Além da Casa Branca, democratas podem ganhar o Senado

 

 

 

Se contarmos a partir de hoje, 21 de outubro, estamos a treze dias das eleições de 3 de novembro e as sondagens dão uma vantagem (10 pontos) ao candidato presidencial democrata, Joe Biden, face ao presidente republicano Donald Trump. Neste momento, os inquéritos revelam que Trump tem apenas 13 em 100 probabilidades de ganhar (um valor que recuou de 20 em 100 há duas semanas), contra 87 de Biden e, além disso, cada vez mais republicanos apoiam o ex-vice-presidente de Barack Obama.

Até Caroline Rose Giuliani, filha do ex-mayor de New York Rudy Giuliani e advogado de Trump, apoia Biden e, em artigo publicado na última Vanity Fair, diz que o pai se tornou “buldogue pessoal” do presidente e que uma razão para votar em Biden é “a política cruel e egoísta que Trump infligiu ao nosso país (...) para atiçar a injustiça social a níveis dramaticamente novos na nossa sociedade.”

As eleições de 2020 tornaram-se um referendo para salvar a alma da nação. Todos os políticos, democratas e republicanos, estão lutando por isso, embora não se saiba exatamente o que é a alma da nação e o que significará salvá-la.

Mas sem dúvida que as eventuais respostas dizem respeito ao futuro do país, mais de 20 milhões de eleitores já votaram antecipadamente, um comparecimento sem precedentes tão longe do dia da eleição, e prevê-se uma afluência recorde às urnas no dia 3 de novembro.

Entretanto, o próprio Partido Republicano, ou parte dele, começou a aperceber-se de que Donald Trump não passa de um vendedor de banha da cobra e foi um desastre em várias frentes, a começar pela pandemia do coronavírus em que mais de 220.000 americanos já morreram. Lembre-se que os Estados Unidos têm menos de 5% da população mundial, mas mais de 20% das mortes. Trump nada fez para evitar a impressão da sua incompetência para enfrentar o coronavírus e, segundo sondagem da CNN, 70% dos americanos acreditam que ele lidou mal com a pandemia.

Parece que o bom senso dos americanos prevalecerá dia 3 de novembro e Biden será eleito com a promessa de sarar as feridas da nação. Sleepy Joe é seguramente o homem necessário neste momento. Mais quatro anos de Trump na Casa Branca poderão ser um desastre para os Estados Unidos e o mundo.

O Partido Republicano já se terá apercebido e muitas das suas figuras começaram a distanciar-se do atual presidente. Regra geral, os candidatos presidenciais têm rabo de cavalo que ajuda na votação de candidatos do seu próprio partido porque ajudam a expandir a participação de eleitores com ideias semelhantes. Há quatro anos, com Hillary Clinton à frente nas sondagens, alguns senadores republicanos apostaram que Trump não ganharia a Casa Branca, mas a verdade é que ganhou inesperadamente para todos, a começar por ele próprio. 

Dos 33 estados que também tiveram eleições para o Senado há quatro anos, 23 candidatos republicanos obtiveram uma percentagem de votos maior do que Trump. Desses 23, 17 eram estados em que Trump venceu, sugerindo que o candidato à Casa Branca ajudou o candidato a senador, mas em 2020 as coisas parece terem mudado. A queda de popularidade de Trump afeta os candidatos republicanos ao Congresso.

Além da Casa Branca, nas eleições de 2020 são renovados toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado, onde os republicanos têm a maioria de quatro lugares. Com base em sondagens e no ambiente político de cada estado, pelo menos 12 senadores republicanos estão em perigo e aos democratas basta vencer quatro para reconquistar a maioria. 

O discurso de campanha dos senadores republicanos deixou de ser a defesa de Trump e passou a ser a defesa deles próprios, receando a maior derrota numa eleição legislativa desde a derrocada republicana após o escândalo de Watergate em 1974. 

A vitória de Joe Biden começou a ser considerada certa e o “desastre” de que os republicanos agora falam é num Senado controlado pelos democratas que colabora com um presidente democrata e numa Câmara dos Representantes democrata.

Com maioria democrata no Congresso, Biden, entre outras coisas, poderá desfazer a reforma tributária de Trump, nomear juízes democratas no sistema judicial federal,  poderá até mudar a lei para ampliar o número de membros do Supremo Tribunal Federal e desativar a maioria artificial criada pelos republicanos (em quatro anos conseguiram nomear três juízes para o Supremo Tribunal e quase 200 juízes federais, 25% de todos os juízes federais do país).

Esta situação parece ter alertado os democratas para o facto de que o poder em Washington não está apenas na Casa Branca e daí terem-se concentrado este ano na eleição para o Senado, depois de terem conquistado em 2018 a maioria na Câmara dos Representantes com mais 40 lugares. Foi, aliás, essa maioria que permitiu aos democratas, entre outras coisas, iniciar a investigação que levou ao impeachment de Trump e obrigar o Senado a negociar qualquer medida económica. Este ano, os democratas concentraram-se nas eleições para o Senado.

Na Carolina do Sul, por exemplo, o candidato democrata Jaime Harrison arrecadou 57 milhões de dólares a semana passada para propaganda, um recorde absoluto para um candidato ao Senado. Harrison enfrenta o republicano Lindsey Graham, presidente do Comité de Justiça do Senado.

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, tem vindo a afastar-se de Trump e afirmou que, caso o ex-vice-presidente Biden ganhe a Casa Branca, manter a maioria republicana (53-47) é o garante de maior cooperação bipartidária.

McConnell, senador pelo Kentucky, foi o verdadeiro árbitro do poder em Washington durante seis anos. Fez dos últimos dois anos de Barack Obama na Casa Branca um inferno e Donald Trump, na realidade, só foi capaz de aprovar o que McConnell deixou para ele, um corte de impostos. McConnell e outros republicanos do Senado tomaram medidas mais ou menos deliberadas para se distanciarem de Trump e das suas atitudes impopulares pressionados pelas sondagens recentes que revelam que os democratas têm mais de 50% de possibilidades de obter o número necessário de lugares para retomar o Senado, o que levou McConnell a considerar as eleições “um desfiladeiro eleitoral para os republicanos.” 

“Muitos dos nossos eleitores republicanos suburbanos não são grandes fãs de Trump e não estão afastados de Biden da maneira que podem ter estado de Hillary Clinton”, disse David Popp, porta-voz de McConnell. “Lembre-se, a economia beneficia da estabilidade em Washington, eles estão votando pela estabilidade neste país. Mas também não querem trocar quatro anos de loucura de Trump por quatro anos de loucura socialista”.

Outro republicano a coçar a cabeça é o senador Ted Cruz, que  alertou para um “banho de sangue republicano de proporções do Watergate”.

A verdade é que alguns senadores republicanos estão em dificuldades. Dois lugares praticamente perdidos são os do Colorado e do Arizona. O Colorado é um estado roxo por excelência, ou seja, costuma distribuir poder entre republicanos e democratas. Desta vez, o senador republicano Cory Gardner abraçou totalmente o trumpismo e as sondagens dão ao ex-governador democrata John Hickenlooper uma vantagem considerável.

Os democratas têm também grandes esperanças no Arizona, onde as pesquisas indicam grande mobilização do voto latino e urbano, bem como uma insatisfação palpável dos republicanos locais com Trump, combinação que poderá dar a Joe Biden o estado do Arizona, onde nenhum candidato presidencial democrata ganha desde 1996. Para o Senado, os democratas apresentam o ex-astronauta Mark Kelly, marido da ex-congressista Gabby Giffords, que sofreu um ataque. A semana passada, Kelly angariou 38 milhões de dólares para propaganda.

Entre as disputas menos claras, seis senadores republicanos estão empatados nas sondagens com candidatos democratas. São da Georgia, Iowa, Maine, Montana, Carolina do Norte e Carolina do Sul. A cadeira mais fraca é Maine, ocupada por Susan Collins, uma autodenominada republicana moderada que concorre ao quinto mandato, mas as últimas sondagens dão à democrata Sara Gideon vantagem de quatro e sete pontos. Embora seja moderada, Collins votou contra o impeachment de Trump e apoiou o seu projeto de corte de impostos em 2017.

Há quatro anos atrás, vários senadores republicanos repudiaram publicamente Trump, muitos deles por causa da fita do Hollywood Access, na qual a então estrela de reality show foi apanhada a gabar-se de apalpar mulheres. A fita foi recentemente relançada e três senadores republicanos que estão tentando reeleger-se este ano (Cory Gardner no Colorado, Ben Sasse no Nebraska e Dan Sullivan no Alaska), disseram de imediato que não votariam em Trump.

Num comício da semana passada, Ben Sasse, senador republicano do Nebraska, criticou duramente Trump pela forma como “beija o rabo a ditadores”. 

“Ele não é apenas medíocre como republicano. Ele é medíocre como americano”, disse Sasse, acrescentando que lhe parece “muito provável” uma derrota do candidato republicano numas eleições que ele prevê poderem vir a ser “um banho de sangue” para o seu partido, que pode perder a maioria no Senado.

Os ataques de Sasse a Trump foram notícia nacional, mas na opinião dos analistas os republicanos que tentam  distanciar-se do presidente não devem ver muitos benefícios, pois não ganham o voto de muitos democratas ou independentes e arriscam-se a perder o apoio dos seus eleitores de base, os republicanos.

Os candidatos republicanos de 2020 estão numa situação pouco invejável, Trump é uma faca de dois gumes. Outro senador republicano, John Cornyn, do Texas, que está em dura disputa pela reeleição, tentou distanciar-se de Trump e comparou o relacionamento deles a um casamento em que um dos cônjuges não consegue mudar o comportamento do outro.

Mas nem toda a gente vê com bons olhos os eleitos republicanos virarem as costas a Trump. Enfadado com uma situação sem qualquer resquício de dignidade política, Dan Rather, ex-apresentador do telejornal da CBS, comparou no Twitter ratos fugindo de um navio que afunda com os nervosos senadores republicanos que até aqui apoiaram Donald Trump e fogem dele agora que se está afundar. 

Rather adianta que isso “não é justo com os ratos”. É que os ratos não são tão maus como os republicanos que abandonam Trump, porque geralmente não são cúmplices no afundamento dos navios.

Para a liderança republicana há muita coisa em jogo nas próximas eleições e, mais do que a reeleição de Donald Trump, estão a procurar manter a maioria no Senado. É uma eleição em que vale tudo e muita gente com muito dinheiro envolvido. Rupert Murdoch, dono de várias televisões e jornais, Seldon Adelson, dono de vários casinos e resorts, e outros, têm feito tudo para que Biden (e o que resta de Barack Obama) seja destruído e não apenas vencido. E têm dado alguns biliões de dólares ao Partido Republicano.

Os mais famosos (e generosos) apoiantes do Partido Republicano são a família Koch, cujos rendimentos em 2017 foram 100 biliões de dólares e que tem apoiado financeiramente os republicanos com o objetivo primordial de reduzir os impostos e as regulamentações corporativas. Como Charles Koch disse num discurso, ele quer parar com a “tributação confiscatória”, “regulamentos de segurança e saúde”, “barreiras comerciais”, “os chamados requisitos de igualdade de oportunidades” e “muitas outras intervenções.”

Os Koch têm apoiado sobretudo um projeto judicial conservador e a verdade é que há muito que o Supremo Tribunal Federal e os tribunais federais estaduais  tornaram mais difícil a organização dos sindicatos, mais difícil para os consumidores e trabalhadores combater a fraude corporativa e mais fácil para os americanos ricos dar milhões de dólares em doações de campanha, muitas vezes secretamente. Estas decisões são uma das razões pelas quais o rendimento dos americanos muito ricos aumentou muito mais rápido nas últimas décadas do que o rendimento da classe média e dos pobres, que são presentemente 41 milhões.

“Durante o último meio século, o Tribunal tem traçado planos para uma nação economicamente cada vez mais desigual”, escreveu Adam Cohen, ex-editorialista do New York Times, no seu livro Desigualdade Suprema. É incrível, mas as 400 famílias mais ricas pagaram menos impostos em 2018 do que a denominada classe trabalhadora e os mais pobres (62 milhões de lares). Os primeiros destinaram 23% do seu rendimento no pagamento de impostos aos governos locais, estaduais e federal, enquanto os demais pagaram 24,4%.

Isto para não falarmos do presidente Trump, que pagou só 750 dólares em impostos federais sobre rendimento no ano em que foi eleito para a Casa Branca. Após um ano na presidência dos Estados Unidos, pagou apenas mais 750 dólares. E não pagou qualquer imposto sobre o rendimento durante 10 dos 15 anos anteriores a ter sido eleito para a Casa Branca.