Uma entrevista cheia de interesse

 

Foi com um enormíssimo interesse que na noite de anteontem acompanhei a entrevista de Juan Pablo Escobar à RTP 3, no programa da quarta-feira de Vítor Gonçalves. Uma entrevista cheia de interesse e que permitiu, aos que a acompanharam, compreender bem a natureza da sociedade norte-americana, mormente o seu papel por detrás de muito do que, sem espanto, condenam no plano internacional. De resto, já voltei a visionar esta entrevista, sendo quase certo que voltarei a fazê-lo. Ao menos, uma terceira vez. Não dispondo ainda das duas obras do entrevistado, que creio estarem já publicadas entre nós, terei de as adquirir quanto antes.

A dado passo da entrevista, Juan fez uma referência a alguém com ligações a George Bush, que foi diretor da CIA e depois Vice-Presidente e Presidente dos Estados Unidos. Uma passagem que me trouxe ao pensamento a conversa fortuita que um dia tive com um casal panamiano que, quase à porta da Bertrand, no Chiado, procurou pela Brasileira. Um tema sobre que irei falar no meu livro, MEMÓRIA DOS SETENTA.

Ora, esta entrevista de Juan Pablo Escobar mostra esta realidade simples: muito do que por aí se conta sobre Pablo Escobar, seu pai e já falecido, não corresponde à verdade. Um desses factos é o de que Pablo Escobar era o maior narco­traficante do mundo e de sempre. Bom, nunca foi assim, não existindo um ínfimo de razão para se não dar crédito ao exposto por seu filho.

Um outro aspeto importante é o que reside no facto de ser a procura de estupefacientes, no mundo, muitíssimo superior à produção. E também o facto de serem os Estados Unidos um gigantesco mercado consumidor. Uma realidade que se liga ao mecanismo fortemente desumano e alienante da sociedade norte-americana, onde a solidariedade humana pouco conta, quase tudo se reduzindo ao dinheiro e aos negócios.

De resto, o consumo de estupefacientes, mormente de cocaína, foi mesmo, durante muitas décadas, uma moda de grande presença no seio das classes mais abastadas, cultas e ligadas ao poder e aos negócios. E é bom não esquecer – Juan não referiu este facto – a sua presença forte no seio das Forças Armadas, onde a brutalidade a que, invariavelmente, se encontram ligadas acaba por atirar uma imensidão de militares para o consumo destes produtos. Aliás, esta realidade também atingiu muitíssimos militares portugueses durante a defesa das antigas províncias ultramarinas. Convém nunca esquecer os estudos feitos por via da ingestão forçada de estupefacientes, mormente em militares norte-ameri­canos, sendo que muitos deles acabaram por suicidar-se. Ou os bombardeamentos secretos com bombas biológicas sobre as baías de S. Francisco e de Minneapolis, sem que as popu­lações soubessem, a fim de tentar perceber os seus efeitos.

Igualmente interessante – sabe-se há muito desta realidade –, foi a referência ao facto desta brutal procura se dever à proibição do consumo. Se o leitor olhar, por exemplo, a quase cabal ausência de aviso público, mormente nos canais televisivos, contra os riscos deste consumo, facilmente perceberá que tudo é diferente do que se dá, por exemplo, com o tabaco ou com a obesidade, temas sobre que não para de falar-se. Dos estupefacientes quase nada é dito, muito menos com o grau de alarme que poderia levar a comunidade a estar alertada e tomar medidas. Mário Crespo, ainda na SIC Notícias, pôde em tempos confrontar Fernando Negrão sobre esta ausência, mas não teve resposta. Aliás, estou quase certo que a própria escola pouco ou nada alerta ao redor desta temática. E já nem vale a pena falar de documentários que mostrem o mecanismo destruidor das vidas por via do consumo de estupefacientes. O que reina, de facto, é o silêncio.

Por outro lado, ficou ali patente a presença da CIA e da DEA no meio de toda esta lamentável canalhice. Até no respeitante à produção de falsas provas de testemunho pessoal, com a finalidade de poder, mais tarde, alardear a vitória pelo derrube do que antes se havia apoiado. Foi, precisamente, a tentativa não consumada de levar Juan Pablo Escobar a apontar Alberto Fujimori e Vladimiro Montesinos como protagonistas de certos factos. Como tivesse recusado, os Estados Unidos recusaram-lhe, e à família, a entrada no país. Mas logo encontraram quem se tenha disposto a realizar o frete, sendo que, em menos de uma semana, Fujimori foi derrubado e Montesinos metido na prisão. O norte-americano dito Estado de Direito Democrático...

Esta entrevista também ajuda a fazer luz sobre o que está agora a passar-se com Donald Trump nos Estados Unidos: com verdades, meias verdades e muitas mentiras – e por todo o mundo…–, lá se vai tentando fazer o que não se conseguiu com as eleições que levaram o bronco Donald à presidência dos Estados Unidos. Uma coisa é saber se a negociata esteve presente em combinatas entre americanos e russos – porventura, terá estado, assim como com outros, porque é essa a natureza da política nos Estados Unidos –, outra o de saber se a vitória eleitoral se ficou a dever a uma (milagrosa) intervenção russa, o que não aconteceu. Num ápice, a dita intervenção informática russa passou a ser brandida pela nomenklatura neoliberal mundial dos países mais diversos sempre que se vê a braços com eleições.

Por fim, esta entrevista mostrou as relações profundas que se estabeleceram entre o poder político colombiano e o grupo liderado por Pablo Escobar. Uma realidade presente numa enormíssima parte de Estados do mundo, fosse o daquele tempo antigo, ou mesmo o de hoje. Basta olhar como Donald Trump, naturalmente acompanhado pela nomenklatura neoliberal mundial do seu país, se deitou a construir uma rede contra o terrorismo com a...Arábia Saudita e quejandos. Como se pode ver, o inenarrável existe mesmo, sendo de esperar, para o futuro próximo, o pior dos Estados Unidos, sempre suportados na violência, na guerra, na corrupção de mil e um por todo o mundo e na corrida ao confronto militar. Uma entrevista cheia de interesse, onde até o Vaticano também surgiu como mais uma entidade que, mal a família Escobar se viu em dificuldades, lhes voltou as costas...