saldo magoado da memória

 

1 – “não preciso de ser um génio para ser humano” (C.Chaplin) 
         
Logo que a metralha da II Grande Guerra regressou a quartéis, a Europa depressa acordou de muletas para iniciar a corrida vertiginosa da sua própria reconstrução, graças ao plano Marshall, que entrou em accão no verão de 1948. Devido aos caprichos da conjuntura geo-politica da época (longe de mim vir aqui arvorar-me em especialista na matéria) a península ibérica foi parcialmente poupada ao barbarismo nazista. No dizer oficioso dos compêndios pró-salazaristas da época, o piedoso ditador-teocrata lusitano era considerado governante sólido, autoritário, apesar de ideologicamente introvertido.
Embora considerado intelectual de raciocínio autónomo, o doutor Salazar nunca escondeu a sua simpatia (condicional) pelo fascismo italiano. Contudo, a sua discutível tenacidade política temia a pos-industrialização sugerida pelo plano Marshall, ou seja, a tall barulheira reivindicativa resultante do vanguardismo operário...
Com algum esforço ético da nossa parte, a verdade histórica sugere que é possível encontrar, na equipa da administração salazarista dos anos 40/50, alguns (poucos!) elementos de visão rasgada: gente afoita  e crente em que a mentalidade portuguesa precisava de descobrir a chave do “cinto-de-castidade” psico-cultural imposto pela ditadura do Estado-Novo. Foi assim que surgiu a criação do Ensino Técnico Profissional (decreto 37:029, 25 Agosto de 1947) como resultado prático do (porventura disfarçado) grupo de dirigentes tecnocratas, politicamente clarividentes. No seio do corporatismo fascista, esse grupo foi capaz de ‘democratizar’ o acesso ao Ensino Secundário aos adolescentes oriundos das famílias infectadas pela endemia da pobreza. 
Não vamos hoje dissecar as causas próximas e remotas da mal-disfarçada onda de temor ‘aristocrático-separatista’. Sabemos apenas que o supracitado decreto provocou calafrios aos representantes da alta burguesia do tempo: o projecto teve o mérito singular de apequenar a legião da doutorice paroquial lusitana, e preparar os futuros técnicos-gestores dos quadros intermédios das empresas inspiradas no moderno capitalismo de rosto-humano.  
 
2 – “... será que a Educação é dispendiosa? Quanto custa a ignorância?”
Revisitando o fervor empresarial adentro do quadro da insularidade açoriana (1960-1980), não restam dúvidas que as Organizações Bensaúde e o Grupo Sousa Lima foram duas empresas insulares que melhor se adaptaram ao nóvel “capital humano” entretanto saído dos cursos do Ensino Técnico Profissional.
Na alvorada do ano de 1966, a veterana equipa de recursos humanos das Organizações Bensaúde decidiu “abrir” concurso público para admissão de pessoal. Não... não é lapso de memória relembrar o seguinte: há mais de meio século, tratou-se efectivamente da inauguração do primeiro concurso público para admissão de novos quadros, visando substituir, pacificamente, a antiga metodologia de ‘mimar’ os ‘meninos-afilhados’ (outrora admitidos via da solidariedade do nepotismo simpático)...  
É justo recordar a iniciativa pioneira assumida por elementos de alto gabarite da nova geração de gestores de Recursos Humanos: Francisco dos Santos Pereira, e Juvenal Pimental da Costa – gente que procurou minimizar, aliás com sábia prudência, o feudalismo empresarial impecavelmnete praticado por Albano da Ponte e por António Medeiros e Almeida. Enfim, gestores que pretendiam neutralizar o estilo de gestão pseudo-militarista (cultivado, aliás, com cuidada mestria pelo contabilista Agostinho de Paiva, e pelo seu colega de administração feudal, “sir” Roberto Arruda).
 
3 – “saber encontrar alegria na alegria alheia, é o segredo da felicidade...”          
Naquela manhã estival de 1966, fiz questão em comparecer ao tal anunciado concurso público  (talvez ainda cheirando ao capim africano colado na pele do jovem miliciano recém-chegado dos matagais moçambicanos).  Após algumas semanas de espera, fomos acariciados pelo rumor da tão esperada notícia: os candidatos aprovados foram formalmente contatados. No dia e na hora combinados, os quatro candidatos admitidos compareceram no escritório central da Casa Bensaúde: Carlos Resendes Cabral, Walter José Aguiar Pacheco, Pedro Alves dos Santos, e o signatário desta crónica.
Depois de brevemente saudados pelo veterano chefe de escritório (o saudoso Laurénio Matias), fomos depois guiados à presença do administrador Albano da Ponte, um dos patriarcas históricos da Casa Bensaúde, que tomou a palavra:
– “Sejam bem-vindos! Estou muito esperançado na complementaridade dos nossos interesses: o montante do vosso primeiro ordenado é uma imposição unilateral da nossa empresa; d’aqui p’ra frente, quero acreditar que a qualidade do vosso trabalho terá a voz reivindicativa que agora não pode ser ouvida…”
Ora, logo se vê que o tempo não paga multa pelo proprio excesso de velocidade! Entretanto, aqueles quatro jovens (em Agosto de 1966, agrupados nos corredores da Casa Bensaúde, em Ponta Delgada, Açores) passaram vários anos a trabalhar ombro-a-ombro no seio da prestigiada empresa açoriana da epoca... 
Mas o destino tem curvas e encruzilhadas que desafiam a geografia. Felizmente, todos permanecem vivos: três vivem ainda em São Miguel rodeados pela familia e amigos (Carlos Resendes Cabral, Walter Pacheco, Pedro Santos). Quanto ao signatário, desde Outubro/1980, permanece geograficamente longe do seu berço micaelense – longe, mas não distante! 
Afinal, caríssimos, cada individuo é um mistério que nem sempre se deixa desvendar. Socorro-me dos dizeres de Confúcio:
“se queres conhecer o passado, examina o presente que é resultado;
se queres conhecer o futuro, examina o presente que é a causa.” 
E pronto! Cada um de nós é um ‘planeta’ a gravitar na órbita do destino, em busca de um Sol que lhe contrarie a escuridade, sem lhe toldar a visão...

 

Rancho Mirage, Califórnia
(*) texto escrito `a revelia do recente acordo ortografico.