Pensamentos, Palavras & Dúvidas

 

 

Atrevo-me a relembrar o poder das múltiplas vanta­gens da reconciliação humana com o remoçado ofício de viver. A maturidade cívica não se conquista por de­creto. Nos últimos trinta e seis anos, continuo navegador solitário no oceano da diaspora açórica:  faço parte da esquecida “geração do sorriso triste” que não larga a cana do leme firme na rota da “comunhão ideal do eterno Bem”.  

Reconheço-me voluntariamente enamorado do esgar benigno das ideias. Neste momento, nem cuido de saber que idade tinha quando me tornei embarcadiço na velha nau do pensamento. Todavia… jamais esquecerei o nome e o exemplo do capitão da nau: Antero de Quental.          

Nesta quadra do ano, vamos prosseguir na marcha da Esperança pelas atalhadas do ‘chão-nosso’ de cada dia: sim, vamos poetizar o quotidiano sem falsificar o passa­do.  Portanto, vamos prevenir (com democrático civis­mo) o fedorento contágio das trump’alhadas do quotidiano internacional. 

Entrementes, seria bom reconhecer o facto de que os seres humanos nem sempre se apercebem de que andam a “mangar” uns com os outros: inventando pecados;  se­meando fomes… e, não raro, entretidos a investir na conta-corrente do “projectado  sofrimento” alheio…  

Não constitui novidade referir que o regime político em vigor no arquipélago açoreano (autonomia vigilante) tem conquistado a discutível empatia das mordomias financeiras euro-atlânticas – gente ‘esperta’ que aderiu ao pragmatismo empresarial que dispensa minúcias de pendor ético.  

Quem aceitar o convite para analizar (sem hostilizar) as superficialidades sócio-empresariais do novo-riquismo  insular, não levará muito tempo a concluir que a indústria turística está a investir em várias mordomias financeiras, inclusivé as aliciantes  boleias ‘offshores’  da moda. Afinal, somos ‘anjos caídos ou bárbaros redimidos’…?

É pena que alguns líderes da diáspora açoreana não sin­tam “saudades do futuro”.  Embora à distância, mas nunca distanciado da democracia açoreana, aproximo várias prioridades cívico-políticas aos patrícios que querem bem aos Açores. Será que temos ideias? Pois bem, então vamos temperá-las com o sal dos ideais!

No modesto entendimento do signatário, o centralismo lisboeta deixou de ser o temível adversário do regime polí­tico em curso, nos Açores. Dito isto, qual é, afinal, o vírus? Diria que o mais nefasto impecilho da Autonomia, reside na atonia cívica da maioria dos ilhéus, bem como no nepotismo sócio-cultural… herdado da cultivada  “dor de ser quase… dor sem fim…

Sem complexos passadistas, atrevo-me na apresentação do convite para uma breve visita ao passado recente: antigamente, a chamada “pobreza-filha-de-deus”  gozava do livre acesso às casinholas situadas na orla marítima micaelense. Os chamados ciclones dezembristas (nossa Senhora da Conceição) eram episódios familiares à pobreza micaelense que vivia “paredes-meias” com a penedia costeira;  por vezes, o rociar do mar bravo invadia sem cerimónia o casario desamparado, atingindo as pane­las das couves destinadas à ceia das famílias camponesas… Digo isto para comparar ideias com a indigência moderna, considerada especialista na arte de (com)provar a justeza da sua candidatura aos esmolentos subsídios financeiros. 

Como quem diz: “até morrer, aprender”, mas… no caso supracitado, a educação não deveria ficar circunscrita ao treino pedinchão… 

Ora, sem culpa formada (e sem me apropriar da doutrina de Jean-Paul Sartre), sinto-me “condenado a ser homem e a ser livre”!  Mais tarde, começámos a per­ceber (criticamente, é claro) que o ser humano é um ani­mal que evoluiu, extraordinariamente, em relação aos outros da sua espécie. Ou seja, a expressão ideológica “homem lobo do homem” serve de fonte inspiradora à humanidade moderna: não temer tanto a bomba ató­mica, mas temer, sobretudo,  aquele que a faz detonar… 

Falemos da coragem de viver até morrer: Educar, Democratizar, Desenvolver, não são slogans – são desa­fios! Em vésperas da Ressurreição, não vamos inventariar as debilidades susceptíveis de explicar os falhanços históricos dos gestores da Autonomia política. Não é difícil descortinar o facto de que muitos açoreanos da diáspora preferem “sapatear” a vida como prisioneiros da sociedade do espectáculo. É pena!

Como sói dizer-se, para evitar erros de palmatória seria preciso ter a coragem de aderir à missão de “aprender a aprender”. Continuamos a aguardar sinais claros duma política de educação permanente para o eleitorado açoreano. Até mais ver, os habituais gestores dos “inter­valos” entre eleições continuam a facilitar o acesso indis­criminado ao consumismo. Alguns maestros do novo testamento turístico usam a batuta para dirigir a ilusão de que viver numa ilha é um “foliar permanente”, cujo hedonismo proclama: “quem muito trabalha, não tem tempo para ganhar dinheiro”.

Bem-vindos sejamPensamentos, Palavras & Dúvidas”…

 

Rancho Mirage, California

(*) Texto escrito de harmonia com a antiga grafia