Crónica às pinguinhas

 

PINGUINHA Nº 1 – Tenho tido este problema, nas últimas quinzenas: esqueço-me da data da entrega da crónica para o jornal. Acabo por andar a correr (bem, tenho que decidir: ou corro ou ando?) para conseguir satisfazer o calendário do senhor Diretor. E até isso nem é prova que tenho uma vida muito ocupada, é simplesmente um descuido indesculpável (!). Talvez seja altura para usar a desculpa que me ensinou o Miguel, o meu sobrinho mais velho, quando tentou safar-se de um compromisso, que até nem era assim tão importante: “Ó tio, não foi por me ter esquecido; foi só porque nunca mais me lembrei!”
Vou, então, tentar salvar a honra do convento e alinhavar uma crónica às pinguinhas, como já fiz antes em situações de aperto. OK, meter as palavras aperto e pinguinhas na mesma frase talvez não seja uma grande ideia, para mais para um velhote como eu já sou. Vamos a ver se consigo chegar ao fim sem meter muita água.

PINGUINHA Nº 2 – Não sou muito de ligar a estas coisas. Quando, ainda bem cedinho, abri o computador, apanhei com uma chuva de “posts” e comentários no Facebook acerca do Dia Internacional da Mulher. Todos os meus amigos faceboqueiros dedicaram umas palavras ou uns bonitos memes – estas coisas modernas que substituíram os cartões de saudações – a todas as mulheres do Mundo ou, mais especificamente, às suas mães, esposas ou namoradas. Eu não o fiz, pela simples razão que entendo que o Dia das Mulheres, assim como o Dia das Mães, o dos Pais ou dos Avós, devem ser comemorados todos os dias. Neste caso concreto das Mulheres, eu fui extremamente afortunado com a presença de senhoras – avós, tias, sogra, irmãs, cunhadas, sobrinhas, etc. – que me ajudaram a criar, a crescer e a ser a pessoa que sou hoje. E continuo a estar rodeado por filhas e netas que me enchem o coração de alegria e de felicidade. Quanto à companheira e amiga que já namoro há cinquenta anos, pois para essa nem tenho palavras...
O que me entristeceu mais neste DIM é que hoje completam-se 22 anos que faleceu a minha Mãe e, nesse dia nem tive a oportunidade de lhe dar um beijo de despedida.

PINGUINHA Nº 3 – Ia começar por perguntar quando é que se comemora o Dia Internacional do Homem, mas vai ser melhor mudar de assunto... e de pingos. Poderei escrever duas palavras sobre os respingos de chuva, que tardam em aparecer, ou sobre os pingos das vacinas contra o Coronavírus, que, segundo parece, se estão a espalhar muito melhor por todo o país. Ainda há gentinha que inventa desculpas para não se deixar picar com as agulhas das milagrosas seringas e isso, claro, é uma opção pessoal que não compreendo mas que tento respeitar, porque acredito que cada um deve fazer com a sua vida o que bem lhe apetece, logo que não prejudique as liberdades dos outros ou cause problemas à sociedade. Só que, quase que apetece dizer-lhes que, se tiverem o azar de serem infetados com o vírus, então não recorram aos cuidados dos hospitais, nem se queixem da sua sorte.

PINGUINHA Nº 4 – Aqui a ver, aos saltinhos, o jogo entre o Benfica, a equipa do meu irmão Jorge, e o Belenenses, que era a favorita do meu pai. Os dois, lá para os lados do Paraíso, não devem estar muito contentes com o desempenho das suas equipas, pelo menos até esta altura do campeonato. Pode ser que o Jorge consiga meter uma cunha ao Chefe lá de cima para que o homónimo treinador ponha os vermelhos a jogar melhor e, penso que, por outro lado, o meu pai vai interceder de maneira que os azuis, que carregam a Cruz de Cristo ao peito, ponham os adversários ainda em mais difícil situação. Desculpem, apeteceu-me apenas fazer esta pequena referência aos meus dois amigos, o futebol às vezes traz-me estas gotas de saudades, logo hoje que faz dois meses que o Jorge nos deixou e não viu mais jogos do seu Benfica.

PINGUINHA Nº 5 – Estas migalhas que escrevi nas quatro notas anteriores e nas quais anotei a falta que me fazem os três familiares já falecidos, fizeram-me recordar uma conversa que ouvi há poucos dias, integrada na conferência “Correntes de Escrita”, que se realizam na Póvoa do Varzim e que este ano, por razões óbvias, funcionaram via Zoom. Os quatro intervenientes discutiam, entre outros temas, o conceito de Imortalidade, se valeria a pena ou não ser-se imortal. Enquanto um deles citava um escritor falecido no ano passado vítima de Covid 19, que dizia que seria insuportável para ele ser imortal, outro argumentava que não queria a imortalidade, mas também não queria morrer! Infelizmente não nos é permitido ter uma opção nesse campo, não ficamos cá para semente. Se temos que deixar semente, tem que ser antes de batermos as botas e, mesmo assim, enquanto não se nos sequem... as azeitonas.

PINGUINHA Nº 6 – Quem tem a paciência para ler as coisinhas que escrevo, já deve estar farto de me ver mencionar o meu “Diário da Epidemia”. Estou a pensar, já que nestes laivos de prosa eu escrevi umas frases sobre vacinas e sobre o Coronavírus, vou é aproveitar para incluir esta crónica no dito Diário. Será, quiçá, uma das últimas da coleção, assim o permita o atual andamento da epidemia. Se as coisas continuarem a melhorar, não faz sentido prosseguir com o “Diário”. Ninguém pode prever o futuro, apenas podemos usar os ensinamentos do passado para, no presente, tentarmos estabelecer pontes para o futuro. Aliás, esse foi também um dos assuntos discutidos pelos intelectuais que mencionei na pinguinha nº 5, a atriz e escritora brasileira do painel exprimiu a ideia que a Pandemia estava a roubar a juventude aos nossos filhos e netos, a priva-los dos contatos com amigos, a dificultar os seus progressos escolares. É uma opinião discutível, outras cabeças poderão dar outras sentenças. Mas que dá que pensar, lá isso dá.

Pronto, melhor ficar por aqui. Já naveguei, nestas duas páginas de texto, por diferentes temas e, ao fim e ao cabo, não disse muito. Não é fácil interligar Dias Mundiais disto e daquilo, futebol, vacinas e conferências culturais, meter tudo na mesma crónica e sair algo que jeito tenha. E, se por acaso ficou alguma coisa atrás, não foi porque me esqueci, foi só porque não me lembrei. 
Já está quase na hora do jantar, a PINGUINHA Nº 7,  um bom tinto californiano, vai estar em cima da mesa, para me ajudar na leitura final. Será a ela (à nº 7) que atribuirei a culpa das falhas e dos erros desta crónica. Que seja à vossa saúde!