a este se seguirão. E com eles virá mais um chorilho de ludíbrios a que se convenciona designar eufemisticamente de “populismo.”
Mas os democratas também têm culpas no cartório: à inépcia em contrariar e denunciar a narrativa dos adversários conservadores, junta-lhe-se a recusa em perfilhar ideias e políticas verdadeiramente progressistas. A prova mais clara disso mesmo é a obstinação em apadrinhar candidatos presidenciais que sejam, segundo o seu critério, “presidenciáveis” – ou seja, e como se diz em bom português, que não são “nem carne nem peixe;” indiferenciáveis, portanto, da concorrência. Não sejamos ingénuos: esta postura é a simples manifestação de um sistema cuja função primeira é a sua própria preservação, o vulgo status quo. E esta é precisamente a razão pela qual a retórica conservadora mencionada acima se revela tão rídicula, mas ainda assim eficaz, mesmo que contrariada pelos factos evidenciados pela história e pelas estatísticas. Na prática, nem uns nem outros se aventuram em enfrentar os verdadeiros problemas do país  – como por exemplo a galopante desigualdade económica que vai cavando um fosso cada vez mais fundo entre ricos e pobres – os primeiros cada vez mais ricos, os segundos cada vez mais numerosos.

O país voltou a sair derrotado. Mas parabéns à mesma.