Os Açores vistos pelos olhos dum madeirense

 

- Duarte Mendonça

 

Depois da extinção da linha marítima que, no passado, operava regularmente entre os Açores e a Madeira, que permitia um salutar encontro e intercâmbio entre ambos os povos ilhéus, os Açores e a Madeira viveram, durante várias décadas, de costas voltadas um para o outro até que, nos tempos mais recentes a Sata veio uni-los novamente. Nascido a meados da década de 70, lembro-me de, na minha infância e juventude, ouvir falar dos Açores lá muito de vez em quando, e para mim essas ilhas eram um mundo completamente desconhecido e distante.
Ao contrário da maioria dos visitantes das “ilhas de bruma” eu comecei a conhecer este belo arquipélago não por uma das suas nove ilhas mas pela “décima”, ou seja, quando fui pela primeira vez à América, há 20 anos, na qualidade de Visiting Student da Brown University, através dum intercâmbio entre essa universidade e a da Madeira. Nessa viagem eu convivi com alguma regularidade com três açorianos que trabalhavam no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown, ou seja, com o Prof. Onésimo Almeida, à época, o seu director, e também com duas açorianas que lá trabalhavam, a Armanda e a Cândida, que desde logo me cativaram pela sua simpatia. Nessa altura devorei os livros do Prof. Onésimo sobre as vivências dos seus conterrâneos na América. E foi deste modo que comecei a conhecer os Açores, através dos seus “embaixadores”, ou seja, dos seus emigrantes radicados naquele país.
Dois anos volvidos regressei aos Estados Unidos para fazer pesquisa sobre a comunidade madeirense de New Bedford para a minha tese de mestrado e, nessa cidade, conheci mais alguns açorianos, que me cativaram igualmente pela sua amabilidade e simpatia, nomeadamente António Casimiro, antigo professor de português na escola que funcionou na Casa da Saudade, a quem muito devo, e Adelino Ferreira, antigo director do Portuguese Times, ambos naturais de Vila Franca do Campo, em S. Miguel. Na velha cidade baleeira respirava-se Açores por todo o lado, quer nas suas lojas, com nomes relativos às ilhas, quer em conversas fugidias, carregadas de sotaque, que escutava, aqui e ali, ao passear pelas suas ruas. Foi ali que comecei a conhecer mais a fundo esse arquipélago, sempre presentes na memória e nos suspiros de saudade das suas gentes, e também nalguns aspectos da sua cultura. Foi ali que me apercebi do orgulho que as pessoas sentiam em serem do Pico, do Faial, ou de São Miguel, e também duma certa rivalidade existente entre essas ilhas. Foi ali, também, que me deparei, pela primeira vez, com algumas iguarias da sua gastronomia, e lembro-me ainda da alegria que senti, ao experimentar, pela primeira vez, o “bolo lêvedo”, que me cativou desde logo e para sempre, assim como a ‘caçoila’.
Dizem que não há amor como o primeiro, e o Faial foi a primeira ilha dos Açores que visitei, já lá vão uns anos, por volta de 2005, quando fui convidado a participar num colóquio sobre o cinema insular. Nos intervalos do mesmo tive a oportunidade de calcorrear as suas ruas, de subir ao Monte da Guia, e nessas deambulações solitárias tive algumas sensações de déjà vu aqui e ali, pois a Horta parecia-me estranhamente familiar. A vista do Pico, em frente, cativou-me logo e lembro-me de me levantar cedo para ver as variantes de cor à medida que o sol ia despontando. Ainda tenho para aí, algures, dezenas e dezenas de fotos tiradas ao Pico nessa altura. 
Quando lá fui, nessa vez, constatei que o Faial era mais ou menos como a América, porque sentimos a diferença horária e em ambos os locais o dia amanhece muito cedo, pois pelas seis e picos já o dia começa a raiar e, quer queiramos quer não, acordamos com a luz do dia que irrompe pelo quarto adentro. Também gosto do Faial porque a cidade da Horta, vista do mar, parece ser a do Funchal em miniatura. Essa bela cidade, estendida em anfiteatro entre o Monte da Guia e a Espalamaca, parece que abraça os visitantes que a ela chegam por mar. E essa é uma imagem que nunca mais se esquece. Nessa viagem também fui levado ao Pico, e visitei o Museu do Vinho e algumas das suas vinhas, na Madalena, e também o da Baleia, em São Roque.
Alguns anos volvidos voltei à Horta, a essa cidade que me fascina e atrai, para participar no Colóquio do Faial, que se repartiu entre as ilhas do Faial e de São Jorge, e nessa altura tive a oportunidade de conhecer esta última ilha, para mim até então desconhecia, e que me cativou pelas longas extensões de verde a perder de vista. Ao zarpar da cidade da Horta, e ao vê-la a distanciar-se de mim senti, pela primeira vez, o verdadeiro peso da expressão le chagrin du départ. Ao meu redor os demais congressistas falavam e riam despreocupadamente mas recordo-me de sentir, inexplicavelmente, uma profunda tristeza por me afastar da ilha do Faial, como se alguma força maior me prendesse a ela… Atravessar o Canal e fazer um passeio de barco entre as “ilhas do triângulo”, sentindo a cada instante o cheiro da maresia, é uma das melhores experiências de viagem que podemos fazer na vida, tal é a beleza, o encanto e o deslumbramento com que os nossos olhos são brindados a cada momento.  
Para além das belezas naturais de São Jorge ficou-me na memória e no palato as delícias do queijo dessa ilha e também das suas saborosas ‘espécies’, dois dos principais embaixadores, digamos assim, da sua gastronomia.
Só depois de conhecer as “ilhas do triângulo” é que tive a oportunidade de, pela primeira vez, ir à de São Miguel, a convite do edil de Vila Franca do Campo, para fazer a apresentação do livro “A Casa Azul”, de Natividade Ribeiro, dado que, algum tempo antes eu recenseara esse livro e publicara o meu texto no Portuguese Times, onde mantive, durante seis anos, a coluna intitulada “Fórum Madeirense”. Ao ver, pela primeira vez, do avião, a ilha de São Miguel, tive a sensação de ver como seria a Madeira no tempo das Descobertas, com todas as suas colinas verdejantes, que se estendem dos montes até ao mar, sem os nossos “poios”, ou socalcos. Gosto muito da baixa de Ponta Delgada, sobretudo da parte mais antiga, em que se preservaram muitos edifícios vetustos e calcorrear as suas ruas é como fazer uma visita ao passado. A cidade mais moderna, foi construída por detrás da antiga e nisso Ponta Delgada ganha o Funchal aos pontos, dado que, nas últimas décadas, destruíram-se imensos prédios antigos para edificar modernos mamarrachos e com isso perdeu-se grande parte da nossa identidade urbana. Da passagem pela capital dessa ilha recordo-me da visita que fiz ao Convento da Esperança, de modo a ver a famosa imagem do Senhor Santo Cristo, que tanto apela ao coração e à fé do povo açoriano, tanto nas ilhas como na diáspora. Lembro-me ainda de, numa vez, indagar junto de vários dos seus restaurantes se serviam ‘caçoila’, para matar saudades desse prato que conhecera em New Bedford, mas alguns não sabiam o que era e, por fim, noutro alguém me disse que isso era “uma coisa lá da América” e que não havia nos Açores. Fiquei triste mas tive que aceitar essa realidade.
Dessa viagem a São Miguel recordo, com saudade, o passeio que dei pela ilha, a convite do Adelino Ferreira, na companhia do Manuel Calado, antigo redactor do extinto Diário de Notícias de New Bedford. Nesse passeio fiquei a conhecer os principais pontos turísticos deste espaço insular, entre os quais as suas belas lagoas, essa maravilha da natureza com que Deus o abençoou. 
Das Flores não posso dizer nada, porque nunca visitei essa ilha, nem a do Corvo, nem a Graciosa, nem Santa Maria. A Terceira, só lá aterrei uma vez en passant a caminho da Horta, para participar no último Colóquio do Faial, e só estive no Aeroporto das Lajes cerca de 15 a 20 minutos, durante a breve escala do avião. Talvez no futuro surjam oportunidades de conhecer essas ilhas. Apenas o tempo o dirá.
E é isto que se me afigura dizer, em breves trechos, sobre a minha geografia sentimental açoriana.