Cantar para além da música

 

Rocco gosta de cantar. Canta no carro enquanto conduz, na cozinha, vigiando as panelas com espar­guete fumegando alegremente. Canta no venerável chuveiro sob diáfanos e matinais repuxos. Mesmo quando fala, entre uma e outra palavra há um cantor que desperta e a sua voz torna-se numa orquestra.

Mas nada ganha a dimensão emocional, a pro­jecção, como aquele que se pode considerar o seu momento de glória: quando se exibe em público. Nesses momentos sublimes agarra o microfone com a segurança e a convicção de um político vacinado contra as intempéries do seu mandato. De costas viradas para o público, a cabeça ligeiramente incli­nada para cima, vai lendo, num enorme ecrã, as letras das canções.

Não é por timidez que evita a audiência. Ou desrespeito. Demonstra, aliás, uma dependência enorme de protagonismo. O seu ego eleva-se como um papagaio de papel, sobe, sobe muito, quando o DJ o solicita para cantar. Levanta-se da cadeira com a velocidade de um foguete e aterra no palco como no centro de um vendaval.

Falta-lhe, porém, um elemento indispensável na sua prestação: paciência para decorar as letras. Não vê isso como um dado negativo. Está ali para exercitar a garganta e não a memória, afirmou uma vez. Walt Whitman, o poeta que glorificava o ócio, ficaria encantado com a sua postura.

Rocco é um sujeito de estatura média, laca no cabelo, olhar de lince indolente. Traja-se, invaria­velmente, de camisa branca de seda e calças pretas de poliéster. Nos pés rebrilham sapatos bicudos. Não parece um velho italiano em busca de glória. É um Dean Martin extemporâneo. Embevecido com a sua própria imagem, peito espetado, muito solene e erecto, Rocco revela-se como um produto da sua própria imaginação e das suas carências emocionais. Não vive sob contingências fruto de riscos mas no bocejo quotidiano da rotina. Quando fala nota-se nele o sonhador de glórias nunca vividas, olhos esbugalhados, lancinantes, abertos como dois girassóis em declínio.

Rocco canta e o seu universo explode de luz. Um timbre oceânico brota-lhe da garganta rouca e os seus braços erguem-se quase numa prece. Alheio, abstraído, envolve-o uma hipnose nostálgica. Já vi muitos homens assim, embalados pelo velho rumor das suas lágrimas, rendidos a paixões antigas, can­tando, dançando com os fantasmas do seu passado.

The summer wind, canta Rocco. O peito vibra, cresce. Os cordões de oiro coruscam como estrelas exangues. O mundo de repente parece tão estranho, vulnerável, frágil. Vazio. Há um homem que canta, o corpo envelhecido, a névoa da melancolia no olhar de quem perdeu a bússola da memória. Quem o conhece? Virá de uma casa sem vozes? Sim, confessará mais tarde. Além disso as dores súbitas nos ossos. É vago a explicar. Porventura impertinentes, agressivas como choques elétricos. A imobilizarem-no. Passará grande parte do dia sentado numa espreguiçadeira a ler bestsellers. Às vezes, quem sabe, adormece. Quantas vezes o surpreenderá a fria chuva da manhã nos embaciados vidros das janelas, encolhido sob uma manta de algodão, aconchegado como no calor de um útero, esquecido de si mesmo, o largo inverno, branco e inalterável, a vaguear pelas ruas?