A ilha vive nos dois lados do Atlântico

 

 

 

O título que encabeça esta crónica já foi usado por mim, na semana passada, no texto que li durante a festa do 16º Convívio dos Graciosenses, em Lowell, Massachusetts.

Não queria repetir aqui o escrito porque , na verdade, poderá ter algum conteúdo que só faz sentido no ambiente para que foi idealizado. Mas será nele que me vou basear para deixar registado, aqui e agora, alguns momentos que marcaram de forma significativa a minha digressão à Nova Inglaterra. Dito deste modo, até parece que estou a falar como se eu fosse um grande cançonetista ou fadista famoso, daqueles que enchem os nossos salões comunitários. Já agora, vocês já repararam que não há festa nenhuma na Califórnia, seja do Espírito Santo ou de Nossa Senhora Disto e Daquilo que não tenha no seu programa uma Noite de Fados? Bem, mas esse é assunto que não é para aqui chamado.

Então, porque é que eu digo que a Ilha está viva nos dois lados do “Rio Atlântico”, como o laureado professor e ensaísta Onésimo Almeida alcunhou o oceano que separa as ilhas açorianas das terras que nos acolheram a oeste?

As ilhas, geralmente, não morrem. Podem sofrer catástrofes, podem mesmo nunca terem sido habitadas por humanos, podem ser pequenas ou grandes mas, de um modo ou de outro, estão vivas, nem que sejam só abrigo para aves marinhas ou velozes lagartixas que se escondem nos buracos das rochas. A «Ilha» que me ocupa as ideias é apenas uma das nove do arquipélago açoriano, aquela sobre a qual me tenho debruçado nos últimos tempos. É das mais pequenas, carente de muitas coisas mas não de falta de iniciativa e de atividade dos seus habitantes. Ao longo dos séculos, os graciosenses souberam dar a volta às adversidades, sofreram faltas de água e de alimentos, ajeitaram-se à dispersão das suas gentes, que a deixaram (mas não a esqueceram) a caminho da América do Norte e das Terras de Vera Cruz e ajustaram as agulhas às tecnologias modernas ao ponto de serem hoje um dos lugares do país com maior consumo de energias renováveis.

Está viva, a Ilha Branca, também com as suas atividades culturais. Era rara a casa onde não houvesse um piano e é raro o graciosense que fica em casa nos tempos de Carnaval, a pular e a dançar é que eles (e elas...) se sentem bem. O Museu mantem uma coleção digna de registo e uma série contínua de iniciativas muito abrangentes, envolvendo as escolas e os grupos de idosos, ao mesmo tempo que a Câmara Municipal apoia um grande leque de projetos e realizações de cariz cultural.

É verdade, tal como aconteceu nas suas oito parceiras de território, muitos dos filhos abalaram. “Samacaios” levaram-nos para o Brasil e barcas baleeiras trouxeram-nos para as costas da América. Concentraram-se nos Estados atlânticos, desde Nova York até ao Canada, trabalharam na construção, nos “farms”, na limpeza de casas e escritórios e nos “mills” de roupas e sapatos. Cidades como Lowell, Peabody, Lawrence e Somerville, no Estado de Massachusetts, passaram a ser os “Guadalupes” e as “Fontes do Mato”, tal era a concentração de graciosenses. E ainda o são, possivelmente deve haver mais “graciosas” por estas paragens do que na Ilha-Mãe.

Foi aqui que eu vim parar, a convite de amigos, para lhes vir trazer um livro que escrevi a contar as minhas memórias de menino quando passava as férias de verão em casa dos avós maternos. Estava um pouco apreensivo, pensei que as pessoas já nem se lembrassem de mim. Mas enganei-me. Fui muito bem recebido, encontrei velhos amigos e descobri que as gentes da minha família ainda ocupam espaço nas memórias das pessoas. Falaram-me do Nelson e do seu Café, ponto de encontro dos pescadores e baleeiros e contaram-me das aventuras amorosas do velhaquinho que pedia ao Urialdo para o levar, dentro de um cesto de acarrete, para ir visitar a namorada às escondidas; disseram-me coisas dos meus avós, da fama de vinhateiro do avô Guilherme e da simpatia da avó Delminda; um dos tocadores do grupo de  violas que abrilhantou a festa explicou-me a técnica que o Tio Cirino “Rato” usava para construir as Violas da Terra, “Ele esperava pela mudança da fase da Lua para colar o tampo”, disse-me, quando me mostrou o instrumento que foi o último que o Mestre tanoeiro e violeiro fez; e, com muita pena minha pela falta de tempo, saboreei todos os momentos da conversa que tive com o Sr. Manuel Cândido, do Charco da Cruz. Com uma clarividência notável para os seus 92 anos de idade, o simpático ancião, que durante o nosso encontro sempre me tratou por Vossemecê, transportou-me aos seus tempos de vinhateiro e ensinou-me a razão porque a minha família ficou conhecida pela alcunha de “Ratos”: “Eles eram os ratos do Calhau Miúdo, recolhiam tudo o que era madeiras que davam à costa. Eram espertos como ratos, os filha-da-mãe”.

Se já havia sido muito gratificante a minha visita à Ilha Branca em agosto passado, esta viagem até à Graciosa Americana não o foi menos. Espero ter contribuído um pouco para a beleza da festa mas foram eles todos que me deixaram marcas que não esquecerei. Foi uma alegria ver o bonito bote «São Salvador», feito em miniatura pelo Valdemiro Luz, uma justa homenagem ao seu pai e sua companha de valentes baleeiros; deliciei-me a admirar as bonitas violas feitas por Duarte Espínola; e consolei-me a ouvir os cantadores das modas regionais, gente que sente a Graciosa dentro do peito.

Sei que alguns vão ficar zangados mas não posso terminar este escrito sem dizer o quão grato estou ao Rui e à Anita (e aos outros casais organizadores do Convívio), à Sãozinha Cordeiro, ao Francisco Resendes, à Adelaide e ao José Gabriel, ao Jorge Coelho e ao Sr. Mário Costa, aos amigos que me convidaram a participar no encontro em Peabody, à Lucília e ao Gustavo, ao Onésimo de Almeida e, enfim, a todos que me encheram a alma com a vossa ajuda e com a vossa amizade.

Com estas estórias todas que ouvi, com todos estes exemplos de pura Graciosensidade (roubei a palavra que o V.R.Dores inventou) fiquei a pensar que já tenho material para escrever mais um livro!