Um ano a pintar a manta

 

Não há jornal ou revista que se prese que já não esteja a preparar as suas edições de fim de ano. Todos e todas esmeram-se nas ilustrações e nas diversas listas dos melhores disto e daquilo, de quem morreu, ou dos acontecimentos mais relevantes dos últimos meses. 
Quem sabe se eu me armava em editor de jornal e me entretinha a compilar um montão dessas listas? Por que ponta é que deveria começar, a que assuntos devo dar importância, em detrimento de outros que me possam parecer irrelevantes, a quem devo atribuir o título de “Pessoa do Ano”? Como faço com todas as outras mesuras da minha vida, fui pedir a opinião da patroa. Que me desenrascasse, disse-me ela, isso são coisas para quem sabe o que está a fazer, não para um pato-bravo como tu que, a maioria das vezes, nem sabes do que estás falando. E pronto, morreu à nascença a minha ideia de vir a competir com o “TIME” ou mesmo sequer com o nosso modesto quinzenário de Modesto, Califórnia. Eles que façam lá as suas listas, eu limitar-me-ei a concordar com elas ou a criticar, que é coisa em que sou mestre.
Portanto, já pus de parte a coleção de notícias que encheram os noticiários que vi na TV ou as que li nos jornais online, já que os de papel deixaram de circular cá por casa há muitos anos. Até cancelei a assinatura anual da revista que referi acima, a “TIME”, mas os senhores devem pensar que eu ando mal informado e então continuam a enviar-ma todas as semanas, para que eu não perca pitada do que se vai passando por estes Estados (des)Unidos e pelo mundo. Claro que não posso menosprezar quatro factos que aconteceram, dois a nível nacional e outros dois que me atingiram sobremaneira a nível pessoal. Dos primeiros, refiro-me ao contínuo andamento da epidemia de Coronavírus, umas vezes para a frente, outras para trás, como os caranguejos. Cumpri com o meu dever cívico e estendi de boa vontade o meu braço para receber as doses de vacinas sugeridas por quem sabe do que está a fazer. Por outro lado, a meio do ano interrompi a escritura do meu “Diário da Epidemia”, depois de ter rabiscado 197 crónicas sobre a influência e as manobras que a epidemia impingiu na vida da minha família. Foi com orgulho que vi uma boa quantidade delas publicadas nas três últimas edições da revista Gávea-Brown, do Centro de Estudos Portugueses da Brown University, de Providence, para além de outras que apareceram nos jornais comunitários ou na minha página do Facebook.
Ainda referente a este ponto da epidemia, só gostaria de tornar a insistir na opinião que, se alguém se recusa a ser vacinado apenas por teimosia ou ideologia política, não se importando com a sua saúde ou, principalmente, com a dos outros, então que estenda essa teimosia ao ponto de recusar assistência médica quando se vir infetado com o vírus em qualquer das suas variantes. Tenho um colega de trabalho, por sinal até muito simpático, que se recusa a ser vacinado porque, entende ele, é um perigo para a sua saúde; no entanto, passa horas a mascar tabaco e a cuspir pelos cantos, às escondidas dos patrões e isso, para ele, é a coisa mais natural do mundo.
Do outro assunto, a nível nacional, que me merecia uma série de comentários, quero apenas escrever duas linhas. Já há muitas crónicas que não me meto nos meandros da política americana. Contudo, tenho que aqui registar o quanto me tem incomodado a pouca-vergonha que se passou no dia 6 de Janeiro e a triste miséria que tem sido o comportamento dos republicanos, ao defenderem os mariolas que perpetraram tão odiosos actos. 
A justiça americana, muito pronta a lançar uma mão pesada contra certos grupos da população, tem sido bem gentil, digamos assim, para com os ditos cujos mariolas e nem tem sequer tentado levantar os véus que cobrem os mais diretos responsáveis pela organização da “cívica manifestação”, como lhe chamam o anterior presidente e os seguidores do seu culto. A “Grande Mentira” continua a crescer e a aparecer com novas versões, ao ponto de estar a ser a base de argumentação que lhes favorece as novas táticas na preparação do modo de se precaverem para as próximas eleições. Se, nas últimas presidenciais tentaram manobrar o resultado sem o conseguirem, para as próximas eles já têm meio caminho andado, têm colocado em posições chave muitos dos seus simpatizantes, de tal modo que, se Trump perder no escrutínio, tudo está preparado para que não haja derrota possível. Tenho que lhes dar crédito, os republicanos mestre a pintar a manta, são de uma eficiência medonha nesta ciência das manobras escuras. Os democratas, coitados, não mexem uma palha e ficam a ver a banda passar. Quando derem por isso que estão a ser comidos como patinhos tontos, já vai ser tarde.
Este 2021 começou de uma forma agridoce para mim e para toda a minha família. Nem duas semanas se tinham passado quando fomos perturbados e chocados com a partida do Jorge, irmão do coração. Às vezes ainda penso que é mentira. Claro que não o esquecerei nunca, ainda me surpreendo algumas vezes, quando termino uma destas crónicas, a pensar que tenho que lha enviar por email, era assim que fazia, ele era sempre o segundo leitor e apreciado critico. Sinto falta das suas conversas, das estórias que me contava enfeitadas com um fino sentido de humor, e até sinto falta de lhe tirar o juízo por causa do seu Benfica. Até um dia...
Pois, para atenuar a falta do Jorge, dali a um mês nasceu-nos o Tiago, o neto mais novo. Tem sido uma reviravolta medonha na nossa vida. Talvez porque o crescimento dos outros três netos se fez um pouco mais fora da nossa porta, com este tem sido diferente. Está cá em casa pelo menos dois dias por semana e, para ajudar a pintar a manta, mora mesmo na rua ao lado. 
É consolador ver o seu desenvolvimento nestes primeiros dez meses de vida. E que vida! Claro que sou suspeito, todos os avós pensam que os seus netos são mais atinados e espertos do que os dos vizinhos. Só que, para mim, tem sido uma viagem especial, ver o aparecimento do primeiro dente, estender os braços para o recolher nos primeiros passos e provocar-lhe as sonoras gargalhadas que nos enchem a alma. Não, mudar fraldas não mudo. 
E pronto, vou passar uma inspeção aos dois pintores que me reviraram a casa esta semana. E esperar que as novas cores das paredes nos iluminem melhor a entrada no novo ano. Bem-bom que estes dois só pintaram as paredes, a pintura da mantra fica a cargo do Tiago. Eu mais a avó, que não somos pintores, ficamos é com dores nas costas, com tanta correria atrás do rapaz, que já pensa que vai ser atleta olímpico.

Um Bom Natal e as melhores venturas no Ano Novo para todos os amigos que se dão ao trabalho de ler esta “Crónicas de Hoje e de Sempre”.