Morreu Jorge Sampaio, um grande senhor da democracia

 

O título é uma declaração do chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, nas cerimónias fúnebres do seu predecessor Jorge Sampaio, que considerou “um grande senhor da democracia” e, “mais do que isso”, um “enorme ser humano, e um dos melhores servidores da causa pública da sua geração”, um “herói que não o queria ser. Mas foi.”
Herói ou não, Sampaio era estimado pela maioria dos portugueses conforme se viu pelas reações à sua morte a 10 de setembro, aos 81 anos (faria 82 anos no próximo dia 18), no Hospital de Santa Cruz, Carnaxide, onde tinha dado entrada em 27 de agosto com dificuldades respiratórias. 
Sabe-se também que Sampaio padecia há anos de problemas cardíacos que obrigaram a várias intervenções cirúrgicas, a primeira logo após ser eleito para o segundo mandato presidencial, a segunda em 1999 e as duas últimas em 2017.
O governo português decretou três dias de luto nacional, com bandeiras a meia haste em todos os edifícios públicos e cerimónias fúnebres com honras militares de Estado. Sábado, o corpo esteve em câmara ardente no Museu Nacional dos Coches junto ao Palácio de Belém, a residência oficial do presidente da República, e foi velado por muitos populares, alguns empunhando cravos vermelhos. 
Domingo, a cerimónia oficial no Mosteiro dos Jerónimos começou com o hino de Portugal interpretado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a batuta da maestrina Joana Carneiro, que começou a sua carreira como diretora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, Califórnia, de 2009 a 2018.
Entre outras individualidades, estiveram presentes o rei de Espanha, Filipe VI, e o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que considerou Sampaio “um notável líder e ser humano compassivo”, acrescentando: “Portugal perdeu um estadista e eu perdi um querido amigo”.
Jorge Fernando Branco de Sampaio nasceu em Lisboa a 18 de setembro de 1939, poucos dias depois do começo da Segunda Guerra Mundial, que teve início a 1 de setembro de 1939 com a invasão da Polónia pela Alemanha.
Nasceu numa maternidade na Rua da Beneficência, em Lisboa e por sinal fundada em 1928 pelo seu tio-avô Abraão Bensaúde, para assistir às mães solteiras que não podiam recorrer aos hospitais públicos.
Abraão Bensaúde era filho de Salomão Bensaúde, fundador da Casa Bensaúde em Ponta Delgada. Portanto, do lado materno, Jorge Sampaio descendia da família açoriana dos Bensaúde, uma das mais antigas famílias judias (sefarditas) portuguesas. 
A mãe, Fernanda Bensaúde Branco, nascera em Lisboa e era filha do comandante Fernando Augusto Branco, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e da Marinha, e de Sara Bensliman Bensaúde. 
Quando Fernando Branco foi adido militar na embaixada de Portugal em Londres, Fernanda, então com dez anos, acompanhou o pai e a mãe, e acabaria por fazer o liceu em Inglaterra. Regressada a Portugal, tornou-se professora particular de inglês e casou com o médico Arnaldo Sampaio, especialista em Saúde Pública que foi Diretor Geral de Saúde, esteve na origem do plano Nacional da Vacinação contra a Poliomielite e contribuiu também para a criação dos Centros de Saúde, que antecederam o Serviço Nacional de Saúde (SNS), criado depois do 25 de Abril.
Jorge Sampaio falava fluentemente inglês devido à profissão da mãe, que desde menino se habituou a falar inglês com ele chamando-lhe George, hábito que manteve até morrer, e do pai, que lhe possibilitou viver nos EUA e em Inglaterra.
Da primeira vez, tinha oito anos e viveu dois anos em Baltimore, onde o pai foi fazer um mestrado em Saúde Pública na Universidade John Hopkins. Nessa altura, matricularam-no numa escola pública e meteram-no no YMCA, onde fazia desporto e aprendia piano (a música foi uma grande paixão e disse um dia numa entrevista que chegou a pensar ser maestro).
Em 1952, aos 13 anos, passou uma temporada em Londres, onde o pai fez investigação científica, e mais tarde, numa entrevista, lembrou que a mãe o levou à Câmara dos Comuns, onde assistiu a um debate entre Winston Churchill e Clement Attlee, dirigente dos trabalhistas. 
Em 1965, regressou aos EUA, já não por causa do pai, mas por ter conseguido uma bolsa do Foreign Leader Program. Foram quatro meses de experiências que o marcaram, uma das quais assistir aos discursos de Edward Kennedy e Robert Kennedy no Senado, em Washington.
Estas experiências terão influenciado Jorge Sampaio, que dedicou a sua vida à política, tendo iniciado o seu percurso ainda aluno da Universidade de Lisboa na crise académica que gerou um longo e generalizado movimento de contestação estudantil ao Estado Novo. 
Na sequência da greve às aulas foi detido em 1962 pela Pide durante três dias na prisão de Caxias e acabou por ser expulso da Faculdade de Direito. Nessa altura iniciou uma ação política de oposição à ditadura militando no Movimento de Ação Revolucionária (MAR) e escrevendo para as revistas de oposição Seara Nova e O Tempo e o Modo.
Já advogado, ficou conhecido pela defesa de presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa. Defendeu casos célebres como os réus do assalto ao Quartel de Beja e o caso da Capela do Rato, uma igreja no Largo do Rato, em Lisboa, em que foram presas dezenas de pessoas que protestavam contra a guerra colonial. 
Depois do 25 de abril (foi o autor do slogan “25 de abril, sempre!”), Sampaio fundou o Movimento de Esquerda Socialista (MES), e a Intervenção Socialista (IS), sonhando com a união de todas as esquerdas e uma alternativa ao PS e ao PCP.
Nos primeiros anos da revolução desempenhou importante papel no diálogo com a ala moderada do MFA e, em março de 1975, foi nomeado secretário de Estado da Cooperação Externa do IV Governo Provisório, chefiado pelo polémico general Vasco Gonçalves.
Em 1978, acabaria por se filiar no PS com o número 102.279, sendo eleito deputado à Assembleia da República logo no ano seguinte e reeleito em 1980, 1985, 1987 e 1991, presidindo durante dois anos ao grupo parlamentar.
Foi secretário-geral dos socialistas entre 1989 e 1992, ano em que decide candidatar-se a presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e venceu o candidato da direita, Marcelo Rebelo de Sousa. Foi reeleito em 1993, mas não terminou o mandato porque, em 1996, candidatou-se à Presidência da República e venceu Cavaco Silva à primeira volta, sucedendo a Mário Soares. Foi reeleito em 2001. 
Como presidente da República, Sampaio teve de encerrar o processo de descolonização de Macau e a transferência do território para a China em 20 de dezembro de 1999, encerrando mais de 400 anos de história. 
Desempenhou também um papel ativo na condenação internacional da invasão de Timor Leste pelos militares indonésios, que acabariam por se retirar do território em 1999, abrindo caminho à independência a 20 de maio de 2002. 
Finalmente, o 11 de Setembro de 2001 nos EUA repercutiu-se em Portugal.
Sampaio não concordou com o primeiro-ministro Durão Barroso quando acolheu a famosa Cimeira das Lajes, que juntou nos Açores, a 16 de março de 2003, o presidente norte-americano George W. Bush, e os primeiros-ministros britânico e espanhol, Tony Blair, Jose Maria Aznar, respetivamente, num encontro que antecedeu o início dos bombardeamentos no Iraque quatro dias depois.
Sampaio defendia que Portugal deveria manter a neutralidade, respeitando o multilateralismo e a unidade europeia, enquanto o primeiro-ministro queria o país ao lado dos EUA, à semelhança de Espanha.
Além disso, só dia 14 de março, Barroso só lhe deu conhecimento dois dias antes da cimeira, cuja realização já deveria estar acordada há mais tempo.
Durão Barroso rejeitou que o presidente tivesse sido o “último a saber”, dizendo que lhe tinha telefonado mais de 48 horas antes e Sampaio terá dito ao primeiro-ministro que não lhe cabia autorizar nada e que se se tratava de uma reunião para tentar evitar a guerra no Iraque, não se opunha, mas ainda assim impediu o envio de tropas portuguesas para o Iraque. 
Meses depois, Durão Barroso resignou do cargo de primeiro-ministro para se tornar presidente da Comissão Europeia e muitos portugueses estão convencidos de que foi um prémio por ter acolhido a Cimeira das Lajes.
Em 2020, numa entrevista ao ‘podcast’ da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), Durão Barroso afirmou que, se fosse hoje, “provavelmente não teria a mesma posição ” que tomou, de apoio à invasão do Iraque e reconheceu que a decisão de patrocinar a invasão do Iraque com a realização da Cimeira das Lages, a 16 de março de 2003, é “legitimamente controversa” e que o pocesso “foi muitíssimo mal gerido, limpar toda a administração do Iraque foi um erro. Não foi sensato”. Só é pena que tenha levado 10 anos a concluir que errou ao defender a invasão do Iraque na cimeira das Lajes, dando origem a uma série de conflitos no Médio Oriente que criaram situações que Sampaio tentou resolver.
A agência noticiosa norte-americana Associated Press destacou “a sua carreira política de seis décadas em Portugal”, ao longo da qual, “como um socialista de centro-esquerda e, mais tarde, como diplomata das Nações Unidas”, descrevendo-o como “uma das mais proeminentes figuras políticas da sua geração” pelo seu “perfil discreto e pragmático” e destacando os cargos desempenhados na ONU após os mandatos presidenciais.
Foi o primeiro português a integrar a Comissão Europeia dos Direitos do Homem, no Conselho da Europa e em 2006, depois de dois mandatos presidenciais (1996-2006), o secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan nomeou Sampaio como seu enviado especial para a Luta Contra a Tuberculose e, em 2007, o sucessor de Annan, Ban Ki-moon, nomeou-o Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações (2007-2013). 
A sua ação política valeu-lhe um vasto número de condecorações oficiais, caso da Ordem do Infante Dom Henrique, o reconhecimento mais importante de Portugal, e de países tão diferentes como o Brasil, o Japão, Marrocos, Noruega, França, Reino Unido ou Moçambique, que atestam o prestígio internacional que grangeou. 
Sampaio dedicou os seus últimos anos a causas humanitárias, especialmente à atenção das vítimas da guerra síria, tornando-se responsável pela Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência aos Estudantes Sírios, que nos seus primeiros oito anos de existência concedeu bolsas de estudos a 650 estudantes desse país. Esta iniciativa valeu-lhe o prémio humanitário McCall-Pierpaoli.
Recebeu ainda o prémio Nelson Mandela, atribuído pelas Nações Unidas em 2015, na primeira edição do galardão. 
Dia 26 de agosto, um dia antes de ter dado entrada no hospital onde viria a falecer, Jorge Sampaio anunciou, num artigo no jornal Público, a vontade de preparar um reforço do programa de emergência de bolsas de estudos e oportunidades académicas para jovens afegãs, frisando que não se pode responder às crises humanitárias “ao sabor de modas e ignorá-las por razões de cansaço, enfado ou indiferença”.
Até ao fim, Jorge Sampaio foi um cidadão preocupado com os problemas do seu país e do mundo, e procurou servir.