O livro do ano e Paz traz paz, de Afonso Cruz: como acontecer infâncias aos adultos

 

Não é estranho para quem me conhece ouvir-me falar do quão atrativa é a escrita de Afonso Cruz. É um estilo alicerçado em metáforas, em imagens, em ironia, uma mescla de ideias concretizadas em segmentos verbais únicos, criativos, ultraexpressivos, que levam o leitor a questionar a raiz de tamanha originalidade, para perceber que é nesses segmentos que o autor lhe permite compreender melhor o mundo, experimentar a sua crítica ao mundo e às suas incompletudes, mas, ainda assim, suportando o mundo, porque acima de tudo ele merece ser bem tratado e exemplarmente recuperado. No fundo, ler Afonso Cruz é ler a esperança de que o mundo se tornará melhor.
Há dois livros de Afonso Cruz em que o acreditar que o mundo pode ser um espaço mais completo é a base narrativa: O livro do ano (2013) e Paz traz paz (2019). Dois livros que distam 6 anos; dois livros que têm uma mesma narradora: uma menina que cresce, é provável, esses mesmos 6 anos. E esse crescimento é significativo… Em ambas as obras, a narradora evidencia claramente a sua visão do mundo. Se na primeira, apresenta uma visão mais infantil, na segunda temos uma ativista em crescendo. 
Numa perspetiva fantasista, em O livro do ano, a menina comenta a evolução do que vê no mundo através das estações do ano; e essa forma de subdivisão é marca crítica do cíclico, do usual, da normalidade; daquilo que não se desvia da linha certeira do quotidiano. Ora, para uma criança o mundo não é rotina; o mundo é novidade constante, é renovação criativa a cada instante. E, por isso, as suas afirmações encerram essa necessidade de expansão criativa, de uma luz que aqueça o mundo e as pessoas, que as evada para outros lugares físicos e/ou intelectuais. Porém, é notório que, a cada mudança de estação, a menina se vai angustiando: compreende aos poucos que o mundo não é apenas o que imaginamos dele; a menina, ainda que continue a ser criança em gestos e palavras, cresce e já exprime angústias, verbaliza-as, até, ainda que não as nomeie. E faz críticas à sociedade capitalista, à falta de cuidados pela natureza, às pessoas que não se preocupam com o outro… Ou seja: ainda que o seu discurso seja o de uma criança, um discurso em que as associações de ideias vivam no mundo da fantasia, esta menina já aprecia o mundo e questiona o que a rodeia. Só não sabe bem como expressar-se e, desse modo, algumas das soluções de resolução que aponta vivem da inocência e pureza próprias da idade, uma pureza de que a menina tem consciência quando diz: “As fotografias antigas são muito parecidas connosco quando éramos pequenos.” (117)
Paz traz paz oferece ao leitor assíduo de Afonso Cruz a mesma menina, mas já mais madura. Embora use ainda um discurso próprio da imaginação infanto-juvenil, as reflexões sobre o mundo são muito mais refletidas e, por consequência, muito mais críticas. 
Já não há a subdivisão do livro por estações do ano: a menina está mais crescida, é provavelmente já adolescente, e está quase a definir a sua personalidade, as suas crenças e convicções. Está por isso mais “estável”. Ainda existem textos (quase poemas) dedicados a non senses do mundo da infância, mas o foco é o ataque, muitas vezes direto, àquilo que está mal na nossa vida global. Aliás, confessa abertamente, ao falar com um vizinho que pretendia resolver um problema de humidade: “Eu disse-lhe que tinha um desejo parecido, que é resolver o problema da Humanidade.” (13) Um problema que, segundo a narradora, se poderá resolver pela cultura, pela iluminação das mentes, esclarecidas pelo conhecimento. Daí que critique aqueles que preferem ser incultos e aqueles que se aproveitam dessa incultura ou da boa vontade para dominar ou atraiçoar, brincando com as vidas dos que, porque desprovidos de massa crítica, se deixam subjugar. Ambos considerados calhaus com dois olhos. Estagnação… ou pior…
A menina tem plena noção da dificuldade que é mudar o mundo, fazer propagar a semente da melhoria; porém, afirma que o seu sonho é poder recriá-lo, torná-lo mais belo e precioso, mais tolerante e pacífico. Para esta criança, é preciso (re)pensar o mundo. Para esta criança, exemplo de muitas outras, o importante é “brincar” aos mundos perfeitos, porque “é assim que se descobrem todas as novas descobertas ou maneiras de sorrir.” (52) Daí que o próprio título do livro seja uma espécie de trava-línguas que se usam na infância para brincar com os sons; só que este título tem teor. “Paz traz paz” é igual a “amor com amor se paga”, mas dito de uma forma mais sincera quanto à crença do que se pretende para o mundo atual: mais amor, mais tolerância, mais aceitação do outro e da natureza, numa (con)vivência de salutar humanidade.
Estes dois livros saborosíssimos de Afonso Cruz são o elogio da infância, da inocência e da pureza que se perdem no estado adulto. O que buscam é que os adultos vejam também o mundo como crianças, porque elas sabem bem como mostrar a verdadeira realidade aos mais crescidos e só assim eles serão capazes de imaginar as alternativas que o farão melhorar.

 

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