(pro)vocação missionária da Palavra

 

         

 

1 – Ecce Homo permanece entristecido perante o “democratismo” turístico (?)

 

Na via-sacra tradicional da religiosidade açoriana, o mês de Maio oferece a tradicional ressonância emocional alusiva à celebração das festas em louvor do Senhor Santo Cristo dos Milagres. A vida continua: acabámos de ultrapassar o portal do mês de Junho;  a partir d’agora, podemos imaginar o fervilhar climático que irá aquecer as populações que sobrevivem nas regiões além-equador… 

Aqui, nos confins do sudoeste da California (zona por vezes apelidada ‘mexifórnia’) existem vários testemunhos da presença de gente grada da história mundial, nomeadamente, Albert Einstein, John Kennedy, Ronald Reagan, Gerald Ford, Bob Hope, Frank Sinatra, Barak Obama, etc.). Sem intenção protagonista, gostaria de recordar que o século XXI ‘desembarcou’ na California, alguns meses após a minha chegada (Janeiro/1999). Mesmo à distância de 5.000 milhas, a maioria dos ilhéus açorianos (sobretudo os micaelenses) consideram a veneração do Santo Cristo dos Milagres, o testemunho genuino da devoção dum povo insulano convertido ao “uso do penar tornado crente”.  

Convém não esquecer que nem todas as celebrações de índole religiosa são alheias às normas elementares do mercado da saudade financeira. Estou a referir o mercantilismo da alegria étnica, que faz parte da catequese do “passado” emocional exposto no altar da empregomania do “presente”.  Na Califórnia, o cristianismo conta com cerca de 73% de crentes; o segmento católico não ultrapassa os 30%.  Como sói dizer-se: “o medo foi o inventor mundial dos deuses”.  Vou tentar ser mais claro: a  fé religiosa dispensa explicações exaustivas da falácia popular. Aliás, não seria novidade lembrar que a modernidade tecnológica procura acentuar o arco-íris exibicionista do folclorismo religioso. Entretanto, continuamos a assistir (sempre à distância, e sem aplaudir) ao ridículo espectáculo dos mordomos governamentais – os tais que, embora exercendo funções altamente remuneradas, aceitam ostentar os seus ornamentos medalhados para “enfeitar” as vitrines da respectiva mediocridade existencial… 

Afinal, vamos ou não avançar rumo à reconciliação psico-cultural da diaspora açoriana? Como sói dizer-se: “a arte de ser sábio,  faz parte da arte de saber o que ignorar”… Se assim for, não percamos mais tempo na consagração do vedetismo narcísico espelhado pelas vitrines açor-lusitanas do facebook. O que nos parece inadiável é cultivar a prudência do bom-senso (sob o pálio da autonomia pessoal) com o fim de enfrentar o desafio cívico, ou seja: “pensar bem sem temer consequências”…

 

2 – Da gerência dos Recursos Humanos (alusões & ilusões)

A tendência da raça humana para venerar o consumismo materialista faz parte da teimosia para enrijecer o cariz agressivo do seu comportamento. Os especialistas gostam de mencionar que todo o ser humano tem um parentesco comum sediado nas mesmas raízes ancestrais:  a bestialidade e a angelogonia são a “junta-de-bois” usada como ferramenta para temperar a crueldade humana…

Ora, aqui vai um breve desabafo (com “sotaque” açoriano) para corrigir o seguinte: a fragmentação vulcânica da insularidade açórica não deve ser registada como “pecado original” da nossa presença oceânica…  Curiosamente, o turismo euro-americano parece inspirado na ânsia de transformar as ilhas açoreanas em “catedrais turístico-financeiras”, com o descarado intuito de promover os habitantes à missão de “fiéis-de-armazém” do capitalismo atlântico-chinês…    

Ora, não custa referir o facto do signatário ser apenas servente da escrita missionária: consola-nos a esperança de que o antigo nem sempre envelhece, e a grandeza das coisas não deve ser ajuizada pela aparência do respectivo tamanho.  Não é demasiado tarde para verificar a crescente idolatria esmoleira do subsídio financeiro.  É nesse “oceano etológico” que tenho logrado flutuar graças à existência do valioso “colette salva-vidas” psicológico inventado pelo prestimoso “ethologist”, doutor Konrad Lorenz…

Para corrigir cientificamente o misterioso apetite humano pela violência, seria necessário decifrar o código do tráfego genético e biológico  que a nossa conflituosa ancestralidade vem decantando no “humus” humano. A biologia sugere que a natureza humana não pode ser remodelada por reformas sociais. Afinal, somos ou não bárbaros civilizados? Continuo no meu jejum duvidoso…

 

3 -  Afinal, a humanidade é uma espécie de “floresta anónima”?…

Pelos vistos, somos humanos dotados com talentos e debilidades em trânsito? A propósito, recordo alguns dizeres do estimado pai, Mané Medeiros  – cavalheiro austero, semi-analfabeto, soldado-raso do destino, amante da natureza, e que acabou como camponês-jardineiro de fina têmpera, ao serviço do indiferentismo micaelense, e também junto ao verdecer das periferias hoteleiras nas Bermudas…

Recordo, vivamente, algumas das conversas acontecidas com o saudoso Pai, por volta de 1960, época em que tivemos de navegar em direcções opostas: ele na direcção oeste, rumo às Bermudas, e eu na demorada viagem rumo ao litoral moçambicano. Naquele tempo, as suas conversas habituais eram serenas e transparentes:“- Atina, rapá! Olho sempre aberto! - este mundo tá cheio duma cambada de cães esfomeados…  São temíveis, sobretudo quando param de ladrar”…

Vou já interromper para agradecer a cordialidade dos eventuais leitores.  Como antigo aprendiz de microbiologia, optei por folhear livros daquela especialidade científica. Confesso: muito, muito aprendi, sobretudo, àcerca do pouquíssimo que sabia. Ainda hoje, continuo ciente do pouco que ainda sei… mas ainda estou vivo!

Com o devido respeito pelo pensamento de Jean-Paul Sartre (prémio nobel, 1964) aceito ter sido “condenado a ser ser homem e a ser livre”. Entrementes, repito aquilo que disse numa entrevista televisionada (RTP/A, Natal-1976) , no tempo em que a livre expressão de pensamento era considerada atrevimento evitável. Falei, assim, usando uma frase conhecida: “… prezados camaradas,  estou a aprender a falar em voz alta:  não espero morrer nem de parto nem de medo…” 

          

 

(*) o autor continua fiel aliado da antiga grafia.