Crónica ao Deus-Dará

 

 

Já uma vez escrevi uma “Crónica Sem Título”; noutra alturas alinhavei uma “Crónica Repartida”. Esta vai ser uma “Crónica Ao Deus-Dará”. 
Nunca ouvi falar nalgum Deus que se chamava «Dará». É possível que, nalguma religião politeísta, das muitas que houve ou ainda existem, tenha havido uma divindade com este nome. Claro que quem vier a ler esta prosa vai perceber logo que eu a iniciei sem ter um plano específico, sem me ter preocupado em escolher um tema para desenvolver em menos de 1.000 palavras, como gostam os editores dos jornais comunitários a quem envio estes arrazoados quinzenais. Todos os leitores vão entender que eu estou a usar uma frase muito comum, aquela que escrevemos ou dizemos quando nos queremos referir a uma bandalheira, a uma falta de planificação, ou, como diz outra frase muito semelhante, quando tudo é feito em cima dos joelhos. 
Em cima dos joelhos não é o lugar pior para se fazer algumas coisas. É repousante quando, com as pernas cruzadas, pousamos um livro nas imediações dos joelhos, ajuda na concentração necessária à leitura; é em cima dos joelhos que gostamos de ter os netos, quando são pequeninos, para brincar de cavalinho ou mesmo só para posar para as fotografias em dias de festa. Mas também podemos usar os joelhos como mesa de trabalho, como faziam os antigos sapateiros e até mestres de outros ofícios. Portanto, em cima dos joelhos muitas coisas boas podem ser feitas, mas outras tantas podem sair às avessas. 

Com um bocadinho de esforço eu arranjava um tema para esta crónica. Só que fui malandro, olhei para o calendário e vi que a data de entrega no jornal é 3ªfeira, dia 7 e hoje é Domingo, dia 5. Não me atrapalhei com a proximidade da data nem entrei em pânico. Resolvi, conscientemente, que poderia seguir este caminho direto, em vez de ir por canadinhas ou atalhos. Assim, eu escolhi não falar em temas políticos, embora não me surpreenda que faça um desvio nessa direção; decidi também não escrever acerca da situação do Benfica e do futebol em geral, já que ver jogos sem gente nas bancadas não é muito do meu agrado. Portanto, o trilho mais lógico que eu deveria percorrer era o que me levaria ao tema da atualidade: ao Coronavírus e tudo o que lhe anda à volta.  
Se, na paleta celestial, houvesse um Deus «Dará» - e até parece que há,  lá para os lados da Índia, se não uma divindade, pelo menos alguma coisa que se lhe chega lá perto -, eu não lhe ia dirigir umas orações porque, graças a Deus, o meu agnosticismo não me deixa acreditar no poder das preces. Mas não me importava nada que ele (ou ela) reunisse em plenário todos os outros seres divinos e arranjassem maneira deste vírus ir espalhar a sua miséria lá para o planeta mais distante desta galáxia. Ou para os confins do Inferno, lugar para onde o António “Sinal” mandava alguém que não lhe desse um dinheirinho para “matar o bicho”. Isto porque, na verdade, o que precisamos é inventar formas de matar este bicho, seja lá com que armas ou técnicas for e o mais depressa possível.
Infelizmente não se pode falar no percurso desta epidemia e do custo em vidas humanas que tem causado, sem nos referirmos à administração e aos seus responsáveis que, afinal, são quem tem que tomar as iniciativas para o combate à calamidade. Não estou a tirar água do (meu) capote, eu compreendo que a luta que temos à nossa frente tem que começar em nós próprios, tanto nos aspetos individuais, como numa forma coletiva. O que quero dizer é que eu esperava que as autoridades fossem capazes de promover esta luta sem se cingirem apenas a tomarem decisões de índole política. O presidente americano, que até nos últimos dias parece que se está marimbando para o assunto (há quem diga que isso acontece desde o princípio), agora quer quase como que propor que a maneira mais fácil de atuar contra o vírus é habituarmo-nos a viver com ele. Como se fosse possível passarmos o resto da nossa existência em guerra permanente com esta ou outras epidemias. Concordo, sim senhor, que temos que ser eficazes no nosso dia-a-dia e seguir sem desvios as normas mais elementares de higiene pessoal e de distanciamento social. Mas não aceito a atitude do presidente que, ao insistir na sua ideia, pode parecer que está a encolher de ombros, a abaixar os braços, a responder aos desafios como que ao deus-dará.

Digamos que este vírus se tem consolado a estender os seus tentáculos. É assim que eles atuam, foi para isso que foram “inventados”, para usarem algum animal como hospedaria, alimentar-se nele e dar cabo dele, de modo a poderem agarrar-se a outros hóspedes e continuar com a corrente devastadora. Não acredito que, se foram obra de alguma criação divina, os Deuses que os inventaram lhes tenham dado carta branca para destruírem tudo ao seu redor. Esses mesmos Deuses, que, por inerência da sua profissão, devem ser justos, deram aos Homo Sapiens as armas necessárias para que essa luta não seja desigual. Portanto encolher os ombros não é uma opção lógica e o Sr. Presidente sabe disso. O que eu não sei é se ele é inteligente bastante para reconhecer que se enganou e, por arrastamento, acabou por nos enganar a todos nós.
Fui ensinado, desde pequenino, a não estender as pernas para além do tamanho das calças. E, durante toda a minha vida de adulto também usei essa máxima, não virei a cara aos desafios que a vida me atirou, nem deixei de lutar para o bem da minha família. Esmoreci algumas vezes, desesperei noutras e até chorei lágrimas bem amargas. Mas não baixei os braços, aprendi a viver com o que tinha e a porfiar pelo que não tinha. Por isso acho que o Sr. Presidente e os seus acólitos têm que mudar os seus procedimentos e agarrarem este bicho pelos cornos, o encolher de ombros não é opção.
Que me desculpem os senhores editores (e o Deus «Dará»). A crónica já chegou às 1.020 palavras!