Urbano Bettencourt e a obra de José Martins Garcia

 

 

Num espaço cercado como o insular, a fuga constitui, aparentemente, um projecto de libertação que a experiência virá a desmentir.

Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe

 

Falar da obra de Urbano Bettencourt é falar do melhor que entre nós se escreve, e ele tem escrito em todos gé­neros e formas, poesia, ficção, e muito especialmente o ensaísmo em volta da literatura açoriana, assim escreve sobre literatura e questões culturais da Madeira, Cabo Verde e Canárias. Já o afirmei noutra parte, mas ele é como um T. S. Eliot destas ilhas – a sua poesia é escrita com o mais profundo conhecimento da sua teorização na nossa e noutras línguas, o seu ensaísmo liga e interliga obras e autores, épocas e geografias, quase sempre pouco conhecidas nos grandes meios, ou mesmo nas institui­ções de ensino superior. Poderá escrever sobre um autor de poesia ou ficção com um fio condutor que perpassa toda a sua obra, e isso tem essencialmente um objectivo primordial nas literaturas menos conhecidas, ou seja a legitimação de obras que se encontram fora das anto­logias nacionais e só muito raramente visada pela crítica nos grandes jornais e revistas, como aconteceria, por exemplo, com a poesia de Roberto de Mesquita, que só Vitorino Nemésio tentou resgatar do isolamento das Flores e das páginas regionais que sempre publicaram entre nós. Entre um humor corrosivo e a maior seriedade nos seus estudos desta outras literaturas insulares, repita-se, conhecidas fora dos seus meios (com algumas excepções de outros escritores açorianos que escrevem e publicam no Continente) Urbano ocupa um espaço absolutamente essencial na nossa literatura, e refiro-me a literatura de língua portuguesa em geral, inclusive a do Brasil. Para além de estar presente em antologias desses e de países tão distantes como a Letónia, Eslová­quia e Hungria, ficam aqui alguns exemplos, nomeada­mente África frente e verso, Que Paisagem Apagarás e três volumes de ensaio sob o título de O gosto das pala­vras. Ler Urbano é perceber como a partir de pequenas ilhas se universaliza uma escrita, a condição humana nas suas versões cercadas de mar por todos os lados, mas em viagem perpétua nas mais inesperadas ou longínquas geografias literárias e culturais. Basta só dizer que ele tem como referência de grande importância teórica para estas nossas literaturas o escritor francófono (da ilha Martinica) Edouard Glissant, cujos títulos de dois dos  seus livros tudo explicam logo à partida, A Poética da Relação e Tout-Monde.

Sem qualquer surpresa para mim, está agora dedicado a novas edições da Companhia das Ilhas da obra com­pleta do falecido José Martins Garcia, seu conterrâneo picoense, e durante anos seu colega no então Departa­men­to de Línguas e Literaturas Modernas na Universi­dade dos Açores. Martins Garcia representa perfeita­mente o dilema de ser escritor das e nas ilhas. Uma obra tão soberba como a sua, que inclui também poesia e ensaio, mantém-se fora da atenção nacional que muito merece, quase nunca figura na discursividade literária no nosso próprio país. A sua ficção, incluindo o grande romance de guerra Lugar de Massacre, que transfigura a sua experiência militar na Guiné-Bissau, raiado por vezes o surrealismo, por certo algumas das ferozes páginas satí­ricas sobre a guerra travada no mato e vivida entre o álcool e a mentira. Os seus outros romances, como O Medo e Imitação da Morte, têm como tema fundamental e cons­tante o desespero existencial da vivência em pequenas ilhas e depois a fuga para fora, que resulta sempre na perdição dos seus personagens, ou, como me disse um dia numa entrevista publicada no Diário de Notícias: “nasci numa ilha e perdi-me no mundo”. Não são necessariamente auto­bio­gráficos mas contêm em si, na “pessoa” de alguns dos seus narradores toda a fúria e inteligência crítica do autor, assim se desenrolam na sua geografia natal e países e sociedades por vividas em directo. Este é trabalho mais do que meritório e uma aposta corajosa da editora com base na ilha do Pico, mas com uma projecção nacional pouco comum a outras experiências semelhantes no passa­do. Finalmente, a grande Imprensa lisboeta tem tomado nota em espaços de destaque, que só lhes prestigia e presta homenagem é um dos maiores e melhores escritores portugueses do século passado.

“A representação – escreve Urbano Bettencourt – do espaço insular açoriano dá-nos, em primeiro lugar, a imagem de um ‘mundo abreviado’ (expressão de Vitorino Nemésio) em que as personagens se movimentam aparen­te­mente mais por força de um desígnio exterior do que por uma vontade própria (desígnio que tanto pode resultar dos constrangimentos físicos, geográficos, como do peso do conservadorismo e das convenções sociais, familiares); incapazes, por vezes de romper o círculo em que os seus ges­tos e atitudes se repetem inevitavelmente, as persona­gens conseguem, noutros casos, escapar ao cerco da ilha para fazer a experiência do mundo, mas acabam por perder-se de formas várias. A sátira, por seu turno, repre­senta uma denúncia frontal desse mesmo mundo. A visão satirista é a de alguém que se situa perante um mundo degradado e que a si próprio atribui a missão de criticá-lo de forma directa e agressiva mesmo, com o propósito de agir sobre ele, transformando...”

É precisamente sobre tudo isto e muito mais na obra de José Martins Garcia que trata Urbano Bettencourt no seu novo livro, O Amanhã Não Existe, a sua tese de douto­ramento (com algumas ligeiras modificações ou acertos de linguagens), defendida há poucos anos na Universidade dos Açores. É claro que num livro tão extenso como este a sua parte principal é uma sustentada e bem documentada análise de como a sátira na ficção de José Martins Garcia, e em livros de contos sui generis como Katafarauns, que jun­ta agora os dois volumes originais Katafaraum é uma nação e Katafaraum ressurrecto, sobressai em tudo que fazem, dizem ou insinuam os seus personagens principais na clausura da ilha e na desorientação quase psiquiátrica quando optam pelo seu desterro nas grandes cidades, fa­zen­do chamamentos à nossa historicidade, no caso dos Açores, e aludindo de quando em quando a outras obras, autores e figuras históricas do nosso arquipélago. A primeira parte do livro, para uma vasta contextualização das obras analisadas, debruça-se sobra a velha questão da Literatura Açoriana, a sua “existência” ou não, a teorização através do que se tem escrito em várias épocas e momentos históricos sobre este tema desde o século XIX até ao presente, questão que reaparece de esporadica­mente quando alguns dos nossos escritores aqui nascidos reclamam para si um lugar no cânone literário português. O próprio José Martins Garcia, que foi  Professor Cate­drático  na Universidade dos Açores, leccionou a cadeira precisamente de Literatura Açoriana, e creio que sem grandes preocupações teóricas sobre uma literatura autónoma ou não. No pós-25 de Abril, Urbano Betten­court e J. H. Santos Barros relançariam o antigo debate a partir de Lisboa e pela revista A Memória da Água-Viva, enquanto Onésimo Teotónio Almeida faria o mesmo com um grande congresso na Brown University, a primeira instituição do ensino superior no mundo a incluir uma cadeira sobre a literatura que tem os Açores como referência, escrita ou não por ilhéus. Estão repre­sen­tados praticamente todos os nomes dos escritores, críticos e ensaístas que se debruçaram de modo sério a questão, percebendo-a através de variadas perspectivas, alguns deles aventurando comparações com a literatura produzida noutros países e noutras regiões, como nos casos, mais conhecidos da nossa geração, que incluem Borges Garcia, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Oné­simo Teotónio Almeida, J. H. Santos Barros e o próprio José Martins Garcia. Discretamente, omite nestas pági­nas a sua importante escrita toda a questão, ele que foi um dos ensaístas e crítico que despoletou o nosso regresso ao pensamento teórico e prático sobre a Literatura Aço­ria­na, ele, cuja poesia e ficção carregam com profundi­dade tudo o que distingue a nossa palavra criativa adentro da literatura portuguesa modernista.

“O estudo daquilo que os textos significam (ou não) – reafirma o autor na primeira parte do livro – em termos de uma particular expressão e de um modo de ser açoria­no corresponderia, segundo Eduíno de Jesus, a um segundo momento de aproximação. Ora, deste ponto de vista, os textos dispersos já existentes, monografias, ensaios, crítica literária, introduções a obras de conjunto, dissertações académicas, mesmo nãp constituindo uma história de literatura, fornecem elementos extremamente valiosos para o entendimento e a compreensão do pro­cesso literário açoriano no seu percurso histórico e esté­tico. E, para dentro dele, proceder à abordagem de um autor ou de uma obra, como é o caso de José Martins Garcia.”

Por outras palavras, essa história já existe, só que está dis­persa e à procura de quem a sintetize. O Amanhã Não Existe é outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte, começando com Gaspar Frutuoso no século XVI até ao nosso presente. A sua linguagem clara, livre do inútil e ofuscador jargão académico, a prosa de um grande estudioso e escritor que é Urbano Bettencourt traz-nos tudo que leva um leitor a abrir um livro para reafirmar o poder da literatura como representação da vida, da mundividência de um povo há mais de qui­nhentos anos no meio do mar e entre o continente da sua origem e o continente, a oeste, do seu destino.

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 Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017.