A voz que (não) dói

 

 

Um dia destes, aqui a passar os olhos pela rede social que mais uso, dei por mim a ouvir um fado. Isso não seria nada de especial se, de facto, eu fosse um incondicional amante da canção nacional. Para falar verdade, é um género musical que não me cai bem no goto, mas mesmo assim ainda ouço melhor um fado do que ouço música country americana.
Já tinha ouvido o fado que me apareceu à frente noutras alturas mas, desta vez, eu até repeti a audição e agucei as orelhinhas (a minha mulher costuma dizer que eu tenho as orelhas pequeninas mas eu desconfio que ela diz isso só porque eu sou seletivo naquilo que me convém ouvir...) e prestei bem atenção à interpretação que a fadista Maria da Fé deu ao poema “Até Que A Voz Me Doa”, escrito por José L. Gordo e musicado por Fontes Rocha. De facto, uma pessoa sente ressoar bem no peito a sonoridade da voz quente e forte da cantadeira e ficamos mesmo convencidos que ela cantará Como a ave que tão alto voa/E é livre de cantar em qualquer lado. Como disse acima, não percebo muito deste negócio de fados mas este enche-me as medidas, acho que a combinação entre a maravilhosa melodia, o magnifico e significativo poema e, principalmente, a interpretação e a voz da senhora Maria Da Fé, fazem deste um monumento ao Fado.
Já vai para uns meses grandes, talvez coisa de três anos, que eu também usei algumas vezes a frase/mote do poema. Em postes no Facebook e até em pelo menos num artigo que publiquei nos jornais comunitários, encimei o que escrevi a explicar o que me ia pela cabeça com o título “Até que a voz me doa”. Roubei a frase sem saber a quem a estava a roubar - que me desculpe o Sr. Gordo -, apenas estava a repetir uma frase que devo ter ouvido antes mas sem a associar a um fado famoso. Mas usei-a consciente do que estava a tentar exprimir: eu queria dizer que havia assuntos que me atormentavam e que não me calaria, que tinha que dizer o que me ia na alma. 
A minha revolta centrava-se, nessa altura, nas eleições que elegeram o atual presidente dos Estados Unidos. E, nos tempos seguintes, fui gritando (sem ter dores na voz, se tal coisa é possível) a minha contestação e o meu desagrado contra as manobras e as políticas do DDT, o Desvairado Donald Trump. Cheguei mesmo a explicar porque lhe pus a alcunha de DDT: tal como o pó que inicialmente se julgava ser um remédio milagroso que iria salvar a humanidade de todos os males e depois foi condenado como sendo um veneno, assim também o presidente revelou-se aquilo que eu e muitos mais já esperávamos que ele fosse: um venenoso ditador e malabarista que a (quase) todos engana e só se preocupa com o lucro que possa arrecadar nos seus sujos negócios.
E é aqui, já quase a meio desta crónica que entram os meus amigos L.Cs. Logo no início dos meus protestos, o meu caro amigo L.C.#1, prezado escriba da nossa comunidade e poeta de rima escorreita e brilhante, dizia-me, no que eu interpretava como uma forma sincera de não me querer ver nas bocas do mundo, que não valia a pena a minha palratória, que o DDT queria era que falassem nele, que eu não ia resolver nada, que ia só arranjar inimigos para cima das costas, que deixasse a política para os políticos, que... enfim, que o melhor era eu estar caladinho porque quanto menos se mexe na bosta menos ela nos enche o nariz. Em certos pontos dei a razão ao L.C.#1, em sei que não seria o salvador do mundo mas, ao mesmo tempo, dizia-lhe que se não se ouvissem as vozes dos que se consideram enganados então é que os ditadores se sentiam ainda mais à vontade para cometerem as suas diatribes. Ou, perguntava-lhe eu, sem querer sequer insinuar a mínima comparação comigo, foram em vão as caminhadas de Gandhi, os sermões de M.L.King, as canções de José Afonso, os teatros minimamente contestatários que ele (L.C.#1) e os seus colegas seminaristas montaram?
Era nessas alturas que entrava em cena o meu amigo L.C.#2. Logo que eu publicava uma das minhas “Até que a voz me doa” palestras digitais, o L.C.#2 atirava-me à cara uma série de acusações sem nexo nem veracidade. Para ele, eu só dizia o que dizia porque sou socialista, que desde pequenino que sou comunista, que sou daquela espécie de cegos que não vêm o que se está a meter pelos olhos dentro, que sou sócio do Governador da Califórnia que também é comunista, assim como a maioria dos californianos! Foram várias as vezes que o L.C.#2 usou os mesmos argumentos mas tinha sempre o cuidado de acabar os seus ataques a recordar-me que tinha pena de mim, já que éramos amigos de longa data e ele sempre teve um grande (e isso então é a pura da verdade) respeito por toda a minha família.
O que acontece é que, por motivos vários e dos quais alguns de vocês estão bem a par, eu deixei de publicar as minhas notas de voz dolorida. Outros valores se levantaram e, sem deixar de me preocupar com a situação política, ocupei e ocupo o meu tempo com outros afazeres e outros escritos. Mas, aqui há duas semanas, e um pouco em contradição com o meu comportamento nos últimos tempos, mijei fora do texto e fiz um comentário numa comunicação do meu amigo L.C.#3. Este L.C.#3, pequeno bem educado e de conduta irrepreensível, gosta de dar umas gaitadas mas quando lhe mordem os tornozelos do DDT, afina a voz de autofalante e quer convencer toda a gente que o dito cujo presidente é o melhor que a América já teve em toda a sua História, que eu e todos os Democratas – eu já lhe disse bastas vezes que não sou filiado em partidos políticos – o que lhe temos é muito ódio e inveja por o DDT ter ganho as eleições em 2016, que as vai ganhar de novo este ano (nisso eu concordo com ele, embora por diferentes razões) e que tudo o que o DDT tem feito só mostra que é um gajo que tem, na sua quinta, uns tomates do tamanho de melões e que ninguém brinca com ele!
Estou a escrever esta crónica no dia em que se festeja o nascimento de M.L.King, um feriado que, e sei que pelo menos o L.C.#1 concorda, merecia ser melhor respeitado; e, por capricho do calendário, estamos também na véspera do começo do “julgamento” que o Senado, hipocritamente, está a sujeitar o DDT. Disse que é uma hipocrisia porque, ao contrário de outros julgamentos em que o acusado é condenado ou considerado inocente só depois do julgamento acabar, neste caso, os Senadores Republicanos, e sei que o L.C.#2 e o L.C.#3 também, já o consideraram inocente sem mesmo ouvirem o caso introduzido pela House e sem sequer se darem ao trabalho de selecionarem e escutarem testemunhas! É obra! Estas manobras políticas (dos dois partidos) dar-me-ão bastante material para montes de notas, se para tal eu me dispuser.
Portanto, meus amigos L.C.s, eu prezo muito a vossa amizade e agradeço os vossos cuidados com a minha sanidade mental. Mas não se preocupem. Eu, para além de não ser comunista nem odiento, também não sou tolinho. Sempre tomei e tomarei responsabilidade pelas minhas ações. O que vos salva é que eu não sou grande coisa a cantar, muito menos com a qualidade da Sra. Maria da Fé. Porque, se eu pudesse, em vez de falar (ou escrever), eu cantaria até que a voz me doesse, pela paz, pela liberdade e, principalmente, pela JUSTIÇA.