Cinema ao ar livre e outras fitas

 

 

Talvez devia começar esta entrada no Diário da Epidemia a contar um “acidente” que me aconteceu esta manhã. Nada de especial, apenas um pequeno percalço sem consequências nenhumas. Pois, então se foi assim uma pequena coisa, por que razão o trazes aqui a estas páginas? Simplesmente porque nos últimos dias eu escrevi, nesta coleção de textos, acerca de assuntos referentes a situações de velhice e de... tristeza.
Sim, o que me aconteceu pode ser considerado uma tristeza, pelo menos no sentido que a Alice usa esta palavra muitas vezes. Quando eu faço uma tolice ou digo alguma baboseira, já sei que ouço logo pelos ouvidos dentro, “Aí tal tristeza! Àquele, hás-de ser discreto!” Pronto, está explicada metade da situação. Agora, tenho que explicar porque a pequena ocorrência desta manhã pode ser atribuída à minha velhice. É muito fácil e conta-se depressa.
Por sinal não foi uma noite bem dormida; rolei de um lado para outro e tive dificuldade em adormecer. Acordei, depois de algumas interrupções, à hora do costume quando vou trabalhar. Os números bem luminosos do relógio apontavam 5.15 AM e, como é hábito, não acendi a luz, já deixo a roupa preparada em cima de uma poltrona mesmo ao lado. Tateando e adivinhando, cheguei ao ponto de me vestir e calçar as meias. Ainda não sei bem como aconteceu, quando me dirigi para a porta, enfiei uma tremenda cabeçada no canto da parede que me fez quase perder o equilíbrio e cair de costas na cama! Já há muito tempo que não me acontecia uma destas, fiquei com um jeitoso galo mesmo no meio da testa.
O tamanho do galo e a sua forma avermelhada foram as primeiras coisas que vi no espelho do quarto de banho, o tal espelho onde, há três dias, eu vi refletido um velho triste, como documentei nessa altura. Resolvi então usar o truque que a minha mãe me ensinou: fui à gaveta da cozinha e tirei uma faca, que apertei com toda a força contra o gordo galo. Não o matei de vez, ele esperneou e eu gemi um bocadinho, mas a coisa passou sem problema, já estou a modos de outra.
Felizmente esta fita não teve consequências nenhumas. Apeteceu-me apenas contá-la para trazer aqui um elemento de humor, se é que eu sou capaz de escrever alguma coisa que tenha graça. Noutro Diário também mencionei que os dias que vamos vivendo não nos trazem muitas alegrias, estamos metidos até às orelhas (e com máscaras nelas penduradas!) nesta Epidemia, que nos domina e controla a seu belo prazer. É urgente e preciso que procuremos formas de nos divertirmos, seja de que modo for, mas sempre dentro das melhores regras de distanciamento e de segurança. Lá por que uns meio-despistados organizam flotilhas com dezenas de barcos a navegarem embandeirados, em águas fluviais, só para darem hurras ao seu Chefe do Culto, não quer dizer que todos temos que ir para os lagos fazer disparates e pôr a nossa saúde em perigo. Esta questão de vivermos com a constante ameaça de vírus à nossa volta, faz-me lembrar a expressão do Ti Manuel «Marreta», de São Mateus, que nunca se cansava de nos avisar, quando deixava cestos cheios de cavalas secas, para vender na Loja do Ti Bailhão: “Isto, mês amiguins, tem que ser um olho no peixe e outro no gato”. 
Assim estamos nós, já há seis ou sete meses, nariz e boca dentro da máscara e olhos a vasculhar o ambiente ao redor, não vá aparecer alguém mal protegido ou sem fazer caso das suas responsabilidades. Estamos todos nesta luta, a menos que queiramos fazer como o Chefe do Culto que pensa que é invencível, não usa máscara e, sem mais nem menos, hoje até ordenou a um jornalista que se lhe dirigia, para tirar a máscara enquanto falava com ele. Coitadinho, o Chefe, para além de ter vergonha de mostrar a careca, agora também está a dar sinais de surdez. Daqui a dias, para que ele (o Chefe do Culto) não fique também com vergonha por ser surdo sozinho, vamos todos passar a usar uma daquelas cornetas que, nos filmes de piratas eles punham nos ouvidos para entenderem quando alguém com eles falava.
Por falar em filmes e só para recordar épocas mais alegres (ou, talvez, menos tristes), queria anotar o que o meu vizinho fez ontem à noite, aqui mesmo da parte de fora da sua casa, que fica duas abaixo da minha. Aliás, ele já tinha experimentado dois dias antes. Eu estava a varrer as folhas caídas das árvores, a aproveitar a pequena baixa de temperatura às oito da noite, quando reparei na azáfama do homem, no seu driveway. Acartou fios de eletricidade, uma mesa portátil, um computador e o que depois vi ser um pequeno projetor. Percebi o que ele estava a planear e confirmei isso mesmo quando reparei que os filhos dele, ainda crianças, se estavam a preparar para uma sessão de cinema ao ar-livre. Fui meter o nariz, (se fosse hoje tinha levado o galo também), mas não fiquei para ver o filme que ele estava a projetar na porta da garagem, apenas disse ao vizinho que a produção dele me fez lembrar os filmes que eu via, nas ruas da minha juventude, quando, no último dia do programa das festas do Espírito Santo, a comissão do Império organizava o que eles chamavam “uma surpresa”. Eram sempre os mesmos filmes, mas a rapaziada consolava-se com aquilo, dava até mais gozo era ver por detrás do pano, o grande lençol que era estendido entre dois mastros da iluminação.
Claro que no programa do espetáculo do vizinho não foi projetado o “Amor de Perdição” ou o “Sol e Toiros”. Nem sei quais os filmes que fizeram as delícias dos pequenos, que estavam estendidos em colchões de plástico ou dos adultos, sentados em cadeiras de praia. O que sei é que eles reuniram um grupo jeitoso, entre os vizinhos da frente e os do outro lado. Todos devem ter aproveitado a véspera do feriado do Labor Day – o tal feriado em que ninguém, na América, se lembra dos trabalhadores ou dos Sindicatos – para se esquecerem do maldito Coronavírus e passarem umas horas em sossego e confraternização.
Hoje não há cinema na rua, amanhã é dia de trabalho. E é também dia de escola, as crianças vão passar umas horas em frente dos computadores para fazerem os trabalhos que os professores, à distância, lhes vão apresentar. E, para mim, já são horas de ir a caminho da cama, com a certeza, porém, que me vou mentalizar que, ao acordar, tenho que ter cuidado com as paredes.
É que, aqui na rua, os galos cantam cedo. Para fitas, já bastam as desta manhã.