Donald Trump, o começo do fim

 

Em outubro de 2016, o governo dos EUA acusou formalmente a Rússia de ataques cibernéticos ao Partido Democrático com objetivo de ajudar na vitória do candidato republicano Donald Trump nas eleiçõs presidenciais de 8 de novembro, como veio a acontecer. CIA e FBI, as duas principais agências de segurança do país, revelaram ter descoberto que “indivíduos ligados ao governo russo” tinham entrado no website do comité nacional do Partido Democrático e roubado e-mails com informações negativas para Hillary Clinton que passaram ao WikiLeaks, que as divulgou para prejudicar a então candidata. E não se pode esquecer aqui o papel criticável de Edward Snowden, Glenn Greenwald e sobretudo Julien Assange, que se assumem democratas e afinal servem interesses pouco democráticos.
Na altura, a reação do presidente Barack Obama em final de mandato limitou-se à expulsão de alguns diplomatas e espiões russos. Na manhã de 30 de dezembro de 2016 foram fechados dois prédios usados pelos russos e 35 diplomatas e 61 familiares deixaram os EUA. O presidente russo, Vladimir Putin, não exerceu o direito de reciprocidade e não expulsou nenhum diplomata da embaixada dos EUA em Moscovo.
Aliás, Putin começou por negar que a Rússia tivesse ajudado a eleger Trump, mas no dia 1 de janeiro de 2017 admitiu que podia ter havido interferência russa, embora adiantando que “se alguém interveio nas eleições americanas foram russos patriotas e não agentes do governo”.
Para John Brennan, diretor da CIA de 2013 a 2017, testemunhando perante o Comité de Inteligência do Senado que investiga as suspeitas de conluio entre assessores de Trump e agentes russos, a Rússia “interferiu descaradamente” e “o objetivo dos russos era minar a confiança no processo democrático dos EUA, denegrir a candidata democrática Hillary Clinton e ajudar as chances de eleição do presidente Trump”.
Trump rejeitou as acusações da CIA, argumentando ser manobra democrata para tentar justificar a derrota, mas em fevereiro de 2017, dias depois de ter tomado posse, demitiu o assessor para a Segurança Nacional, o general Michael Flynn por contatos com a Rússia.
O general (na reserva) tinha sido destituído em 2012 por Obama do cargo de diretor da Inteligência do Exército, quando vieram a público os seus planos de transformar a agência numa rival da CIA. Tinha sido sempre democrata, mas tornou-se um dos primeiros apoiantes de Trump e continuou a manter as suas relações com os russos. Em 2015, Flynn recebeu dinheiro para comparecer num jantar de gala da Russia Today, uma estação televisiva promovida pelo Kremlin e onde esteve sentado perto de Putin. Durante a campanha, Flynn teve também contatos frequentes com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak e, já depois de Trump ter sido eleito, precisamente no dia em que Obama aprovou as sanções à Rússia por ingerência nas eleições, falou ao telefone com o diplomata e deixou implícito o fim das sanções. Esse tipo de contatos não é permitido por lei e o vice-presidente Mike Pence interrogou Flynn sobre a conversa com o embaixador. O general negou que as sanções tivessem sido abordadas, mas a gravação do telefonema provou que mentia e viu-se forçado a resignar.
Michael Flynn tinha nomeado o filho seu chefe de gabinete, mas Trump viu-se obrigado a despedir também Michael G. Flynn quando se provou que ele e o pai usaram as redes sociais para divulgar a falsa notícia do envolvimento de Hillary Clinton numa rede de prostituição infantil tendo como fachada a famosa pizaria Comet, em Washingon e que levou um tarado armado com uma espingarda a abrir fogo no estabelecimento. O incidente, conhecido como Pizzagate, diz-nos do nível do ex-assessor de Segurança Nacional e há quem considere que o general Flynn marca o começo do fim da administração Trump.
Depois de chegar a Washington cheio de ideias e energia e de deixar o mundo em alvoroço nos primeiros dias do seu mandato, Trump está a descobrir que ser presidente dos EUA é mais complexo do que fazer declarações popularunchas diante das câmaras da TV ou no Twitter.
O FBI também decidiu investigar o aparente conluio da campanha de Trump com os russos, mas a 9 de maio Donald Trump cometeu a asneira de demitir o diretor do FBI, James Comey.  Ex-procurador federal e antigo vice-secretário da Justiça, Comey, 56 anos, esteve muito tempo ligado aos republicanos, mas foi nomeado pelo democrata Barack Obama para a direção do FBI. Estava há três anos e meio no cargo e quando tomou posse, a 20 de janeiro, Trump pediu-lhe que permanecesse em funções. Acabou por demiti-lo de forma humilhante: Comey teve conhecimento da sua demissão através da televisão.
Em comunicado, a Casa Branca disse que a demissão foi pela forma como Comey lidara com o inquérito sobre os e-mails que Hillary enviara por uma conta particular quando foi secretária de Estado. Mas um  memorando interno do FBI revelou que Trump pedira a Comey que “deixasse de lado” as investigações sobre Michael Flynn, como não lhe fez a vontade, correu com ele e a decisão pode sair-lhe cara.
Trump diz-se alvo de uma “caça às bruxas”, mas mete tanto os pés pelas mãos que  é um despreparado para lidar com as atribuições e responsabilidades do seu cargo, ou então é um aldrabão crónico. Depois da demissão de Comey, foi nomeado um promotor especial para investigar o caso, Robert Mueller, que comandou o FBI por 12 anos, durante as presidências de George W. Bush e Barack Obama, tendo sido substituído no cargo em 2013 precisamente por James Comey.
Devido às ligações de Flynn com a Rússia, vários congressistas pediram a formação de uma comissão de inquérito e foram constituídas duas, uma no Senado e outra na Câmara dos Representantes. Dia 24 de julho, Jared Kushner, genro de Trump e seu conselheiro senior, prestou declarações durante duas horas perante o Comité de Serviços de Inteligência do Senado sobre um encontro até agora mantido em segredo com Natalia Veselnitskaya, advogada russa com ligações ao Kremlin que queria passar-lhe informações “incriminatórias” sobre Hillary Clinton. O encontro teve lugar na Trump Tower, em New York, a 9 de junho de 2016 e nele participaram também o filho mais velho de Trump, Donald Trump Jr. e Paul Manafort, o homem que chefiava na altura a campanha de Trump, que foram igualmente convocados para testemunhar.
A reunião foi à porta fechada, mas os advogados de Jared Kushner divulgaram o documento de 11 páginas que ele leu aos senadores. O marido de Ivanka Trump garantiu que não entrou em “conluios” e “nem conheceu ninguém na campanha que entrou em conluio com qualquer governo estrangeiro”. Reconheceu no entanto que depois do sogro ter sido eleito tentou estabelecer uma linha direta de comunicação com o presidente Vladimir Putin e que teve quatro contatos com os russos durante a campanha, mas nenhum foi “impróprio”.
Donald Trump Jr., e Paul Manafort deviam prestar declarações no Congresso no dia 26 de julho, mas esses testemunhos foram adiados. Manafort é talvez quem mais terá a contar, uma vez que dirigiu a campanha de Trump de março a agosto de 2016. É um tarimbado consultor político, foi conselheiro das campanhas presidenciais dos republicanos Gerald Ford, Ronald Reagan, George H. Bush, Bob Dole, George W. Bush, John McCain e finalmente Donald Trump. Mas antes disso tornou-se conhecido cuidando da propaganda de Jonas Savimbi.
Em 1985, Manafort assinou contrato de $600.000 anuais com Tito Chingunji, representante da UNITA em Washington, para refazer a imagem de Savimbi no ocidente. Começou por convencer o líder rebelde angolano a pôr de lado ideias maoístas e fazer discursos de caris democrático. Tratou também da publicação de uma biografia apresentando Savimbi como um combatente pela liberdade em África e escrita por Fred Bridland. E conseguiu que Savimbi se tornasse o primeiro angolano recebido na Casa Branca (por Ronald Reagan).
Manafort foi igualmente responsável pelo apoio financeiro que a UNITA recebeu dos EUA. Apresentando Savimbi como “o homem que apoiava a América e lutava contra a ditadura que os soviéticos instalaram em Angola”, Manafort convenceu o antigo senador Bob Dole a mover influências no Departamento de Estado para o envio de armas para a UNITA durante a guerra civil em Angola (1975-2002).
Devido à aceitação que Savimbi passou a ter no ocidente, outros líderes recorreram também aos serviços de Manafort, como Siad Barre da Somália, Mobutu Sese Seko do ex-Zaire, Ferdinando Marcos das Filipinas e nos últimos anos o antigo presidente ucraniano Viktor Yanukoych, apoiado por Moscovo.  
Por tudo isto, a Casa Branca vai continuar assombrada pelo fantasma russo enquanto Trump lá morar. Há cada vez mais norte-americanos arrependidos de terem votado nele e o seu índice de popularidade é 35%, o mais baixo dos últimos 70 anos. Iniciou funções há seis meses e não se fala do que Trump fez ou deixou de fazer, a questão é saber quanto tempo se vai manter na Casa Branca e nos sites britânicos especializados já se fazem apostas sobre a saída.
Poderá não concluir o primeiro mandato. Ao demitir Comey, Trump torna-se suspeito de querer obstruir as investigações do FBI e a acusação de obstrução da justiça pode valer-lhe um processo de impeachment (destituição).
A lembrança do caso Watergate, que culminou na renúncia de Richard Nixon para evitar um impeachment, está de volta ao Congresso por causa da embrulhada dos russos. Contudo, a probabilidade da abertura de um processo de impeachment ainda é remota, embora já tenha sido proposto pelo congressista democrata Al Green, mas a maioria republicana no Congresso protege Trump. Embora nem todos concordem com ele, os senadores e congressistas republicanos irão manter-se ao lado de Trump, a menos que sintam os seus próprios lugares em risco nas eleições legislativas de 2018.  
Trump vem fazendo o que pode para obstruir as investigações oficiais sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016, mas as investigações avançam e, segundo o jornal Washington Post, o presidente já consultou os seus advogados sobre uma medida que poderia ser considerada o último recurso: usar o poder presidencial de conceder perdões para perdoar aos seus familiares, aos seus assessores e a si próprio. Um exemplo possível será perdoar o genro, Jared Kushner, o filho, Donald Trump Jr., e Paul Manafort.
Mas a questão é saber se o presidente pode perdoar-se a si próprio. A Constituição dos EUA não responde claramente a essa pergunta, porque os seus elaboradores não devem ter imaginado que isso pudesse vir a acontecer. E o Supremo Tribunal também nunca se pronunciou sobre isso, porque a pergunta nunca lhe foi apresentada.
A Constituição diz apenas, no seu Artigo II, Secção 2, que o presidente “deve ter o poder de conceder suspensões da pena e perdões de crimes contra os Estados Unidos, exceto em casos de impeachment”. A expressão “crime contra os Estados Unidos” significa que a Constituição exclui processos civis. E a pessoa perdoada pode livrar-se do processo criminal, mas não do processo de impeachment no Congresso.
Mas se o texto da Constituição americana não autoriza explicitamente que o presidente se conceda o perdão, também não proíbe. Antes da abertura do processo de impeachment contra Nixon, alguns dos seus assessores aconselharam-no a apelar para o perdão presidencial, mas ele recusou a fazê-lo e foi o seu sucessor, Gerald Ford, quem lhe concedeu perdão pelos crimes que cometeu e ficaram conhecidos como o caso Watergate.
Além disso, há o princípio que precede a elaboração da Constituição, segundo o qual ninguém pode ser o juiz da própria causa – uma noção referida em latim como “nemo judex in causa sua”. As pessoas não podem processar, julgar ou serem jurados dos seus próprios casos. Mas com Trump nunca se sabe e, recorrendo como de costume à rede social Twitter, já afirmou que tem “poderes absolutos para perdoar...”