Transtorno de compulsão alimentar

 

Mais uma vez a indústria farmacêutica, que grandes lucros faz em todo o mundo, mas especialmente à custa dos consumidores norte-americanos, resolveu “educar” o público através da televisão, desta vez sobre uma condição psiquiátrica algo nebulosa denominada em inglês “Binge Eating Disorder”, traduzida para a língua de Camões por Transtorno de Compulsão Alimentar. Claro que o interesse é vender um novo medicamento aprovado para esta suposta doença.

Ora bem, o leitor com certeza notou que a certas horas do dia (o que tem a ver com a demografia dos teles­petadores) a TV está cheia de anúncios sobre tratamentos quase milagrosos para toda e qualquer doença, desde a artrite reumatoide, à impotência, à depressão, etc. Os anúncios são quase sempre seguidos de “uma carta de renúncia”, ou de uma série de horríveis efeitos secun­dários, enumerados a 100 à hora, não se vá perder o tempo pago a peso de ouro. Esse tipo de publicidade é por vezes tão duvidosa que me faz lembrar os vendedores de “banha da cobra”, que à custa de trazerem um pobre macaco numa trela para atrair os curiosos, lá iam ven­dendo as suas mezinhas no Campo de São Francisco, mesmo em frente ao Hospital de Ponta Delgada, nos anos 60 e 70.

Este bombardeamento de publicidade deve-se às leis algo populistas que quase proibiram as empresas farmacêuticas de fazerem publicidade diretamente aos médicos. É certo que isto se destinou a acabar com certos abusos de alguns, mas como sempre “paga o justo pelo pecador”. Com dinheiro para gastar, viraram-se para o anúncio direto ao consumidor, uma maravilha para as empresas, pois os seus propagandistas não têm mais que justificar perante uma clientela educada sobre assuntos de saúde os prós e contras do seu novo produto, e um maná para as companhias de televisão pelos muitos milhões de publicidade vendida. Especialmente por este último motivo, e pelos interesses comerciais que acarretam, esta situação provavelmente não mudará, com prejuízo para o consumidor que acabará por pagar mais caro e “comer gato por lebre”. Basta dizer que o único país “civilizado” em que propaganda direta de medicamentos ao consumidor é autorizada é nos Estados Unidos da América.

Voltando ao assunto da “nova” doença, o Transtorno de Compulsão Alimentar: publicidade à parte, penso que existe uma condição que se pode classificar como “doença”, mas na sua forma pura é extremamente rara, e só à custa da medicalização artificial da sociedade se pode elevar os números de casos diagnosticados a um nível suficiente a que o medicamento dê lucro. Problemas de maus hábitos alimentares, na sua maioria não são doença, são produto de hábitos de infância, stress, de­pressão ou outras doenças do humor, paladares exigentes, problemas metabólicos (por exemplo, os diabéticos estão conti­nuamente com apetite), e outras condições. O risco é que por pressão dos consumidores os médicos se vejam forçados a diagnosticar “Binge Eating Disorder” e pres­crever tratamentos caros e desnecessários para manter o seu paciente satisfeito. No verdadeiro Transtorno de Compulsão Alimentar, um indivíduo perde por completo o controlo quando começa a comer, só parando quase quando se sente fisicamente mal por ter ingerido quantidades exageradas. A pessoa verdadeiramente perde o controlo.

E para os casos verdadeiros (e não por sugestão publicitária)? Fiquei muito satisfeito em ver numa recente publicação médica que as recomendações para o tratamento desta condição incluem modalidades habi­tualmente referidas como “de fala” (psicoterapia co­gni­ti­va-comportamental) e que nos casos de medicação ser útil, os antidepressivos e outros fármacos já dispo­níveis no mercado e muitas vezes mais baratos produzem resultados excelentes.

Em resumo, não aceite explicações ou promessas fáceis dos anúncios da TV. Por exemplo, uma depressão crónica não se cuida só com mais medicamentos conforme a publicidade parece fazer querer. Seja franco com o seu médico ou psicoterapeuta e deixe que este o ajude a ententer um diagnóstico correto e formular um plano de tratamento adequado e eficaz. A sua saúde geral e o estado da sua carteira dependem disso.

Haja saúde!