A primeira leva de ilhéus: 21 de outubro de 1747

 

A gente vê e ouve e sente e cheira e come a

nossa ilha com o sentido da alma, com o que

  dela nos foi sempre mais íntimo e familiar.

Somos parte da condição insular.

 

João de Melo, O Segredo das Ilhas, 2016:42

 

 

 

Visualizo a cena outonal nas ilhas de bruma, no distante século XVIII. Homens, mulheres e crianças carregando suas alfaias são embarcados nas galeras “Jesus, Maria, José” e “Sant’Ana e Senhor do Bonfim”. Integram o primeiro contingente de casais açorianos que serão transportados dos Açores à Ilha de Santa Catarina. Olhares ansiosos. Sorrisos de esperanças. Lágrimas de saudade lavam a face dos que partem e dos que ficam acenando seus lenços à beira do cais. Outros, cheios de curiosidade, assistem a movimentação daquele ir e vir sem conta, cientes da corajosa aventura que os pobres ilhéus vão empreender rumo a um destino desconhecido no Brasil.

Aos poucos, todo burburinho cessa. Do porto de Angra, na Ilha Terceira de Jesus, é chegada a hora de partir. O Capitão ou Mestre responsável pelo transporte lê em voz alta no navio, no dia anterior a partida e no primeiro dia da viagem, após a celebração da Missa, as dezesseis cláusulas do Regimento que deve nortear o assento do transporte dos “cazaes” das Ilhas para o Brasil. Desde as condições de embarque até particularismos como a separação de homens e mulheres, divisão de tarefas, controle e feitura de alimentos, normas disciplinares de como todos devem se portar durante a longa viagem.

Levantam-se as amarras e a âncora. Começa a travessia pelos caminhos do mar. Para trás, o passado. Na outra margem do imenso Atlântico, o futuro. Uma nova história será escrita. 

Até que este dia acontecesse, incontáveis articulações políticas e estratégicas para essa ocupação de açorianos no Brasil Meridional foram construídas, culminando com a assinatura do tratado de Madrid em 1750, delimitando o território brasileiro, cujas fronteiras apresentam quase a mesma cartografia de Brasil de hoje.

Além dos interesses políticos havia o desejo manifesto dos insulares de emigrar. Documentos das Câmaras das Ilhas do Pico e São Jorge, datados de 1722, atestam que foram efetuados alistamentos e tratados os transportes de populações de São Roque do Pico, Vila da Lajes do Pico e Vila Nova do Topo, de São Jorge.

Passaram-se vinte anos. Em 1742, o Brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Capitania da Ilha de Santa Catarina, faz veemente apelo ao Conselho Ultramarino pedindo que enviasse alguns “cazaes”, pois “sem gente que as guarnessa, são corpos sem alma”. Quatro anos depois, tramita na corte de Lisboa um documento que relata a triste situação de precariedade dos ilhéus dos Açores - “[...] que V.Magestade se dignasse de mandar tirar das Ilhas o número de cazais que lhe parecesse e transportalos á América, donde rezultaria ás Ilhas grande alívio em não ver padecer os seus moradores reduzidos aos males que traz consigo hua extrema indigencia[...] ( Piazza,1992:64). O historiador catarinense, Osvaldo Rodrigues Cabra, em Os Açorianos, refere-se a este apelo como a única solução para amenizar o quadro de miserabilidade islenha e prover o Brasil.

Finalmente, o Rei D.João V, via Conselho Ultramarino, normatiza as ações da coroa portuguesa assinando, a 31 de agosto de 1746, a Provisão Régia, que abre o alistamento e oferece benefícios aos ilhéus açorianos e madeirenses que desejassem migrar para a Ilha de Santa Catarina e terras continentais fronteiriças. Seguida do Alvará de 5 de setembro que define as condições dos transportes. Mais de quatrocentas cópias do edital régio foram espalhadas por todas as povoações e, a partir de então, começou o alistamento nas nove ilhas do arquipélago açoriano. Cada candidato ao se alistar era anotado além dos dados de identificação, a profissão, a residência, a idade, a estatura, cor dos olhos, do cabelo e da pele, formato do rosto, da boca, do nariz e da barba, o estado civil e se casado ajuntava os dados completos da mulher e filhos. Ao final, foram alistados cerca de 7.817, sendo que as Ilhas de São Jorge, Graciosa e Pico contribuíram com 24%, 11,5% e 9,0% do seu efetivo populacional. Enquanto a Terceira, Faial e São Miguel com 4,51%, 2,75% e 0,73% respectivamente. Embora, não apareça a proporção dos alistados nas ilhas de Santa Maria, Flores e Corvo no assentamento em terras catarinenses aparecem “cazaes” dessas ilhas.

O contrato de assentamento dos transportes foi assinado a 7 de agosto de 1747 pelos ministros do Conselho Ultramarino e por Feliciano Velho Oldenberg, o contratador “assentista”. O primeiro embarque ocorreu no dia 6 de outubro de 1747, sendo completada a carga humana no dia seguinte. Foram embarcadas 236 pessoas, 43 casais, na galera “Jesus, Maria, José”, capitaneada por Luís Lopes Godelho. A outra galera, “Sant’Ana e Senhor do Bonfim”, capitaneada por Pedro Lopes Arraya, realizou o embarque de 237 pessoas, sendo 42 casais. Ao todo, 473 açorianos partiram do porto de Angra, Ilha Terceira, no dia 21 de outubro de 1747, com a promessa de receberem um quarto de légua em quadro e a distribuição de dois alqueires de sementes por casal, armas, ferramentas e algumas vacas, éguas, cavalos e touros. Levaram a âncora da esperança. Pilotos de sonhos buscaram um futuro venturoso nas terras do sul do Brasil.

Daniel de Sá, certa vez escreveu-me sobre a partida da primeira leva de ilhéus: “esses que atravessaram o Atlântico em viagens de medo e morte, fugindo à pobreza que nestas ilhas reinava mais que El-Rei D.João V, foram aí para fazer tudo desde o princípio”. E fizeram... Seu espírito ilhéu, indomável, nunca arrefeceu e nem desapareceu por trás das brumas ou de um tempo passado. 

 

Hoje, 21 de outubro de 2017, 270 anos depois da histórica travessia, marco inicial da epopeia açoriana, sinto um orgulho imenso dos nossos, meus e vossos, antepassados aventureiros que partiram mar adentro, carregando as ilhas dentro de si, na redescoberta do Novo Mundo.