Como se vê, o franquismo está vivo

 

Os mais velhos ou mais interessados recordam bem o que foi o Movimento das Forças Arnadas, que conseguiu dar corpo à Revolução de 25 de Abril. Nesse tempo, Franco estava ainda vivo e o regime constitucional fran­quista continuava a funcionar na vizinha Espanha. E a situação era de tal ordem, que até a pena de morte por garrote continuava em vigor e a ser aplicada, precisa­mente, por esse tempo do nosso PREC.

Inquestionavelmente, a morte de Franco e a Revolução de 25 de Abril, em Espanha com o forte apoio da Igreja Católica Romana no Vaticano, tiveram influência no desfecho constitucional da situação política espanhola. Impunha-se mudar qualquer coisa, mas que permitisse que o essencial da unidade de Espanha, sob o comando de Castela,  continuasse em vigor. Foi deste pensamento central que saiu o atual regime constitucional, depois razoavelmente melhorado, embora com avanços e recuos.

Para que este desiderato pudesse ser atingido foi essencial a colaboração de Felipe González e do seu PSOE. O tal PSOE que se limitou a continuar a abrir portas aos inte­resses da Direita, sem beliscar, minimamente que fosse, o passado criminoso de muita gente espanhola profun­damente ligada a Franco e ao seu franquismo. Ainda agora, ao tempo das eleições espanholas mais recentes, se pôde ver o autêntico boicote de Felipe González ao caminho preconizado por Pedro Sanchez e desejado por uma boa parte dos espanhóis.

Significa isto, portanto, que o atual regime constitu­cional de Espanha se constitui, de facto, num prolon­gamento modernizado do franquismo que viu o seu fim com a morte de Franco. Um pouco como se deu com o fim do Apartheid na África do Sul, só possível por ter Mandela aceite a manutenção de todos os grandes interesses ali instalados e nas mãos dos brancos e pela garantia dada de se não perseguir judicialmente os bárbaros crimes ali praticados pelos líderes do Apartheid. Bom, foi-lhe atribuído o Nobel da Paz, que me traz agora ao pensamento o caso de Aung San Suky, se acaso o nome se escreve assim. O eterno figurino do Dr, Mondinho, na novela Gabriela...

A toda esta realidade, há que somar, em Espanha, as limitações culturais profundas do Partido Popular, muito em especial de Mariano Rajoy. No lugar de dialogar ao redor do que vem estando em jogo e de trabalhar, com o apoio real, numa mudança constitucional com as duas restantes nacionalidades de Espanha e com as regiões autonómicas, o que Mariano Rajoy acabou por conseguir foi unir à ideia separatista catalã ainda mais catalães que, porventura, poderiam não estar para aí virados. Mesmo fora da Catalunha percebe-se já que Rajoy é o grande responsável por se estar hoje a assistir, em pleno Século XXI da União Europeia, a uma perseguição por razões políticas, dado que é isso, de facto, que está em causa neste caso da Catalunha.

Ao mesmo tempo, vai-se podendo ver o modo cínico como aa União Europeia e os seus Estados, de parceria com as Nações Unidas, se mostram incapazes de reconhecer que o caso espanhol da Catalunha deve ser resolvido por via político-constitucional e pelo diálogo útil e eficaz. Ou simplesmente nada se diz, ou se se diz, tudo não passa de conjuntos de palavras aparentando uma boa intenção realmente inexistente.

Quando hoje olho para o que está a passar-se na Catalunha, já com perseguição política em curso, não deixo de recordar a fantástica balela da nossa dira Esquerda de outrora, quando defendia o direito dos povos à autodeterminação e à independência! Que razões podem levar a defender a independência de Angola, por exemplo, e não o fazer com a Catalunha, esta sim e desde sempre, uma nação, por cuja perda da independência Portugal conseguiu fazer vencer a sua? Como é grande a cobardia política!!

O mundo sabe hoje que a Espanha, de facto, pode continuar como um Estado uno e indivisível, mas que tal só é conseguido através da perseguição política e policial. Objetivamente, o Estado Espanhol não passa de uma fachada, suportada na força e na violência, desprezando a vontade real de uma enorme parte da sua população. Embora – há que dizê-lo – tal se deva, em grande parte, à bestialidade poplítica do Partido Popular e de Mariano Rajoy.

Por fim, o silêncio cúmplice da nossa grande comunicação social e dos nossos concidadãos mais conhecedores e bem preparados na realidade histórico-política da nossa península. E já agora, também não deixa de ser estranho o silêncio da Igreja Católica Romana e do Papa Francisco, que foge a defender o direito natural dos povos à sua autodeterminação e à sua independência. De resto, com tudo o que os Estados Unidos vêm trazendo ao mundo, agora à beira de um colapso nuclear, o silêncio de Francisco é deveras significativo...