Crónica repartida (II)

 

Fiz uma primeira experiência com este formato já há uns meses e, parece, alguns dos leitores acharam engraçada à ideia que, aliás, não é original. Não posso apoderar-me dos louros como se fosse eu o primeiro cronista a fazer tal coisa, longe disso.

Convenhamos que é um método que é de fácil leitura para os meus “clientes” e até de razoável simplicidade para o narrador. Basta este (eu), por malandrice ou por querer “tocar” em variados temas no mesmo texto, dedicar dois ou três parágrafos a cada assunto e tentar interliga-los, mesmo que levemente, de forma que a conversa não pareça muito desconexa.

Ora, vamos a ver o que é que isto vai dar:

 

OS MORANGOS

Estamos no tempo deles. Posso até dizer, sem risco de engano, que são a minha fruta preferida. Então, se acompanhados por um sorvete de chocolate, regalam-me os sentidos. Tal pena não serem fruta de todo o ano, embora nos mercados da Califórnia eles apareçam ocasionalmente fora de estação, vindos do México ou do Chile.

Nos serrados das Mónicas, que o meu pai fazia de renda e onde se cultivavam uma variedade enorme de legumes e se faziam canteiros de outros plantios, não havia morangos. “É uma fruta muito delicada”, dizia o hortelão. Quando era criança, eu não terei comido morangos mais do que meia dúzia de vezes e mesmo assim deve ter sido só uma amostra. Mas lembro-me um dia, na primavera de 1976, em que, subindo a Rua da Sé com a minha grávida esposa, deparámos com um cestinho deles na montra da Pastelaria Athanásio. Ela, que vivera dois anos na Califórnia, havia criado o gosto pelos vermelhinhos frutos e, talvez também por causa dos irrefutáveis desejos de grávida, fez questão de os provar. Resultado: Para espanto do Sr. Lima, comprámos os morangos todos! Talvez seja por isso que a minha filha mais velha, que nasceu dali a poucas semanas, também goste deles tanto como eu.

Costumo ir comprar uma caixa deles a um pequeno produtor, aqui mesmo à saída da cidade. Uma família de imigrantes do Laos alugou uma parcela de terreno e ali os cultiva com esmero e arte. São muito doces e grados, dos mais saborosos que já comi. Só que, inevitavelmente, este ano estão mais caros. Refilhei amigavelmente com o senhor que, num inglês muito embrulhado me tentou explicar que tudo subiu de preço, as caixinhas de cartão, os plantios, a água para a rega, etc. Fiquei a matutar cá comigo que ainda poderá vir a pior, caso o arrogante chefe desta macacada leve a sua avante e feche as portas aos imigrantes. É que, em 40 anos de América, eu nunca vi um americano a plantar ou a colher morangos...

AS ABELHAS DO PEDRO ALBERTO E AS DO JOÃO PEDRO

Em resultado da crónica que publiquei a semana passada, o meu Amigo (com A maiúsculo) Pedro Alberto fez-me saber que “se entendia muito bem” com o outro amigo visado no texto, o Macide. Não era difícil eles entenderem-se bem um com o outro, já que eram e são pessoas de inegável qualidade, mestres no convívio social e na educação. Ao recordar a minha relação de amizade com eles, veio-me à memória um passeio que fizemos até à Serreta, a uma mata onde o Pedro Alberto mantinha, com esmero e arte, um conjunto de colmeias. Não vestimos os fatos próprios nem nos aproximámos muito das obreiras abelhas, apenas o suficiente para ouvirmos as explicações do apicultor.

Consta-me que o Pedro Alberto já não se entretém com as colmeias mas sei de outro Amigo que herdou do pai e do avô o gosto pela apicultura. No aprazível lugar do Porto Martins, o João Pedro dedica o seu tempo livre a tratar de 10 colmeias e aperfeiçoa a produção de delicioso mel, que vende a amigos e conhecidos. Diz-me que estar no meio das abelhas é como uma aproximação aos seus progenitores, ouvir o zumbido dos insetos é uma forma de recordar os seus entes queridos e os ensinamentos que lhe transmitiram. Agora até a namorada aprendeu os segredos do delicado trabalho e ajuda-o no maneio e no tirar do mel, para além do sempre pronto acompanhamento de uma das minhas primas preferidas (a mãe do J. Pedro), que se transformou numa eximia lavadora de frascos! Quem faz por gosto...

 

O RATO QUE PARIU UMA MONTANHA

Já há muitas semanas que não toco em política nas minhas crónicas. E, agora, apenas quero dizer que estou cada vez a ficar mais assustado com o comportamento do tal chefe da macacada que mencionei acima. De dia para dia a arrogância cresce, os atropelos à Justiça são maiores e mais descarados, o desrespeito às instituições é de pasmar. Com ameaças atrás de ameaças, dá-se ao desplante de negar os seus deveres para com o Congresso e força os seus ajudantes a não colaborarem quando são chamados a prestar declarações. Armado em déspota, continua a fugir com o rabo à seringa, mente à boca cheia e faz gato-sapato até do partido republicano, que já perdeu toda a sua legitimidade e continua, sem vergonha, a desculpar e a defender este rato de agueiro que pariu uma montanha cheia de ofensas e insultos à Democracia.

Desculpem-me mas não poderia falar só de coisas ou de pessoas boas. Vejo e ouço tanta nojice que não me permitem ficar calado. Mas... adiante.

 

 

O NOVO LIVRO

Depois de estar aqui a falar de coisas doces – mel e morangos – e outras mais azedas, talvez seja um atrevimento da minha parte trazer a esta, crónica uns parágrafos sobre o projeto do livro “Barro Vermelho – Ilha Branca”. Já deixei escapar alguns pormenores sobre ele noutras alturas mas agora está a chegar a ocasião de, mais diretamente, o trazer a terreiro. Portanto, não se admirem de, daqui para a frente, o mencionar em futuras crónicas, repartidas ou não.

    Estamos a trabalhar afincadamente para trazermos o livro às vossas mãos dentro de poucas semana. Quisemos dar a primazia de apresentação a Santa Cruz da Graciosa, cuja Câmara Municipal apoiou de forma inequívoca a sua publicação e, portanto, lá estaremos a 9 de Agosto, por altura das Festas de Santo Cristo. Mas já temos  acordos celebrados para o apresentar também em Angra do Heroísmo a 12 de Agosto, em Lowell, Mass. A 19 de Outubro e, em a data a indicar, em San Jose, Califórnia.

Hoje apenas quis levantar um pouco do véu, mais detalhes aparecerão a seu tempo, para não enfastiar.

Entretanto, aproveitem para saborear uns doces morangos com mel. Ou, melhor ainda, umas queijadas da Graciosa. Serão o melhor acompanhamento para a leitura do “Barro Vermelho – Ilha Branca”.