Tecnologia portuguesa na missão da NASA no planeta Marte

 

O dia 18 de fevereiro de 2021 entrará na história da humanidade. Após ter percorrido 75 milhões de quilómetros, a nave espacial Mars Perseverance, da NASA, pousou na superfície de Marte numa missão que durará um ano marciano, ou seja 687 dias terrestres.
Batizada como Perseverance após concurso entre alunos das escolas primárias dos Estados Unidos, a nave é um rover que irá recolher e transportar amostras do solo que serão analisadas em laboratórios na Terra e permitirão talvez encontrar vestígios que esclareçam algo que os cientistas há muito procuram saber: se houve vida neste árido e vermelho planeta do sistema solar.
Esta missão Mars2020, que a NASA lançou de Cabo Canaveral dia 30 de julho de 2020, tem a participação de alguns portugueses que trabalham em empresas estrangeiras ligadas ao projeto ou em empresas portuguesas integradas num consórcio internacional liderado pela Thales Alenia Space Italia, que agrega companhias de mais de 20 países.
Coube à empresa Critical Software, com sede em Coimbra, zelar pelo bom funcionamento do satélite e à HPS Portugal, do Porto, proteger, do ponto de vista térmico, os seus instrumentos. Já a Active Spaces Technologies (AST), também de Coimbra, teve a seu cargo os estudos térmicos que estiveram na base da avaliação e seleção dos locais de pouso do módulo de fabrico italiano Schiaparelli.
Ricardo Patrício, CEO da AST, esclareceu que esta empresa portuguesa participou com um estudo sobre a composição térmica da superfície de Marte, que visou escolher os melhores locais para a sonda Schiaparelli pousar.
Esclareça-se que o equipamento tem o nome de Schiaparelli em homenagem ao astrónomo italiano Giovanni Virginio Schiaparelli (1835-1910), que criou um mapa de Marte, com “mares” e “continentes”, a partir de observações telescópicas.
Para a sonda Schiaparelli chegar a Marte, outra sonda foi responsável pelo seu transporte, trata-se da sonda orbital ExoMars TGO (Trace Gas Orbiter) e foi aqui que entrou Bruno Carvalho, responsável pela área de espaço da Critical Software.
Carvalho foi um dos responsáveis pela criação dos sistemas da sonda ExoMars TGO que permitiram efetuar toda a navegação espacial entre a Terra e Marte.
Vários instrumentos do rover  Perseverance são o reaproveitamento de peças que sobraram de um anterior rover (Curiosity) e foi uma solução em que o engenheiro aeroespacial Nuno Silva, da empresa portuguesa Deimos, começou a trabalhar em 2011.
A missão do Perseverance é recolher amostras do solo marciano, fazer uma primeira análise geológica e armazenar essas amostras, que depois serão recolhidas por um segundo rover (missão a realizar entre 2026 e 2028) que as fará chegar à Terra em 2031.
Mas, um pouco antes da sonda Schiaparelli tocar no solo de Marte, uma outra empresa com capital luso deu “proteção térmica” ao escudo que faz a entrada na atmosfera rarefeita do Planeta Vermelho.
A empresa chama-se HPS, é luso-alemã e tem sede no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC). A HPS entrou neste projeto em 2012 e esteve desde então “em todas as fases do projeto, desde o desenho preliminar passando pelos testes de qualificação até à integração do hardware no satélite”, esclareceu a chief operating officer da HPS, Celeste Pereira, acrescentando que foram necessários muitos testes para garantir que os equipamentos estavam protegidos das temperaturas muito baixas e das manobras.
O escudo de proteção da cápsula onde as amostras recolhidas farão a última fase da longa viagem de reentrada na atmosfera terrestre, foi desenhado e testado por um consórcio português liderado pela empresa corticeira Amorim, com ISQ, PIEP e a empresa Stratosphere. O objetivo era desenvolver um sistema de blindagem para proteção térmica e absorção de choques na aterragem, a ser incorporado à cápsula. 
O ISQ foi responsável pelo teste de impacto final do demonstrador de cápsula que foi realizado no Laboratório de Ensaios Especiais do ISQ, localizado em Castelo Branco.
A HPS Portugal também assegurou o isolamento térmico em múltiplas camadas do módulo. Sem esse revestimento, os seus componentes não sobreviveriam à viagem desde a Terra e não funcionariam na superfície de Marte, planeta com amplitudes de temperatura muito elevadas.