Um novo PRD?

 

Na sua recente mensagem à Assembleia da República, através de carta pessoal endereçada ao seu Presidente, Eduardo Ferro Rodrigues, o Presidente da República salienta que o faz em homenagem ao papel constitucional dos partidos políticos, exigindo-se neste domínio particular publicidade e transparência, que obste a juízos negativos para a credibilidade de tão relevantes instituições democráticas, juízos esses que alimentem populismos indesejáveis.

Trata-se de uma atitude institucionalmente correta, substantivamente certeira e que parece ir ao encontro de uma realidade, qual mancha de óleo fétido e venenoso, que é a atual vaga de populismos e de fundamentalismos que vem varrendo o mundo em crescendo, comandada a partir, naturalmente, dos EUA. Um comando, no fundo, marcado por componentes diversas. Incluindo a religiosa, claro está.

Esta realidade está presente em Portugal desde a própria manhã de Abril, como logo pôde ver-se em 28 de Setembro, em 11 de Março e a seguir a 25 de Novembro de 1975. Objetiva e indubitavelmente, os partidos políticos lá tiveram de ser aceites, sempre no entanto olhados numa perspetiva clubística. A própria democracia limitou-se a ser tolerada, nunca intimamente vivida como fonte de direitos essenciais à dignidade humana. Se assim não fosse, a dita sociedade civil nunca teria tolerado o acréscimo fortíssimo do fosso social que hoje se observa. A verdade objetiva é que poucos se batem pela sua diminuição, logo a começar pelas próprias estruturas religiosas presentes em Portugal. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, como todos reconhecerão, conhece muitíssimo bem esta realidade.

Perante o que escrevo antes, o nosso Presidente da República tem a plena noção de que, ao nível diário, mil e um colocam os partidos políticos, bem como a própria classe política, como causa de tudo o que de mal possa surgir em Portugal. Os recentes incêndios florestais mostram isto mesmo: apenas o Governo (de António Costa, claro) foi apontado como responsável de tudo o que teve lugar, nunca se referindo, por exemplo, as próprias famílias ou as autarquias. Só o Governo – do PS, obviamente...– foi apontado, direta ou indiretamente, como responsável pelo que teve lugar. Vem assim surgindo um movimento de algumas centenas de concidadãos nossos que nunca se envolveram na vida política, desde que teve lugar a Revolução de 25 de Abril de 1974. Mais de quatro décadas passadas sobre este acontecimento histórico, pululam os protestantes contra os partidos existentes desde aquele acontecimento. Há algo que está mal? Ah, a culpa é dos partidos existentes e dos que à política se dedicaram desde a manhã de 25 de abril de 1974. Não se pense, em todo o caso, que se trata de um fenómeno só agora surgido, já com os históricos partidos surgidos com a III República gastos e em perda de credibilidade. Basta recordar o caso do PRD, desde sempre apadrinhado por António Ramalho Eanes. Uma iniciativa que falhou, mas que nunca iria ser a última. Como hoje pode já ver-se, não param de surgir iniciativas ao redor de uma espécie de personalidades providenciais, que onde colocam o pensamento e a mão determinam o ouro sobre azul... Um desses caso é, precisamente, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e um outro o líder da autarquia portuense, Rui Moreira.

Como facilmente se percebeu desde o conflito que criou com o PS Porto, Rui Moreira há muito se foi colocando como a tal espécie de homem providencial para o País. A grande comunicação social, como se vai podendo ver à saciedade, dá-lhe todo o seu apoio: ce qu’il dit est la loi politique...

Foi, pois, sem um ínfimo de surpresa que recebi a notícia do surgimento do que se assemelha a uma réplica do desmascarado e fracassado PRD. Aí está o novo PORTO, O NOSSO MOVIMENTO, nome de uma associação cívica criada num destes dias por personalidades ligadas às candidaturas independentes do atual presidente da câmara do Porto, Rui Moreira. E não custa perceber que aqui se situa o dealbar de um novo partido político – da Direita, claro está – e que poderá ser a base para uma candidatura presidencial de Rui Moreira, há muito percecionada pelos mais atentos à nossa vida política. Claro está que o tempo de surgimento deste movimento é muito mais atempado que o do PRD, mas a essência é a mesma. Acabando, quase com toda a certeza, por vir a dar num novo partido político, o atual movimento irá procurar a desatenção dos portugueses em face das dificuldades que sempre terão de atravessar Portugal. De resto, essas dificuldades atravessaram-no sempre, como muito bem sintetizou, em tempos, Adriano Moreira: Portugal precisou sempre de ajuda na sua História.

Convém, pois, que os portugueses estejam atentos, evitando deixar-se levar pelos novos – velhos...– amanhãs que cantam. Mal vêm andando os que tentaram fingir que o concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE não passara do resultado de um erro técnico. E mal andou agora o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, porque na relação deve-e-haver o seu veto recente, em boa verdade, só ajuda a pôr em causa os partidos políticos. São precisas provas? Pois, olhemos quem o aplaudiu e aplaude e como de pronto o pior concluíram sobre os partidos políticos e os seus dirigentes atuais. A Direita, como se vê, esfregou as mãos. E não posso aqui deixar de exprimir esta minha mera impressão: tivesse sido outra a reação da grande comunicação social, hoje cabalmente alinhada com a Direita, e outra teria sido a posição do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. É a minha impressão, mas mantém-se-me bem aferrolhada.