A Menina do Restaurante

 

Num palco, os actores representam um papel fictício. Os mais profissionais, os mais talentosos, mergulham na caracterização das personagens com tal poder e versatilidade que se transformam nelas. Um bom actor, digamos, protagoniza. Não representa. É o espelho de uma alma gémea.

A menina do restaurante não é uma actriz. Ao princípio parece não estar em lugar algum, extasiada com a passividade do nada. Figura lânguida, abstracta, inerte – braços caídos sobre o ventre, dedos enclavinhados, costas para o balcão. Observa-nos com o fulgor de uma resplandecência vaga, impassível. Não é indiferença ou arrogância. Apenas um modo suave, quase contemplativo de abraçar, sem paixão, a rotina.

Mas logo desperta da sua neblina letárgica e dirige-se a nós, mal nos sentamos, num movimento de ancas que sustém a viabilidade da poesia. Move-se num ritmo calculado, como se cantasse com os pés, passos miúdos e macios.  A sua natureza passa por uma espécie de acordo entre uma imagem inesperadamente misteriosa e a inalterável altivez de uma gata.  Traz o cardápio e um sorriso que se abre como uma imensa varanda para o mar. Naquele pequeno espaço de mesas e cadeiras, cheiro a comida, a luz do meio-dia a vibrar no vidro das janelas, vestida de negro como se tivesse uma relação ambígua com a  noite, a pele branca, tão branca como uma nuvem, a menina do restaurante, com gestos de bailarina e voz magoada, deixa sobre a mesa o rumor das suas mãos.

Não é bonita nem feia. O seu rosto transcende qualquer avaliação estética. Sorri. E no sorriso expande-se toda a beleza do mundo.

As suas palavras libertam-se numa espécie de voo circular – enredam-na numa áurea sonora. Não tem a pronúncia da ilha, o português afrancesado e doce de Ponta Delgada. Pode ser do Sul de Portugal, entre o Alentejo e o Algarve. Brinca com as palavras como se fossem balões em suspensão livre, magnífica.

– Quer provar o vinho da casa? Olhe que é bom!

Em qualquer restaurante trazem-nos uma pequena margem escura no fundo do copo. Dá para humedecer os lábios, seguido de um positivo meneio de cabeça. Naquele vem cheio. É para provar e beber.

É bom de facto. Acompanha bem o bife à regional.

Deixando os pratos logo se afasta a menina, solta, como se voasse ao encontro de um jardim. Junto ao balcão está o colega, um rapazinho seco de carnes e com uma perinha de sombras muito esparsas no queixo.

A sua pronúncia é local. Ambos falam com o mesmo sotaque. Ela volta, num momento, às suas raízes.

Come-se devagar. A ilha foi sempre um espaço propenso a ritmos únicos, vagarosos, introspectivos. Impõe-nos uma nova atitude perante o mundo. A poesia estala como o vidro. Deixa-nos em estado de choque, à mercê da sua força prodigiosa.

A meio do almoço entra um grupo de meninas. Olham em redor como se estivessem num museu de antropologia. Há olhares que nos castigam o espírito.

A empregada do restaurante aproxima-se delas com o cardápio. Sabe que são estrangeiras.

– Good afternoon – diz com o sotaque de quem viveu sempre em Londres.

Entrega-lhes a ementa. As cabeças inclinam-se sobre o papel com os pratos do dia e outros sabores regionais. Há sussurros.

Espera pacientemente. Sabe que daí a pouco choverão perguntas. «O que é isto? E isto?»

Porventura não a incomodará a ignorância mas o tom da pergunta, a expressão do rosto, a altivez de quem chega aos lugares cheio de tiques e preconceitos. Perco o interesse.

Confio que a menina do restaurante está preparada para qualquer eventualidade, seja qual for a pronúncia, língua ou atitude. Como não admirar alguém assim? Além disso, quem recomenda um vinho destes, e de modo tão generoso, merece todo o meu respeito.