Lusodescendentes Sam Mendes e Santino Fontana premiados nos Tony

 

           

Realizou-se domingo (9 de junho), no Radio City Music Hall, New York, a 73ª atribuição dos Tony, os Oscars do teatro nos EUA. A designação do prémio é na realidade Antoinette Perry Award for Excellence in Broadway Theatre. Encenadora e atriz, Antoinette (1888-1946) era conhecida no meio teatral novaiorquino pela alcunha de Tony e foi co-fundadora da American Theatre Wing, associação novaiorquina que promove os Tony de parceria com a Broadway League, organização dos produtores teatrais novaiorquinos. Os premiados são escolhidos por 831 pessoas ligadas ao ramo e as peças nomeadas têm de ter estado em cena num dos 43 teatros da Broadway, que dão emprego a 130 mil atores, técnicos e autores, e têm receitas anuais de dois biliões de dólares com a venda de bilhetes a mais de 10 milhões de espectadores.

A transmissão televisiva dos Tony, a cargo da CBS nos EUA, voltou este ano a ser apresentada pelo britânico James Corden, humorista que está à frente do talk show “The Late Late Show” (CBS) e já tinha apresentado a cerimónia de 2016. O próprio Corden foi laureado com um Tony pela sua atuação na comédia “One Man, Two Guvnors” em 2012.

À semelhança dos Oscars e dos Grammy, os Tony têm perdido audiências e este ano a transmissão teve a média de 5,46 milhões de telespectadores, queda de 14% em relação ao ano passado.

Para além das audiências, os Tony continuam a mostrar o melhor teatro que se faz em New York e no mundo dos musicais o grande vitorioso da noite foi “Hadestown”, um musical inspirado no mito grego de Orfeu e Eurídice e desenvolvido a partir do álbum do mesmo nome criado pela compositora e cantora Anaïs Mitchell em 2010. Lançado no circuito off-Broadway, o espetáculo chegou aos grandes teatros da Times Square em abril e conquistou oito dos 14 galardões para que estava nomeado.

Nas categorias de atuação, Stephanie J. Block e Santino Fontana foram premiados pelas suas performances, respetivamente em “The Cher Show” (biografia da cantora Cher) e em “Tootsie”, a adaptação musical do filme de Sydney Pollack com Dustin Hoffman (1962).

“Tootsie”, o musical, esteve em Chicago no Cadillac Palace Theatre de 11 de setembro a 14 de outubro de 2018. Rodou depois por várias cidades, estreou na Broadway a 23 de abril de 2019 e transformou-se num dos principais candidatos aos Tony. A estrela da companhia, Santino Fontana recebeu o prémio de melhor ator num musical pelo seu trabalho como Michael Dorsey, o ator que se faz passar por mulher para ter trabalho. Quando aceitava o prémio, Santino fez questão de agradecer o apoio da mãe e da falecida avó e ficámos a saber que é lusodescendente.

Santino Anthony Fontana nasceu a 21 de março de 1982 em Stockton, Califórnia. É filho de Sharon Marie Simarro, nascida em 1951 e professora primária, e de Ernest Fontana, nascido em 1948 e agrónomo. Ernest é descendente de italianos. Sharon é metade de ascendência espanhola e metade portuguesa. Portanto, o filho é 50% italiano, 25% português e 25% espanhol.

Os apelidos dos avós paternos de Santino eram Fontana e Marconi.

O avô materno de Santino era Antone William Simarro, nascido na Califórnia de pais espanhóis. E a avó materna era Thelma Marie Pereira, filha de Francisco e Catarina Pereira, naturais de São Brás de Alportel, distrito de Faro. Thelma e Antone foram casados 57 anos. Ela faleceu em 2004.

O interesse de Santino pelo teatro começou pelo facto do pai trabalhar numa  companhia de teatro. Quando os pais se divorciaram, ficou com o pai, matriculou-se na Universidade de Minnesota e, decidido a ser ator, passou a fazer parte do  Guthrie Theatre, de Minneapolis, onde interpretou Shakespeare (Hamlet), antes de se mudar para New York aos 23 anos.

A sua estreia na Broadway foi no musical “Sunday in the Park with George” em 2007. No ano seguinte estava a fazer o musical “Billy Elliot” (música de Elton John) e em 2010 foi premiado com o Drama Desk Award de Melhor Ator pelo seu trabalho em “Brighton Beach Memoirs”.

Santino trabalha em teatro, cinema e televisão. Mas além de ator é também diretor de televisão, cantor e compositor. Cantou três vezes com o Coro do Tabernáculo Mórmon, co-estrelou com os Muppets e filmou “Shades of Blue” para a NBC, um drama policial contracenando com Jennifer Lopez e Ray Liotta. Em 2015, começou a aparecer regularmente na série “Crazy Ex-Girlfriend” do canal CW.

Em 2014, Santino esteve um ano a fazer a peça “Rodgers & Hammerstein’s Cinderella” contracenando com Jessica Hershberg, que além de atriz é também escritora. Começaram a namorar em setembro de 2014, casaram em setembro de 2015 e na noite dos Tony Fontana anunciou que a esposa está grávida e esperam uma menina. Entretanto, ele faz audições para um próximo trabalho, o musical “Juliet’s Nurse”, uma sequência de Romeu e Julieta.

Tivemos ainda outro lusodescendente em foco nos Tony deste ano, Sam Mendes ganhou o prémio de melhor encenação por “The Ferryman”, protagonizada por Fionnula Flanagan e que levou outras três estatuetas, inclusive de melhor peça.

“The Ferryman” foi escrita por Jez Butterworth, colaborador habitual de Mendes, nomeadamente nos filmes de James Bond. É um drama irlandês escrito por um inglês e focado na família de um ex-integrante do Exército Republicano Irlandês em 1981.

O inglês Sam Mendes (ou melhor Samuel Alexander Mendes) é um ilustre descendente de portugueses. Nasceu a 1 de agosto de 1965, em Reading, Inglaterra. O pai, Jameson Peter Mendes, professor universitário, era natural de Trinidad e Tobago, e filho de Alfred Hubert Mendes (1897-1991).

Alfred Mendes, o avô de Sam Mendes, foi uma figura pioneira da literatura das Caraíbas. Era descendente de portugueses presbiterianos expulsos da Madeira no seguimento das perseguições a Robert Kelly e foi um escritor prolífico. Foi o primeiro a chamar a atenção para a comunidade portuguesa com a sua novela “Pitch Lake”. Foi um dos co-fundadores da revista socialista “The Beacon”, onde publicou vários ensaios, incluindo uma entrevista com o “camarada Lenine”, em setembro de 1932.

Sam Mendes licenciou-se pela Universidade de Cambridge em 1987 e começou a trabalhar em teatro em 1990. Dirigiu peças no National Theatre, RSC, Royal Court, Old Vic, Young Vic, BAM, West End e Donmar Warehouse, companhia que ele fundou em 1992.

Em 1998, fez a sua estreia na Broadway com o musical “Cabaret”, que já tinha encenado em Londres protagonizado por Alan Cummings e Natasha Richardson e pelo qual foi nomeado para um Tony. No mesmo ano, dirigiu Nicole Kidman na peça “The Blue House”, de David Hare, primeiro em Londres e depois na Broadway.

Além de “The Ferryman” em New York, outra produção de Mendes,“The Lehman Trilogy” está atualmente em cartaz no National Theatre de Londres, mas vai fazer agora uma pausa na atividade teatral para se dedicar ao seu novo filme e talvez por isso não apareceu a receber o Tony ganho no passado domingo.

Mas não lhe faltam prémios. O seu filme de estreia de Mendes, “American Beauty”, ganhou cinco Oscars em 1999, incluindo o de melhor realizador. O segundo filme, “Road to Perdition”, valeu-lhe um Globo de Ouro. Já ganhou três Tonys, o BAFTA, cinco Olivier (o Tony britânico), três Evening Standard Awards e o prémio Directors Guild of America.

Depois de ter andado às voltas com as aventuras de James Bond em  “Skyfall” (2012) e “Spectre” (2015), Sam Mendes está a rodar outra grande produção, o drama bélico “1917”, que é produzido pela Amblin, de Steven Spielberg.

O filme baseia-se na Primeira Guerra Mundial, em 1917 e, além da realização, Mendes assina também o argumento. As filmagens decorrem em vários locais da Escócia e da Inglaterra e a estreia está prevista para o próximo dia de Natal nos EUA e a 10 de janeiro de 2020 na Europa Ocidental.

Assim, conforme escreve a “Variety”, “1917” será elegível para a temporada de premiações de 2020 e pode valer mais um Oscar para Sam Mendes.