Memórias do tio Mariano das Poças em vésperas de São Pedro

 

Todas as vezes que venho a São Miguel, o primeiro lugar que visito, por imposição da saudade, é a estância balnear das Poças, na cidade da Ribeira Grande. E aqui estou, apanhando uns raios de sol, nestas Poças que não são as mesmas de há quarenta anos, mas a água e o sol têm o mesmo sabor. E enquan­to gozo esta água e este sol, sinto-me feliz, entre duas épocas distintas, neste mesmo lugar, com tantas diferenças.

Seria injusto não enaltecer a beleza deste cantinho no tempo presente, com todas as mudanças aqui foram efectuadas durante vários anos para chegar ao ponto actual. Antigamente era mesmo poças, criadas pela natureza entre rochedos, e mantidas pela vontade humana. Agora é um complexo balnear moderno, com tudo o que as regras pedem, ou exigem. Depois de construído um quebra-mar, e feitas algumas alterações em betão, as ondas se encarregaram de dar outro aspecto às antigas poças, fazendo a areia cobrir a maioria dos rochedos circundantes da poça maior, formando uma pequena e graciosa praia. As piscinas de cimento armado também merecem elogios, mas eu contento-me com este bocadinho de mar, neste areal que soterrou as minhas poças, aonde vivi muitas horas de alegria, na meninice e na juventude.

As memórias que vivo neste momento mostram-me as duas correntes de ferro para a segurança dos banhistas, uma na poça menor, para a maré-vazia; e outra na poça maior para a maré-cheia. Porque quando uma onda mais forte entrava nas poças, quem não se segurava nas correntes estava ao risco de se aleijar. Quando aquela porção de àgua que entrara retomava ao mar aberto, havia outros riscos maiores.

Em dias de mansidão de mar, o que não é muito frequente acontecer aqui, no Norte, a rapaziada nada­va, à vontade. Fazia-se o que se chamava a “saída”. Em grupo, ou individualmente quase sempre os destinos seriam a baixa-pequena, ou a baixa-grande. Nadar até à baixa grande era qualquer coisa de espectacular, sempre debaixo dos olhares atentos do Ti Mariano, antes de ser imposta a vigilância do nadador-salvador. Em dias de mar meio revolto estas saídas eram proibidas e só se nadava nas poças. Os saltos, de cima dos rochedos, eram frequentes. O lugar para a prancha de madeira estava quase sempre vago, porque todos os anos se intalava uma nova, e pouco tempo durava. Era uma questão de dias, mas não afectava os famosos “pulos de cabeça para baixo”.

A autoridade das Poças era o ti Mariano. Um ho­mem de respeito, que respeitava todos, e todos o respeitavam. Uma figura típica da Ribeira Grande e única nas Poças. Este velho lobo-do-mar conhecia as marés e toda a zona circundante do seu meio. Era alto, elegante, e usava um chapéu de pequena aba o tempo inteiro. Tinha cerca de uma dezena de filhos (perdi a conta), e todos eles, se não tivessem aparência humana seriam peixes. Mas eu nunca vi o ti Mariano nadar. Andava sempre agasalhado do sol e protegia-se da brisa marítima. Morava mesmo em frente das Poças.

Na América não se fala em “congestões”. Toda a gente vai para a água quando apetece, tanto com a barriga cheia como vazia. Em Portugal respeita-se a regra de esperar três horas depois das refeições. Nas Poças, o ti Mariano absolvia esta regra: a rapaziada que não queria esperar pelo tempo da digestão recorria a ele, a perguntar se podia tomar banho. A resposta era sempre a mesma: “Não comeste nada quente?... Então podes ir para a água.” O ti Mariano disse que sim. O ti Mariano é que manda nas Poças!

No inverno, todos os domingos, sem falha, por volta das nove da manhã, eu batia à porta do ti Mariano. Não era preciso dizer nada, porque quem a porta abria já trazia consigo a chave das Poças. Era com ela que se abria as barracas de mudança de roupa e dos chuveiros. Muitas vezes de sobretudo e guarda-chuva se ia às Poças ao domingo de manhã. Depois de tirada a roupa de inverno, em calção de banho e de sapatilhas nos pés, fazia-se uma corridinha ao Palheiro para aquecer o corpo, e em seguida a entrada triunfal, de uma só vez, na água do mar. Seguia-se o duche, de água mais fria do que a salgada, com lavagem de corpo e cabelo a sabão branco e azul. A entrega da chave em casa do ti Mariano, com uma pequena gorjeta, era a garantia da chave no próximo domingo, à mesma hora. Recordo o último domingo, antes de ir para a América, com um abraço no ti Mariano, e outro na ti Maria, sua esposa. Até um dia, se Deus quizer.

Hoje, ainda vejo aqui pessoas que nada trocam pelas Poças. Banhistas do meu tempo. Gente com sentimentos iguais ao meu, por este local. Nomes como: Luís Simas (este, arrisco-me a dizer que sem as Poças não pode vi­ver); João Correia; Mitó; José Cebola (um emigrante como eu); Manuel Jornata; Carmindo e mais dois ou três.

Ao encerrar estas notas de saudade, desejo deixar claro que as minhas Poças estão aqui. São estas. As mesmas de há quarenta anos. As coisas mudam, as pessoas tam­bém. Quarenta anos é muito tempo. Mas uma vida de cem, para quem lá consegue chegar, é muito pouco!

 

Alfredo da Ponte — Fall River, Mass.