A dor que nos sufoca

 

Todas as mortes são sofridas e dolorosas, mas umas mais do que outras por envolverem perdas de ente queridos que não voltaremos a ver, mais ainda quando se trata da morte de um filho, cuja dor é inimaginável. São mortes anti natura pelo que a dor e tristeza se trans­forma num calvário difícil de suportar, provavelmente por muitos anos dos seus familiares.Por estes dias, ocorreu a morte de duas jovens de 13 e 14 anos que terão sido colhidas pela deslocação dum comboio que circulava na linha férrea do Norte, no distrito de Coimbra. Além da rebeldia das jovens que se ausentaram da sua residência, sem autorização dos pais, e se desloca­ram a Coimbra, de comboio, transporte que nunca te­riam utilizado,  para, segundo testemunhos, se encontra­rem com um amigo, no regresso terão cometido enga­nos, próprios da inexperiência e depois se fizeram a caminho optando por circular ao lado da própria linha férrea, tendo então sido colhidas por um com bóio que circularia no mesmo sentido das jovens.

Notícias e factos destes, deixam qualquer cidadão afecta­do pela perda e “violência” que tal significa, mas também “revoltados” pela facilidade que crianças da­quela idade têm em ousar praticar actos de violação das regras familiares e educacionais e, em muitos casos, correrem riscos fatais. Aconteceu ali, mas poderia acon­tecer às portas duma qualquer discoteca, porque são muitos os jovens daquela idade que têm liberdade dos educadores para frequentarem locais impróprios para a sua idade e imaturidade. Depois, são os pais que se lamentam de terem perdido a “autoridade” para com os seus educandos, e sofrem ambos as consequências desse laxismo. Perdas irreparáveis e profundamente dolorosas.

Nesta manhã, e enquanto tomava a minha “bica”, voltei  a ler um jornal diário que continuava com o assunto, porque as desgraças “vendem jornais” e também cativam os expectadores das televisões, e  acabei assim por ficar ainda mais triste e revoltado com a morte daquelas duas crianças. Saí e entrei no carro e, nem a propósito, na rádio passava uma canção cuja letra versava a morte de um ente querido que, presumo fosse o pai do cantor, por atropela­mento citadino, imagine-se, por um carro da Policia que respondia a uma chamada de urgência. Não conhecia a canção mas fixei algumas partes da letra: “Tu partiste sem deixar mensagem; não tiveste tempo de comunicar. Ficou tão triste a paisagem; sinto um enorme vazio; resta-me arranjar coragem para vencer o frio.... Sem ti ninguém me transmite alegria....”.

O meu ânimo “afundou-se” ainda mais até porque na­quela viagem, duma dezena de quilómetros, a minha memória dirigiu-se para o meu pai e que a “má sorte”, dele e de nós (mãe e cinco irmãos menores),  não o deixou ser um pai por longo tempo e que tanta falta nos fez, não só como “ganhador do pão” que nos faltava, mas, acima de tudo , pelo seu papel de pai que não desempenhou e cuja falta sentimos na alma.

Estas três histórias de sofrimento e perda, deixaram-me profundamente triste, também  afectado pelo sofrimento de milhões de inocentes e que só um coração de gelo ou egoismo, muito alimentado pelos valores que imperam nas sociedades do “norte rico do Globo”. Neste frenezim  natalício, na qual muita gente anda atarefada no “faz de conta do amor, da felicidade, da amizade e da paz”, alguns sofrem e outros ficam cada vez mais vazios e depois acabam também por sofrer. “Aquele que nunca  sentiu tristeza, nunca reconhecerá a alegria.” – K.Gibran. Contudo: “Cuidado com a tristeza. Ela é um vício” – G. Flaubert; Dizem os especialistas e podemos confirmar nós, a tristeza só é  prejudicial à saúde se for patológica e persistente. De outro modo, todos nós temos períodos  de tristeza e isso faz parte da nossa condi­ção de humanos. Porque: “A vida não é triste. Tem horas tristes.” – R. Rolland. Nos casos das perdas aqui citadas e em mentes fortes: “A alma resiste muito mais facil­mente às mais vivas dores do que à tristeza prolongada.” –JJ. Rousseau. Difícil de ultrapassar são as situações de sensação de culpa ou remorsos como poderá acontecer em casos semelhantes aos familiares destas jovens que perderam a vida brutalmente numa situação de “trans­gressão” aos valores de educação e autoridade e responsa­bilidade dos educadores. Cedo os jovens começam a esticar a corda da autoridade dos educadores, mas quando é de mais, estatelam-se sem amparo. Infeliz­mente  e sem saudosismos do passado modelo autoritá­rio, a corda está muito esticada no actual estado da educação das nossas crianças e jovens.