Reflexões à margem de vassalagens intermitentes no 5 de outubro

 

1143 foi o ano da declaração afonsina da separação, da situação de vassalagem em face da Galiza e de Leão. Depois de São Mamede, Zamora era um facto consu­mado a 5 de outubro daquele ano por acordo de dois Afonsos, o primeiro de Portugal e sétimo de Leão e Cas­tela. A língua portuguesa ainda não evoluíra do galego.

Esta realidade política poderia ter influenciado as reformas populares que enfraqueceriam o poder real de Leão pouco mais de trinta anos depois. Engolido por Castela, Leão fora um dos centros mais aguerridos no regresso da Cristandade que se fizera a partir das escarpas visigóticas nas Astúrias.

 Aquele movimento de ressurgimento cristão e militar, que se prorrogou no campo de batalha até ao século XIV, ultrapassaria em termos sequenciais a vitória do Salado (30 de outubro de 1340), na qual se distin­guiriam outros dois Afonsos, o quarto de Portugal e o décimo primeiro de Castela.

Mais do que Zamora, todavia, a tutela papal da coroa de Afonso Henriques garantira a formação do que hoje se chamaria o Estado. Conferira-lhe o título já antes invocado, inconsistentemente, por seu pai e até sua mãe. Mas só em 1179, porém, se selou com uma transação comercial o dístico coronal para adornar a cabeça do senhor do Reino de Portugal. 

Foi uma cartada política e eclesiástica, paga ao Papa com moeda de prata, que inflamou ainda mais a relação mutuamente despiciente entre os bispados de Braga e Compostela. Portanto, ainda que na história portuguesa o 1143 tenha significado especial porque marca o ponto culminante da revolução iniciada quatro anos antes, a referência em termos de direito é a do reconhecimento pontifical, ocorrido em maio, trinta e seis anos depois.

Com a cruz furiosa das espadas tintas de sangue gentio por Serviço de Deus, como mais tarde se chamaria à conquista e ao roubo e abuso de povos de religião dife­rente, eventualmente formou-se em Portugal uma classe aristocrática da casa. Foi responsável ao fim de alguns séculos pelo retrocesso da gente lusa no percurso da ideia do progresso. Ela ainda aí está, disfarçada a partir do 5 de outubro de 1910 na elite burguesa do poder, falando o português.

Criara-se assim um mito e um centro de opressão, o dos cavaleiros e supostos construtores da história sempre transformada pelas gerações consecutivas dos detentores do privilégio de donos do Estado. A sua influência chegou aos nossos dias, cimentando a indiferença dos povos pe­nin­sulares, intimidada agora com políticas mascaradas de veludo e dentes jurídicos. Processos culturais de condicio­namento ou habituação instalaram-se na visão do mundo com raízes genéticas. Sem que por larga medida saiba discerni-la na farsa de uma democracia supostamente representativa, o povo permite a ditadura da partidocracia. Do mesmo modo se aceita o crime espanhol perpetrado na Catalunha. 

Incidentalmente, o primeiro Afonso nunca teria saldado ao Papa o que acordara. Foi tarefa para os seus sucessores. Dir-se-ia uma praga que ainda hoje prossegue, agora com a predominância hoberiana na cultura das sociedades minadas pelo consumismo. As dívidas portuguesas são assumidas pela classe do poder para que os filhos da plebe as saldem.

Portugal nasceu, assim, arrimado a poderes exteriores que o apoiaram até que em 1385 João I afirmou a nação em Aljubarrota. A batalha, contudo, não teria decorrido como os compêndios escolares a descrevem sem assinalar a influência dos métodos militares alheios. Os Plantagenetas, e os Lancasters, de cuja Casa veio a rainha Dona Filipa, introduziram-nos em Portugal. A defesa tinha por caraterística a barragem em que os archeiros, com longos arcos, possuíam a função da artilharia. O avanço tecnológico da última, deu-lhe função como arma predominante de desgaste na guerra civil ame­ricana e no conflito mundial de 1914-1918.

Minimiza-se esta faceta daquele recontro próximo do mosteiro da Batalha para realçar a mítica Ala dos Namorados, cujas lanças seriam idênticas à dos vencidos – heróis hilariantes da novela de Miguel Cervantes. Não somariam muitos, também, porque na retirada apressada de Juan I e dos seus acólitos portugueses, a aristocracia conservadora, faltou do lado português a cavalaria que o poderia ter perseguido.

Excetuando o trabalho até então inédito de Jõao das Regras, a coesão nacional foi sempre mantida a chicote e à espada – e o inferno por intermédio – num processo de governo autoritário aliado ao fanatismo clerical que se reproduziu no relacionamento com os povos colo­niais. Era prática comum na Idade Média na Ibéria.

A subalternidade económica no século XIX à Ingla­terra durante o quase-protetorado de João VI, chegou ao século XX colidindo com o nacionalismo de Salazar. A competição entre Londres e Berlim permitiu a manu­tenção do segundo império até aos dias de Afonso Costa.

Os processos inerentes ao relacionamento do poder com o povo em Portugal através de quase um milénio moldaram a cognição das gentes que a narrativa histórica evidencia ao modo da teoria do antropólogo canadiano Anthony Wallace sobre a personalidade modal ou as caraterísticas de um povo. Aos donos da partidocracia, os novos cavaleiros, só falta agora expressarem-se em alemão.