Vida e morte numa sociedade à deriva

 

A sala enorme e confortável. Lá para dentro, o corredor às escuras, três quatro quartos sem ninguém lá dentro. Passa um camião do lixo… Ele coloca uma manta sobre a mulher. Beija-lhe a testa. Ela já nem reage. A sala enorme e confortável. Deve estar frio lá fora. Um silêncio. Tirando a televisão baixinho, a respiração do cão. Silêncio. A casa quieta.

Rodrigo Guedes de Carvalho, A Casa Quieta

 

Bem sei que a epígrafe acima é longa, mas a verdade é que poucos romances me tocaram de maneira tão pessoal como directa. Também tenho a perfeita consciência que uma peça literária (ou qualquer forma ou género de arte) deve ser lida e apreciada com o distanciamento de quem observa atentamente os infindáveis mundos e vidas aí retratadas. Quando escrevi aqui há tempos sobre o mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, abri de seguida este seu outro romance publicado em 1995, e que já ia na 11ª edição em 2005, tendo a levar-me a concluir que haveria uma continuidade temática e formal muito próxima da minha experiência de vida durante os últimos anos. Só o título A Casa Quieta tornou-se-me inquietante, e depois de o folhear tomei consciência que doença, solidão e perdição de vidas reinventadas nestas suas páginas eram os seus temas predominantes, e que seriam uma espécie de espelho pessoal, tão claro como naturalmente contorcido. As palavras que citei aqui pareciam uma descrição perfeita da minha própria casa, com os seus quartos vazios e o silêncio de uma mulher prostrada já sem consciência de si, de mim, e provavelmente de tudo que a rodeia. Harold Bloom escreveu no seu recente The Daemon Knows, e volto a reproduzir as suas palavras mais contundentes, agora neste outro contexto: “Toda a crítica é memória, e o único método crítico sou seu”. Esta é uma leitura muito pessoal da minha parte. Se um ensaísta da estatura de Bloom o diz em relação ao acto interpretativo, um romance como este não me é só memória. Mais do que isso, parece-me uma espécie de “autobiografia”, e o aconchego ao texto ficcional torna-se inevitavelmente um gesto tão intelectual como emotivo, mas não sentimentalista no pior significado da palavra. A Casa Quieta, nas suas múltiplas vozes na primeira pessoa concedidas pelo protagonista de nome Salvador (arquitecto de profissão, que nunca construiu uma casa própria) aos seus vários personagens, às mulheres e aos homens que lhe estão simultaneamente perto e longe, quer no seu interiorismo quer nos seus modos de vida, torna-se numa narrativa joyceana que combina o mais puro realismo com fugas de imaginação poética sobre a sua condição presente com os momentos mais marcantes do seu passado enquanto Mariana (professora) definha num quarto até à sua morte. Quando o romance abre em 2005, ela já está ausente, sem terem deixado filhos, só uma vida existencialista que ia sendo pensada e desenvolvida ao acaso e perante a ameaça sempre presente da morte. Por mais que estas minhas palavras poderão levar um eventual leitor a pensar, não se trata de uma ficção deprimente ou que nega o valor da vida, as suas próprias vidas e tudo que constitui o seu e o nosso dia-a-dia. A arte literária não necessita de passar mensagens – deve colocar-nos perante nós próprios, e ainda mais perante os outros que olham, vêem e entendem as coisas de modos diferentes, mesmo que permaneçam na mesma sociedade e perante dilemas semelhantes, a condição humana nas suas mais inesperadas circunstâncias, mas que em nada difere de uns para outros.

A Casa Quieta tem como referencial fora de portas Lisboa, ou melhor, um país à deriva, cada um no seu nicho interior e solitário, as multidões passam despercebidas, ou então olham-se com toda a indiferença, um motorista zangado apita a outro em aviso numa cidade, agora sim, irrequieta. O pai de Salvador e sogro de Mariana torna-se numa espécie de outro protagonista ausente de si próprio, que também foi arquitecto, acaba sozinho, como todos os outros aqui. Este não é um “romance de ideias”, é um romance que vai ao mais profundo interiorismo do nosso ser, de personagens que se cruzam sem se falar nem olhar-se em elevadores, frequentam restaurantes da moda ou prestigiados e que lhes fornecem em gestos de mero reconhecimento de quem lhes paga os seus pratos favoritos numa rotina sem sentido e muito menos carinhosa. Dos parágrafos narrativos passamos a poemas (que não o parecem, mas são) ou frases avulsas, mas que nunca perdem o seu significado no contexto da história. Como diriam certos teóricos brasileiros da literatura, estamos aqui, página a página, num imparável “fluxo de consciência”, por vezes sem sabermos se estamos no presente ou no passado. A legibilidade desta prosa, no entanto, é sempre claríssima. Por entre a consciência da dor e da perda nunca perdemos de vista o destino inevitável, o fim de tudo, o nada do nada, o não-significado de cada uma destas vidas, ou sentido trágico da nossa existência tal como já o entendiam os gregos antigos. 

Aqui há tempos li The Nearest Thing To Life, um conjunto de ensaios sobre ficção e outros temas das nossas vidas de James Wood, crítico-mor do The New Yorker. Aconselhava a outros: mete-te dentro dos textos sobre os quais escreves. É sexta-feira à noite, e eu estou a ler A Casa Quieta estou na minha casa, sim, “quieta”, ouvindo só a respiração da minha companheira deitada, ora tranquila ora agitada, no seu quarto, e rodeada das mais várias lembranças de si e de nós. Isso não é, nesses momentos, um livro de ficção, é a minha vida, a minha companhia dialogante no seu silêncio sem remissão. Não tenho jornais por perto na minha secretária, não os desejo, muito menos a televisão ruidosa e quase sempre fútil e cheia de cores que nada têm a ver com o meu estado de alma. Olho o vasto oceano da minha janela, e regresso logo depois ao romance que tenho entre mãos. Fico a saber que não estou só na minha sorte, nas minhas ausências, repito, sem regresso possível. Sei que estas outras vidas vividas ou imaginados de A Casa Quieta sou eu próprio, ou quase o que penso ser ou o que estou a viver. Volto a dar mais um beijo terno na testa da minha companheira depois de fechar o livro e tentar dormir sem pesadelos. Quando a arte nos toca assim, estamos dentro do texto, como diria o já citado James Wood, estamos na companhia de quem nos fala em directo, de quem nos mostra como até nestes momentos a beleza de estarmos vivos é a nossa própria força contra o sofrimento dos outros. 

“Tu eras. E – diz o narrador a dada altura – passo a citar. Uma voz ao fundo do corredor assim que ouvias as minhas chaves na mesinha de vidro. Eras as luzes acesas. Eras a fechadura a rodar mil vezes. Para um lado e para o outro mais mil vezes, a fechares o mundo lá fora, até suspeito que os vizinhos. Suspeitavam que tínhamos ponte levadiça e fossos com jacarés… Tu eras. Passo a citar. Nós. Ainda há pouco vi que já não somos mais. Sou um homem de pé num hall de entrada que sabe que escusa de tirar o sobretudo, descalçar. Os sapatos que me magoam. Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. Ainda há pouco cheguei, poisei as chaves e a minha casa já não é a minha casa ou pelo menos. Já não importa, não és”. 

A Casa Quieta é esse romance que me faltava depois de toda uma vida inteira a ler. Não há gratidão de um leitor devido a qualquer autor. Há a grande sorte e a alegria de o ter descoberto num determinado livro e momento. Foi este o meu caso aqui. Foi-me “doloroso” lê-lo. Só que toda a grande literatura provoca isso em nós. Vou regressar às suas páginas. A beleza das palavras têm por vezes este poder sem igual – rever-nos uma vida, e o leitor pensar-se como um dos seus personagens.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, A Casa Quieta (11ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2009.