Biden convida Gina Raimondo e Marty Walsh para o governo

 

 

 

Quando Joe Biden foi eleito, os analistas do New York Times e do Washington Post escreveran longos artigos sobre as possibilidades dos ex-candidatos presidenciais Elizabeth Warren e Bernie Sanders fazerem parte do governo. Ela, senadora por Massachusetts, seria secretária do Tesouro. Sanders, o socialista democrático de Vermont que alinha com os democratas, seria secretário do Trabalho. 
Mas a vitória democrata nas eleições da Geórgia, que dividiu o Senado em 50 democratas e 50 republicanos e tanto Warren como Sanders são mais úteis ao partido no Congresso do que no governo.
Além disso, uma vez que os governadores dos estados que representam são republicanos, seria natural eles nomearem republicanos para preencherem o resto do mandato de ambos, embora o governador de Vermont, Phil Scott, tivesse prometido que nomearia um independente.
Portanto, é contando com Warren e Sanders, e todos os outros 48 senadores democratas, e ainda com a vice-presidente Kamala Harris a desempatar as votações na qualidade de presidente do Senado, que o Partido Democrata obteve nesta legislatura uma importante trifecta, ou seja controla o executivo (Casa Branca) e tem maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. Espera-se que saiba aproveitar.
Elizabeth Warren não era a única democrata de Massachusetts considerada para um cargo na futura Casa Branca de Biden. O ex-secretário de Estado John Kerry vai ser negociador-chefe de Biden nas questões climáticas, cargo criado em 2015 por Obama e que Donald Trump aboliu em 2017.
Falou-se também na possibilidade de Maura Healey, procuradora estadual de Massachusetts, conseguir emprego no Departamento de Justiça, mas pelos vistos vai continuar em Boston. 
Deval Patrick, ex-governador de Massachusetts recém-saído da candidatura presidencial, também fez parte das listas de cargos no Departamento de Justiça, onde já trabalhou em 1994 supervisionando a Divisão de Direitos Civis durante a presidência de Bill Clinton, mas ainda não arranjou nada e Biden já tem procurador-geral. 
Será Merrick Garland, 68 anos, juiz do Tribunal de Recursos de Washington DC, que ficou famoso quando Obama o nomeou para o Supremo Tribunal em  2016 e foi rejeitado pelos senadores republicanos, que adotaram a estratégia do controlo ideológico dos tribunais federais. Agora vai ser ministro da Justiça, um prémio de consolação pela sacanice de que foi alvo.
Correram também rumores de que o mayor de New Bedford, Jon Mitchell, estaria em conversações com Biden sobre uma posição na sua administração, mas, como diz um velho político, convites para fazer parte do governo são como as camisas Lacoste – toda a gente tem, mas poucas são verdadeiras.
Quando constou em Boston que Biden considerava vários republicanos para cargos importantes no seu governo, o governador Charlie Baker foi um dos referidos. Baker foi um dos maiores críticos de Trump embora pertençam ao mesmo partido, mas estas jogadas partidárias nem sempre resultam.
Bill Weld, ex-governador republicano de Massachusetts, renunciou em 1997 após ser nomeado embaixador dos EUA no México pelo presidente democrata Bill Clinton, mas os republicanos no Senado tomaram-no de ponta e nunca aprovaram a nomeação.
A semana passada, Joe Biden confirmou duas nomeações que já eram previstas, a governadora de Rhode Island, Gina Raimondo, será secretária do Comércio, e o mayor de Boston, Marty Walsh, secretário do Trabalho. Biden convidou os dois a deslocarem-se ao Delaware para uma apresentação formal e Gina teve oportunidade de contar para um auditório nacional a história que os habitantes de Rhode Island já ouviram e que é de como a família da governadora lutou depois do pai ter perdido o emprego de 28 anos na fábrica de relógios Bulova, que mudou a sua fabricação para outro país.
Raimondo disse que assumiu como missão criar empregos depois que seu pai perdeu o dele, e agora ela vai tentar aplicar isso a um país que tem sete milhões de desempregados.
Para Raimondo é a continuação da carreira política a nível federal, uma vez que está no segundo mandato e não pode concorrer em 2022 ao terceiro mandato como governadora de Rhode Island.
O convite a Raimondo é curioso, uma vez que endossou Michael Bloomberg e não Biden nas primárias democratas. Mas Biden deve ter levado em linha de conta que ela é considerada “estrela em ascensão” no Partido Democrata, especialmente depois de uma bem sucedida presidência da Associação de Governadores Democratas.
Natural de Rhode Island (nasceu há 49 anos em Smithfield), Raimondo é formada em Direito e começou por ser tesoureira estadual, ganhando notoriedade e a animosidade de alguns sindicatos pela reforma do sistema estadual de pensões. Foi eleita governadora em 2014 e reeleita em 2018, sendo a primeira mulher a exercer estas funções.
Inicialmente, Raimondo foi dada como possível secretária do Tesouro e secretária da Saúde, mas vai ser secretária do Comércio, departamento responsável pelo desenvolvimento económico tanto no mercado interno como no exterior e pelos acordos comerciais internacionais, além de supervisionar o U.S. Census Bureau, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional e o Serviço Meteorológico Nacional.
Raimondo é a primeira mulher natural de Rhode Island a fazer parte do governo dos EUA. No naipe masculino já tivemos G. William Miller, secretário doTesouro de Jimmy Carter; John Chafee, secretário da Marinha de Richard Nixon; e James Howard McGrath, procurador-geral de Harry Truman.
Raimondo deve permanecer como governadora até à confirmação da sua nomeação pelo Senado dos EUA e nessa altura o vice-governador Dan McKee tomará posse como governador interino nos dois anos finais do mandato de Raimondo.
Em Rhode Island, governador e vice-governador concorrem separadamente e não como candidatura conjunta. McKee sempre se queixou de ser deixado de fora do círculo de Raimondo. 
“Sou um guarda-redes reserva que não faz parte da equipa. Eu nem sequer tenho equipamento”,  reclamou McKee em entrevista ao Providence Journal.
McKee não fez comentários sobre a ida de Raimondo para Washington, limitando-se a dizer que está pronto para governar se a sua hora chegar.
Diz-se que McKee já teria convidado o mayor de Johnston, Joe Polisena, para lhe suceder como vice-governador, mas um projeto de lei apresentado a semana passada deu essa autoridade aos legisladores estaduais e esse convite parece comprometido. Tanto mais que, além de Polisena, também já apareceram interessados no cargo, o senador estadual Lou DiPalma, de Middletown, e James Diossa, que acaba de deixar de ser mayor de Central Falls e procura emprego.
Outra questão em aberto em Rhode Island é quem será o candidato democrata a governador em 2022. McKee diz que pretende concorrer, mas pelo menos dois outros detentores de cargos estaduais são potenciais candidatos, a secretária estadual Nellie Gorbea e o tesoureiro estadual Seth Magaziner.
Para os republicanos, a ida de Raimondo para Washington é uma boa notícia. Em especial para o ex-mayor de Cranston, Allan Fung, que já concorreu duas vezes a governador, ambas contra Raimondo e sem sucesso. Fung poderá candidatar-se pela terceira vez no próximo ano e, como diz, ter finalmente “o seu biscoito da sorte”.
Quanto a Boston, desde que Joe Biden foi eleito que a imprensa local falava na possibilidade do mayor Marty Walsh ter um cargo na nova administração e para isso contribuiam, além da sua experiência como mayor da 22ª maior cidade do país, o seu bom relacionamento com Biden, por quem fez campanha na etapa final da corrida presidencial de 2020.
Antes de se tornar o 54º mayor de Boston em 2014, Walsh, 53 anos, que é natural de Dorchester e filho de imigrantes irlandeses, foi membro da Câmara dos Representantes de Massachusetts e dirigente do sindicato dos Laborers Local 223. Se confirmado pelo Senado, será o primeiro ex-sindicalista a chefiar a secretaria do Trabalho em 50 anos.
Em 15 de abril de 2014, Joe Biden, então vice-presidente de Barack Obama, compareceu a uma cerimónia do primeiro aniversário do atentado bombista da Maratona de Boston, fez amizade com o mayor Walsh e desde então voltou várias vezes a Boston.
Em 6 de dezembro de 2017, já ex-vice-presidente, Biden deslocou-se a Boston para almoçar com Walsh no centenário No Name Restaurant, no Seaport, e assistir à entrega dos New England Women’s Leadership Awards no Boys and Girls Club de Dorchester. Em 1 de janeiro de 2018, voltou para presidir à cerimónia de posse do segundo mandato de Walsh como mayor, realizada no Majestic Theater.
Em 18 de abril de 2019 e já candidato presidencial, Biden juntou-se a Walsh num comício dos 31.000 trabalhadores da cadeia de supermercados Stop & Shop em greve. E em 5 de junho de 2019, Biden visitou o Memorial dos Heróis Caídos no Martin’s Park, assim chamado em homenagem a Martin Richard, menino de nove anos morto no atentado da Maratona de Boston.
Walsh será secretário do Trabalho numa das etapas mais críticas dos Estados Unidos, com milhões de pessoas sem trabalho e enfrentando a perda do subsídio de desemprego. 
Mas além disso a sua ida para Washington poderá ter outras implicações em Boston. Walsh será substituído pela presidente do conselho municipal, a democrata Kim Janey, que assumirá o papel de mayor interina de Boston, tornando-se a primeira mulher e a primeira pessoa de cor a liderar a maior cidade da Nova Inglaterra. 
Janey é negra, foi eleita em 2017 e tornou-se presidente do conselho municipal no ano passado. É de Roxbury e a sua família é membro da Décima Segunda Igreja Batista, outrora frequentada por Martin Luther King Jr. e onde há até uma “sala de Janey”.
Janey será mayor até à realização de uma eleição especial ou até à próxima eleição em novembro. 
É ano eleitoral para mayor de Boston e as eleições regulares estão marcadas para novembro. Se Walsh sair antes de 5 de março, isso desencadeará uma eleição especial que terá de ser realizada 120 a 140 dias após a renúncia do mayor cessante. Se sair após 5 de março, a cidade seguirá com as eleições regulares já marcadas e quem ganhar essas eleições tomará posse imediatamente. Kim Janey ainda não disse se concorrerá a um mandato completo de mayor, mas as conselheiras municipais Michelle Wu e Andrea Campbell já tinham anunciado a candidatura contra Walsh e, o facto de ele não concorrer, reforçou a candidatura das duas. Acrescente-se que ambas são negras.
Mas entretanto surgiram outros possíveis candidatos. O senador estadual Nick Collins, que é branco, os deputados estaduais Aaron Michlewitz, branco,  e Jon Santiago, negro, e a conselheira municipal Annissa Essaibi-George, que é tunisina. O comissário de polícia de Boston, William Gross e o xerife de Suffolk Steve Thompkins também são nomes que estão sendo divulgados e ambos são negros. Fala-se igualmente na possível candidatura do chefe de Desenvolvimento Económico de Boston, o cabo-verdiano John Barros.
Cerca de 24% da população de Boston é negra, mas a cidade nunca elegeu um mayor negro. O afro-americano que chegou mais perto foi o ex-deputado estadual Melvin H. King em 1983, que ficou em segundo lugar nas eleições primárias antes de perder para o conselheiro Raymond Flynn na eleição geral. 
Mas as coisas estão a mudar. A presidente da Associação Nacional de Boston para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), Tanisha Sullivan, prevê que o próximo ou a próxima mayor de Boston poderá ser afro-americano. Com efeito, pode muito acontecer se considerarmos que, dos possíveis candidatos conhecidos até agora, oito são de cor e apenas dois são brancos.