A CIA avisou Portugal do 15 de março de 1961 em Angola

 

Hoje é dia 15 de março de 2017. Precisamente nesta data, mas há 56 anos, em 1961, a União das Populações de Angola (mais tarde FNLA) desencadeou os brutais ataques às fazendas de café e vilas dos distritos do Uige e Zaire, no norte de Angola, o então chamado Congo Português. 
Os relatos do 15 de Março são muitos, há livros publicados, filmes e programas de televisão. Mas ainda hoje muitos portugueses não sabem bem o que se passou e são cada vez menos os que viveram na pele esses dias trágicos.
Diz-se que Salazar conservava a carta de uma menina de seis anos descrevendo como o pai, a mãe e o irmão foram mortos no Quitexe, uma das vilas mártires. A menina disse que o pai levou uma catanada no nariz quando saia de casa e, já caído, uma segunda catanada no pescoço, que o matou. A mãe ouviu barulho, veio ver o que se passava e também foi morta. O filho morreu abraçado à mãe e foram enterrados assim no novo cemitério do Quitexe.
Outra testemunha, António Manuel Pereira Guerra, tinha nessa altura dez anos e conta que o ataque começou quando soaram as badaladas das oito horas da manhã no sino da administração, que era o sinal para os comerciantes do Quitexe abrirem as lojas. A mãe estava à porta de casa a tratar de um canteiro quando foi atacada, mas conseguiu sobreviver a onze catanadas. 
No 15 de Março morreram no Quitexe 109 europeus e 148 africanos, bailundos que trabalhavam nas fazendas de café, das quais apenas 14 não foram atacadas. Todo o norte de Angola foi atacado sem dó, nem piedade. Cerca de 1200 brancos e  6000 negros foram chacinados com requintes de malvadez, englobando fazendeiros, comerciantes, trabalhadores de plantações de café, homens, mulheres, velhos e crianças. O massacre de 15 de Março de 1961 deu a machadada final nos velhos e podres costumes coloniais portugueses e exigiu a resposta que Salazar não queria dar perante a pressão da ONU, dos EUA e das novas nações livres.
Costuma dizer-se que o 15 de Março foi uma supresa mas não é verdade. Nesse dia, o chefe de posto do Quitexe (Nascimento Rodrigues), foi com dois comerciantes e dois cipaios para os lados do Zalala, pois tinham andado a distribuir panfletos subversivos nas sanzalas daquela região.  A PIDE já recebera de Leopoldville a informação de que “dentro em breve, explodirá na nossa terra de Luanda uma grande revolta, pois todos os naturais de Angola estão preparados para o assalto”. Dois meses antes, um responsável desta polícia política informara os administradores e os comandos militares de que as actividades da UPA se tinham intensificado junto à fronteira e indicavam a data de 15 de Fevereiro de 1961 como data provável. Os colonos também se preveniam e demonstra-o a compra de armas: em 1960, Angola importara 953 toneladas de armas, seis vezes mais do que em 1959.
Entre os militares também existia desconfiança e o general Costa Gomes, futuro presidente, referiu que “os militares tinham previsto o que iria acontecer”, fazendo questão de assinalar que “entre 1958 e 1961, não se tomaram medidas importantes para prevenir uma guerra no Ultramar, antes pelo contrário.”
De início, o governo de Lisboa tentou minimizar o 15 de Março e um comunicado divulgado a 17 de março dá conta da ocorrência “na região fronteiriça do Norte de Angola de alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover atos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pública internacional.” Da violência do massacre escreve-se apenas: “Sabe-se que há a lamentar a perda de algumas vidas, mas não se conhecem pormenores. A situação encontra-se inteiramente sob o domínio das autoridades.”
A maioria dos portugueses sabia vagamente que Angola era 14 vezes maior que Portugal e de vez em quando exportava bons jogadores de futebol como o legendário Peyroteu, mas não fazia ideia (e o governo também não deixava os jornais dizerem) que Portugal era alvo de ataques internacionais. Mas o 15 de março de 1961 foi também o dia em que, pela primeira vez, os EUA votaram positivamente uma moção contra Portugal no Conselho de Segurança da ONU. 
Já tinha acontecido o 4 de Fevereiro em Luanda, quando um grupo de 200 homens armados com catanas atacou quatro soldados da polícia militar, apoderou-se das armas e depois desencadeou ações contra a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia da PIDE e a 7ª esquadra com objetivo de libertar presos politicos. Morreram 40 negros, seis agentes da polícia e um cabo do exército.
Portugal sabia que a administração do presidente Kennedy insistia na modificação da política portuguesa em relação às suas colónias africanas, tendo em vista a sua independência. Em Angola, Kennedy apoiava a UPA, presidida por Holden Roberto,  muito influente na tribo do Bakongos e que tinha o apoio de militares do exército congolês, além de figurar na folha de pagamentos da CIA.
Nos primeiros dias de março, a CIA chegou mesmo a dar conhecimento ao governo português através da sua embaixada em Lisboa, que em meados desse mês ir-se-iam desencadear convulsões e ações no norte de Angola, informação transmitida a Botelho Moniz, ministro da Defesa. Mas dela não tiveram conhecimento as poucas tropas portuguesas no território (5.000 soldados) e muito menos as populações civis.
Nos primeiros dias de março, o próprio Kennedy, através do embaixador em Lisboa, envolveu-se pessoalmente na questão, insistindo com Salazar para que Portugal anunciasse publicamente o princípio da autodeterminação e independência de Angola. Diz Franco Nogueira na suas memórias que, no fim de uma reunião com o embaixador Elbrick, Salazar terá concluído: “Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao presidente Kennedy. Muito boas tardes senhor embaixador.” 
Nada mudou na posição portuguesa e assim se chegou a 15 de março, quando a Libéria, Ceilão e República Árabe Unida apresentaram um projeto de resolução no Conselho de Segurança, que sublinhava os perigos que a situação em Angola representava para a paz e para a segurança mundiais e exigia expressamente reformas que pusessem fim ao colonialismo. Kennedy deu instruções para que os EUA votassem positivamente, juntando-se assim aos três proponentes e à URSS. Cinco votos a favor, portanto, mas com seis abstenções (França, Inglaterra, China, Chile, Equador e Turquia), a resolução não obteve a maioria de votos necessária para ser aprovada, mas a posição de Portugal ficou profundamente afetada. 
A política de Portugal em Angola foi uma sucessão de erros como o caso da Baixa de Cassange, 80.000 km2 de campos de algodão distribuídos pelos distritos de Malange e da Lunda e mantidos por 35.000 agricultores que eram obrigados a cultivar e vender o algodão à empresa concessionária da zona, a COTONANG (Companhia Geral dos Algodões de Angola, sociedade de capitais luso-belgas). Não tinham salário e o seu único rendimento eram a venda obrigatória do algodão à COTONANG que estabelecia preços reduzidos. Eram escravos e deixaram-se aliciar por agitadores da UPA vindos do Congo e queimaram as sementes fornecidas pela COTONANG e recusaram a pagar a taxa pessoal anual ao Estado português repetindo o refrão “mueneputu tuge ia gingilis” que significa: “o governo português é merda de passarinho”. A repressão foi tão violenta que a Força Aérea utilizou pela primeira vez as célebres bombas incendiárias Napalm provocando um número indeterminado de mortos.
Vivi tudo isso de perto. Fui sargento (miliciano) da Companhia 319 do Batalhão de Caçadores 317 que esteve em Angola de1961 a 1964, envolvido numa guerra cujas motivações desconheciamos quase por completo. Foram dias atribulados e no primeiro ano não soube o que era dormir numa cama e, como em todas as guerras, não sabíamos se iríamos regressar vivos. Andei pelo Úcua, Quitexe, Zalala, Cólua, ao tempo das zonas mais perigosas do norte de Angola. Ainda assim apaixonei-me por Angola, terra fértil e espetacular (até o pôr do sol é espetáculo). 
É frequente dizer-se que os portugueses que nasceram ou viveram em Angola, nunca esquecem os tempos que lá estiveram. Mas no meu caso, eu diria que o colonialismo português foi diferente. Os portugueses colonizaram na cama e a provar está a elevadíssima mestiçagem, nada igualada nas colónias francesas e inglesas. Portanto apaixonei-me por uma angolana e não propriamente pelo petróleo e os diamantes.
Aconteceu também que, antes de ser mobilizado, eu trabalhara na Rádio Voz de Lisboa, produzindo e apresentando o programa Festival da Noite nas madrugadas de domingo das duas às 7:00 da manhã. Portanto, o meu ofício era a rádio e Carmona (Uige), distante 57 kms do Quitexe, tinha o Rádio Clube do Congo Português (mais tarde Rádio Clube do Uige). Passei a colaborar na estação até regressar a Portugal em  janeiro de 1964. Ainda me dediquei ao negócio de meu pai (o Café Central, em Cacilhas), mas o bichinho da rádio manteve-se. Gravava (na Voz de Lisboa) um programa semanal para a rádio de Carmona, em 1965 convidaram-me para dirigir a programação e regressei a Angola acreditando que não era preciso ser negro para viver em África. Mas já mais esclarecido e o que vos posso dizer é que se fosse angolano também teria sido turra. 
A vida dá muita volta e acabei por deixar Angola, radicar-me nos EUA e organizar a vida por cá, onde não é fácil ser preto, tal como não é fácil ser branco em África.
Continuo saudoso de Carmona, do Quitexe (e do bar do Morais onde se comiam caranguejos de Moçamedes). Ia com frequência ao Quitexe, onde tinha amigos. Mas num dia do ano era infalível: o 15 de Março. Era quando o governador geral vinha de Luanda para uma cerimónia no cemitério local e na igrejinha em memória das vítimas do terrorismo. Fiz essa reportagem vários anos. Habituei-me a ver crescer o número de campas no cemitério, que foi inaugurado com as primeiras vítimas do terrorismo e a ver as paredes da igreja transformaram-se num memorial com placas alusivas a todos os brancos que foram perdendo a vida na área do posto administrativo do Quitexe.
Por isso estranhei que, em 1975, pouco antes da independência, o último governador português de Angola, general Silva Cardoso, tivesse assinado o decreto que converteu o 15 de Março, o dia da matança dos colonos, em feriado nacional. A história tem destas ironias. Se tivesse ganho, apesar de ser um criminoso, Hitler é que seria hoje herói da II Guerra Mundial e não Eisenhower e Churchill.