Restaurante Galito festejou primeiro aniversário com cantoria de galos e galitos

 


Os galitos mostraram aos galos de crista, em dia de aniversário
que vão erguer o seu cantar para manter a tradição

 

Descobriram a costa leste dos EUA em dia frio de inverno. Eram dois galitos vindos da Terceira, de voz afinada, grande teor de improviso a fazer frente a duas figuras sobre quem acenta a responsabilidade da preservação e projeção da cantoria.
Falamos de José Plácido e José Custódio, este último muito ativo junto da centenária igreja de Nossa Senhora do Rosário em Providence. Ali está anualmente à frente da Folia do Espírito Santo daquela igreja, no palco no Kennedy Park nas Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra em Fall River. 
Mas ao lado destes dois pilares da Cantoria ao Desafio dois jovens que mostraram em palco, aliado à sua juventude o talento para o improviso.
Pela primeira vez nesta costa Leste dos EUA, mais propriamente na zona de Boston, Artur Miranda é um jovem vocacionado para a cantoria. “Vim a convite de Victor Santos. Deparo com uma assistência de mais de 300 pessoas. É meio caminho andando para uma grande cantoria. O calor da plateia é uma grande ajuda”.
Mas tudo tem o seu princípio, se bem que nesta coisa de cantorias é preciso talento.
“Comecei a cantar com vintes e poucos anos. Influenciado por mim mesmo. Fui ver se era capaz. E fiquei. O Zé Eliseu incentivou-me muito. Viu alguma qualidade para lá chegar. Direi que isto é um caminho que se faz caminhando. Não é coisa para se fazer num dia”.
Mas o improvisador quer mostrar os seus talentos em atuações.
“Não faço planos para o número de cantorias ao longo do ano. Se me convidam vou.”
Mas fazer vida da cantoria não é fácil.
“Sou exportador de pescado. Desenvolvo a minha atividade entre os Açores e o Continente”, concluiu Artur Miranda.

Mas em termos de juventude e novos talentos, Victor Santos teimou em surpreender as mais de 300 pessoas presentes no salão da igreja de Santo António em Pawtucket, onde festejava o 1.º aniversário do Restaurante Galito.
“O que é quer que lhe diga”, diz-nos Bruno Botelho. “O que é que me quer dizer, respondemos”. “Para já estou encantado ao ver uma sala completamente cheia. Uma presença de 300 pessoas é obra”.
Estamos perante um cantador de 18 anos. Na flor da idade e das cantorias. É Bruno Botelho.
“Comecei aos 16. Fui incentivado pelo Mariano. Se bem que esta coisa de cantorias seja um dom. Nasce com as pessoas. E depois é desenvolver”.
Mas aqui a formação académica é primordial.
“Estou a estudar. E é aqui que me tenho de dedicar a fundo. As cantigas vêm por acréscimo”.
Mas com toda a sua juventude tem cantado pelas ilhas da Terceira e Santa Maria. 
A assistência que se regista em iniciativas por esta região supera outras iniciativas do género e mesmo nas origens.
“Temos grande aderência aos espetáculos de cantorias pela ilha Terceira, mas não na ordem das 300 pessoas como temos hoje aqui”, concluiu o jovem repentista Bruno Botelho.
O senhor que se segue dispensa apresentações. Basta dizer o nome. É José Custódio. O resto é ele que o vai dizer.
“É um grande privilégio poder ver todo este potencial jovem dar continuidade à nossa arte de improviso.
Isto é uma tradição que não pode morrer. Cabe a nós dar o apoio a estas novas camadas de cantadores que vão aparecendo”.
Mesmo habituado a ver de cima do palco autênticos mares de gente, tal como acontece nas Grandes Festas do Espírito Santo em Fall River, não lhe passa despercebida a sala cheia em comemoração do 1.º aniversário do restaurante o Galito.
“Victor Santos tem o dom de saber captar muita gente. E um homem que sabe organizar uma festa. E que nos dá o privilégio de poder fazer parte desses eventos”.
Ali tinhamos dois jovens, surpresa. Dois talentos, que dava gosto ouvir. Mas por aqui as velhas raposas não deixam por mãos alheias os louros conquistados.
“Deus deu-nos este talento que cultivamos em terras de outras gentes. Outras culturas. Mas onde nos é dada a oportunidade de expressar para a nossa gente aquilo que tanto gostam. Cantorias ao Desafio”.
O pisar o palco, e ficar perante algumas centenas de pessoas. Mesmo milhares. É uma situação problemática.
“Aprendi com o grande José Plácido a encarar uma plateia. Sem nervosismo. Cientes da responsabilidade. Fazer o melhor. Mas sem nunca se deixar vencer pelo nervosismo. Fazemos a cantoria com carinho. E transmitir esse carinho para o público. Esse público, que merece tudo”.
A cantoria nos Açores está no seu terreno. Aqui foi uma importação.
“Mas aqui vive-se o amor à tradição. Lá é o seu terreno de ação. Mas aqui tem um valor redobrado. São 30 anos a cantar nos EUA. E aqui quero voltar a salientar o mestre das cantigas, José Plácido, que me leva para todo o lado”.
E José Custódio conclui: “Se sou o que sou hoje devo-o a José Plácido”.

Quando Victor Santos nos convidou para fazer a reportagem sobre o 1.º aniversário do restaurante Galito, longe de mim estava a ideia de que iriamos ouvir cantorias e entrevistar cantadores.
Mas já que entramos resolvemos ficar.
Faltava falar com José Plácido. 
Estou aqui uma noite a ouvir dizer bem de José Plácido. Os novos e os menos jovens.
“Se já disseram tudo. Já nada resta dizer. Mas só uma coisa. Estou encantado pela forma como estes dois jovens estão a entrar na tradição. Ver estas duas promessas a dar continuidade a um tradição que se perde nos tempos é como que um alívio que nos tiram de cima. Pela razão de que há continuidade. Há entusiasmo no manter da cantoria. Eu sou um deles. Outros vieram antes de mim. E outros virão depois de mim. Isto é uma parcela da cultura açoriana.
A minha parte está feita”.
José Plácido é uma referência no mundo das cantigas.
“Temos de continuar a apostar nos que vêm de lá, como seguimento da tradição. Os que estão por cá vão envelhecendo. E a sua renovação tem de ser com os que vêm das origens. Isto é uma tradição muito apoiada e muita acarinhada. E como prova disto é uma casa cheia, como aqui se regista hoje, perante mais de 300 pessoas”.
Mas falamos com José Plácido, considerado um pilar das cantorias.
“Isso é um exagero, dado que há aqui pelos EUA, bons cantadores. Tenho tido a sorte de ser mais acarinhado pela comunidade. Talvez seja um cantador que mais soube ir ao encontro das pessoas que gostam da arte. Isso deixa-me satisfeito, porque ainda hoje, vejo alguém que chama por mim. É uma prova que ainda me encontro no mundo das cantigas”, concluiu José Plácido.
Seguiu-se a sobremesa e a segunda parte da cantoria. Mas motivos de ordem profissional obrigaram a continuar a ronda comunitária. 
 

• Fotos e texto de Augusto Pessoa