Fome e Miséria

 

No século XVIII, durante o período de posse da ilha do Corvo pelos condes de Santa Cruz das Flores, os corvinos começaram a ser obrigados a pagar 40 moios de trigo e 80 mil réis em dinheiro. Este facto condicionou a paisagem agrária da ilha e o seu sistema económico, delimitando a criação de ovinos nos terrenos baldios e o cultivo de cereais nos terrenos da vila.
A 3 de Dezembro de 1814, o príncipe regente D. João concedia, por alvará, a mercê das ilhas das Flores e do Corvo, com as respectivas obrigações e deveres, a Pedro José Caupers. A posse da ilha do Corvo por parte deste novo senhor ocorreu a 23 de Maio de 1817. Na esperança de obterem um alívio nos seus impostos, os corvinos dirigiram-lhe em 1818 uma petição solicitando a redução dos sacrifícios, nomeadamente de aliviar-lhes a renda que pagavam pelos pastos, ou perdoar-lha por alguns anos.
Através de carta, datada de 18 de Janeiro de 1819, Pedro José Caupers respondeu concedendo-lhes o perdão:
A 3 de Março de 1831,D.Pedro IV chega à ilha de S.Miguel. A notícia da vinda do rei aos Açores e das reformas administrativas que estavam sendo preparadas por Mouzinho da Silveira chegaram ao Corvo. Era mais uma oportunidade para os corvinos suplicarem a abolição dos impostos a que continuavam sujeitos. Liderados por Manuel Thomaz de Avelar, um grupo destes valentes homens resolveu deslocar-se à ilha Terceira para mostrarem o pão negro que comiam, ou seja, pão feito de junça e pedir a intervenção de D. Pedro IV e do seu ministro Mouzinho da Silveira.
Aquando da chegada do senhor D. Pedro IV aos Açores, emissários foram enviados ao Imperador a suplicar a extinção do tributo. Arrostando com o mar e a distância lá partiu um honrado ancião de grande respeito, de nome Manuel Thomaz de Avellar, com destino à cidade de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel. Em 13 de Maio de 1832 é admitido à presença do Duque de Bragança. Grave e sério, sentido nas palavras e no rosto, trajando à moda da sua terra, de grosseiro bruel, encosta-se ao cajado e, cheio de respeitosa dignidade, expõe ao Regente o seu pedido. Sacando da algibeira do gibão um pedaço de pão de junça, mostra-o, acrescentando: “É tanta a nossa míngua, meu senhor, que deste mesmo poucos o têm à farta”. D. Pedro era uma alma nobre; o seu ministro Mouzinho da Silveira compenetrou-se da justiça da causa, reduziu para metade o pagamento de trigo a que estavam obrigados e aboliu o pagamento em dinheiro.
Como forma de agradecimento, os habitantes da ilha organizaram uma expedição de barco, e foram, em grupo, à ilha Terceira, agradecer a dádiva concedida. A partir desta altura, todos os anos, por altura do Natal, passaram a enviar um presente simbólico a Mouzinho da Silveira. Profundamente sensibilizado com este gesto, haveria de deixar expresso, em testamento, a vontade do seu corpo ser enterrado na ilha do Corvo, afirmando: “Gosto da ideia de estar cercado, quando, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”.
Infelizmente, apesar dos esforços das autoridades locais, esta sua vontade ainda não foi possível cumprir. Os seus restos mortais continuam sepultados na freguesia da Margem, no Gavião, de onde era natural.
E finais do século XVIII e inícios do século XIX, a população corvina passava por grandes dificuldades económicas, resultado dos altos impostos que pagavam tanto em dinheiro como em trigo.
Esta situação dramática em que viviam os corvinos obrigava-os a alimentarem-se das sementes de junça. As poucas sementes de junça que ocasionalmente sobravam eram guardadas em covas, que viriam a ficar conhecidas como “Covas de Junça” localizadas tanto nas zonas altas da ilha, como na vila, para serem semeadas no ano seguinte. Por este motivo, a junça mantêm-se na memória dos corvinos como algo associado à miséria de um tempo em que se viam obrigados a comer o mesmo alimento que davam aos seus porcos.
Esse cereal deixou de fazer parte da alimentação dos corvinos, como também já anteriormente foi descrito, quando o ministro Mouzinho da Silveira reduziu para metade o pagamento de trigo a que estavam obrigados e aboliu o pagamento em dinheiro, passando a junça a ser substituída pelo milho e pelo trigo.