Uma Região de “ocupados”

 

Os índices de competitividade revelados pela Co­missão Europeia, em que colocam os Açores na pior região do país e uma das piores de toda a Europa, é um valente soco no estômago de quem anda a apregoar que estamos a trilhar o caminho certo.

Os índices da Educação e outros da área social já tinham sido avisos sérios de que algo vai mal nas estraté­gias de desenvolvimento e nas opções que se tomaram nos últimos anos. O pior de tudo isto é que não se vis­lumbra que os erros cometidos estejam a ser corrigidos.

Antes pelo contrário, continuamos a tomar opções erradas e a fomentar estratégias que só nos levam ao atraso e à continuada divergência com as médias nacio­nais e europeias.

É o caso da criação de emprego, área crucial para a qual estamos a seguir um caminho que só pode conduzir a mais pobreza.

A estatística diz que a taxa de desemprego tem vindo a baixar nos Açores, mas ela também esconde alguns sinais preocupantes que merecem ser analisados.

Pegando no Inquérito Trimestral e olhando para os últimos três anos verificamos que, em 2013, tínhamos 99.764 empregados, mas 34% deles (33.700) eram funcionários públicos, ao passo que em 2016 crescemos para 107.931 empregados, mas o emprego público também aumentou para 38 mil (35%), ou seja, mais cerca de 4.300 funcionários públicos , qualquer coisa como 53% dos 8.167 novos empregos.

Quer isto dizer que a nossa região está a produzir mais empregos públicos do que o sector privado, o que não abona em nada a nossa economia e o nosso futuro.

Eis uma das razões porque nunca seremos compe­titivos, se continuarmos nesta trajectória.

Os jovens são a classe mais sacrificada na procura de emprego e muitos deles, sobretudo os mais qualificados, já nem se atrevem a procurar emprego na sua terra, deixan­do-se ficar pelo continente ou indo para o estrangeiro.

É isto que também explica a descida no desemprego jovem, apesar de ainda termos um jovem em cada três sem emprego, com uma taxa de 32%, mais alta do que a do país.

Nos mesmos três anos em análise, verificamos que em 2013 tínhamos 7.903 jovens empregados, subindo em 2016 para 8.004, mais cerca de uma centena, muito pouco para uma taxa de desemprego tão alta.

Temos, ainda, outra realidade que esconde muita coisa nesta área: os programas ocupacionais.

Em 2013 tínhamos 5.083 “ocupados”, aumentando para 7.105 em 2016, mais 2.020 em apenas três anos.

Para que se saiba, os inscritos “ocupados”, registados nos centros de emprego, estão também sem emprego, embora desenvolvendo actividades que são, no entanto, não comerciais e, por definição, precárias.

Este fenómeno acaba por se reflectir no inquérito tri­mestral ao emprego, que vem registando algumas melho­rias, com influência do número crescente de “ocupados”, que também não são considerados desempregados naquele indicador estatístico. Se compararmos o peso dos programas ocupacionais dos Açores com o resto do país, temos esta surpresa: o nú­mero de inscritos em programas ocupacionais nos Açores atingiu 74% em Dezembro de 2016, contra 24% para Portugal e 12% para a Madeira.

Este “peso” dos programas ocupacionais dos Açores sempre foi muito maior do que no resto do país, o que dá que pensar...

Mais ainda: analisando os valores por centro de empre­go, nos Açores, os dados evidenciam uma enorme subida ao longo de 2016, que, no agregado, começa com 47% em Janeiro, sobe para 58% em Junho e para 74% em Dezembro.

Para os mesmos meses, Ponta Delgada sobe de 52%, para 58% e, depois, para 71%.

Os registos do centro de Angra do Heroísmo sobem de 34% para 51% e para 71%, respectivamente.

Finalmente, os registados no centro da Horta sobem de 48% em Janeiro, para 82% em Junho, acabando em... 108% em Dezembro! Isto é, no centro de Emprego da Horta o número de ocupacionais inscritos já supera o número de desem­pregados. Um autêntico fenómeno!

Esta situação do centro da Horta já se vinha desenhan­do desde meados do ano, com mais de 90% (Julho), sendo que o rácio superior a 100% ocorre em Novembro (115%) e em Dezembro (108%), uma situação inédita neste tipo de estatísticas.

Conclusão: as políticas seguidas nos últimos três anos não conseguiram reduzir o nível de inscritos à procura de emprego, embora tenham reduzido o nível de desempregados, compensados com os ocupados.

Os programas ocupacionais são óptimos para resolver uma situação pontual, porque sempre é melhor estar a trabalhar e a ganhar algum, do que estar no desemprego e não ter acesso aos subsídios, mas a velocidade com que a nossa Região está a aumentar o número de “ocu­pados” é mau sinal, porque é uma forma de aumentar a precariedade laboral, não cria qualificações e retira dinheiro à formação, porque o governo está a utilizar verbas dos programas da comunidade europeia.

O mais certo é que uma grande parte destes “ocu­pados”, no final dos programas, passem à condição de... beneficiários do Rendimento Social de Inserção.

Com esta estratégia, sem estímulos à economia, sem programas fortes de qualificação (como o agora anun­ciado pelo governo de António Costa) e sem incentivos à formação dos jovens, a nossa Região continuará com os piores índices do país e da Europa.

Por mais engenharia que façam com os números, para ficar bem nas estatísticas.