Tempo de gargalhada

 

Mesmo os mais desinteressados sobre o caminho que o mundo de hoje está a trilhar conhecem que o mesmo não é de molde a causar grandes alegrias ou esperanças. Em todo o caso, surgem episódios que permitem amplos momentos de diversão e gargalhada, para lá de per­mitirem tirar conclusões que, sendo verdades de sempre, nem sempre surgem claramente explicitadas. Um desses episódios é o inenarrável espetáculo mundial passado no seio da vida política norte-americana, por via da incapacidade da nomenklatura neoliberal mundial de Washington para aceitar a vitória e o estilo de Donald Trump. Além do mais, trata-se de um objetivo bronco.

Raríssimos terão algum dia imaginado que Donald Trump pudesse vir a ser Presidente dos Estados Unidos. Para lá desta perspetiva, são imensos e universais os interesses estratégicos dos comandantes de Washington e dos que estes aqui representam. Quem conhece um mínimo de Geostratégia sabe bem que a sua construção se fez sempre na base do estudo das condições que permitem dominar o inimigo, que é aqui o mundo. Isto mesmo foi reconhecido em Portugal, e com pro­testo, ao tempo de George W. Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, etc.. Diogo Freitas do Amaral chegou a expor-nos que a ONU esteve a uma semana de ver o seu próprio fim, tal era o desprezo votado pelo Governo de George W. Bush sobre a organização e o seu funciona­mento. Eles sonharam – sonham ainda – com a possibi­lidade de se tornarem os verdadeiros donos disto tudo. Uma realidade para que Barack Obama e Hillary Clinton deram, de um modo cínico e politicamente correto, um contributo decisivo, por igual potenciado pela existência, agora já aberta, de uma guerra religiosa no mundo. Um tema sobre que vale a pena recordar aqui a recente revelação do Papa Francisco: um senhor, que não sei quem é, falando em inglês, pediu-me para que os cristãos tratem bem os muçulmanos. Muito significativo...

Tem-se dito, embora erradamente, que Donald Trump é também um dos poderosos dos Estados Unidos, dado ser um multimilionário. Mas isto não significa que pertença à tal nomenklatura neoliberal mundial. Donald é um multimilionário por via do que herdou, depois per­dendo e ganhando. Coisa muito diferente é ser membro do horroroso ninho de víboras que reina nos corredores de Washington. Além do mais, indo ao encontro de um sentimento extremamente generalizado no seio da so­ciedade norte-americana, Trump zurziu, de um modo forte e feio, nesse tal ninho de víboras que conduz a vida do país em Washington, naturalmente com repercussões mundiais.

Acontece que esta parte americana da nomenklatura neoliberal mundial possui também os seus apoios amplos no mundo da grande comunicação social, encontrando-se ligada, até também dependente, do importantíssimo complexo militar-industrial norte-americano. Uma estrutura intimamente ligada à comunidade de infor­mações e de segurança. Uma realidade que foi gerando um isolamento grande de Donald Trump no seio do poder norte-americano. E agora, ao que parece, já mesmo por entre as pessoas que ele próprio escolheu para o seu círculo mais próximo. Num terrível e múltiplo jogo de espelhos e de encontrões políticos, cada um vai tentando salvar o seu futuro, dando, com verdades, meias verdades e mentiras, informações à grande comunicação social. E é essencial não imaginar que esta, mesmo nos Estados Unidos, não lança, criativamente, o que possa ser útil dentro do ambiente entretanto criado. Um ninho de víboras, portanto. E ainda estamos para ouvir o que irá dizer o Papa Francisco, depois, finalmente, de o conhecer e com ele falar.

Como facilmente se percebe, o Presidente dos Estados Unidos, mormente no combate ao terrorismo interna­cional de raiz religiosa, não pode estar impedido de abordar as realidades existentes e que, de resto, são desde sempre conhecidas. Até porque tem de ser assim. Só um ingénuo, ou um interessado da tal nomenklatura ou a seu soldo, pode imaginar que os terroristas do Estado Islâmico não saberão que Israel, com elevadíssima probabilidade, disporá de fontes dentro do movimento. Terá sido assim desde o início, até porque os Estados Unidos, mesmo que indiretamente, sempre terão man­tido – e não apoiaram? – contactos com o Estado Islâmico. De resto, é bom recordar aqui a denúncia mundial de Vladimir Putin, ao redor da compra de petróleo ao Estado Islâmico por mais de sessenta Estados ocidentais. Ou seja e em essência: a conversa das informações altamente secretas é mera treta.

Correndo ao sabor da corrente, Donald Trump pôs na rua o anterior diretor do FBI. O tal norte-americano que abriu, fechou, reabriu e refechou o caso dos e-mails de Hillary Clinton. E diz-se que este anota as conversas que lhe parecem estranhas. Mas imagine o leitor que eu sou amigo de um casal norte-americano a viver em Portugal e tenho interesses na vida norte-americana e que possam cruzar-se com a área da movimentação política. Então, uma anotação minha de uma conversa com o casal faz fé em juízo? Em Portugal, não. Porque se assim não fosse, bom, não faltariam anotações a torto e a direito!

Mas admitamos que Donald Trump fez esse pedido ao anterior líder do FBI. Mas não ouvimos nós que Barack Obama, quando recebeu Donald Trump pela primeira vez, lhe pediu que não mandasse averiguar o caso dos e-mails de Hillary Clinton? Porque pode Obama operar um tal pedido e Trump não? O problema é que tudo isto é conversa minha, aqui, neste texto, porque há uns três ou quatro dias o arquiteto Escobar, em entrevista que concedeu, falando sobre um filme ao redor da vida de seu pai, salientou que a DEA foi quem forneceu a informação para o filme, mas com a condição (combinada) de nunca se falar em certo norte-americano que também jogava o jogo em causa. Então e o homicídio de John Kennedy e do irmão? E o desastre de Edward Kennnedy, em que faleceu certa jovem? E a queixa de Nixon em face dos resultados que obteve perante Kennedy?

O que todo este caso criado a Donald Trump pelos derrotados nas anteriores eleições nos fornece é um excelente tempo de gargalhada. De resto, até Vladimir Putin acabou por gozar todo este inenarrável folhetim. Nem mesmo Hollywood foi alguma vez tão criativa, talvez com aquela exceção de um filme da minha juventude, VÊM AÍ OS RUSSOS, que vi no São Jorge, na companhia do meu professor de Religião e Moral, em certo sábado à noite, e que também nos fez rir com satisfação.

É provável que, mais dia menos dia, Donald Trump venha a ser destituído, ou a decidir-se a deixar a liderança norte-americana, mas por não ser mais um da tal nomenklatura neoliberal mundial e por ter tido o arrojo de apontar a miséria política que varre oos corredores de Washhibgton e que a generalidade dos norte-americanos abominam. Ele teve essa coragem, apesar de ser multimilionário, porventura com bons negócios na Rússia e por diversas paragens do mundo. Mesmo que o não derrubassem, nunca lhe perdoariam o modo direto, atrevido e sem maneiras como tratou os seus adversários e os membros do tal ninho de víboras que sobrevive por Washington. Tente o leitor ler os dois livros do major-general Oswald Le Winter, publicados entre nós pela Europa/América, e aí encontrará o que ainda desconhece da vida política norte-americana. Mesmo um dinheirão não é tudo na vida...