Vinho de Missa

 

OS ESPINHOS DA SAUDADE
Que me desculpem os responsáveis por este jornal e que me desculpem os dois ou três leitores (ou serão menos ainda?) que se dão ao trabalho de passar os olhos nas minhas crónicas. Esta já não é a primeira vez que ocupo este espaço e não sou eu o autor desta “Crónica de Hoje e de Sempre”. 
Se me permitem, vou voltar a dar a palavra ao meu irmão Jorge Bendito, companheiro na escrita e na publicação do livro “A Loja do Ti Bailhão”. Vai para quatro meses que o Jorge nos deixou. Deste modo, divulgando alguns dos escritos dele, pretendo amenizar a dor causada pelos espinhos da saudade.
Aqui está uma bonita estória, da autoria do Jorge, onde o nosso pai, o Ti João Bailhão, é o protagonista principal.

A religião sempre foi uma presença constante na minha infância e na dos meus irmãos por total influência da nossa Mãe, que sempre se revelou pessoa muito devota e cumpridora dos seus votos religiosos. 
Para nós era o ter que assistir às missas dominicais, seguidas da catequese. Para ela, para além da missa era o acompanhar as novenas de Nossa Senhora de Fátima na Igreja da Conceição, da Nossa Senhora do Carmo na Igreja do Colégio e as de Santa Luzia, na igreja da respetiva freguesia, para além das que ela também acompanhava, via rádio, do Santuário de Fátima e que antecediam o 13 de Maio. Na altura da Quaresma, ela convocava todos para um serão semanal em que nos juntávamos na sala de casa para rezar o terço. A puxadora era a Dona Aurora, vizinha da nossa rua, senhora solteira e extremamente beata que, dizia-se, assistia a várias missas por dia e em diferentes igrejas desta cidade. Nalguns desses terços por vezes participavam outras vizinhas e amigas da minha mãe. Presenças masculinas não recordo nenhuma a não ser o meu Pai, que era obrigado a regressar a casa mais cedo para participar nas rezas. Minha mãe fazia-nos decorar todas aquelas orações e ladainhas e devo dizer que ainda hoje sou capaz de dizer algumas delas de fio a pavio.
Nos dois primeiros anos que frequentei a catequese, a pessoa encarregue de acompanhar o meu grupo era a Nilda, vizinha de porta e não muito mais velha do que nós. Tinha uma forma de estar diferente dos outros catequistas. Com ela não éramos obrigados a rezar com muita frequência nem tínhamos que decorar todas as orações do catecismo. Algumas vezes a aula foi mesmo dada no “Posto Meteorológico”, com jogos de futebol à mistura pois ela era doida para jogar futebol com os rapazes, sendo mesmo melhor jogadora que muitos de nós. Nos últimos dois anos a coisa já piou mais fininho. O catequista foi o José Joaquim Sousa que, apesar de ser simpático e bom companheiro, era extremamente exigente pois, segundo ele dizia, tínhamos que chegar bem preparados à comunhão solene e ao crisma, “não vá o Sr. Bispo fazer alguma pergunta”. 
No último ano da catequese tornou a realizar-se o tradicional “passeio da catequese”. Era uma viagem espetacular para muitos de nós que raramente saímos da cidade. Pelas oito da manhã já estávamos todos concentrados junto à igreja de S. Luzia, munidos do nosso farnel e a aguardar o autocarro da EVT. Depois lá fomos de viagem com passagem na Serra do Cume, Praia da Vitória, Porto dos Biscoitos e paragem na Mata da Serreta para o apetecido almoço, seguido de tempo para brincadeiras diversas. Ainda recordo as maravilhosas sandes que a Mãe preparou para o meu farnel, acompanhadas de pirolitos do “Frederico”.
Mais abaixo de nossa casa situava-se o Seminário Episcopal, que na altura tinha um elevado número de alunos. Vêm-me à memória as grandes jogatinas de futebol com os seminaristas, os maravilhosos cânticos das suas aulas de música, que ouvíamos ao passar na Miragaia e de andar sempre a pedinchar aparas de hóstias ao porteiro “José do Pico”, dizendo-lhe que eram para os meus peixinhos de água doce quando quem papava a maior parte era eu e minhas irmãs. 
Na Loja essa religiosidade também se fazia sentir. Como bom cristão, Ti João Bailhão fazia questão de ser o fornecedor do vinho utilizado nas diversas igrejas da cidade. Nós chamávamos de “vinho de missa” ao que estava guardado numa barrica pequena que não era mais que vinho branco de boa qualidade, vindo das vinhas de meu avô “Rato”, da Graciosa e que era escolhido e separado para esse efeito.  
Uma vez por semana lá aparecia na Loja o sacristão de cada igreja munido da sua garrafa para o respetivo abastecimento. 
Em determinada altura, na igreja da Conceição, houve mudança de sacristão e o novo depois de ter sido apresentado na Loja, começou a fazer a visita semanal munido da sua garrafinha para a recolha do vinho. Numa dada semana lá veio ele novamente, mas dessa vez trazia não a garrafinha usual mas uma garrafa de maiores proporções, o que deixou meu Pai admirado.
-- “Então o senhor padre agora anda a dizer mais missas?”, perguntou-lhe Tio João, para que o sacristão se apercebesse que ele tinha notado o aumento do tamanho da garrafa.  
-- “É verdade, senhor João. Por um lado, temos tido mais serviços religiosos e por outro lado partiu-se a garrafinha que costumava usar. Foi uma pena pois eu gostava tanto dela. Ainda quero ver se arranjo uma igual pois aquela tinha mesmo o tamanho ideal.”
Ti João não fez mais qualquer comentário e lá aviou o vinho enquanto, no seu subconsciente, ia pensando que naquela igreja havia dois a dizer missa, não na parte das orações, mas sim na parte do vinho.
-- “Pronto, aqui está e até para a semana. Dê os meus cumprimentos ao senhor padre”.
Passada uma semana de novo apareceu o nosso sacristão com a garrafa, para a sua recolha habitual. Ti João estranhou que já houvesse necessidade de novo abastecimento, o que vinha confirmar as suas suspeitas de que naquela sacristia havia melro.
-- “Olha meu amigo, agora estou um pouco ocupado. Deixa ficar a tua garrafa e volta daqui a pouco que já estará pronta”, disse ele para o sacristão.
E de facto assim aconteceu. Quando retornou, o nosso sacristão encontrou não uma, mas duas garrafas de vinho à sua espera. A que tinha trazido vazia e uma outra garrafinha, igual à que era usada anteriormente e que se encontrava cheia.
-- “Pronto meu amigo, aqui está o vinho para a nossa igreja da Conceição”, disse Ti João para o sacristão. “Eu tinha lá em casa uma garrafinha igual à que usavas antes e como sabia que gostavas muito dela tive a ideia de a trazer. Então até para a semana. Não te esqueças de dar os meus cumprimentos ao senhor padre e de lhe lembrar para rezar pela minha saúde”.
Enquanto o sacristão se ia embora, com o rabo entre as pernas, meu Pai virou-se para mim e disse:
-- “Vês meu filho, com calma tudo se resolve e nunca te esqueças que, “para um esperto há sempre um espertalhão”. 
Boca santa.

 

Jorge Bendito (Setembro 2011)
(Texto incluído no livro “A Loja do Ti Bailhão” publicado em Junho de 2015)