Colóquio internacional na UMass Dartmouth sobre a Revolução dos Cravos

 

Promovido pelo Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da UMass Dartmouth
“A Revolução dos Cravos: Perspetivas Globais”, colóquio internacional que reuniu individualidades do mundo lusófono

 

O Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, em coordenação com o Arquivo Luso-Americano Ferreira-Mendes, levou a efeito dias 4, 5 e 6 de abril, uma série de conferências internacionais sobre a Revolução Portuguesa do 25 de Abril de 1974, assinalando assim o 50º aniversário da revolução.
Subordinado ao tema “A Revolução dos Cravos: Perspetivas Globais”, o objetivo foi de reunir individualidades de diversas áreas académicas para discutir os aspetos multifacetados da revolução em todo o mundo lusófono.

O primeiro dia da conferência, na quinta-feira, 4 de abril, ocorreu no Centro de Inovação e Empreendedorismo Dartmouth da Universidade de Massachusetts, em Fall River, e o foco foi uma análise do impacto da Revolução na diáspora lusófona, bem como nas relações luso-americanas. Paula Noversa, diretora do Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da UMass Dartmouth, deu as boas vindas aos presentes, ela que fez parte do painel, juntamente com Daniela Melo, professora de Ciências Políticas da Boston University que abordou o tema: “The Revolution Comes to the US: Portuguese Diasporic Activism in New England” e Gilberto Fernandes, da York University, em Toronto, Canadá, que falou sobre o impacto da revolução em Toronto (“No More Yearning: Revolutionary Tremors in Canada’s Portuguese Community”).
Após um pequeno intervalo, o segundo painel falou sobre o impacto da revolução na diáspora africana, sendo painelistas Eric Morier-Genoud, da Queen’s University, em Belfast, Irlanda do Nort, Victor Barros, da Universidade Nova de Lisboa cuja intervenção teve por tema: “Cape Verdean Diaspora in Lisbon and the Carnavion Revolution”; Aurora Almeida Santos, da Universidade Nova de Lisboa (“The United Nations, the End of the Estado Novo”) e Iolanda Maria Alves Évora, também da Universidade Nova de Lisboa, que abordou o tema: “Telling our Stories, Challenging Narratives. The Carnation Revolution from the Perspective of People of African Descent”.
O terceiro painel abordou a questão das relaçõesluso-americanas durante a revolução sendo constituído por Lily Havstad, da Harvard University (“Lessons from the Carnation Revolution: Armed Resistance and Nonviolent Direct Action in Global Perspective”), Christianna Leahy, McDaniel College, do estado de Maryland (“International Entanglements in the Portuguese Revolution”); Frederic Heuterbize, Université Paris Nanterre (“US Labor and the Carnation Revolution”) e Miguel Moniz, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (“Estado Novo Cultural Diplomacy and Political Influence Operations in the United States, a context for Immigrant Community Responses to the 1974, 25 de Abril Revoluion”).
O segundo dia da conferência, sexta-feira, 5 de abril, teve lugar no Museu Baleeiro de New Bedford e o foco foi um exame da multiplicidade de fatores que originaram a Revolução dos Cravos. Painelistas: Valeria H. Monteagudo de Campos, da Universidade de São Paulo, Brasil cujo tema teve por título: “Morte e Vida: Antitheses pré e pós Revolução dos Cravos na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen”, com Ana Margarida Fonseca, da Universidade do Porto, a falar sobre “Filhas da Revolução: a (in)visibilidade da Escrita Ficcional de Autoras Afrodescendentes”. Falaram ainda Conceição Brandão, da Universidade do Porto (“Sacrifice, Freedom and Memory ofthe Carnation Revolution: Between The Day of the Prodigies and The Memorables of Lídia Jorge”) e Dora Gago, da Universidade de Lisboa, abordando: “Voices and Silences of April in The Memorables by Lídia Jorge: Ernesto Salamida, “the invisible messenger”).
Pela primeira vez nos EUA foi exibido o documentário “O Que Podem as Palavras” (2022), realizado por Luísa Marinho e Luísa Sequeira, que marcaram presença para apresentar o filme tendo respondido a perguntas do público.
O último painel do dia foi constituído pela professora Daniela Melo (Boston University), Patrícia Calca (“Portuguese Women’s Legislative Behavior in the Democractic Era (post-1974)”, Joana Matias, da Universidade Nova de Lisboa (“Pink Carnations: NOtes on the Place of Gender and Sexuality in the Historiy of the Revolution”) e Isabel Freire (“Was Sexuality the Elephant in the Room in the Aftermath of the Carnation Revolution”).
O dia terminou com as intervenções de Eric Morier-Genoud, da Queen’s University, de Belfast, Irlanda do Norte (“Mozambique and the Carnation Revolution”), Marçal de Menezes Paredes, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil (“Carnation Revolution and the Global Cold War Connections: a Southern Perspective”) e Jean-Michael Mabeko-Tali, da Howard University (“Angolan Armed Struggle in 1974-75: How the Metropolitan Struggles for Political Position impacted an Already Complex Anticolonial War”).
O terceiro dia da conferência, sábado, 6 de abril, foi realizado no campus Dartmouth da Universidade de Massachusetts, no Charlton College of Business. O painel do terceiro dia considerar o impacto ideológico global da Revolução dos Cravos, com intervenções de Warjio, Universitas Sumatera Utara, Medan, Indonésia, que falou sobre o impacto da revolução na Indonésia; Madhu, Miranda House, da Universidade de Díli (“Nationalism, Democracy and Identity: The Case of Goa”) e finalmente o professor Rui Graça Feijó, da Universidade Nova de Lisboa (“Wayfarers & Pathways: Public Sphere, Agency and Indeterminacy in the Portuguese Carnation Revolution”).
Foi ainda inaugurada uma nova exposição no Arquivo Luso-Americano Ferreira-Mendes. 

Onésimo T. Almeida, escritor e professor da Brown University em Providence, o deputado estadual de Massachusetts, Tony Cabral, Maria Tomásia, antiga comissária de eleições e Donalda Silva, falaram aos presentes sobre as suas lembranças do 25 de abril de 1974, um momento que despertou a atenção dos presentes, que colocaram questões diversas aos painelistas. Todos eles recordaram esse histórico dia e o impacto da revolução nas suas vidas e terras de origem e nas respetivas comunidades, sobretudo na diáspora lusa da Nova Inglaterra. 
Nas intervenções dos palestrantes Portuguese Times foi referido por diversas vezes, servindo de fonte de pesquisa e recolha de textos referentes à Revolução dos Cravos.
Esta conferência foi organizada por Paula C. G. Noversa (diretora, CPSC-UMass Dartmouth), Eric Morier-Genoud, (Queen’s University, Belfast) e Daniela Melo (Boston University).
O evento terminou com jantar no restaurante Century House em Acushnet.
Paula Noversa, diretora do Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da UMass Dartmouth, manifestou o seu contentamento pelo sucesso da iniciativa:
“Estou extremamente contente com todos, em especial o excelente trabalho dos painelistas e o envolvimento dos presentes nesta iniciativa, pois foram abordados diversos assuntos todos eles centrados na Revolução dos Cravos e nomeadamente o impacto na diáspora lusa e nos países lusófonos africanos e ainda como a revolução influenciou a literatura, os poetas e escritores, designadamente Sofia de Mello Breyner Andresen e Lídia Jorge”, referiu Paula Noversa, que fez questão de relevar o filme “O que podem as palavras”, um filme sobre a criação e o impacto do livro “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, refletindo sobre esse momento histórico que foi a Revolução do 25 de Abril.
“Foi muito interessante poder ver este documento e constatar tudo o que as três mulheres passaram na sua luta em busca da verdade durante a época do Estado Novo, foi fantástico e devo sublinhar o excelente trabalho das colaboradoras Luísa Marinho e Luísa Sequeira na apresentação deste documentário”, afirma Paula, que recorda a Revolução do 25 de Abril, tinha na altura 10 anos de idade.
“Não tenho bem uma memória desse dia, mas recordo que dois anos depois, em 1976, meus pais tinham uma casa na área de Braga e de constatar a preocupação deles ao lerem um artigo no Portuguese Times sobre as ocupações de casas cujos proprietários estavam ausentes e então eu e os meus pais fomos a Portugal passar o verão para ocupar a casa como que afirmando: estamos aqui e esta casa é nossa e depois no regresso aos EUA estávamos muito mais calmos e cientes da situação real do país e essa foi a memória mais marcante que tive daquela época, para além de outro momento que também recordo: na nossa viagem ao Porto para visitar uma pessoa de família nunca vi tantos soldados na minha vida: nos combóios, estradas, estações, etc... uma imagem que ficou gravada para sempre”, conclui Paula Noversa, diretora do Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da Umass Dartmouth.

 

Na edição de 24 de abril, apresentaremos um segmento especial com entrevistas e apontamentos sobre a Revolução Portuguesa do 25 de abril.

 

• Reportagem: Francisco Resendes