Depositários de Memórias

 

 

 

 

 

Esperei precisamente um mês desde a minha rápida e (quase) furtiva passagem pelas Ilhas Terceira e Graciosa para me aventurar a escrever umas linhas sobre essa viagem.   

Talvez o termo furtiva seja um pouco enganoso ou iludente. Eu não entrei ou saí das duas ilhas açorianas às escondidas. Nos poucos dias que lá permaneci, sempre andei à vista de toda a gente, com os olhos bem arregalados, a querer ver tudo e todos. Apenas escrevi assim, que tinha sido uma passagem furtiva no sentido de que foi muito rápida, tal qual o voo de um pássaro que, pousa aqui, pousa ali, mal toca em lugar algum.

Eu sabia que assim seria, já me preparara com antecedência, estava desconfiado que não ia riscar todas as entradas que tinha escrito na minha lista de coisas a fazer. Estava certo que não encontraria muitos amigos, os longos anos de ausência fazem mudar as prioridades, os programados encontros diluem-se no horizonte e os prometidos abraços ficam suspensos, apenas materializados nalgum inesperado tropeço ao virar de uma esquina. Mudam-se os tempos...

Pois se as pessoas mudam, o mesmo tem que acontecer aos lugares, às ilhas. Mal fora se isso não acontecesse, a estagnação não ajuda ao progresso. Claro que as mudanças trazem muita coisa ruim, muito vício indesejável. Serão, então, as pessoas que terão de fazer a escolha, a filtragem do bom do menos bom. Como acompanho regularmente o que se vai passando nas citadas ilhas que visitei, não me espantei com o que vi de bom. Devo aqui meter um pequeno parêntese para mencionar a boa impressão que me deixaram dois lugares, em especial: O Museu da Graciosa, instalado num funcional edifício que mostra com classe as suas maravilhosas coleções e, em Angra do Heroísmo, a superior qualidade das instalações da Biblioteca e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. Não estive alheio à controvérsia que envolveu os angrenses durante todo o processo de construção da Biblioteca mas de tal nem me lembrei quando um dos seus funcionários, o amigo Rui Lima, me mostrou ao pormenor todo o modo de funcionamento daquela que poderei apelidar de “soberba máquina cultural”, graças ao meritório trabalho da sua Diretora e de todos os seus colaboradores. Realmente essa casa é uma mais-valia para a cidade e para toda a região.

Esta minha curta e furtuita viagem foi muito gratificante também no aspecto pessoal, isto é, no contacto que tive com outras pessoas – algumas com quem eu nunca tinha falado – e com os meus familiares. Na Graciosa, para além de amigos que não preciso mencionar agora porque a eles já lho disse pessoalmente, foi um consolo ter tido a possibilidade de ter conversado com duas personagens emblemáticas da Ilha Branca. Sentados no muro do Paul, enquanto à nossa frente passava a Procissão de Santo Cristo, conversei por largos minutos com o Senhor Rufino Pereira, mestre de vários ofícios e homem de muito saber. Ainda bastante ativo para os seus (bem vividos) 88 anos, o antigo carteiro, que até usei como protagonista numa das estórias que contei no livro “Barro Vermelho – Ilha Branca”, fez-me rever mais claramente a Vila de Santa Cruz dos meus tempos de menino e elucidou-me de algumas das mudanças que os anos operaram no viver dos graciosenses.

Numa outra tarde solarenga, à sombra dos metrosíderos gigantes e das altaneiras araucárias da Praça, tive o privilégio de trocar impressões com o Senhor Gabriel Melo, conversador nato e lúcido contador de histórias, todas elas embelezadas pela experiência de 90 e tantos anos de vida. Ainda não estava uma narrativa acabada, já ele lhe estrovava outra linha, qual fluente caudal de límpidas recordações... contou-me do meu tio Celestino que, quando regressou do Brasil para ir casar com a sua amada Leonor, levava na bagagem nada menos do que sete(!) ternos – foi o termo que o Sr. Gabriel usou, também ele ainda influenciado pelos anos que viveu em terras de Vera Cruz. “Celestino vestia 3 por dia, um de manhã, outro à tarde e outro à noite. Era um homem muito elegante”. O que Celestino não iria ver agora de diferente na sua Vila natal, onde já ninguém usa ternos, nem sequer na procissão de Santo Cristo.

Causa-me pena nunca ter ouvido mais estórias contadas não só por estes dois depositários de muita da tradição oral da Ilha Branca mas também as descrições do meu Amigo terceirense Joaquim Maria da Costa. Encontrei-o na sua casa, onde sempre fui recebido como um filho. A dificuldade que já tem em processar as memórias recentes talvez não lhe permitiu reconhecer-me a cara mas conseguiu retroceder até à Loja do meu pai, seu amigo de juventude. “Era o lugar onde se bebia o melhor vinho de cheiro... vinha quase todo da Graciosa”, realçou com ênfase no nome da Ilha. Exprime-se  ainda com a calma e a doçura com que sempre o conheci, só o peso dos quase 106 anos de idade lhe dificultam a fala e o ouvir. A nossa conversa levou-o até ao Porto das Pipas e ao Corpo Santo da sua juventude... “O meu sogro, o Ti José «Seguro», conhecia aquele mar como ninguém”, disse-me com um esgar do olhar como se o estivesse a ver do cimo da Rocha de Cantagalo. E continuou: “A mulher, a tia Angelina, brigava com ele para levar algum conduto quando ia pescar. Mas ele não a ouvia, dizia que o conduto está no mar! Sabes como é que ele fazia? Quando sentia uma rueza de fome, aproximava a popa da lancha a umas pedras jeitosas e apanhava um punhado de lapas mansas! E pronto, arranjava logo ali o conduto”.

Para contrabalançar a tristeza que senti ao confrontar-me com o estado de ruínas em que se encontra a antiga casa dos meus avós, afinal um dos lugares cujas memórias me fizeram regressar à Graciosa e tentar soprar o pó que cobre as raízes da saudade, tive a sorte de ainda olhar nos olhos estes três Senhores, fieis depositários, diria mesmo os filtradores das nossas memórias comuns. Ouvir-lhes, nas suas vozes já castigadas pelos tempos, as estórias que não esqueceram, sentir-lhes o apego que têm às suas terras e o apreço que nutrem pelas suas gentes, foi o melhor prémio que me poderiam ter dado.

Só por eles valeu a pena a viagem que, finalmente agora, posso considerar como completa.