Para Que Servem as Tempestades?

 

Um jovem caminhava num bosque, com o seu pai e foram surpreendidos por uma tempestade. Abrigados, como puderam, ficaram em silêncio meditativo, observando a força da natureza.

- Pai, para que servem as tempestades?

Surpreendido pela pergunta do filho, o pai demorou algum tempo a responder, pois a questão era profunda e ele nunca tinha pensado nisso.

 - Servem para testar a resistência, a coragem e a força dos homens. Servem também para purificar e renovar a natureza, pois também nela só os mais fortes resistem. Já pensaste que o vento abana as árvores para que se libertem das folhas e dos ramos mortos?

 - Uhm....

 - No que diz respeito aos humanos, alguns resistem e ficam mais fortes, mas outros deixam-se abater e ficam revoltados contra todos e contra a própria mãe natureza.

E o silêncio voltou à “gruta”, só quebrado pelo barulho do vento e das árvores que iam caindo, porque estavam frágeis e não resistiam à “lei” e força da natureza.

Com a bonança, o pai retomou.

- Sabes filho, a natureza, não se queixa do mal que lhe fazemos. Vinga-se e zanga-se connosco, quando a agre­dimos. A natureza, ralha connosco, quando lhe fazemos mal.

As tempestades são a expressão mais violenta que a natureza utiliza para nos castigar das nossas agressões para com ela. E, sabes, tem muitas formas de o fazer e, infe­lizmente, cada vez com mais frequência. Por vezes, os humanos ficam impotentes de lutarem contra a sua força e só lhes resta esperaram que a fúria acabe.

Este pensamento ocorreu-me, num meu despertar, talvez porque no meu subconsciente se tenha albergado algum facto recente que testou a minha inteligência emo­cional e também porque têm ocorrido muitas situações de calamidades, algumas por negligência humana, com muitas vidas humanas perdidas. Incêndios, quedas de árvores mortíferas, tufões, destruição da natureza, etc.

Contudo, e involuntariamente, a minha memória re­cuou cerca de sessenta anos e trouxe-me, qual filme vivo e nítido, um episódio da minha infância rural. Era Agosto, mês de trovoadas frequentes e, naquele fim de dia, a minha mãe, eu, com nove ou dez anos de idade, e o meu irmão mais velho dois anos, (os outros três mais novos ficaram na aldeia entregues a si próprios - cada um a guardar o outro abaixo) apanhávamos feijoeiros secos, antes que a trovoada descarregasse uma bátega de chuva e os estragasse.

-  Filho, pega neste molho e põe-te a caminho, antes que comece a chover, pois vem aí uma forte trovoada que eu e o teu irmão ainda ficamos mais um pouco.

Mas a trovoada e a chuva apanharam-me a meio do caminho e não hesitei em me abrigar numa casa-palheiro ali mesmo ao lado do caminho para a aldeia. Entrei, molho dos feijoeiros para o chão, e deitei o meu corpito cansado na palha de centeio e, indiferente aos trovões e relâmpagos, adormeci que nem um anjo, talvez protegido por Santa Bárbara, não fosse ali cair um raio.

Já a tarde tinha caído, andava meia aldeia à minha procura e acabaram por me assustar e interromper o meu sono profundo, aconchegado na palha de centeio ali guardada, ao abrirem a porta da casota.

Ainda “dorminhoco” e meio estranho com o opúsculo e o cheiro a terra molhada, senti-me herói por minutos, apesar de por ali não haver raptores de crianças, mesmo que as destinassem à escravatura ou a serem vendidas em feiras pelos ciganos, assim nos iam assustando, que nómadas, porque a lei da época não lhes permitia “sedentarizar” nos povoados, percorriam as aldeias à procura de meios de subsistência, ora pedindo, ora negociando ou roubando os parcos meios de subsistên­cia, de gentio ainda mais pobre do que os aldeões.

As trovoadas, na minha aldeia beirã, em terras de Viriato, eram um espectáculo único, porque o palco também o era. Belo e assustador, punham em sentido os mais corajosos, que se refugiavam nas preces a Santa Bárbara (só nos lembramos de Santa Bárbara, quando troveja - provérbio popular que significa que só perante o perigo nos lembramos da prevenção/precaução). As tempestades, podem moldar-nos com uma estrutura física e mental de aço, por fora, mas de extrema sensi­bilidade interior, porque elas nos trazem mensagens que só passam despercebidas aos insensíveis. Por vezes, são acompanhadas de dor, para nós e para outros que, acobardados, tentam mostrar-se fortes, mais por medo, porque são mais frágeis do que mostram. Outros, esses cobardes, sacodem as suas responsabilidades. Nos incên­dios florestais, o horror e a incompetência e a negligencia repete-se anos após ano e não aprendemos nada. A me­mória pelo mortos deste Verão merece que se atalhe caminho no combate a uma “tempestade” que não esco­lhe vítimas inocentes.

Para que servem as tempestades? Também para apren­dermos com elas, quase sempre com elevadas perdas materiais, financeiras e HUMANAS.