As meninas do futebol

 

 

 

A Nini era rapariga muito avançada para o seu tempo.

Espalhava simpatia, era moça de gargalhada fácil e sincera. Conhecia toda a gente e, da janela de sua casa, mesmo por cima da fábrica das amêndoas, dava troco a todos e todas que passavam na rua. Era terrivelmente eficiente no jogo do Belamente (ou Bolamento?) e, fosse a jogar com velhos ou com  novos, ela ganhava sempre. Ao fim e ao cabo não ganhava nada porque acabava por oferecer a todos os adversários um saquinho das suas amêndoas.

A nossa rua, a íngreme e empinada Miragaia, não era jeitosa para grandes brincadeiras. Contudo, a Nini organizava uns jogos com bola que até eram originais. Ela dividia a rapaziada – vocês já estão a ver, ela era a única rapariga – em duas equipas, um grupo ficava com ela no cimo da rua, junto da ermida das Mónicas, e o outro grupo plantava-se mais abaixo, à ilharga da oficina do Mestre Tailhinha. Era esperta, a Nini, o grupo dela ficava sempre em vantagem porque, se a bola escapava aos de baixo, tinham que a ir recorrer até às imediações do Comando Militar ou à porta do Seminário. Mas, numa tarde de verão, aconteceu outra situação bem pior: apareceram, sorrateiros, vindo de Detrás- do- Colégio, dois polícias à paisana! Os rapazes do lado de cima, esses fugiram para Santa Luzia e a Nini apressou-se a esconder-se entre os caldeiros das amêndoas; mas os de baixo foram apanhados pelos polícias que, usando a mesa onde o Mestre Tailhinha cortava as napas e cabedais para os estofos dos carros, não se fizeram de rogados e escreveram uma série de multas de $50.00 Escudos. Claro, calhou-me uma também. Para castigo, meu pai mandou-me ir sozinho – eu tinha na altura 8 ou 9 anos – fazer o pagamento à Junta Geral. Ainda protestei a dizer que não sabia como lá ir mas ele só respondeu: Desenrasca-te!

Ora, bem desenrascada era a Nini. No Campo de Jogos da Cidade, a voz dela fazia-se ouvir bem alto em defesa do seu (nosso!) Sport Club Angrense. Imagino que ela tivesse pena de não poder jogar mas, naquele tempo, nada disso era permitido às raparigas. Então, sem se atrapalhar, a Nini, que era catequista na igreja de Santa Luzia, enganava o padre David, um Sanmiel que não era muito simpático, e convencia-o que ia levar os seus instruendos até aos terrenos do Posto Meteorológico para uma sessão de doutrina ao ar livre. Milagrosamente aparecia sempre uma bola de futebol e a catequista, que era a melhor jogadora do grupo, só pedia aos rapazes para se lembrarem que estavam em hora santa e, portanto, não deviam dizer “palavras feias” se apanhassem alguma canelada.

Lembrei-me da paixão da Nini pelo futebol ao ver os jogos do campeonato do Mundo de senhoras, ainda a decorrer na França. Infelizmente ela não os pode ver, agora já com 75 anos, a minha amiga de infância é um vegetal, com o corpo e a mente destruída por demência profunda. Imagino que ela iria adorar, vibrar com entusiasmo por cada golo marcado ou com as soberbas defesas das guarda-redes. Eu também fico de boca aberta, alegra-me ver a evolução que o futebol feminino tem sofrido nos últimos anos. Os estádios cheios confirmam isso mesmo, o nível técnico e tático das equipas é enorme, a qualidade física (diferenciar da beleza física, por favor) das atletas é mesmo um espanto.   

Aguerridas e voluntariosas, as jogadoras empenham-se de alma e coração, vivem cada jogo como se todos fossem uma final. Sem recorrerem a malabarismos e a atos teatrais, tão comuns nos jogos dos homens, sem precisarem de se atirar para o chão de propósito, tipo Neymar, e depois rolarem dez vezes na relva para tentarem enganar as arbitras, sem se agarrarem à cara quando uma adversária lhes toca ao de leve e provocarem penáltis fingidos, como é mestre o  uruguaio Suarez, as senhoras, rabos-de-cavalo ao vento, demonstram uma enorme civilidade para com as adversárias e um respeito real para com as claques que as apoiam.

Coincidiu este campeonato do Mundo feminino com a realização da Copa América, no Brasil, o que permitiu, a mim e a todos os adeptos do futebol, uma comparação real entre o futebol jogado pelos dois sexos ao mais alto nível. Não estou a mentir se vos confessar que tenho preferido ver os jogos das senhoras em detrimento das partidas dos cavalheiros. Parecem-me muito mais limpos, mais verdadeiros, com muito menos quezílias e confrontações estúpidas. Reconheço que a classe e o tecnicismo dos homens é muito superior  e que, quando querem e não se metem em desavenças, podem produzir grandes jogos de futebol. Mas eu estou a deixar-me enlevar pela graça, pela galhardia e pela beleza do futebol praticado pelas melhores equipas femininas do Mundo. Por brincadeira e para tirar palha com um amigo sportinguista, eu até disse que os “Leões” de Lisboa deveriam contratar algumas das americanas ou das francesas, porque elas tinham lugar na equipa leonina...

Este progresso do futebol feminino não acontece sem atritos. Ainda há muito caminho para andar, muitos países nem têm equipas profissionais e onde as há, as jogadoras assinam contratos com ganhos muito inferiores aos dos homens. No Brasil, por exemplo, país onde o futebol é rei, as diferenças de tratamento são abismais, fazendo com que as jogadoras sigam os passos dos craques machos e rumem a outros destinos. Aqui, nos Estados Unidos, as jogadoras da seleção já se manifestaram no sentido de verem a sua situação salarial melhorada e oxalá o consigam, elas bem merecem, pois são as favoritas para erguerem o troféu na final do torneio.

 

Acompanho o futebol feminino por estas bandas o melhor que posso, mesmo a nível familiar. Uma das minhas netas frequentou uma escolinha de soccer durante uns meses mas agora relegou a prática em favor de classes de ballet enquanto que a prima, mais velhinha, nunca ligou muito à modalidade, prefere ginástica desportiva. Regalo a vista e a alma quando, ao fim de semana, vejo os parques das cidades cheios de rapaziada, dos dois sexos, a fazerem o mesmo que nós faziamos com a Nini nos relvados do Posto Meteorológico, sinal de que os Estados Unidos continuarão a ser um parceiro a ter em conta no panorama do futebol mundial.

Sem querer dar muita importância ao assunto, sempre quero ver, caso as americanas ganhem este Mundial, se o gordo sapo que reside na Casa Branca vai cumprir a sua promessa e convidar a equipa a visita-lo na residência presidencial, mesmo depois da co-capitã Megan Rapinoe ter afirmado que não põe lá os pés. O homem-laranja não lhe merece respeito nenhum e é bem feito, aquele pápa-açorda já teve confrontos com atletas de outras modalidades, que ignoraram o convite para irem comer uma insonsa hamburguer no Oval Office.

A Megan Rapinoe e as suas companheiras não rejeitariam, de certeza, era um saquinho de amendoas da Nini…