Sobre A Obsessão da Portugalidade de Onésimo T. Almeida

 

 

• Victor Rui Dores

 

Acabo de ler A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, 2017), de Onésimo Teotónio Almeida, que reúne um conjunto de ensaios que este autor escreveu para comunicar formas de reflexão filosófica, de debate cultural e de indagação literária que ele tem vindo a espalhar em conferências, colóquios e congressos. Agora reunidos, esses textos formam um todo, dão-nos uma continuidade temática (em sucessivos volumes, Onésimo tem vindo a dar à estampa os seus ensaios filosóficos), apresentando uma consistência e uma outra res­piração.

Com mais de quatro dezenas de anos de vida nos Estados Unidos da América, mas sem se sentir estrangeirado, Onésimo, açoriano e açorianista, está atento aos destinos da cultura portuguesa e à “ques­tão da identidade nacional”, ele que tantas vezes tem de explicar Portugal a estrangeiros.

Homem de pensamento, infatigável viajante (“glo­bal traveller”), homo viator, frasista e ironista, este autor micaelense é o fascínio de uma inteligência feroz­mente analítica, de uma sabedoria bem-humo­rada e de uma sensibilidade que age e reage. O trato íntimo com a tradição cultural do Ocidente e a sua ligação à cultura anglo-americana marcam uma diferença no universo dos pensadores portugueses. Há, em Onésimo, uma capacidade de trabalho, de persistência, de labor analítico e criativo que o leva a ir fundo nas questões abordadas.

Lendo a obra em apreço, fico com a certeza da profunda curiosidade que habita Onésimo – a mesma curiosidade (queirosiana) que tanto leva o português a espreitar pelo buraco da fechadura, como a descobrir o caminho marítimo para a Índia.

Portugal sofre de excessiva identidade? Quem somos e como somos? E porque somos o que somos? Como viver o presente e “encarar o futuro com tanto passado atrás de nós por resolver”? Quais os nossos medos e mitos fundadores? E de que falamos quando falamos de saudade, língua e lusofonia?

Com destemida lucidez, doseando erudição com humor, Onésimo produz reflexão teórica sobre estas e outras matérias, suscitando o debate de ideias relativamente à nossa identidade cultural, não se acomodando a cânones de ordem filosófica ou lite­rária, antes procurando a inquietação de uma sensi­bilidade interrogativa. Ei-lo, neste livro, a aprofun­dar questões ligadas a valores, mitos, utopias, ideo­logias, mundividências; a lançar olhares sobre equívocos da Filosofia Portuguesa; a navegar pela his­tó­ria da Cultura Portuguesa, explicando, compa­rando e citando pensadores e escritores. Admiráveis os textos sobre a questão da saudade (com destaque para a polémica entre António Sérgio e Teixeira de Pascoaes, aqui analisadas de forma notável).

De resto é (re)conhecida a capacidade e a compe­tência de Onésimo para desmistificar situações. Por exemplo: sobre a alegada intraduzibilidade da palavra saudade, afirma ele que a experiência desse sentimento não é única e exclusivamente portu­guesa. O sentido das palavras é o uso que dela faze­mos (Wittgenstein). E que belíssimo texto aquele em que o nosso autor explica a ideologia doutrinária do Estado Novo através do antigo livro da 3ª classe.

Onésimo vai continuar a publicar os seus ensaios, para proveito de todos nós e conhecido que é o seu apego à vida e o seu modo convivial de apreciar pessoas, coisas e circunstâncias.