O general Paul Joseph Selva passa à reserva

 

 

Após quatro anos como vice-presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, o general da Força Aérea Paul Joseph Selva encerrou a sua brilhante carreira militar de 39 anos e a sua passagem à reserva foi assinalada com uma cerimónia realizada dia 31 de julho na Base Aérea Andrews, Prince George’s County, Maryland, com a presença do secretário de Defesa, Mark T. Esper, camaradas do Estado-Maior, amigos e familiares.

Organizada pelo general Joseph F. Dunford, do Corpo de Marines e presidente do Estado-Maior Conjunto, a cerimónia teve lugar num hangar da histórica base e foi um regresso de Paul Selva às suas origens militares. De um lado do palco estava um jato Gulfstream e do outro um helicóptero Huey com as cores da Força Aérea, e a todo o momento ouviam-se jatos a decolar e a aterrar.

Paul Joseph Selva é piloto com mais de 3.100 horas de voo. Concluiu a licenciatura em Engenharia Aeronáutica na US Air Force Academy do Colorado em 1980 e completou o treino de piloto na base aérea Reese, Texas. Tirou ainda um mestrado em Gestão e Recursos Humanos pela Christian University de Abilene, Texas e outro em Ciência Política pela Auburn University de Montgomery, Alabama.

Homem de falas pausadas e persuasivas, Paul Selva vive segundo o lema da sua classe de 1980 na Academia da Força Aérea: “Esforce-se por se destacar”. E conseguiu. Foi promovido a segundo tenente em 1980, capitão em 1984, major em 1990, tenente-coronel em 1994, coronel em 1998, brigadeiro general em 2004 e general em 2008, aos 50 anos.

Passou a primeira metade da carreira a pilotar gigantescos aviões cargueiros e petroleiros e, quando era ainda um jovem capitão, já comandava um esquadrão de reabastecimento aéreo. Em 2002 tornou-se vice-comandante do Airlift Control Center Tanker e depois comandante até novembro de 2004. Deixou esse cargo para chefiar as operações da Transcom de dezembro de 2004 a agosto de 2006, quando foi promovido a coronel e passou a comandar a base aérea Scott, no Illinois. Passando de um comando a outro, Paul Selva subiu rapidamente na hierarquia e em 2008 tornou-se assistente do general Martin Dempsey, ao tempo presidente do Estado-Maior Conjunto, e conselheiro da então secretária de Estado Hillary Clinton. Tornou-se general de quatro estrelas em 2012, quando assumiu o comando da Transcom e passou a ser responsável pelos transportes aéreos das Forças Armadas, o que é mais complicado do que muita gente pensa. Por exemplo, 10% dos carregamentos aéreos para o Afeganistão são através dos Bálticos e a partir do aeródromo Mihail Kogalniceanu, na Roménia.

Terá sido a colaboração com Hillary que levou Barack Obama a nomear Paul Selva para a vice-presidência do Estado-Maior Conjunto a 31 de julho de 2015 e a  escolha foi interpretada também como o reconhecimento da crescente importância do papel da Força Aérea nas atividades bélicas numa era dominada pelos drones, satélites e outras armas sofisticadas.

No seu discurso na despedida de Selva, o general Joseph Dunford recordou que, quando ele e Selva assumiram funções no Estado-Maior Conjunto, tiveram que criar uma nova estratégia nacional de defesa para “enfrentar o ressurgimento da grande competição de poder com a China e a Rússia; lidar com os programas nucleares na Coreia do Norte e no Irão e ajudar a montar a coligação que eliminou o califado da organização terrorista ISIS”. Dunford destacou “o papel central” que Selva “desempenhou no redirecionamento da atenção do governo”, sublinhando que o Departamento de Defesa precisava de alguém que pudesse liderar a mudança e fosse “um líder de caráter, que servisse de exemplo para todos os uniformes”.

Dunford entregou a Paul Selva a Medalha de Serviço Distinto de Defesa e à esposa, Ricki Smith Selva, o Prémio de Serviço Distinto de Defesa Civil. Ricki fez parte da primeira classe feminina da Força Aérea, 157 cadetes que graduaram na Academia de Charleston, depois do presidente Gerald Ford ter autorizado as mulheres a frequentarem academias militares.

Esclareça-se que o Estado-Maior Conjunto (Joint Chiefs of Staff  em inglês) é um órgão com sede no Pentágono e composto por 18 chefes militares, incluindo os comandos do Exército, Marinha, Força Aérea, Corpo de Marines e Guarda Nacional, todos nomeados pela Casa Branca após aprovação do Senado. Não tem propriamente autoridade de comando operacional, visto que a cadeia de comando vai do Presidente ao secretário de Defesa e, deste, ao Comando Combatente Unificado, mas o presidente e o vice-presidente do Estado-Maior são os principais conselheiros militares da Casa Branca e costuma dizer-se no Pentágono que são as maiores patentes militares do país.

Por isso, a 1 de agosto de 2015, quando Paul Selva assumiu funções como vice-presidente do Estado-Maior Conjunto, escrevi aqui, com uma pontinha de orgulho, que a segunda maior patente militar dos Estados Unidos era lusodescendente. A notícia chegou depressa a Lisboa e o escriba de um jornal local desdenhou que os imigrantes portugueses nos Estados Unidos passavam a vida a tentar descobrir gotitas de sangue português nas celebridades americanas.

O homem desconhece que é natural numa nação constituída por gente de muitas nacionalidades as pessoas assumirem-se pelas origens étnicas. Tenho uma vizinha cujos avós vieram de São Miguel e que diz orgulhosamente ser portuguesa, embora não fale português e nunca tenha ido a Portugal. Pela mesma razão, mais de um milhão de lusodescendentes identificaram-se como portugueses no recenseamento nacional de há dez anos, tal como fizeram 50 milhões de descendentes de alemães e 19 milhões de descendentes de italianos, entre os quais celebridades como Robert De Niro e Al Pacino.

Embora ele pense que não, até Donald Trump descende de imigrantes. A mãe, Mary Anne MacLeod Trump, nasceu na Escócia, filha de um pescador, chegou a New York a 11 de maio de 1930, com 18 anos, e tornou-se cidadã americana a 10 de maio de 1942.

O avô paterno de Trump, Friedrich Trump, foi um jovem alemão aprendiz de barbeiro que chegou a New York em 1885 com 16 anos e, aparando barbas e cabelos, deu início à fortuna que o neto viria a herdar. Lá no outro mundo, Friedrich está certamente orgulhoso com o neto, que se tornou 45º presidente dos Estados Unidos, mas não lhe perdoa que ele de vez em quando diga que o avô era sueco.

Quanto a isso, Paul Joseph Selva não se engana: nasceu a 27 de dezembro de 1958 em Biloxi, cidade balnear do Mississippi, mas foi criado na ilha Terceira, Açores.

Quem nos contou foi o próprio pai, Domingos Trindade Selva, que criou uma família de que pode orgulhar-se.

Domingos Trindade Selva nasceu há 88 anos em Rabo de Peixe, São Miguel, filho de Domingos da Estrela Leite, também conhecido como Domingos da Ponte Leite e que foi o regedor da freguesia durante alguns anos. Quando começou a sua familia, Domingos da Estrela Leite teve uma desavença famíliar e mudou o nome dos filhos para Selva. Mais tarde os filhos adotaram o nome de Leite, exceto o Domingos Trindade Selva, que manteve sempre o apelido.

Em 1949, Domingos Selva alistou-se na Força Aérea Portuguesa, que dava os primeiros passos. Quis ser radiotelegrafista de avião e foi para Lisboa tirar o curso, findo o qual regressou às Lajes. Decorridos alguns meses, como falava inglês, foi escolhido com mais dois colegas para tirar um curso de radar nos EUA, no âmbito da NATO. Do grupo faziam também parte cinco oficiais pilotos, que em New York foram encaminhados para o Texas, enquanto Domingos e os colegas foram parar à Base Aérea Keesler em Biloxi, Mississippi.

O curso prolongou-se por 19 meses, durante os quais Domingos começou a namorar uma jovem de Biloxi. Regressado a Portugal, foi promovido e colocado na Base Aérea da OTA, em Alverca, onde, com um técnico americano da fábrica, montou um complexo de radar, treinou um grupo de controladores e mecânicos para operar o complexo, e requereu o regresso às Lajes. Aproveitou então para requerer também passagem à disponibilidade. A namorada foi ter com ele a São Miguel e casaram na igreja do Bom Jesus de Rabo de Peixe. Ela fez carta de chamada no consulado dos Estados Unidos em Ponta Delgada e quatro meses depois Domingos já estava em Biloxi, trabalhando na Base Keesler.

Decorridos cinco anos, já com três filhos e a cidadania americana, Domingos foi com a família visitar os pais a São Miguel. Deu uma saltada às Lajes para ver amigos e convidaram-no para técnico dos Air Force Engeneering and Technical Services do destacamento americano, um contrato de 18 meses que haveria de prolongar-se 33 anos. Nos Açores acabariam por nascer-lhes mais três filhos e os seis tiraram o High School nas Lajes e só vieram para a América para os cursos superiores.

Dos rapazes, dois enveredaram pela força aérea: o general Paul Joseph Selva, que agora passou à reserva e chegou a número dois do Pentágono, e o coronel Michael Selva, que vive em Colorado Springs, passou à reserva como coronel do Space Command, junto com a esposa, que também era coronel da Logística.

Três tiraram Medicina, mas só dois exercem e ambos são pediatras: Dennis A. Selva exerce em Norcross, Georgia e está também ligado ao Children’s Healthcare of Atlanta; Thomas Selva, pediatra em Columbia e professor de Pediatria na Missouri University, é casado com uma médica. Margaret, de Raleigh, NC, graduou em Biológicas e começou na Medicina, mas por razões de saúde desistiu; agora é mãe de seis filhos e dona de casa.

Finalmente, Mary Louise, que se formou em contabilidade e trabalha numa rede de pequenos bancos rurais na área de Jefferson City, MO.

Domingos e a esposa reformaram-se em 1991 do Departamento de Defesa e, depois de 33 anos nos Açores, regressaram aos Estados Unidos, onde tinham espalhada a sua ninhada de seis filhos e 15 netos. Inicialmente residiram no Mississippi, donde a esposa é natural, mas decorridos dez anos foram para junto dos dois filhos que vivem no Missouri e residem em Jefferson City.

Não há dúvida que Domingos Selva e a esposa se podem orgulhar dos filhos, mas estes também se devem orgulhar do pai e da mãe que têm e da sua bonita história de amor, que começou já lá vão 70 anos em Biloxi, no dia em que um jovem micaelense se cruzou com uma jovem americana e cuja vida tem sido como o riacho que vai desaguando num curso de água cada vez maior até chegar ao mar.