… chamada da distância

 

 

1 – bilhete preambular dedicado aos eventuais leitores do memorandum…   

 

Até mais (vi)ver, continuo a serenar a compreensível tentação de usar esta oportunidade para escrevinhar desabafos emocionais àcerca do periclitante estado de saúde da fidelíssima Lubélia (esposa, mãe, avó); tive a ventura de a conhecer durante o ano lectivo 1957/58, na  saudosa Escola Ind. & Com. de Ponta Delgada. Embora o desassossego político tout court tenha sido há dezenas de anos excluído das minhas prioridades psicológicas, continuo a cooperar (voluntariamente) como “guest-columnist” da imprensa & rádio da diáspora açoreana. Tenciono continuar viagem, porém com o cuidado de não bater com a porta na “cara-do-passado”. Haja solidariedade com boa-memória!

 

2 - antigos valores – novas ideias      

Perante a demorada mediocridade do desfile real da partidarite portuguesa, não é difícil decifrar os sintomas exteriores do pseudo-progresso turístico – sinais que podem confundir o observador mais apressado na construção de conclusões desajustadas no percurso autonómico tipo “salta pocinha”…

Apesar da habitual ventania sócio-financeira que sacode a gigante catedral norte-americana (apetrechada com 865 bases instaladas em 150 países, e servida por 2,5 milhões de soldados)… tal situação não evita pensar em tantíssimas interrogações, muitas delas destinadas a engrossar o inventário do espólio financeiro que jaz no sótão do miserabilismo internacional. Todavia, reconheço que as novas gerações insulares estão a “pazear” com o Atlântico: sim, o temível mar que antigamente lhes facilitava o luto da ausência, está cada vez mais meigo a servir de estrada larga para facilitar o acesso à praça da autonomia existencial. Vamos acreditar que a actual tosse convulsa da política lusitana será ultrapassada pela gestão racial da prestimosa Autonomia Regional. Apetece dizer que a Autonomia é o cavalo – e o povo açoreano é o galope!

Até finais da década de 1950 – seja-me permitido recordar – a orla marítima micaelense era quase exclusivamente povoada pela mais indigente pobreza insular. Naquele tempo, durante o verão, as chuvadas e as tenebrosas marés de Agosto eram por vezes ‘chutadas’ para o interior das frágeis capoeiras micaelenses, rumo às ‘panelas-das-couves’ dos camponeses.

Já termino: antigamente, havia as zonas tradicionalmente reservadas a albergar a chamada pobreza envergonhada. Hoje em dia, nas comunidades ricas, os acidentes é que andam à cata das ambulâncias…

 

3 - “…o dinheiro pode comprar um médico, mas não a saúde”.

Continuo adepto da esperança de que a estimada ALRA irá continuar a ser o laboratório institucional do pensamento autonómico moderno. Sim, pensar fundo, dói! Mas pensar, compensa…

Não participo do aleive segundo o qual a autonomia açórica foi idealizada para formar massagistas do turismo político. Embora à distância, continuo admirador da apreciada missão da Assembleia Regional Açoreana (instituição que tive a subida honra de servir durante a I Legislatura – 1976-1980). No meu tempo, as instituições não serviam de “câmara de espera” aos caçadores de espreita ao maná duma eventual reforma financeiramente tranquila. O ideal seria participarmos em diálogos construtivos para chegarmos ao balanço comparativo das ideias, e assim atingir a subsequente apresentação serena das opiniões concludentes.

Ora, como possuimos alguma experiência de vida acontecida no Leste e no Oeste dos Estados Unidos, sinto-me treinado para arriscar comparações. Nesta zona onde, nos últimos 20 anos, passo a vida a trabalhar, a pensar, a sonhar, a descansar…  o clima sócio-económico é uma espécie de cinzel a esculpir o guardião humanista contra o indiferentismo étnico. Mais do que parcela geográfica da União Norte-Americana, a California é um estado de espírito - porventura a última etapa da cruzada inspirada no ‘sonho americano’.  Não seria novidade lembrar que os europeus (insulares & continentais)  continuam a atravessar o Atlântico em busca do ‘novo mundo’. Nos últimos 50 anos, os povos orientais  estão a californiar a convivência asiática. Enfim, a Califórnia continua a ser o laboratório étnico do futuro…

Não há tempo para falar do futuro: diria que o futuro simplesmente acontece à medida que o presente se cansa da gente!…

 

(texto redigido de harmonia com a antiga grafia)