Onde vive a liberdade?

 

- Victor Saraiva (New Jersey)

 

Passei parte do dia 4 de Julho relendo segmentos da história dos Estados Unidos; claro, ver o fogo de artifício é giro, mas porque foi necessário a independência? Não seria bonito hoje viver nas colónias da Inglaterra, porque não continuar como súbditos reais; porque não continuar com um rei, uma rainha — há quem pense assim, e não só na América. 

O que se opõe ao supramencionado é o conceito de liberdade, é a ideia que o homem nasce livre, e essa ocorrência estabelece sui generis o seu direito incondicional à liberdade. Mas infelizmente como o filósofo Jean Jacques Rousseau reconheceu: “O homem nasce livre mas por todo lado está acorrentado. [ Pois há sempre ] Um homem [ que ] imagina-se o mestre de outros...” 

Na cidade de Newark, New Jersey em 1776, o panfletário e autor Thomas Paine escreveu o inicio da sua famosa diatribe, American Crisis (A Crise Americana), sentado no chão à sombra de uma árvore, no futuro Parque Militar da cidade, escreveu o seguinte: “Estes são os momentos que provam a alma do homem.”  Na altura era uma área que dava início ao bosque nos arredores da pequena vila de Newark. Paine acompanhava o comandante das forças da millícia colonial, e futuro presidente americano, George Washington, que se retirava após confrontos em Massachusetts com tropas Inglesas — mas agora os colonos eram perseguidos, e brevemente acamparam em Newark para descansar. Essa árvore abraçando Thomas Paine com sombra, era uma das várias árvores conhecidas como Árvore da Liberdade (Liberty Tree). E aqui vou contar-vos uma interessante faceta da história americana pouco relembrada nos nossos tempos. 

A primeira Árvore da Liberdade encontrava-se na cidade de Boston, Massachusetts, na esquina da Essex Street com a Orange Street, local onde cidadãos da cidade se reuniram a 14 de Agosto 1765 para protestar contra novos impostos atribuídos pela coroa inglesa às colónias americanas. Mais tarde estes americanos tomaram o nome dos Filhos da Liberdade (Sons of Liberty) e periodicamente se juntavam no mesmo sítio para conversar ou protestar publicamente. Dez anos mais tarde pregaram o letreiro, Árvore da Liberdade no tronco, e pouco depois, colonos leais ao rei inglês, derrubaram a árvore, durante o cerco de Boston que tinha sido efectuado pela millícia americana.  A destruição da famosa árvore de carvalho incentivou a seleção de outras árvores como Árvores da Liberdade. O argumento era que, a Liberdade, como a árvore, tem vida, e se uma cai, outra continua a luta... Muitas cidades vieram a plantar ou a declarar a mais antiga árvore de carvalho da cidade, a Árvore da Liberdade. Nova Iorque teve uma, Baltimore, Newark e muitas mais cidades e vilas da futura nação americana celebravam tal sítio de encontro para os Filhos da Liberdade locais.

Hoje poucas originais Árvores da Liberdade permanecem. A de Newark foi derrubada na década de 1990, já com pouca vida, em perigo de cair. Um antigo professor meu de Botânica, o dr. Greenfield, da Rutgers University, cuidou a árvore durante muitos anos, mas o tempo venceu a batalha. O mesmo aconteceu á da cidade de Nova Iorque, e no dia 8 de Junho 2009, em comemoração aos 200 anos da morte de Thomas Paine, que de nota morreu na cidade, foi plantada uma nova árvore no Parque Thomas Paine, na zona de Foley Square, onde situa-se uma placa que diz: “A Árvore da Liberdade, um simbolo do nosso direito de congregar e protestar contra a tirania.”

O exemplo americano atravessou o oceano Atlantico, e em 1790 a primeira Árvore da Liberdade europeia foi plantada em França na aldeia de Vienne, mais tarde em Paris, na Itália, e na Alemanha, reflectindo o passo do Movimento Republicano que por um tempo respirou o espírito da terceira sinfonia de Beethoven — a Eroica. 

Mas porventura onde vive a Liberdade? Anos antes, muitos anos antes de facto, diria aqui, aqui nestas margens, entre estas costas confrontando dois enormes oceanos, neste país que conhecemos como os Estados Unidos da América, seria o sítio propício, diria eu, o sítio ideal. Mas a Liberdade não separa famílias injustamente como se vê hoje com as deportações de imigrantes; a liberdade não aceita tortura como já se praticou nas prisões americanas, e previamente em Guantanamo; a liberdade não permite a promessa de justiça ser trocada por tribunais secretos, como a da FISA; a liberdade não permite imunidade a certos cidadãos simplesmente porque são funcionários públicos, agentes de segurança, ou políticos. Não, amigo leitor, não sou militante nenhum, esta ideia de liberdade é americana, mas não de hoje, é uma ideia que se fundiu no caldeirão de revolta na década dos anos de 1770, quando os colonos dos primeiros treze estados americanos proclamaram a sua revolta à tirania inglesa, e escreveram esses documentos formidáveis: a Declaração de Independência e a Constituição. A revolta contra o conceito que uns homens são mais que outros, uma revolta contra impostos injustos, uma revolta contra a ideia que as decisões do governo possam ser tomadas sem a voz da cidadania. 

Cada quatro anos os Estados Unidos celebram a revolta de 1776, quando elegem o presidente, é uma revolta sem sangue, é uma revolta prenha de ideias como governar o país, é uma celebração dessa ideia principal, da liberdade, que poucos conseguem definir como o direito de qualquer homem ventilar as suas ideias sem perigo de ser calado, censurado ou intimidado. 

Onde vive a liberdade? A liberdade nunca morre enquanto essa ideia permanece no coração das pessoas, mas tristemente, por menos na minha opinião, o exemplo de liberdade, a ideia de liberdade, torna-se anátema na sociedade deste país, um país que cada vez mais abraça o sigilo, no constante impulso de construir um estado policial.  Não sei se a promessa americana de liberdade sobreviverá, pois depende de cada um de nós, de todos nós. O dia em que aceitarmos a ideia que a segurança vale mais que a liberdade, nesse dia, abraçamos a escuridão, nesse dia a promessa americana simbolizada pela Árvore da Liberdade, cai. 

Este pensamento, este sentimento que ventilo é mixto também com as palavras do escritor americano James Baldwin:

“Adoro a América mais que qualquer outra nação neste mundo, e exactamente por essa razão, insisto no direito de a criticar perpetuamente...”

Da importância do valor da liberdade que tento sublinhar, estou em boa companhia pois o famoso intelectual americano Benjamin Franklin, escreveu: 

“Onde vive a liberdade, aí se encontra o meu país.”