Santa Catarina e Açores em sintonia com o futuro

 

O acordo de cooperação em investigação científica e inovação no Atlântico Sul – Declaração de Belém – que permitirá avanço importante na consolidação do AIR Center, o Centro Internacional de Investigação do Atlântico a ser implantado na Ilha Terceira, Açores, foi assinado no dia 13 de julho na Torre de Belém, em Lisboa, pelo Comissário europeu para pesquisa, ciência e inovação Carlos Moedas e pelos ministros da Ciência e Tecnologia do Brasil, Gilberto Kassab, e da África do Sul, Naledi Pandor, na presença do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Se o local da assinatura, a Torre de Belém, constitui um marco simbólico de abertura da Europa ao mundo, a assinatura desse acordo constituiu um marco histórico por unir a União Europeia, o Brasil e a África do Sul por vias do conhecimento científico e da inovação. Uma nova abertura se impõe ao mundo. O Termo de Cooperação define as portas de acesso, os caminhos pelos quais os países da União Europeia e do Atlântico Sul vão, em parceria, enfrentar os desafios científicos, ambientais e sociais do Atlântico. O que faz lembrar as proféticas palavras do saudoso escritor açoriano Daniel de Sá – “a nossa lavoura futura será no mar”.  Um futuro que já se faz presente.

Pois, como destacou Carlos Moedas a “Declaração de Belém é um passo essencial para desenvolver uma economia azul, plena de oportunidades econômicas sustentáveis, ao serviço das populações”. Centrada nos oceanos tem como objetivo compreender os ecossis­temas marinhos e as inter-relações entre oceanos, mudanças climáticas, produção de alimentos e sistemas de energia, assim como entender a dinâmica e os sis­temas de circulação do oceano Atlântico interco­nectados desde a Antártida até ao Ártico.

No dia seguinte, em Lisboa, teve lugar a um novo encontro entre os representantes de diversos países quando foi apresentado o Termo de Referência, docu­mento resultante das conclusões aprovadas na cimeira internacional “Atlantic Interactions” (Interações para o Atlântico) realizada na Ilha Terceira, Açores. O encontro reuniu cerca de 300 participantes, represen­tantes de governos, empresas e instituições científicas e acadêmicas de 29 países e delegações da comissão e do parlamento europeus, das Nações Unidas e da Agência Espacial Europeia.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior português, Manuel Heitor, também presente na ceri­mônia de assinatura da Declaração de Belém para Pesquisas no Oceano Atlântico e Cooperação em Ino­vação esclareceu que a finalidade do AIR Center é integrar as áreas do espaço, clima, energia e ciência de dados entre os países banhados pelo Oceano Atlântico. Não se poupará esforços em busca do conhecimento, de modo a identificar as nossas potencialidades, pro­mo­vendo uma agenda comum que facilite o alinha­mento de uma efetiva cooperação em ciências e novas tecnologias. O que será possível com o estabelecimento de uma política pública eficiente de mecanismos de financiamento e fomento de investimentos à pesquisa e à inovação. Vivemos numa sociedade conectada em redes como uma grande teia de aranha, por latitudes e longitudes, unindo hemisférios e tecendo os caminhos do mar. Hoje, de acordo com as Nações Unidas “mais de três bilhões de pessoas dependem dos recursos ma­rinhos e costeiros para o seu sustento”. É preciso ter acesso e fazer bom uso das novas tecnologias espaciais e oceânicas que beneficiem as duas margens do Atlân­tico e o próprio oceano.

As palavras do Ministro Gilberto Kassab ditas na solenidade de Belém atestam a firme disposição do Brasil de trabalhar numa ampla cooperação científica, econômica e governamental: “A ciência é transversal e tem papel fundamental para sustentar nosso progresso. Vamos trabalhar juntos, somar nossos potenciais e empreender esforços em busca do conhecimento e do desenvolvimento científico”.

Nesta cartografia que assim se desenha é inegável a relevância do encontro a ser realizado em 21 e 22 de novembro deste ano na Ilha de Santa Catarina sob a coordenação do secretário de Assuntos Internacionais, Carlos Adauto Virmond Vieira, secundado pelo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), Sergio Gargioni, quando será firmado o “memorando de entendimento” que assinalará a fundação do AIR Center –  Portugal, Espanha, Estados Unidos, África do Sul, Nigéria e o Brasil que com a Índia formarão o núcleo forte do Centro Internacional de Investigação do Atlântico. Outros países também estão representados, como a Argentina, Uruguai, Grã-Bretanha e China.

No dia 31 de julho passado, esteve em Florianópolis o ministro de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Heitor, veio acompanhado do presidente do CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, José Rui Felizardo; do diretor de Sustentabilidade do CEiiA, Gualter Crisóstomo e da secretária adjunta do ministério,Teresa Tavares. Durante a breve visita, o ministro Manuel Heitor e comitiva conheceram o Sapiens Parque e as instalações do Centro de Pesquisa e Capacitação em Energia Solar Fotovoltaica da UFSC, ocasião em que José Rui Felizardo, presidente do CEiiA e Alacoque Lorenzini Erdmann, Vice-Reitora da UFSC, firmaram um acordo de colaboração nas áreas de mobilidade elétrica e geração solar fotovoltaica. O professor Orestes Alarcon apresentou o “veleiro ECO UFSC”, em alumínio, desenvolvido com tecnologia local e apoio da Fapesc, com capacidade para navegar em mar aberto, regiões polares e em expedições científicas e que será lançado ao mar em outubro próximo.

O fato de Santa Catarina ser reconhecida, no cenário nacional e internacional, por sua relevância na pesquisa oceânica, sobretudo em Florianópolis e Itajaí, contribuiu para a escolha de Santa Catarina para sediar o evento da AIR. No entanto, há um outro fator que pesou bastante na escolha de Florianópolis, segundo o secretário Carlos Adauto Vieira – “a proximidade cultural entre Santa Catarina e Açores”. Aliás, a comitiva portuguesa não teve qualquer dúvida quanto a identidade cultural da nossa gente e pode comprovar na reunião realizada com as autoridades municipais e estaduais no Costão do Santinho, local decorado com painéis do arquipélago e salas nominadas com as nove ilhas açorianas, bem como na passagem pela freguesia de Santo António de Lisboa, via Caminho dos Açores, onde os traços da presença açoriana estão fortemente conservados por toda comunidade.

Nada é por acaso! A sede do Centro Internacional de Investigação do Atlântico fica nos Açores, Portugal. As entidades e núcleos de pesquisa de Santa Catarina se integrarão do AIR Center juntamente com os estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, dentre outras.

Mais uma vez Santa Catarina e Açores se aproximam, fortalecendo laços fraternos assentados numa história comum que nos devolve ao passado de 1748, quando da chegada dos primeiros açorianos ao porto de Desterro. Há 270 anos a nossa gente açoriana, desbravadora, defendeu e alargou as fronteiras meridionais até o Uruguai, varrendo a borda leste do Atlântico. Agora estamos, no presente, a falar de mundividências, a partilhar vivências, trocar experiências, potencializar sinergias em futuros projetos de interesse comum num contexto transnacional, gerando conhecimentos e colocando em marcha programas de desenvolvimento pleno na sua arquitetura de sonhos realizáveis no amanhã.

Hoje, Santa Catarina e Açores estão em sintonia, com olhos fitos no futuro das gerações do nosso mundo Ilhas e do Atlântico que nos abraça.