Romarias Quaresmais

 

 

As origens das romarias quaresmais são frequentemente atribuídas às crises sísmicas que ocorreram a partir de 1522 e constituem-se numa peregrinação religiosa que, em vez de se dirigir a um templo ou lugar santo, ocorre ao redor da ilha de São Miguel, por entre atalhos e/ou caminhos principais.
Frei Agostinho de Monte Alverne elucida-nos da ocorrência de uma erupção vulcânica no vale das Furnas, concelho da Povoação em 1630 na sua obra “Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores” e que, como forma de penitência e de apelo por proteção divina, os habitantes da ilha percorreram a pé as casas de Nossa Senhora de noite e dia.
Alguns relatos dos cronistas das ilhas açorianas, como Frei Diogo das Chagas, Padre António Cordeiro, Gaspar Frutuoso e Monte Alverne, indicam que estas peregrinações eram realizadas tanto por casais, como por famílias. Realidade que foi, inclusive, retratada em uma das obras do pintor Domingos Rebelo (1891-1975), de considerável renome nos Açores e em Portugal. A proibição da incorporação feminina surgiu em 1707 por parte da hierarquia eclesiástica, juntamente com a extinção de bailes e instrumentos musicais, após a visita à paróquia de Nossa Senhora do Rosário da Lagoa, pois o visitante afirmou que estas práticas eram indecentes e indecorosas. Foi mais além ao apelar ao “poder masculino” dos maridos, pais, irmãos e tios a fim de impedirem a presença feminina. Em 1743 as romarias foram proibidas completamente pela hierarquia eclesiástica, mas já o haviam sido desde 1705, ordem esta ignorada pelo povo, tomando esta devoção um cariz autónomo e popular.

Actualmente os romeiros param nas igrejas e ermidas das várias freguesias da ilha, mas nos seus primórdios apenas frequentavam os templos marianos sob a designação de “visita às casinhas ou capelinhas de Nossa Senhora”. Neste ritual religioso encontramos determinadas particularidades como a permanência ao longo dos séculos, o traje do romeiro, a alimentação, a confraternização e a devoção à fé católica.
A Quaresma é o período anual eleito para a manifestação, em contrapartida à época caracterizada pelo entrudo, ou carnaval, onde a festa popular é composta por excessos em todos os campos da vida humana, individual e colectiva. A quarta-feira de cinzas marca o início de um tempo de penitência, jejum, abstinência, reflexão e oracção, onde os entes falecidos também eram relembrados, até pelo menos ao século XX, e todo o período era vivido com um espírito de disciplina, dentro dos ideais cristãos e católicos fortemente seguidos pelos açorianos.
A cada semana da Quaresma partem em romaria diversos ranchos de várias freguesias da ilha e frequentemente das comunidades de emigrantes açorianos como do Canadá, Estados Unidos e Bermuda.
Os protagonistas do nosso tempo são homens entre os dez e oitenta anos aproximadamente, organizados em ranchos que variam entre os trinta e setenta elementos, podendo alguns ultrapassar estes valores.
A partida ocorre geralmente na madrugada de sábado após a celebração da eucaristia na paróquia de residência. Aqui tem lugar a despedida do romeiro e do seu núcleo familiar.
O traje do romeiro é composto por um lenço ao pescoço, um xaile pelos ombros, um terço e um bordão nas mãos, uma cevadeira às costas e roupa e calçado confortável. O lenço pode ser também amarrado quando colocado à cabeça. Na cevadeira – saco de pano – são transportados alguns alimentos e uma muda de roupa. O xaile e o lenço adquiriram um padrão típico nas últimas décadas, mas no passado utilizavam o melhor que tinham em casa, geralmente das suas mães ou irmãs.
O rancho segue pelas estradas da ilha em duas filas indianas. Ao meio, o primeiro da frente é o elemento mais jovem. Cabe-lhe carregar a cruz de Cristo de tamanho considerável. O grupo compõe-se hierarquicamente pelo “mestre”, “contra-mestre”, “guias”, “ajudantes” um ou dois “romeiros-dispenseiros”, o “alembrador das almas”, o “procurador das almas” e os restantes romeiros, que se tratam entre si e às restantes pessoas com que se cruzam por “irmão” ou “irmã”. 
O “mestre” é o líder da romaria. Assumia a grande responsabilidade de mantê-la em ordem, autorizando ou negando o que lhe era solicitado pelo rancho e por quem os restantes romeiros detinham uma obediência total. Hoje a sua função é de cariz logístico e espiritual, essencialmente, quer através da orientação, do conselho ou da motivação, sendo responsável pela condução ao bom sucesso, através da caridade e justiça
para com todos os irmãos. Conserva a paz, a harmonia, o respeito e a disciplina, cabendo-lhe igualmente estar atento à saúde dos romeiros e gerir o horário diário para que o cumpram rigorosamente. É o mestre também que regula a marcha, determina as interrupções para descanso, necessidades fisiológicas e refeições. Sempre que possível realiza uma leitura bíblica e meditação ao iniciar o novo dia. Designa também o irmão que fará a oração em cada templo (oração da manhã, da noite e das refeições). Assume responsabilidades que implicam a segurança rodoviária do rancho, de data a efectuar a peregrinação, a distribuição das pernoitas, a definição do itinerário, entre outros. Por fim a tradição do rito e a exclusão de modificações ou alterações está sob a sua alçada.
De forma geral, o “contra-mestre” toma o lugar do mestre sempre que solicitado; os “guias” são responsáveis pela condução do percurso tradicionalmente estabelecido; e os “ajudantes” colaboram com o mestre nas orações, refeições e improvisos.
Os “romeiros-dispenseiros” são os encarregues da alimentação do rancho e são igualmente os únicos que podem abandonar provisoriamente o grupo para adquirirem mantimentos, no entanto, a alimentação do romeiro é muito simples, baseando-se em uma sopa, pão ou bolo lêvedo, podendo incluir alguma refeição quente esporadicamente. A prioridade é dada à água.

Verificou-se ainda o consumo de bebidas gaseificadas e de uma refeição quente composta essencialmente por feijão e carne de porco, aquando de uma paragem no Miradouro da Ponta do Sossego. A cruz foi colocada sobre a mesa e alguns romeiros alimentaram-se sentados à mesma, enquanto outros preferiram degustar a refeição isolados ou em contemplação do mar e das árvores em redor.
O “alembrador das almas” e o “procurador das almas” são os encarregados de recolher as intenções de oracção junto dos irmãos que os procuram na via ou que os interpelem nos templos. Quando obtém um terço completo de orações solicitadas, o mestre é informado, e em uma zona privada o terço é rezado. As intenções dizem respeito à vida privada dos micaelenses, geralmente por situações graves, e estes também são igualmente responsáveis pelas orações especiais, como por exemplo ao passar pelos cemitérios.
A “Avé-Maria dos Romeiros” é um cântico característico destas romarias, construído a partir da oração da Avé-Maria. É cantado em coro e da qual Bettencourt da Câmara, citado por João Leal, afirma ter influências do cantochão combinado com elementos de natureza popular. Mais conhecido por canto gregoriano, é um cântico tradicional da igreja católica que consiste em uma única melodia de textura monofónica composto sobre textos litúrgicos latinos e de origem judaica.
A “Avé-Maria dos Romeiros” ocorre em responsorial, onde o solista intercala com o coro. Outros cânticos podem ser cantados em directo, ou seja, sem alternância entre o solista e o coro. O terço também é rezado principalmente quando o rancho caminha por entre “escampados”, que são zonas de difícil movimentação e expostas às intempéries.
Durante as romarias quaresmais é frequente a aproximação de cidadãos a fim de perguntarem o número de romeiros. A resposta indicada contempla os elementos do rancho e a Santíssima Trindade a fim de orarem por uma boa caminhada.
É habitual que os últimos romeiros utilizem faixas de material fluorescente, permitindo a sua fácil identificação, dado que nas últimas décadas, uma das principais preocupações é evitar os acidentes de viação. O micaelense parte em romaria motivado pela fé em Deus e pela religião Católica Romana.
Em tempos cumpriam as promessas de outrem, ou seja, agradeciam de forma física por uma graça recebida pela família e que geralmente era prometida pela mãe ou pai do romeiro. Situações de doença eram frequentes, mas também desfortúnios associados à história das ilhas e do país, como por exemplo a Guerra Colonial Portuguesa ou a pretensão de incorporar as várias vagas de emigração para o Canadá, Bermuda e Estados Unidos da América em busca de melhores condições de vida.
Nas últimas décadas os romeiros procuram um encontro espiritual consigo, com Deus e com a natureza. O objectivo principal é a evolução como seres humanos de forma a serem “(…) um pouco melhores, melhores pais, melhores maridos, melhores
amigos”. O romeiro é, portanto, um homem que acredita profundamente em Deus e que incorpora a romaria com o intuito de elevar o seu espírito e tornar-se melhor cidadão.
Não raras vezes o romeiro repete anualmente este ritual, que aliás é incentivado e transmitido de geração em geração. As crianças da ilha crescem com esta tradição, ouvindo sobre o assunto. Algumas escolas elaboram exposições temáticas e recriam o rito. Como resultado incorporam os ranchos de romeiros crianças e adolescentes de várias idades motivadas muitas vezes pela curiosidade.

Uma das características fundamentais deste ritual é o isolamento da sociedade. Este afastamento ocorre para com o núcleo familiar principal, composto por filhos, pais e esposas, e para com as tarefas do dia-a-dia, como emprego e relações com colegas e patrão. É frequente as esposas comentarem a ausência dos maridos com grandes lamentações e em resposta recebem frases do gênero: “Levas o ano todo que não vês o teu homem e basta ele estar uma semana fora para estares com saudades. Deixa-o, mas é estar na romaria.” 
O romeiro em momento algum pode abandonar o rancho, cumprimentar ou visitar familiares e amigos ao longo do percurso. Também não pode fumar, comer ou usar telefone móvel enquanto o rancho está em andamento.
A oracção e a penitência são factores que especializam este ritual. Todo o percurso em redor da ilha, no sentido dos ponteiros do relógio, é feito a rezar, a meditar e a cantar.
O itinerário contempla os seis conselhos da ilha de São Miguel e cerca de cem templos católicos. Com uma configuração circular e predominantemente realizada pelo litoral atinge uma extensão aproximada de 200 km. O silêncio também é valorizado e considerado fundamental na aproximação para com Deus e com a natureza de modo a alcançar a conversão.

Romeiro: “Seja bendita e louvada a Sagrada Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo”
Rancho: “Seja para sempre louvado com Sua e Nossa Mãe, Maria Santíssima”
Romeiro: “Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre. Amém”

A caminhada é revestida de um sentido penitencial, primeiro pelas características geomorfológicas da ilha onde marcam presença vales, montes, picos, ribeiras, entre outros. Em segundo lugar, pela ausência de electricidade que só surgiu na ilha a partir de 1900, propagando-se de forma lenta e culminando a sua electrificação total nos anos 1970 do século XX. Uma das formas de amenizar as circunstâncias era através de atalhos e canadas, mas continuavam à mercê do clima chuvoso, da humidade elevada e de temperaturas relativamente baixas.
Muitas vezes os romeiros realizavam o percurso descalços, traduzindo a miséria e a pobreza da região, e alguns cumpriam o ritual a pão e água intensificando ao máximo a penitência a fim de espiar os seus pecados e os alheios. Actualmente não se realiza o ritual descalço, mas alguns permanecem a pão e água por promessa individual, no entanto, o ritmo diário do percurso continua rígido e meticulosamente controlado, iniciando-se com o despertar pelas 02h30 da madrugada e com o andamento pelas 04h00. Em média caminham diariamente cerca de quinze horas, chegando à pernoita pelas 19h00.
A dureza da penitência torna-se evidente ao longo do passar das horas com vários tipos de sequelas (bolhas e calos nos pés, dores musculares, etc.) e cansaço geral. Nas paragens autorizadas pelo mestre os romeiros aproveitam para cuidar das feridas ou para receberem massagens com pomadas. Sentam-se ou deitam-se nos passeios a repousar. Este momento termina com o tocar de uma pequena sineta.
Outra grande característica deste ritual prende-se com a relação que os romeiros possuem entre si. A fraternidade exterioriza-se não só por se tratarem por “irmãos”, mas por se relacionarem como tal. Saúdam-se habitualmente com um abraço. Definem-se como membros de uma mesma família, onde praticam a camaradagem e a solidariedade. Num encontro entre ranchos é possível visualizar os romeiros cumprimentarem-se envolvendo cada um a sua mão direita e beijando a do irmão, quando o rancho local lhes cede instalações para repousarem, por exemplo.
A harmonia é de tal ordem importante que em caso de diferenças entre romeiros se deve promover um pequeno ritual de reconciliação, num local apropriado, escolhido pelo mestre onde tocará a pequena sineta. Aqui os incompatibilizados são convidados a abraçarem-se. O mestre ainda poderá determinar que caminhem lado-a-lado durante a romaria e a pernoitarem juntos a fim de incentivar a renovação da amizade entre eles.
Quando se deparam com uma igreja, ermida ou capela é realizada uma paragem com oração, mesmo que o templo se encontre fechado. Nos que se encontram abertos entram, pedindo licença ao patrono ou à padroeira do templo. À porta deixam os seus bordões, quer no chão, quer encostados à parede. Em caso de ocorrer uma eucaristia a oração ocorre à porta e em voz baixa sem perturbar o culto. Por se realizar na Quaresma é frequente os romeiros encontrarem o Santíssimo exposto. Assim efectuam orações e preces, geralmente ajoelhados e sob o intermédio da Virgem Maria.

A pernoita consiste na distribuição dos romeiros em residências ou locais de acolhimento onde jantam, tomam banho e dormem. No passado a pernoita podia ser mais um acto de penitência pelas deficientes condições, onde frequentemente dormiam nos bancos de madeira das igrejas. Por mais pobre que fosse uma família, ao acolher um romeiro, apresentava-lhe a melhor comida que possuía e a melhor cama. Era frequente as senhoras secarem as roupas dos romeiros junto ao forno de lenha, a fim de serem utilizadas no dia seguinte. Apesar da oferta algumas penitências eram acentuadas com a recusa de tomar banho, de fazer a barba ou a preferência por dormirem no chão. Hoje a maior parte é acolhida pelas casas das freguesias por onde passam ou em casos extremos as juntas de freguesia providenciam espaços como salões comunitários ou polivalentes escolares para o efeito. Não raras vezes foram acolhidos pelo Regimento de Guarnição n.º 2, na freguesia de Arrifes em Ponta Delgada.
A chegada ocorre geralmente no Domingo de manhã, à hora da eucaristia habitual. Aqui são aguardados pelas famílias onde após a missa se dá um reencontro caloroso onde termina a romaria.

Para mais informações consulte-se o “Regulamento do Movimento Romeiro de São Miguel”; “As festas do Espírito Santo nos Açores– um estudo de Antropologia Social” de João Leal; “Romeiros de S. Miguel: entre a tradição e inovação. Da oralidade ao texto escrito” de Carmen Ponte.

Um especial agradecimento ao Sr. Gil Silva.

 

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

 

Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade
 dos Açores/ SIAA/creusamsr@gmail.com