arquivar o Passado na pasta do tempo…

 

 
1 – Da (pro)vocação missionária da Palavra          
Na minha geração, não costuma ser de bom-tom aceitar o cognome de ‘pecador-profissional’.  Na minha indisfarçável condição de pecador-amador, prefiro comparar opiniões com o objectivo de enrijar a própria ousadia para melhor aprender a duvidar das chamadas certezas bem-falantes ...
Revisitar o passado na ânsia de saudar o futuro, nem sempre serve de passaporte ao presente. Nesta breve conversa (acontecida em pleno lamaçal do coronavirus) o signatário promete falar de si próprio sem escorregadelas narcísicas; a maior parte da sua meninice foi (ruralmente) evaporada no convívio com a boa rapaziada do seu tempo...  Estamos a falar de crianças estimadas e protegidas pelas tradições basilares que naquele tempo constituiam o capital emocional da chamada ‘família da batata-doce’.
Cuidado: não vamos confundir pobreza com miséria: continuo a gozar da bem-aventurança de fazer parte duma família que detestava o exibicionismo piegas do emblema da pobreza. Naquele tempo, aos quinze anos, tive de ‘emigrar’ (como trabalhador-estudante) do sossego do Largo da Madalena, em S.Roque, rumo à caçoada vivaz de Ponta Delgada. Não foi preciso muito tempo para compreender que os nossos estimados pais eram gestores silenciosos (mas eficazes) da escassez de meios para sobreviver com dignidade, actuando na esperança de conciliar a pobreza com a honradez...

2 – Migalhas do (dis)curso de civilidade   
Para não perder tempo a escarafunchar o covoado trilho da politica açoriana, vamos revisitar o passado através das lentes do futuro. Estou a recordar o facto de NÃO ter sido o primeiro membro da família forçado a viajar rumo ao continente africano: em finais de 1946, tivemos um familiar (saudoso tio-padrinho, recentemente falecido) inesperadamente argolado para seguir rumo a Nova Lisboa-Angola, integrado no batalhão expedicionário (BII.18 – Arrifes, S.Miguel). Curiosamente, naquele tempo, o regime fingiu desconhecer a circunstância de que o “primeiro-cabo electricista” acabado de ser mobilizado (aos 22 anos) era o irmão mais jovem de Carlos Ferreira – o tal estufeiro-sindicalista, co-fundador da Casa do Povo de Fajã de Baixo – anti-fascista rural que, 10 anos antes – Julho/1937,  fora ‘liquidado’ pela crueldade praticada pela  PVDE “policia de vigilância e defesa do Estado”.  
Agora, vamos na direccão da década de 1960, época em que  a chamada ‘geração do sorriso triste” começou a ser espezinhada pelo frenesim imperial salazareno. Naquele tempo, havia a ingénua esperança em que o problema colonial não seria resolvido com balas, mas sim com votos. Felizmente, considero-me premiado com a boa-ventura de ter terminado a então discutível missão colonial e regressado à Ilha natal trazendo o corpo comigo!  
Sem vir aqui rouquejar novidades, venho apenas confirmar que não considero a prática politica como calhandra cívica: o cidadão-eleitor não deve ser convidado a assinar ‘cheques em branco’, com base na telegenia ou no verbalismo teatral do candidato. A propósito, não é difícil entender que, logo a seguir à “revolução dos (es)cravos”, a credibilidade ideológica era geralmente aferida pelo número de anos curtidos nas cadeias fascistas. Haja autenticidade: há outros instrumentos para ‘conferir’ o grau de credibilidade psico-sociológica d@s candidat@s.
Atrevo-me em afirmar que os democratas da minha geração não cultivavam  delírios carreiristas; muitos continuam militantes sensatos do regime das ‘ideias ao desafio’...  Exemplo: a decisão de emigrar rumo à ressurreição da dignidade humana foi um recurso necessário para garantir a ‘autonomia’ pessoal: “emigrar não é trair nem vergar, é partir para um novo estar”...
( .../... )  Ora, dado ter começado a folhear o caderno da emigração, gostaria de referir que  a preservação da língua e da cultura portuguesa não deveria ser exercida paternalisticamente, segundo sistemas viciados do colonialismo cultural. Obviamente, tais questões fazem parte do caderno da competência dos linguistas; ou seja, falar ou comunicar? As elites modernas do corporativismo europeizado mal compreendem o fenómeno da emigração – porque se trata duma veterana ‘dor’ colectiva silenciada pelos apóstolos do novo-testamento fascista. 
O convite está feito: vamos arquivar o Passado na pasta do tempo!


 (*) texto escrito  de harmonia com a antiga grafia