Benigna algazarra da saudade

 

As comunidades  humanas (tal como as respectivas zonas geográficas) são melhor conhecidas pelas suas festividades do que pelos seus infortúnios. Claro que é sempre aconselhável conhecer as excepções que a história regista: Sodom e Gomorrah; e, mais recentemente, San Francisco, Hiroshima, Stalingrado…

Gostaria de recordar que a “pequena-grande” zona Ponta Delgada (com mais de cinco séculos de existência sob o pálio cristão) ainda cultiva uma nocão serena do seu tamanho insular, e mantém vivas as suas expressões de vincada religiosidade popular.

Ao referir Ponta Delgada, sinto-me seguro da minha admiração pelos demais centros urbanos do abençoado arquipélago açoreano. Quem passa a vida a sapatear pelas pretensiosas courelas bairristas (pincelando a complexi­dade filosófica com os repingos da simplicidade inte­le­ctual) depressa constacta que se trata duma tarefa cicló­pica que só a sabedoria humana seria capaz de desafiar. 

Vamos até aos respingos da simplicidade: antes da in­comparável claridade religiosa oferecida pelo concílio Vaticano II, os rituais católicos mantinham uma pertinaz fidelidade ao “maneirismo” medieval. A fé cristã era então forjada pelo rol inquisitivo dos deveres, sacrifícios, re­nún­cias… Curiosamente, a alegria popular inerente às festas em louvor do Divino Espírito Santo chegou a ser considerada leviandade pecaminosa. Todavia, a cristan­dade “feliz com lágrimas” da nossa Terra raramente deixou esmorecer as suas convicções psico-religiosas (aliás, enraizadas pelo tempo e cultivadas pela tradição).

Hoje em dia, apetece perguntar: quem sabe traduzir o silêncio das lágrimas resultantes da emotividade religiosa? À semelhança do que acontece com os islâ­micos em relação a Meca, a tradição religiosa açoreana recomenda aos ilhéus o cumprimento duma visita a o Santuário da Esperaça,  pelo menos uma vez na Vida.

Antigamente, as romarias micaelenses viajavam rumo a Ponta Delgada, e as aldeias ficavam quase desertas… embora a população rural soubesse que a sagrada tarefa de carregar o andor do Ecce Homo era privilégio estrita­mente reservado às castas feudais: os crentes vinham até à cidade para engrossar a moldura rural que idola­trava o clero, saudando a senhoriagem feudal…

Adiante. A festa do Santo Cristo continua a ser uma das mais destacadas  referências emocionais  da diáspora açoreana (logo seguida das sanjoaninas que constituem o “pão-nosso” da alegria terceirense). Ora, o cortejo de Sábado (mudança da imagem do Convento da Esperan­ça para a Igreja) é porventura o mais assinalável mo­mento de autenticidade religiosa da cristandade insular. Por outro lado, o desfile processional de Domingo parece cada vez mais um pretexto para exibir o esplendor gloríola da classe política, em vez duma jornada para reconciliar pecadores…!

Antigamente, o cortejo dominical era organizado nos moldes do corporativismo medieval: os titulares do clero diocesano eram seguidos pelos “donos da ilha”, impeca­velmente saudados pelos antigos deputados, vereadores minicipais, criteriosamente nomeados e controlados pelo poder central.

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Entretanto, as brisas da história continuam a soprar doces memórias do passado: estou ainda a sentir a proximidade do saudoso pai (e das suas rijas mãos cam­ponesas)  com o seu semblante invariavelmente sisudo e discreto nas suas manifestações de fé. Ainda recordo quando funcionava como “muralha” que nos protegia do “aperto” da enorme massa humana que se aglomerava no campo de S. Francisco para apreciar o desfile do “andor-jardim”…

Outrossim, não esqueço o testemunho idóneo de gente antiga que conhecia de perto o modo especial como o nosso avô materno celebrava, nas primeiras dé­cadas do seculo XX, as “Festas do Sinhó”.  No tempo, o saudoso avô era conhecido  pela alcunha “ti Ferreira dos Arados”  – conhecida  voz dos “cantadores ao desafio” do seu tempo, nas infindáveis noitadas do Campo S. Francisco (1915-1935). Recordemos uma:

 É à noite que eu canto

Meus louvores ao Senhor

A cantar vos trago o pranto

Deste pobre pecador

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PS – A última vez que assisti às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres,  foi em Maio de 1975  –  período quase dramático da história recente das festas. Naquele ano, tive a íntima alegria de observar (pela primeira vez)  gente simples do Povo  a carregar o maravilhoso “andor-jardim”.

A propósito, seja-me permitido narrar aos eventuais interessados, o seguinte episódio: no período 1976-80 , estava incumbido da honrosa tarefa  parlamentar de servir (regional  & nacionalmente) o povo português. Devo recordar que, naquele período, costumava agra­decer (sem todavia usar) o tradicional  convite para desfilar na magna procissão micaelense. Falta apenas lembrar o derradeiro convite dirigido ao então deputado à Assembleia da República (Maio, 1978), destinado à sua presença no grupo composto pela congressista repu­blicana, Margaret Heckler, e pelo simpático deputado do PPD/PSD, Anatólio Vasconcelos. Não é surpresa repe­tir que a eventual  presença do signatário, no citado desfile processional, foi novamente adiada sine die

 

Rancho Mirage, Maio, 2017

(*) O autor escreve de harmonia com a antiga grafia.