A guerra do avô de Sam Mendes ganhou dois Globos de Ouro e pode ganhar vários Óscares

 

 

Por esta ninguém esperava. Nem o próprio Sam Mendes, conquistar os prémios de melhor realizador e melhor filme com “1917”, o seu épico da Primeira Guerra Mundial na 77ª edição dos Globos de Ouro, o mais importante prémio de cinema dos Estados Unidos, depois do Oscar.
Num ano em que a lista de nomeados era de altíssimo nível, com nomes como Martin Scorsese (“The Irishmen”), Quentin Tarantino (“Once Upon a Time in Hollywood”) e Bong Joon-ho (“Parasite”), ninguém esperava ver Sam Mendes subir duas vezes ao palco do Beverly Hilton, em Beverly Hills, no dia 5 de janeiro, por causa de um filme que estreou em poucas salas nos EUA no dia do Natal e não estava em nenhum radar dos favoritos dos Globos 2020. 
Mas agora, “1917” é também um dos favoritos dos Oscares 2020, que serão atribuídos dia 9 de fevereiro. Tem dez nomeações, incluindo melhor filme, melhor realizador e melhor argumento original, e Mendes poderá levar mais umas estatuetas para casa.
“1917”, que estreia dia 23 de janeiro em Portugal, é o oitavo filme de Sam Mendes desde os dois últimos James Bond (“Skyfall” e “Spectre”) e claramente pretende ser um antídoto para 007. 
Durante o seu discurso de agradecimento, o cineasta, que é também coargumentista e produtor do filme, lembrou o seu avô Alfred Hubert Mendes, veterano da Primeira Guerra Mundial e como ele inspirou o filme protagonizado por George MacKay (“Capitão Fantástico”) e Dean-Charles Chapman (“A Guerra dos Tronos”), que   interpretam dois soldados encarregues de entregar uma mensagem a cancelar um ataque planeado para o dia seguinte e da qual depende a vida de 1.600 ingleses que caminham para uma emboscada dos alemães.
“Gostaria de dedicar isto ao meu avô, Alfred Hubert Mendes, que inspirou este filme”, ​​disse Sam Mendes, após receber a primeira estatueta. “Ele alistou-se na Primeira Guerra Mundial tinha 17 anos. Espero que esteja a olhar para nós e fervorosamente espero que isso (a guerra) nunca mais volte a acontecer novamente. Muito obrigado”.
Mendes tinha 11 anos quando começou a ouvir o avô a contar histórias de guerra, mas ria sobretudo do hábito do velhote estar constantemente a lavar as mãos, até que o pai lhe explicou que o avô tinha aquele hábito porque se lembrava da lama das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na qual combatera durante dois anos, e de como era difícil manter as mãos limpas naquele cenário sujo e desolador.
O jovem Sam Mendes não só deixou de se rir da mania do avô, como passou a pedir-lhe que contasse mais sobre a guerra. “Contou-nos muitas histórias, especialmente depois de alguns copos de rum”, lembrou Sam Mendes. “Ele era muito teatral, carismático e eduardiano. Mas também era surdo, por isso gritava muito”.
Alfred H. Mendes, cabo no exército britânico, deixou o neto encantado – e às vezes horrorizado – com as suas memórias da Primeira Guerra Mundial.
“Eram histórias bastante ilustradas”, lembra o cineasta de 54 anos. “E nenhuma  era história de heroísmo ou bravura, ou de como ele tinha ganho as suas duas medalhas. Concentrava-se principalmente na sorte e no acaso da guerra. Uma vez contou uma história sobre como o seu melhor amigo foi atingido por uma granada quando estava a seu lado numa trincheira e desapareceu por completo. Não puderam enterrá-lo porque não havia nada para enterrar”.
Alfred Hubert Mendes, nascido em 1897 em Trinidad e Tobago, era filho de Joseph Mendes, madeirense protestante que se refugiou em Port of Spain em 1852 no seguimento das perseguições a Robert Reid Kalley (1809-1888), um médico e pastor presbiteriano escocês que decidiu fixar-se no Funchal em 1838, esperançado em que o ameno clima da ilha melhorasse a debilitada saúde da esposa. Robert e Margaret Kalley tornaram-se figuras históricas do protestantismo em Portugal e no Brasil. Os Kalley chegaram em 1855 ao Rio de Janeiro, onde Robert fundou a Igreja Evangélica Fluminense, contribuindo para a divulgação  do protestantismo, que conta hoje com 30 milhões de aderentes no Brasil.
Na Madeira, o médico escocês destacou-se desde logo pela atenção que prestava aos mais desfavorecidos. Em 1840 abriu no Funchal um hospital com 12 camas, no qual tratava gratuitamente os doentes pobres. Os ricos também o procuravam, mas a esses Kalley cobrava bom dinheiro e conseguia assim financiar o seu hospital que lhe valeu a fama do “santo inglês”.
Os interesses de Kalley eram também religiosos e tentou desde o início catequizar os madeirenses, ainda que discretamente. Antes das consultas, costumava rezar com os doentes e nas receitas que prescrevia podiam ler-se passagens da Bíblia. Criou também 17 pequenas escolas primárias que deram a conhecer as primeiras letras a milhares de crianças e adultos. Cerca de 2.000 madeirenses converteram-se ao protestantismo. Mas em Portugal, mesmo após a abolição da Inquisição em 1821, a prática do protestantismo era proibida a todos os cidadãos portugueses e apenas aos estrangeiros era permitido praticar outras religiões que não a católica. Só após a implantação da República é que foi autorizada a existência oficial de comunidades protestantes.
Em 1843, Kalley foi preso e ficou alguns meses na cadeia. Em 1845, foi fundada no Funchal  (ilegalmente pois as igrejas protestantes permaneciam proibidas) a primeira congregação protestante portuguesa, a Igreja Presbiteriana Portuguesa que tem actualmente o nome de Igreja Evangélica Presbiteriana Central. Mas em agosto de 1846 intensificaram-se as injúrias e ações contra os “calvinistas” e a casa dos Kalley foi incendiada. Com ajuda de vários elementos da recém-formada comunidade protestante, o casal fugiu para os Estados Unidos, Kalley teve de se disfarçar de mulher para poder entrar no barco inglês que o salvou, e a mulher e familiares tiveram a proteção do consulado britânico.
Nos meses seguintes, cerca de 2.000 madeirenses protestantes foram obrigados a abandonar a ilha e barcos ingleses vieram buscá-los à baía do Funchal. Os refugiados distribuiram-se pelas ilhas de Trinidad e Tobago, Antigua, St. Kitts, Demerara e Jamaica. Uns empregavam-se nas plantações de açúcar, cacau e café, outros trabalhavam nas suas profissões de barbeiros, alfaiates, carpinteiros e sapateiros. Mas quase todos se davam mal com o clima dos trópicos, muito diferente das amenas temperaturas da Madeira. E para agravar a situação, em 1847 a economia das Antilhas foi fortemente abalada pela baixa de preço do açúcar, que leva à falência das principais empresas da Trinidad e ao abandono pelo governo britânico de empreendimentos que davam trabalho a muitos emigrantes. 
Em março de 1848, os protestantes madeirenses lançam um apelo à Sociedade Protestante Americana e à União Cristã Americana solicitando a cedência de terras para se instalarem nos EUA. A resposta foi favorável. Os primeiros madeirenses – mais de uma centena – chegaram em novembro de 1848 a Baltimore, onde foram calorosamente acolhidos pela comunidade protestante local. Meses depois, em maio e junho de 1849, mais 500 refugiados trocam as Antilhas pelos EUA, em barcos fretados pelas organizações protestantes americanas.
A terra prometida dos madeirenses situava-se no estado de Illinois, entre as cidades de Jacksonville e Springfield. Tinha sido cedida por uma empresa, a American Hemp Company, que se comprometera igualmente a dar emprego aos emigrantes. Porém, à última hora a empresa dá o dito por não dito, e os cerca de 700 madeirenses que já tinham viajado para Illinois têm que regressar a New York. Ao saberem disto, os membros das igrejas protestantes de Jacksonville, Springfield e Waverly mobilizaram-se, chamaram os madeirenses de volta e puseram-nos a viver em suas casas, enquanto não lhes arranjam melhor acomodação e empregos dignos. 
Em Springfield, capital do Illinois, vivia ao tempo o advogado Abraham Lincoln, em vésperas de ser eleito presidente dos EUA e que teve relações com muitos imigrantes madeirenses. Lincoln emprestava-lhes dinheiro a juros e fazia donativos para a Second Portuguese Church. A sua mulher, Mary Todd, empregou Frances Affonsa de Freitas como lavadeira e Charlotte Rodruiguis como costureira. Charlotte chegou com seis anos a Springfield, com o pai, casou em 1860 com Manuel de Souza e viveu até aos 92 anos.
Os madeirenses adaptaram-se facilmente à vida no Illinois. Americanizaram os apelidos e dedicaram-se à agricultura e ao comércio. Alguns prosperaram, como o agricultor Emanuel Gouveia e o comerciante Frank Meline, que, depois de ter começado por vender sapatos em Jacksonville, se tornou um grande proprietário. A famosa atriz Mary Astor, nascida em Quincy, Illinois, e que se chamava na realidade Lucille Vasconcellos Laghanke, era filha de uma descendente desses madeirenses. Entre os poucos que optaram por ficar nas Antilhas, destacam-se os pais de Albert Maria Gomes (1911-1978) e de Alfie (Alfred) Mendes (1897-1991), considerados os pais da literatura das Caraíbas, uma literatura tão pujante que já deu um Nobel (V. S. Naipaul).
Albert Maria Gomes foi escritor, jornalista e político. Fundou o Political Progress Group, foi deputado e chefe de governo de Trinidad e Tobago. Com dinheiro do pai, que tinha uma farmácia, de 1931 a 1933 Gomes publicou a revista socialista “The Beacon” (O Farol), onde Alfred Mendes publicou vários ensaios, incluindo uma entrevista com o “camarada Estaline” em setembro de 1932. A revista deixou de existir quando Gomes pai deixou de financiar.
Depois da guerra, Alfred mudou-se para Barbados, escreveu romances socialistas, tornou-se funcionário público e chegou ao cargo de director-geral da autoridade portuária de Trinidad e Tobago. Foi o primeiro a chamar a atenção para a comunidade portuguesa com a sua novela “Pitch Lake” e recebeu um doutoramento honoris pela University of the West Indies em reconhecimento pela sua obra literária. Morreu em 1991, aos 94 anos. 
Teve três filhos, um dos quais, Jameson Peter Mendes, natural de Trinidad e Tobago, professor universitário no Reino Unido e pai de Samuel Alexander Mendes, famoso encenador teatral e realizador cinematográfico que a rainha Isabel II distinguiu em 27 de dezembro com o título de Sir (Cavaleiro).
Alfie foi considerado pelo Prémio Nobel da Literatura de 1992, Derek Walcott, como “o pai da literatura caribenha”. Esteve muito envolvido na vida social da comunidade portuguesa que vivia em Trinidad e Tobago e que era, segundo revela na sua autobiografia, intensa e vibrante no início dos anos vinte. Foi presidente da associação portuguesa e do clube português e quer o seu nome quer o de um dos filhos figuraram na placa do clube português como membros fundadores. Alfred Mendes tinha 17 anos quando se alistou, animado com a esperança de que fosse uma boa guerra que iria acabar com todas as guerras, dizia-se. A pequena estatura valeu-lhe ser escolhido para a tarefa de mensageiro. O nevoeiro que pairava sobre a chamada terra de ninguém – o terreno entre as trincheiras britânicas e alemãs – tinha cerca de dois metros e Alfred conseguia correr nos campos enlameados da Flandres sem ser detetado pelos atiradores alemães.
A missão que serviu de inspiração para o filme “1917” foi levar uma mensagem a três companhias britânicas estacionadas ao longo da cidade belga de Poelcappelle, de que o 4º Exército Alemão preparava um contra-ataque que ficaria conhecido como a Terceira Batalha de Ypres.
A tarefa era complicada: era difícil transitar pela Terra de Ninguém, apelido dado para a região entre trincheiras, no meio do fogo cruzado. Mas o avô Mendes viveu para contar a história. Na sua autobiografia, escreveu: “O Ypres Salient era um pântano de lama e um assassino de homens”. 
Alfred passou dois anos (1917 e 1918) lutando na Europa. Ainda teve tempo para se apaixonar em França por uma jovem chamada Lucille, mas em maio de 1918, seis meses antes do término do conflito, ele foi mandado para casa após inalar gás venenoso. Durante muitos, muitos anos, Alfred não contou nada sobre a guerra a ninguém, mas um dia começou a contar a pedido dos netos e bisnetos.
“E eram histórias muito emocionantes. O filme tenta captar esse espírito. É por causa do meu avô, mas não sobre o meu avô”, explicou Sam Mendes.
Nos anos 1970, Alfred reuniu todas as suas memórias numa autobiografia publicada postumamente em 2002. Em 1950, Alfred fez ainda uma tentativa de reencontrar Lucille, a sua paixão nos anos de guerra. Viajou para França, meteu-se num comboio e conseguiu dar com ela. Lucille tinha casado e tinha nove filhos. Mas insistiu para que Alfred passasse a noite lá em casa e ele fez-lhe a vontade.
E que diria Alfred Mendes do filme que o neto fez com as suas recordações da guerra? Sam Mendes acha que o avô não se sentiria confortável assistindo ao filme, mas teria gostado de ver. De qualquer modo, aos 34 anos, Sam Mendes ganhou o Oscar de melhor realizador com o seu filme de estreia, “American Beauty”, e decorridos 20 anos, um filme inspirado nas histórias do avô pode valer-lhe outro Oscar.