As eleições francesas

 

Finalmente, lá decorreram em França as eleições para o Presidente da República, no que se sabe agora – já se previa e de há muito – ser a primeira volta das mesmas. Como pôde ver-se, nada de verdadeiramente novo nos surgiu no rescaldo deste ato eleitoral, talvez com a exceção da troca das posições de Marine e de Macron. A verdade é que estas eleições permitem perceber muita coisa, sobre que tentarei aqui alinhavar algumas ideias. De resto, este ato eleitoral sucede, quase de imediato, duas homenagens a Mário Soares, que tiveram lugar em Lisboa e no Porto e sobre as quais se justificam algumas considerações, precisamente ao redor do acontecimento francês de ontem.

Durante muito meses, Marine Le Pen surgiu na dianteira das intenções de voto, mas a campanha feroz de mil e um por toda a União Europeia acabou por produzir os efeitos que agora determinaram este posicionamento relativo final. Acabou, quase em definitivo, o direito de cada povo, no seu país, escolher o seu futuro político, porque os grandes interesses económicos e financeiros, comandando objetivamente as classes política e jornalística, acabaram por envolver-se na vida interna de cada Estado.

Ao mesmo tempo, assistiu-se ao absurdo facto de ver os políticos francesses a votarem no dito mal menor, incapazes de aceitar que o modelo de empobrecimento seguido até aqui não pode, naturalmente, concitar o apoio de quem por ele se vê atingido e percebe não ter um futuro a ser vivido com dignidade.

Depois, o mais recente eclipse de um dos partidos do dito socialismo democrático, o PSF de Hollande e seus colegas neoliberais. Uma realidade acompanhada de um pré-colapso, mas ao nível da Direita. Ou seja: o tal Centro da nossa desgraça mostrou-se incapaz de gerar no seu seio um candidato com credibilidade política junto dos franceses. Até da própria Comunidade Internacional. Objetivamente, é mais uma das democracias europeias em pré-falência.

Por fim, o resto, ou seja, o futuro deste novo Presidente da França. Só que, não sendo eu adivinho e estando a França também já atingida pela balbúrdia gerada pela anormalidade da estrutura e da política da União Europeia, é preferível evitar futurologia. Mais uns meses e logo poderemos compreender o que virá a dar-se. Um dado é certo: Macron é demasiado jovem para enfrentar Merkel, Schauble e Trump. O mais certo será vir a tornar-se no ornamento presidencial que se segue. Veremos. Muito mais simples é prever o que virá a ter lugar dentro de cinco aanos...

Ora, muito recentemente tiveram lugar, em Lisboa e no Porto, homenagens a Mário Soares. Como pude já escrever, e há muito, este nosso falecido concidadão foi o político cimeiro da III República. Infelizmente, porém, todas as suas lutas políticas falharam, com a exceção do funcionamente interno do nosso Sistema Político-constitucional. Vejamos, então, esta realidade.

Em primeiro lugar, Mário Soares passou pelo Partido Comu­nista Português, deixando de aí estar mais tarde. Era o tempo em que, por via da fantástica propagando mundial dos Estados Unidos e da Igreja Católica Romana, existia o perigo comunista, até porque na antiga União Soviética se comeriam crianças ao pequeno almoço!... Muitos anos mais tarde, já no segundo mandato de Obama, John Kerry viria a reconhecer, como que acabrunhado, que no tempo da União Soviética tudo era mais simples e previsível. E tinha a mais cabal razão, embora alguém devesse ter-lhe dito que não se pode ter tudo por dois dollars. Uma adaptação de um velho e histórico anúncio que surgiu, por muitos anos, na nossa RTP.

Em segundo lugar, Mário Soares deitou mão do seu socialismo democrático, que, em boa verdade, não só não correspondia a nada de concreto, como era mesmo contraditório na sua expressão. Por definição, o socialismo não pode ser democrático, porque acaba por dar no que se pode hoje ver por quase todo o mundo.

Em terceiro lugar, e na sequência do que escrevo imediata­mente antes, aí está, um pouco por todo o mundo, o que resta do tal socialismo democrático: os respetivos partidos estão reduzidos a escombros de nada, com o nosso caso notável, fruto, muito acima de tudo, da visão política de António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa apolónia. Porque, como pôde ver-se, a anterior Maioria-Governo-Presi­dente sempre tomou como certo o papel do PS como bengala da Direita e dos seus interesses e visão política. Realidades que mostram que também a ideia do socialismo democrático, sempre brandida por Mário Soares, se mostrou um cabalíssimo falhanço.

Em quarto lugar, também a ideia de Mário Soares sobre a União Europeia se mostrou um rotundo falhanço. Um falhanço estrutural, mas por igual por não conseguir gerar políticos com capacidade para darem aos seus povos um futuro capaz e decente. Pelo contrário: a União Europeia, de facto, só subsiste por ter sido construída à revelia da vontade livre dos povos. E mais: a União Europeia acabou por quase aniquilar o valor substantivo da democracia. É hoje uma realidade que vive num outro espaço de realidade muito para lá das necessidades dos povos do continente europeu.

Em quinto lugar, com a democracia em Portugal e na União Europeia, também com esta estrutura, tudo tem vindo a desenrolar-se de mal para pior. Pela primeira vez desde 1945, a Europa – e o mundo, obviamente – está à beira de uma nova guerra, desta vez com armas nucleares. Uma realidade paulatinamente montada por Barack Obama e agora muito acelerada com a loucura de um bronco como Donald Trump. Uma realidade – a da guerra nuclear – sobre que os políticos europeus metem a cabeça na areia, alinhando, incondi­cionalmente, com a políttica belicista dos Estados Unidos. Um terrível fracasso.

Em sexto lugar, está já aí à vista o regresso do serviço militar obrigatório. Ou seja, quando se tratava de defender a presença de Portugal em territórios a que aportara muitos séculos antes, a defesa militar dos mesmos era má. Finda essa defesa, com naturalidade, terminou, por igual, a contingentação geral. Hoje, em face de uma guerra geral organizada pelos Estados Unidos com a finalidade de se tornarem os donos do mundo, aí está de regresso o serviço militar obrigatório. Mais um lamentável falhanço. Não acredito, com siceridade, que Soares visse esta realidade com bons olhos.

Em sétimo lugar, o regresso em força, da guerra religiosa no mundo, muito em particular na União Europeia, perante a sua subserviência, quase sem limites, em face da grande estratégia de dominação do mundo por parte dos Estados Unidos. Um tema que justifica esta chamada de atenção para o leitor: já reparou que as Testemunhas de Jeová foram ilegalizadas na Rússia e ninguém no Ocidentes protestou? Que é feito, então, da liberdade religiosa? Ou, de um outro modo: para quem trabalhavam as Testemunhas de Jeová na Rússia? O que foi que os serviços de segurança interna descobriram?...

Em oitavo lugar, a situação em que se encontram hoje os novos Estados africanos, saídos das descolonizações. A situação objetiva de África, sobretudo, por via da política do Ocidente europeu, é hoje uma calamidade. Constituem flechas de verdade as recentes palavras de Isabel dos Santos a propósito da atitude das autoridades financeiras europeias perante os bancos aafricanos. E quem diz África, diz o subcontinente americano: também não anda para diante.

E, em nono lugar, as crescentes tentativas, em Portugal, para destruir o que resta da Revolução de 25 de Abril, bem como da Constituição da República. Quem estevir atento às posições do PSD, CDS/PP, União Europeia, Igreja Católica e patronato, facilmente perceberá que é esta a realidade que se vive hoje e já desde os acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. Portanto, por muita flexibilidade que Mário Soares possuísse, nunca poderia sentir-se feliz perante o desmoronar de quase todos os seus sonhos político-sociais. Resta, em Portugal – por enquanto, claro está –, a prática democrática, mas por via da visão política de António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia. Enfim, faliram quase todos os seus sonhos.