Mariza apresenta “Raízes” nos Estados Unidos, em entrevista ao Portuguese Times

 

“É um concerto diferente do habitual baseado no meu imaginário musical e de todos os músicos que me acompanham”

A fadista Mariza encontra-se em digressão pelos EUA. Trata-se de uma pequena digressão e um regresso a um público para quem adora cantar e já o fez para grandes palcos deste país, nomeadamente no Hollywood Bowl e no Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles e ainda no Carnegie Hall, em Nova Iorque, entre muitos outros. Afirmando-se orgulhosa de cantar em português e “dar a conhecer a Língua e a Poesia portuguesas”, Mariza realçou que o seu mundo musical abrange outras sonoridades e linguagens.

Esta digressão norte-americana abriu no passado dia 25 de outubro na Universidade de Stanford, na Califórnia, seguindo para San Francisco onde fez quatro espetáculos, em Brooklyn, New York, dia 02 de novembro cantou em Washington, no Birchmere Club, e no dia 05 na Universidade de Monmouth, em New Jersey.

Hoje, dia 08 de novembro, a criadora de “Melhor de Mim” atua no City Winery de Chicago e, dias 11 e 12, no Narrows Center for the Arts, Fall River. A digressão encerra no dia 13 de novembro no City Winery de Nova Iorque.

Nesta digressão Mariza é acompanhada, entre outros, pelos músicos Luís Guerreiro, na guitarra portuguesa, com quem gravou o seu primeiro álbum, Pedro Jóia, na viola, e João Frade, no acordeão.

O agente da fadista portuguesa nos Estados Unidos contactou o Portuguese Times para uma entrevista, o que aconteceu, na sua viagem entre New York e Washington, via telefone.

 

• Entrevista: Francisco Resendes

 

Portuguese Times — O que nos traz nesta digressão aos Estados Unidos?

Mariza — “Na realidade não me apetecia voltar aqui aos EUA com o mesmo repertório, a mesma banda e então juntei músicos de que gosto imenso, que são os casos do Pedro Jóia, na guitarra acústica, o João Frade no acordeon, o Luís Guerreiro na guitarra portuguesa e temos uma uma jovem italiana (baixista), que tocou no próximo disco. Juntámo-nos todos e formámos este projeto que se chama “Raízes”, que é trazer para o palco as músicas que fazem parte do nosso mundo musical e que normalmente não as tocávamos ao vivo. É um conceito diferente do habitual, em que eu e todos os músicos trazemos temas de que todos gostamos de tocar. Trago os fados de que mais gosto, temas da MPB (música popular brasileira) de que mais gosto, alguns instrumentais de Carlos Paredes, fados tradicionais, mornas, temas de Astor Piazzolla, enfim de tudo um pouco. No fundo trazemos o nosso imaginário musical para cima do palco, num projeto que provavelmente não irá repetir-se uma vez que foi mesmo uma coisa pensada e feita para aqui para esta fase, nesta altura, e depois com o novo disco naturalmente que voltaremos com o repertório habitual”.

 

PT — Sabendo que Mariza foi uma das embaixadoras da candidatura do fado a património imaterial da humanidade conseguindo tal reconhecimento em novembro de 2011 pelo Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura — UNESCO, em seu entender o que é que isso representa para Portugal em geral e para o fado em particular?

Mariza — “Representa tudo aquilo que nós sonhamos, uma respeitabilidade ao fado completamente diferente uma proteção, que era precisamente aquilo que nós queriamos, num dossier representado no fado tradicional, que é o que toda a gente canta e toca fado e tem que saber, enfim, a sua importância, pois só conhecendo as nossas bases, as nossas raízes é que conseguimos seguir em frente, ao fim e ao cabo como qualquer outro género musical... O fado tem uma raíz e uma história que pode ser contada e só assim se pode evoluir... Olhe por acaso achava muito interessante haver uma cadeira de fado nos liceus e universidades, porque, repare, trata-se da identidade de um povo e o fado é para mim das músicas mais ricas e valiosas com uma história muito profunda e a mais bonita que eu conheço”.

 

PT — Como referências e símbolos máximos do Portugal de antigamente tinhamos Eusébio e Amália, hoje há quem diga que temos, nessa mesma dimensão de identidade lusa Cristiano Ronaldo e Mariza... Como se sente em relação a isso?

Mariza — “Lá em casa o meu filho é fã do Cristiano Ronaldo, mas se calhar já não em fã da música da mãe... Não sei o que dizer em relação a isso. Sei que o Cristiano tem levado bem alto o nome de Portugal por esse mundo fora... Em relação ao fado eu tento fazer o meu percurso da melhor maneira, ou seja fazer o melhor que sei e o melhor que posso para Portugal”.

 

PT — Sente nos seus espetáculos, quando atua para um público estrangeiro, essa responsabilidade de levar uma cultura e uma bandeira?

Mariza — “Sinto grande responsabilidade sempre que estou a cantar em fazer sempre bem o que faço, quer seja para portugueses ou para estrangeiros, em palcos pequenos ou grandes, em tabernas ou casas de fado ou ainda em grandes salas como o Royal Albert Hall, em Londres ou o Carnegie Hall, em New York, para mim é-me indiferente”.

 

PT — Como tem decorrido esta digressão com este conceito totalmente diferente do que tem feito anteriormente?

Mariza — “Tem sido fantástico. De início, confesso, estávamos um pouco apreensivos e a tentar perceber como o público iria receber e compreender esta fórmula nova que decidimos fazer de espetáculos e a verdade é que temos sido muito bem recebidos. Ainda ontem atuámos num clube fascinante em Brooklyn, New York, com lotação esgotada, uma noite maravilhosa e tem sido assim. Começámos em Stanford, depois quatro noites em San Francisco, agora Brooklyn, estamos a caminho de Washington, depois temos Chicago, Boston, New York e depois regressamos a Portugal”.

 

PT — Há temas obrigatórias que tem de cantar sempre nos seus espetáculos?

Mariza — “Não. Eu não tenho essa obrigatoriedade, há naturalmente temas que as pessoas gostam mais e estão à espera... Nesta digressão, com este conceito diferente, não tive essa obrigatoriedade... Os meus concertos têm de ser feitos com os temas de que gosto de cantar e não com aquilo que as pessoas me obrigam a cantar, pois então não seria o meu concerto. Tenho que sentir o que estou a cantar, se não sentir não vale a pena, nisso sou muito transparente... Sei que há muita gente que adora temas como “Ó gente da minha terra”, “Chuva”, “Rosa Branca”, “Barco Negro”... Mas um concerto não pode ser apenas com músicas de que o público gosta, tem de ser feito com temas que o artista gosta de cantar e se um artista não sente uma determinada música não vale a pena cantá-la... Não consigo cantar nada sem feeling... A música tem essa importância para mim”.