O “Quinta-Feira e outros dias”

 

Finalmente e como se vinha noticiando há um bom tempo, lá surgiu o novo livro de memórias de Aníbal Cavaco Silva, “QUINTA-FEIRA E OUTROS DIAS”. Dentro do que me é típico, terei de vir a ler (e com aten­ção...) este novo livro do nosso antigo Presidente da República. Mas talvez não venha a adquiri-lo, como se deu com a sua obra anterior, em dois volumes, dado que a mesma foi adquirida pelo meu filho e nora. Também com esta eu estou convencido de que na família lata alguém a irá adquirir, pelo que logo o lerei.

Tal como em tempos se deu com um outro livro o tempo da URSS, embora também aqui não o tenha ainda lido, já pude escutar excertos da obra, ao menos, desde o passado sábado. Esses excertos têm um enorme denominador comum e deverão ser, por isso, algumas das partes mais apetecidas pelo atual jornalismo. Por tudo isto, eu posso já tirar diversas conclusões sobre a obra.

Em primeiro lugar, a obra parece ser de um tipo auto­comtemplativo, mostrando um grau de conhecimento das coisas e de perceção das realidades que estaria muito para lá do imaginável. Ele teria visto, pois, o que ninguém via. Ou, de um outro modo, a democracia e a liberdade de expressão do pensamento servirão para pouco, dado que poucos perceriam o que se passava.

Em segundo lugar, o antigo Presidente da República refere as palavras insultuosas de Mário Soares durante a campanha eleitoral. Simplesmente, com estas suas con­siderações, Aníbal Cavaco Silva acaba por mostrar um dado há muito conhecido: é mui pouco dado a confrontos democráticos eleitorais. De resto, isto mesmo pôde ver-se quando foi Primeiro-Ministro e recusou, em certa cam­panha eleitoral, debates televisivas com o líder do PS, Jorge Sampaio. Jorge Sampaio, que acabou por derrotá-lo, de um modo extremamente forte, na eleição presiden­cial que se seguiu. O que permite perceber a razão da recusa...

Em terceiro lugar, manifestamente, esta obra não é muito própria de um estadista. Com ela, quase com toda a certeza, seguir-se-á a correspondente resposta de José Sócrates, restando-nos, como se percebe, optar por uma das duas versões. Nada trazendo de verdadeiramente novo, e muito menos uma visão de grande estratégia para Portugal, o que esta obra acabará por iniciar é mais uma cena mui pouco qualificada de diz tu, direi eu.

Em quarto lugar, Aníbal Cavaco Silva nada esclarece sobre o caso das ditas escutas a gente do Palácio de Belém. Porque é preciso recordar as suas palavras do tempo e o que agora diz, ou seja, que a tal manchete mais não era que um modo de vender papel de jornal. Fica, assim, por esclarecer uma das grandes bombas que ofereceu aos portugueses nesse tempo já distante.

Em quinto lugar, perante a ausência de referências pú­blicas, parece que a obra nada diz de dois temas muito ligados e que caraterizaram o seu tempo presidencial: o problema dos seus vencimentos e o da petição pública que o sucedeu, com muitas dezenas de milhares de assina­turas de portugueses que se sentiram ofendidos.

Em sexto lugar, o facto de ter estado presente neste lan­çamento muito pouca gente, para mais com uma sala de reduzidas dimensões. Dos Presidentes da República – quem poderia duvidar? – apenas António Ramalho Eanes esteve presente, o que explica bem a posição assu­mida por Mário Soares perante a segunda presidência de Eanes, já com o seu PRD à vista...

Em sétimo lugar, a inacreditável consideração sobre ter Sócrates conseguido resistir à pressão do PCP e do Bloco de Esquerda, salientando que nenhum país desenvolvido alguma vez teve uma tal situação, que nunca conduziu a bons resultados. Bom, simplesmente inacreditável! Mas então o caso do Governo atual, com a sua base parlamentar de apoio, não produziu já resultados excecionais?! Não é o que todos reconhecem, com as mais que lógicas exceções do PSD e do CDS/PP?! Inenarrável!!

Em oitavo lugar, Cavaco Silva, se quiser compreender bem a História recente do País, deverá ter presente o baixíssico simpatia dos portugueses com que viveu durante todo o seu segundo mandato, e que se mantém, sendo algo de diametralmente oposto ao do seu sucessor, que tem sabido manter-se junto dos seus concidadãos e recriar-lhes a esperança que haviam perdido com Aníbal Cavaco Silva. A diferença, sob todos os aspetos, é um abismo.

E, em nono lugar, encontro-me agora num centro comercial junto da minha residência, não tendo ainda encontrado uma só pessoa com um exemplar da obra, ou uma só conversa – no círculo de audição segura – sobre o livro ou quanto já foi referido em torno do seu conteúdo. E a razão é simples: o que ali conta não tem um ínfimo de interesse para a generalidade dos por­tugueses. Além do mais, os portugueses não querem mais ouvir falar de Cavaco Silva, porque sabem o estado que era o do País quando chegou ao poder e como estava quando saiu. E sabem, por igual, o que tem vindo a dar-se com o Governo que, a muito custo, lá aceitou... Um livro que se saldou num gasto inútil de papel.