Não posso ir para a rua, que estive a tomar banho geral

 

 

Terra Chã, 4 de Maio

Todos os dias, quando sou eu a passear a Jasmim, o vejo. É preto, perfeitamente preto, e pelas minhas contas não deve ter mais de sete ou oito meses. Posta-se sempre tão quieto, ali por detrás daquele portão de ferro, que não consigo sequer determinar se sofre de displasia, típica nos labradores nascidos ao deus-dará. Percebo apenas que está triste, infinitamente triste, e há momentos em que chega a doer-me perceber o quão triste está.

Aproximo-lhe a Jasmim, através das barras do portão, e esta enche-o de mimos, como se deve fazer aos que estão tristes. Tenho-o hoje muito claro: o Melville é o meu cão, passional e protector, a personagem cómica e colérica e arrebatadora; mas, se um dia escrevesse um livro sobre animais, a minha heroína seria ela. Chega-se ao jovem labrador, dir-se-ia que consciente de que ele não conheceu a felicidade, e lambe-o demoradamente.

“Não desistas, que um dia chega a tua vez”, imagino-a a segredar. “Eu não desisti.”

Deixo-os conversarem até o labrador começar a fazer oscilar a cauda, timidamente ainda. Há uma quase crueldade nisto, porque sei que o dever me chama e não poderei ficar muito mais tempo – nem sequer o sufi­ciente para que ele chegue a perceber que aquilo que o faz abanar a cauda é de facto aquilo por que devemos celebrar a vida, os animais como os homens: a presença do outro, um pouco de ternura, às vezes alegria, uma certa comunhão nesta inexorabilidade do ir vivendo com a certeza de que tudo vai acabar.

Pergunto-me como se chamará. Pergunto-me se devia tirá-lo dali e instalá-lo aqui em casa também, não obstan­te todos os problemas logísticos, hierárquicos e de paz de espírito com que teríamos de lidar. Pergunto-me se será feriado de novo, ou se os pedreiros que o deixam dia e noite a guardar aquela obra, tão ao arrepio dos padrões de comportamento e da própria genética de um labrador, virão trabalhar – ao menos uma parte do dia, umas horas, que há prisões tão inapeláveis que até os passos do carcereiro, ao fundo, chegam a ser reconfortantes.

Ocorre-me aquele poema do Emanuel sobre a mulher que tinha os dedos pousados no deserto dos joelhos:

E que triste e que triste a cadeira amarela

de onde se ergue um sossego um sossego infinito

que é apenas de vê-la

e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos

seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado

o álbum a mesinha as manchas dos retratos

Olho o bicho uma última vez, os músculos do seu semblante esmorecidos ainda, os olhos perdendo de novo a chama que por um momento parecia terem ganho. Já percebeu que vamos embora. Pergunto-me o que contará, na extensão do cosmos, a dor de um cão que está triste – o que significará, quem se lembrará dela, quem atestará da sua existência, ao menos um dia, naquele local, naquele instante.

Digo:

– Vamos, Jasmim.

E prometo-me que voltarei a passar ali amanhã, para que ela torne a beijá-lo como sabe.

 

Terra Chã, 5 de Maio

Primeiro tomaram-nos a estupefacção e a contrariedade. Depois andámos dias a tentar persuadir a um volte-face. Agora começa a abater-se sobre nós um conformismo.

O Américo fechou a venda, o misto de mercearia e líquidos que devolvera a este pequeno lugar uma animação que ele talvez nunca houvesse tido. Fê-lo por diferentes razões, nenhuma trágica, e enviou um e-mail aos clientes.

Releio-o e já não é como quando o li pela primeira vez, na sexta-feira passada, ainda tinha então esperança. Mas não deixo de voltar a percorrer aquilo que, durante um ano e meio, vivemos uns ao lado dos outros: os jogos da selecção e aquele instante poético em que Bryan Ruiz atirou por cima; a inauguração da esplanada e o dia em que o Fernando começou a fazer tostas mistas; a chegada de novos vizinhos, várias mortes, uma série de aniversários; demonstrações de maquilhagem e sessões de autógrafos, bebedeiras q.b. e até um infame almoço à porta fechada, em que o Carlinhos deu os galos, o Paulinho fez a alcatra e o Américo salvou o dia com um cabrito assado.

Tornámo-nos amigos, neste ano e meio. Agora, que voltou cada um ao seu poiso, encontramo-nos e não precisamos de falar do tempo: temos o que perguntar. O Sr. Dimas, o Sr. Rogério, o ti Henrique Cabaça. O Luís, que eu conhecia tão mal. A Joana, o Zé e a Maria. O Diogo, que se foi fazendo um homem, e o Rodrigo. O José Francisco e a família, o sr. Jorge e até o Chico Mecânico – passámos a ter algo em comum, e essa coisa continuará a existir depois de os livros de contas serem selados e a mercearia oficialmente extinta pelas Finanças.

Somos a geração da narrativa. Mostra-o o e-mail do Américo: a venda fecha, mas não sem que o seu proprietário deixe registado um epitáfio. No fim, assalta-me sobretudo isto: quantas memórias do nosso passado remoto, que gostamos de guardar como marcos incon­tornáveis da juventude – e que às vezes até julgámos que estiveram sempre lá –, dizem respeito a coisas que existiram um ano e meio apenas? Quantos vizinhos de toda a infância o foram, afinal, só alguns meses? Quantas namoradas inesquecíveis tivemos uns dias? Quantas peladinhas épicas com a malta aconteceram apenas uma vez?

Muitas e muitos delas e deles. E, no entanto, recorda­mo-los pela intimidade e pelo conforto que nos trouxe­ram – pelo desejo de que não acabassem, pela narrativa com que nos empenharíamos em garantir que perma­neceriam.

A venda do Américo será um desses casos abençoados. Enquanto contarmos a sua história, não terá morrido.

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* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”

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