Morreu Seninho, o português do NY Cosmos

 

 


O antigo avançado do New York Cosmos, Seninho, quatro vezes campeão da North American Soccer League (NASL), morreu dia 4 de julho, aos 71 anos, no Hospital de São João, no Porto, onde se encontrava internado devido a complicações pulmonares.
Arsénio Rodrigues Jardim nasceu a 2 de julho de 1949 em Angola, no Lubango (antiga Sá da Bandeira), mas foi como Seninho que ficou na história do futebol nos EUA, onde o jogo dá pelo nome de soccer.
Atualmente, mais de 13 milhões de americanos jogam soccer, com mais de 600.000 crianças praticantes. A longevidade do soccer parece garantida e um dos que contribuiu para isso foi Seninho, que começou a dar nas vistas no Ferroviário de Luanda e acabou fazendo parte de um grupo de jogadores angolanos recrutados pelo FC Porto e de que faziam também parte Chico Gordo, Lemos e Malaguera. 
Seninho chegou ao Porto em agosto de 1969, com 20 anos. Estreou-se a substituir Chico Gordo num jogo com a Académica de Coimbra, que terminou empatado (3-3). Mas ainda não tinha cumprido serviço militar e teve de regressar a Angola para assentar praça.
Deram-lhe a especialidade de enfermeiro, o que sempre era melhor do que ser atirador e ter que andar atrás dos turras. Foi colocado em Luena (a antiga Moxico), na fronteira com a Zambia, Leste de Angola, mas a sua principal ocupação era o futebol. Reforçou o FC Moxico e sagrou-se campeão de Angola em 1972-73.
De regresso a Portugal e ao FC Porto, treinado por José Maria Pedroto, Seninho ajudou a conquistar a Taça de Portugal (1976-77) e na época seguinte (1977/78) sagrou-se campeão nacional, pondo termo um jejum portista de 19 anos sem a conquista do título. 
Nessa temporada, marcou cinco golos em 28 jogos, mas os que ainda são lembrados são os dois golos decisivos que marcou ao Manchester United, em Inglaterra, a 2 de novembro de 1977, numa eliminatória da Taça das Taças e que deram aos portistas passagem aos quartos-de-final da prova apesar da derrota por 5-2, depois de na primeira mão terem goleado os ingleses por 4-0.
O Manchester United era na altura uma das melhores equipas da Europa e aqueles dois golos projetaram Seninho, que na manhã seguinte ao jogo teve um encontro com o seu agente, o moçambicano Abdul Zubaida, que já tinha convites do Manchester United, Inter Milão, Atlético de Madrid e Cosmos de New York, este oferecendo um contrato irrecusável de um milhão de dólares (20 mil contos) para três anos.
Seninho optou pelo Cosmos, mas a transferência esteve comprometida uma vez que o seu contrato terminava em 1978 e existia a famosa lei de opção dos clubes para com os jogadores em fim de contrato. Como tardasse em chegar a New York, Pelé telefonou a saber as razões e Seninho deu-lhe conta das suas preocupações, mas o brasileiro tranquilizou-o: uma vez que a North American Soccer League (NASL) não era um campeonato reconhecido pela FIFA, a lei de opção não podia ser aplicada.
Seninho não perdeu tempo, casou com Maria Antónia e seguiram-se cinco anos no New York Cosmos, onde conquistou três títulos de campeão – o quarto foi pelo Chicago Sting.
Já não jogou com Pelé, que se despediu em 1977 num jogo contra a sua antiga equipa do Santos, mas Seninho fez parte de uma equipa fabulosa, cheia de craques como Beckenbauer, Johan Cruyff, Chinaglia, Carlos Alberto, Neeskens e Bogecevic. Eram nove estrangeiros, Seninho era o português, e um delírio para os imigrantes portugueses quando entrava em campo. 
Começou por viver em Manhattan e, mais tarde, mudou-se para New Jersey, para perto do recém inaugurado Giants Stadium, em East Rutherford, onde o Cosmos jogava.
Os americanos ficaram impressionados com a velocidade do português, que corria os cem metros em 10,8 segundos, e passaram a chamar-lhe Speedy González,  e Fórmula 1 Mirage.
Jogar no Cosmos era uma vida atarefada. Além de terem três jogos por semana, os jogadores íam a muitos eventos sociais, sobretudo aos soccer camps, onde contatavam com crianças e deficientes. Mas todas as discotecas e bares de New York também queriam os jogadores do Cosmos. Era um trabalho das oito da manhã à meia-noite.
Um dos momentos altos era a final da liga, o Soccer Ball, que era uma espécie de cerimónia dos Óscares do futebol a que, além dos jogadores, assistiam também figuras do espectáculo como os Rolling Stones, Diana Ross, Aretha Franklin ou Sylvester Stallone, o que era fácil visto o Cosmos ser da empresa cinematográfica Warner Bros.
O Cosmos foi fundado em 1971 pelos irmãos Ahmete e Nesuhi Ertegun, dois turcos ligados ao rock e que tinham fundado a Atlantis Records. A equipa ficou famosa em 1975, quando contratou o legendário Pelé com o salário anual de um milhão de dólares. Embora em fim de carreira, Pelé levava muitas pessoas aos estádios e o Cosmos estabeleceu na altura um recorde ainda válido de 77.691 espectadores num jogo de clubes. Pelé ajudou a colocar o Cosmos no mapa do futebol, o clube realizou duas digressões mundiais. Em 1979, os bilhetes mais caros do Giants Stadium não eram os do Knicks nem os do Yankees, mas os do Cosmos. O estádio enchia-se aos sábados e entre a assistência apareciam figuras como Mick Jagger, Robert Redford, Dustin Hoffman e outras estrelas internacionais, ajudando a promover o jogo.
A NASL expandiu-se para 24 equipas. Havia equipas no Texas e no Havaí, e até mesmo em Edmonton e Alberta, no Canadá, onde não havia público. Quanto ao Cosmos, estava constantemente na estrada, com tradutores, limusines, reserva de hotéis, etc., e as coisas começaram a correr mal.
A Warner Communications vendeu a Global Soccer, a subsidiária do Cosmos, a Giorgio Chinaglia, mas o tempo já se esgotara para o Cosmos e para a liga, a NASL faliu em 1984. Os EUA só voltariam a ter uma liga profissional de futebol em 1993, com a fundação da Major League Soccer.
A crise do Cosmos fez com que Seninho mudasse para Chicago, onde representou o Chicago Sting e conquistou mais um título, mas o fim da NASL fez com que pendurasse as chuteiras aos 35 anos e voltasse ao Porto, onde teve negócios imobiliários e de táxis, e gozou tranquilamente os rendimentos. De vez em quando falavam-lhe em ser treinador, mas dizia não ter vocação. Trabalhou apenas uns tempos em part-time com a escola de Humberto Coelho.
Quanto ao New York Cosmos reapareceu em 2013 numa nova NASL (2013-2017), que nada tem a ver com a anterior NASL (1968-1984). 
O atual dono do Cosmos, o bilionário Rocco B. Commisso (também dono da Fiorentina, da Primeira Liga italiana) sabe que precisa de uma liga de sucesso para relançar a equipa e tentou ingressar na Major League Soccer, mas a liga alega já ter duas equipas em New York: New York City FC e New York Red Bulls.
O Cosmos tenta ressurgir, mas as coisas não estão fáceis e a equipa vem perdendo dinheiro e visibilidade num mercado altamente competitivo. Presentemente, o Cosmos está na recém criada National Independent Soccer Association (NISA), liga composta por apenas oito equipas e atualmente classificada no nível 3 da pirâmide de futebol dos EUA. É a divisão mais baixa em que um clube pode jogar e ainda ser considerado profissional.
Será a terceira competição diferente disputada pelo Cosmos desde o retorno. O campeonato de 2020 foi cancelado devido ao coronavírus, mas as coisas estão difíceis e poderá não haver prova em 2021. Contudo, apesar dos problemas, o Cosmos continua um dos mais populares clubes dos EUA e por onde passaram craques como Pelé, Beckenbauer, Cruyff e um tal Seninho.

 

O vinho Madeira na história dos EUA 


Celebrou-se sábado passado a independência dos EUA, declarada há 244 anos no Independence Hall, edifício de tijolo vermelho que ainda existe na baixa de Filadélfia. E o brinde nesse 4 de Julho de 1776 foi feito com vinho da Madeira, o preferido de Thomas Jefferson, que redigiu a declaração, bem como outros dos chamados Founding Fathers, como Benjamin Franklin, John Adams e John Hancock e outros apreciadores de vinho Madeira. 
Foi assim que o vinho da Madeira entrou na História dos EUA, embora já fosse importado desde o início do século XVIII, quando as colónias britânicas ainda estavam longe de pensar na emancipação. Foi durante a segunda metade do século XVIII que os Madeira Parties começaram a ser organizados em toda a costa leste da América do Norte, em cidades como Boston, Nova Orleães, Filadélfia, Baltimore, Savana e Charleston. E o que era um Madeira Party? Eram encontros ao fim da tarde em que uma dúzia de homens se reuniam para provar e discutir um punhado de vinhos Madeira.
Um Madeira Party de um tipo muito diferente aconteceu depois do Stamp Act em 1765 que aumentava consideravelmente a tributação dos produtos recebidos. O episódio passado em 1768 com a apreensão de um carregamento de 100 pipas de vinho proveniente da Madeira chegado a Boston a bordo do navio Liberty e destinado a John Hancock, o primeiro signatário da Declaração de Independência. A revolta da multidão em terra quando se apercebeu que não iria receber o seu vinho mais barato foi o precursor do famoso Boston Tea Party que aconteceu cinco anos depois e desencadeou a Guerra Civil.
O vinho Madeira atravessou a guerra da independência dos EUA (1775-1783), esteve à mesa das primeiras fases da vida do país. Thomas Jefferson brindou com Madeira em 1792 quando decidiu situar o Capitólio dos EUA em Washington.
No dia 20 de janeiro de 2009, Barack Obama brindou na sua tomada de posse como presidente com um cálice de Madeira. A cerimónia foi presenciada por dois milhões de pessoas, concentradas no Mall, uma extensa alameda com o Capitólio como epicentro. Obama prestou juramento sobre a mesma bíblia que amparou a mão de Abraham Lincoln no longínquo ano de 1861, e celebrou a sua entrada na Casa Branca com um cálice de Madeira porque o “sonho americano” foi baptizado, a 4 de Julho de 1776, com vinho Madeira, por George Washington e companheiros, logo após a Declaração da Independência.