As Orelhas Grandes

 

Tenho que começar por pedir algumas desculpas. Este texto vai-me prender aqui no teclado durante umas vastas horas. Não que eu tenha intenção de escrever um testamento longo e aborrecido, mas apenas pela simples razão que tenho que reaprender a escrever.
A minha primeira experiência como “escritor” aconteceu há quase sessenta anos, numa aula de Português do segundo ano do Liceu. A Dona Elsa Brunilde de Mendonça resolveu que devíamos redigir um texto onde explicaríamos o que seríamos capazes de fazer se, devido a qualquer força misteriosa, viéssemos a ficar presos numa ilha inabitada. Devo ter causado uma boa impressão à carismática professora, recebi a classificação de “bom” pela minha prosa, o que me deixou muito contente.
Depois..., bem, depois escrevi pouco. Algumas cartas para a namorada e para os familiares ausentes e esgotou-se-me a criatividade. Ou, pelo menos, a vida foi-se arrastando sem deixar lugar para liberdades literárias. Só a aproximação da reforma e da terceira idade despoletaram em mim este gostinho de enriçar o «Ler» com o «Escrever». Ler foi um hábito que alimentei desde muito novo; escrever já é uma estória diferente, o empurrão que fiquei a dever à Dona Elsa, se não tem sofrido uns abanos por parte de alguns amigos, ter-se-ia perdido na contagem dos Tempos. Aliás, nestas duas décadas do Século 21, tenho reparado que seria apropriado dar os nomes de «Ler» e de «Escrever» aos dois bois imaginários que puxam o arado e a grade, destorroando os duros terrenos que preparo antes de lhes lançar umas mãos-cheias de sementes. Os dois parceiros, marchando silenciosamente, não se queixam nem se cansam, obedecem aos subtis toques que lhes vou dando e continuam a manter-me dentro dos regos e das regras. Se o «Ler» é animal que satisfaço com relativa facilidade, o «Escrever» já exige que lhe dedique muita mais atenção e esforço. Contudo, fui começando a gostar de tais desafios, de tal modo que agora fazem parte do meu ser. Ou faziam, até há duas semanas.
Não quero dramatizar. Nem devia estar aqui a lacrimejar, vou apenas descrever dois ou três episódios que, espero, não venham a mudar de forma significativa a minha vida. Vamos a isso:
Não tenho sido, nos meus quase 70 anos de vida, uma pessoa sofredora de muitas mazelas. Nunca parti um osso no meu corpo e apenas uma vez me fizeram um remendo numa hérnia, para além de umas dolorosas extrações de pozinhos da pedreira da bexiga. Até nunca tinha passado uma noite numa cama de hospital. Mas há uma primeira vez para tudo. Lá de longe em longe, as enxaquecas batem-me à portam. São as tais dores de cabeça a que os americanos chamam migraines, as perturbações que me deixam meio combalido durante dois dias e desaparecem, depois de tomar uns comprimidos. Só que, desta vez, apareceu-me uma complicação maior: permaneciam as tonturas e reparei que não conseguia ver bem para o lado direito, caso estivesse a olhar bem de frente para um objeto ou pessoa, para além de se me baralharem as letras à frente dos olhos. A “patroa” convenceu-me a telefonar para o meu doutor que, como estava ocupado, sugeriu que fosse consultar um oftalmologista, pelo menos ficava a saber o que estava mal na minha visão.
Assim começou a minha saga. Talvez tive sorte, fui examinado por um competente especialista. Depois de me submeter a um batalhão de testes onde me metia arcos luminosos em frente dos olhos, o senhor doutor não se ficou por meias-medidas, deu ordens à Alice para me levar direitinho aos serviços de urgência. Fiquei logo a bater pano e ainda mais quando descobri que ia ficar lá sozinho, por causa do maldito Covid19, só os doentes podem entrar. Ao contrário do que acontecia há anos, ao menos agora é permitido o uso de telefones celulares nos hospitais, embora essa medida não me ajudasse nada, porque, com a pressa e a atrapalhação, esqueci-me dos óculos no carro!
Depois de um CAT, um outro doutor veio informar-me da minha justiça: “O senhor teve um pequeno derrame cerebral. Vai ficar internado nos Cuidados Intensivos, há mais coisas que temos que descobrir”. Se houvesse ali mesmo um buraco, eu tinha-me enterrado até à China. Explicavam-me tudo com muita minúcia, perguntavam-me as mesmas perguntas vezes a fio, disseram-me que, devido a um tratamento para controlar glóbulos, eu ia ter visões quase que psicadélicas. Nunca consumi drogas dessa espécie, mas compreendi que essa era a razão que me fazia ver toda a gente com orelhas grandes! É verdade, passavam enfermeiros, pessoal de limpeza e doentes nos corredores e todos eram seguidos por uma grandessíssima orelha. O nosso cérebro é que é mesmo um grandessíssimo mistério.
Não foi nada agradável, aquela que era a primeira noite que eu passei deitado num hospital. Fui muito bem tratado, tanto pelos melhores médicos como pelo mais simples empurrador de cadeiras de rodas. Mas eu não me convencia que ali estava estendido, ligado a monitores, com agulhas espetadas nos braços, a ouvir sinais sonoros a toda a hora e a ver enormes orelhas a desfilarem pelos corredores. Sabia, mesmo estando um pouco banzado pelos novos medicamentos que me receitaram, que as minhas filhas e a mãe delas estavam muito preocupadas com a situação. Afinal, eu saíra de casa para ir a um oftalmologista e acabei metido dentro de um cilindro, durante mais de 45 minutos, a ouvir uma pancadaria infernal. Nem sequer tive a oportunidade de me despedir da “patroa” com um simples beijo.
Portanto, por aqui ando a tentar reensinar o «Ler» e o «Escrever» a serem pacientes. Bois de boa raça, eles vão ser capazes de recuperar e trazer-me de volta à forma original. Ou, pelo menos, a perto disso. Se aprendi alguma coisa com esta experiência, a mais importante é reafirmar a fragilidade da Vida, de um momento para outro esborralham-se as paredes e ficamos sem controle. Aprendi também a ter uma muito maior apreciação pelos trabalhadores da saúde. Encontrei-os de várias nacionalidades, desde as Filipinas ao México, da Índia à Malásia e em todos passei a ter novos e sinceros amigos, profissionais competentes orgulhosos das suas especialidades.
Agora, há que descansar. E ser paciente, como disse atrás. Prometo trazer o «Ler» e o «Escrever» a pastar quando os olhos mo permitirem. Quanto às orelhas, essas não me importo com o tamanho delas, eu não vejo as minhas senão ao espelho e isso é atividade que não pratico muito.
Votos de boa saúde para todos.