O peru que cheirava a bacalhau

 

 

 

E, de repente, faltou a eletricidade!

Não foi caso para assustar muito, nem sequer estava a chover e o vento, sem intensidade exagerada, apenas dançava com algumas folhas soltas. As árvores, quase despidas, não lhe ofereciam muita resistência, limitavam-se a conversar umas com as outras num sussurrar outonal.

Ao princípio da noite bateu-nos à porta o técnico que a PG&E, a companhia produtora de energia, nos enviou para avaliar a situação. Sabíamos que os nossos vizinhos não estavam a ser apoquentados pelo mesmo problema, portanto o técnico concentrou-se no nosso quadro central e, num ápice, detetou a falha num fusível.

Depressa o substituiu por um novo e o apartamento voltou a encher-se de luz, para contentamento da Lisa que, na flor dos seus 6 anos, não lidava bem com a escuridão. A irmã, Carla, nessa altura com apenas 4 meses de idade, nem se apercebeu de nada, claro.

Ao preparar-se para sair, quando atravessava a cozinha, o simpático técnico notou algo diferente e aventurou-se a perguntar: “Hoje é o dia de Thanksgiving e vocês estão a jantar o que não me cheira nem me parece ser peru”. Explicámos ao senhor que a nossa refeição era um prato típico do nosso país de origem, cujo elemento principal é um peixe chamado bacalhau e que pode ser cozinhado de mil-e-uma maneiras diferentes. Não sei se ele acreditou muito na estória das centenas de receitas, o que reparei é que ele deve ter sentido o intenso odor da bacalhoada porque apenas arrematou com um murmurado comentário: “For sure it doesn’t smell like thurkey!”, como quem diz, como é que vocês conseguem comer algo com este cheiro?

De facto, o senhor até poderia ter alguma razão, o odor intenso do bacalhau, pelo menos enquanto está a cozer, pode assustar alguém que não cresceu acostumado à confeção do fiel amigo, o prato nacional por excelência. E bem bom que ele não ouviu a estória contada pelo meu antigo colega de trabalho, o José do Pico. No meio de mais um dia a revestir paredes com placas de sheet-rock, sentados, na hora do almoço, no cú de um balde voltado de pernas para o ar, escutávamos o espertalhote do José a divagar sobre os seus tempos de marinheiro num dos navios bacalhoeiros que pescavam nas costas da Terra Nova. “Aquilo é que era um trabalho teso!”, explicava ele. “Fui para aquela vida para não ter que ir para o Ultramar. O trabalho era duro, mas antes andar no mar do que nas matas de Angola”. O José tinha fama de aumentar muitas das coisas que dizia mas, naquele dia, eu não vi razão para duvidar do que ele nos narrou de seguida. “Não havia tempo para muitas delicadezas. Quando estávamos no porão, a salgar bacalhaus, vocês sabem como é que a gente se desenrascava para mudar a água às azeitonas? Era mesmo ali, o gelo e o sal matavam tudo!”

Eu deveria ter tido um pouco mais de decoro. Não é sinal de boa educação ter o atrevimento de descrever deste modo as façanhas dos heroicos pescadores. Quem sabe, ainda algum dos meus leitores vai deixar de comer bacalhau por minha culpa. Ou os esforçados importadores da Califórnia vão-me rogar umas valentes pragas porque lhes estou a estragar o negócio, esses mesmos comerciantes que agora estão a ser prejudicados com as dificuldades postas à importação de queijo de São Jorge. Mas, em minha defesa, o que eu quero afirmar é que nunca deixei nem deixarei de gostar de bacalhau. E, a mim, o cheiro não me incomoda nada. Não é bem a mesma coisa mas eu até fiquei famoso no seio da minha família porque, nos dias de festa em que o fiel amigo era rei e senhor na nossa messa – o meu pai escolhia sempre o maior e mais gordo bacalhau da sua Loja para a nossa casa – eu temperava o meu prato com azeite e vinagre mas baseava-me no olfato para conseguir a medida certa, metia o nariz bem dentro do prato, para me assegurar do equilíbrio ideal entre peixe e tempero. E, asseguro-vos, ainda o faço hoje em dia, pese o gozo e escárnio da minha patroa, sempre pronta para se sair com uma das suas frases preferidas: “Ai tal tristeza!”.

Lembrei-me destas coisas que já se passaram há quase quarenta anos porque ontem foi Dia do Peru. Agora a Lisa e a Carla, as duas meninas dos meus olhos, são já mulheres maduras que fizeram o favor de nos presentearem com um neto e duas netas. E são elas que planeiam estas reuniões familiares nos dias lembrados, como diria Ti João Bailhão, o avô delas. Só pedem uma coisa à mãe: que confecione um prato de bacalhau. A cozinheira nem precisa ir rebuscar no livro das tais mil e tantas receitas, ela tem no seu reportório uma mão cheia delas que sempre lhe saem bem. Como o bacalhau vem aparecendo de forma contínua nos nossos jantares festivos, um dos meus genros já lhe tomou o gosto e não dispensa uma pratalhada dele, assim como a neta mais velhinha, a Mia Isabel, que ontem foi apanhada sorrateiramente a levantar a coberta da travessa e a debicar no bacalhau de natas. Agora só me falta convencer um genro e dois netos a gostarem do pitéu, por enquanto eles ainda têm uma reação parecida com a do eletricista de há décadas.

Ainda antes de vos desejar, a todos vós que têm a paciência de ler as minhas crónicas, uns dias de felizes festas bem recheados de boas comidas (não se esqueçam do peru ou do bacalhau...), eu queria confessar um “pecado”: quando vou ao mercado comprar bacalhau, eu escolho sempre o da Noruega. Os pescadores do norte da Europa podem ter feito patifarias ainda piores das que o José do Pico e os seus companheiros faziam nos porões dos navios bacalhoeiros. É só porque, se as fizeram, eu não tive conhecimento delas.

O que eu já resolvi, eu que gosto muito de contar estórias, é que esta do meu amigo picaroto (Paz à sua Alma!) eu não vou contar aos meus genros e aos meus netos senão, nos nossos jantares em família, ainda fico a comer bacalhau sozinho.