No contexto da criação, só o ser humano tem consciência da sua própria morte

 

 

“VAMOS À VIDA QUE A MORTE É CERTA” é conhecido, não é? Mas no júbilo da Fé, da Esperança e do Amor somos capazes de reinventar o provérbio: “Vamos à morte que a vida é certa”! Ser cristão é ser possuído pela Boa Nova da Vida em abundância e em definitivo. Sabemos que a morte é um fim, mas não o fim. É um fim na medida em que marca um novo começo, nas não é o fim porque nos dá a luz para o “lado de dentro” da vida e da história, a eternidade, na qual Jesus Cristo nos rasgou o caminho para a Festa do encontro com Deus e com todos os irmãos já plani­ficados nele. A morte tem um rosto de parteira! Parto definitivo do Homem Novo que cada um tem cons­truí­do, o último e pleno renascimento do coração humano.

NO CONTEXTO DA CRIAÇÃO, SÓ O SER HUMANO TEM CONSCIÊNCIA DA SUA PRÓPRIA MORTE, num amanhã a que não pode fugir. Por isso, é também o único a sentir a necessidade de um sentido para a vida. Se tivesse consciência da morte e não assumisse como apelo de sentido e razões de viver, a vida seria um absurdo. Aqui a vida humana se destaca da mera existência viva dos outros seres vivos, animais ou vegetais, já que a simples existência á exatamente a vida desprovida de sentido.

É NESTA BUSCA DE SENTIDO E RAZÕES DE VIVER que se joga o fundamental da vida enquanto construção pessoal. Nesta procura que é comum a todos os homens, ainda que mais consciente nuns que noutros, há quem se contente com “carpe diem” para hoje, amanhã logo se vê... “vivendo” cada dia fechado em si próprio, sem um sentido de globalidade que abranja toda a realidade da sua vida. Ainda não chegaram à descoberta de que a vida feliz é uma construção histórica e não um simples acumular sequencial de experiências sem projeto. Há também aqueles que passam a vida a saltar de guru em guru – sejam espirituais, religiosos, políticos, etc. – na ilusão de encontrar fora o que apenas poderão en­contrar dentro.

O SENTIDO É SEMPRE DESCOBERTO COMO UMA VERDADE QUE VALE A PENA, válida para viver e até para morrer. A partir daqui torna-se claro que o segredo de uma vida com sentido, ou seja, uma vida feliz, é viver de dentro para fora e não ao contrário. Infeliz­mente, há também os que desistem... e quando a vida se reduz a existência viva, torna-se um drama inútil ao qual se deseja dar um fim...

QUANDO FALAMOS COM AS PESSOAS SOBRE A MORTE, damo-nos imediatamente conta de que há dois sentimentos presentes na grande maioria delas: primeiro, uma declaração de repugnância; depois, uma boa dose de medo, ainda que camuflado. Repugnância porque o ser humano não está talhado para o absurdo, e é como absurdo que o acontecimento morte se apresenta aos olhos da maioria das pessoas. E o medo da morte justifica-se pelo mesmo motivo pelo qual as pessoas têm medo dos ladrões: porque ninguém gosta de ser roubado, e a morte é a maior “ladra” da nossa história. Opera em nós um roubo de tal ordem radical como nenhum ladrão humano conseguiria, e é de tal modo certa que não é possível evitá-la, não há “trancas à porta” possíveis.

Este “ROUBO FINAL” é para nós um apelo a construir o que não nos poderá ser roubado, desafio a investir a vida no que será nosso para sempre. A Bíblia di-lo assim: Eis, pois, o que declara o Senhor do Universo: Refleti, no vosso coração, sobre o caminho que tomastes, semeastes muito mas recolhestes pouco: comestes mas não saciastes: bebestes mas não apagastes a vossa sede, vestistes mas não vos aquecestes. O operário ganhou o seu salário mas meteu-o em saco roto! Assim fala o Senhor do Universo: “Refleti, no vosso coração, sobre o caminho que tomastes.”

COM EFEITO, HÁ PESSOAS QUE PARECEM PASSAR A VIDA em embelezar e em enriquecer o seu cadáver! Gastam os dias, as forças e as paixões no que não pode ser eternizado. Os cristãos têm aqui uma missão muito importante de testemunho e de anúncio: não anunciamos uma moral, mas devemos gritar bem alto, com atitudes e com palavras, que a vida deve investir-se naquilo que vale a pena, e só vale a pena o que pode ser eternizado, ou seja, o que for construído pelo amor em densidade pessoal.