Com os pés se faz o (bom) vinho

 

 

A chegada do carro dos bois à porta da adega fez com que todos os que estavam em casa se aproximassem para participarem na recepção. 
Até a avó Delminda veio meter o nariz, queria saber se tudo tinha corrido bem na vindima mas, principalmente, queria inteirar-se do meu comportamento e o do meu irmão José Guilherme. Levei logo um recado nas orelhas, que não tinha tido cuidado e o penso branco que levara na testa, estava agora mais escuro que a boina do Urialdo. O aviso não se fez esperar, “Amanhã cedo vamos ao Hospital para o Alexandrino te tirar os pontos”. Má sorte a minha!
O avô nem teve tempo para lhe responder e eu fiz ouvidos de mercador, fui até desagradecido quando ela me perguntou se queria comer uma fatia de massa doce e nem lhe dei troco. Eu não tinha tempo a perder, nem tinham os outros homens. Estava convencido que poderia ser útil àquela tropa,  se o meu amigo João o era, eu então não ia deixar os meus créditos por mãos alheias.
Ao contrário do que se tinha passado durante a manhã, o esvaziar das dornas não demorou muito tempo. Um homem em cada uma, manuseando uma grande forquilha, despejava os cachos de novo para os cestos e, nem piões a deslizarem numa invisível fieira, outros homens, caminhando em carreirinhas curtas, baldeavam-nos para dentro do lagar. A contínua galhofa ajudava à função, seguiam-se os desafios a ver quem se desenrascava mais rápido, com uma inocência própria de homens que não tinham tido tempo de serem meninos.
Eu não via o momento de me deixarem subir para o lagar. “Sossega-te, Ratinho, não vai faltar ocasião!”, ralhou-me o «Faia». “A gente primeiro tem que lavar os pés”. Qual lavar pés qual nada, aquilo foi só esfregar os pés um no outro, dentro de uma celha de madeira, com uma lasquinha de sabão azul e, pronto, já está. Primeiro foram os homens mais experientes, talvez os que o avô julgava que tinham os pés maiores, para renderem mais. Pelo menos essa era a minha teoria, quanto maiores os pés, mais depressa escorria vinho para o tanque. Mas depois pensei em não falar na minha ideia a ninguém , se fossemos avaliados pelo tamanho das extremidades, eles punham-me de parte e acabava-se mesmo ali o meu sonho de vindimador.
Sempre chegou a minha vez. Logo nos primeiros passos estive quase a perder o equilíbrio mas salvei-me ao segurar-me à tranca da prensa. Então resolvi que seria mais fácil se me deslocasse perto das paredes do lagar. E lá fui seguindo, todo contente, a sentir as uvas espremidas debaixo dos pés e entre os dedos. 
Ao enrolar os calções para junto das virilhas vi que as minhas pernas de gafanhoto estavam já tingidas de cor-de-vinho e com bagos soltos a colarem-se à pele. Cheirava a mosto e sentia-se no ar a alegria de ver o trabalho de um ano ali, à frente dos nossos olhos – e debaixo dos nossos pés – a ser transformado no precioso líquido que, dentro de poucos meses, estaria a atravessar o mar alto e a escorrer nas gargantas de outras gentes, noutras ilhas. Urialdo era o mais efusivo, nunca se calava. Sabia que não podia abusar do vinho enquanto trabalhava mas tinha-o sempre na mente. O Gilberto, para entrar com ele, disse-lhe que devia experimentar beber mais leite, far-lhe-ia bem aos ossos. Sem parar a marcha ritmada do pisar dos cachos, o Urialdo abriu um sorriso do tamanho de um cesto e retorquiu: “Só beberei leite quando as vacas começarem a comer uvas, em vez de palha!”. Não sei onde ele terá ouvido tal coisa mas não se saiu mal com a resposta, o mestre do falatório.
O balseiro, já quase cheio até à borda, permitiu a entrada dos potes de madeira que, mergulhados no líquido, o sugavam e o levavam até às grandes pipas do granel. Saltei fora do lagar, limpei as pernas na celha de madeira, calcei as sandálias e dei inicio a nova etapa do meu trabalho. Agora eu seria o escrivão oficial da contagem dos potes para cada pipa. Munido de um pau de giz, fazia um pequeno risco na cabeça da vasilha por cada pote que os homens lá despejavam através do funil – de madeira também – enfiado no topo da pipa. Quando atingia nove riscos, o décimo era feito transversalmente sobre os outros. Portanto, contavam-se os potes, de 12 litros cada um, às dezenas, de forma que quando se aproximava o quadragésimo, o pessoal já sabia que a pipa, se fosse de 500 litros,  estava quase cheia. Havia que deixar espaço para o mosto ferver e não tapar o buraco do batoque, ninguém queria chorar sobre vinho derramado.
Os petromax já iluminavam aquilo que as fraquinhas lâmpadas não tinham potência para fazer. Na rua, a doce e aromática noite caiu devagar e escura, não havia lua. Mesmo assim, José Guilherme e o António Manuel do Alexandrino entretinham-se a brincar com uma bola de borracha, para susto da Sra. Dulce que não queria os vidros das janelas partidos. Mas na adega e no lagar a dança continuava, a labuta do dia ainda estava longe de terminar. Pareciam feitos de ferro, estes homens! Todo o santo dia a trabalhar e, de certeza, que só de madrugada iam poder descansar os corpos durante duas ou três horas porque, no outro dia, voltava tudo ao princípio.
No centro do lagar, com as forquilhas em punho, o «Faia» e o Gilberto amontoavam os cachos esmigalhados num monte, o cangaço ou engaço. Passaram-lhe uma valente corda de espadana em toda a volta, bem apertada de baixo para cima e, depois de tapado com pranchas de madeira, começava o aperto da prensa. O grande peso de pedra  era movido com o auxilio de uma alavanca e o torno de madeira, o fuso, fazia a pesada tranca apertar o bolo até à última pinga. Mais tarde ainda levava outro aperto, o aperto do bagaço. E, claro, tal como nas matanças de porco em que tudo é aproveitado, os restos do bolo iam estrumar as hortas do cebolinho e dos alhos.
O avô Guilherme estava deveras satisfeito. Tinha provado uma pinga de vinho novo e tinha gostado. “É muito doce, vai dar um vinho valente”. Com o passar do tempo teria que fazer sucessivas provas, mesmo misturar um pote ou dois de jaquê ou de outra casta diferente. Ninguém melhor do que ele sabia daquele ofício.
Não imaginava o meu avô nem imaginavam os seus valiosos ajudantes – principalmente o meu amigo João – as lições que me ensinaram. Nunca cavei vinha nem hortas, nunca conduzi uma junta de bois à frente de um carro ou andei agarrado ao cabo de um arado. Mas, desde pequeno que dou o valor ao trabalho das gentes do povo, ao seu esforço e persistência. Extrair trigo, milho e frutos daquelas ilhas requer uma força hercúlea, um saber acumulado durante gerações e uma experiência imensurável. Principalmente no que concerne a produzir o vinho, quase sempre com as videiras plantadas entre as negras pedras basálticas e pisado –respeitosamente – com os próprios pés.
Bem hajam, meus amigos, por tudo o que me ensinaram. Sempre fui respeitado como se fosse um deles, um filho ou um irmão. Muitos já morreram e, dos sobreviventes, alguns já nem se lembram de mim, para mais quando já são passados para cima de 50 anos. Contudo, eu nunca os esquecerei.