CNN chegou a Portugal e já não era sem tempo

 

A CNN em português chegou finalmente a Portugal. Após sete meses de preparação, a CNN Portugal iniciou as suas emissões com pompa e circunstância às 20h50 do dia 22 de novembro, reunindo no Mosteiro dos Jerónimos perto de 500 figuras de diversos quadrantes (políticos) da sociedade portuguesa, entre as quais o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, por coincidência antigo comentador da TVI, a “foster mother” da CNN Portugal.
Como devem estar lembrados, a CNN foi fundada por Ted Turner, nascido a 19 de novembro de 1938 em Cincinnati, Ohio e batizado Robert Edward Turner III. Foi aluno da Universidade Brown, em Providence, RI, e estava talvez pensando numa carreira militar quando, em 1963 o suicídio do pai, o Robert Edward Turner II, o obrigou a tomar conta do negócio paterno, a Turner Advertising Company.
Em 1970, Ted Turner comprou uma televisão, a WJRJ, canal 17, de Atlanta e decorrida uma década, no dia 1 de junho de 1980, inaugurou a Cable News Network (CNN), canal de TV-cabo transmitindo notícias 24 horas e cujo formato é hoje amplamente seguido por emissoras de todo o mundo.
Nos Estados Unidos, a CNN está disponível em 90,1 milhões de casas e o grupo cresce cada vez mais compreendendo duas rádios, 12 websites (incluindo Pipeline, lançado em 2005 e que transmite 24 horas pela Internet) e vários canais na TV-cabo e via satélite, incluindo CNN Airport Network, que transmite para os aeroportos dos Estados Unidos.
A transmissão internacional da CNN começou em 1985 e atinge hoje mais de dois biliões de pessoas em 212 países, emprega 4.000 jornalistas e possui onze agências nos Estados Unidos e 23 espalhadas pelo mundo e conta com mais de 1.000 televisões afiliadas operando em vários idiomas.
A CNN procurava entrar no mercado de língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo com 280 milhões de falantes, principalmente no Brasil, com 213,3 milhões de habitantes e que era um dos poucos mercados ainda não cobertos pela CNN. 
Várias tentativas para lançamento da CNN no Brasil ocorreram desde a década de 1990 e a última foi em 2017, em parceria os canais RecordTV e SBT, que não resultou.
Em 2019, foi anunciado que a CNN passaria a transmitir no Brasil, desta vez em parceria com a Novus Mídia, empresa fundada por Rubens Menin, dono da empresa de construção MRV, e por Douglas Tavolaro, ex-diretor de jornalismo da Record TV e que, entretanto, já deixou a Novus Mídia e tentou, sem sucesso, criar a Fox News Brasil.
A CNN Portugal surgiu cerca de um ano depois da CNN Brasil, mas entretanto recorde-se que a TVI, sigla de Televisão Independente, começou a operar em 1993 e foi o segundo canal privado português depois da Sociedade Independente de Comunicação, mais conhecida por SIC e propriedade de Francisco Pinto Balsemão, ligado ao Partido Social Democrata.
A TVI foi fundada por entidades ligadas à Igreja Católica, incluindo a Rádio Renascença, a Universidade Católica Portuguesa e o Santuário de Fátima. Só que “a televisão dos srs. bispos”, como era conhecida, foi um falhanço e acabou por parar às mãos da cadeia de supermercados Sonae, da distribuidora cinematográfica Lusomundo e do grupo venezuelano Cisneros.
Tal como os bispos, os venezuelanos também não se entenderam e, em 1997, o grupo Media Capital passou a deter a TVI e a dar nome à empresa.
Fundada em 1992, a Media Capital também começou com jornais e mais propriamente O Independente, semanário conservador surgido em 1988. Quando O Independente deixou de publicar-se em setembro de 2006, já a Media Capital controlava a TVI, que tinha sido comprada pelo grupo espanhol Prisa, dono do El País, o diário espanhol mais vendido.
Em dificuldades financeiras, a Prisa pôs a Media Capital à venda em 2020 e, depois de outras negociações falhadas, o grupo foi adquirido por portugueses, entre os quais o empresário Manuel Ferreira, dono do grupo turístico Douro Azul e que adquiriu 35,4% da empresa e tornou-se presidente.
Perto de duas dezenas de investidores, na sua maioria oriundos do norte de Portugal, estão entre os novos donos da Media Capital. O segundo maior acionista (20%) é a Triun SGPS, holding com atividades no imobiliário e na agricultura. Segue-se (16%), a Sociedade Zenithodyssey e, entre os novos acionistas, estão também a apresentadora Cristina Ferreira e os cantores Pedro Abrunhosa e Tony Carreira.
Cristina, que detém 2,5%, passou a ser diretora de entertenimento e ficção da TVI. Abrunhosa ficou com 2% e Carreira com 1%, mas não se sabe se serão algo mais do que acionistas.
Passando de mão em mão, e talvez até por isso, a TVI é provavelmente a estação de televisão mais popular de Portugal e a Media Capital o maior grupo português de media. Além da TVI, o grupo tem cinco canais – TVI Fiction, TVI Reality, TVI África, TVI International e TVI24. Tem ainda cinco rádios, entre as quais a Rádio Comercial (o antigo Rádio Clube Português, a maior emissora privada); a Plural Entertainment, as antigas Nicolau Bryner Produções, produtora de conteúdos; na internet, tem os sites Portugal Diário e Mais Futebol, e publica a revista semanal Lux.
A TVI24 arrancou em 26 de fevereiro de 2009 e foi o terceiro canal noticioso lançado em Portugal depois da SIC Notícias e da RTP3 (na altura, NTV), ambas em 2001. Decorridos 12 anos, a TVI24 deu lugar à CNN Portugal.
O licenciamento da CNN em Portugal seguiu acordos semelhantes aos firmados com outros parceiros em todo o mundo e foi feito através da CNN International Commercial (CNNIC), o grupo responsável pelas operações da CNN fora dos Estados Unidos.
Terá sido o próprio Manuel Ferreira quem iniciou negociações com a CNN através de um antigo embaixador dos Estados Unidos em Portugal. No dia 24 de maio de 2021, a empresa anunciou que tinha acordado com a Media Capital a criação da CNN Portugal, “uma parceria que vai acelerar e transformar o universo jornalístico em língua portuguesa”, afirma Manuel Ferreira e oxalá que sim.
Obviamente que, embora Portugal tenha outros canais de notícias, todos enfermam de uma sobrecarga política informativa e o surgimento da CNN Portugal é oportunidade para um novo ciclo no jornalismo televisivo português se os seus responsáveis não se deixarem enredar na luta partidária.
A CNN Portugal é dirigida por Nuno Santos, que começou como jornalista da SIC e foi depois responsável pela programação dos três canais generalistas portugueses – TVI, SIC e RTP1 entre 2011 e 2012. Foi o fundador e diretor da SIC Notícias, o primeiro canal exclusivo de informação em Portugal, em 1999.
Nos últimos anos, Nuno Santos foi o diretor de conteúdos na Multichoice, uma empresa sul-africana. Depois, foi responsável pelo escritório de Madrid do The Story Lab, departamento de conteúdos do grupo japonês Dentsu Aegis Network e ultimamente tinha voltado à TVI.
Quanto à direção executiva da CNN Portugal, Frederico Roque de Pinho é diretor-executivo com responsabilidade pela operação do canal e Pedro Santos Guerreiro é diretor-executivo responsável por toda a operação digital.
Pedro Santos Guerreiro foi diretor do semanário Expresso entre 2016 e 2019 e, em 1998, foi fundador do Jornal de Negócios, semanário do grupo Cofina.
Quanto a Frederico Roque de Pinho, integrava ultimamente a redação da TVI e da TVI24 como editor geral de antena na área de informação. Anteriormente, trabalhou 11 anos na SIC, onde era chefe de redação quando saiu em finais de 2009 para novos projetos em Angola, como quadro da angolana Semba Comunicação.
Esta empresa, Semba Comunicação, tem como sócios os irmãos Welwitshea ‘Tchizé’ e José Paulino dos Santos ‘Coreon Du’, filhos do ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, e deteve vários anos a gestão do Canal 2 e do Canal Internacional da Televisão Pública de Angola, mas o novo presidente angolano, João Lourenço, retirou-lhes a gestão em 2017.
Regressado a Portugal, Frederico foi diretor-geral da Massemba, editora de revistas como a Lux, Luz Woman e Revista de Vinhos, e que resulta de uma parceria entre a Semba Comunicação e a empresa portuguesa Até ao Fim do Mundo.
Quando a Semba Comunicação comprou o Portuguese Channel, o canal português transmitido nos sistemas de TV-cabo de várias cidades de Massachusetts e Rhode Island, Frederico tornou-se diretor executivo e continua a exercer essas funções à distância, pois entretanto começou a trabalhar para a TVI e agora CNN.
Helena Silva, que tem estado à frente do Portuguese Channel (chefe da publicidade, noticiarista e apresentadora do telejornal), disse-me que Frederico conseguiu um bom intercâmbio com a TVI no telejornal e outros programas, e ainda melhor se isso vier a acontecer também com a CNN Portugal.
Obviamente que o surgimento de um grande canal de televisão em língua portuguesa como é a CNN Portugal promove de um modo geral a língua portuguesa e assim acaba por ser também útil a um pequeno canal regional como o Portuguese Channel.
Outra (boa) aquisição da CNN Portugal é Luís Costa Ribas, que estava na SIC desde a fundação da estação em 1992 e foi correspondente em Washington mais de 20 anos, transitou depois para a TVI e passa agora a desempenhar o mesmo cargo na CNN Portugal. 
Luís Costa Ribas iniciou o seu percurso enquanto jornalista em 1980, no jornal Tempo. Passou, depois, pela Rádio Renascença, onde conduziu o noticiário internacional. Foi correspondente de vários meios de comunicação social, como Lusa, TSF, Público, O Jornal (mais tarde, revista Visão) e O Independente. Em 1984, com o intuito de integrar a rádio pública Voice of America, fixou-se em Washington. Regressou a Portugal em 2005, para ser repórter da SIC e em 2010, voltou aos Estados Unidos e à Voice of America, mantendo-se como colaborador da SIC e de outros meios do grupo Impresa.
Ainda de lembrar que a CNN Portugal representa o regresso de figuras conhecidas do público que tinham deixado de ser vistas: Judite Sousa, despedida há dois anos da TVI, conduziu a emissão inaugural da CNN Portugal, e Júlio Magalhães, despedido no início deste ano do Porto Canal, reapareceu na CNN Portugal entrevistando João Rendeiro, ex-banqueiro em fuga à Justiça portuguesa desde setembro. Comentando o reaparecimento destas caras, Joana Marques gracejou na Rádio Renascença que “a CNN Portugal devia chamar-se TVI Memória”. 
E é precisamente isso que Nuno Santos tem de evitar.