“… Entre as Brumas da Memória”

 

 

    

1 – Emigrar - compartilhar a ‘dor do parto’ da partida

O tempo vai sempre um passo à frente da gente, como que indiferente ao momento que passa. Como aspirantes incorrigíveis à eviternidade, (porventura inconsolados pela brevidade da presunção de estar vivo) pouco mais nos resta do que continuar estonteados pelas brumas do passado, amparados aos suspensórios do presente, e não raro indiferentes aos desafios do futuro… 
Através da gaze no olhar dos imigrantes, adivinha-se o luto duma ‘orfandade’ étnico-política imposta pela ditadura silenciosa da pobreza que separa povos, e neutraliza inteligências, enquanto vai abençoando despedidas…  
Tal como as lapas se colam, desesperadamente, ao respectivo pedregal ao serem tocadas por estranhos, aqui, nos USA, muitos imigrantes “arrimam-se” à trilogia rotineira: “trabalho-comida-cama”. 

2 – … o pavio da Liberdade
Salvo melhor entendimento, as Regiões autónomas continuam institucionalmente serenas, embora distraídas pela comicidade cíclica eleitoral.  Entretanto, pelo andar enfermiço da procissão comunitária, a generalidade dos indivíduos parece respirar acomodada. Distante vai o tempo em que as multidões não perdiam pitada para denunciarem situações de flagrante injustiça social. Talvez por isso, não demorava a explosão solidária: os povos oprimidos gritavam ‘penalty’ ‘penalty’… quando os donos do mundo (e seus acólitos) eram surpreendidos a ‘tocar’ com as mãos da ganância, nas bolas (leia-se bolsos) dos deserdados em plena grande-área da pobreza involuntária…
Deixemo-los. Repare-se agora, com intenção solidária, no frenezim do formigueiro humano que nos tenta deslumbrar com a glorificação da imbecilidade feliz. Cuidado! Militar na vida com gente tão religiosa da sua mediocridade, seria como congregar num ‘nursing home’ um pelotão de militantes reumáticos para uma cruzada democrática rumo à libertação comunitária…
Antes de continuar o percurso desta breve crónica emocional, gostaria de refrescar a memória da Cristandade açoriana, com as seguintes palavras proferidas, em 1993,  pelo Santo-Papa João Paulo II – as quais aparecem publicadas em vários jornais ocidentais, designadamente: “Liberation”, “ La Stampa”, “El País”, “Guardian”, “New York Times” ...
Aqui vão os dizeres de Sua santidade: “Aprendi o que é a exploração e coloquei-me imediatamente ao lado dos pobres, dos espoliados, dos oprimidos, dos marginais, dos indefesos|”… e mais adiante continuava “…o capitalismo selvagem permite abuso…  reconheço que há sementes de verdade na ideologia socialista.”

3 – “… são muitos os chamados mas poucos os escolhidos” 
(*) – fragmentos duma crónica publicada 
na página 15 do “Portuguese Times”, 
em 27 de Janeiro de 1994. Vejamos: 
       
Dado que nunca chegou a ser encetada, nos Açores, uma experiência autonómica assente num regime inequivocamente social-democrata, incumbe ao PS/Açoriano a tarefa de implementar a social-democracia nas ilhas, sem complexos teocráticos nem teimosias jesuiticas.
A recente crise directiva novamente instalada no seio do Partido Socialista Açoriano , não deve ser apressadamente confundida como crise do socialismo democrático; nem se apresenta motivada por nenhuma febre serôdia de cariz ideológico. Deve, contudo, ser interpretada como bem-vindo ‘ultimatum’ à fidelidade cívica dos seus dirigentes e à corajosa militância dos respectivos quadros subalternos.
Vejamos: a gritante crise sócio-económica que grassa nos Açores, embora acelerada na última década pelo social-narcisismo do PPD/PSD/A, não deve ser vista como fatalidade acontecida a um povo cansado (ou impreparado) para os desafios da Autonomia constitucional. Todavia, há que admitir que a maioria do eleitor não entende o linguajar dos dirigentes políticos açorianos: ‘casta’ supostamente erudita que se deleita na orgia do pseudo-paternalismo; gente fina e finada de gozo no (ab)uso duma linguagem hermética, aristocrática, feudalista…
O saneamento democrático das estruturas partidárias do PS (núcleos, secções, federações, direcção regional, grupos parlamentares) é um imperativo ético, necessário, inadiável: “distribuição democrática da riqueza”… ou seja: o ideal seria que ninguém seja excessivamente rico para comprar o seu semelhante, nem irremediavelmente pobre que se tenha de vender…
Para contrabalançar a chamada ‘ditadura da maioria’, o PS precisa de disciplinar o poder inspirado na co-responsabilidade democrática. Para atingir tal desiderato, o PS/A vai ter que trabalhar mais e melhor: primeiro, precisa de se ‘açorianizar’ no seu perfil ideológico;  aperfeiçoar-se na sua identidade autonomista; depois, apurar as causas da ‘indiferença’ abrilista da juvenilidade do século XXI, tendo em atenção que os cruzados socialistas terão de saber trabalhar e esperar humildemente pela colheita, uma vez que o socialismo não é um maná que existe, mas um fenómeno que será…  Assim seja!  

                 

(*) o autor permanece indiferente ao recente acordo gráfico.