Atafonas, moagens e moinhos

 

 

A informação acerca da origem e da data do aparecimento dos moinhos, atafonas e moagens na ilha do Corvo é praticamente inexistente.
Desconhece-se a data em que as atafonas começaram a funcionar. Sabe-se, no entanto, que existiram cinco e que laboraram até sensivelmente os anos sessenta do século passado. O único moinho de água existente foi construído nas margens da lagoa do Caldeirão em 1938 e funcionou até aos anos cinquenta do século vinte. Em relação às moagens houve duas, que estiveram em funcionamento até aos anos oitenta do século passado. Quanto aos moinhos de vento, houve um total de seis, sendo que três foram demolidos aquando da construção do aeródromo e os outros três ainda se mantêm, embora sem laborarem, função que exerceram até aos anos oitenta do século vinte.
A atafona era um moinho movido à mão ou pela força de um animal, geralmente um bovino e cuja roda motora se encontra num plano horizontal junto ao chão. Estas construções eram, particularmente, usadas em locais com escassez de água ou vento e, como tal, podiam ser instaladas no meio do casario não dependendo, portanto, da existência inconstante da água ou do vento.
O modo de funcionamento das atafonas corvinas era semelhante ao das restantes ilhas açorianas. É um engenho mecânico de propulsão animal, em madeira, composto por um pião no qual encaixa a ganga impulsionadora de todo o movimento: uma roda motriz cujos dentes põem em funcionamento um carrete de transmissão que, por sua vez, recebe e transforma a força horizontal em vertical, transmitindo o movimento a um veio de ferro directo às mós - sistema designado por transmissão directa.
As atafonas pertenciam a sócios, e cada sócio ia moer o seu cereal, milho ou trigo. A chave era guardada por um desses sócios, geralmente por um que vivesse o mais perto possível da atafona, de forma a facilitar aos outros o acesso à referida chave.
O moinho de água, como o próprio nome indica aproveita a água para moer. A passagem da água faz mover rodízios de madeira que estão ligados a uma mó. Esta, por sua vez, mói o cereal, transformando-o em farinha.
Os moinhos de vento da ilha do Corvo são muito semelhantes aos do sul de Portugal continental e aos da ilha do Porto Santo no arquipélago da Madeira. Os três moinhos existentes, actualmente, são construídos em pedra, sendo que dois estão rebocados e caiados a cal de cor branca, mantendo-se o outro em pedra. Define-se por um corpo tronco-cónico em alvenaria de pedra quase sempre rebocado e caiado de branco. A porta (único vão do moinho) situa-se a meio piso de altura com acesso por uma escada exterior de pedra, permitindo assim nesse meio piso maciço cravar o eixo no centro do seu interior. A característica que o faz diferir dos restantes moinhos de torre dos Açores, é sobretudo o pousar do tejadilho no topo da parede, a meio da sua espessura. Da cobertura em tabuado com juntas verticais radiais rematadas com tapa-juntas, emerge o mastro pontiagudo, inserido numa água-furtada que parte do cimo da cúpula. O velame é constituído por oito varais com guias e travadoiras, para quatro velas triangulares de pano.
A energia que chega à base do moinho, através do seu eixo central, é utilizada para fazer rodar uma mó, pedra maciça, esculpida em forma de anel cilíndrico achatado, de faces sulcadas e a cujo centro vazio se chama olho da mó. O corredor está suspenso no eixo vertical, sendo fixo a este através de um suporte metálico regulável em altura de nome “segurelha”. A necessidade de regular a altura do corredor deve-se ao desgaste em altura das faces, a que ambas as mós estão sujeitas com o desenrolar da actividade de moagem, por efeito da fricção. Quando os sulcos das mós desaparecem, cabe ao moleiro criar novos sulcos para que a moagem do cereal seja possível, acto ao qual se chama o “picar da mó” e que é realizado com o auxílio de ferramentas cuja forma e função se assemelham à de uma picareta, daí o seu nome “picão” ou “picadeira”.
A moagem do cereal é feita depositando-o em grão na folga existente entre o poiso e o corredor. A rotação do corredor fricciona os grãos contra o poiso, esmagando-os repetidamente até que, lentamente, se transformam em farinha, sendo este o nome atribuído ao pó a que se reduzem os cereais moídos. O cereal em grão é depositado numa caixa com fundo em cone ou pirâmide invertida, denominada tegão, à qual se liga uma calha ou quelha que conduz o grão para o olho do moinho e o deposita na folga entre o poiso e o corredor
Nestes moinhos de vento, bem como nas moagens havia a chamada maquia, que correspondia a um décimo do total do cereal que ia ser moído. O saco que transportava o milho ou o trigo era localmente designado por moenda. 
As moagens começaram a funcionar quando terminaram as atafonas. No Corvo, houve duas que funcionaram até aos anos oitenta do século passado.
As atafonas, os moinhos e as moagens representaram instrumentos que contribuíram fortemente para a subsistência económica de algumas famílias e que permitiram a todas as outras fazerem os vários tipos de pão, com destaque, durante muito tempo, para o pão de milho.
Foram tempos de muito trabalho. Épocas em que era frequente ver homens e mulheres com sacos de milho ou de trigo às costas a caminho das atafonas, dos moinhos ou das moagens. Outros tempos!