democratizar o acesso à cultura da Dignidade

 

Sem a mínima suspeição àcerca da existência humana, foi-me oferecida a exclusiva tarefa de respirar o ar danado deste planeta, horas antes do famigerado ataque japonês ao Pearl Harbor - Hawaii. Digo isto para confirmar o saldo temporal da minha existência física, cuja interini­dade jamais aceitaria o convite para voar sem asas…

Afinal, o que corrompe mais o ser humano: o sucesso ou o fracasso? Quando há cerca de 36 anos (Outono, 1980) decidi interromper o modesto percurso político-parlamentar (auspiciosamente encetado no início da Primeira Legislatura regional açoreana – Junho, 1976), já estava convencido da impossibilidade de “endireitar a sombra duma árvore torta”…

Conforme podemos observar nas páginas empali­decidas da conta-corrente da bíblia humana, a claridade solar não receia enfrentar a escuridade da dúvida dos aprendizes da Vida. Aproveito para recordar a oração poética do brasileiro José Chagas (falecido a 13 de Maio, 2014): “… palavras emigram /vão para o labor de espessas emoções / eu, que nunca termino o que começo /vou, sem ter começado, ver meu fim /e já me preparei para o regresso de uma viagem que não fiz em mim”…

Ora, enquanto me for dado sentir o latejar da Vida nas artérias, gostaria de cultivar a fortaleza de manter o olhar vigilante na rota do Bem-comum. Numa lingua­gem de sabor político-metafórico, diria que a caravana da minha geração já dobrou (com o velame quase a estoirar!) o conhecido “cabo das tormentas” ideológico… É vergonhoso permanecer na vida a “marcar passo!”

Até mais ver, continuo (democraticamente) esperan­çado na feliz jornada da presente caravela política do governo português (o qual não irá “dar à Costa” face ao previsível dilúvio político resultante da crise euro-francesa). A propósito, gostaria de expressar adesão ao pensamento do enorme escritor, Eduardo Lourenço, quando sugere o seguinte: “é pena que Freud não nos tenha conhecido… teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade”…

Apetece sugerir que o mundo ocidental precisa de estu­dar Confúcio, para melhor decifrar o sorriso silen­cioso, enigmático (mas determinado) do pragmatismo chinês que não mistura orgulho com vaidade! Mas cuidado: nada de confundir a prática da inveja danosa com a leal admiração do sucesso alheio… Digo isto para facilitar o entendimento da nossa aversão em relação ao vedetismo esmolador da política açórica. É sabido que as vaidades pequeno-burguesas não ofendem a consti­tuição, mas podem ser consideradas respingos porca­lhões de sabor psico-narcísico…

Mas, afinal, “quem é quem” no panorama geral da comunidade açor-lusitana? Gostaria de acreditar que os emigrantes continuam “sonhando mil ciências duvi­dosas”, juntamente com outros cruzados da “comunhão ideal do eterno-bem”. Como veterano soldado da empatia étnica, permaneço na jornada da solidariedade luso-cul­tural, não raro indiferente às cicatrizes resultantes do escaldante ofício de pensar (participar) nos irrecu­sáveis combates em prol da Liberdade. Em suma: continuo modesto herdeiro dos dizeres de Miguel Torga “quem faz o que pode, faz o que deve”…

Estamos prestes a dizer “adeus” ao mês de Abril. O tempo não tem idade! Este ano, decidimos guardar silêncio respeitoso, relativamente ao aniversário natalício de Antero de Quental, bem como à inesquecível Cruzada abrilista de 1974. O tempo e a distância geo­gráfica evaporam-se face à indiferença psico-cultural … e até a saudade “industrializa-se” como preservativo sentimental do imaginário colectivo.

Não deixa de ser curioso notar que o novo-riquismo turístico anda muito entusiasmado em paroquiar o globalismo: alguns já reclamam a santidade tecnocrática! Os banqueiros modernos do sofrimento humano já descobriram que a fome só põe governos no chão quando apoiada pela democracia! Em princípio do século passado, Lenine manifestou a opinião de que “uma revolução só vale alguma coisa quando se sabe defender”. (O mesmo raciocínio pode ser porventura aplicado em relação à Democracia)…

Estes simples dizeres fazem rima com a ladainha guerrilheira do mundo que nos rodeia, onde há gente a bocejar, transcendentalmente… Vamos adiante. Na época do endeusamento da ‘internet’ não seria justo res­ponsabilizar, exclusivamente, a imprensa, a rádio ou mes­mo a televisão, pelo atraso programado das comu­nidades.

Nos Açores, o equilíbrio ético da comunicação social oscila entre milhafres opiniáticos & pássaros noticiosos. No exercício do diálogo, a linha recta verbal nem sempre garante o espaço semântico mais curto entre o mensa­geiro e a mensagem (a não ser que um dos interlocutores tenha sido contemplado pela lotaria da certeza). Bem bom: nada de confundir o aparato e a aparência! Afinal, quem é o anão mais alto da elogiada mediocridade comunitária?...

Temos de lutar pelo sagrado direito à Alegria (mas falo d’Alegria sem o fúnebre recurso às drogas ilegais); temos de aprender a celebrar a espiritualidade com dis­pensa de rituais; temos de afinar o diálogo entre a possi­bilidade e a probabilidade… para serenar a vã glória dos que se consideram alcaides santificados do su­cesso…

O Povo é quem mais ordena”! Sendo assim, vamos cooperar na urgente jornada para democratizar o acesso à cultura da Dignidade.

 

Rancho Mirage, California - EUA

(*) texto escrito de harmonia com a antiga grafia