(des)ilusões do quotidiano…

 

 

   

 
 1 – “apreciar a bravura dos que são capazes de perdoar...”
 Enquanto não acontecer o apito final da minha existência, creio valer a pena coexistir no seio duma comunidade sofredora das amarras dogmáticas impostas pela decorrente pandemia ético-política. Creio não ser pecado aspergir esta micro-crónica com alguns respingos humoristas: continuo adepto da arte de ser “sábio”, ou seja, a arte de saber o que ignorar...   
O percurso rotineiro do capitalismo norte-americano continua a dar sinais trumpolínicos duma persistente enfermidade psico-politica. Há cerca de quatro décadas aderi à hipótese de que a democracia não foi inventada para servir de “cadeira-de-rodas” ao projecto do descanso eterno. Melhor dizendo: continuamos sem “descobrir” a resposta mágica às perplexidades da fragilidade humana...  Entretanto, o planeta Terra continua a navegar na “terceira posição” do sistema solar, embora as gerações mais recentes continuam curvadas aos efeitos do ‘enjoo’ provocado pelas (des)ilusões do quotidiano.
Há ainda quem continue a idolatrar a hipótese de que os ditadores politicos são manipuladores do padecimento ideológico, ou seja:  a tradição judeo-cristã promoveu o sofrimento individual ao estatuto de capital necessário ao investimento na lotaria da salvação humana. O murmurar das dúvidas e o gemicar das amarguras continuam sendo palavras verazes sob o tecto da pimponice sem fronteiras...  
          
2 – será que vivemos prisioneiros da mentalidade do espectáculo?...
Gostaria de recordar alguns dos conhecidos dizeres de Aristoteles: “ só existe uma maneira de evitar críticas: não fazer nada, não dizer nada, e não ser Nada”...   Creio valer a pena meditar na extravagante herança das manchetes bíblicas, directa ou indirectamente relacionadas com o “ajuste-de-contas” com a Divindade, ou seja, a imaginosa artimanha da pieguice humana em transferir para o “Ente-Supremo” o apetite insaciável da crendice violenta.  
Também faço parte da chamada “geração do sorriso triste”, da segunda metade do século XX --  geração forçada a sobreviver ao cruel catequismo ditatorial que endeusava a violência colonial como ferramental pedagógico para abençoar o sofrimento do povo lusitano... Aceito a hipótese de que “o silêncio é um momento da linguagem”. Mas não consigo descortinar uma justificação política (emocional ou jurídica) que possa convencer as culturas orientais a aceitar os valores democráticos do “universo” ocidental.
Alguns cientistas confessam-se convencidos de que a vida humana existe há vários biliões de anos (mas cuidado! não podemos ir muito atrás, porque o DNA não sobrevive para além de um milhão de anos...). Fisicamente, o ser humano já consegue marchar na posição vertical, embora rastejando como pigmeus, nos labirintos da ancestralidade biológica. Curiosamente, há gente que continua prisioneira do credo do espectáculo, na busca dos 3 G’s: “ God, Gold, Glory.”  Enfim, continuo bem animado no convívio da minoria que “pensa”; todavia, reconheço que a maioria prefere dar guarida a quem “acredita”.
Seria aconselhável que as comunidades aceitassem o desafio de apostar no movimento ecuménico da inter-culturalidade global. No seio da globalidade existencial, o acesso ao saber faz parte da valentia democrática. Todavia, seria sensato amaciar a rigidez defensiva das religiões... O Islão continua exposto ao misticismso indiano, ao messionismo judaico e ao dogmatismo católico.  
 
3 – urgente jornada: democratizar o acesso à cultura da Dignidade…
Para muitos, as ditaduras políticas são consideradas simples memórias do passado. Ora, para proteger a dignidade cívico-democrática, temos que atinar com as modernas formas de manipulação geopolitica...  Na memória do percurso da revolução portuguesa, muitas das escaramuças ditas ideológicas do passado já fazem parte do anedotário do presente...  
E pronto! Continuamos a dar-cabo uns dos outros. Exemplo: no passado, o património ancestral do continente africano foi delapidado pela introdução do islão e do cristianismo; mais tarde, nas américas, várias civilizações foram vilipendiadas pela invasão luso-ibérica: os missionários eram a caução moral do sistema, mas em breve tornaram-se cúmplices dos atropelos imperiais (ex. testemunhos dos “repartimientos e das encomiendas” referidos pelo dominicano Antonio Montesinos e o do seu colega capelão Bartolomeu de las Casas). Neste contexto, seria longa o relato histórico das relações incestuosas das cruzes étnicas com as espadas financeiras...
Como reconcilar a visão e a missão internacional do capitalismo ocidental com a rigidez religiosa da mentalidade islâmica? Temos de aprender a ser bons gestores da incerteza. Lenine manifestou a opinião de que “uma revolução só vale alguna coisa quando se sabe defender.”
Desde o começo da minha experiência imigrante (Outono /1980) comecei a reparar que a prosperidade tecnológica pouco devia aos partidos políticos; e nem sequer era o resultado de estruturas emblemáticas do passado, tais como caminhos de ferro, portos e estradas gizados pelo poder federal. O desenvolvimento era aceite como resultado da evolução das comunicações e do acesso democrático à competência científica.  Mas cuidado! Nada de confundir legalidade com justica, nem competência com sabedoria...  
 .../... no último quartel do século XX, era comum ouvir o conhecido desabafo: na Europa, os povos seguem rumo ao futuro.  Aqui, nos E.U.A. “o povo limita-se a criar o futuro”.
          
 

Rancho Mirage, California 

(*) o autor permanece indiferente ao recente acordo gráfico.