Arquipélago e Meridiano 28, de Joel Neto: revisita à essência dos Açores

 

Este mês recupero os textos que escrevi sobre dois livros do amigo Joel Neto. Quem não leu essas minhas considerações passa a conhecê-las; quem as leu, relembra-as. O que importa é que sejam a ignição da leitura ou releitura de Arquipélago e/ou de Meridiano 28. 
Voltar ao Joel que já visitei nunca é um arrependimento, porque ler os seus livros é ler os Açores e os mistérios que as ilhas encerram. Vamos lá, pois então!...

1. 
No dia em que a minha curiosidade de turista já habitante se preparava para descobrir mais uma lagoa corisca e a neblina não o permitiu, no dia em que por breves instantes essa névoa se desvaneceu e desvendou o lacustre espaço para logo se ensimesmar, nesse dia, repito, senti-me acolhido pelo nosso arquipélago. Posso crer no acaso, posso estar a falar de misticismo, podem ser apenas subjetividades. Mas esta é a minha verdade.
Assim também o é para José Artur Drumonde, protagonista de Arquipélago, o qual, em visita à ilha Terceira, onde nasceu, após 35 anos de continente, espera, sem consciência disso (?), regressar ao útero lávico a que sabe nunca ter pertencido. Afinal nunca sente os terramotos… 
José Artur vem à procura de si, da sua identidade, do seu propósito na vida, do seu lugar na vida da ilha. E, real ou imaginariamente, acaba por encontrar-se, acaba por (re)unir--se com gentes e lugares, acaba por pacificar-se com os demónios do passado, nem sempre estando ciente de que os do presente são o meio para chegar ao Paraíso. 
Partindo para uma investigação sobre a mística Atlântida, José Artur recolhe indícios vários de que o arquipélago dos Açores esconde verdades pré-lusas. Só que muito do que lê, vê e vive é-lhe oferecido de forma psiquicamente pouco clara ou contraditória. José Artur resolve o seu eu com o regresso à ilha. Ela permitiu-o. Mas não lhe deu espaço – nunca dá – para esclarecer todos os seus mistérios. Por mais que José Artur sinta uma dor constante no cotovelo (a humidade a penetrar nos ossos sempre que uma pequena grande verdade está prestes a revelar-se) e esse seja um indício de integração, os Açores são terra de bruma e, por isso, nunca se mostram na sua plenitude… 
Ao ler Arquipélago, é provável reconhecermos lugares e falares e uma cultura imensa (em toda a sua abrangência étnica, literária, folclórica, gastronómica…), é possível identificarmos pessoas e histórias, é até interessante conseguirmos suspeitar pormenores autobiográficos do autor, mas fica por dizer, fica sempre (e também nisso Joel Neto é mestre), a verdadeira essência da Terceira, e, por extensão, dos Açores, pois só quem cá vive, mesmo não tendo uma existência local ab ovo, compreende como este arquipélago dá tanto e em simultâneo suga essas dádivas. 
Atlântida ou Avalon, como se sugere neste livro magistral, importa perceber só isto mesmo: que os Açores vivem da magia e nos seus mistérios reside toda a sua força da gravidade.

2. 
Meridiano 28 só aparentemente remete o leitor para certezas. Ainda que o título do romance sugira precisão, o livro desorienta-nos, levando-nos para uma constante busca da verdade. O que é só às vezes o é. O que parece ser: não nos iludamos! Cada capítulo pisca velhacamente o olho ao leitor, fazendo-se cúmplice falsificado, pois que nos atormenta com expectativas defraudadas… 
Joel Neto engana conscientemente o leitor, porque engana constantemente o narrador da história primeira. E nesse “jogo de espiões” revela-nos uma fase quase desconhecida da história dos Açores e a sua erudição sobre música e literatura, sobre ciência e técnica, e diversos valores humanos a preservar.
Meridiano 28 é, de facto, os Açores e a sua história num contexto de guerra em que a proximidade afetiva quase suplantaram as divergências ideológicas, isto porque uma vivência comunitária sã unificou nacionalidades ou, se preferirmos, derrubou-as.
Meridiano 28 é o nosso arquipélago em toda a sua humanidade e em toda a universalidade da Humanidade.
Meridiano 28 desvenda um cântico de amizade e de amor, uma rede de ciúme e de vingança, uma aventura de descobertas e autoconhecimento, uma trama de recuperação de emoções perdidas, de desacertos (re)encontrados. 
Meridiano 28 devolve-nos o desvendar do crescimento interior – introspeção que já nos é habitual no percurso literário de Joel Neto –, uma narrativa que nos permite refletir sobre o que sentimos, sobre o que fazemos sentir e sobre o que deveríamos evitar levar os outros a sentir.
Meridano 28 oferece ao leitor a mestria de uma escrita apurada, impecavelmente maturada. Joel Neto cresce, encontra a sua linha estilística. 
Meridiano 28 encerra um tríptico dedicado aos Açores (em conjunto com Arquipélago e A Vida no Campo), que é como que um renovado descobrir da essência desta terra de lava, de campo e de mar, no que de mais íntimo, genuíno e mágico aí podemos encontrar.
Por tudo isto, enfim, Meridiano 28 comprova que Joel Neto continua a marcar pontos no panorama literário português. E como esse panorama fica enriquecido!!!...

 

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