Tiroteio trágico em Providence

 

Aconteceu na passada quinta-feira, 9 de novem­bro, em Providence e ainda vai dar muito que falar. Um homem morto e uma mulher ferida com tiros disparados por polícias que procuravam um fugi­tivo com o qual as vítimas nada tinham a ver. Um dia aziago para a Polícia Estadual de Rhode Island. Mas ainda mais para Joseph Santos, 32 anos, e a namorada de dois meses, Christine Demers, 37, que estavam no lugar errado na hora errada.

O fugitivo que esteve na origem de tudo isto foi um tal Donald W. Morgan, 35 anos, cuja última morada conhecida era 60 Academy Ave., Providen­ce, mas ultimamente sem endereço certo. Foi detido pela polícia estadual no dia 8 às 10:58 da noite depois de se ter envolvido num acidente de viação com um carro roubado. A televisão divulgou a foto de Morgan com cortes no rosto e um olho inchado e segundo a polícia esses ferimentos foram sofridos no acidente que levou à sua detenção.

Morgan foi levado ao Hospital Rhode Island para tratamento dos ferimentos e pernoitou nas Woods Barracks, o quartel da Polícia Estadual em Lincoln. Na manhã seguinte deveria comparecer no Sexto Tribunal Distrital que funciona no Garrahy Judicial Complex, Dorrance Plaza, Providence.

Morgan não é um desconhecido da polícia. De­linquente habitual, o seu cadastro criminal remonta a 2002, quando tinha 20 anos, e inclui acusações de roubo, resistência à prisão e tentativas de fuga. Em abril deste ano, Morgan foi detido pela polícia de North Providence e ofereceu resistência e o mesmo aconteceu em julho, quando foi preso em East Providence. Tinha uma audiência agendada para o tribunal em 6 de novembro e não compa­receu, talvez temendo ser sentenciado a larga temporada na penintenciária de Cranston, onde já conhece os cantos à casa e tentou fugir em 2013.

Não se pode facilitar com tipos como Morgan, o que parece ter acontecido quando foi conduzido ao tribunal por um único agente num carro sem barreira de separação do banco traseiro para o da frente e algemado com as mãos à frente, o que é de discrição do agente, mas normalmente os indivíduos são algemados à frente para se poderem proteger em caso de acidente, disse a superintendente da Polícia Estadual de RI, coronel Ann Claire Assum­pico, que tem um avô portugês e outro brasileiro, diga-se de passagem.

A caminho do tribunal, um acidente de viação na estrada 146 obrigou o agente a parar e investigar a ocorrência, como determina o regulamento. O agente ligou as luzes de emergência e saiu do carro deixando o motor ligado, também como é do regulamento. E foi quando Morgan, mesmo algemado, saltou para o lugar do condutor e arrancou. Quanto a isso, a coro­nel Assumpico já aprendeu a lição e anunciou que o departamento precisa “absolutamente” de comprar veículos com barreira entre os bancos dianteiros e traseiros.

Morgan não andou muito tempo com o carro roubado, que foi encontrado cerca de 15 minutos depois estacionado na Vineyard Street, no West End da cidade e com a espingarda que habitualmente segue no porta-bagagens no seu lugar. Aparente­men­te, Morgan não estava interessado em armas ou talvez não soubesse da existência da carabina.

Concluindo que o fugitivo ainda se encontraria na área, a polícia lançou uma busca generalizada através do bairro Elmwood, com mais de meia centena de agentes empunhando carabinas e entrando em edifícios com cães polícias.

Por volta das 10:35 da manhã, hora e meia depois do carro ter sido roubado, a polícia estadual foi infor­mada de que a polícia de Cranston estava perseguin­do um pickup truck branco que se recusava a parar e “claramente estava tentando escapar da polícia, dirigindo de forma errática, em altas velocidades e colocando o público em geral em risco”, disse Hugh Clements, chefe da Polícia de Providence.

O veículo fugitivo era um pickup truck Ford F150 branco. Um agente tinha visto a viatura seguindo “erra­ticamente” e mandou-a parar, mas quando saiu do seu carro, o pickup truck arrancou e a fuga levou a polícia a acreditar que Morgan poderia estar escondido no veículo.

O  F150 branco foi perseguido na estrada 10 e ao subir a rampa de acesso à estrada 95 norte, perto do Providence Place Mall, onde foi bloqueado pelos carros das polícias local e estadual.

Os polícias de Providence começaram recentemente a usar câmaras de vídeo corporais e pelo menos um dos polícias envolvidos no incidente tinha a sua câmara ligada. O Departamento da Polícia de Provi­dence convocou uma conferência de imprensa na sexta-feira para mostrar o vídeo da câmara do polícia que mostra o momento do tiroteio e imagens da vigilância rodoviária dos momentos que antecederam o tiroteio. As imagens esclarecem muita coisa, embora não respondam a todas as perguntas.

Juan Carlos Ardaya, que estava no seu carro a poucos metros do local do tiroteio,  gravou com o seu telemó­vel a cena caótica. Disse à televisão que o condutor do pickup truck foi avisado por um polícia para sair da viatura, mas recusou e recuou embatendo num carro da polícia, depois avançou embatendo numa viatura particular. Na gravação podem-se ouvir o som do motor e dos pneus, e foi quando os polícias abriram fogo.

Do outro lado da estrada, Michael Perry, 42, de Warwick, que se dirigia a Providence para uma reunião no Miriam Hospital, também colheu imagens com o seu telemóvel através do teto solar do seu carro e gravou os momentos em que os polícias abriram fogo. O vídeo captou imagens de seis polícias disparando, ouvem-se oito disparos e a viatura é envolta numa nuvem de fumaça branca. Perry enviou o vídeo para o Facebook e Twitter e milhares de pessoas tiveram acesso às imagens pela internet e antes dos telejornais.

Morgan foi capturado sexta-feira à porta de uma casa na Vermont Avenue, em Cumberland, pela polícia local e estadual por volta das 6:00 da noite e 33 horas depois de ter fugido. A polícia estadual nada disse da captura. Mas Erin Cameron, residente na mesma rua, disse ter visto um veículo vermelho entrar no driveway de uma casa frente à sua e a polícia surgir e deter os ocupantes do carro. Além de Morgan, foram detidos Daniel Medeiros, 54 anos, e Rachel Read, 47, ambos residentes em  52 Vermont Ave., que são acusados de abrigar um criminoso.

Joseph Santos era o segundo mais velho dos cinco filhos de Vivian Santos e cresceu em Providence. Em 1997, quando foi diganosticado cancro a Vivian, o filho não saia do seu lado e, quando ela perdeu o longo cabelo castanho, o rapaz rapou a cabeça.

Nunca foi muito próximo do pai, Charles Bevis, que morreu em janeiro de 2017, mas era muito chegado à mãe e terá sido em 2000, quando ela faleceu aos 36 anos e contava ele 14, que começou a meter-se em drogas e a ter problemas.

Foi preso a primeira vez aos 19 anos por conduzir sem carta e receber artigos roubados. Teve 33 processos judiciais e cerca de metade das suas prisões foram por roubo de carros e conduzir sem carta. A maioria dos casos foram delitos menores.

Saira da prisão em 3 de maio de 2016, depois de cumprir um ano por dirigir um veículo sem consentimento do proprietário e violar uma pena suspensa anterior. De acordo com registos judiciais, Santos informou o seu agente de liberdade condi­cional em 18 de maio de 2016 de que havia consu­mido heroína depois que saira da prisão. Em 20 de setembro foi emitido um mandato de captura de Santos por não comparecer perante a magistrada Patricia Harwood numa acusação de violação de liberdade condicional e tinha presentemente dois mandados de prisão pendentes.

Santos trabalhava na construção e, para o irmão, Lucas Tibério, “estava finalmente virando uma esquina depois de uma vida terrível”.

“Ele trabalhava e todas as manhãs, durante dois anos, levei-o à clínica de metadona. Ele estava sóbrio”, disse Tibério, que passou os últimos dias à procura de um fato e de um caixão onde o irmão caiba (Joseph tem 6 pés e 6 polegadas). Tibério criou uma página GoFundMe para angariar dinheiro para despesas funerárias e um memorial.

A irmã, Justine Santos, disse que Joseph estava tentando endireitar a vida e “era uma boa pessoa que estava assustada”.

“Tinha a carta de condução suspensa e conduzia um veículo não registado quando a polícia o mandou parar e por isso terá tentado fugir. Ele provavelmente estava nervoso e com medo de que seria mandado novamente para a prisão e daí ter tomado a decisão errada”, concluiu Justine Santos.

Joseph Santos deixa um filho de 17 anos, Joey Abate-Walsh, filho de Nicole Abate-Adler, e uma filha de nove anos, Juliana, que vive na Flórida com a mãe, Stacey Lee Tessier.

Nicole Abate-Adler e Joseph conheceram-se na escola em Cranston e foi o primeiro amor para ambos. Alto e musculoso (levantava pesos), sempre sorridente e gentil, Santos tinha pinta de galã do cinema e nunca lhe faltaram namoradas.

Joey Abate-Walsh morou com o pai até aos três anos de idade e agora vive com uma tia em Worcester, Massachusetts, viu as imagens do tiroteio de Providence no telemóvel durante o almoço na escola e não pensou muito nisso. Poucas horas depois, a mãe telefonou à tia e ficou a saber que o homem do vídeo era seu pai. E estava morto.

A namorada de Santos, Christine, continua no Rhode Island Hospital e recupera, de acordo com a última atualização clínica feita segunda-feira pela Polícia Estadual. Joseph vai ser autopsiado esta semana e provavelmente saber-se por quantas balas foi morto.

Terá sido a morte de Santos um erro trágico? Para o chefe da Polícia de Providence não é.

“Esse indivíduo não parou e por isso os polícias tiveram que usar força mortal”, disse o chefe Clements, para quem Santos estava “empurrando intencionalmente outras pessoas” e era um “perigo iminente” para o público.

Para as autoridades policiais, o Ford F150 branco foi usado como uma arma mortal na tentativa de fugir empurrando outros carros e justificando o uso da força. Mas para além de Santos e da namorada, ninguém mais foi ferido.

O caso está a ser investigado pelo gabinete do procurador-geral de Rhode Island, que é responsável por investigar todos os tiroteios envolvendo a polícia. O procurador-geral e um grande júri eventualmente decidirão se algum polícia deve enfrentar sanções disciplinares ou criminais.

O chefe Clements disse que foram disparados mais de 40 tiros sobre o pickup truck, cerca de 20 por cinco polícias de Providence e o resto por quatro RI State Troopers. Por regra, os polícias só podem disparar em veículos em movimento quando “necessário para parar uma ameaça”.

Duas dezenas de pessoas concentraram-se sábado frente ao comando da polícia  gritando “justiça para Joey”. A organização ACLU (American Civil Liberties Union)

quer saber como é que uma perseguição terminou num tiroteio com nove polícias disparando 40 tiros num veículo parado.

“Mesmo que ele estivesse usando o carro como uma arma, eles não têm faixas de pregos para o parar? Não podiam ter feito tiros de aviso ou ter disparado nos pneus? E disparar 40 tiros é excessivo”, disse Jamie St. Patrick, um dos organizadores de protesto.

Será que Joseph Santos e Christine eram realmente uma ameaça? A polícia procurou e não foi encon­trada nenhuma arma na viatura do casal.