Emigrar – sem esquecer os que atrás ficam - aplaudindo os remates à baliza do Futuro…

    

 
a) Espero não ser diplomado pecador pela tendência de refrescar  a minha curiosidade insular no fontenário dos acreditados historiadores açoreanos…
Exemplo: cerca de dois séculos após o distinto navegador lusitano, Pedro Álvares Cabral, ter sido considerado “achador” do Brasil (episódio que fazia parte da missão divina ciosamente guardada na sombra do compasso geográfico do tratado de Tordesilhas), o gigantesco beliscão colonial ganhou a reputação de ser a “terra do sumiço” da emigração açoreana (sobretudo para as jovens mulheres micaelenses que ficavam viúvas, face ao pavoroso silêncio dos respectivos maridos…   
Quando eu próprio caminhava no corredor adolescente, tinha o privilégio ocasional de escutar alguns desabafos emocionais da nossa  estimada tia-avó - “viúva”, deserdada, amargurada pelo demorado silêncio do respectivo marido:
“Sobrinho abençoado! Aquilo é que foi um sumiço eterno “ – suspirava a tia Teresinha, como quem pedia socorro à energia solar para explicar a sombra…  Ai mê Dês! Aquele home resvalou na corisca esquina da Vida; desde então jamais recebi carta ou mandado dele”…
A emigração açor-lusitana rumo ao sudeste brasileiro sugere algumas particularidades psicológicas diferentes daquela que mais tarde veio a acontecer em relação aos futuros países da América do Norte: ou seja, a noção de “novo mundo – mundo novo”…   
Os ilhéus açoreanos, quando foram ‘empurrados’ pelo decreto pombalino para emigrar rumo ao Brasil, não eram inspirados pelo aventureirismo romântico, porque acreditavam na ilusão de que “não existe pecado na zona Sul do equador” (… e já agora, convém não confundir Latitude com Longitude).
Entretanto, em meados do século XVIII, os nacionalistas do Norte-Atlântico foram severamente punidos pelos enfermeiros nacionais doutras áreas: com um breve intervalo de algumas semanas, aconteceu Lisboa & Boston serem sacudidos por terramotos geológicos (1755); naquela época, a revolução francesa e o delírio anti-colonial norte-americano  estavam ainda a latejar no útero da história euro-americana…  
Vamos continuar a lembrar que, em meados do século XVIII, a maioria dos emigrantes insulares (que optavam viajar rumo ao sudeste brasileiro) eram herdeiros duma clausura de três séculos de isolamento no centro do Atlântico-Norte: em suma, partiam amuados pela sua ancestralidade serviçal na “escola da tortura repetida e no uso do penar tornado crente”.
b) Não há perda de tempo em relembrar que as especificidades geo-climáticas (consideradas responsáveis pelo “torpor-açoriano”) estão a mudar, graças à mobilidade cultural resultante da globalização das comunicações.
Uma breve referência ao facto de os Açores terem sido descobertos cerca de meio século antes do “descoberta ” oficial do Brasil. Quando as primeira gerações de emigrantes açoreanos tentavam refazer o seu destino ao sul do Equador, já havia um grupo de “patriotas” brasileiros apostados em conversações secretas, em Paris, com o então embaixador norte-americano, Thomas  Jefferson. Na época, ensaiavam os primeiros retoques na querida causa da independência nacional, a qual viria a acontecer mais tarde, graças à cumplicidade irónica da coroa portuguesa. Enfim, a fraternidade não pode ser imposta por lei…
Vamos abreviar esta conversa com um simples pormenor memorial: os emigrantes açorianos em terra brasileira não viam a sua sombra projectada num “chão” estrangeiro. Para quem nasce numa ilha, a imensidade territorial é um convite aliciante para acreditar que o tempo e a distância são por vezes factores de proximidade existencial. Sim, o Brasil teve a fama de ser “terra do sumiço”, talvez por ser comparado como portal da eternidade com dobradiças humedecidas pelas lágrimas dolorosas da saudade humana…
Como modesto militante da Poesia, continuo portugalando algo que o poeta já deixou escrito: “partir é morrer um pouco!” Emigrar não é adiar a morte existencial; afinal, “emigrar não é trair nem vergar - é partir para um novo-estar…”

O pecador inocente
tem momentos de verdade
não é santo, mas é crente
nos milagres d’Amizade
 


(^) o autor não aderiu ao recente “acordo gráfico”