O desemprego intrigante

 

Há uma questão intrigante no desemprego dos Açores: enquanto que assistimos a quedas per­manentes e em maior dimensão no desemprego do Continente e Madeira, nos Açores registam-se quedas muito tímidas e - pasme-se - até aumentou de 9,3% para 10%, em comparação com o período anterior, segundo o inquérito trimestral ao emprego para o segundo trimestre deste ano, agora revelado.

Como é possível que no arranque da época alta do turismo, sector que está a absorver (e a necessitar) de mão de obra, o desemprego não tenha registado na nossa região uma descida muito mais acentuada do que nas restantes regiões?

O nível de emprego passou para 107.613 em período homólogo, de 2016, para 109.551 em Junho de 2017, apesar de tudo menos que os 111.183 do primeiro trimestre.

Porque cresce o desemprego na conjuntura actual?

A única explicação parece estar no número de ‘ocupacionais’, que está a decrescer e a alimentar o desemprego efectivo.

A percentagem de ‘ocupacionais’ nos Açores é muito maior do que no resto do país e a realidade  açoriana está agora a corrigir a estatística.

Os avanços não são tão bons como se esperaria, porque tem havido desemprego ocultado e que agora começa a aparecer com a redução dos programas ocupacionais.

O fenómeno deverá continuar até desaparecer a maioria dos quase 6.500 ocupacionais actuais.

O governo, ao libertar os trabalhadores nos programas ocupacionais, pressionado pelo próprio partido, porque o mercado assim o está a exigir, cai finalmente na realidade estatística.   

E o que diz a ‘estatística’ é que ainda existem nos Açores 15.433 inscritos nos centros de emprego, sem trabalho, entre desempregados e ‘ocupacionais’ (ver quadro).

Um número exorbitante face à melhoria económica que se apregoa e que só vem provar que os ‘ocupacionais’ deviam ter sido libertados à mais tempo.

Mas isto também prova que a tão propalada ‘via açoriana’ para o emprego não funcionou. Ou, pelo menos, não foi tão eficiente como no resto do país.

 Angra e Horta continuam a registar níveis elevados de ‘ocupacionais’ (mais do que em Junho do ano passado), o que não é bom sinal para quem está à procura de emprego, nem tão pouco para quem precisa de mão de obra, como está a acontecer nalguns sectores de actividade.

Terminada a época alta do turismo é bem provável que as ofertas de emprego apareçam de forma mais moderada, à semelhança do que se prevê também para o todo nacional.

O estudo da Manpower Group para o quarto trimestre de 2017 revela que a contratação em Portugal vai continuar a crescer, embora a ritmo mais lento do que nos trimestres anteriores.

O estudo confirma ainda que a dinâmica do mercado de trabalho espelha muito a sazonalidade da economia em muitas das regiões, muito marcada por um aumento do consumo e estimulado pela indústria hoteleira, tal e qual como sentimos neste último ano nos Açores.

Em muitas regiões já se sente a dificuldade no recrutamento, sobretudo mão de obra qualificada.

É por isso que as autoridades devem dar mais atenção aos próximos tempos e às tendências do mercado, facilitando as empresas no recrutamento de pessoal através de novos incentivos, como o desagravamento fiscal ou regimes que beneficiem o reinvestimento, tal como defende a Associação de Jovens Empresários.

É por isso que os próximos Planos e Orçamentos, nacional e regional, serão dos mais importantes neste período crucial em que a economia dá sinais de retoma.

Voltar a sacrificar os sectores produtivos, como se tem feito no passado, será mais um erro que todos pagaremos caro mais tarde.