O povo é uma realidade em marcha

 

 

(*) – … breves comentários proferidos pelo signatário, na antiga sede do PS/A, em Ponta Delgada, numa programada assembleia de militantes, realizada na terça-feira, 5 de Outubro de 1976 (alguns semanas após um dos incidentes bombistas que danificara alguns sectores do interior do supracitado edifício).

 

…/…

 

Apesar desta pequena sala ter sido recentemente mal tratada pelas loucuras bombistas da moda, não se trata de transformar esta breve sessão numa jornada exclusivamente partidária. Viemos aqui para actuar culturalmente, porque a cultura é tambem compromisso - mas compromisso com os autênticos protagonistas da Liberdade regional…

Não é dificil entender que a República foi implantada em Portugual através de um golpe revolucionário armado. Infelizmente, a transição do regime monárquico para a situção republicana só foi conseguida através da violência (as estatísticas referem cerca de 72 mortos e 308 feridos)…

Sem pretender esgotar a série de factos ocorridos na primeira década do século XX,  limito-me, por  agora,  à tarefa de vozear alguns micro-comentários alusíveis às personalidades açoreanas consideradas mentores do ideal republicano: Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Mário de Azevedo Gomes – naturais, respectivamente, de Ponta Delgada, Horta, Angra do Heroísmo - este último conhecido dirigente da Seara Nova, catedrático do Instituto de Agrononia e Veterinária (e que chegou a ser ministro da agricultura na vigência da Primeira República).

Quanto ao distinto  faialense, Manuel de Arriaga (convém não esquecer a sua veterana lealdade demo-liberal, chegando a ser filiado no Partido Republicano) foi o primeiro Presidente da República Portuguesa, já que Teófilo Braga fora o primeiro Chefe do Governo Provisório…

Em 1915 seria efectivamente Presidente da República.  Não deixa de ser curioso referir que o dr. Manuel de Arriaga foi membro clandestino (?) do  Directório inflamador da revolta 31 de Janeiro de 1891.  Curiosamente, chegou a ser eleito deputado pela Madeira...

Apreciados Camaradas, penso não ser descabido recordar aqui, nesta singela sessão, o seguinte: na década de 40 do século XIX, as ilhas açoreanas serviram de berço natal a cidadãos que marcaram a vida política, cultural e religiosa do seu tempo. Vejamos:

 

1840 – José Joaquim de Sena Freitas – polemista notável, admirado por Camilo, foi um dos maiores expoentes da cultura religiosa do seu tempo,  apesar de um ou outro dissabor resultante do processo revolucionário de 1910.  Sena Freitas teve também, tal como Antero de Quental, alguns encontros marcados com Castilho, e deixou obra assinalável como polemista.

1840 – Manuel de Arriaga (já algo foi dito no princípio desta conversa:  falta apenas lembrar que o seu apelido familiar é de origem Basca).

1842 - Antero Tarquinio de Quental – cultivou algumas afinidades socialistas com Pierre-Joseph Proudhon; talvez um dia, tenhamos a honrosa tarefa de comentar publicamente o seu empenhamento numa transformação da realidade sócio-politica do seu tempo… Veremos.   

1843 – Joaquim Teófilo Braga – personalidade bastante complexa merecedora dum estudo aturado. Há duas razões que me levam a comentar, com involuntária superficialidade, a personalidade político-cultural do valioso dr. Teófilo Braga: a primeira, diz respeito às minhas próprias limitações académicas; a segunda, o facto de não  possuir a ousadia suficiente para abusar da vossa cordial paciência auditiva. Haja camaradagem…

Todavia, arrisco oferecer a breve curiosidade de lembrar o facto do Teófilo Braga ter escrito o seu primeiro livro, com apenas 15 anos de idade: livro intitulado ‘Folhas Verdes’. Além disto,  foi autor de vários livros de poesia, tais como : ‘Visão dos Tempos’, ‘Tempestades Sonoras’, etc

Embora cerca de 1 ano mais novo que Antero, o jovem Teófilo também participou nas tertúlias da universidade coimbrã;  pertenceu à ala esquerda do grupo anteriano, e cedo ficou conhecido pelo seu anti-clericalismo.

Qualquer de nós é livre para concordar ou discordar das teses teofilianas: foi um político conhecedor dos zumbidos da lisonja, e dos gemidos dos que gaguejam juras serôdias de fidelidade… Mais não digo.

O regime republicano não foi (nem é) uma realidade fácil. Problemas houve que continuam a causar pasmo pela semelhança com situações regionais, muito próximas do pós-25 de Abril. Exemplo: nas  últimas semanas de 1911, houve polémicas à volta das cores da bandeira nacional;  os monárquicos defendiam a velha bandeira “Azul & Branca”, do constitucionalismo inicial, sem a coroa. Mais: chegou a haver referendos! O poeta republicano, Guerra Junqueiro (autor, em 1885, do discutível livro “A Velhice do Padre Eterno”), chegou a defender as cores da  “antiga” Bandeira nacional.

E que dizer àcerca do hino nacional? Vejamos: muito boa gente chegou a cantarolar, com seriedade emocional, o tradicional hino “Maria da Fonte”...  Enfim: falta dizer que a I República também conheceu os tradicionais oportunistas (os “adesivos” do oportunismo, como eram então chamados). Contudo, não vamos esquecer ou apequenar a valentia dos militantes honestos…

É sensato lembrar que Teófilo Braga faleceu em 1924, tendo sido poupado à notícia da queda da I República -1926. O que interessa hoje, aqui e agora, é avivar a nossa memória para celebrar o espírito progressista desses bravos pioneiros;  recolher com serenidade revolucionária os ensinamentos da história da I República, ou seja cultivar a concórdia entre os vários quadrantes da opinião religiosa; enrijecer a valentia do Povo trabalhador;  construir o futuro colectivo, salvando os valores democráticos herdados da I República.

Prezados Camaradas, admito que esta homilia vai longa. Continuo apreciador da galhardia genuina das multidões, embora avesso ao tom arrefecido dos funcionários da cortesia protocolar, especialistas na zurraria da lisonja…      

Como quem diz: do debate plural das ideias nasce a luz. Quem receia (ou evita) o saudável confronto das ideias – vive na passadeira da ilusão.

 

Apetece dizer em voz alta: - o Povo é uma realidade em marcha: -  é proibido andar parado!                                             ------  //// -----

 

(*) Até meados  de Outubro/1980,  o signatário teve a subida honra democrática de servir a Autonomia Açoriana, como membro parlamentar da I Legislatura (1976-1980).

 

(**) - O autor escreve à revelia do recente Acordo Ortográfico.