O 25 de Abril entre as brumas da memória

 

O 25 de abril de 1974 é data marcante da história recente de Portugal e no momento em que o regime democrático cumpre meio século parece-me oportuno relembrar o que foi esse dia na comunidade portuguesa nos Estados Unidos.
Desde 1961 que vivo longe de Portugal, primeiro em Angola e nos EUA desde 1973. Tenho vivido Portugal com as exaltadas memórias de exilado e por isso, decorridos 50 anos, o meu 25 de Abril continua vivo como se tivesse sido ontem e mesmo tendo sido vivido a 5.150 quilómetros de distância de Lisboa, em New Bedford, Massachusetts.
Na manhã do dia 25 de abril de 1974 eu fazia o que faço neste momento e tenciono fazer enquanto for possível: escrevia notícias para o Portuguese Times.
Já agora, recordo que tinha trabalhado uns anos fazendo uns programas na Rádio Voz de Lisboa quando fui mobilizado para Angola em 1961 e tornei-me peão do xadrez do colonialismo. Passei oito anos em Angola como chefe dos serviços de produção do Rádio Clube do Uige em Carmona (Uige) e correspondente do matutino Comércio de Luanda. Foram oito anos interessantes e que encerrei vindo para New York e tentando fixar-me como correspondente da Emissora Oficial de Angola e do Diário de Luanda.
Foi um desastre (ainda estou à espera do pagamento das crónicas), e valeu-me ter começado a trabalhar em outubro de 1973 no Portuguese Times, que naquele tempo se publicava em Newark, New Jersey. A redação era na Wilson Avenue, onde existe hoje uma pastelaria Coutinho.
O António Alberto Costa tinha comprado o jornal há cerca de um ano e, quando decidiu mudar para New Bedford, eu vim com os tarecos. A redação era no 57 Rodney French Boulevard, sul de New Bedford, onde o Manuel Cidade tem hoje a sua oficina de automóveis.
O 25 de Abril aconteceu numa quinta-feira e era dia do fecho da edição, de fazer os anúncios, paginar as últimas notícias e levar as páginas para a tipografia. Hoje o jornal fecha à segunda e é tudo muito mais fácil com as modernas tecnologias, mas naquele tempo não havia Internet, nem computadores. Era tudo artesanal. Eu montava anúncios e paginava, recortando e colando textos e fotos nas páginas que eram levadas para a tipografia a fim de serem impressas, enquanto que hoje vão pela Internet.
Por isso na manhã do dia 25 de abril de 1974 entrei no jornal ainda não eram oito horas e, mal cheguei, a Donzília Sousa, que vinha de Fall River e entrara mais cedo para adiantar a composição dos anúncios que eu iria paginar, disse-me que alguém acabara de telefonar informando que acontecera qualquer coisa em Portugal e a tropa andava na rua.
Nunca se soube quem telefonou, mas foi assim, num simples e anónimo telefonema, que a notícia do 25 de Abril chegou ao Portuguese Times.
Aliás, nesse dia as notícias de Portugal foram escassas, não havia CNN, nem RTP Internacional, nem fax e a única agência noticiosa portuguesa, a ANI, mandava notícias para os EUA pelo correio e uma vez no mês. Por outro lado, a embaixada de Portugal em Washington não atendia telefonemas, mas também pouco poderia informar. Ainda assim o dia foi de euforia. O Augusto Saraiva, o antigo dono do jornal, que continuava como correspondente em Newark, telefonou-me a sugerir uma edição especial alusiva ao golpe militar, mas Costa pensava que em Portugal apenas caiam donzelas e não regimes, e só deu a notícia na semana seguinte.
A edição número 185 do Portuguese Times, do dia 25 de abril de 1974, traz a notícia da prisão em Lisboa de 55 intelectuais (José Manuel Tengarrinha, Mário Ventura Henriques e outros), mas nada do golpe militar 25 de Abril.
A notícia do derrube da ditadura só saiu no número 186, já com editorial do Costa e um artigo do Onésimo Almeida (“Carta aberta à malta do 25 de Abril”) e deste vosso criado (“Os emigrantes e o 25 de Abril”) e um anúncio da venda do famoso livro do general António de Spínola “Portugal e o Futuro” pelo correio ($5). A primeira grande dúvida do 25 de Abril foi saber para que lado Portugal cairia. Depois do falhado golpe de 16 de março no Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha e da demissão dos generais Spínola e Costa Gomes, corriam rumores sobre a possibilidade de um golpe de direita liderado pelo general Kaulza de Arriaga.
Pessoalmente, tranquilizei no próprio dia 25 de abril, quando o telejornal da CBS mostrou imagens do povo a aplaudir nas ruas de Lisboa e os soldados com cravos no cano das espingardas. Se tivesse sido um golpe do  Kaulza, as espingardas teriam baionetas. Também nunca esquecerei o momento em que Walter Cronkite, respeitado jornalista da CBS, informou paulatinamente que o presidente Américo Tomás e o primeiro-ministro Marcelo Caetano tinham sido “exilados para a ilha espanhola da Madeira”.
Portugal só é notícia nos Estados Unidos quando há tremor de terra ou revolução, por isso durante uma semana só se falou de Portugal nos networks e nos jornais nacionais.
O New York Times consagrou o seu editorial de 26 de abril de 1974 ao golpe militar: “Se a Junta (de Salvação Nacional) conseguir realizar o seu programa, isso será um grande alívio para a NATO, constantemente preocupada com um governo que praticava a repressão no interior e continuava as guerras coloniais em África”.
No dia 28, o New York Times publicou novo editorial sobre o “tremor de terra político” que sacudira Portugal e as ondas de choque que se fariam sentir em Espanha, na Grécia e em África. O editorialista profetizava que o “vírus” democrático português contagiasse gregos e espanhóis e a independência de Angola e Moçambique precipitasse o fim dos governos minoritários brancos na Rodésia e na África do Sul, e não se enganou.
Hoje, a teoria geralmente aceite é que os americanos estariam a leste e nada tiveram a ver com o 25 de Abril, tanto mais que o embaixador Stuart Nash Scott, um advogado novaiorquino que era amigo pessoal de Nelson Rockefeller e Richard Nixon, não era diplomata de carreira, estava pouco familiarizado com a mais velha ditadura europeia e a guerra colonial que se arrastava há 13 anos.
Contudo, o Washington Post de 8 de abril de 1974, noticiara precisamente a chegada de Stuart Nash Scott a Washington, para consultas no Departamento de Estado, acrescentando que homens de negócios portugueses tinham dado luz verde a uma mudança de regime em Portugal desde que levada a cabo pelo general Spínola.
Não me surpreenderia se Washington tivesse metido o nariz no 25 de Abril se tivesse sabido antecipadamente. Sabia-se vagamente que anos antes, no 13 de Abril de 1961, uma tentativa de conspiração para derrubar Salazar liderada pelo ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz, tinha sido em parte urdida pela CIA e pela embaixada americana em Lisboa.
Foi o próprio embaixador Charles Burk Elbrick quem, em telegrama enviado para Washington já depois do desfecho do golpe, reconheceu que, aos olhos dos responsáveis portugueses, Botelho Moniz era “suspeito de ter conspirado com os Estados Unidos para afastar Salazar”.
Pouco depois dos motins urbanos ocorridos em Luanda no início de fevereiro de 1961, Botelho Moniz almoçou com Elbrick e confessou-lhe que, na sua opinião, a manutenção da situação na África portuguesa era “impraticável e indesejável”. O embaixador mostrou-se impressionado com a postura do general e informou Washington que, embora não descortinasse ainda “o papel exato que ele (Botelho Moniz) procurava desempenhar no futuro”, encontrava-se “numa posição estratégica e tratava-se “de um homem a observar”.
No entanto, à medida que se foi tornando evidente que Botelho Moniz e os seus apoiantes estariam prestes a passar à ação, levantaram-se em Washington algumas vozes contrárias à política seguida pelo embaixador Elbrick. A 11 de Abril de 1961, ou seja, dois dias antes do golpe, Foy Kohler, secretário de Estado adjunto para os assuntos europeus, discutiu a evolução da situação interna em Portugal com o secretário de Estado Dean Rusk e considerou imprudente e pouco razoável “cortar os nossos laços com o governo de Salazar ou apoiar abertamente Moniz e o seu grupo”. Assim se justifica que Elbrick se tenha recusado a receber Moniz a 13 de Abril. Antes de passar à ação, o general havia decidido visitar a embaixada a fim de conversar uma vez mais com Elbrick e assegurar-se do apoio norte-americano no caso de um golpe de estado, mas encontrou as portas da embaixada fechadas.
Por essas e por outras, os capitães do golpe de 25 de abril de 1974 evitaram recorrer aos norte-americanos e a CIA não teve conhecimento prévio do golpe. Naquela altura, o posto da CIA em Lisboa era composto apenas por John Stinard Morgan, chegado dias antes do 25 de Abril, Frank W. Lowell e Leslie F. Hughes, todos incorporados na embaixada como oficiais de telecomunicações.
Nos seus relatórios sobre Portugal, a CIA apenas tinha referido a remota possibilidade de um golpe de direita protagonizado por Kaulza de Arriaga, politicamente em desgraça desde o massacre de Wiriyamu, em 1973, em Moçambique.
“É impossível que se registe instabilidade política séria nos próximos meses”, referia um relatório de dezembro de 1973 e que terá levado o diretor da CIA, William Colby, a sugerir o encerramento do posto em Lisboa.
Confirmando os EUA terem sido surpreendidos pelo golpe, o secretário de Estado Henry Kissinger admitiu que “Washington nada sabia sobre qualquer um dos protagonistas envolvidos”.
Nas suas “Notes on My Tour as Ambassador to Portugal”, Stuart Nash Scott admite que a embaixada não previu o golpe de Estado, mas acrescenta: “Podemos ficar com os créditos por termos reportado desde o dia em que o livro de Spínola foi publicado que uma crise estava a emergir e que, desde o dia em que ele (Spínola) e Costa Gomes foram demitidos, o estado de coisas então existente não podia continuar, sendo que algo estava para acontecer em breve”.
Curiosamente, dia 2 de abril de 1974, a 23 dias do 25 de Abril, o ministro da Educação José Veiga Simão tentou convencer o embaixador Stuart Nash Scott a prometer o apoio de Washington ao primeiro-ministro Marcelo Caetano se este aderisse às teses que Spínola expusera em “Portugal e o Futuro”.
Veiga Simão seria presumivelmente intermediário de Caetano e a diligência mostra a disponibilidade do primeiro-ministro em pôr fim ao regime se conseguisse apoios internacionais. Veiga Simão almoçou com o número dois da embaixada, Richard Post, tentando persuadi-lo de que Marcelo Caetano era pressionado pelo presidente Américo Tomás e a ala mais à direita do regime, mas o apoio dos EUA poderia convencer o primeiro-ministro a aceitar uma solução política na guerra colonial em África, conforme explicou Stuart Nash Scott num telegrama para Henry Kissinger.
O jornal Washington Post de 8 de abril de 1974, noticiando precisamente a chegada de Stuart Nash Scott a Washington, para consultas no Departamento de Estado, adiantava que homens de negócios portugueses davam luz verde a uma mudança de regime em Portugal desde que levada a cabo pelo general Spínola, mas a ideia não agradou a Kissinger.
“Uma aproximação nesse sentido pelo governo (norte-americano), de apoio às teses de Spínola não contribuiria para uma política mais flexível de Portugal em África”, respondeu Kissinger num telegrama enviado ao embaixador em Lisboa datado de 20 de abril de 1974, a cinco dias do golpe que derrubou a ditadura.
Prova de que o embaixador Stuart Nash Scott também desconhecia a possibilidade do golpe militar é que não estava em Lisboa no dia 25 de abril, encontrava-se no destacamento americano da Base das Lajes, na ilha Terceira, aguardando avião para os EUA, onde iria participar num jantar de antigos alunos da Harvard Law School.
Na manhã do dia 25 de abril estava ainda nos Açores e foi acordado pelo seu número dois, Richard Post, que telefonou a informar que havia uma revolução em Portugal, mas Scott não voltou a Lisboa, viajou para os EUA e só retomaria o seu posto no dia 29 de abril.
Com Stuart Scott ausente, o responsável pela embaixada de Lisboa era Richard Post, mas este, como disse mais tarde numa entrevista ao semanário Expresso, nem sequer saltou da cama na madrugada do 25 de Abril.
“O telefone tocou no meu quarto. Era o guarda da nossa casa no Restelo, um ex-quadro da DGS (Pide), que ligara do telefone central na garagem e disse-me: “Perigo, perigo”. Não percebi. A minha mulher, ensonada, comentou: “Oh, isso é o nome do guarda!” Desliguei e voltámos a dormir. Seriam aí umas seis da manhã quando um dos adidos militares me telefonou, dizendo que havia tanques na rua e música militar na rádio”. Não houve problemas para o pessoal da embaixada dos EUA em Lisboa no dia 25 de Abril e um dos melhores relatos foi do embaixador Robert S. Pastorino, falecido em 2013 e que foi adido comercial em Lisboa de 1974 a 1977. Nas suas memórias, Pastorino escreveu:
“Houve júbilo real nas ruas nas primeiras semanas. Tenho uma imagem maravilhosa do meu filho, que tinha seis anos de idade, entre dois jovens soldados portugueses. Eles estão segurando espingardas, cada um com um cravo no cano e estão sorrindo. Steve está lá segurando uma placa que diz: Viva Portugal”.