Orvalho de ideias

 

 

1 – o planeta Terra parece  abarrotado de vendi­lhões de heroísmo (apavorados pelo medo de ter me­do…?)

Seja-me permitido iniciar esta breve conversa públi­ca com o seguinte propósito: sem ser mordomo da enfer­maria da originalidade, desconfio ter atingido a triste­mente famosa “recta-final” duma viagem não escolhida – a existência humana! Os que nos pre­cederam nesta (des)ventura têm tido o generoso cui­dado de nos animar com a notícia de que a “vetus­tade” humana, embora irre­­versível, não se nos apre­senta como fenómeno de repentina crueldade. Como sói dizer-se, quem pode menos, deve saber mais (eis um dos aspectos da tão-badalada lei das compen­sações)…

       

2 – 0 fermento do “holloween” está patente no menu da  fome cultural?

Envolvido pelo enorme anedotário social, atrevo-me a sugerir que ainda vale a pena “amarmo-nos uns aos outros”, sem temor de resvalar nos erros grama­ticais da cartilha oficial das virtudes. Porquê tanta vaidade… se, por baixo das roupas, estamos todos nús? 

Continuo a acreditar (ingenuamente, é claro!) na ca­pa­cidade acomodatícia do ‘barro’ humano. Louve­mos o Criador por nos conceder a graça da lucidez. Vamos derreter a “gordura mental” dos profissionais do equí­voco que adoram misturar novidades versus notícias.

Apetece recolher uma lasca do pensamento ante­riano, quando há mais de um século escreveu o seguinte: “des­prezar o mundo, desprezar os homens, ver o vácuo e o tédio como resíduo final de tudo, é grande pecado de orgulho”. E continuava: “… a escrita é apenas o esque­leto das ideias”. (Será que estamos a observar gente amedrontada pelas ideias esqueléticas do futuro?)...

Felizmente, a linguagem poética não faz genuflexões à ditadura da vulgaridade. Continuamos a celebrar a con­córdia no meio da ventania étnica, sem desertar perante os afanosos desafios do presente:

 

Amemo-nos uns aos outros, sem investir

Na conta-corrente da santidade popular…

Agora, o presente é vassalo da espera,  

Vive humilhado pelo indecente gargalhar

Dos que gritam revoluções sem as sonhar…

 

Desde a alvorada do século XXI, a glória e a miséria passaram a ser transaccionáveis: a cidadania tradicional pa­rece já saturada de observar gente que vive à boleia do sucesso alheio; as pessoas menos avisadas (por que dis­traídas) geralmente confundem charlatanismo com lide­rança, esperteza com inteligência, competência com sabedoria…

Sem resvalar na habitual veneração individualista, vamos dizer que a humanidade parece muito precisada de bom-senso: nas escolas, nas empresas, nas instituições interna­cionais… Ora, sem resvalar em brutalidades tea­trais, sinto-me próximo da comunidade açor-califor­niana para sugerir o seguinte: lamentavelmente, a de­cisão de aprender e a missão de ensinar são vistos como martírios a evitar. Os que teimam em partilhar (por escrito) o respectivo pensa­mento, são geralmente apo­dados de “gente com pouco que fazer”… Resultado: precisamos do sal da palavra para todos os (des)gostos; sentimo-nos cada vez mais expostos ao emaranhado nar­císico da solidão. Melhor dizendo (falo por mim) somos alunos da solidão – a grande mestra!

As comunidades humanas resultantes do globalismo precisam de indivíduos educados para enfrentar (e vencer) os desafios da glorificação da mediocridade. O evangelho puritânico do capitalismo judeo-cristão considera a indi­ferença cívica como espécie de “estado de graça” para o bem-estar consumista. Será que o sistema capitalista prefere continuar imigrante, na China, sempre distante dos espinhos da democracia ocidental?

 

3 – contrariar a apatia – despertar a fraternidade

A linguagem da dieta fraternal (que dispensa orna­mentos gongórIcos), não provoca qualquer tremor de terra literário. De resto, o signatário não está aqui em bicos-de-pés, como eventual candidato aos magros esca­parates dos aspirantes literários da praceta insu­lana.

No circuito insular, a emigração é um dos expedien­tes gizados pela classe senhorial da época, com o objectivo de evitar o recrudescimento de movimentos reinvidica­tivos da parte duma população rural acossa­da pelo espectro da miséria material… Como ser humano  nado e criado na “terceira ilha” do sistema solar, aceito a discutível hipótese de que “peace begins with me”!  Vim aqui, para cooperar na denúncia do falso dilema, segundo o qual “é imperioso eliminar o semelhante para garantir a própria sobrevivência”… 

Mas… afinal, que dizer da triste doxologia da munda­nidade moderna? O Leste e o Oeste continuam ciumen­tos um do outro. Antigamente, havia a versão poética de que “o povo é quem mais ordena”. 

Vamos continuar o percurso missionário sob o “Orva­lho de Ideias” – com o objectivo de contrariar a apatia para  despertar a fraternidade: contrariar o desassombro egocêntrico daqueles que usam o púlpito gratuito da actua­­lidade açor-lusitana para empalidecer a qualidade e minimizar a autenticidade da memória das gerações anteriores.

 

Rancho Mirage, California

 

(*) texto escrito de harmonia com a antiga grafia