Está um lindo dia para...

 

Meio-dia de Domingo, numa das primeiras semanas de Outono. Por sinal é também o segundo dia de Outubro. Descolei o traseiro da cadeira da secretária e caminhei, quase como um zumbi, através do pequeno percurso que me leva à porta que me deixa sair da cozinha para o quintal.
Claro que não estou meio-morto, apenas me carimbei de zumbi porque sou capaz de fazer aquele trajeto com os olhos fechados, embora tenha de mudar de direção cinco vezes, duas voltas para a esquerda e três para a direita. Não é que a casa seja muito grande, o corredor é que faz um zigzag apertadinho. Abri a porta de rede e deparei-me com um glorioso céu azul, sem mancha de nuvens. As árvores da margem da ribeira quase que nem se moviam, apenas consegui aperceber-me do suave entoar das folhas, ainda verdes, a tentarem convencer os pássaros que se podem aproximar e fazer-lhes companhia com o seu chilrear. Nem prestei atenção à “Tixa” e à “Lixa”, as duas lagartixas assim batizadas pela Olívia, que quase me passaram por cima dos pés. Com certeza que vão procurar outro pouso ao sol e a isso têm todo o direito, logo que não se metam a mordiscar nos frutos amarelo-esverdeados do mini limoeiro.
Talvez não seja altura de estar a recordar tempos que, afinal, não estão muito longínquos (nem de todo desaparecidos), os dias da epidemia de Coronavírus. Mas, sem dar por isso, enquanto segui a rápida corrida das lagartixas, lembrei-me que o meu quintalinho, que não passa senão de um pequeno relvado e igual área de pátio cimentado, foi, na verdade, o refúgio para os meus dias de isolamento social. Ali, sentado à sombra do guarda-sol ou das árvores que transbordam do lado do vizinho, já que as que crescem na margem da ribeira não me protegem da trajetória do Astro-Rei, passei horas e dias a ler, a admirar os voos dos gansos, a dormir umas sonecas e a matutar. Nessas alturas, fui construindo mentalmente as frases e organizando as ideias para as quase duzentas crónicas do meu “Diário da Epidemia”, que agora jaz guardado na memória do computador. Paz à sua Alma!
Acabei por recordar algumas das citações que fiz no “Diário da Epidemia”, quando me queria referir ao estado do tempo. A 23 de Março de 2020, eu escrevi: “Se o meu Pai estivesse ao meu lado, diria “Está um dia arisco!”. Na escala de valores dele, a diferença entre um dia fresco, arisco, porco, bonito ou ameno poderia ser ínfima.  Se calhar vão ser factores permanentes nestas notas, o olhar o dia através da grade metálica que me separa do trilho da ribeira e o sentir a presença constante do meu Pai e as suas classificações climatéricas.” Segundo a bitola criada pelo meu progenitor, hoje está um dia bonito. Portanto, é aproveitar, daqui a algumas semanas já os dias começam a entrar noutras qualificações. Aliás, esta ideia de definir os dias tem muito que se lhe diga, é uma atividade tão subjetiva com qualquer outra coisa. Muito normal estarmos num ambiente em que alguém se queixe da morrinha do tempo e outra pessoa até afirme que está um dia lindo para... ir às lapas! Um amigo gostava de usar a expressão “Está jeitoso para caiar por dentro!” Ou, então reagir como os bons terceirenses, quer chova ou faça sol de rachar, para os toiros é que eles vão.
Vivo numa zona que é completamente diferente, em termos ambientais e não só, do lugar onde nasci e vivi os primeiros 24 anos da minha vida; agora, com 46 de América em cima do lombo, não digo que tenho saudades de sentir as quatro estações num mesmo dia, como acontece amiúde nos calhaus espalhados no meio do Atlântico. Poderia, de facto, dizer que gostaria de estar mais perto do mar, mas nem era do mar da Califórnia, que é de cor metálica, de cheiro agreste e de temperatura pouco convidativa. Poderia também trocar bem os seis meses de calor intenso que aqui me abafa por umas aragens mais frescas. Mas, por outro lado, não me posso considerar desfavorecido, há situações que fazem destas redondezas um lugar ideal para viver, nem que seja em termos apenas californianos. Vejamos: num Estado que treme violentamente, aqui, no centro-norte, os abalos sísmicos não levantam o pó nem causam danos de maior. De há doze anos para cá só senti um e foi muito suave, se é que qualquer abalo de terra se pode considerar coisa ligeira. Por outro lado, ao meu redor não há grande risco de deflagrarem incêndios florestais, pelo menos nas imediações da cidade onde vivo. Sentimos, isso sim, e de forma bem forte, os efeitos da propagação dos fumos, quando os fogos estão mais perto do que é confortável – too close for confort, como dizem os assustados. Para mais, também estou livre de tempestades de neve, o frio de Inverno pode incomodar um pouco, mas não alcança os tais níveis de desconforto.
Não, não vivo no paraíso, muito longe disso. Quando vejo amigos meus em debandada rumo à Flórida, com o propósito de gozarem as suas reformas perto de praias ensolaradas, fico assim meio desconfiado se seria capaz de o fazer, se se coordenassem muitos aspetos da minha vida. OK, eu sei, não há furacões todos os dias, nem tempestades tropicais a toda a hora. E, se acontecem, não calha atingirem sempre as mesmas zonas, a Flórida é muito grande. Contudo, ao ver o rasto de destruição que o «Ian» deixou depois da sua passagem, não sei se me aventurava a pegar nas bagagens e meter-me a caminho rumo ao Estado das laranjas. Antes passar aqui um Verão inteiro a respirar o ar-condicionado do que passar uma semana em sobressalto, sem saber se o furação me fura as janelas ou me deixa a casa como uma ilha, rodeada de água por todos os lados. É uma tristeza ver as pessoas, essas sim parecidas com zumbis, desprovidas dos seus haveres, apenas com a roupa que trazem no corpo e à mercê da ajuda das autoridades, realmente sem eira nem beira onde se possam acomodar.
Ao fim e ao cabo, temos é que ir vivendo um dia de cada vez, esperar que a viagem futura não sofra muitos baldões e que os furacões, na Flórida, ou os tremores de terra, na Califórnia, não nos apoquentem nem a casa nem a família, que, no fundo, são o nosso Mundo. Confúcio, o filósofo chinês que todos gostamos de citar, dizia que vivia numa casa muito pequena, mas que as suas janelas se abriam para o Mundo. Parece-me que, desta frase, só me atreveria a mudar uma palavra, em vez de janelas eu escreveria quintal. 
É verdade, sem muito esforço, do meu quintal, abrem-se as portadas do meu Mundo, eu vejo tudo o que quero, recebo tudo o que preciso. Hoje, por exemplo, apercebo-me que está um dia bom... para comer um sorvete. 
São servidos?