Sucessos lá fora resgate cá dentro

 

Portugal está a viver uma onda de euforia, tão am­bicionada quanto de ilusória, depois destes anos de sacri­fícios: após o Euro, agora a visita do Papa, o tetra benfiquista, o Salvador da Eurovisão, a economia a cres­cer 2,8% e, nos próximos dias, a saída do proce­dimento por défice excessivo.

Como alguém já disse, é uma euforia que faz lembrar os adeptos do Sporting no início do campeonato...

E nós, nos Açores? Por cá não há razões para grandes festas: o Papa não quis vir aos Açores, a canção que leva­mos ao festival da Bilateral foi um rotundo fa­lhanço, nenhuma equipa subiu de Divisão, há minis­tros que não dançam a mesma música da governação regional, greves na SATA, a saga habitual dos malfa­dados transportes marítimos, não há peixe e o que há é com preços proibitivos, dívida regional sempre a aumentar, empresas públicas regionais cada vez mais falidas e até uma empresa da Associação de Municípios já prevê a nossa Região a caminho do resgate!

Pobre do corajoso autor do Relatório, que a esta hora já deve ter recebido a carta de despacho.

A única notícia positiva que tivemos foi a descida do desemprego, com o habitual foguetório, mas mes­mo assim foi a pior descida de todas as regiões do país. A estatística regional gosta de cantar loas à baixa do desemprego, mas não explica como.

É preciso consultarmos o INE e o Instituto de Em­prego para uma análise mais rigorosa aos números.

Assim, ficamos a saber que, comparando com o mês de Março de 2016, o desemprego diminuiu em todas as regiões do país, destacando-se o Alentejo e o Centro com as descidas percentuais mais acentuadas, respecti­vamente -21,3% e -21,2%.

Os Açores, muito longe disso, tiveram o pior desem­penho.

Pior: enquanto no Continente e Madeira a criação de emprego está a ser alavancada pelos sectores transac­cionáveis, mais fortemente no turismo, por cá é muito à custa da administração pública (ver quadro).

Desmontando o quadro: em termos positivos, desde Março do ano passado a Março deste ano, a população activa cresceu (mais 2.060), a população desempregada desceu (menos 3.499), a população empregada cresceu (mais 5.559), de onde se conclui que há mais gente no mercado de trabalho e mais gente empregada.

E quais as áreas de emprego?

A Agricultura e Pescas ganharam mais 1.806 empre­gos, a Construção Civil ganhou mais 453 empregos, o Comércio, Turismo e Transportes ganharam mais 1.710 empregos e o sector público - aguentem-se! - ganhou... 4.216 empregos!

Ou seja, estamos a criar uma Região de rabo sentado, assente maioritariamente num sector não produtivo, em actividades não transaccionáveis.

É por isso que não saímos da cepa torta.

Com os milhões que vamos recebendo, todos os anos, da União Europeia, devíamos estar a criar ri­queza, pelo menos ao mesmo ritmo do resto do país.

Cada vez mais nos afastamos da média nacional e das médias europeias e as perspectivas parecem não ser animadoras para os próximos tempos, a julgar pela falta gritante de investimentos no sector privado regional. Ao invés, o sector público é um sorvedouro de dinhei­ros, destacando-se mais um empréstimo que o governo regional vai contrair nos próximos dias, no valor de 138 milhões de euros, para operações de refinancia­mento e para garantir investimentos com fun­dos comu­nitários, concedendo ainda avales a em­presas públicas no valor de 48,1 milhões de euros (só para a famosa SPRHI foram dois no mesmo dia).

Em semana do Senhor Santo Cristo, houve muita gente na procissão a rogar por um Salvador.

Que não foi Marcelo.

Este veio para distribuir afectos...