Visitar S. Roque - suave palmada nas costas do passado

    

 

 

 

1. Tabernas antigas – alegres confessionários rurais 
Até meados do século passado, as tabernas, as barbearias, os fontenários eram os entrepostos preferidos para colorir e atenuar o miserabilismo endémico das comunidades rurais. Em tempos cada vez mais distantes, a generalidade do ilhéu micaelense desconfiava do gozo duma alegria sem a subsequente punição do destino. Era frequente ouvir o desabafo feminino: – Credo!... hoje, tou tão destarelada d’ alegria; ai Jasús: o que sará que me vá acontecê amanhã...?”
Claro que o tempo não muda as coisas mas muda-lhes o nome: as “discotecas-bar” já não cheiram a vinho-de-cheiro. Os aromas estão mudados! Antigamente, avinhar a alegria rimava com a “dor de ser quase”... Um “quartilhe de vinhe” era mais descascador de verdades do que um bom confessor...
Parecia que o tempo andava parado. Freguesias sem adegas era como igrejas sem altares. As tabernas eram geralmente os “confessionários” populares onde o “pecado” se sentia mais à-vontade. Em certas circunstâncias, as tabernas eram “capelas castiças” para celebrar a ceia da fraternidade rural, onde o “vim-de-cheiro” era o mágico denominador comum da camaradagem. O taberneiro era o confessor de recurso daquelas “almas” simples que não tinham ninguém para desabafar mágoas; e era também o “ouvidor” ocasional das mais disparatadas mentiras (fantasias) misturadas com os mais pungentes segredos. 
Para os convertidos à religião do “copo”, entrar numa taberna era como visitar uma “capela” para conversar com a santa “pinga” de serviço. O pior era quando a “oração” se demorava mais do que o previsto, e alguns dos fiéis ficavam depressa incapazes de finalizar a “novena”: depois de empinar o oitavo copito, o “penitente” ficava totalmente “rezado”!

2. os peregrinos da “copofonia”
Até meados do século XX, as freguesias micaelenses tinham “proa” no irrequietismo da suas tabernas. Por exemplo, a freguesia de São Roque (o meu berço natal, em S.Miguel, Açores) tinha muita ‘proa’ nas suas adegas e tabernas... algumas delas ficaram na memória do tempo (não tanto pela fama da sua vinhataria, mas sobretudo pelo vanguardismo bacano dos magnos peregrinos da “copofonia”). 
Bastariam duas referências brejeiras para ilustrar o que está a ser dito: quem caminha na direcção oeste do Largo do Poço Velho encontra a zona da Madalena; no início da década de 40 do século passado, havia a taberna “Estrela da Manhã” – um dos poucos “oásis” de convivialidade entre militares continentais e insulares; consta ter sido a primeira taberna da freguesia a oferecer aos seus clientes uma ementa original: música e noticiário radiofónico. Ou seja, entre dois “quartilhos bem aferidos” e um par de torresmos de molho de fígado, as notícias da guerra eram ali escutadas com fervorosa curiosidade… 

Um pouco mais a oeste da freguesia, mais para as bandas da zona do Terreiro, havia o famoso “Café Chouriço”, porventura a mais garrida (e meiga!) taberna da área. E havia razões específicas para a sua imbatível popularidade: primeiro, a sua localização protegida pela vertente norte do morro adjacente ao ilhéu de São Roque; depois, a ausência de iluminação pública, o que oferecia garantia de anonimato aos seus respeitáveis frequentadores (a maioria estranha à freguesia); finalmente, o aroma e a qualidade da petiscaria preparada pelo famoso Elias, considerado a grande aposta do patrão que dava pelo nome de sô Jâquim Miranda, negociante de poucas falas, mas de muitos afazeres, oriundo da freguesia de Água de Pau.
Para nos ajudar a perceber o curioso fenómeno do “Café Chouriço” nada como revisitar o perfil sociológico rural da época. Numa dada etapa da II Grande Guerra, a zona do ilhéu de “rosto-do-cão” foi das primeiras do sul micaelense a ser seleccionada pela engenharia militar para a instalação de postos de vigilância anti-submarina. Alguns dos abrigos ainda lá estão para testemunhar os locais onde foram montadas peças de artilharia: ferramental bélico modesto, aliás de duvidosa eficácia defensiva. Alguns dos residentes mais astutos e lúcidos da época temiam que aqueles “brinquedos” servissem para ajudar os submarinos alemães a conferir as coordenadas das posições defensivas e, eventualmente, enfraquecer ainda mais as precárias condições de segurança duma zona rural densamente povoada...
Mas não é de “artilharia de costa” que nos propomos hoje falar. Dado que durante a década (1940-50) havia gente estranha a fervilhar por toda a ilha, houve quem depressa compreendesse o fenómeno, e dele tirasse bom proveito... A cerca de três quilómetros da cidade, o “Café Chouriço” era então um dos mais castiços “paraísos proibidos” das redondezas. Os “senhores-de-gravata” chegavam protegidos pela escuridão, fingindo-se atraídos pelo cheiro ímpar dos petiscos criados pelo “sô” Elias (segundo os entendidos, era também mestre afamado na arte de promover a “petisqueira clandestina” tão procurada pelo crescente número de forasteiros em comissão militar)... Pudera! 
Não é dificil compreender o facto do “Café Chouriço” ter uma saída secreta nas traseiras do edifício... para ‘acudir’ uma eventual ‘visita-surpresa’ da moralidade oficial. Consta que o habilidoso sô Elias mantinha sempre disponível o elegante “quarto-azul” onde a fidalguia da faina nocturna aguardava lhe fosse servida as apetitosas “petiscas” de carne tenra, coxas roliças, e corpetes perfumados, sobretudo obedientes ao paladar e à bolsa do misterioso cliente... É a vida!

3 - ... será que o presente é o passado do futuro?
Como muitos ainda se recordam, o período 1940-45 foi um tempo de convivialidade forçada com as ambas as equipas beligerantes, dado as sinuosidades tácticas usadas para testar a cínica “neutralidade cooperante” do regime salazarista. Curiosamente, os ilhéus açorianos tiveram que suportar uma experiência mais complexa (quiçá dolorosa) do que aquela reservada aos nossos vizinhos madeirenses. 
Naquele tempo, consta que a Ilha Madeirense fora escolhida (pelos aliados da II Guerra) como zona de segurança para “resguardar” as jovens esposas dos militares ingleses, muitas oriundas de Gilbraltar. Na cidade do Funchal, o Hotel Savoy foi um dos “oasis” de recurso (não o único) para albergar as jovens “viúvas” de militares vivos... 
Ora não será difícil imaginar as escaramuças pontuais entre mulheres com diferentes modos de expressar a feminilidade vigiada, ademais numa ilha cujo clima mediterrâneo costuma ser favorável ao hedonismo existencial. Para a generalidade da mulher madeirense da época, a prioridade emocional era a de manter o “seu hóme” à distância prudente daquelas “derriçadeiras” gilbraltinas: mulheres versadas na espontaneidade do seu “body language”; fumando em público os seus cigarros manchados de baton; mulheres-meninas que pintavam na “barriga da perna” o tal “risquinho” mágico, para fingir que usavam meias. Mais: moças que içavam, como bandeiras d’alegria a secar sob o generoso sol madeirense, as tais peças do vestuário feminino que trazem notícias flagrantes da “catedral-do-pecado” a um palmo abaixo do umbigo... 
Naquele tempo, a ilha de São Miguel era ainda uma “moçoila” verdejante, isolada no oceano do silêncio (aquele ‘silêncio-guardião’ secular da pobreza envergonhada). Como ia a dizer, há pouco mais de meio século, a ilha era então um viveiro de “donzelas” casadas e solteiras: viveiro subitamente invadido por milhares de rapazes continentais, bem fardados, quase imberbes. Para aqueles moços, as recordações da tacanhez rural-beirense eram suavizadas pelo farto rancho regulamentar, quase sempre conseguido à custa dos sacrifícios impostos à população indígena. Falta ainda lembrar que o corpo expedicionário militar (1941-46) estava a viver enebriada pelo “licor” psicológico da distância – euforia que propiciava o anonimato do pauperrismo das suas origens, e acentuava o delírio pueril de quem se sentia patrão do futuro, fora das ameias apertadas do condado portucalense...
Há quem diga que os Açores começam já a sentir saudades da sua açorianidade comovida a Oeste. Talvez por isso os ilhéus-emigrantes continuam diligentes aprendizes do vocabulário da distância, para afinar a valentia exigida pelo desafio de “açorianizar” a sua (querida) terra... Veremos. 

 

(*) texto escrito de harmonia com a antiga grafia.