Faleceu Manuel Canito

 


Figura incontornável no mundo das bandas filarmónicas nos Açores e nas comunidades lusas da América do Norte

 

Manuel Canito, falecido quarta-feira, 06 de janeiro, aos 93 anos de idade, é um nome incontornável no mundo musical da Nova Inglaterra, uma grande referência, particularmente nas filarmónicas que por aqui abundam e teimam em manter viva uma das mais ricas tradições musicais das nossas gentes. 
Canito tinha o talento, o conhecimento e a experiência de mais de 75 anos de música. 
Envolveu-se no mundo da música na banda dos Arrifes (Nossa Senhora da Saúde), aos 14 anos de idade começando por tocar tromba, onde se manteve até aos 25 anos, altura em que, na falta de maestro, assumiu esse cargo aqui permanecendo durante 15 anos. 
Com apenas 16 anos de idade começou por compôr várias peças musicais para a banda da sua terra e aos 21 anos de idade frequentou a Academia de Música em Ponta Delgada, até 1952. Foi aluno dos professores Bernardo Nascimento e Margarida Magalhães. Muitas das suas composições são ainda hoje executadas por várias bandas em Portugal e nas comunidades portuguesas da América do Norte.
O seu primeiro instrumento foi o piano, mas aperfeiçoou-se como instrumentista no saxofone, alto e tenor e no clarinete. 
Escreveu a primeira marcha com o título de Festa de Natal, em 1947, sendo estreado dia 25 de dezembro desse mesmo ano e a partir daí foi um rol de marchas de procissão e desfile.
Com o decorrer dos tempos e paralelamente ao seu envolvimento na filarmónica da sua terra, Manuel Canito abraçou outros projectos musicais, tendo feito parte da então famosa orquestra de Gaudino Rodrigues, atuando em diversos eventos e salas famosas de Ponta Delgada, nomeadamente o Ateneu Comercial, Coliseu Micaelense e Teatro Micaelense, Jardim António Borges e ainda num programa musical ao vivo para a Radiodifusão Portuguesa, antiga Emissora Regional dos Açores. Em 1959, Manuel Canito desloca-se com a sua banda a Lisboa, depois de ter ganho um concurso em Ponta Delgada. Entre várias peças musicais saliente-se “Folhas Douradas” e “Lagoa do Fogo”.
Depois de cinco anos como membro da orquestra de Gaudino Rodrigues é convidado a fazer parte de um outro projecto musical, a “Jazz Micaelense”, que ganhou fama por toda a ilha, tendo tocado também na orquestra de Teófilo Frazão. Para Manuel Canito, uma das memoráveis atuações aconteceu no Teatro Micaelense aquando da apresentação do filme “Quando o Mar Galgou a Terra”. Entre vários outras etapas marcantes na sua longa carreira de músico e maestro, Canito, que imigrou para os Estados Unidos com a família em 1968, compôs um hino para uma das mais proeminentes figuras da sua terra natal, o saudoso Cardeal Humberto Medeiros.
Ainda em São Miguel, Canito foi durante alguns anos regente da banda “Estrela do Oriente”, da Algarvia, Nordeste.
Em 1969, é criada, com outros elementos ligados à Sociedade Senhora da Luz, a Banda Nossa Senhora da Luz, constituída por vários elementos de outras bandas locais e dos Açores. A banda apresenta atualmente um percurso verdadeiramente rico, sendo considerada uma das mais conceituadas filarmónicas portuguesas dos Estados Unidos e constituída por cerca de meia centena de elementos, com várias digressões pelos EUA, Canadá e Açores e dois discos gravados e desde 2017 sob a orientação do jovem Scott Lopes.
No início foi difícil manter a banda, quebrar hábitos e costumes antigos dos músicos provenientes de outros agrupamentos e criar um estilo próprio, contudo e após superadas essas dificuldades iniciais, a Banda Nossa Senhora da Luz foi ganhando espaço de destaque na comunidade, quer através de festas em procissões, paradas quer ainda em concertos, mercê do trabalho exigente e altamente profissional de Manuel Canito. 
Entre os vários concertos da banda, destaque-se o Festival da Primavera em que esteve presente o neto de John Phillip de Sousa, a quem Canito dedicou uma marcha intitulada “The Yankee Navy” e pouco depois aconteceu a primeira digressão aos Açores.
Manuel Canito integrou ainda um conjunto musical na comunidade intitulado “Ritmos Leais”, com atuações pelas várias organizaçoes lusas da Nova Inglaterra.
Com mais de 75 anos de uma vivência musical verdadeiramente rica, Manuel Canito era daqueles que tinha “o bichinho da música” dentro de si e enquanto teve forças e saúde deu um enorme contributo para a preservação de uma tradição musical que vai permanecer durante largos anos por estas paragens. Pelo menos enquanto houver gente que goste de cultivar as nossas tradições e tenha esse sentido de dever e responsabilidade de incuti-las nas gerações vindouras.
Acrescente-se que Manuel Canito viu reconhecido publicamente o seu contributo a esta tradição musical: em 1990 foi distinguido pelo Presidente da República Portuguesa, em 1999 foi homenageado pelo grupo Amigos dos Arrifes, em 2005 agraciado pela Massachusetts State House, em Boston e em 2019 a Junta da Freguesia dos Arrifes atribuiu-lhe uma medalha de mérito.

 

“Manuel Canito deixa um rico legado a todas as bandas 
filarmónicas por onde passou”

- António Carvalho

António Carvalho, um dos fundadores da Banda de Nossa Senhora da Luz, em 1969, natural dos Fenais da Luz, S. Miguel tendo imigrado em 1948 para os EUA, recorda Manuel Canito com saudade e o momento em que tudo começou.
“A banda surgiu à sombra da Sociedade Nossa Senhora da Luz (organização fundada em 1907) por um grupo de membros que já conheciam o sr. Manuel Canito, convidaram-no em março, altura em que começaram os primeiros ensaios e dois meses depois, em maio, a banda desfilou na procissão da festa paroquial da igreja do Espírito Santo, com cerca de 28 músicos e logo aí ganhando o respeito e admiração do público em geral e em especial daquele que aprecia as nossas bandas filarmónicas”, salienta António Carvalho, que juntamente com o saudoso Manuel Canito viveram momentos altos da Banda de Nossa Senhora da Luz, muito bem apetrechada de bons músicos mas sobretudo mercê da orientação e exigência daquele saudoso maestro natural dos Arrifes, S. Miguel.
Hoje sob a regência de Scott Lopes, a Banda de Nossa Senhora da Luz apresenta um vasto percurso de digressões: toda a Nova Inglaterra, Califórnia, Canadá, Açores e até mesmo em Washington, DC, onde atuou junto do Capitólio.
Para além disso, e sempre sob a regência de Manuel Canito, a Banda Nossa Senhora da Luz participou em vários festivais e foi ganhou diversos concursos de bandas filarmónicas por estas paragens.
“O senhor Manuel Canito deixa um rico legado não apenas à nossa banda mas a todas as bandas filarmónicas por onde passou, em São Miguel e aqui nos EUA”, conclui António Carvalho.

 

“Exigia excelência de todos, mas era também o pai e o avô dos seus músicos”
Scott Lopes, regente da Banda Senhora da Luz

Scott Lopes, atual regente da Banda de Nossa Senhora da Luz, e que cresceu à sombra da regência de M. Canito, teve palavras elogiosas para com o seu mentor e professor:
“O senhor Manuel Canito foi uma das pessoas mais dedicadas que jamais conheci. O seu amor e paixão pela Banda Nossa Senhora da Luz, conhecida pela Banda do Senhor Canito, foi na realidade o que me inspirou e a tantos outros músicos a valorizarem-se cada vez mais musicalmente, pois ele exigia excelência, mas era também o pai e o avô de todos o músicos”, sublinha Scott Lopes, que adianta: “Tivemos a sorte de aprender ele e estou certo de que o seu legado ficará perpetuado na memória das gerações. Foi meu mentor, professor, amigo e membro da família e serei eternamente grato a Manuel Canito. Será sempre lembrado e amado. Será sempre o verdadeiro regente da Banda Nossa Senhora da Luz. Muito obrigado”, concluiu Scott Lopes.
Manuel M. Canito era filho de Duarte Medeiros Canito e de Emília Raposo, ambos já falecidos. 
Viúvo de Diamantina Benevides Canito, deixa os filhos Robert Canito (e esposa Alice), Berta Canito-Goff e marido Neal e Steven Canito, todos em Fall River. Sobrevivem-lhe ainda dois netos Camron Goff e Paige Goff, o irmão Duarte Medeiros e esposa Alda, em Ontário, Canadá, vários sobrinhos e sobrinhas. O funeral foi privado. A missa de corpo presente foi celebrada sedia 11 de janeiro, na igreja de Santo Cristo em Fall River.

 

• Texto: Francisco Resendes