A mosca

 

«Os pássaros são os olhos do paraíso

e as moscas os espiões do inferno.»

–  Suzy Kassem

 

Está calor. Abro a porta que dá para o pátio da frente. No chão, junto à cadeira, as pétalas lilases de uma rosa. Movem-se numa dança sustentada pela brisa. Olho as plantas: As flores esmorecem. Frágeis, estão condenadas a uma existência efémera.

Levanta-se da terra uma melancolia de pó. O cheiro é seco, milenar. Não é uma cumplicidade do sol mas uma imposição. Arde, arrasa o mundo. Aflige-me a sede que vem da terra. Não é aconselhável, porém, regar as plantas a esta hora. Vou esperar que passe este clarão sobre as coisas, a luz ardente, quero dizer, que me cega.

Daqui a poucas horas um oiro absoluto vai surgir de mansinho. O ar tornar-se-á leve. Com o crepúsculo, a frescura da água fará sentido. Quanta chuva, então, e miudinha, a libertar-se da mangueira esticada, cauda longa de um rio ligado à parede.

Nessa altura os seres habitam uma espécie de paraíso. A Natureza canta em silêncio. Até a poesia se torna num esquilo em busca de abrigo. Sentirei a água nas minhas mãos como se outra pele, molhada de ternura, viajasse nelas.

Até lá, porém, terei que esperar.

No momento em que fecho a porta de rede, um zum­bido. Bolas!, resmungo. Não tenho velocidade de mãos e a mosca entra em casa. Conheço alguém que as apanha em pleno voo. É de uma destreza notável. Olhar, braço, mão, tudo num movimento lesto, sincrónico. Num breve segundo e o voo interrompido: a mosca, prisio­neira, debate-se mas não consegue libertar-se. Eu não dis­ponho desses recursos. Só posso contar com a paciên­cia, uma forma resignada de aceitar o inevitável.

Passam-se dias. Vou atrás dela quando, insolente, me irrita. Pego numa revista, num jornal, no que estiver à mão. Acabam por ser tentativas infrutíferas, inócuas. Deve ser um gozo poder evadir-se assim, tão facilmente, com a minha falta de eficácia. Ri-se com as asas, com os olhos.

Há alturas em que não a oiço. Apenas o som emitido pelo frigorífico, como agora, na sala, enquanto releio Vergílio Ferreira. De repente aparece-me esta frase: «Por­que a infância, querida, é sempre uma ameaça para um homem.» Esta afirmação acorda-me, faz-me estremecer. Fico despido, nu. As minhas mãos já não cabem nas da minha mãe como folhas de cerejeira. Já não tenho esse refúgio, essa árvore que me dava sombra e protecção. Sou o meu destino, descalço sobre os cacos da minha fragili­dade. Estou só na longa estrada. As palavras de Vergílio Ferreira são um vendaval. Tornam-se mais fortes do que o silêncio, respiram dentro de mim. Evocam fragmentos de um espelho que se partiu de encontro ao tempo. Não é fácil olhar-se para trás quando as imagens da nossa vida estão todas espalhadas pelo chão. Não há chuva tão fria como a das lágrimas. A infância foi um sonho breve, é certo. O homem acorda e ajoelha-se perante o passado numa tarefa de recolha. São muitos os fragmentos –  uma mancha na água pura da inocência, ofensas sem resposta, cumular de recalcamentos. Ausências. Depois a indi­gnação perante aquilo que já não tem remédio. Tudo passou menos a memória das coisas, prisioneira de um grito insano. Até o belo tem uma ferida, uma picada, um alfinete preso na pele. A certa altura um homem torna-se num mapa de vivências, a cabeça num espólio de imagens. Por isso eu não sou daqui. Salto de terra em terra, de mo­mento a momento como uma palavra peregrina. Sou poesia e vento. Esquecimento.  Ando descalço pelo mundo com África na voz, e não peço desculpa por levar nos bol­sos o cheiro das goiabas. A minha infância tem um rio nos olhos da minha mãe. É para lá que vou, agora e sempre.

E nisto outra vez o zumbido a interromper-me os pen­samentos, como uma seta, de ouvido a ouvido. Como se comportaria Sócrates com uma impertinência destas, vertiginosa, irritante? Os insectos conseguem ser a pre­sença mais irritante do mundo. Levanto-me, disposto a inves­tir novamente com as minhas armas do costume. E lá se vai Vergílio Ferreira e as suas questões metafísicas. E as minhas.

Não sei o que me irrita mais: se a impertinência do ruí­do ou esta «invasão» do meu espaço. Tenho fobia a proximidades físicas que me são estranhas. Detesto, por exemplo, multidões, o respirar alheio junto de mim, a obs­trucção, a parede humana. Preciso de horizontes, espaço à minha frente e ao redor. Um caminho, enfim, uma possibilidade de evasão sem obstáculos.

Olho em redor. Nada. A mosca escondeu-se num labirinto que não diviso. Observa, tenho a certeza, os meus movimentos, fúteis e inconsequentes. Desisto.

Passo horas seguidas sem a ouvir.  De súbito é como se lhe sentisse a falta. Esqueço-me da sua impertinência. Vejo-a agora como uma presença que coabita o mesmo espaço que eu. Tem direito a estar aqui. Sinto vergonha da minha obstinação.

Distraio-me momentaneamente com uma silhueta que passa lá fora. É o Eric, um finlandês com fôlego de gato na sua corrida de sempre. Desta vez, porém, segura uma escada com o aprumo e a firmeza de um atleta, o que contraria a lei natural das coisas. Eric tem oitenta anos. Anda tão rápido como o meu tio João, venerável lisboeta que foi, corredor de fundo no quotidiano da vida. Os vidros da frente faiscam à sua passagem. A luz rebrilha numa miríade de diamantes.

Vai alta, a manhã. A casa, por muito confortável que seja, torna-se um horizonte obscuro. Saio.

Quando regresso, já de tarde. Dou com o habitual e duro silêncio dos livros. Ocupam as estantes de parede a parede. São a minha companhia – sem olhos, sem mãos, sem braços. Presença de papel, aberta ao mar da imaginação. No entanto, oiço apenas a sua respiração através das palavras que leio. É doce, quente, confortável o rumor macio das folhas entre os dedos. Partícula a partícula vai-se soltando delas uma luz secreta, breve clari­dade de um suspiro. Em espiral, perde-se entre os meus olhos.

Observo os livros de relance. Contudo, não me dirijo à sala mas ao chuveiro. O dia esteve quente. Preciso de um banho.

De repente dou com ela, a mosca. Está muito quieta junto ao espelho. Aproximo-me. A sombra da minha mão, ameaçadora, cresce sobre ela. Quase a toco e ela não se mexe. Um pequeno movimento assegura-me que está viva. Parece exausta, perdida, vencida. Posso eli­miná-la com a pressão do meu dedo. Mas incomoda-me a sua vulnerabilidade. Não tenho coragem para acabar com tudo naquele momento tão propício. Pego numa toalha e cubro-a. Certifico-me de que não fugirá, levo-a para a varanda e solto-a.

O ar cansado e quente da tarde fá-la despertar da sua letargia. Desaparece em poucos segundos.

Reparo no céu: ainda está azul. É um tom que não é daqui. Parece tirado de um cenário mediterrânico.

Fecho a porta de rede. Os dedos apagam-se entre o rumor das cortinas. O cheiro do café, a serenidade de um copo de água fresca no balcão da cozinha.

Cerro os olhos. Sinto dentro de mim a reverberação de umas asas minúsculas progredindo nas margens do silêncio.

Hoje foi um dia bom.