A Burra “Espanhola” e as amizades perdidas

 

Foi assim, quase sem me aperceber... Estava em frente do computador, sem missão especifica para cumprir, quando me apareceu no ecrã o anúncio de um dos programas que Vasco Pernes e Rui Machado produzem para a RTP Açores, o muito interessante “Histórias da Terra e da Gente”
Tento ver todos os programas, até já tive uma amiga na Graciosa que me alertava quando um novo aparecia ao público. Eu não tenho a programação da RTP Açores no meu sistema de cabo, de forma que recorro ao Facebook para me atualizar. Aprendo muito com as conversas que o Vasco “Pernas” nos apresenta – foi assim que o corretor automático do computador insistiu que eu escrevesse. Alguns dos entrevistados são pessoas que eu conheço ou já ouvi falar; contudo, a grande maioria acaba por se me revelar como se eu também já as conhecesse há muitos anos, gente simples, trabalhadora e, sobretudo, culta. Exemplos reais de que não é um monte de anos de Universidade que ensina boas maneiras, éticas de trabalho ou ajuda no desenvolvimento das capacidades mentais. Sintomático que, desta vez, não só se falava de gente especial, mas também... de burros! 
Já escrevi várias crónicas em que os burros foram a personagem principal. Numa delas, trouxe a terreiro a “Burra Velha” do meu avô “Rato”, da Graciosa, uma matreira velhota que aliava a teimosia própria dos da sua raça com a dedicação ao dono e ao trabalho. Foi a tal que, numa tarde de vindima, ali para os lados do Calhau Miúdo, me tirou debaixo da cabeça uma saca com pão de milho, que me servia de almofada quando eu dormia uma soneca provocada por um copinho de vinho. Ela comeu o pão todo e eu nem dei por nada! Noutra crónica contei as minhas desventuras com o burro do Tio Carlos, esse sim um jumento malino e sem nome, que me fez passar vergonhas por ser o menino da cidade que nem foi capaz de levar duas vacas ao seu destino. Esse filho da mãe deve estar lá no Inferno dos burros ainda a rir-se de mim.
Ora bem, depois de ver o programa que referi acima, pensei em dedicar uma crónica à burra “Espanhola”. Esta é espanhola de nascença e de nome. Nasceu no norte do país vizinho e agora, ainda longe dos anos de velhice, goza de uma reforma tranquila, à conta do seu dedicado dono. A “Espanhola”, se pudesse falar, diria que lhe saiu a sorte grande, não são todos os burros que se podem gabar de viver na calma da Prainha, a pastar e a pasmar com o azul do mar como pano de fundo. Nem sequer se incomoda com o grande soutien preto que lhe cobre os olhos quando anda à roda da atafona, peça de vestuário que foi a melhor adaptação que o dono arranjou, já que talvez ninguém saiba fazer uns antolhos como os de antigamente.
A “Espanhola” não vai ficar ofendida se souber que eu a usei apenas como pretexto para dedicar umas linhas ao Jorge Quaresma, o picaroto que a recebeu como oferta do seu filho veterinário. Senti-me deveras contente quando o vi à conversa com o senhor Pernes e fiquei a saber muito do percurso de vida de uma pessoa que tive a oportunidade de conhecer embora de forma breve e durante pouco tempo, quando ainda éramos jovens sonhadores, de repente bafejados pelos novos ares de Liberdade espalhados pelo 25 de Abril. O Quaresma correu meio mundo, viveu em Timor, onde lhe nasceu um filho e onde criou amizades que não esquecerá e dedicou uma vida inteira ao ensino e a outras causas sociais. Diz ele que “Se há uma missão a cumprir, eu não viro as costas”. É assim que me lembro dele, empenhado e pronto a ajudar. Agora reformado, mantem-se jovem de físico e de espírito, excelente contador de histórias e cuidadoso cultivador de frutas e de animais. 
Ao fim e ao cabo, ao recordar o Quaresma lembrei-me de algumas outras pessoas e cheguei à conclusão que a minha imigração fez com que perdesse o contacto com muitos amigos, pessoas com quem eu gostaria de ter convivido mais. As novas tecnologias permitem agora uma aproximação virtual que não é a mesma coisa do que o degustar de um almoço ou de uma patuscada de perdizes na adega do Quaresma, por exemplo. Tantas conversas que ficaram mudas, quantos abraços ficaram suspensos, muitas alegrias e algumas tristezas que não partilhámos, gargalhadas que se perderam no tempo. 
Por outro lado, pensei também nas amizades – poucas, felizmente – que perdi por pura burrice. Que me perdoem a “Espanhola” e a “Burra Velha”, que representam uma raça que é muito inteligente, não merecedora da má fama que lhe é atribuída e que carregam com maior sofrimento do que lhes causam as cargas que lhes põem por cima do lombo. Sem me querer livrar de responsabilidades, já vi algumas amizades desfeitas por teimosias estúpidas e sem razão de existir. Somos assim, os humanos. Por vezes não sabemos dar o valor à amizade e estragamos anos de bom relacionamento por causa de coisas e ideias tolas, de diferenças de índole política ou religiosa ou por mesquinhas rivalidades clubistas. Bem-bom que, por aquilo que eu sei, os burros (os reais) não gostam de futebol nem pertencem a partidos políticos.

Quem sabe se, nos próximos episódios do “Histórias da Terra e da Gente” vou descobrir outras terras e outros “Quaresmas” que a imigração fez desviar do meu caminho e da minha vida. Espero que o programa continue a ter pernas (e Pernes) para andar, de terra em terra, em busca das histórias das gentes que são a minha gente.