Aaron Hernandez do contrato de $41 milhões ao suicídio na prisão

 

 

Aaron Hernandez, 27 anos, enforcou-se dia 19 de abril na cela no Souza Baranowski Correctional Center, penitenciária de segurança máxima em Shirley, Massachusetts. Foi sepultado dia 24 na sua terra natal, Bristol, Connecticut, ponto final de uma vida tortuosa, conflituosa e exemplar, se quiserem. Mas não se interprete mal este exemplar. Um exemplo tanto pode ser bom como mau. O hábito leva-nos a pensar sempre na palavra exemplar como algo de bom, mas nem sempre é o caso. O antigo jogador dos New England Patriots é um claro exemplo de ausência de valores, uma vida vazia, uma carreira de sonho que ele converteu num pesadelo.
Hernandez foi encontrado enforcado pouco depois das 3:00 da madrugada. Passava os seus dias atrás das grades escrevendo cartas e vendo na televisão os jogos da sua antiga equipa, os Patriots, mas foi a família e não o futebol que dominou as suas últimas horas de vida. Segundo as autoridades prisionais, Hernandez conversou ao telefone pelo menos durante uma hora com Shayanna Jenkins-Hernandez, noiva e mãe da sua filha de quatro anos, Avielle Janelle Hernandez. Shayanna e Avielle deveriam visitá-lo dia 22 na prisão.
Na cela, Hernandez derramou sabonete ou champô para tornar o chão escorregadio e colocou um papelão nos carris para dificultar a abertura da porta corrediça. Depois enforcou-se com um lençol pendurado na janela da cela. Antes, porém, rabiscou três notas que deixou cuidadosamente junto a uma Bíblia aberta em João 3:16, um dos versículos mais citados no Novo Testamento e frequentemente invocado antes da morte. Pode ter sido uma última mensagem de Hernandez, que tatuara “João 3:16” na testa em tinta vermelha.  
As três notas escritas foram para a noiva, para a filha e para o seu boyfriend na prisão, um indivíduo de 22 anos chamado Kyle Kennedy, de Uxbridge, Massachusetts, a quem ofereceu um relógio de $50.000 e outros presentes. Kyle está preso pelo assalto à mão armada a uma estação de gasolina de Northbridge, em 2015.
O suicídio deixou a noiva, a família, os amigos e os advogados de Hernandez em estado de choque. Tinha sido absolvido cinco dias antes do assassinato dos imigrantes cabo-verdianos Safiro Furtado e Daniel de Abreu em 2012, renovando-lhe a esperança de apelar da condenação a prisão perpétua pelo assassinato de Odin Lloyd em 2013, cujo processo estava em curso. Brian Murphy, ex-agente de Hernandez, admitiu que pudesse ter sido assassinado, mas essa hipótese foi desmentida pelas autoridades.
O corpo foi autopsiado dia 20 de abril pelo médico legista, dr. Henry N. Nichols, e a morte foi atribuída a asfixia por enforcamento. Um comunicado de Joseph O. Early, procurador de Worcester County, revelou que “não havia sinais de luta e os investigadores determinaram que o Sr. Hernandez estava sozinho no momento da suspensão”.
A pedido do advogado José Baez, de New York, que conseguiu que Hernandez fosse declarado inocente da morte dos cabo-verdianos, o corpo foi também autopsiado pelo dr. Michael Baden, ex-patologista forense-chefe da Polícia do Estado de New York, que desempenhou papel importante nas investigações dos assassinatos do presidente John F. Kennedy e de Martin Luther King Jr. e no julgamento de OJ Simpson. Eventualmente, essa autópsia terá sido com vista à anunciada decisão de Shayanna Hernandez de processar o estado de Massachusetts pelo suicídio do noivo, alegando que as autoridades estaduais têm o dever legal de assegurar segurança e proteção contra danos pessoais a reclusos sob sua custódia.  
Shayanna também pediu que os funcionários prisionais sejam impedidos de destruir quaisquer evidências que permitam à família investigar o suicídio e o juiz Thomas McGuire, do Tribunal Superior de New Bedford, ordenou a manutenção das gravações vídeo da cela durante as oito horas antes da morte de Hernandez e dos  telefonemas que fez nos 30 dias antes da sua morte. 
Desde que foi preso em casa, a 18 de junho de 2013, pelo assassinato de Odin Lloyd, não se passou um único dia sem que a televisão ou os jornais falassem de Hernandez e a sua morte promete ser também notícia por muito tempo, nomeadamente quanto às suas opções sexuais. Alguns jornais revelaram que Hernandez era bissexual e que Odin Lloyd pode ter sido morto para não revelar as relações homossexuais do amigo.
Lloyd, 27 anos, vivia em Dorchester com a mãe, trabalhava em jardinagem e ao fim de semana jogava futebol americano em equipas secundárias de Boston. Namorava Shaneah Jenkis, irmã de Shayanna, noiva de Hernandez. Os dois homens terão feito amizade, Lloyd conduzia um carro alugado pago por Hernandez, que também lhe tinha oferecido umas férias na Califórnia.
O corpo de Lloyd, morto com cinco tiros, foi encontrado dia 17 de junho de 2013 no parque industrial de North Attleboro, não muito distante da casa de Hernandez. A polícia apurou que, na noite anterior, Hernandez fui buscar Lloyd a casa com dois outros amigos, Carlos Ortiz e Ernest Wallace. Imagens da vídeo segurança de uma discoteca de Boston mostram Hernandez e Lloyd juntos.
Hernandez foi julgado em 2015, no Tribunal Superior de Fall River, pela morte de Lloyd. Foi considerado culpado de homicídio em primeiro grau e condenado a prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. Ortiz e Wallace testemunharam contra Hernandez, que viria a ser acusado também da morte dos cabo-verdianos.
Na noite de 16 de julho de 2012, Safiro Furtado, 28 anos, e Daniel de Abreu, 29 anos, estavam a distrair-se na discoteca Cure Lounge, em Boston. Acidentalmente, Abreu derramou uma bebida sobre Hernandez e, talvez por falar pouco inglês, limitou-se a sorrir e não pediu desculpa. Hernandez terá ficado enfurecido, disse a Alexander Bradley, amigo que o acompanhava, que tinha sido desrespeitado e ia ajustar contas. Quando os cabo-verdianos sairam, o seu carro foi seguido por um SUV prateado e, quando parou numa luz vermelha, alguém do SUV disparou cinco tiros matando Safiro e Abreu.
Hernandez foi julgado este ano em Boston e Bradley foi a principal testemunha de acusação. Disse que ia ao volante do SUV e Hernandez é que disparara, mas o advogado José Baez argumentou que Hernandez conduzia e Bradley é que disparara. Após cinco dias de deliberações, a 14 de abril, o júri considerou Hernandez inocente.
Devido a um preceito judicial que remonta aos tempos coloniais e ainda vigora em Massachusetts, o suicídio de Hernandez pode limpar também o seu nome da condenação de assassinato pela morte de Lloyd. Trata-se do “ab initio ab initio”, a prática de arquivar as condenações de réus que morram antes dos seus apelos seram ouvidos. Em Massachusetts, todas as condenações por assassinato em primeiro grau dão origem a um apelo automático, e o de Hernandez ainda estava no estágio inicial e não tinha sido ouvido quando ele se enforcou.  A última vez que o “ab initio ab initio” funcionou em Massachusetts foi com John Salvi. Em 1994, tinha sido condenado pelo assassinato de dois trabalhadores de clínicas de aborto em Brookline e em 2003, na prisão, espancou até à morte o ex-padre John Geoghan, que cumpria pena por pedofilia. O seu recurso do crime de 1994 estava em curso e, como Salvi pôs termo à vida antes de ser ouvido, o caso foi arquivado.
Dia 22 de abril, o corpo de Hernandez foi entregue à família, mas não o cérebro, que foi para o Centro de Encefalopatia Traumática Crónica da Universidade de Boston, onde se estuda a CTE, uma doença cerebral degenerativa progressiva diagnosticada em alguns atletas que sofreram trauma repetitivo do cérebro e só pode ser examinada postumamente. Os médicos  estão a estudar o cérebro de Hernandez para tentar compreender a doença, que pode provocar mudanças de humor violentas, perda de memória e outras dificuldades cognitivas. Talvez isso ajude a compreender a reviravolta de 360 graus operada na vida de Hernandez.  
De ascendência portorriquenha e italiana, Hernandez tem sido descrito como uma “tragédia americana” pelo vertiginoso sucesso que o levou ao estrelato da NFL, a principal liga profissional de futebol americano, ao abrupto colapso da carreira mergulhado em violência. Nasceu e foi criado em Bristol, Connecticut, e aos nove anos, quando ainda não era um latagão tatuado, o pequeno Hernandez deu nas vistas na Little League. O pai, Dennis Hernandez, também tinha sido jogador de futebol e era contínuo da Bristol Eastern High School, a mãe, Terri Hernandez, era funcionária escolar.
Dennis morreu inesperadamente em 2006, aos 49 anos, durante uma cirurgia de rotina e isso pode ter-se refletido no filho, que era muito chegado a ele. Hernandez foi admitido nesse ano na Universidade da Florida, onde foi campeão nacional universitário. Em 2010, Hernandez foi draftado pelos Patriots e nos poucos anos que esteve na NFL, o ex-camisa 81 formou uma das melhores duplas de tight ends da liga com Rob Gronkowski, tendo chegado ao Super Bowl em 2012, ganho pelos New York Giants.
Em agosto de 2012, aos 23 anos, Hernandez assinou um dos maiores contratos da NFL para a sua posição, 41 milhões de dólares por cinco ano. A sua ascensão parecia imparável, era uma das estrelas da NFL.

Mas, paralelamente ao sucesso desportivo, Hernandez levava uma vida turbulenta fora do campo. Em 2010, soube-se que na universidade tinha falhado vários testes de drogas e andava com as chamadas más companhias. Em 30 de setembro de 2007, dois homens foram mortos a tiro em Gainesville, Florida, caso que ainda está a ser investigado. Quatro indivíduos foram considerados suspeitos e um era Hernandez, mas só seria preso pela morte de Odin Lloyd e desde esse dia a prisão foi o seu lugar neste mundo. Há dias foi declarado inocente da morte dos cabo-verdianos, mas optou por pôr termo à vida talvez num ato de compaixão.
A família fez questão em que o funeral de Hernandez fosse privado. Mesmo assim assistiram cerca de 50 pessoas, entre as quais o advogado José Baez e o dr. Michael Baden e a esposa, que é jurista. Alguns colegas nos Gators da Universidade da Florida apareceram, como Brandon Spikes, do Buffalo Bills, e os gémeos Mike Pouncey, do Miami Dolphins, e Maurice Pouncey, do Pittsburgh Steelers. Dos Patriots não esteve ninguém.
As restantes pessoas eram familiares, a noiva, Shayanna Hernandez (não casaram mas ela usa legalmente o apelido), a filha, a mãe, Terri Hernandez, o irmão mais velho, Jonathan Hernandez, tios e primos. Para todos eles, Aaron Hernandez era um ente querido, não era um criminoso e psicopata. Apesar do sucesso, a vida breve de Hernandez foi uma tragédia. Teve fama e fortuna, mas faltou-lhe o mais importante: valores.