A Interação da Comunidade Atlântica Um olhar para o futuro

 

 

A nossa lavoura futura será

no mar.

Daniel de Sá

 

Não duvidem. O futuro já chegou e veio a galope pelo caminho equóreo das espumas, este mar sanhudo que tanto inspirou o poeta Cruz e Sousa. Este foi o sentimento que perpassou enquanto eu assistia as sucessivas falas durante a 2ª reunião Ministerial e Diálogo de Alto Nível Indústria-Ciência-Governo sobre Interações Atlânticas, tendo como propósito discutir as estratégias para a implementação do Atlantic International Research Center, o AIR Center que terá sede na Ilha Terceira (Açores, Portugal) e contará com a parceria de institutos de pesquisa, organizações governamentais e privadas, universidades dos quatro continentes. Trabalhar em comunidade, numa interação científica e humanitária profícua, em busca da solução dos problemas do Oceano Atlântico. Promover o conhecimento, de modo a identificar as nossas potencialidades numa efetiva cooperação científica e tecnológica. O Air Center objetiva compreender os ecossistemas marinhos e as inter-relações entre oceanos, mudanças climáticas, produção de alimentos e sistemas de energia, assim como entender a dinâmica e os sistemas de circulação do oceano Atlântico interconectados desde a Antártida até ao Ártico.

Vale reiterar que o Air Center é uma organização científica internacional criada e liderada por Portugal, que pretende formar uma rede de instituições de ciência, tecnologia e inovação visando à promoção de uma abordagem integradora do conhecimento sobre observação da Terra, mudanças climáticas, mar profundo e análise e cruzamento de mega dados (big data).

Esta 2ª reunião, ocorrida nos dias 20 e 21 de novembro passado, teve por palco a cidade de Florianópolis e por cenário a beleza exuberante da Ilha de Santa Catarina enlaçada pelo azul intenso do mar. Tudo conspirou para o clima de integração dos participantes, inclusive a escolha do local do encontro – Centro de Eventos Arquipélago dos Açores, sala Ilha Terceira, no Costão do Santinho. Vozes de Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Colômbia, Estados Unidos, Índia, Nigéria, Portugal, Espanha, Uruguai e  da Comunidade Europeia  ecoaram uníssonas em seu apoio ao Air Center que avançará no estabelecimento de parcerias em projetos colaborativos, de acordo com as prioridades dos países alinhados.

Na sessão de abertura, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Brasil, Gilberto Kassab, disse que a efetiva cooperação internacional e a articulação de forças entre os países, a circulação de experiências e do conhecimento científico contribuem para o desenvolvimento sustentável. É sem dúvida, um exercício de cooperação.  É preciso que se faça ciência para beneficiar a sociedade e o próprio oceano, preservando e protegendo o nosso tesouro azul.

O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, como anfitrião do evento, destacou a importância de sediar este encontro que potencializa, integra e fortalece nosso estado como referência, estabelecendo laços de interação com outros países. Pois, Santa Catarina é um polo reconhecido por sua relevância na área de tecnologia e pesquisa oceânica. Diante deste contexto, não posso deixar de citar o excelente desempenho da Universidade Federal e Santa Catarina – UFSC e da Fundação de Amparo a Pesquisa de Santa Catarina – FAPESC como agentes valorosos no sistema nacional de tecnologia e  inovação para os oceanos. É visível o interesse e o comprometimento de Santa Catarina com o projeto inovador do AIR. O presidente da FAPESC, Sergio Luiz Gargioni, durante esta 2ª reunião, firmou com a Fundação para Ciência e Tecnologia – FCT, no ato representada por Paulo Ferrão, o “Memorando de Entendimentos” para promover o intercâmbio de cooperação científica e tecnológica e potencializar o processo de pesquisa em áreas de interesse de Brasil e Portugal, visando a implantação e a consolidação de ações do Air Center.

Para a ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação de Angola, Maria do Rosário Bragança Sambo, o AIR Center, além de pôr em rede vários países, várias instituições, oportunizando a interação  de conhecimentos e experiências, vai promover mais desenvolvimento econômico e gerar mais emprego para os países envolvidos. “O grande benefício é conhecer melhor todas essas potencialidades  e utilizar esse conhecimento para a criação da inovação e desta forma então beneficiar as populações no geral”, destacou Maria do Rosário em sintonia com a realidade social de muitos países cuja população é significativamente jovem e apresenta uma alta taxa de desemprego.

A proposta para a construção do Air Center partiu do governo de Portugal, sendo liderada por Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Educação Superior. O ministro Manuel Heitor em todas as suas intervenções deixou muito claro que se a liderança na criação do AIR Center foi de Portugal, a manutenção desse grupo, o avanço e consolidação desse projeto dependem, fundamentalmente, de uma abordagem integradora e do esforço coletivo.  Na conversa polida e amável percebia-se o articulador nato na condução da cimeira.  Seu falar confiante e transparente uniu autoridades governamentais e privadas, cientistas e fundações de pesquisas em torno do estabelecimento de uma agenda de integração do AIR Center. Disse o ministro Heitor Manuel: “Nós temos um grande percurso a nossa frente porque o conhecimento ainda é muito dividido e por isso o AIR Center tem a missão de integrar diferentes tecnologias, com diferentes fontes de conhecimento em diferentes partes do Atlântico, do Sul com o norte, do Norte com o Norte e o Sul com o Sul.” Dito assim podemos entender que é “um oceano só” e que, para o bem da humanidade, fazer pesquisas oceânicas com cooperação internacional é a solução para assegurar a nossa lavoura do futuro – o mar.

Com referência a localização do Air Center nos Açores, a comunidade científica internacional considera como um local de excelência, acima de tudo, por causa da posição geográfica privilegiada no Atlântico Norte e as condições logísticas já existentes. Com a futura desocupação de parte da Base das Lajes, na Praia Vitória, pelos Estados Unidos, a área privilegiada é o local ideal para o estabelecimento físico do AIR Center.

O açoriano da Ilha do Faial, Gui Menezes, secretário regional do Mar, Ciência e Tecnologia que tem a responsabilidade de gerir – o Mar desse mundo de Ilhas – um dos principais vetores de desenvolvimento dos Açores reconhece a importância e a grandiosidade do projeto AIR e está ciente que sua concretização dependerá da vontade política e econômica de vários países. Na sua breve estadia em Florianópolis não se surpreendeu ao encontrar tantos sinais históricos e culturais da presença açoriana, desde o patrimônio edificado até o jeito de falar, de ser e estar do nosso ilhéu de Santa Catarina. Aliás, este foi um dos fatores elencados que definiu a vinda desta reunião de alto nível  para Florianópolis – “havia um link muito claro do estado de Santa Catarina com o Açores, pela tradição histórica e cultural açoriana aqui presente e muito viva”, enfatizou Andrei Polejack , Coordenador-Geral de Oceanos, Antártica e Geociências  do MCTCI do Brasil em entrevista á imprensa local.

A formalização da criação do Air Center e da comissão responsável pela implementação desta plataforma internacional e intergovernamental ocorreu com a assinatura da “Declaração de Florianópolis” por Portugal e Brasil, Espanha, Angola, Cabo Verde, Nigéria, Uruguai, juntamente com o Governo Regional dos Açores. Subscreveram o documento os representantes de instituições, fundações, organizações governamentais e privadas, bem como empresários do setor, parceiros do AIR. Um projeto aberto a novas adesões, enfatiza Manuel Heitor. A próxima reunião ocorrerá em maio de 2018, na cidade de Mindelo, Cabo Verde.

Finalizo com um componente mítico e cultural desta Ilha dos casos e ocasos raros. Falo da antológica apresentação do espetáculo “1717” pela Dois Pontos Cia de Dança Teatro. A obra tem como tema a história de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem foi encontrada em outubro de 1717 no rio Paraíba do Sul, (SP), e que se tornou o ícone religioso nacional. Numa mescla de arte, religiosidade e imaginário popular a coreografia costura vários estilos samba, forró, aché, danças urbanas e clássica por trilhas sonoras de Chico Buarque, Maria Betânia, Alceu Valença até Vivaldi, refletindo a grande diversidade cultural deste imenso arquipélago chamado Brasil.

A interação da alma atlântica estava ali unida num sentir maior de paz e de irmandade, onde não faltou a benção da Nossa Senhora da Conceição Aparecida nem a magia de Iemanjá, a rainha do mar.