Deixem-me pensar, apreciar recordar e... sonhar

 

1 – O BARULHO DA CARROÇA VAZIA. Na minha infância, talvez entre os 5 e 10 anos, passava as “férias grandes”, numa freguesia próxima de Ponta Delgada, denominada Relva, habitando uma casa solarenga (já em decadência e há muito não habitada, que tinha servido de Escola Primária e sede de uma Companhia Militar no período da II Grande Guerra), apalaçada, com várias varandas, usufruindo-se, delas, uma soberba vista sobre a aldeia e rodeadas de enorme arvoredo, com quinta anexa, arrecadações para recolha de cereais, eira, arribanas para o gado e tanque d’água destinado aos animais, propriedade de uma madrinha rica pertencente ás baronetes famílias dos “Faria e Maia e Cunhas” que nos fazia o favor de nos ceder naquele período. Segundo informações colhidas, na altura, junto dos habitantes do lugar, a família era dona de quase todo o terreno de cultivo da freguesia.

NOS FINS DE SEMANA, meu saudoso pai gostava de se levantar cedo afim de dar um passeio pela aldeia, aproveitando para visitar umas terras que tinha de renda para cultivo, em sociedade com um camponês amigo. Meu pai pagava a renda anual e o “sócio”, cultivava e tratava da terra, sendo, a colheita da “novidade”, dividida ao meio.

NUMA DESSAS MADRUGADAS acompanhei meu pai num destes passeios, gozando a brisa da manhã e os bons ares da época calmosa. A determinada altura, e depois de mais de uma hora a caminhar e a observar a natureza, envolta em um acentuado e prolongado silêncio, meu pai, parou, e perguntou-me: além do cantar dos pássaros, estás a ouvir alguma coisa? Apurei o ouvido e respondi: estou ouvindo o barulho de uma carroça ao longe. Isso mesmo, disse meu pai, é uma CARROÇA VAZIA... Pensei e perguntei ao meu pai: Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?

Ora, respondeu meu pai. É muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz.

OS ANOS PASSARAM, TORNEI-ME ADULTO, fiz-me homem experiente e, a determinada altura aparece-me no “écran da memória” aquele passeio com o meu pai e a conversa da carroça.

E HOJE, QUANDO VEJO UMA PESSOA FALANDO DEMAIS, gritando (no sentido de intimidar) tratando o próximo com grossura, inoportuna, prepotente, interrompendo a conversa de toda a gente, e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de estar a ouvir a voz do meu pai dizendo:

 

“QUANTO MAIS VAZIA A CARROÇA, MAIS BARULHO ELA FAZ!!!!! ……

 

 2 – GLOBALIZAR... globalizar é a palavra que se tornou “sistema” na nossa sociedade. Que pena! Esquece-se a Justiça: essa é que deve ser globalizada para o bem comum e a paz universal.

Inicia-se e pratica-se na família, irradia-se na comunidade e entre os povos. Só a força do amor transforma a vida das pessoas e o relacionamento entre os povos.