The Highclere Castle: A verdadeira Downton Abbey

 

 

O castelo Highclere é actualmente famoso por ser o local da série dramática Downton Abbey que utilizou a propriedade como cenário, ao longo de seis temporadas e agora com o filme recentemente estreado. A fictícia família aristocrática inglesa, Crawley e os seus funcionários, são atingidos pela Primeira Grande Guerra e por todas as mudanças sociais e políticas que daí resultaram, desenrolando a série entre 1912 e 1926 (naufrágio do Titanic, Gripe Espanhola, independência feminina, dificuldades económicas dos proprietários aristocratas rurais, o preconceito entre classes, etc).  Nomes como Violet, a condessa viúva; Robert, o Conde de Grantham; Cora, a senhora da casa; Mary, Edit e Sybil, as filhas do casal; Matthew, o herdeiro do título; Carson, Hughes, O’Brien, Anna, Bates, Gwen, Thomas, William, Patmore, Daisy, entre outros, compõem as personagens principais da ficção: senhores e criados.
Por trás de toda a trama e personagens existe um verdadeiro cenário, com um verdadeiro castelo e com os verdadeiros condes. O castelo Highclere encontra-se a oeste da cidade de Londres em Inglaterra e é composto por uma área total de dois mil hectares. Nele habitam há cerca de trezentos anos os condes de Carnarvon, desde o reinado de Carlos II, no final do século XVIII. 
Os actuais condes George e Fiona Herbert herdaram o castelo e o título em 2001 e a partir daí iniciaram uma série de remodelações que só foram possíveis com a transformação da casa aristocrática de campo num negócio multifacetado. Produzem diversos cereais, inclusive para cavalos de corrida e possuem diversas explorações agrícolas. A propriedade possibilita a visita à área envolvente, jardins, lago e pequenas estruturas românticas, e ao próprio castelo, com actividades na área da restauração, hotelaria, caça e equitação, cultura e arte.
Nos tempos áureos o castelo Highclere funcionava com sessenta criados. As aves frequentemente componham refeições de doze pratos, efectuados por cozinheiros estrangeiros recrutados durante as viagens ao exterior. A ementa de um jantar social típico para uma festa de vinte pessoas custava o dobro do salário anual de uma criada, no entanto, as propriedades rurais eram recreios para os ricos e famosos. Em Dezembro de 1895 teve lugar a maior festa dada por Highclere aquando da presença do então príncipe de Gales. O jantar de doze pratos era composto por caviar, trufas, narceja, perdiz, ostras, codorniz, lagosta, carne prensada, frango, galantina e ananás. 
No passado a cozinha contava com cinco cozinheiras, uma criada de primeira, uma de segunda, uma de copa e uma criada de destilaria. Actualmente são apenas dois chefes a tempo inteiro.
Possui dezanove lareiras e trezentos e oitenta e seis janelas em apenas dois andares, e ainda quatro escadas principais. A limpeza torna-se uma tarefa interminável. Há cem anos os senhores que viviam no piso superior eram servidos por funcionários que trabalhavam no piso inferior. Mordomo, criados, valetes (camareiro), criado da libré (lacaio), jardineiros, porteiros e tratadores garantiam que o castelo funcionasse segundo um rigoroso código de conduta. As criadas limpavam durante as primeiras horas da manhã para não perturbarem a família enquanto dormia. Os criados não deveriam ser vistos nem ouvidos. A electricidade surgiu na residência durante o século XIX, quando só alguns a podiam pagar. Os novos aparelhos mostraram-se úteis para chamar os criados, como o quadro das campainhas. As criadas solteiras dormiam no alto da torre, que estava interdita a jovens lacaios, e actualmente aos visitantes e turistas.
A partir de 1890 o avô do actual conde assumiu o título. Rico em terras, mas pobre em dinheiro e com várias dívidas, optou por casar com Almina Wombwell, filha de um gigante da banca. Com o casamento as obrigações ficaram saldadas e ainda receberam em dote oitocentos mil dólares. Almina era apreciadora de jóias e de festas extravagantes, mas em Setembro de 1914 transformou o castelo em hospital para cuidar dos feridos de guerra e, trabalhou como enfermeira. Uma parte do castelo foi transformado em bloco operatório e acolheram centenas de homens. Almina não olhou a despesas para dar o conforto possível aos convalescidos, como jantares com baixelas de prata e serões na biblioteca. Nos arquivos do castelo existem cartas que demostram a gratidão dos soldados feridos e seus familiares.
Enquanto desfrutava das festas o marido de Almina preparava e financiava diversas viagens e escavações ao Egipto, culminando numa das descobertas mais importantes da arqueologia: o túmulo de Tutankamon. Tudo começou com a sua paixão por automóveis. Foi dos primeiros a importar automóveis na localidade, mas teve diversos acidentes. Como resultado a sua saúde tornou-se débil e foi aconselhado a procurar um clima ameno, que fugisse da húmida e fria Inglaterra. A partir daí começou a visitar o Egipto regularmente e ganhou a paixão pelas relíquias antigas. O conde usou a fortuna da esposa para financiar o arqueólogo Howard Carter na sua pesquisa no Vale dos Reis. Morreu quatro meses depois como consequência de uma mordida de um mosquito junto ao rio Nilo. Nos anos oitenta do século XX foram descobertos pequenos objectos egípcios no interior de algumas paredes da sala de fumo do castelo, como frascos de maquilhagem da rainha-faraó Hatshepsut. Nas caves do castelo estão réplicas do conteúdo do túmulo de Tutankamon, exposto pelo actual conde como um memorial ao bisavô. 
A área envolvente do castelo também foi alvo de remodelações. O jardineiro paisagista mais famoso do século XVIII em Londres, Lancelot Brown, arrasou os antigos jardins para dar lugar a uma paisagem rural. Criou, aos olhos da tradição britânica, edifícios ornamentais conhecidos como follys. Foram inspirados pelas ruínas greco-romanas vislumbradas durante a grande viagem pela Europa de um dos condes de Carnarvon na era de setecentos. A sul do castelo foi construído o “Portão do Céu” em 1737. Um templo com colunas apelidado de castelo Jackdaw foi construído em 1743. A noroeste, com vista para o lago Dunsmere, ao estilo romântico, o templo de Diana, e no fundo um pavilhão de caça de envergadura maior e apenas para contemplação. 
A estrada de 1,6 km até à casa é ladeada por mais de cinquenta cedros-do-líbano, plantados pelo primeiro conde Carnarvon e tílias cultivadas já no século XX. Apesar de ter perdido cerca de vinte por cento da sua área, a propriedade continua a ser utilizada para a prática da caça. A complementar o pessoal que cuida da casa há os que zelam pela propriedade. Esta tem sido uma zona de veados desde a época medieval, mas para proteger a vegetação o seu número tem de ser controlado. Na propriedade possuem três tipos de cervídeos: o Muntjac, o Corço e o Gamo. A propriedade conta também com inúmeros faisões para caça. As caçadas em Highclere, nos seus tempos áureos, duravam cerca de três dias com convidados especiais durante todo o inverno, como Eduardo VII enquanto príncipe de Gales em 1890.
Antes de Highclere ser um castelo com o aspecto actual, era uma casa de campo de grandes dimensões e de linhas neoclássicas, residência de bispos anglicanos. Em 1839 o arquitecto Charles Barry foi convidado, após ter desenhado as casas do parlamento em Londres. Ele remodelou Highclere com um estilo gótico revivalista. 
No interior as divisões mais visitadas correspondem ao cenário principal da série Downton Abbey como o grande hall, biblioteca, sala das senhoras e sala de jantar, mas o castelo conta com vários quartos e salas diversas. A grande escadaria remonta há cento e cinquenta anos. De carvalho maciço, num revivalismo gótico tardio, demorou um ano a ganhar forma. Grande parte é insubstituível, principalmente as coberturas da parede em couro espanhol de 1631. É ainda decorada por diversos brasões de armas desde o primeiro conde de Carnarvon até ao actual.
O argumentista de Downton Abbey, Julian Fellowes, é amigo da família e teve a propriedade em mente quando escreveu a série dramática, com um papel primordial para divisões como a elegante biblioteca. É o cenário de reuniões frequentes entre o conde Grantham fictício e o seu mordomo. Eles debatem a gestão da sua casa fictícia. Na verdade, a biblioteca foi utilizada no final do século XIX, pelo quarto conde de Carnarvon como quarto de retiro. Alguns dos livros da biblioteca são volumes do século XVI. A biblioteca compõe-se por duas grandes salas. Na primeira os estuques insinuam uma decoração rocaille com diversos elementos vegetalistas no tecto. Estantes de madeira entalhada de grandes dimensões ocupam lugares de destaque, que se compõem com a presença de cadeiras de braços em madeira entalhada e dourada, e ainda com seda adamascada vermelha. Pequenas mesinhas de apoio, ora circulares, ora rectangulares também marcam presença. Possui uma lareira de grandes dimensões coroada por uma pintura setecentista. Na segunda sala da biblioteca, a que surge em maior destaque na série, o tecto é igualmente composto por caixotões profusamente decorados. Possui também uma lareira de destaque e centralizada na divisão, ladeada por estantes de grandes dimensões. A sua entrada é antecipada por colunas e pilares emolduradas por pequenos capiteis, que fazem a separação entre as duas salas. Marcam presença escrevaninhas e sofás encarnados, tal como a secretária de Napoleão de 1795.
A casa possui um enorme álbum de família através das diversas pinturas. Muitos deles decoram as salas de jantar e de estar com especial destaque para o quadro principal na sala de jantar que corresponde ao rei Carlos I numa pintura equestre de Van Dayck. Por todo o castelo é possível encontrar diversos relógios, cerca de trinta e sete, ora de parede, caixa alta e ainda de mesa, alguns pertencentes a uma garniture. Uma das salas de destaque reservadas a quem os visita é a sala de fumo. Sendo uma tradição das casas senhoriais europeias, a partir do século XVIII, e inglesa em particular, esta divisão era considerada exclusivamente masculina, para fumar, jogar e conversar longe das senhoras. Estas retiravam-se para o esplendor mais feminino do salão. Ainda hoje, continua a ser uma das divisões preferidas da família. Actualmente é utilizada pela família para tomar aperitivos antes do jantar. O salão mudou pouco ao longo dos anos. Esta e outras divisões são talvez as verdadeiras estrelas da série Downton Abbey. Destacam-se as portas ao estilo rococó decoradas com diversos instrumentos musicais como violino, harpa, oboé barroco, flauta de pico, trompeta, alaúde barroco e partituras. Toda a decoração das portas é composta por elementos rocaille em dourado e branco. É possível que tenha sido concebida como sala da música. A parede é de seda adamascada verde tal como as cortinas.
Muito do mobiliário, decoração e quadros da casa foram passados entre gerações como heranças de família. Assim é possível contemplar diversas artes decorativas, quer inseridas no próprio edifício, quer móveis, como por exemplo prataria (salvas, talheres, galheteiros, paliteiros, saleiro, etc); tapeçaria persa; móveis (contadores, credências, secretárias, mesinhas de apoio, consolas, sofás, mesas de centro, chaise longue, aparadores, cadeiras; instrumentos musicais como piano; cerâmica (terrinas, jarros, vasas); cristais (copos, taças); candeeiros; castiçais; lustres; seda adamascada vermelha e verde quer nas paredes, quer em cortinas.
Para além da trama o espectador tem a possibilidade de vislumbrar a arquitectura inglesa, a história do traje, os relacionamentos entre classes e respectiva hierarquia, pois a série demonstra o modus vivendi, ou seja, a maneira de viver, de especial interesse para quem se dedica ao estudo da antropologia histórica e social. A série é ainda um verdadeiro deleite para quem estuda as artes decorativas.

 

 

Para mais informações note-se “Historic Houses: The Splendors of Highclere Castle” de Elizabeth Dickson; “Highclere Bishops Palace” de Philip Davis; “Highclere Park” em Historic England e ainda o site oficial do castelo: https://www.highclerecastle.co.uk


 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa


       

 

 

 

 

A relação com a água consumível nos Açores foi sempre de dependência e consequentemente, de índole prioritária e essencial, no entanto, a sua organização espacial e temporal, tal como o acesso a estes recursos hídricos, foi muitas vezes marcada pela desigualdade.

 

 

No arquipélago açoriano estas edificações surgem em três categorias distintas: como conjunto de fontanário e bebedouro; como um pequeno chafariz ou como lavatórios públicos, popularmente designados por pias. Estas estruturas para além do abastecimento de água, quer para consumo da família, da casa ou dos animais, desempenharam um importante papel social, como ponto de encontro e de confraternização entre gerações.

Era frequente existir uma grande azáfama, entre as mulheres que lavavam a roupa, e as que esperavam pela sua vez. Ainda de longe era possível ouvir as suas vozes em tom de zanga e os risos barulhentos, ou ainda entoando modinhas e fados que o convívio inevitável provocava.

Noutras ocasiões os camponeses sem trabalho, aguardavam pela chegada de algum proprietário de terras de cultivo que precisasse dos serviços de um camponês, e ainda era local de descanso, refresco quer dos homens, quer dos animais e local propício ao namoro, pois o transporte da água era feito principalmente pelas mulheres em recipientes de cerâmica e de barro.

A maior parte da população açoriana não dispunha de água nas residências. Isto obrigava a que recorressem aos fontanários que, embora já construídos no séc. XVI, só ganharam maior relevância na segunda metade de oitocentos.

 

No século XX a água era controlada pelo “agueiro”, responsável por abrir e fechar as fontes. No verão altura em que a água era mais escassa, as fontes abriam apenas de madrugada, sendo frequente as pessoas saírem de casa pelas 03:00 horas da manhã munidas de talhas, potes e vasilhas. A partir de meados da centúria as câmaras municipais foram instalando redes de abastecimento público o que levou ao progressivo abandono destas estruturas.

Algumas construções apresentavam caraterísticas mais singelas do que outras, sendo frequente o uso da alvenaria, por vezes caiada, de cantaria, com formas retangulares ou em arco, quer de volta perfeita, quer quebrado e ainda pequenos gradeamentos.

A grande maioria foi demolida ou adulterada nos últimos anos: ora para dar lugar a novas funcionalidades, como parques de estacionamento, coretos ou à aplicação de azulejos e pedra de lavoura pelas autarquias, isto quando escapa aos visuais das habitações em que estão incorporados. Muitas foram vítimas da falta de conhecimento e sensibilidade para a preservação e conservação deste património, por parte dos privados e das entidades autárquicas locais.

A propósito do dia 1 de outubro, dia Nacional da Água, a memória associada a estes locais de arquitetura utilitária, está muito perto de ser perdida. Ora porque as pequenas recordações a esse respeito, permanecem apenas na lembrança dos mais velhos, ora pela ausência de identificação, classificação e respetiva salvaguarda.

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

 

1Raposo, C. M. S. (2016) – Arrifes: Urbanismo e Património Construído, Master Thesis, Repositório da Universidade dos Açores, Ponta Delgada, Universidade dos Açores.