Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe: do erro humano à renovação do mundo

 

No início de Porquê ler os clássicos?, Italo Calvino sugere várias definições do que é uma obra literária clássica. Afastando-se da ideia pré-concebida de que um clássico é um livro que entrou, não importa por que motivo, no cânone, Calvino opta por: “Chamam-se clássicos os livros que constituem uma riqueza para quem os leu e amou;” ou “Os clássicos são livros que exercem uma influência especial, […] quando se impõem como inesquecíveis,” ou ainda “O nosso clássico é o que não pode ser-nos indiferente e que nos serve para nos definirmos a nós mesmos em relação e se calhar até em contraste com ele.” Depois, Calvino aconselha o leitor a inventar a biblioteca ideal dos seus clássicos, recheada de livros já lidos e para si significativos, por livros que pretenda ler porque os considera imprescindíveis e, também, por aqueles que surgem como surpresas, um candim divino. 
Este espaço será a minha biblioteca, onde viverei os meus livros, abraçarei mais um bocadinho as suas páginas, após lhes sugar a essência. Aqui, falarei deles e de como eles se me impuseram ou se vierem a impor. 
Neste nosso primeiro rendez-vous, acarinho um dos meus clássicos: Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe, donde tiro inspiração para o nome desta rubrica dedicada aos livros. 
Os contos deste livro atestam a busca de renovação do mundo, propósito que advém dos contos tradicionais populares. Em muitos dos textos, há ressonâncias de Capuchinho Vermelho, de Branca de Neve e de Gata Borralheira, por exemplo; há princesas e monstros e meninos mágicos feitos de água; há uma linguagem metafórica, onírica, feérica, até, cheia de construções sintáticas comummente ilógicas, maravilhosas, um estilo simbólico do mundo do sonho, da utopia, decerto, capacidade do autor, qual criança, de imaginar um outro mundo, uma outra visão do mundo, em que, mágico, ideal, o sonho da felicidade seja real. 
Mas essas carícias intertextuais servem outro propósito. Desengane-se o leitor que, sugestionado pelo título do livro, julgue encontrar contos de embalo e adormecimento. Nada disso. Convém ao autor fazer acordar e recordar que as histórias que conta são lições de vida e que devem ser lidas como forma de esclarecimento. 
As referências irónicas aos cães e aos maus lobos contribuem para esse despertar das mentes. Se a primeira referência remete para a adjetivação pejorativa oferecida a alguém desprezível, cujas más ações e/ou intenções o tornam protótipo da má raça, o jogo de palavras maus lobos, que à primeira leitura se estranha, confirma a razão que norteia a obra. Porquê maus lobos e não lobos maus? A escolha da posição do adjetivo não é inocente. Maus lobos é conotação de maus homens. O que importa ao autor é provar não que os homens são maus – disso ele tem já a certeza –, mas tornar evidente que os homens não sabem ser homens, que ainda não aprenderam a construir o mundo, a lutar pelas virtudes morais, a manter a sanidade da sua dignidade, logo ainda não aprenderam a ser predadores do Bem comum, mantendo-se predadores uns dos outros. 
Os contos de Valter Hugo Mãe são, pois, um presente agridoce: se, por um lado, nos comove a sua escrita enleante, se nos flecha o peito com histórias de fragilidade múltipla, por outro, bombardeia-nos com a culpa, com a consciência dos erros da Humanidade, com a certeza de que esses erros são de todos nós, convidando-nos a acertá-los, levando-nos a crescer como gente, a humanizar-nos.
Contos de cães e maus lobos ilustra exatamente vários erros que a Humanidade precisa de resolver. A passo e passo, apercebem-nos de que já ouvimos uma história semelhante, de que conhecemos alguém que sofre do mesmo problema, de que uma situação mereceu o nosso auxílio, mas que nada fizemos para o resolver. Subtilmente, por silêncios, mas mesmo abertamente, Valter Hugo Mãe julga-nos (um “nós” abrangente em que também se insere) e convida-nos à ação, à resolução desses erros. Procura, esperançadamente, aproximar as vivências terrenas a um bem-estar paradisíaco em que a felicidade reine entre todos. Tenta tirar-nos a venda dos olhos para que possamos despertar para os problemas universais que muitas vezes fingimos não ver. É um abre-te sésamo ideológico, um fiat lux moralizante, em que se acredita que os leitores renascem, depois da leitura destes textos, como leitores renovados, humanamente melhorados.
Estes contos são um farol que anuncia aos homens o caminho a trilhar em prol da salvação da sua humanidade, porque, após os lermos, não nos demarcamos do nosso quinhão de culpa e fica-nos a vontade de agir, numa urgência de melhoria do Homem e do Mundo. 
Neste livro, pulsa a vida, há futuro para a vida, há crença na Humanidade. Há a solução, o acerto para o(s) erro(s) do ser humano. Neste livro, há a esperança para o otimismo, a motivação para a ação, para o sonho de um mundo melhor, em que a Felicidade é a outra visão do mundo, pois as histórias nele guardadas são um incentivo à mudança, numa melhoria do ser-se humano. Consciencializando-nos para os erros, é possível solucioná-los, por forma a deixarmos às gerações vindouras um mundo mais edénico.
Qual progenitor de adultos, qual voz materna, protetora e ciosa do bem dos seus para o Bem maior, o contista intenta, perante os erros, esclarecer, orientar, para mobilizar, os seus filhos, os leitores, a edificarem, de forma esclarecida, um mundo outro, grandioso e magnífico, justo e virtuoso. Busca, em esperança e idealização, alcançar o humano, tocado pela celestialidade.
Valter Hugo: Mãe? Sim. No sentido em que é uma entidade criadora que permite à sua obra ganhar asas e ter a liberdade de percorrer o caminho traçado, um trilho (cri)ativo, baseado nos fundamentos matriciais que o fizeram desenvolver-se. Como obra de arte que é, o livro Contos de cães e maus lobos guarda na sua essência a vontade de um tempo de fazer a mudança…

*Inspirado no conto “O rapaz que habitava os livros”, de Valter Hugo Mãe  (in Contos de Cães e Maus Lobos)

Paulo Matos
O rapaz que vai habitando os livros
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