Terá Agostinho Neto sido vítima da CIA ou da KGB?

 

Integrada nas celebrações dos 40 anos da indepen­dência nacional, esteve patente, de 15 a 22 de setem­bro, na embaixada de Angola em Washington, uma exposição fotográfica sobre Agostinho Neto. As 150 fotos expostas retrataram a trajetória de Neto da aldeia de Kaxicane, no Catete, onde nasceu, à presidência de Angola em 11 de novembro de 1975. Na cerimónia de encerramento, o embaixador angolano, Agostinho Tavares, lembrou que a exposição pretendeu homena­gear dignamente a figura de Neto e o seu contributo na afirmação e unidade do povo angolano em parti­cular e do africano em geral.

“Todos devemos ver Agostinho Neto como uma figura da qual cada um de nós deve rever-se, procuran­do dar corpo nas nossas mentes aos valores que o cara­terizavam, com relevo para o humanismo, o patriotis­mo, a bravura, a disciplina, e acima de tudo o amor pelas letras”, enfatizou o diplomata angolano.

Nem todos os angolanos concordarão com isto. Para esses, Neto foi um ditador com a mania das execuções sumárias e que só não teve tempo de aquecer o lugar. Mas o Neto que conheci nas militâncias do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), onde pertencia ao comité diretor, era um porreiraço. Na­quele tempo, lembre-se, ainda não era conhecido como Agostinho Neto, era o António Neto e talvez não lhe passasse pela cabeça ser presidente de Angola.

Se fosse vivo, António Agostinho Neto estava com 95 anos, nasceu a 17 de setembro de 1922. O pai, Agostinho Pedro Neto, era pastor e professor na missão metodista americana do Catete, 60 quilómetros a norte de Luanda, e a mãe, Maria da Silva Neto, era também professora. Os pais mudaram-se para Luanda e Neto tornar-se-ia o estudante angolano mais famoso do seu tempo, Concluiu a escola primária com 18 valores e o sétimo ano de Ciências com 15 valores no Liceu Salvador Correia, onde estudaram milhares de ango­lanos e portugueses ao longo de várias décadas e que desde 1975 tem o nome de Mutu Ya Vevela.

Em 1947, depois de ter trabalhado durante dois anos como funcionário público dos Serviços de Saúde em Malange e no Bié, foi para Portugal decidido a ser mé­dico. Conseguira uma bela bolsa de 1.500$00 mensais atribuída pelo Instituto de Assistência Social de Ango­la, mas que lhe seria retirada quando se meteu na política. Dos 24 aos 37 anos de idade, a vida de Agostinho Neto decorre nos meios universitários de Coimbra e Lisboa e envolveu-se na militância política na Casa de Estudantes do Império (CEI).

Criada em 1944 pelo regime de Salazar para apoiar (e controlar) os estudantes das colónias que afluíam a Portugal em virtude da inexistência de ensino universitário nos seus territórios, a CEI estava situada na Avenida Duque D’Ávila, em Lisboa. Tinha cantina, salão de jogos e de festas, biblioteca, posto médico e também servia de residência aos alunos ultramarinos. Em 1945, abriu uma delegação em Coimbra e depois, em 1959, no Porto. Na CEI, residia a elite intelectual das colónias a estudar em Portugal e dela fizeram parte estudantes africanos que viriam a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países, como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Fer­nando França Van Dúnem, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Pedro Pires, Onésimo Silveira, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Vasco Cabral, Pepetela, Alda Lara e tantos outros.

De 1947 a 1959, durante 12 anos, Agostinho Neto frequentou a CEI (delegação de Coimbra), colaborou na sua revista Mensagem e o seu livro de estreia foi publicado em 1952 na Colecção de Autores Ultra­marinos, igualmente mantida pela CEI, que seria encerrada pela PIDE em 1965, depois de ter apurado que organizava a fuga para Paris de jovens estudantes para se dedicarem à causa da independência dos respetivos países.

Nesse tempo já era conhecido da PIDE. Esteve preso de 23 de março a 20 de junho de 1952; de 9 de fevereiro de 1955 a 12 de junho de 1957; de 8 de junho a 15 de outubro de 1960 (em Luanda) e de 17 de outubro de 1961 a 24 de março de 1962. Foi neste período que se apaixonou por Maria Eugénia, e a relação do africano com uma branca foi uma afronta para os racistas. Foi um período difícil. Neto perdeu dois anos letivos, mas concluiu o curso em 27 de outubro de 1958 e casou no mesmo dia com Maria Eugénia. Ele tinha 35 anos de idade e ela 23. Os pais de Neto foram de Luanda assistir ao casamento. Ainda em 1958, Neto foi um dos funda­dores do clandestino Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas oriundos das diversas colónias portuguesas. Antes de se empenhar na luta de libertação de Angola do colonialismo, Neto empenhou-se na luta de libertar os portugueses da ditadura e foi quatro vezes preso pela PIDE durante dez anos seguidos. Numa entrevista em 1966, quando já era o líder nacionalista de Cabo Verde e Guiné Bisseu, Amílcar Cabral lembrou isso: “Antes de começarmos a lutar pelo nosso povo, lutámos pelo povo português. Alguns camaradas meus, como o Vasco Cabral,  Agostinho Neto e outros, esti­veram anos e anos presos nas cadeias de Salazar... Não é porque lutavam por Cabo Verde e Guiné ou por Angola. Não! Lutavam pelo povo português.”

Em 30 de dezembro de 1959, Neto voltou ao seu país com a família e passou a exercer medicina em Luanda, mas em 8 de junho de 1960 foi preso pela PIDE no seu consultório. Uma manifestação de protesto contra a sua prisão na aldeia natal de Neto foi reprimida a tiro pela polícia causando 30 mortos e o incidente passou a desi­gnar-se por Massacre de Icolo e Bengo. Com receio das consequências que podiam advir da sua presença em Angola, mesmo preso, Neto foi transferido para uma prisão de Lisboa e, mais tarde, enviado para Santiago, Cabo Verde, onde continuou a exercer medicina. Duran­te este período, foi eleito presidente honorário do MPLA.

Voltaria a ser preso na cidade da Praia em 17 de outubro de 1961 e transferido depois para a prisão do Aljube, em Lisboa. Mas nessa altura já era um preso célebre, a solidariedade de ilustres personagens das letras e das artes como Jean Cocteau e Jean Paul Sartre e o pintor mexicano Diego Rivera, e foi  proclamado  prisioneiro do ano de 1961 por Peter Benenson, fun­dador da Amnistia Internacional. A forte pressão externa e interna (o seu advogado era António Macedo, fundador e presidente do Partido Socialista) obrigaram as autoridades fascistas a libertarem-no em 1962, fixando-lhe residência em Lisboa.

Todavia, pouco tempo depois da saída da prisão, Agostinho Neto (com a mulher e dois filhos pequenos) e Vasco Cabral (que viria a ser vice-presidente da Guiné-Bissau), fugiram de Portugal (no dia 30 de junho de 1962) num pequeno iate a motor que tinha sido com­prado pelo Partido Comunista Português por intermédio de um militante do partido, José Nogueira, que era oficial da Armada e foi o piloto da embarcação. Foi uma viagem atribulada mas dois dias depois chegaram a Marrocos e dois meses depois Neto chegou a Léopoldville (Kin­shasa), onde o MPLA tinha a sua sede e em dezembro desse ano foi eleito presidente do movimento.

Na Torre do Tombo, em Lisboa, estão todos os docu­mentos da PIDE-DGCS referentes a Agostinho Neto. É um calhamaço com 4.578 páginas e 6.000 documentos. Dos líderes nacionalistas das colónias portugueses foi o de maior projeção, mas comandou o destinos de Angola apenas quatro anos.

Neto morreu no dia 10 de setembro de 1979 na sala de operações de um hospital de Moscovo, quando era submetido a uma operação ao fígado, mas as pessoas do seu círculo familiar têm dúvidas quanto à sua morte. Em 2007, em entrevista à rádio Antena Comercial de Luanda, a filha de Neto, a médica Irene Neto, admitiu a possibilidade do pai ter sido envenenado numa cons­piração destinada a afastá-lo da cena política angolana. Em 2009 e em entrevista à mesma rádio, a viúva, Maria Eugénia Neto, disse que o marido estava efetivamente doente, mas deixou a hipótese de assassinato a flutuar. “O presidente Neto estava doente, mas as doenças tam­bém podem ser passadas e aí eu não sei”, subli­nhou. A viúva de Neto acrescentou que o marido preferia ter recebido tratamento em Cuba, mas esti­veram à espera de uma médica especializada em fígado que nunca apareceu e a decisão de irem para Moscovo foi de José Eduardo dos Santos. Quando che­garam foram logo para o hospital, os médicos russos mandaram Maria Eugénia Neto sair do quarto de Agostinho Neto e quando a chamaram de novo, às duas da madrugada, já ele estava morto.

Teriam os russos interesse em afastar Neto? Gerald Bender, que faleceu em maio passado, foi professor de relações internacionais da University of Southern California e escreveu o livro Angola under the Portu­guese: the Myth and the Reality (1978), disse ter sido abordado por Lúcio Lara, que disse ter incumbências de Neto para uma aproximação entre o governo ango­lano e a administração norte-americana logo após a tentativa de golpe de Estado de 1977 engendrada por setores radicais de esquerda do MPLA e apoiada pelo embaixador da defunta União Soviética em Luanda.
Se a vontade de Neto era abandonar o chamado Bloco Socialista e direcionar Angola para ocidente, como viria, aliás, a acontecer com José Eduardo dos Santos na presidência, era motivo para desagradar a Moscovo e razão para a KGB o eliminar naqueles dias da Guerra Fria.

De qualquer forma, pode ser apenas coincidência, mas José Eduardo dos Santos, que sucedeu a Agos­tinho Neto em 1979 e é presidente de Angola há 38 anos, também tem problemas de saúde e, que me conste, nunca recorreu a médicos russos. Há mais de 20 anos, sofreu uma “crise prostática” e foi submetido a tratamento no Brasil. Já sofreu também uma lipoti­mia e recorreu a médicos cubanos. Presentemente, vem sendo há meses tratado a uma doença desco­nhe­cida, mas os médicos estão em Barcelona, Espanha.

Quanto a Neto, surgiu recentemente um elemento novo que não pode ser descartado: se não foi vítima da KGB, pode ter sido da CIA, a cada vez menos se­creta agência secreta dos EUA. A denúncia consta de uma investigação realizada em 2013 pela jornalista irlandesa Rory Carroll, do jornal britânico The Guardian, sobre a morte do pre­sidente da Venezuela, Hugo Chavez. Neto poderá ter sido uma das primeiras vítimas de um programa de Assassinato Científico desenvolvido pela CIA e que consistia na transmissão de um vírus causador de cancro.

Rory Carroll dá conta que Agostinho Neto terá sido infetado com “a bioarma produzida pela CIA e o vírus propagou-se com celeridade, ocasionando a sua morte em Moscovo”, para onde foi transportado já profunda­mente debilitado. Segundo a jornalista irlandesa, o resultado obtido com a morte de Neto terá servido de incentivo para a continuidade do programa para con­ta­minar e assassinar outros estadistas da esquerda, particularmente no continente sul-americano. O último dos casos, como afirma, terá sido Hugo Chavez, cuja morte, a 5 de Março de 2013, se atribui a um can­cro que se desenvolveu a partir dos órgãos genitais. Da longa lista referenciada no livro de Rory Carroll, constam também os casos de cancro na garganta do ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, o primeiro que conseguiu recuperação, e do ex-presidente argentino Nestor Kirchener, que não obteve cura.

O atual presidente venezuelano, Nicholas Maduro,  denunciou que Chavez tinha sido atingido por um “ataque científico” que partiu de “inimigos históricos” da Venezuela, numa alusão aos americanos. Na altura, um dirigente do Departamento de Defesa dos EUA considerou “que a ideia era absurda”. Mas para Rory Carroll pode não ser apenas coincidência o facto de seis líderes da esquerda terem sido vítimas de cancro ao mesmo tempo.

Carroll escreve, igualmente, que as armas biológicas e tóxicas foram proibidas (uso e posse), em 1972, por força de uma convenção ratificada pelos EUA, a então União Soviética e o Reino Unido, e muitas foram des­truídas pela CIA por ordem do director Richard Helms. Contudo, uma Divisão de Operações Especiais do Centro-Army Intelligence Agency em Fort Detrick, Maryland, uma área técnica da CIA, continua a manter e a desenvolver armas biológicas.

Tudo isto é preocupante, claro. Mas não podemos esquecer os russos e, segundo eles, a verdadeira causa da morte de Agostinho Neto é prosaica e ter-se-á devido ao “excessivo consumo de bebidas alcoólicas”. Um agente russo destacado em Luanda, Karen Bru­tentz, citado por José Milhazes no livro O Princípio do Fim da União Soviética, refere que as autoridades soviéticas não queriam que o presidente angolano fosse operado em Moscovo, pois sabiam do seu real estado de saúde, mas, por outro lado, não podiam recusar para “não afetar a credibilidade do país”.