A revisitação de Gabriel García Márquez ao outro lado da Cortina de Ferro

 

 

É indefinível a sensação que causa fazer uma piada sobre Marilyn Monroe e vê-la perder-se por completo. Não encontrei um soviético que soubesse quem é Marilyn Monroe.

Gabriel García Márquez, Em Viagem pela Europa de Leste

 

Seria este talvez o último livro que eu esperaria ler neste princípio de ano, quando as livrarias estão cheias de novidades literárias de grande qualidade, na nossa língua ou em tradução. Por outro lado, nunca tinha lido nada do “jornalismo” do grande autor de Cem Anos de Solidão e de O Amor Em Tempos de Cólera, só para mencionar dois títulos maiores do século passado. Vivemos tempos simultaneamente anunciadores de um futuro bem mais incerto e em tudo aberto, fazendo do passado um mistério político e ideológico que por certo devem conter alguma explicação, mesmo que muito parcial, do que nos  haveria de acontecer numa actuali­dade que tanto nos parece orwelliana como de pro­gressos em todos os campos de actividade, desde o prolongamento das nossas vidas e saúde à indignidade de campos de refugiados, ainda há poucas décadas conhecidos como campos de concentração, agora bem mais amenos mas ainda fechados por muros ou arame farpado. A capa desta inusitada Em Viagem pela Europa de Leste, aparentemente publicado em fascículos em vários periódicos há tempos bem mais remotos, sim­boliza um pouco do que estou a tentar transmitir aqui: a busca do conhecimento e da liberdade por entre soldados armados e com o poder de deixar passar ou não homens e mulheres de uma fronteira para outra, dois mundos de língua, linguagens e culturas divididas por ideologia, pela história, pela raiva político-militar.

A então dita Cortina de Ferro, mais do que uma prisão rodeada de suposta liberdade por todos os lados sobressai aqui como a barreira entre irmãos e vizinhos em disputa pelo controle do seu quintal ou jardim a ser plantado. O mundo estava pronto  a auto-aniquilar-se numa briga que acabou com a simples queda de um muro numa cidade do centro da Europa, que poucos anos antes ten­ta­ria subjugar toda a humanidade num violento Reich de Mil Anos. Primeira observação desta magnífica prosa-outra de Gabriel García Márquez: a sua linguagem nada tem a ver com o que se convencionou chamar a escrita do “realismo-mágico”. Pelo contrário, agora: é a reali­dade que ele vai encontrando no bloco comunista euro­peu que muito tem de magia, na mais negra semântica da palavra, e um “realismo” mais fantasiado do que veri­ficável. Ler esta série de reportagens, que juntas em sequência constituem uma narrativa unificada por um ponto de vista que se vai reajustando a cada quilómetro dos territórios que o autor visita, observa e de certo mo­do tenta perceber, é ler e  sobretudo sermos obrigados a reflectir o quanto nos ignorávamos mutuamente, é dar-nos conta das fantasias e mentiras que circulavam de um lado para o outro, em nome de interesses que mais têm a ver com sistemas económicos do que com filosofias de vida ou noções da dignidade humana. Mais do que levar a História a sério, esta prosa faz-me lembrar a comédia do filme alemão “Adeus Lenine”. Temos todos saudades, sem sabermos bem de quê, ou talvez nos sintamos algo nostálgicos provocados por um pre­sente que nos confronta com opções existenciais igualmente indesejadas para uns, ou nefastas para outros. Big Brother está, como sempre, a vigiar-nos.

Em Viagem pela Europa de Leste tem o seu início em Paris quando um amigo jornalista italiano, aqui simples­mente de nome Franco, compra um caro mas não sabe muito bem o que fazer com ele, e García Márquez e uma outra amiga francesa, Jacqueline, propõem uma viagem “à outra Europa”, começando naturalmente por Berlim Ocidental e terminando na Hungria a fins de 1956, logo depois da brutal  supressão com tanques soviéticos da tentativa de abertura do regime, um prenúncio do que viria a acontecer em 1968 na antiga Checoslováquia. Esque­çamos o que seria, ou era, a ideologia do autor naquela altura e naquelas caminhadas indiscretas numa época em que a Guerra Fria aquecia perigosamente. Para além da beleza da sua prosa, ora nua e crua, ora adjectivada com humor e ironia, sobressaem dois temas que poderão ou não surpreender cada leitor – a ignorância mútua do dia a dia nos dois blocos ideológicos, a falta quase total de qualquer conhecimento a leste do que acontecia no nosso lado, ou então a propaganda clássica, a que combina um pouco de verdade com a fantasia de quem só quer ver o que pensa que vê, ou deseja. O que hoje se denomina, sem vergonha nem sentido do ridículo, de “pós-verdade”. Os únicos momentos verdadeiramente kafkianos neste livro serão as peripécias de atravessar de uma Berlim para a outra, mesma ainda sem muro nem preocupação de­masiada com espionagem ou traficância de moedas, que eram a mesma nos dois lados da Alemanha, mas com valores um pouco diferentes, a burocracia mais seria um acto de teatro ou fingimento do que ameaça. Claro que García Márquez aponta desde logo as toneladas de dólares que a América despejava no seu lado de Berlim para cons­truir uma espécie de gigantesco e colorido centro comer­cial, e que do outro lado despertasse inveja, desejo e revol­ta. O que vemos, ironicamente, é uma serenidade, o fatalismo existencial, por assim dizer, que nunca nos faz prever a fúria de 1989, quando o muro vem finalmente a baixo e os cidadãos saltam de um lado para o outro, em abraços, lágrimas, e na vontade   que vista ao longe pareceu ainda mais avassaladora – a de comprar calças de ganga e sapatilhas de marca. Não se ouve queixas, ouve-se algumas críticas ao regime totalitário, e um gigantesco edifício erguido em homenagem a Estaline é o ponto de chacota e uma nódoa na paisagem de uma cidade ainda furada por balas de outrora, ou as marcas de pedras atiradas contra tudo e todos na hora da fuga definitiva. O mesmo viria e ouviria o autor no meio de Varsóvia. A partir desse momento, seguimos a viagem mais ou menos calma e agradável por países subjugados, como a já mencionada Checoslováquia, Polónia, e depois a Hungria. Não é o perigo nem a preocupação de aniquilamento nuclear o tema de conversa entre uns e outros, nem sequer a proi­bição aos visitantes de percorrer certos sítios ou ruas, nem mesmo a de falar com quem quisessem, e sobre o que quisessem. Para os que esperam a violência real e psico­lógica de um povo cercado pelas policias ou tropas soviéticas, desengane-se.

É o quotidiano de cada um que serve de conversa, e não sei se o que García Márquez e os seus dois colegas e amigos (que desaparecem de vista, em descobertas e vivências próprias durante longos períodos naqueles três meses da visita ao outro lado da fronteira) encontram mais tristeza ou preocupação do que encontrariam em Lisboa exactamente nos mesmos anos 50. Trata-se aqui de uma mera leitura minha, de comparações livrescas ou documentais, e não de experiência própria para além da minha adolescência e antes da emigração para os EUA devido à falta de perspectivas de futuro. Sem querer branquear aqui seja o que for, relembro, no entanto, que também nasci num país sem hospitais adequados, escolas, aposentações minimamente decentes, andando em caminhos de terra e lama, vivendo numa casa sem água canalizada e sem electricidade até aos anos 60, enquanto envergava uma farda da Mocidade Portuguesa e levantava o braço e a mão aberta ao outro totalitarismo. Meu pai falava-me numa polícia secreta pouco sim­pática, e era obrigatório uma licença para se ter um isqueiro com que a maioria dos fumadores acendiam os seus charutos de tabaco ou de folha de milho, tudo plan­tado por conta própria na terra ao lado, e necessitavam ainda, dizem-me os mais velhos, de uma espécie de “pas­sa­porte” para viajar de uma ilha açoriana para a outra, e melhor seria adquirir só clandestinamente certos livros, jornais ou revistas. Havia o Aljube, Caxias e o Tarrafal para os mais malditos. Nem falemos de outros no Oci­dente “livre”, inclusive no nosso país-irmão no outro lado de Elvas.

Como seria de esperar, mesma na prosa da sua ju­ventude, Gabriel García Márquez surpreende os seus leitores com as mais inesperadas observações e interpre­tações das várias realidades que nos descreve nestas páginas. Se na antiga Checoslováquia quase adivinhamos um sentido de “liberdade” e ligações de todo o género ao Ocidente, com as suas mulheres em busca da moda corrente em Paris e as suas fábricas a exportar todo o tipo de maquinaria para os países capitalistas, na Polónia faz-nos entender que um catolicismo dos mais conser­vadores alia-se de modos vários a uma certa ideia de comunismo, e a velha aristocracia continuava a vestir-se a rigor nos seus jantares e bailes de gala. Na União Soviética, o autor entre dezenas de milhares de delegados num gigantesco e propagandístico festival das artes e da multiculturalidade do império fala à vontade com todos, e se há vigilância especial quase não a notamos, não a vemos, mesmo que nem um naco de informação do exterior penetre por outros meios no outro lado da Cor­tina. Na Hungria, en­contra a raiva contida contra a tropa soviética que acabara de esmagar uma tentativa de libertação ou abertura máxima, liderada primeiro por estudantes e depois con­gregando boa parte da população mais corajosa. É neste país que de facto percebemos a força repressiva do regime, o fecho completo ao exterior tido como inimigo.

Em Viagem pela Europa de Leste não será só um livro de impressões, e muito menos de qualquer apologia da utopia imaginária dos velhos comunistas. É um retrato meio claro, meio manchado pelo tempo e pela realidade da nossa comum humanidade a saque.

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Gabriel García Márquez, Em Viagem pela Europa de Leste (tradução de J. Teixeira de Aguilar), Lisboa, D. Quixote, 2017.