Povo grato e lutador

 

 

A ilha do Corvo, para além de se destacar pela sua beleza natural, onde sobressai a Lagoa do Caldeirão, as suas típicas canadas, o seu sóbrio casario, a sua gastronomia, tem, na forma comunitária, solidária e de cumplicidade do viver das suas gentes, a sua maior riqueza, tornando-a, verdadeiramente, única. São, estes valores, humanos, que os seus habitantes muito se orgulham e fazem ponto de honra em os perpetuar no tempo.
Foi usando este espírito de união e solidariedade que conseguiram resolver a questão do Baldio, uma importante área florestal que ocupa mais de metade dos terrenos da parte alta da ilha que, durante décadas, alimentou centenas de bovinos e ovinos. 
Até meados da década de sessenta do século passado, a administração do baldio era da responsabilidade da Câmara Municipal do Corvo. Posteriormente, passou a ser gerido pela Direcção-Geral dos Serviços Florestais. Os lavradores nunca aceitaram de boa vontade esta mudança de administração. Pelo facto do director destes Serviços, numa atitude que os lavradores consideravam abusiva, ter trazido da vizinha ilha das Flores vários bovinos, colocando-os na zona do Baldio que, era considerada de melhor qualidade, quer a nível de pastagens, quer de acessos. Por outro lado, consideravam que não estavam sendo executados os trabalhos essenciais para um melhor aproveitamento do baldio, a construção de “cortinas de abrigo”, essenciais para a sobrevivência dos animais.
No início da década de setenta, os lavradores fizeram várias tentativas, junto das autoridades locais e distritais, para resolver este problema. Contudo, foram sempre infrutíferas. A primeira grande tentativa por parte dos Corvinos para que o Baldio deixasse de ser gerido pelos Serviços Florestais, aconteceu no início do mês de Setembro de 1973, aquando da visita à ilha do Governador Civil do Distrito da Horta, Dr. Sanches Branco, para presidir à tomada de posse do Professor Alfredo Lopes, como Presidente de Câmara. 
Após várias reuniões de revolta, os lavradores fizeram, em 1975, uma exposição directamente ao Ministro da Agricultura, onde pediam a devolução do Baldio e a extinção dos Serviços Florestais na ilha. Passados vinte e sete dias do envio da exposição, chegou ao Corvo, vindo propositadamente de Lisboa, um funcionário do Ministério da Agricultura para reunir com os lavradores. Nesta reunião, foram aceites os argumentos e exigências expostas. O Baldio passou, então, a ser gerido por uma Comissão Administrativa, ficando com a função de coordenar estes terrenos de uma forma mais correcta e justa.
Actualmente, os ovinos praticamente desapareceram, no entanto, a população dos bovinos aumentou rondando as mil cabeças, o baldio continua a ser gerido por uma Comissão Administrativa, também designada por Comissão de Compartes.
Os Corvinos mais uma vez demonstraram serem um povo lutador, persistente e solidário. Um povo onde impera o comunitarismo e o sentido de justiça. 
A gratidão também é um dos apanágios destas gentes. Habituados a sofrerem ataques de piratas, de corsários, das intempéries que originam, muitas vezes, destruições, e quase sempre, falta de géneros alimentícios e outras adversidades próprias de quem vive em ilhas pequenas e isoladas, souberem, e sabem, sempre, ser gratos, a quem nestes momentos mais aflitivos os auxiliam.
Os Corvinos são gratos com quem acham que merece e hostis com quem consideram ingratos.