... somos passageiros na carruagem do tempo...

 

 

Breve nota preambular

Creio não ser fastidioso recordar que, há 36 anos  (Julho, 1981) a direcção do “Portuguese Times” decidiu incluir a presença da modesta coluna “memorandum” na equipa dos prestigiados cronistas da época. Seria porventura interessante referir (com detalhe) a com­provada qualidade cívica-política dos veteranos (esti­mados) “vizinhos” que continuam a honrar as páginas da imprensa da diaspora açor-lusitana. Acontece, porém, que temos de atender as prioridades dos gestores do espaço gráfico desta edição. Vamos, portanto, acrescentar uma saudação muito cordial aos membros das prestimosas equipas directiva e redactorial do “Portuguese Times”. Haja coragem na defesa da autenticidade étnico-cultural da açorianidade. Amen!  

 

Estamos em pleno verão. A eventual tentação de vir aqui ‘dedilhar’ política, resultaria em ficarmos humedecidos pelo suor frio do adeus à (in)certeza! Os emigrantes açor-lusitanos (que escolheram o sudoeste da Califórnia para escutar o crepitar da saudade) não precisam de muito tempo para descobrir que o clima local desconhece o cinzentismo da humidade insular, pelo que não se deixam arrepiar pela frieza invernosa. Acontece, porém, que tais circunstâncias não devem ser responsabilizadas pelo adiamento ‘sine die’ das idas & voltas à estimada ilha natal... 

Agora, vamos ao tema: conheço uma amistosa emigrante micaelense que fez a travessia aérea do “rio atlântico” há mais de três décadas (mais preciosamente, no Outono de 1980). Estamos a referir uma emigrante-legal que, antes da sua experiência californiana, tra­balhou full-time durante  cerca de 19 anos na costa leste da Nova Inglaterra. Curiosamente, antes de emi­grar, já era casada, mãe de três filhos, e veterana funcio­nária dos C.T.T. de Ponta Delgada.

Não deixa de ser curioso notar que a referida emi­grante está prestes a partir para a sua primeira visita aos Açores (após a longa ausência de 35 anos). Ora, sem pre­tender entrar nas vielas da sua privacidade pessoal, talvez não seja deselegante conhecer alguns dos motivos responsáveis por tão demorada ausência.

Começaria por recordar uma das frases de Nelson Man­dela: “não há nada como regressar a um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou”. Como é do conhecimento geral, durante o famigerado “período quente” do abrilismo lusitano (1975-1985), o ambiente cívico-político micaelense (e não só) teve o infortunado des­tino de ser contaminado pelo vírus terrorista impor­tado (manipulado) pelos conhecidos mercenários do conservadorismo luso-americano.

Agora, vamos adiante. Antigamente, os morgados feudais micaelenses não usavam pistolas nem granadas para expulsar os seus conterrâneos fisicamente mais sadios (todavia, quase sempre acossados pela ventania da pobreza). Aliás, o sistema era simples na sua tragicomédia legal: os candidatos à emigração legal não eram preparados para enfrentar o sistema sócio-cultural do país receptor, mas eram sujeitos ao exaustivo exame físico; no caso das candidatas femininas à emigração, para completar um simples rastreio às varizes, as moças eram convidadas a despir tudo, excepto a própria pele...

Seria porventura fastidioso estar aqui a descrever algumas das cenas então praticadas pelos mordomos locais da vigilância sócio-política. Mas não é pecado realçar a missão dos pioneiros (apóstolos!) açoreanos afectos ao Ideal democrático, sobretudo aqueles que tiveram de enfrentar (neutralizar) o sinistro objectivo enredoso desti­nado a fomentar a instabilidade da união familiar.

Agora, vamos mudar de assunto: Acaso lembram-se (em S.Miguel) quando o genuino movimento opus-dei começou a ser empalidecido pelo opus-gay? Viva a energia: – acima de mim só a chuva... e até essa me cai aos pés!.

Ora, revisitar o ‘torrão” natal (após 35 anos de ausência) não significa pedir perdão à demorada ‘imaturidade’ democrática da querida Ilha Verde. Sabemos o suficiente para confirmar que a emigrante em referência foi diligente cumpridora dos respectivos compromissos cívico-pro­fissionais (sem nunca ter aderido formalmente a qualquer dos partidos políticos endeusados sob o pálio da III República portuguesa). Foi sempre esposa exemplar, mãe incansável na missão de educar os filhos, e imparável pra­ticante das tarefas domésticas alusivas à coesão familiar: agora, já é avó de oito netos – uns nascidos na atlântica costa leste dos EUA – outros, vieram ao mundo perto do oceano Pacífico – no sudoeste da California.

Não deixa de ser triste admitir que muitos emigrantes viajam até à respectiva ilha natal para (re)visitar os cemi­térios onde repoisa a memória dos respectivos familiares. A propósito, não resisto à tentação de transcrecer uma frase da autoria de Virginia Woolf, que diz assim: “as mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos ho­mens por possuírem o poder mágico e delicioso de reflectirem uma imagem de homem duas vezes maior que o natural”...

E pronto! Estamos prestes a rever a meiga “migalha” atlântica que nos serviu de berço. Sim, nascemos no topo das placas litosféricas norte-americana, euro-asiá­tica e africana. A história da nossa mobilidade existencial enaltece a tendência dos ilhéus para emigrar na direcção ocidental... Todavia, nem todos admitem que o arqui­pélago açoriano ‘viaja’, anualmente (sem passaporte europeu) cerca de 2,5 centímetros, no rumo oriental... Ora, face ao curioso fenómeno atrás referido, o emi­grante açoreano que, durante 35 anos, permaneceu ausente da respectiva ilha natal terá porventura de viajar mais “70 centímetros” para reencontrar os Açores (e depois subir o Pico da Vara, e/ou conferir as cores da Lagoa das sete-cidades)...

 

*** /// ***   

P.S. Vamos agora confirmar a identidade pessoal da emigrante acima aludida: trata-se do Ser humano (Mulher valente) que conheci há mais de meio século. Na época (1954-1959), a jovem estudante, Lubélia, era considerada uma das mais visíveis desportistas da nossa Escola Técnica (e talentosa praticante dos dançares tra­dicionais do folclore micaelense). Quanto ao sofisticado (demorado) sofrimento psico-físico que Lubélia teve de aturar devido à circunstância de ser esposa do signatário (considerado ‘pecador-amador’ da equipa pioneira que “transplantou” o Socialismo Democrático na região açoreana) – isto é tema que o tempo e a sau­dável atmosfera californiana estão aliados na benéfica tarefa de perdoar (sem esquecer) a cueldade do passado...

O tempo não tem idade! Afinal, somos passageiros na carruagem do tempo. Haja Vida!

 

Rancho Mirage – Julho, 2016

(redigido em sintonia com a antiga grafia).