... era uma vez um cantadeiro popular (*)

 

 
Desde novito, habituei-me às notícias de que o saudoso estufeiro Manuel ‘Ferreira dos Arados’ gozava de saudável popularidade, no meio rural do sudoeste micaelense, sobretudo no eixo rural Arrifes-Fajã de Baixo-São Roque. Estamos a falar da época 1917-1937 do século passado, quando ‘Ferreira dos Arados’ era “sabatineiro” assíduo nas tabernas da “primeira divisão” onde os serões das ‘cantorias ao desafio’ eram uma espécie de ‘ultreia’ para desabafar as agonias do miserabilismo cívico-cultural que serviam de pano-de-fundo à inspiração dos canta(dores). 
Na zona da ilha micaelense onde predominam as feições rabiscadas pela hereditariedade luso-marroquina (?), naquele tempo, a sua silhueta viquinguesa era facilmente notada: alto, loiro, olhos azúis, com um vozeirão sargentista que não consentia ‘mariquices-avinhaçadas’ do tipo daquelas que, logo ao segundo-quartilho, começavam a ver borboletas dançarinas na borda dos copos de ‘vim-de-cheire’...
Aquando da primeira visita real a S.Miguel, em 1901 – (estamos a falar de D. Carlos I, para diferenciar o significado de outras visitas com perfume de realeza à portuguesa, tais como a do Prior do Crato, e a de D. Pedro IV) –  conta-se que houve abastada recepção no jardim do Relvão, na periferia de Ponta Delgada  - local histórico onde os expedicionários açorianos libertadores da ameaça “miguelista” faziam  exercícios preparatórios de ‘ordem unida’, antes do embarque rumo ao Mindelo.
Naquele tempo (estava-se a cerca de 7 anos do lamentável regicídio), as tarefas de apoio aos «profissionais de mesa» eram desempenhadas por jovens seleccionados pela silhueta física e pela elegância serviçal: o jovem “Ferreira dos Arados” (na altura com 21 anos) foi escolhido para integrar o “pelotão” dos serviçais incumbido dos sectores periféricos da comitiva real.
Ainda durante o serão, e depois de sua Alteza real abandonar o recinto (acompanhado pelos convivas socialmente mais graúdos), houve depois o balho-furado e as cantorias ao desafio. Consta que o então jovem Ferreira dos Arados (anos mais tarde meu avo materno) foi um dos cantadores apontados para dar colorido micaelense ao evento, depois de “afinar”  a voz com uns copitos do incomparável ‘vim de missa’ da zona da caloura...
 
não sei ler nem escrever
mas a culpa é só minha
hei-de um dia morrer
como o rei e a rainha
 
passo serões a cantar
para fingir que estou vivo
para a morte me matar
tem qu’arranjar um motivo.
 
Segundo relato de um idoso cavalheiro da Fajã de Baixo (no verão de 1975 já ia nos seus 80 anos) houve um episódio, numa das habituais cantorias no adro da senhora da Boa Nova, na Fajã de Baixo (1930?), que esteve à beira da fervura braçal. Consta que um cantador mais atrevido, porventura sacudido por um copito a mais, resolveu rimar piadas torcidas relacionadas com a suposição de que o seu colega Ferreira dos Arados não prestava a devida atenção às suas filhas, raparigas bonitas e consideradas (pr’ó tempo) muito avançadas na sua autonomia pessoal.
Ora o ambiente estava a ficar emocionalmente calorento. Segundo a testemunha, não havia muito tempo a perder. Era necessário cortar o mal pela raiz. (Na época, constava que a fresca companheira do citado cantador era uma ‘espada’ muito sensual, protegida pelo hissope do jovem pároco da freguesia...). Por intermédio do saudoso tio Celestino das vacas, tive acesso à resposta rimada da parte do cantador Ferreira dos Arados:
                                        
maré enche, maré vaza
não é preciso haver paixões
anda um galo lá em casa
que te canta oracoes...  
     
(*) escusado será referir que a maioria da assistência começou a tossir para disfarçar alguma gargalhada descuidada, 
porventura considerada “pecado-de-confissão*...
 
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Enfim: nos últimos dez anos da sua vida, tivemos a boa sorte de ouvir (e anotar) muitas das estórias duma vida sofrida à boca calada. Jamais esquecerei aqueles fins-de-tarde do período das férias grandes (1950-60), depois de passar grande parte do dia no derriço juvenil, ali mesmo no “areal-pequeno”, onde não conheço nenhum ângulo inacessível ao vigilante frontispício da igreja paroquial...
Aí por volta de 1957, cheguei a conhecer algumas pessoas idosas consideradas testemunhas idóneas de factos tristes gerados pela vassalagem fascista (muitos desses factos eram mal conhecidos pela compreensível atonia politica existente no ambiente rural da época). Sim, manda a verdade dizer que a família de Manuel “Ferreira dos Arados” tivera o seu quinhão de infortúnio: o seu filho primogénito, por ser considerado membro activo da minoria anti-salazarista, acabaria como prisioneiro, e mais tarde deportado para a ilha Terceira (castelo de S. João Baptista) onde viria a morrer (aos 33 anos), devido aos habituais maus tratos infligidos aos lutadores anti-fascistas (1937). E já agora, falta referir o seguinte: além de estufeiro sindicalista, o filho fora um dos pioneiros da formação da Casa do Povo de Fajã de Baixo; Manuel José Tavares Ferreira (mais conhecido por ‘Ferreira dos Arados’) morreu sem suspeitar que o nome honrado do filho (Carlos Ferreira) seria um dia insculpido numa placa topónima daquela ridente freguesia micaelense...

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Por volta de 1958 (já com a eternidade à vista) o veterano estufeiro-cantador e fazedor de arados entendeu entoar, quase em surdina, uma quadra improvisada para o pequeno grupo de vizinhos (imagino que a senhora Ressurreição ainda se lembrará do facto, na penumbra dos seus 93 anos) – reunido à sombra da árvore que plantara 30 anos antes, e que ainda lá está, frondosa, à nossa espera, no largo da Madalena, S. Roque:

já não tenho mais alento
para falar ou pensar
ando à cata do momento
para morrer a cantar...  

 

 (*) – texto redigido ‘a  revelia do vigente acordo ortografico