“… muito se aprende com a solidão”

 

(*)  Fernando Pessoa

 

        

1 – o tempo e a geografia são ditadores silenciosos

Dado não me considerar livre de ser enganado pelas aparências do bem-comum, aceito a meiga hipótese de haver respostas substantivas às conhecidas interrogações desafiadoras dos cronistas da imprensa da diaspora.

Eis dois exemplos:  Escrever para quem? Comunicar com quem?  

Seja-nos permitida mais uma breve interrogação: será que a decisão de aprender e a missão de ensinar são martírios a evitar? Afinal, que tipo de vacina democrática poderá proteger a comunidade imigrante do egocentrismo narcísico?  Continua apropriada a tarefa de reflectir amiúde na curiosa proximidade entre instrucão profissional e educação humanista. Vamos convidar os apreciados leitores para participar na missa-campal da autenticidade cívico-cultural: confirmar e enrijecer a capacidade humana para mesurar a noção exacta do respectivo tamanho… 

Desde que optamos pela partilha do próprio pensamento através da escrita, ficamos cada vez mais expostos ao cinzentismo da própria solidão. Vejamos: as pessoas menos avisadas confundem, apressadamente, charlatanismo com liderança; esperteza com inteligência; competência com sabedoria; legalidade com justiça; espiritualidade com religiosidade… 

Vamos adiante: haja humildade na aprendizagem.  Agora, vamos apenas refrescar uma faísca duma quadra (com 52 anos de idade) dedicada aos miúdos espantados face ao “Dia  das Montras” – na baixa de Ponta Delgada:

 

… luta contra todo o mal

Faze o bem e logo esquece;

A vida é missa-campal

Quando a justiça acontece…

                              

Mas, afinal, haverá quem saiba conversar com os veteranos imigrantes açor-lusitanos, nestas paragens? Como estão a ‘respirar’ mentalmente os bisnetos daqueles arrojados baleeiros que aqui desembarcaram na alvorada do século XX? Que agudez visionária dispõe os descendentes dos trabalhadores rurais aqui chegados a bordo da onda dos anos 60? Que é feito da açorianidade assoprada pela ventania geográfica da saudade insular? A resposta não é propriedade privada…  

 

2 – Trabalhar em Liberdade significa marchar rumo ao Ideal

Enfim, não é pecado coleccionar rugas na alma e no rosto: não parece urgente inventariar o património material dos imigrantes. Em termos comunitários, as mulheres continuam a progredir num ritmo discreto.  Em finais de1980 (quando comecei a marchar  na via-sacra da emigração), observei o entusiasmo feminino em frequentar as aulas E.S.L. “Inglês como segunda língua” – iniciativa valiosa para ultrapassar o ciclo inicial do G.E.D. “General Education Diploma”.  Nessa época, muitas mulheres apreciavam o contacto telefónico com as “linhas abertas” das estações de radio local. Estamos a refrescar as etapas iniciais da chamada “revolução silenciosa”, na esfera da respectiva promoção sócio-cultural, profissional, empresarial…  

Bem, hajam, apreciadas Mulheres da nossa terra -  nascidas e criadas no meio rural, vergadas à mentalidade patriarcal e marianista. Convém relembrar que a valentia feminina teve de enfrentar a vala-comum da emigração ditada pelo incurável indiferentismo açórico: emigrar! emigrar! operárias leiloadas no cruel universo da produtividade têxtil, trabalhando nos turnos nocturnos, quase sempre a troco dum salário mínimo…

Resta-nos apreciar uma breve faísca positiva do desafio imigrante: vamos acreditar que o desafio de trabalhar em prol do bem-comum não vive indiferente à missão de “produzir” gente livre! Muitas das apreciadas companheiras da cruzada imigrante  já descobriram serem oriundas dum mundo de formalismos passadistas, a borrotar dos tiques e vénias senhoriais. Agora, já está percebido que o fervor dos ilhéus açorianos está pronto para enfrentar os desafios em prol da coragem, da honestidade, da qualidade…  Entretanto, creio ser aproriado oferecer aos prestimosos leitores, este micro soluço do poemeto publicado há apenas 33 anos:

 

“… vamos, vamos, toca a andar

emigrar não é trair nem vergar:

- é partir para um novo-estar.”

 

Vamos concluir esta curta conversa emocional com a transcrição ipsis verbis  do comentário nostálgico exposto no memorandum, publicado em Setembro de 1990: “… se descobrirem algum remédio para a dor silenciosa dos que um dia sairam do basalto açoriano (porventura arrancados pelas circunstâncias da ditatura da necessidade) – não esqueçam de incluir o signatário na longa lista de espera da madrugada açórica”.

 

(texto redigido de harmonia com a antiga grafia)