Hello, Zack. Hi, Frank na língua da minha rua

 

Após uma ausência prolongada apraz-me reiniciar o bate-papo croniqueiro no discurso Portinglês sem direção nem balizas temáticas, e pedir-lhes o acolhimento de sempre neste monólogo para quem me der o prazer e a cortesia da sua participação crítica e cívica. Por motivos fortes foi-me imperioso interromper a colaboração para os jornais que me têm dado guarida, uns mais recentes que outros na concessão amável exposta no privilégio que usufruo desde a minha juventude precoce. 
Nem todas as psicoterapias constituem modos ou intervenções clínicas que produzem um estado interior de bem-estar e autoestima. O indivíduo adaptável possui na introspeção e autocrítica os mecanismos conducentes à congruência no relacionamento consigo próprio e com os outros. Faço do escrevinhar a minha terapia.  
Ressalvando o linguajar na primeira pessoa que tende a lembrar o bombo peitoral do gorila, sem intento egocêntrico devo dizer-lhes que carecido de um ambiente onde se fala o português, na minha casa usamos o portinglês (Cabral, 1985) embora o vinho sobre a mesa, como as sardinhas e a linguiça frequente sejam portugueses. No lugarejo rural onde resido todos nos saudamos no idioma prevalecente neste país. Na minha rua domina o inglês com vários sotaques. Hello, Zack, o vizinho oriundo de Chipre. Hi, Frank, aceno ao marujo reformado da Marinha americana (seus pais vieram da Irlanda), no lado oposto do caminho. É com este conhecimento experiencial que reafirmo não podermos viver em manutenção comunicar em português com quem se expressa em inglês.    
No caso do Portuguese Times, de que sou o colaborador mais antigo mas não o mais idoso, a opção impostergável do retiro súbito e cheio de incerteza terá porventura imposto à Redação a presumível inconveniência deste escriba não prosseguir com um projeto que eu próprio sugerira e me propunha realizar. Mea culpa, caro Francisco Resendes. Fora concebido futurando a evolução inevitável e progressiva para uma imprensa bilingue prescrita na orgânica imigrante da nossa situação diaspórica. Os meus filhos e netos, que se identificam como portugueses, conhecem apenas algumas palavras no nosso idioma natal. As que ouço mais amiúde são Cristiano Ronaldo.    
Onésimo Almeida, tem função catedrática que ocupa com saliência intelectual há décadas na Universidade Brown. É um conhecido e popular filósofo quintessencial Despenteando parágrafos (2015) ubíquos e lógicos no mundo conceptual da Lusalândia (1987). Usa por vezes a ironia de facécias maliciosas para descontrair o interlocutor na advocatura didática e profundamente relevante em argumentos graciosos. Inventou a ideia original e o vocábulo eloquente na geografia demográfica e metafórica da nossa diáspora como ilha portuguesa “rodeada de América por todos os lados” (1987). Ninguém mais do que ele terá promovido talvez a integração do imigrante lusófono na valorização individual e coletiva da nossa aculturação.     
Não se pode ser portugueses na sociedade americana. Neste contexto de preservação de quem somos, não se aconselha a oposição etnocêntrica nem a resistência à metamorfose essencial no sucesso do processo de adaptação na diversidade humana que enriquece o tecido social deste país. Já outras publicações se adiantaram ao encontro da gente nova, os luso-americanos que aqui nasceram, que gostaríamos modelar num sentido histórico como herdeira concordante dos valores e identidade no caldeirão societal do experimento democrático, sociopolítico e económico em curso nos Estados Unidos.
A minha presença aqui, hoje, todavia, sucede sujeita à imprevisibilidade existencial dos memos eventos intervenientes em que como octogenário e sobrevivente oncológico me considero um felizardo. Aos leitores e à Redação deste paladino da portugalidade, dir-se-ia defensor inexaurível no esforço que convém proteger do idioma comum que nos agrega, dirijo as minhas saudações. Para quem como o inimitável Fernando Pessoa e o professor Eduardo Mayone Dias chamaram à língua galaico-portuguesa a sua pátria, isente de conotações políticas, o dístico desta coluna não pretende ofender ou denegrir a variante semântica que sugere e se refere apenas ao estádio existencial de mudança nacional na responsabilidade implícita que pela nacionalidade por opção livre e solene se adaptou.  Ser americano não implica a rejeição do afeto que se sente pelo país de origem nem os vínculos fortes da identidade cultural comum reforçados por laços de consanguinidade renovados por gerações.   
Com assento na década de 70 de 1900, a coluna que subscrevi tinha por título Tribuna, depois chamada Tribuna das Ilhas, Comentário e, mais recentemente, A consciência de um açoriano. Nenhum destes rótulos, excetuando o primeiro, projeta nas implicações latentes e ideológicas a cognição prevalecente da visão atual que comungo da realidade individual e do mundo temático, sociológico e, necessariamente, psicológico, em que nos inserimos como pessoas e espécie e sobretudo nautas cativos neste bólide planetário no processo cosmológico. Por isso recomeço com o letreiro na fachada dos meus escritos precedentes à data do hiato que hoje encerro, Discurso portinglês, um legado intelectual de Adalino Cabral transmitido na sua tese de doutoramento. 

Almeida, O. T. (1987). Ah! Monim dum corisco. Angra do Heroísmo: Secretaria regional dos assuntos sociais .
Almeida, O. T. (1987). L(USA)lância. Angra do Heroísmo : Secretaria Regional dos Assuntos Sociais Direcção de Serviços de Emigração.
Almeida, O. T. (2015). Despenteando parágrafos. Leiria: Quetzal.
Cabral, A. [1985]. Portingles, the language of Portuguese speaking communities in selected English-speaking communities (Massachusetts). (Doctoral thesis. Boston: Boston College.