Retalhos e peripécias da longa existência da Associação de Futebol de Ponta Delgada

 

“Reminiscências do futebol micaelense“

 

(Continuação da edição anterior)

CONTRASTE DOS CONTRASTES. Foi naquelas citadas sedes, indicadas no trabalho anterior, que o futebol micaelense conheceu as suas “épocas de ouro” de todo o seu historial, com equipas de elevado nível, com praticantes de acentuada craveira técnica, com assis­tên­cias enormes, com visitas de equipas de reconhecido valor (Sporting, Benfica, Porto, Belenenses, Académica, Marítimo da Madeira, a que se juntou uma equipa constituída por elementos da Força Aérea Inglesa (RAF), com alguns jogadores internacionais integrados e, na altura, estacionados na Base Aérea nas Lages/Terceira). Havia futebol de entusiasmar, produzido por excelentes jogadores que encantavam o público mais exigente. Fal­tavam, apenas, instalações condignas. (costuma-se dizer, “dão nozes a quem não tem dentes”!!!).

UNS ANOS MAIS TARDE, e beneficiando de “outra conjuntura politica”, foi adquirido um edifício-sede, localizado na rua Tavares de Resende, fazendo esquina com a rua dos Capas.

PASSADOS UNS TEMPOS, e por razões que desco­nhe­cemos (já estávamos fora da Ilha), venderam o dito edifício e, dizem, construíram de raiz, uma “sede-palácio”. Alguns, por maledicência murmuram ser o “palácio das necessidades”, nos arredores da cidade que, segundo ale­gam alguns, com condições extraordinárias, talvez, exageradas. Não conhecemos o atual edifício, nem as condições em que assenta a sua utilização pela Associação de Futebol, se é propriedade do Organismo, se é alugado ou, simplesmente, “cedido ” pelas Entidades Oficiais. Por isso, e em princípio, não apoio, nem condeno, o que não conheço.

Por informações fidedignas, de velhos amigos, e foto­grafias em meu poder, chego á conclusão de serem insta­lações dignas de apreço e louvor, possibilitando, se houver vontade para tanto, a criação de um “MUSEU DO FU­TEBOL”. E, já agora, que estamos com “a mão na massa”, porque não con­cretizar tal ideia? (seria, talvez, caso inédito, a nível de Asso­ciações de Futebol no País). A ideia da con­cretização de um “MUSEU DO FUTEBOL” nas atuais instalações associativas, já foi tema de artigos pu­blicados neste Jornal por outros “amantes” da modalidade. Estamos a aguardar que algumas “promessas no mesmo sentido” se concretizem. Seria histórico e útil “albergar” (lugar indicado) muita documentação valiosa e dispersa, e, ainda (julgo), com possibilidades de recuperação, como por exemplo, os “espólios” do Micaelense Futebol Clube e do Clube União Sportiva (fundador da associação) com real interesse, afim de se poder, dignificar e acautelar, documentos valiosos relacionados com mais de cem anos da prática do futebol em São Miguel. Já propusemos esta situação, aqui, neste mesmo Jornal, em agosto de 2011. Haverá vontade para tal? A memória é crucial na vida, e cabe não só aos homens mas sobre­tudo às instituições preservá-la  -  até prova em contrário são as únicas entidades que sobrevivem aos homens -.

E, É NESTE “LEMBRANDO/NOTANDO”, que não posso deixar de constatar, que algumas das mais emblemáticas agremiações desportivas da nossa cidade de Ponta Delgada, se têm “finado”, embora com brio, dignidade, glória e principal­mente, com a satisfação do dever cumprido, pelos serviços pres­tados, durante a sua longa e proveitosa existência. Não deixaram “dívidas”, mas sim um riquíssimo espólio, traduzido em troféus e documentos escritos e fotográficos que alguns, selvati­camente, têm devastado, sem “dó nem piedade”. Espólio feito e construído, há custa de muito suor, carolice, trabalho, esfor­ço, dedicação, “amor ao clube” e algumas lágrimas à mistura!!!

OS RESTANTES, QUE CONTINUEM “VIVOS”, e em atividade, sobrevivendo às intempéries, passando, por isso, as “passas do Algarve”, sujeitos a um viver de ficção permanente e preocupante, com dificuldades enormes, objetivos mal defendidos e uma visão distorcida da realidade.

O “FUTEBOL-INDÚSTRIA” tem arrastado alguns clubes para a ruina, vivendo, presentemente, com a corda ao pescoço. Vende-se o património, se houver, perde-se os anéis, ficando apenas os dedos. Perante tão deprimente situação, o público desinteressa-se, vira costas, afasta-se dos campos (belíssimas instalações), não vibra com os clubes, por reconhecer que não defendem o ideal desportivo. O “calor humano” desaparece, o “amor á camisola” é apenas quimera, o interesse pelo jogo e clube deixa de existir. O futuro é desanimador e incerto.

POR IRONIA DO DESTINO, enquanto os emblemáticos clubes vão perdendo a “seiva” que os alimentou, durante dezenas de anos, em virtude de uma distorcida visão das realidades, a “Casa Mãe” do Futebol Micaelense, foi melhorando as suas instalações. Ainda bem. Bom sinal, e esperança num futuro melhor e mais equilibrado. Deus queira.

MAS, COMO DIZ O VELHO DITADO: “não há bela sem senão”. Quando as instalações atuais da Associação, são invejáveis, os hábitos e costumes vão desaparecendo. Esquece-se o passado ou não é respeitado, valorizado e reconhecido. Sem passado não há futuro.

POR DOCUMENTOS EM MEU PODER, sei, que o velho e prestigioso Organismo, de “Utilidade Pública”, pelo seu passado e prestígio acumulado – alicerce necessário e indispensável para a construção da obra projetada – atingiu, no recente dia 4/11/2016, a bonita idade de 92 anos de existência ao serviço do futebol (efeméride que realcei neste Jornal na altura devida), e, de acordo com informações colhidas –a distância dificulta – a efeméride foi assinalada – se com pompa e circunstância, desconheço - pela Direção Associativa, dentro de portas, em “família”. Alguns mais “modernistas”, dizem:- “isto já não se usa” Era “ninharia” dos velhos tempos. Compreendo, mas discordo. Pelo contrário, aqui no continente, é atitude que continua bem viva nas agremiações desportivas a qualquer nível.

A  IDADE E O CONHECIMENTO “CONCEDE-ME” a possibilidade, de recordar os bons velhos tempos, em que os Clubes e Associação, comemoravam o seu “dia de anos”. Com simplicidade, é certo, mas com respeito pela existência vivida e êxitos acumulados. Uma romagem ao cemitério, lembrando e homenageando os seus cabouqueiros, o “içar da bandeira na sede”. Uma missa recordando, com saudade, dirigentes e praticantes já falecidos. Uma sessão solene com um orador convidado. Eram os “pratos da época”, reconhe­cendo o passado, enaltecendo o seu trabalho e finalidade. “A memória é o perfume da alma”.

LEMBRO-ME BEM, da Associação de Futebol, assinalar a passagem dos seus aniversários, com a realização de um torneio de futebol, para disputa de um troféu, ao qual era dado o nome de “Taça da A.F.P.D.” Normalmente, era convidado, para integrar a disputa do referido torneio, uma equipa de valor de uma  das outras ilhas. Uma sessão solene e um “jantar comemorativo” durante o qual era entregue aos clubes filiados (seis, na altura) o tão desejado “CHEQUE” relativo ao quinhão anual do TOTOBOLA, que lhe fora atribuído. Era um momento esperado e desejado com satisfação pelos clubes. Com aquela “migalha” resolvia-se muitas situações, tapava-se muitos “buracos”. Pagava-se os empréstimos aos “eternos carolas”!!

A  ENTREGA DO CITADO CHEQUE, ficava a cargo das Entidades Oficiais presentes (Governador Civil, Presidentes da Junta Geral e Câmara Municipal de Ponta Delgada, Delegado dos Desportos e Entidades Militares). Os dirigentes presentes em representação dos clubes, levavam, para a cerimónia, o seu “fato domingueiro”!!!

NÃO QUEREMOS RESSUSCITAR LÁZAROS, e fazê-los andar, de novo, no campo que foi seu e agora é de outros. Depois de uma prolongada ausência (sobre assuntos desportivos), dedicando o meu tempo e a minha fraca prosa, nesta reta final, a outros assuntos, este meu desabafo, pode cheirar a “bafio”, pode ser apenas apelidado de “doentio”. Sem desprezar os “novos tempos”, não devemos esquecer o “passado”. Por vezes, temos saudades de nós próprios!!

Memórias de tempos longínquos!!! Por vezes é bom … regressar “á lareira do passado”, porque, aconselha o bom senso, pensando no futuro, cuidando do passado!!

(conclusão)